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sábado, 15 de agosto de 2026

Eleições 2026: um resumo cidadão do plano de governo de André Marinho



Em período eleitoral, os planos de governo não deveriam permanecer escondidos nos sistemas da Justiça Eleitoral ou ser tratados apenas como documentos burocráticos exigidos para o registro das candidaturas. Eles podem — e deveriam — servir como instrumentos para que o eleitor conheça as propostas, compreenda as prioridades de cada candidatura e, posteriormente, possa cobrar os compromissos assumidos.

É com esse propósito que venho fazendo uma leitura cidadã dos programas apresentados pelos candidatos ao Governo do Estado do Rio de Janeiro nas eleições de 2026. A ideia deste artigo não é dizer ao eleitor em quem votar nem transformar a análise em propaganda ou oposição a qualquer candidatura. O objetivo é mais simples: tentar traduzir documentos extensos, destacar propostas relevantes e apontar aquilo que ainda precisa ser esclarecido durante a campanha.

Desta vez, examinamos a Agenda de Governo André Marinho 2027–2030, apresentada pelo candidato do Novo.

Assim como o plano de governo do Siri, analisado no artigo anterior, André Marinho protocolou um documento extenso, com 140 páginas, organizado em diretrizes gerais, uma matriz de metas e ações, uma grande proposta territorial denominada ArcoMM — Integrando os Municípios do Mar à Montanha, nove áreas temáticas e uma rubrica especial dedicada à segurança pública. Ao final, o plano reúne 54 projetos.

Uma característica imediatamente chama a atenção: o documento procura ir além da enumeração de intenções. Em diversas propostas aparecem diagnóstico, objetivos, ações, cronogramas, indicadores de acompanhamento e mecanismos de governança e financiamento.

Isso é positivo porque facilita a cobrança futura. Porém, o próprio nível de detalhamento torna necessária uma leitura especialmente cuidadosa.


Reset, Ruptura, Renovação e o modelo SIGA

Politicamente, o plano está organizado em torno de duas ideias.

A primeira é representada pelos chamados “Três R's” — Reset, Ruptura e Renovação. O discurso é de rompimento com práticas políticas tradicionais, redução da influência político-partidária sobre a máquina estatal, meritocracia, digitalização e gestão orientada por resultados.

A segunda é o acrônimo SIGA: Segurança, Investimentos, Gestão e Ambiente, utilizado como eixo conceitual de todo o programa.

Há, portanto, uma visão de Estado relativamente clara.

O governo aparece menos como produtor direto da atividade econômica e mais como garantidor de segurança, infraestrutura, ambiente de negócios, crédito, tecnologia e condições para o investimento privado. Ao mesmo tempo, o programa prevê investimentos públicos expressivos em infraestrutura, saúde, educação e mobilidade.

A meta econômica central é particularmente ousada: a criação líquida de mais de um milhão de postos de trabalho durante os quatro anos de mandato.

É uma meta importante justamente porque pode ser medida. No entanto, também precisa ser explicada: quais setores responderiam pela criação desses empregos? Qual parcela seria formal? Quanto decorreria diretamente das políticas estaduais e quanto dependeria do crescimento geral da economia?


Metas concretas — mas muitas ainda “a confirmar”

O plano afirma pretender oferecer compromissos verificáveis, com metas, prazos e indicadores públicos.

Contudo, há uma ressalva metodológica que precisa acompanhar toda a leitura do documento: diversas metas aparecem identificadas como “meta do plano — a confirmar na estimação técnica”.

Isso significa que determinados números apresentados ao eleitor ainda não correspondem necessariamente a estimativas técnicas definitivamente consolidadas.

Não há problema em uma proposta eleitoral estar sujeita a estudos posteriores. Grandes projetos de infraestrutura, por exemplo, inevitavelmente dependem de levantamentos técnicos, projetos executivos, licenciamento e modelagem econômico-financeira.

Todavia, é importante distinguir três coisas: uma intenção política, uma projeção preliminar e uma meta tecnicamente dimensionada.

Quanto mais preciso é o número apresentado, maior deveria ser a capacidade de explicar como ele foi calculado.


ArcoMM: a grande aposta do programa

Nenhuma proposta ocupa posição tão central no programa quanto o ArcoMM — Integrando os Municípios do Mar à Montanha.

A ideia é transformar o entorno do Arco Metropolitano em eixo estruturante de desenvolvimento econômico, mobilidade, habitação e infraestrutura.

O plano prevê a criação de áreas econômicas especializadas e apresenta oito chamadas Cidades Vocacionadas, voltadas a setores como fármacos e bioquímica, agricultura de precisão, moda e beleza, games, atividades religiosas, energias limpas, semicondutores e economia do mar.

A infraestrutura mais emblemática seria um Monotrilho Suspenso de cerca de 60 quilômetros, inspirado no sistema de Chongqing, na China. Segundo o programa, ele funcionaria não apenas como transporte de passageiros, mas também como corredor para internet, energia, saneamento, segurança e outros serviços.

Também é previsto um corredor ferroviário Pavuna–Arco, com mais de 20 quilômetros e 22 estações, cuja implantação seria feita em fases entre 2027 e 2030.

Trata-se de uma concepção territorial ambiciosa.

Mas ela conduz inevitavelmente à pergunta mais importante: quanto custará o ArcoMM?

O próprio programa reconhece que obras como monotrilho, hubs de integração e Cidades Vocacionadas exigiriam volume de recursos incompatível com a situação fiscal atual do Estado e aponta as parcerias público-privadas como um dos principais instrumentos de financiamento.

Aqui convém lembrar algo muitas vezes esquecido no debate público: PPP não significa investimento gratuito.

O capital privado entra porque espera recuperar o investimento realizado, remunerar o risco assumido e obter retorno.

Essa remuneração pode vir de tarifas, contraprestações públicas, receitas imobiliárias e comerciais, exploração de ativos ou da combinação dessas fontes.

Portanto, para avaliar adequadamente o ArcoMM, será necessário saber qual é o investimento total previsto, quanto caberia ao Estado, quais contraprestações futuras seriam assumidas, quais garantias seriam oferecidas, qual demanda sustentaria economicamente o sistema e quem suportaria eventual frustração de receitas. 


Infraestrutura de alto padrão para uma população com qual poder aquisitivo?

Essa talvez seja uma das questões mais importantes suscitadas pelo programa.

É legítimo — e desejável — querer oferecer ao Rio de Janeiro transportes modernos, rodovias de qualidade, serviços digitais avançados, infraestrutura urbana sofisticada e equipamentos públicos eficientes.

O problema não é buscar qualidade. A questão é como garantir que essa qualidade seja acessível à população que deverá utilizar os serviços e pagar por eles.

Existe uma diferença entre construir infraestrutura de padrão elevado e construir infraestrutura socialmente acessível.

Um sistema moderno de transporte pode ser tecnicamente excelente e, ainda assim, pouco útil para boa parte da população se depender de tarifas incompatíveis com a renda do trabalhador.

Da mesma forma, tarifas artificialmente baixas, sem fonte sustentável de subsídio, podem produzir déficit, deterioração do serviço e necessidade futura de aportes emergenciais.

A pergunta, portanto, não deveria ser simplesmente se determinado serviço será público ou privado mas sim qual modelo permitirá combinar qualidade, preço acessível e sustentabilidade econômica durante décadas.

Essa discussão ganha ainda mais importância diante da forte utilização, no programa, de concessões e PPPs.


700 quilômetros de rodovias concedidas — mas sem novos pedágios

Uma das propostas que mais merece esclarecimento é a intenção de concessionar aproximadamente 700 quilômetros de rodovias estaduais.

