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terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Nossa primeira revolta camponesa às vésperas do Natal de 1856...



Há exatos 168 anos, mais precisamente em 24 de dezembro de 1856, imigrantes europeus no então Império brasileiro, que haviam se estabelecido como trabalhadores rurais neste país, lutaram na Revolta de Ibicaba

Também chamada "Revolta dos Parceiros" ou "Revolta dos Imigrantes", a rebelião dos trabalhadores estrangeiros ocorreu na Fazenda Ibicaba, em Limeira, na então Província de São Paulo, às vésperas do Natal, contra a exploração do trabalho pelos senhores brasileiros, os quais haviam optado pelo sistema de parcerias em substituição à escravidão. Já adaptados à exploração do trabalho escravo, os senhores de engenho brasileiros reproduziam o comportamento autoritário com o trabalhador, tentando lhes extrair o máximo, em uma situação que lembrava o trabalho escravo. 

Diante disso, os imigrantes da principal propriedade do senador Vergueiro, a Fazenda Ibicaba, se revoltaram, sob a orientação de Thomas Davatz, um líder religioso suíço, que fez crescer naqueles trabalhadores a ambição de se tornarem pequenos ou médios proprietários, como imaginavam ser quando deixaram a Europa. 

A revolta ganharia grande repercussão, forçando o Império do Brasil a rever as relações trabalhistas. Porém, mudanças individuais, como a qualidade de vida direta daqueles imigrantes ou o direito a uma propriedade, entretanto, não ocorreram. 

Coletivamente, a revolta atuou para uma grande mobilização a fim de regularizar o trabalho nos engenhos. E, internacionalmente, o evento também repercutiu a ponto da Prússia ter proibido a emigração de trabalhadores para o Brasil enquanto a Suíça mandou um inspetor daquele país para analisar a real situação dos imigrantes, o qual retornou à Europa com a saúde frágil. 

Davatz tentou publicar o relato sobre a revolta em seu ensaio "O tratamento dos colonos na Província de São Paulo no Brasil e seu levante contra os seus opressores" tendo sido o livro publicado no país em 1951, sob o título "Memórias de um colono no Brasil", de tradução de Sérgio Buarque de Holanda. Antes, contudo, em 1933, Mário de Andrade havia selecionado o relato como uma das vinte obras fundamentais sobre o Brasil, por se tratar do "primeiro livro especificamente de luta de classes e reivindicações proletárias no Brasil".

Apesar de ser pouco contado, talvez por sua coincidência com as comemorações natalinas, esse episódio da história brasileira pode ser considerada a nossa primeira revolta camponesa contra a exploração do trabalho assalariado.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Anúncio de vitória após uma angustiosa caminhada de dois meses

"Entrega o teu caminho ao SENHOR; confia nele, e ele o fará." (Salmos 37:5)

Incrível, mas eu demorei mais de um mês e meio (uns cinquenta dias) para mudar-me de vez do bairro Grajaú, na cidade do Rio de Janeiro, para Muriqui, 4º distrito do município de Mangaratiba. Só que devemos compreender e aceitar que as coisas ocorrem no tempo de Deus.

Foi no final de junho, após ter sido encontrado pelos bombeiros nas matas do Parque Nacional da Tijuca (ver artigo de 28/06), que eu e Núbia concordamos em nos mudar. Eu já gostava mais daqui do que do Rio por causa da tranquilidade, do espaço amplo da residência, do fato da habitação ser uma casa e não um apertamento, haver um quintal nos fundos para plantar, ter um jardim na frente, a proximidade de três quarteirões com a praia, uma maravilhosa vista com montanhas e ilhas cheias de verde, ar puro, dentre outros benefícios. Então, naqueles dias em que andei perdido pela floresta, já contando com a possibilidade de morrer por lá, refleti sobre qual rumo daria na vida caso ganhasse de Deus uma nova chance. E, quando fui resgatado, decidi viver da melhor maneira possível valorizando as bênçãos recebidas do Pai Celestial na breve existência que o homem tem sobre a Terra.

