O ventilador não girava.
Ele vibrava.
Um zumbido constante preenchia a sala, enquanto o ar — pesado e morno — era empurrado por dutos no teto. Não havia janelas abertas. Não mais.
— Ajustem os filtros, por favor — disse a professora Helena, sem levantar a voz.
No painel, um alerta piscava: “Índice de poeira externa: crítico”.
Lucas ajeitou a máscara leve sobre o rosto e olhou para o lado. Miguel desenhava no tablet uma linha ondulada que subia e descia.
— O que é isso? — sussurrou Lucas.
— Chuva — respondeu Miguel, sem tirar os olhos da tela. — Minha avó diz que antes ela vinha na hora certa.
Lucas franziu a testa.
— “Hora certa”?
Antes que pudesse perguntar mais, a professora bateu levemente na mesa. Um mapa do planeta surgiu no ar — um holograma azul, cortado por correntes luminosas.
— Hoje — começou ela — vamos falar sobre algo que vocês sentem todos os dias… mas que quase ninguém mais vê.
Ela apontou para o oceano Atlântico.
— A , ou AMOC.
As linhas no holograma começaram a se mover lentamente, como um coração pulsando.
— Há cem anos — continuou — essa corrente funcionava como uma esteira. Levava calor dos trópicos para o norte e ajudava a organizar o clima do planeta.
Lucas levantou a mão.
— Professora… isso quer dizer que… o clima tinha “organização”?
Alguns alunos riram.
Mas ela não.
— Tinha padrão — respondeu. — Não era perfeito. Mas era previsível.
Ela fez um gesto, e o holograma se dividiu em dois.
À esquerda: o planeta de 2000.
À direita: o de 2100.
No primeiro, manchas verdes e azuis pulsavam suavemente.
No segundo, cores mais intensas: vermelhos, cinzas, amarelos.
Lucas inclinou o corpo para frente.
— E agora?
A professora hesitou por um segundo — como se medisse o peso da resposta.
— Agora… — ela respirou — o sistema perdeu parte da sua estabilidade.
Miguel levantou a cabeça.
— Por causa da AMOC?
— Em parte — respondeu ela. — O enfraquecimento dela foi como tirar uma engrenagem importante. Não parou tudo de uma vez… mas começou a desorganizar o conjunto.
O mapa mudou.
O Brasil apareceu ampliado.
Lucas assentiu devagar.
— Meu pai fala que antes a energia vinha da água… dos rios.
— E ainda vem — disse a professora. — Mas os rios já não se comportam como antes.
Ela tocou o painel, e um gráfico surgiu.
Linhas irregulares, picos e quedas abruptas.
— Antes, os reservatórios enchiam e esvaziavam com certa previsibilidade. Hoje… temos anos de excesso e anos de escassez extrema.
— Tipo o ano passado? — perguntou uma aluna no fundo.
— Exatamente.
Silêncio.
Lucas olhou de novo para o primeiro mapa — o antigo.
Havia algo estranho nele.
Calmo demais.
— Professora… — ele falou, hesitante — as pessoas sabiam que isso podia acontecer?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Ela não respondeu imediatamente.
Em vez disso, ampliou o Atlântico Norte no holograma.
As correntes, antes contínuas, agora apareciam fragmentadas.
— Sabiam — disse por fim. — Mas havia incerteza sobre quando… e como.
— E não fizeram nada?
— Fizeram algumas coisas. Reduziram emissões, desenvolveram tecnologias, mudaram matrizes energéticas…
Ela pausou.
— Mas o sistema climático não responde apenas ao que fazemos no presente. Ele carrega o passado por décadas.
Lucas ficou em silêncio.
Miguel parou de desenhar.
— Então… — Lucas continuou — o que a gente vive hoje… começou lá atrás?
— Sim.
A professora então mudou o holograma mais uma vez.
Desta vez, não era o planeta.
Era uma sala de estar antiga.
Uma família ao redor de uma mesa, com contas espalhadas.
Um celular.
Um ventilador comum, parado.
— Isso aqui — disse ela — é de cerca de 2025.
Lucas se inclinou ainda mais.
— Parece… mais simples.
— Era mais previsível — corrigiu ela.
— Melhor?
Ela sorriu, mas havia cansaço no gesto.
— Diferente.
O alarme no teto emitiu um som breve.
“Temperatura externa: 41°C. Atividade externa suspensa.”
Ninguém reagiu.
Era rotina.
Lucas voltou a olhar para o mapa antigo.
— Professora… — disse ele, quase em um sussurro — se eles sabiam… e mesmo assim aconteceu…
Ela caminhou até o centro da sala.
Desligou o holograma.
Por um instante, só restou o zumbido do ar.
— A história não é feita só de saber — respondeu. — É feita de tempo, escolhas… e limites.
Ela olhou para a turma inteira.
— E é por isso que vocês estão aqui.
Miguel levantou o tablet.
A linha ondulada ainda estava lá.
— Professora… — disse ele — como era mesmo o nome disso?
Ela olhou para o desenho.
Sorriu de leve.
— Chuva.
E, pela primeira vez na aula, ninguém riu.

O conto é bastante interessante. Mostra o que éramos e a que ponto poderemos chegar. Por isso é importante estarmos atentos. Parabéns pela excelência do texto!
ResponderExcluirMuito obrigado pela leitura e pelo comentário. As gerações futuras certamente vão avaliar o nosso presente em que a insanidade ainda parece predominar entre as autoridades
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