O programa promete recuperação e melhoria das estradas, contratos que poderiam chegar a 30 anos, metas de desempenho e garantias de equilíbrio econômico-financeiro.

Ao mesmo tempo, afirma que isso ocorreria sem criação de novos pedágios e sem transferir a conta ao usuário.

A proposta certamente soa atraente.

Rodovia melhor e sem nova tarifa é algo que poucos motoristas rejeitariam.

Entretanto, existe uma pergunta econômica inevitável: quem remunerará a concessionária?

Nenhuma empresa investirá durante décadas na recuperação, operação e conservação de centenas de quilômetros de estradas sem uma fonte de receita.

Se não houver pedágio, haverá contraprestação financeira paga pelo Estado? Algum modelo de pagamento por disponibilidade? Receitas acessórias? Garantias do Tesouro? Outra forma de remuneração vinculada ao contrato?

O custo não desaparece simplesmente porque não existe uma praça de pedágio. A tarifa até pode deixar de ser cobrada diretamente do motorista mas vai passar a ser financiada pelo orçamento estadual, ou seja, pelo conjunto dos contribuintes.

Isso não é necessariamente ruim. É perfeitamente possível defender que determinadas rodovias sejam financiadas coletivamente, sobretudo quando possuem relevância econômica e social ampla. Porém, é importante que essa escolha seja clara definida de maneira suficientemente esclarecedora num plano de governo.

O que precisa ser demonstrado é como se fecha a seguinte equação: investimento privado + recuperação de 700 km de estradas + contratos de até 30 anos + ausência de novos pedágios + sustentabilidade econômico-financeira da concessão.

Se existe um modelo capaz de compatibilizar todos esses elementos, ele merece ser apresentado ao eleitor.

E há outra dimensão a ser considerada: rodovias não afetam apenas os motoristas. Elas interferem diretamente no custo do frete, dos alimentos, dos produtos industrializados e dos serviços. Logo, uma tarifa elevada pode ser incorporada aos preços da economia; uma contraprestação pública elevada pode disputar recursos com saúde, educação ou segurança.

Por isso, o debate sobre concessões deve considerar não somente a qualidade das estradas, mas o custo final para o cidadão e para a atividade econômica.


Emprego: como se chega a um milhão?

O programa estabelece como objetivo central a criação de mais de um milhão de postos líquidos de trabalho ao longo do mandato.

Em outro trecho, prevê ao menos 27 áreas econômicas e utiliza como referência um saldo de aproximadamente 100,9 mil empregos formais criado em 2025, com a intenção de superar esse patamar nos anos seguintes.

Essa combinação produz um questionamento interessante.

Mesmo que o Estado mantivesse um saldo superior a cem mil empregos formais por ano, ainda seria necessário explicar como se alcançaria o milhão de novos postos em quatro anos.

Quais projetos respondem por essa diferença?

Quantos empregos seriam associados ao ArcoMM? Quantos à economia do mar? Quantos à indústria, tecnologia, petróleo, turismo ou construção?

E como seria feita a avaliação para distinguir empregos efetivamente induzidos pelas políticas estaduais daqueles produzidos pelo próprio ciclo econômico?

A vantagem de uma meta ambiciosa é que ela pode ser cobrada. Só que, para isso, é preciso conhecer a metodologia que a sustenta...


Segurança pública: atacar o dinheiro do crime

A segurança recebe tratamento especial no programa através do plano “Sai Fuzil, Entra Brasil”, estruturado em diferentes frentes.

Entre as ideias mais interessantes está o combate patrimonial às organizações criminosas. A chamada Operação Asfixia pretende mapear, bloquear e confiscar contas, imóveis, empresas de fachada e outros ativos ligados a facções e milícias.

A lógica é correta do ponto de vista estratégico: organizações criminosas não sobrevivem apenas pela presença armada; dependem de fluxos financeiros, empresas, lavagem de dinheiro e controle de mercados ilícitos.

Contudo, o programa vai além e atribui a essa política uma função fiscal expressiva. Prevê investimento entre R$ 800 milhões e R$ 1,2 bilhão, estimando recuperar entre R$ 15 bilhões e R$ 25 bilhões em quatro anos. O documento afirma que essa recuperação serviria para financiar outras partes do próprio plano de segurança.

Essa projeção merece ser amplamente esclarecida.

Uma coisa é localizar e bloquear patrimônio. Outra é transformar esse patrimônio em receita efetivamente disponível no caixa estadual durante o mesmo mandato.

Entre uma coisa e outra podem existir investigação criminal, processo judicial, recursos, decisões sobre perdimento, regras de destinação e eventual participação de outros entes públicos. Por isso, seria importante saber quanto dos R$ 15 bilhões a R$ 25 bilhões projetados o plano considera efetivamente convertido em receita estadual disponível até 2030?

E, caso essa recuperação seja menor ou demore mais do que o previsto, a pergunta a ser feita passava ser sobre qual a fonte alternativa de financiamento para as demais ações de segurança?


O mesmo dinheiro dos royalties pode cumprir várias funções ao mesmo tempo?

O petróleo ocupa posição estratégica no programa.

Parte das receitas seria destinada a um Fundo Soberano, concebido para transformar recursos temporários do petróleo em patrimônio de longo prazo. O plano prevê criação por lei, conselho técnico independente, política de investimentos e auditoria externa.

Ao mesmo tempo, royalties aparecem como fonte de financiamento para políticas de adaptação climática. E o próprio programa reconhece que o Rioprevidência ainda depende fortemente dessas receitas, utilizando como referência cerca de R$ 18 bilhões em royalties para aproximadamente R$ 31 bilhões de despesas previdenciárias.

Cada uma dessas destinações pode ser defensável separadamente.

O problema aparece quando se juntam todas.

Quanto da receita petrolífera continuará financiando a Previdência?

Quanto será poupado no Fundo Soberano?

Quanto ficará comprometido com adaptação climática e outros investimentos?

E quanto permanecerá disponível para as demais despesas estaduais?

Uma política responsável para os royalties deveria apresentar uma matriz consolidada de destinação, sobretudo porque se trata de receita sujeita à oscilação econômica e ligada a um recurso finito.


Rioprevidência: controle administrativo não é o mesmo que solução atuarial

O programa dedica capítulo próprio ao Rioprevidência.

Entre as propostas aparecem prova de vida biométrica, recadastramento, cruzamento de bases de dados, centralização da folha, identificação de pagamentos indevidos e painéis públicos para acompanhamento atuarial.

São medidas importantes de gestão e controle.

Entretanto, o próprio plano aponta um déficit atuarial de R$ 209,79 bilhões. E, nesse caso, é importante separar duas questões.

Uma questão é combater fraude, desperdício e pagamentos irregulares. Outra é enfrentar o desequilíbrio estrutural entre contribuições, benefícios e patrimônio previdenciário.

Biometria pode impedir pagamento a beneficiário falecido. Cruzamento de dados pode identificar acumulação irregular. Mas nenhuma dessas medidas, sozinha, explica como resolver um passivo atuarial de centenas de bilhões de reais.

O programa deveria melhor esclarecer qual parcela do problema acredita poder resolver mediante auditoria e controle administrativo e qual exigirá medidas financeiras de longo prazo.


Desestatização: uma proposta com mecanismos de proteção

O programa Liberta Rio prevê diagnóstico das estatais, participações societárias e imóveis públicos, classificando ativos como finalísticos, deficitários ou ociosos. Também propõe portal público para acompanhamento das operações, fortalecimento das agências reguladoras, tarifas sociais, metas de desempenho e vinculação legal da receita obtida.

Sem dúvida, é um desenho mais elaborado do que uma proposta genérica de privatização. Entretanto, falta saber quais empresas ou ativos efetivamente seriam incluídos no programa.