Em 01º/07, viemos todos para cá carregando apenas umas poucas coisas e a gata Sofia na sua gaiola. Fiquei por uns dias na nova residência e retornei sozinho para o Rio na data da independência dos EUA (04/07) afim de começar a arrumar as coisas, pagar as contas do mês e colocar o imóvel do Grajaú para alugar. E, quando foi na manhã de 07/07, resolvi passar o meu descanso sabático ao lado da esposa ao invés de permanecer sozinho lá no fim de semana.

Infelizmente, quando cheguei aquele dia na nova casa, tive surpresas desagradáveis. Núbia não estava bem. Passei o fim de tarde com ela no posto de saúde de Muriqui e fomos orientados pela médica de plantão para buscarmos tratamento pela rede de seu plano. Dessa vez não tinha mais jeito. Com reincidentes problemas, foi preciso internar minha esposa numa clínica com especialidade no seu problema.

Tive de interromper os preparativos da mudança naquela segunda semana de julho. Minha atenção ficou voltada para conseguir vaga de internação pelo plano de Núbia – o Unimed Rio Personal, cuja abrangência é propositalmente menor do que a do Alfa de modo que nem todos os médicos e estabelecimentos aceitam. Fomos na própria segunda-feira (09/07) pegar o encaminhamento para hospitalização com a sua médica Dra. Amália, na Tijuca, e dali seguimos até o posto de atendimento da operadora na Rua do Ouvidor, no Centro da Cidade Maravilhosa. Só que, ao chegarmos lá, a funcionária da Unimed confirmou não haver vagas, informação esta que eu já havia também levantado junto à única clínica especializada da rede credenciada. Por isso, teríamos que aguardar indefinidamente e eu ainda ficar preso em casa o tempo todo cuidando da esposa numa situação bem crítica.

Entretanto, não permaneci refém da situação. Abri logo uma reclamação junto ao SAC da Unimed em nome de Núbia, alegando ser uma obrigação da operadora, nestes casos, pagar até um outro hospital fora da sua rede de convênios afim de que o paciente não fique sem receber tratamento. Liguei quase que diariamente para a clínica e me dirigi junto com minha esposa à Defensoria Pública, no bairro vizinho de Vila Isabel, para processarmos o plano de saúde (mesmo eu sendo um advogado não me achava em condições de ir ao Fórum para distribuir uma ação e acompanhar o processo). Porém, a defensora não considerou suficientes os termos do encaminhamento assinado pela médica para que a Justiça concedesse a tutela antecipada visto que não estava explicitada a urgência de internação no documento. Aí tivemos que retornar ao consultório, pressionar a Dra. Amália e solicitar um novo papel, o que fizemos em 11/07.

Felizmente, não precisamos processar ninguém. A médica de Núbia já conhecia o dono da clínica especializada e ligou para ele falando em nossa frente pelo telefone. No dia seguinte (12/07), após eu ter entrado em contato mais uma vez com o hospital, retornaram-me ainda na manhã informando que já poderia trazer a minha mulher para lá. Foi um grande alívio sair daquela desagradável situação de incerteza.

Se por um lado tranquilizou-me o fato de Núbia ter obtido internação para tratamento, também entristeceu-me a ausência dela dormindo e acordando ao meu lado todos os dias. Passei a poder vê-la somente nas quatro oportunidades de visita por semana permitidas pela clínica e, ao mesmo tempo, fui preparando a nossa mudança para Mangaratiba. Todas as terças, quintas, sábados e domingos, eu fazia o cansativo percurso do Grajaú até Piedade, quase sempre dependendo dos precários serviços da viação Caprichosa nas linhas 638 e 639, cujos motoristas nem sempre gostam de parar para os passageiros nos pontos de ônibus ali na avenida Barão do Bom Retiro.