Nem toda empresa deficitária é necessariamente dispensável.

Nem todo ativo público ocioso hoje deve necessariamente ser vendido.

E alguns serviços possuem características de monopólio natural ou elevado interesse social, exigindo regulação particularmente cuidadosa.

Portanto, mais importante que saber se o candidato é favorável ou contrário à desestatização seria conhecer os critérios concretos que serão utilizados para decidir o que vender, conceder, manter ou reorganizar.


Um “Fundo de Reparação” pela perda da capital e pela fusão de 1975

Uma das propostas mais originais do documento é o chamado Fusão 50.

O programa sustenta que o Rio sofreu perdas econômicas históricas com a transferência da capital federal para Brasília e posteriormente com a fusão entre o Estado da Guanabara e o antigo Estado do Rio de Janeiro.

Com base nisso, propõe negociar com a União a criação de um Fundo de Reparação Fluminense, tomando como referência política e jurídica o Fundo Constitucional do Distrito Federal.

É uma ideia que certamente pode render debate político. Entretanto, existe uma diferença entre defender uma reivindicação federativa e contabilizá-la como fonte segura para financiar políticas estaduais. Isso porque sua implementação dependeria de articulação com a União, Congresso Nacional, fundamentação jurídica e negociação política.

Portanto, enquanto não houver mecanismo legal e financeiro concreto, esses recursos devem ser vistos como receita eventual, e não como disponibilidade garantida.


Saúde: o desafio de transformar “fila zero” em meta mensurável

O programa propõe o Rio Sem Fila, utilizando ampliação da capacidade instalada, mutirões, horários ociosos, contratualização de serviços e descentralização de atendimentos.

Também prevê integração digital do SUS estadual e maior utilização de dados para reduzir repetição de exames, peregrinação de pacientes e desperdício de capacidade hospitalar.

Na saúde mental, há inclusive uma previsão inicial de investimento entre R$ 400 milhões e R$ 600 milhões em quatro anos, ainda sujeita à estimação técnica.

O caminho é interessante. Porém uma expressão merece esclarecimento: “zerar filas”.

Filas em sistemas de saúde são dinâmicas. Novos pacientes surgem diariamente.

Seria talvez mais útil ao eleitor transformar a promessa em padrões concretos: qual será o prazo máximo aceitável para consulta especializada?

E os prazos para exame? Para cirurgia? Em quais especialidades? E qual parte dessas filas está diretamente sob gestão estadual e qual depende de pactuação com municípios e União?

Esses indicadores certamente permitiriam uma cobrança muito mais objetiva pela sociedade.


Educação: escola técnica, modelo cívico-militar e jornada até 18h

A educação aparece articulada principalmente à inserção profissional e à permanência do jovem na escola.

O programa propõe formação técnica vinculada às vocações econômicas regionais, escolas cívico-militares com formação técnica e a chamada Escola 18h, com contraturno, reforço acadêmico, esporte, cultura, apoio psicossocial, busca ativa de estudantes e assistência em saúde mental.

A integração de educação, saúde mental e prevenção da evasão merece atenção positiva. Entretanto, novamente surge a questão da escala.

Quantas escolas funcionarão até 18h?

Quantos alunos serão atendidos?

Quantos profissionais adicionais serão necessários?

Qual será o custo por aluno?

Quais adaptações físicas deverão ser feitas?

E como se relacionam os três modelos apresentados: educação técnica, escola cívico-militar e Escola 18h?

São programas independentes, complementares ou poderão coexistir numa mesma unidade?

Enfim, são questões que carecem de um maior esclarecimento.


Meio ambiente como ativo econômico

A agenda ambiental é mais desenvolvida do que muitas vezes aparece em programas de orientação liberal.

O plano prevê segurança hídrica, recuperação de nascentes, pagamento por serviços ambientais, adaptação climática, mercado de carbono e utilização de instrumentos patrimoniais para combater crimes ambientais.

Há uma concepção interessante: preservar floresta e manancial não é tratado apenas como obrigação ambiental, mas como infraestrutura econômica e hídrica.

A principal questão novamente será financeira.

Se royalties financiarão parte dessa política, e os mesmos royalties possuem outras destinações importantes, será necessário explicitar prioridades e limites.


E a Costa Verde?

O plano de André Marinho insere a Costa Verde de maneira particularmente interessante através do Município de Itaguaí.

O Porto de Itaguaí aparece como uma das âncoras do chamado Hub das Américas, juntamente com o Aeroporto do Galeão e o Porto do Açu.

O programa de educação técnica também utiliza o porto da Costa Verde como exemplo de atividade econômica que necessita de trabalhadores especializados.

Portanto, a região não aparece apenas nominalmente. Existe uma função econômica concreta atribuída a Itaguaí dentro da estratégia geral do programa.

Mas ainda falta compreender melhor o restante do território.

Onde entram Mangaratiba, Angra dos Reis e Paraty nessa estratégia?

Quais propostas existem para mobilidade na rodovia Rio-Santos através do transporte intermunicipal?

 E o turismo?

A pesca artesanal?

O saneamento costeiro?

A prevenção de deslizamentos?

A integração entre o Porto de Itaguaí e os municípios seguintes da Costa Verde?

Uma estratégia logística centrada em Itaguaí pode produzir efeitos relevantes sobre a região, principalmente Mangaratiba. Justamente por isso, esses efeitos precisam ser planejados — inclusive trânsito, ocupação territorial, valorização imobiliária, pressão ambiental e infraestrutura necessária.


Um programa ambicioso precisa de uma conta consolidada

O plano de André Marinho possui uma característica que merece reconhecimento: ele se expõe à cobrança.

Há números, datas, projetos, cronogramas e indicadores. Mas exatamente por isso será necessário saber se a soma das propostas fecha financeiramente.

Isoladamente, cada capítulo apresenta alguma forma de financiamento: PPPs, concessões, royalties, Fundo Soberano, PROPAG, AgeRio, investimento privado, desestatização, recuperação de patrimônio do crime, recursos federais e outras fontes.

A pergunta decisiva aparece quando tudo é colocado na mesma conta.

Quanto o Estado efetivamente precisará desembolsar entre 2027 e 2030?

Quanto virá do orçamento?

Quanto será investimento privado?

Quanto serão contraprestações futuras?

Quanto dependerá de royalties?

Quanto decorrerá de receitas eventuais?

Quanto depende de estimativas que ainda precisam ser confirmadas?

E quais propostas serão adiadas se as receitas projetadas não se materializarem?


Modernizar é necessário. Explicar quem paga também é.

André Marinho apresenta um programa que pretende oferecer ao Rio de Janeiro um padrão elevado de infraestrutura, tecnologia, mobilidade, gestão e serviços públicos.

É uma ambição legítima.

O debate necessário não deve ser reduzido a uma escolha entre serviço público precário e serviço moderno.

O desafio é mais complexo: como oferecer infraestrutura de alta qualidade a uma população com grandes desigualdades de renda sem produzir tarifas proibitivas, subsídios fiscalmente insustentáveis ou contratos que comprometam por décadas o orçamento estadual?

Serviço de qualidade não deve ser confundido com serviço caro.

Concessão não significa ausência de custo.

PPP não significa dinheiro gratuito.

E investimento privado não elimina a necessidade de saber quem, no final, remunerará o investimento realizado.

Esse talvez seja um dos principais testes para o programa apresentado por André Marinho durante a campanha.

Quais são as prioridades?

Quanto custarão?

Quem financiará?

Quem pagará as tarifas?

Quais riscos ficarão com o setor privado e quais permanecerão com o Estado?

E quais metas apresentadas hoje como “a confirmar na estimação técnica” poderão ser efetivamente assumidas como compromissos até 2030?

Responder a essas perguntas não enfraquece um plano de governo. Ao contrário. Pois é justamente assim que propostas ambiciosas deixam de ser apenas boas ideias no papel e se transformam em compromissos que o eleitor pode compreender, avaliar e cobrar.

Eleições 2026: um resumo cidadão do programa de governo de Siri



Em período eleitoral, os planos de governo não deveriam permanecer escondidos nos sistemas da Justiça Eleitoral ou ser tratados apenas como documentos burocráticos necessários ao registro das candidaturas. Eles podem ser uma ferramenta importante para que o eleitor conheça, compare e, posteriormente, cobre os compromissos assumidos por quem pretende governar.

Com esse propósito, iniciamos uma leitura cidadã dos programas apresentados pelos candidatos ao Governo do Estado do Rio de Janeiro nas eleições de 2026. A proposta não é dizer ao eleitor em quem votar, mas traduzir documentos muitas vezes extensos, destacar suas principais ideias e apontar questões que merecem esclarecimento durante a campanha.

Depois da análise do programa apresentado por Douglas Ruas, examinamos agora o documento do PSOL-RJ, associado à candidatura de Siri.

E, neste caso, a primeira característica chama imediatamente a atenção: o tamanho e a abrangência do programa.

São 143 páginas de propostas, organizadas em dezenas de áreas. O sumário passa por planejamento e gestão, funcionalismo público, economia, finanças, previdência, assistência social, emprego e renda, segurança pública, meio ambiente, defesa civil, saneamento, segurança alimentar, habitação, mobilidade, saúde, educação, cultura, comunicação, esporte, turismo e proteção animal, entre outros temas.

Trata-se, portanto, menos de uma seleção de algumas prioridades e mais de uma proposta abrangente de reorganização de diferentes áreas do Estado.


Qual é a visão de Estado apresentada pelo programa?

O documento deixa clara sua orientação política já na apresentação. Afirma pretender construir um Rio de Janeiro “mais justo”, tendo como fundamentos a participação popular, a justiça socioambiental e a defesa de liberdades e direitos.

Ao longo do programa, aparece uma concepção de Estado fortemente presente na prestação de serviços, no planejamento econômico e na indução do desenvolvimento, acompanhada de mecanismos de participação social.

Um exemplo é a proposta de recuperar a SEPLAG como órgão central de planejamento, criar estruturas regionais de gestão compartilhada e articular Estado e municípios em cada uma das regiões fluminenses. A Costa Verde aparece expressamente entre essas regiões.

O programa também propõe reduzir o número de secretarias e cargos em comissão, restringir contratações temporárias e fortalecer o ingresso por concurso público.


Funcionalismo ocupa posição de destaque

Diferentemente de programas que tratam os servidores apenas dentro de políticas setoriais, o documento dedica uma seção específica ao funcionalismo.

Entre os compromissos estão a realização progressiva de concursos públicos, convocação de aprovados em concursos ainda vigentes antes da abertura de novos certames, instituição de data-base e reajuste anual com recomposição das perdas inflacionárias pelo IPCA. Também são previstas negociação permanente com as entidades representativas e prioridade para servidores de carreira na ocupação de cargos comissionados.

São compromissos bastante objetivos e que certamente interessarão a uma parcela expressiva dos servidores estaduais.

Ao mesmo tempo, produzem uma pergunta inevitável: qual será o impacto financeiro dessa política e como compatibilizá-la com as demais despesas permanentes e investimentos previstos no programa?

Não basta saber que haverá concursos, data-base e recomposição inflacionária. Seria importante conhecer o custo projetado dessas medidas, sua implantação ao longo dos quatro anos e a forma pela qual seriam compatibilizadas com os limites fiscais e previdenciários do Estado.


Economia: reindustrialização e maior intervenção do Estado

Na economia, o eixo central é uma política de reindustrialização.

O programa propõe um Plano Estadual de Desenvolvimento Econômico e Reindustrialização, buscando diversificar a economia, gerar empregos formais, diminuir desigualdades regionais e reduzir a dependência das receitas do petróleo e gás. Prevê estratégias específicas para cada região, recuperação e ampliação da malha ferroviária e utilização do Estado como indutor do desenvolvimento.

Uma das propostas mais relevantes é a criação do Banco de Desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro — BADERJ, definido no programa como uma instituição financeira pública estadual destinada ao financiamento de médio e longo prazo de projetos estratégicos. O banco poderia apoiar empresas públicas e privadas, cooperativas, pequenos e médios empreendimentos e projetos de infraestrutura, logística, mobilidade, saúde, transição energética e desenvolvimento industrial.

Também são propostos complexos industriais em diferentes setores, inclusive um Complexo Industrial Ferroviário e de Mobilidade e um Complexo Industrial da Saúde.

É uma concepção econômica bastante definida: o Estado não funcionaria apenas como regulador, mas também como financiador, comprador e indutor da atividade econômica.

A criação de um banco público, entretanto, exige um debate que vai muito além do valor necessário para sua capitalização inicial.

Qual seria sua natureza jurídica e seu modelo institucional? De onde viria o capital inicial e como ocorreria sua capitalização posterior? O banco receberia recursos do Tesouro, fundos públicos, operações de crédito ou outras fontes? Quais seriam os critérios para concessão de financiamentos? Quem avaliaria risco e capacidade de pagamento dos beneficiários?

Também seria importante esclarecer quais mecanismos de governança, compliance e controle seriam adotados para preservar decisões técnicas diante de pressões político-partidárias; quais limites seriam estabelecidos para subsídios, equalização de juros e operações abaixo das taxas de mercado; e quem suportaria eventuais perdas decorrentes de inadimplência.

Um banco público de desenvolvimento não depende apenas de dinheiro para começar. Depende de modelagem institucional, governança, análise de risco e capacidade de operar com segurança financeira.


Como o programa pretende enfrentar as contas estaduais?

O documento possui um capítulo próprio de finanças públicas.

A estratégia apresentada rejeita políticas de austeridade que retirem direitos e aposta na ampliação da arrecadação através do desenvolvimento econômico e da cobrança da dívida ativa, especialmente dos grandes devedores. Também propõe concurso e modernização da Procuradoria para aumentar a capacidade de recuperação desses créditos.

Em relação à dívida com a União, o programa propõe utilizar o PROPAG buscando redução dos juros e alongamento dos pagamentos, destinando a economia obtida à recuperação dos serviços públicos, valorização dos servidores e investimentos. Também pretende auditar determinadas operações relacionadas à Copa de 2014 e às Olimpíadas de 2016.

Existe, portanto, uma estratégia fiscal explicitada.

Mas ainda falta transformar essa estratégia em projeções.

Quanto se espera recuperar anualmente da dívida ativa? Qual economia o Estado espera obter com o PROPAG? Qual crescimento de arrecadação seria necessário para financiar a expansão dos serviços públicos?

A questão central não é apenas saber de onde podem vir novas receitas, mas verificar se o volume esperado dessas receitas é compatível com o conjunto das despesas adicionais prometidas.


Previdência e Rioprevidência: transparência, gestão e solução financeira são coisas diferentes

A previdência dos servidores estaduais recebe tratamento específico.

O programa propõe elaborar um Plano Estadual de Previdência Social, capitalizar o Rioprevidência, acertar contas entre o fundo e o Tesouro estadual e auditar e renegociar as operações de securitização de royalties conhecidas como Rio Delaware.

Também prevê ampliar a transparência dos investimentos, com publicação mensal das aplicações realizadas, identificando instituições financeiras, valores, prazos, taxas de remuneração, classificação de risco, garantias e responsáveis pelas autorizações.