Uma das coisas que comecei a fazer naqueles dias foi restaurar a cozinha do apartamento no Rio cujo teto estava parcialmente preto por causa de uma panela de pressão que explodira quando minha avó paterna de 89 anos era viva e ainda morava ali no ano de 2011. A pintura foi feita no dia 19/07 estando eu com os pertences praticamente encaixotados para a mudança. E, em 20/07, vim junto com o caminhão fretado trazendo a bagulhada toda para a nova casa, tendo cometido a burrice de não levar o armário velho de dez portas naquela ocasião por querer economizar dinheiro. Quando os funcionários da transportadora terminaram de descarregar a mobília, retornei com eles para o Rio de Janeiro afim de continuar minhas tarefas trazendo comigo um colchonete para continuar dormindo no apartamento agora quase vazio.

Por indicação da síndica do prédio, procurei um advogado que já administrava duas unidades no condomínio e agendei uma visita dele. Ouvi atento as orientações do Dr. João sobre a importância de reformar todo o imóvel antes de alugar já que uma boa pintura com cores claras não só valorizaria a locação como também me pouparia problemas quando o inquilino viesse entregar as chaves no término do contrato. Liguei então rapidamente para o mesmo profissional que havia já emassado e pintado as paredes da cozinha e lhe pedi um orçamento.

Atualmente, os valores de mão-de-obra de um pedreiro ou pintor no Rio de Janeiro andam bem altos, algo em torno de uns R$ 180,00 ao dia. Seu Zezinho entregou-me o seu primeiro orçamento em mais de R$ 3.000,00. Chorei o preço e ele baixou para R$ 2.800,00 tudo (a mão-de-obra e o material) para por massa na área social do imóvel e pintar todos os cômodos. Precisei fazer um empréstimo consignado no ITAÚ de quase dois contos em nome de Núbia, aproveitando o fato de ela ser beneficiária do INSS por invalidez e conseguindo a compreensão da gerente de sua conta, a qual permitiu que eu levasse os papéis para ela assinar no hospital.

A obra iniciou-se no dia 01º/08 e terminou no dia 15 conforme previsto na contratação. Dormi todos aqueles dias no apartamento junto com a poeira e o cheiro de tinta. Também aproveitava as oportunidades de visita para não deixar de estar com a esposa. Pela manhã, eu tomava café com minha mãe em sua casa de vila no Grajaú (fica num quarteirão vizinho ao do apartamento) e quase sempre também almoçava lá. Vez ou outra, fazia refeições perto da clínica num restaurante simples bem ali perto onde o prato de comida custava-me R$ 7,99.

Os dias passaram, o apartamento ficou lindo e, após ter tratado novamente com o Dr. João, dei a ele uma procuração e assinei o contrato de administração do imóvel. Esvaziei as poucas coisas que ainda restavam no local (o tal armário eu acabei trazendo durante a obra na primeira quinzena do mês de agosto pagando salgados R$ 450,00 para transportá-lo e montar só a parte de baixo mais uns R$ 40,00 para outra pessoa colocar as cinco portas de cima). Precisei negociar uns pisos e azulejos numa loja de varejo a preço de banana afim de não ficar nada entulhando a área de serviço. Deixei umas roupas sujas e dois colchonetes em casa de minha mãe e vim para cá em 21/09. Cheguei em Muriqui de noite após ter visitado Núbia naquele mesmo dia na clínica.

Confesso que me sinto só muitas das vezes sem a companhia da esposa por aqui. Na manhã do dia 22/08, eu me encontrava um tanto deprimido enquanto caminhava pela praia. Mesmo olhando para as montanhas e as ilhas que compõem o cenário da bela baía de Sepetiba, quase não conseguia desfrutar com satisfação de todo aquele ambiente feito pelo Criador. E o sentimento triste ao menos serviu para inspirar-me na postagem anterior do blogue.