É importante, contudo, separar três dimensões diferentes.

Transparência é uma delas. Divulgar aplicações, riscos, taxas e responsáveis permite controle social e institucional sobre a administração dos recursos.

Outra dimensão é a gestão, que envolve governança do fundo, estrutura administrativa, concursos, sistemas de controle e política de investimentos.

E uma terceira, muito mais complexa, é a solução do desequilíbrio financeiro e atuarial.

Capitalizar o fundo, reconhecer valores eventualmente devidos pelo Tesouro e rever operações de securitização não são medidas que possam ser avaliadas apenas como providências administrativas. Dependem de diagnóstico atuarial, financeiro e jurídico.

Por isso, seria importante perguntar: quais passivos o programa considera existentes entre o Tesouro e o Rioprevidência? Qual seria o valor estimado desses passivos? Qual aporte seria necessário para a capitalização proposta? De onde sairiam os recursos? Qual seria o impacto dessa transferência sobre o próprio Tesouro estadual?

Da mesma forma, uma eventual renegociação das operações Rio Delaware precisaria esclarecer custos, riscos jurídicos, efeitos financeiros e eventual necessidade de negociação com credores.


Renda básica para 600 mil famílias: qual será o desenho do programa?

Entre as propostas sociais, uma das mais expressivas é a criação da Renda Básica Fluminense.

O programa pretende garantir auxílio financeiro permanente às 600 mil famílias mais pobres do estado — identificadas no texto como as 10% mais pobres — estabelecendo como teto meio salário mínimo por família, com variação conforme o número de crianças e a presença de pessoas com deficiência ou idosos. Prevê ainda expansão posterior conforme a necessidade e o aumento da arrecadação.

A proposta tem dimensão suficiente para exigir um debate próprio.

Qual seria o valor médio efetivamente pago? Qual seria o custo anual em cenários mínimo, intermediário e máximo de utilização do benefício?

Também é preciso esclarecer seu desenho operacional.

O benefício seria integralmente estadual e poderia ser acumulado com Bolsa Família e outros programas federais? Qual cadastro seria utilizado para selecionar os beneficiários? Haveria integração com o Cadastro Único? Como seriam evitadas duplicidades ou pagamentos indevidos?

Qual órgão estadual seria responsável pela execução, atualização cadastral, fiscalização e controle do programa? Haveria atualização automática dos valores? Em qual periodicidade seriam revistas renda e composição familiar?

E, principalmente, qual seria a fonte permanente de financiamento de uma transferência continuada para 600 mil famílias?

Essas questões são tão relevantes quanto o valor nominal do benefício porque definem se a política será administrativamente viável, fiscalmente sustentável e capaz de alcançar efetivamente seu público.


Segurança pública: uma abordagem diferente

O programa dedica espaço considerável à segurança pública, mas parte de uma concepção que combina atuação policial, prevenção social, direitos humanos e redução da violência.

Entre outras medidas, aparecem centros de mediação de conflitos e programas destinados a oferecer formação profissional, emprego, assistência social e psicológica a jovens envolvidos em atividades ilícitas.

Essa orientação certamente será um dos pontos de maior contraste político durante a campanha e merece ser discutida sem caricaturas.

O eleitor tem direito a perguntar não apenas qual é a filosofia da política de segurança, mas quais resultados concretos ela pretende produzir: qual a meta de redução de homicídios, roubos, domínio territorial por organizações criminosas e violência contra mulheres? Como serão enfrentadas milícias e facções? Qual será a política de efetivo, inteligência e investigação?

Em uma eleição fluminense, nenhuma política de segurança pode ser avaliada apenas por seus princípios. Ela precisa demonstrar também capacidade operacional diante da realidade concreta do Estado.


Meio ambiente como política estruturante

A agenda ambiental ocupa posição expressiva no programa.

Entre as propostas estão a reestruturação da Secretaria de Ambiente, criação de um Plano Estadual de Justiça Socioambiental e de uma Superintendência de Justiça Socioambiental articulando INEA, Defesa Civil e municípios, com atenção especial às populações de encostas, áreas inundáveis e comunidades costeiras.

Também são previstos monitoramento permanente da qualidade do ar, água e solo, recuperação de áreas degradadas e nascentes, brigadas permanentes contra incêndios e revisão de benefícios fiscais relacionados a áreas classificadas pelo programa como “zonas de sacrifício”.

Para regiões ambientalmente sensíveis como a Costa Verde, essa concepção merece atenção especial.

Aqui também será importante distinguir propostas que dependem diretamente do Governo do Estado daquelas que exigem atuação articulada com municípios, União, órgãos ambientais federais e comitês de bacia.


Mobilidade: ambição elevada e forte mudança institucional

A mobilidade é uma das áreas em que o programa vai muito além de medidas pontuais.

Há propostas de ciclovias em rodovias estaduais, ciclorrotas turísticas intermunicipais, bicicletários e integração da bicicleta aos sistemas de trem, metrô, barcas e ônibus.

Mas reduzir a proposta de mobilidade a essas medidas seria insuficiente.

O programa propõe reestatizar o sistema ferroviário metropolitano, encerrando o modelo de concessão privada e transferindo operação, manutenção e gestão para uma nova Empresa Pública de Transporte e Mobilidade.

Na política tarifária, propõe redução progressiva das passagens até atingir Tarifa Zero nos transportes públicos estaduais, prevendo sua implantação imediata nos trens após a reestatização e subsídio através de um Fundo Estadual de Transporte.

Também prevê expansão metroviária, incluindo Linha 3, extensão da Linha 2 para a Baixada Fluminense e recuperação e expansão da malha ferroviária para passageiros e cargas em todas as regiões do Estado.

Aqui surgem questões institucionais e financeiras centrais.

Quanto custaria reestatizar e operar diretamente o sistema ferroviário? Quais ativos, passivos, contratos e indenizações estariam envolvidos? Qual seria a necessidade anual de subsídios?

Como seria financiada a Tarifa Zero e qual impacto o aumento esperado da demanda teria sobre frota, estações, frequência e capacidade operacional?

Além disso, é necessário separar medidas de competência direta estadual daquelas que dependem de municípios, União, concessionárias ou pactuação interfederativa.

Requalificação de calçadas, integração com BRTs municipais, redes cicloviárias urbanas, grandes expansões metroferroviárias e alterações de contratos existentes não possuem necessariamente a mesma governança.

Uma política integrada de mobilidade depende justamente de explicar quem executa, quem financia e quem regula cada parte do sistema.


Educação e saúde: duas áreas que merecem leitura própria

O tamanho do programa faz com que algumas áreas não possam ser adequadamente resumidas em poucas linhas.

Só a saúde ocupa um conjunto extenso de capítulos, abrangendo planejamento, trabalhadores, cuidado, saúde mental e vigilância. A educação, por sua vez, contempla educação básica, especial, EJA, rede estadual, ensino técnico, superior e um capítulo específico sobre profissionais da educação.

Isso demonstra abrangência, mas também evidencia uma característica do documento: há um número muito elevado de compromissos.

Consequentemente, talvez a principal pergunta não seja se faltam propostas, mas quais delas serão efetivamente prioridades nos primeiros quatro anos de governo, quanto custarão e quais resultados objetivos deverão produzir até 2030.


Participação popular e transparência

Outro traço marcante é a aposta em conselhos, conferências e mecanismos de participação.

O programa propõe fortalecer conselhos estaduais, realizar consultas populares, criar uma Conferência Fluminense periódica e instituir um Gabinete Virtual para comunicação direta com os cidadãos. Também promete acesso a informações técnicas, administrativas e orçamentárias, incluindo projetos, editais, contratos e processos administrativos.