Graças a Deus, tenho conseguido reanimar-me. No último final de semana de agosto, trouxe Núbia de licença médica para estar com a família e retornei com ela para a clínica no domingo passando mal. Porém, tomei a decisão em procurar logo os meus irmãos em Cristo por aqui perto (tem uma igreja Batista bem em minha rua) e assim retomar o bom costume de congregar conforme orientam as Escrituras em Hebreus 10:25. Deixei de lado a vaidade de querer iniciar um ministério independente como se fosse dono da razão e sem ter antes a cobertura da Igreja, pelo que resolvi buscar a companhia de irmãos sem me prender a questões doutrinárias ou teológicas. Entendi ser mais valioso o acolhimento, o amor fraternal e a lição duramente ensinada com a experiência tida no Parque Nacional da Tijuca de que não devemos andar sozinhos pelas trilhas da vida.

Quando foi nesta última sexta do mês (31/08), Deus preparou-me uma ótima surpresa. Naquele dia, estando aflitamente preocupado com a minha vida financeira, cheguei a comentar com a sogra sobre a diferença que faria no orçamento doméstico se o apartamento do Rio fosse logo alugado. Pensei nos gastos do mês de setembro que viriam e senti-me angustiado com o fato de não ter dinheiro suficiente para pagar todas as contas a vencer. Tomei meu banho à tarde, agasalhei-me e, quando foi lá pelas 17 horas, resolvi sentar no sofá da sala e ler a Bíblia preparando o coração para a adoração no culto duas horas depois. Resolvi desligar-me dos problemas e me direcionar desde então para louvar o SENHOR. Aí, quando o relógio estava quase dando 18 horas, o telefone tocou. Era o Dr. João noticiando que tinha alugado o imóvel e que, a partir de outubro, o inquilino começaria a pagar o mês vencido.

Fiquei muito feliz com aquela ligação e, principalmente, por ter mais uma confirmação de que Deus nunca desampara os seus filhos deixando-os perecer sem nenhum propósito. Assim como fui milagrosamente ajudado em momentos passados, quando o dinheiro chegou no tempo certo em minhas mãos, eis que, desta vez, não foi diferente. O Eterno provou o seu amor, sua graça, provisão e fidelidade para comigo. E, por mais que eu ainda atravesse mares de luta, o Pai Celestial não me abandona, manifestando a sua bendita Presença nas coisas mais simples da vida. A Ele seja dada toda honra, glória, poder e louvor para sempre em nome de Jesus. Aleluia!


"Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal." (Mateus 6:25-34)

domingo, 13 de novembro de 2011

"Se Deus está conosco, por que tanto sofrimento?"

Certamente você já se deparou com pessoas formulando abertamente tais perguntas e até mesmo possa ter se questionado e jamais exposto aquilo que pensou. Mas saiba que, milênios antes dos ateus da era contemporânea fazerem indagações deste tipo, a Bíblia relata que um homem chamado Gideão teve a coragem de jogar este sentimento na cara do Anjo do SENHOR.

"Respondeu-lhe Gideão: Ai, senhor meu! Se o SENHOR é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram dizendo: Não nos fez o SENHOR subir do Egito? Porém, agora, o SENHOR nos desamparou e nos entregou nas mãos dos midianitas." (Juízes 6.13; ARA)

Em outras traduções do Texto Massorético, estas mesmas palavras atribuídas a Gideão mostram-se ainda mais rudes do que na versão revista e atualizada de João Ferreira de Almeida:

"e Guidon disse-lhe: 'Por favor, meu senhor, se o Eterno está conosco, por que nos sobreveio tudo isto? Onde estão todos os Seus milagres, que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o Eterno subir do Egito? Pois agora o Eterno nos abandonou e nos deu na mão dos midianitas'" (Sêfer)

"Gedeão lhe respondeu: "Eu te peço, meu Senhor! Se Iahweh está conosco, donde vem tudo quanto nos acontece? Onde estão todos os prodígios que os nossos pais nos contavam dizendo: 'Não nos fez Iahweh subir do Egito?' E agora Iahweh nos abandonou e nos deixou cair sob o poder de Madiã..." (Bíblia de Jerusalém)

Embora o Anjo do SENHOR não responda a Gideão, a resposta parece ter sido dada pelo redator de Juízes nos versos de 7 a 10 do capítulo 6. De acordo com a narrativa bíblica, os israelitas tinham se afastado de Deus e, por consequência da prática de coisas más "aos olhos" do Eterno, passaram a ser subjugados pelos midianitas e outros povos nômades que pareciam viver do saque das nações sedentarizadas.