Para quem acompanha transparência pública, é uma promessa que merece ser registrada e, caso a candidatura seja vitoriosa, posteriormente cobrada.

Mas participação também precisa de desenho institucional.

Quais decisões seriam apenas consultivas e quais efetivamente deliberativas? Como evitar sobreposição entre conselhos, conferências, consultas digitais, Assembleia Legislativa e estruturas administrativas? De que maneira se asseguraria representatividade nesses espaços?

Quanto mais forte for a promessa de participação popular, mais importante será esclarecer como a participação produzirá efeitos concretos sobre as decisões do governo.


E a Costa Verde?

Embora o documento seja estadual e não apresente capítulo exclusivo para Mangaratiba ou para cada município da região, a Costa Verde é mencionada diversas vezes como unidade territorial de planejamento.

O programa pretende criar uma agência permanente de gestão compartilhada em cada região, inclusive na Costa Verde, e revisar a política de desenvolvimento regional considerando problemas como mobilidade, saneamento e segurança e as potencialidades de cada território.

Há ainda propostas concebidas para todas as regiões, incluindo a Costa Verde, como centros regionais de formação em permacultura, incubadoras de projetos sustentáveis, iniciativas de resíduos, acessibilidade, saúde e recuperação da malha ferroviária.

Isso demonstra que a região não foi esquecida no desenho territorial do programa.

Mas é necessário distinguir duas coisas.

Uma coisa é a Costa Verde aparecer nominalmente como uma das regiões nas quais determinada política estadual será organizada.

Outra é existir um conjunto de compromissos específicos, territorialmente definidos e quantificados para a Costa Verde.

Esses compromissos ainda não aparecem com a mesma clareza.

Quais seriam, por exemplo, as prioridades para Mangaratiba, Angra dos Reis e Paraty? Que investimentos seriam destinados à mobilidade regional? Haveria projetos específicos para a Rio-Santos, transporte intermunicipal, saneamento, prevenção de deslizamentos, proteção costeira, turismo, pesca artesanal ou infraestrutura de saúde?

Na economia, o programa determina que sejam formuladas estratégias próprias para cada região, considerando vocações produtivas, infraestrutura, recursos naturais e necessidades sociais.

A pergunta, portanto, não é se a Costa Verde está presente no programa. Está.

A pergunta é: o que concretamente essa presença significará em investimentos, projetos, prioridades e metas para a região?


Um programa extenso também precisa estabelecer prioridades

Talvez esta seja a principal conclusão de uma primeira leitura cidadã.

O programa apresentado pelo PSOL tem uma característica evidente: não sofre de falta de propostas. Em inúmeras áreas, chega a níveis de detalhamento pouco comuns em documentos eleitorais.

Mas justamente essa abrangência cria seu principal desafio.

É possível realizar tudo isso em quatro anos?

Criar um banco estadual de desenvolvimento, estabelecer renda básica para centenas de milhares de famílias, recompor anualmente salários de servidores, realizar concursos, reestatizar o sistema ferroviário, caminhar para a Tarifa Zero, ampliar políticas sociais, reindustrializar o Estado, investir em infraestrutura, fortalecer serviços públicos e executar simultaneamente dezenas de novos programas exigirá recursos financeiros, capacidade administrativa, articulação institucional e escolhas.

Governar também significa estabelecer prioridades.

Por isso, algumas perguntas deveriam acompanhar Siri durante a campanha:

Quais são as dez primeiras medidas que adotaria? Quanto custará seu programa? Quais despesas permanentes serão criadas? De onde virão os recursos?

No caso do BADERJ: qual será sua modelagem institucional, capitalização inicial, governança e política de risco?

Na Previdência: qual é o diagnóstico atuarial, quais passivos seriam reconhecidos entre Tesouro e Rioprevidência e qual aporte financeiro seria necessário?

Na Renda Básica Fluminense: quanto custará anualmente, qual cadastro será utilizado e como ela se articulará com os benefícios federais?

Na mobilidade: quanto custariam a reestatização ferroviária e a Tarifa Zero e de onde virão os subsídios necessários à operação?

Na segurança, saúde e educação: quais metas objetivas deverão ser alcançadas até 2030?

E na Costa Verde: quais projetos concretos, valores e cronogramas transformarão a presença nominal da região no programa em política pública efetiva?

Essas perguntas não diminuem o programa. Ao contrário: ajudam a transformá-lo em compromisso verificável.


Ler antes de comparar

Esta análise não pretende comparar neste momento o programa de Siri com o de Douglas Ruas, Eduardo Paes, Anthony Garotinho ou qualquer outro candidato.

A comparação terá seu momento.

Antes dela, parece mais justo que cada programa seja examinado individualmente, com seus méritos, prioridades, lacunas e questões ainda sem resposta.

Quando todos os principais candidatos tiverem apresentado seus documentos, será possível submetê-los à mesma régua: segurança, saúde, educação, desenvolvimento econômico, meio ambiente, mobilidade, funcionalismo, equilíbrio fiscal, previdência, transparência, políticas regionais, governança e capacidade de execução.

Essa talvez seja uma contribuição simples, mas importante para as eleições de 2026.

Em vez de começar perguntando qual candidato tem o melhor programa, podemos começar por uma questão anterior: o que, afinal, cada candidato está propondo fazer com o Estado do Rio de Janeiro?

Conhecer essa resposta é uma das melhores formas de qualificar o voto — e de preservar, depois da eleição, aquilo que frequentemente se perde com o fim da campanha: a memória dos compromissos assumidos perante o eleitor.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

POPULARIDADE E TEMPO DE GOVERNO NA AMÉRICA LATINA



Este ranking de imagem dos presidentes latino-americanos, divulgado pela CB Global Data, traz números interessantes. Mas há um aspecto que merece atenção para que a comparação não fique apenas na ordem das posições: há presidentes em momentos muito diferentes de seus mandatos.


Peru e Colômbia acabam de passar por eleições e seus novos governos estão praticamente começando. Chile também iniciou um novo governo neste ano, enquanto Rodrigo Paz assumiu a Presidência da Bolívia no final de 2025. Presidentes recém-eleitos normalmente ainda carregam parte da expectativa e do capital político produzidos pela própria eleição.


Por isso, considero particularmente relevantes os números de Claudia Sheinbaum, no México, e Lula, no Brasil, justamente por governarem dois dos maiores países da América Latina e já terem ultrapassado a fase inicial de seus governos.


Sheinbaum aparece com impressionantes 66,5% de imagem positiva, mesmo depois de quase dois anos na Presidência mexicana. Lula, por sua vez, alcança 51,9% de imagem positiva e 46,1% negativa, depois de mais de três anos e meio de mandato.


No caso brasileiro, chama atenção também a trajetória recente registrada pelo próprio levantamento: 47,6% em junho, 50,6% em julho e 51,9% em agosto. Mais importante do que subir ou descer algumas posições no ranking é perceber que Lula voltou a ultrapassar os 50% de avaliação positiva já na reta final do mandato.


O contraste com a Argentina também merece atenção. Javier Milei, presidente desde dezembro de 2023 e igualmente distante da chamada “lua de mel” inicial, aparece com 35,1% de imagem positiva e 62,8% negativa.


É claro que nenhuma pesquisa isolada oferece um retrato definitivo da opinião pública, e percentuais obtidos em países diferentes devem ser comparados com cautela. Também é preciso reconhecer o desempenho excepcional de Nayib Bukele, que governa El Salvador desde 2019 e permanece no topo do levantamento.


Ainda assim, quando acrescentamos ao ranking o tempo de exercício do poder e o tamanho dos países governados, surge uma leitura interessante: entre os presidentes das grandes democracias latino-americanas que já acumulam um período significativo de governo, Claudia Sheinbaum e Lula demonstram hoje uma capacidade expressiva de preservar — e, no caso brasileiro, recentemente ampliar — apoio popular.