Dentro do contexto religioso dos povos sedentários do antigo Oriente Próximo, os quais viviam da agropecuária, havia o costume idolátrico de cultuar Baal. Debaixo de árvores consideradas sagradas, como o carvalho onde o Anjo do SENHOR apareceu a Gideão, eram oferecidos sacrifícios para as divindades cananeias na vã expectativa de se obter resultados melhores nas próximas colheitas.

Além disso, a narrativa relata que a opressão dos midianitas, embora tenha durado sete anos, parece ter sido mais dura que as anteriores. Tanto é que, temendo os seus adversários, os israelitas precisavam esconder nas grutas os estoques de alimentos para não serem totalmente roubados pelos adversários. E ninguém ousava tomar uma providência prática, de modo que as tribos de Israel andavam desunidas e cada vez mais se alienando dentro da emburrecida adoração baalista.

Ora, a pior opressão não é aquela que está fora de nós, mas sim dentro. E, neste caso, Gideão foi um homem inconformado com a realidade em que vivia. Ele, sendo pobre e explorado pelos estrangeiros em sua própria terra, demonstrou não gostar muito daquela conversinha mole dos religiosos e foi até capaz de duvidar da aparição sobrenatural do Anjo do SENHOR, considerada como uma teofania por muitos teólogos.

Num interessante paralelo com Moisés, Gideão é convocado para uma missão humanamente impossível. De modo algum ele é censurado por Deus por agir com sua maneira rude de manifestar as suas dúvidas quanto à Divina Providência. E, em todas as vezes que fala com o Eterno, o maior dos juízes de Israel é encorajado a lutar numa guerra santa contra os inimigos do seu povo:

"Então, se virou o SENHOR para ele e disse: Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura não te enviei eu?" (Jz 6.14; ARA)

Num precioso relacionamento de intimidade entre Gideão e Deus, um coloca o outro a prova. Depois de pedir o sinal do velo e o orvalho, afim de que a sua missão fosse autenticada por um milagre (Jz 6.36-40), Deus então reduz o número do exército de Gideão para atacar o inimigo com tão somente 300 homens (Jz 7.1-8). E o êxito de sua campanha militar ocorre de maneira surpreendente. Depois que Gideão soube do temor infundido no adversário (Jz 7.9-15), os midianitas foram vencidos sem que ocorresse a princípio nenhum combate físico, pelo que foram tomados pelo pânico do Deus de Israel (Jz 7.19-22).

Por mais que um relato sobre guerra santa venha chocar a moral de um leitor do século XXI, não se pode ignorar a essência espiritual que se encontra ali. A Bíblia é um ótimo livro para expor com riqueza de detalhes o comportamento humano, sem nada a esconder sobre as falhas de caráter de seus personagens, mesmo em relação aos líderes de Israel. E, por sua vez, a guerra santa, necessária para a sobrevivência dos povos antigos, torna-se hoje uma ilustração da batalha que travamos dentro de nós mesmos e nos nossos relacionamentos com a sociedade em busca da justiça.

Pode-se dizer que a realização da justiça é algo inseparável do Reino de Deus, a respeito do qual Jesus muito pregou. E o estabelecimento deste Reino se faz tanto através da intervenção milagrosa de Deus como também guarda uma relação com o agir do seu povo aqui na Terra, executando-se através de nós a missão apostólica de anunciar ao mundo as boas novas da graça. Se bem que a vinda dessa nova realidade não vem com aparência exterior e já foi começada há muito tempo (Lucas 17.20-21).