Mais do que olhar simplesmente quem está em primeiro, quinto ou décimo quinto lugar, vale perguntar: quanto apoio um governante consegue conservar depois que a expectativa da eleição dá lugar à experiência concreta de governar?


Talvez esse seja o dado mais interessante deste ranking.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

As melhoras concretas na vida dos brasileiros mais pobres desde 2022



Quem tem fome, tem pressa.” — Betinho


É muito comum vermos opiniões negativas nas redes sociais sobre os dados sociais do nosso país. No entanto, poucos se propõem a avaliar de maneira correta o quanto melhorou concretamente a vida dos brasileiros mais pobres.

Inegavelmente, os dados mostram forte redução da pobreza, aumento da renda e melhora do mercado de trabalho. A concentração de renda ainda continua sendo um desafio, mas não deve obscurecer uma questão fundamental: como mudou concretamente a vida de quem está na base da pirâmide social?

Não há como negar que o Brasil continua sendo um país profundamente desigual. Em 2025, o rendimento médio do 1% mais rico correspondia a 31,5 vezes o rendimento da metade mais pobre da população.

Esse dado merece atenção. Mas será que ele, isoladamente, é capaz de responder à indagação mais importante sobre as condições sociais brasileiras?

Talvez devamos fazer outra pergunta: desde 2022, os brasileiros mais pobres estão vivendo melhor ou pior?

Quando observamos não apenas a distância entre o topo e a base da pirâmide, mas também pobreza, extrema pobreza, renda, emprego e segurança alimentar, aparece um fenômeno que merece destaque: houve uma melhora concreta e expressiva das condições materiais de milhões de brasileiros nos últimos anos.

Obviamente isso não significa que a desigualdade tenha desaparecido. Muito menos que os problemas sociais brasileiros estejam definitivamente resolvidos. Significa reconhecer que pobreza e concentração de renda, embora relacionadas, não são exatamente a mesma coisa.


Pobreza e desigualdade medem coisas diferentes

Uma sociedade pode apresentar redução da pobreza e, simultaneamente, aumento ou manutenção da distância entre ricos e pobres.

Imagine que uma família pobre tenha sua renda duplicada enquanto a renda de uma família muito rica triplique. A distância relativa entre ambas pode aumentar, embora a primeira família tenha passado a alimentar-se melhor, consumir mais, sair da extrema pobreza ou proporcionar melhores condições aos filhos.

Por isso, avaliar o progresso social exclusivamente pela diferença entre o 1% mais rico e os 50% mais pobres pode produzir uma visão incompleta.

A concentração excessiva da renda merece ser estudada, inclusive por seus possíveis efeitos sobre mobilidade social, oportunidades e influência econômica. Contudo, o enriquecimento de uma parcela da sociedade não significa, por si só, o empobrecimento de outra.

Riqueza resultante de investimento, produtividade, inovação e capacidade empreendedora também pode produzir empresas, empregos, renda e arrecadação tributária.

A questão fundamental é saber se o desenvolvimento econômico está permitindo que aqueles situados na base da sociedade também avancem e vivam com dignidade.

E os indicadores recentes mostram avanços relevantes.


Milhões de brasileiros ultrapassaram as linhas monetárias de pobreza a partir de 2023

Inegavelmente a melhora ocorreu durante o terceiro governo Lula e constitui um resultado social relevante do período.

Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, utilizando a linha de pobreza então adotada pelo Banco Mundial — US$ 6,85 por pessoa por dia em paridade de poder de compra —, 31,6% da população brasileira estava abaixo da linha de pobreza em 2022.

Em 2023, o primeiro ano do governo Lula, essa proporção caiu para 27,4%.

Ou seja, em apenas um ano, aproximadamente 8,7 milhões de brasileiros deixaram essa condição: a população abaixo da linha caiu de 67,7 milhões para 59 milhões de pessoas.

A extrema pobreza apresentou movimento ainda mais expressivo.

Entre 2022 e 2023, sua incidência caiu de 5,9% para 4,4% da população. Em números absolutos, passou de aproximadamente 12,6 milhões para 9,5 milhões de pessoas.

Isso significa que cerca de 3,1 milhões de brasileiros deixaram a extrema pobreza em apenas um ano!

Os dados são da PNAD Contínua e foram sistematizados pelo IBGE na Síntese de Indicadores Sociais. Portanto, não se trata de estimativa produzida por partido político ou pelo governo, mas de estatísticas oficiais construídas a partir de pesquisa domiciliar por amostragem probabilística.


A melhora não terminou em 2023!

E a trajetória prosseguiu em 2024. Na edição seguinte da Síntese de Indicadores Sociais, o IBGE estimou que a proporção de pessoas abaixo da linha de pobreza caiu novamente, de 27,4% em 2023 para 23,1% em 2024. A extrema pobreza recuou de 4,4% para 3,5%. Segundo o Instituto, ambos foram os menores percentuais da série histórica considerada na publicação.

Além do mais, um estudo publicado em junho de 2026 por pesquisadores da FGV IBRE ajuda a enxergar uma trajetória mais longa.

Utilizando uma série harmonizada de rendimento domiciliar per capita, os pesquisadores estimaram que a pobreza brasileira caiu de 39,1% da população em 2021 para 25,1% em 2025.

No mesmo intervalo, a extrema pobreza teria diminuído de 11,2% para 4,6%.

Os percentuais não devem ser diretamente misturados aos números anteriores do IBGE porque há diferenças nas linhas e nos procedimentos utilizados. A conclusão relevante é a direção consistente apresentada por diferentes metodologias: a pobreza brasileira caiu fortemente nos últimos anos.

A FGV também identifica recuperação significativa da renda domiciliar per capita.

Portanto, não estamos diante apenas de uma mudança estatística na classificação das famílias. Houve crescimento dos recursos efetivamente disponíveis nos domicílios.


Trabalho talvez seja uma das partes mais importantes da história

Programas de transferência de renda têm importância evidente para famílias em situação de vulnerabilidade, ainda que seja incorreto atribuir toda a melhora exclusivamente às transferências governamentais.

Fato é que o mercado de trabalho também mudou substancialmente. O relatório de 2025 do Observatório Brasileiro das Desigualdades registrou que a taxa de desocupação havia chegado a 6,6% em 2024, representando uma queda de 1,2 ponto percentual em relação a 2023.

Por sua vez, o rendimento médio de todas as fontes apresentou crescimento real de 2,9% em 2024.

Conforme o relatório divulgado em 2026, referente predominantemente aos dados de 2025, o rendimento médio real de todas as fontes chegou a aproximadamente R$ 3.376, representando um crescimento de 5,3% em um ano.

A melhora, portanto, ocorreu simultaneamente em duas frentes essenciais: mais pessoas trabalhando e renda real maior.

Isso é particularmente importante porque uma estratégia sustentável de superação da pobreza precisa combinar proteção social com ampliação da capacidade das pessoas de obter renda pelo trabalho. As duas dimensões não são excludentes: as transferências protegem famílias vulneráveis e reduzem a pobreza no presente, enquanto emprego, qualificação, produtividade e crescimento da renda são fundamentais para ampliar autonomia e mobilidade social.


A segurança alimentar também melhorou

A melhora das condições materiais da população também aparece nos indicadores de acesso à alimentação. Mas aqui é necessário observar com cuidado o que exatamente está sendo medido.

Segundo o Relatório 2026 do Observatório Brasileiro das Desigualdades, elaborado a partir de dados do IBGE e com tratamento do DIEESE, a proporção da população que vivia em domicílios classificados em situação de insegurança alimentar moderada ou grave caiu de 9,5% em 2023 para 7,7% em 2024.