Certamente que, nesta luta sagrada contra o mal, Deus não quer que sejamos covardia. Mesmo dentro do refinamento ético que a evolução dos tempos nos impõe, afim de nos abstermos atualmente de qualquer tipo de derramamento de sangue, é preciso ter a mesma disposição de Gideão para enfrentarmos os problemas pessoais e da coletividade.

Como podemos ler nos capítulos 6, 7 e 8 de Juízes, Gideão evoluiu em relação ao argumento de que a nação de Israel tinha sido abandonada por Deus. Após libertar-se interiormente do ópio da idolatria religiosa, ele partiu para o enfrentamento da realidade e mobilizou a sua comunidade para enfrentar os invasores.

Igualmente, também precisamos da mesma atitude de Gideão. Temos que romper com o viciante conformismo no qual o Brasil hoje se encontra, "deitado eternamente em berço esplêndido". Pois, afinal, conforme está lá em Mateus 11.12, o Reino "é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele" (ARA). Ou, numa versão sem eufemismo, o Reino "é assaltado com violência; são violentos os que o arrebatam" (TEB).


OBS: A ilustração acima refere-se à pintura do artista sacro holandês Maarten van Heemskerck que viveu entre 1498 e outubro 1574. O quadro, pintado por volta de 1550, retrata o personagem bíblico Gideão agradecendo a Deus pelo milagre do orvalho (passagem de Juízes 6.36-40) e se encontra no Museu de Belas Artes de Estrasburgo, localizado na Alsácia francesa. Já a imagem à esquerda cuida-se de um auto-retrato que, originalmente, foi pintado junto com o Coliseu. Maarten van Heemskerck ficou conhecido por suas representações das Sete Maravilhas do Mundo, tendo sido ele filho de uma família de pequenos agricultores em Heemskerk, norte da Holanda.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O cuidado de Deus nas nossas pequenas coisas


Olá!

Gostaria inicialmente de expor aqui algo que compartilhei há pouco no blogue Vivendo em Cristo, ao comentar o artigo "A FÉ EXPLICA", dando um breve testemunho sobre como Deus cuida de nós até nas pequenas coisas.


"(...) Certa vez, perdi uma agenda quando voltava do Fórum (sou advogado) e nela tinha datas de várias audiências, compromissos, telefones de clientes, números de processos, etc. Fiquei em pânico quando soube daquela perda e então lembrei-me de orar. Instantes depois, estando mais calmo, consegui me recordar sobre onde poderia ter ocorrido a perda e aí lembrei que havia parado num telefone público para fazer uma ligação (há alguns anos atrás ainda se usavam os orelhões com maior frequência). Então, ainda naquele dia, fui caminhando até o local que fica em frente a um supermercado e aí tive a iniciativa de perguntar a um camelô que costuma vender suas mercadorias ali por perto. Pois bem. Aquele camelô era um irmão em Cristo de outra igreja e ele havia guardado aquela agenda para mim, mesmo sem saber quem seria o dono. Naquele dia, posso dizer que fiquei super feliz até porque eu vivia momentos de grande ansiedade e tensão quanto ao meu trabalho. Talvez para outra pessoa, aquele incidente nem representasse tanto porque muito não se importariam em comprar uma agenda nova e preenchê-la. Mas eu sou muito preso aos compromissos que assumo (acho que até demais) e me senti bastante aliviado pelo achado. Então, agradeci muito a Deus."
Postado originalmente em: http://davidguiomar.blogspot.com/2011/02/fe-explica.html


Na Bíblia, Jesus nos diz que não devemos andar preocupados pelo que haveremos de comer ou beber, e nem pelo que precisamos vestir. É justamente no Sermão da Montanha que o Senhor nos convida refletir com a seguinte indagação:

"Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?" (Mateus 6.27; Nova Versão Internacional - NVI)

Dentro da mesma pregação, Jesus cita as aves do céu que não se preocupam em semear, colher ou armazenar alimentos nos celeiros, mas que recebem os cuidados necessários de Deus. E, quanto ao vestuário, Ele nos manda observar os lírios do campo e diz que nem o rei Salomão, com toda a sua majestade, teria se vestido como uma dessas plantas do mato.

"Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?" (Mt 6.30; NVI)

Meus leitores, tenho vivido dias bem difíceis nos últimos meses, os quais nem se comparam com as preocupações da época em que perdi a agenda nos primeiros anos em que comecei a advogar.

Venho acompanhando minha esposa numa batalha pela sua saúde. Dentre vários problemas, ela vem sofrendo de dores reumáticas nos joelhos e no abdômen (certamente relacionadas aos cálculos na vesícula). Sobre o problema nos joelhos, até que ela vem melhorando, mas, em 2010, Núbia ficou por um bom tempo incapacitada e com enormes dificuldades para andar. Seu peso estava muito acima da média e a má alimentação comprometia bastante a saúde. Acabei pagando um plano da Unimed só para ela porque depender do SUS estava inviável e dinheiro para custear exames e consultas particulares muito menos.

Felizmente, levei-a a uma boa reumatologista que chegou a um diagnóstico clínico de lúpus com base nos sintomas apresentados de modo que passou a tratá-la com o medicamente Reuquinol (cloroquina) mais anti-inflamatórios, juntamente com duas sessões semanais de fisioterapia e orientação nutricional de outra especialista. Então, minha esposa foi melhorando das dores nos joelhos, agora já está andando melhor e, após ter se firmado numa dieta, a partir do final do ano, perdeu bastante peso.

Entretanto, ultimamente, ela vem padecendo muito com as dores abdominais que, segundo os médicos, decorrem dos cálculos na vesícula, a qual precisa ser extraída, havendo indicação cirúrgica desde 2009. Mas aí tivemos que enfrentar um teste de fé quando assinamos o contrato com a Unimed. Pelas normas da Agência Nacional de Saúde (ANS), são apenas 06 meses de carência para cirurgias e 03 para planos de adesão coletiva. Porém, no caso de doenças pré-existentes, o beneficiário só tem direito a uma cobertura parcial temporária por dois anos e só depois é que poderá fazer sua operação.

Pois bem. Tivemos que ter fé para não omitir aquela informação da Unimed (um dos motivos que nos levou a procurar o plano). Só neste ano de 2011, foram três idas ao pronto-atendimento hospitalar, tendo sido duas no Hospital de Campanha do Corpo de Bombeiros, montado durante os dias subsequentes à tragédia das chuvas na Região Serrana, e uma no Hospital da Unimed de Nova Friburgo (HUNF), onde só havia um único plantonista na madrugada da sexta-feira da semana anterior (04/02).

Confesso que pensamos em operar pelo SUS em outros locais públicos fora de Nova Friburgo onde a extração da vesícula é feita com laparoscopia, visto que o nosso Hospital Municipal Raul Sertã ainda não dispõe desta tecnologia e há riscos de infecções, bem como danos em relação à estética causada pela enorme cicatriz deixada por uma retrógrada cirurgia aberta.

Ainda assim, tenho buscado motivos para agradecer ao Eterno pelo que Ele tem feito em minha vida e por minha esposa. Sei que somos agraciados, mas não estamos isentos de lutas ou provações. Com isto, busco manter minha confiança em Deus, mas, ao mesmo tempo, não quero deixar de procurar os meios cabíveis para solucionar estes problemas de saúde de Núbia (hoje mesmo fomos conversar com um médico cirurgião que já prescreveu alguns exames e logo depois consultamos um neurologista porque ela vem se queixando de tonteiras). E, nestes dias de grande aflição, o que desejo é viver cada momento na sua vez e não me esqueço desta passagem do Evangelho que diz:

"Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal". (Mt 6.33-34; NVI)

Termino esta mensagem pedindo aos amigos que orem por nós. Afinal, somos humanos, sujeitos a problemas, provações e tentações. Nenhum seguidor de Jesus está livre das aflições deste tempo e não acredito na falsa ideia de existam super crentes imunes a tropeços, falhas ou dificuldades.