Os dados têm como fonte o módulo de Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), aplicado pelo IBGE no quarto trimestre de 2023 e novamente no quarto trimestre de 2024, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

A classificação utiliza a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), metodologia que avalia a experiência das famílias em relação ao acesso regular e adequado aos alimentos e classifica cada domicílio em quatro situações: segurança alimentar, insegurança alimentar leve, moderada ou grave.

É importante compreender corretamente o indicador: os 7,7% referem-se a pessoas que moravam em domicílios classificados nas categorias moderada ou grave, e não à proporção de domicílios brasileiros.

Outro indicador da mesma pesquisa ajuda a dimensionar a melhora. A parcela dos domicílios em situação de insegurança alimentar grave caiu de 4,1% em 2023 para 3,2% em 2024. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, isso corresponde a uma redução de aproximadamente 8,5 milhões para 6,5 milhões de pessoas vivendo em domicílios nessa condição — cerca de 2 milhões a menos em apenas um ano.

A comparação direta entre 2023 e 2024 é especialmente consistente porque ambos os resultados foram obtidos pela PNAD Contínua do IBGE, no quarto trimestre de cada ano e com aplicação da EBIA.

Existem levantamentos anteriores que permitem contextualizar a situação de 2022. O II VIGISAN, realizado pela Rede PENSSAN naquele ano também com base na EBIA, estimou que 15% dos domicílios brasileiros enfrentavam insegurança alimentar grave, atingindo aproximadamente 33 milhões de pessoas. Contudo, como se trata de outro inquérito, com desenho amostral próprio, esse número não deve ser apresentado como se integrasse uma série perfeitamente homogênea com a PNAD Contínua de 2023 e 2024.

Ainda assim, consideradas as respectivas diferenças metodológicas, os diferentes levantamentos apontam para uma melhora substancial das condições de segurança alimentar no período recente. E os dados comparáveis do próprio IBGE demonstram inequivocamente um avanço entre 2023 e 2024.


E a desigualdade?

É justamente aqui que surge o aparente paradoxo.

Segundo o Observatório Brasileiro das Desigualdades, em 2024 o rendimento médio do 1% mais rico correspondia a aproximadamente 30,5 vezes o rendimento dos 50% mais pobres.

Em 2025, essa relação aumentou para 31,5 vezes.

Outro indicador da PNAD Contínua mostra movimento semelhante: a renda dos 10% mais ricos passou de 13,2 vezes a dos 40% mais pobres em 2024 para 13,8 vezes em 2025.

Entretanto, o aumento da concentração relativa da renda não contradiz a redução da pobreza. Significa que os mais pobres podem ter melhorado sua situação mesmo que parcelas situadas no topo apresentaram crescimento ainda maior dos rendimentos.

A pergunta política e econômica passa a ser: qual desses fenômenos deve receber maior peso na avaliação do bem-estar social?


Tornar o rico menos rico ou fazer o pobre deixar de ser pobre?

Uma sociedade não deveria precisar escolher entre crescimento econômico e proteção social.

Isso não significa considerar irrelevante a concentração excessiva de renda ou patrimônio. Significa apenas reconhecer que redução da pobreza e redução da desigualdade relativa são objetivos distintos, embora possam e devam ser perseguidos conjuntamente.

O enriquecimento decorrente da criação de empresas, investimentos, inovação, aumento da produtividade e empreendedorismo pode gerar empregos, salários e arrecadação. Recursos tributários, por sua vez, financiam educação, saúde, infraestrutura e programas destinados aos mais vulneráveis.

O problema surge quando a riqueza decorre predominantemente de privilégios, monopólios protegidos, corrupção, captura do Estado ou ausência de concorrência.

Por isso, não parece adequado presumir que a riqueza de alguém seja necessariamente a causa da pobreza de outra pessoa.

Uma sociedade pode tornar-se simultaneamente mais rica e menos pobre.

O objetivo de uma política de desenvolvimento deveria ser construir um círculo virtuoso: investimento gera produtividade; produtividade favorece crescimento; crescimento produz empregos e renda; atividade econômica gera arrecadação; e recursos públicos bem empregados ampliam educação, saúde, infraestrutura e proteção social, aumentando novamente a capacidade produtiva da população.


O verdadeiro parâmetro deve ser a dignidade da pessoa humana

Isso nos conduz a uma discussão talvez mais importante que a simples comparação entre extremos da distribuição.

Qual deve ser o mínimo aceitável para uma pessoa viver com dignidade no Brasil?

Alimentação suficiente, moradia adequada, saneamento, educação de qualidade, atendimento de saúde, segurança, energia, acesso à tecnologia, possibilidade de trabalhar e alguma proteção diante de situações extraordinárias deveriam constituir um piso civilizatório.

Se a renda dos mais ricos crescer enquanto milhões de pessoas ultrapassam a linha da pobreza, conseguem emprego, aumentam sua renda real e passam a alimentar melhor suas famílias, há fundamentos objetivos para reconhecer que houve progresso social.

Isso não impede que a sociedade discuta tributação, concentração econômica e igualdade de oportunidades, mas significa reconhecer que desigualdade relativa e privação material são fenômenos diferentes.

Uma sociedade perfeitamente igualitária em que todos fossem pobres dificilmente poderia ser considerada um modelo de justiça social. 


O que efetivamente aconteceu a partir de 2023?

Considerando conjuntamente os levantamentos do IBGE, do Observatório Brasileiro das Desigualdades e estudos recentes da FGV IBRE, é possível sustentar com razoável segurança algumas conclusões.

A partir de 2023, primeiro ano do governo Lula 3, a pobreza caiu significativamente.

A extrema pobreza também apresentou redução expressiva.

O desemprego caiu para níveis historicamente baixos.

A renda real aumentou.

Indicadores de segurança alimentar melhoraram.

Ao mesmo tempo, permanecem desigualdades profundas entre homens e mulheres, brancos e negros, regiões do país e diferentes estratos econômicos.

E, em 2025, alguns indicadores mostraram nova elevação da concentração relativa dos rendimentos.

Portanto, embora o quadro brasileiro não permita considerar que o país alcançou uma situação satisfatória seria equivocada a afirmação de que nada melhorou e mais ainda alguém dizer que piorou.


Uma observação necessária sobre a metodologia

Comparações desse tipo exigem alguns cuidados.

A principal fonte das informações de renda é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, uma pesquisa amostral probabilística realizada em domicílios brasileiros.

O Observatório Brasileiro das Desigualdades não produz uma única pesquisa independente para todos esses indicadores. Ele reúne e sistematiza informações provenientes do IBGE e de diferentes bases administrativas, organizando-as em dimensões como renda, trabalho, educação, saúde, segurança alimentar, gênero, raça e território.

Já estudos da FGV IBRE podem utilizar critérios próprios de harmonização e linhas de pobreza diferentes.

Consequentemente, percentuais calculados segundo linhas distintas de pobreza não devem ser simplesmente colocados numa mesma série como se fossem idênticos.

Também é necessário reconhecer uma limitação das pesquisas domiciliares: elas conseguem captar muito melhor rendimentos comuns do que a renda e, principalmente, o patrimônio das pessoas extremamente ricas.

Por essa razão, este artigo não pretende demonstrar que a concentração econômica deixou de ser um problema. Seu objetivo é responder a uma pergunta diferente e mais concreta: a condição material dos brasileiros situados na parte mais pobre da sociedade melhorou desde 2022?

Os indicadores disponíveis permitem responder que houve melhora significativa das condições materiais de milhões de brasileiros, particularmente entre parcelas da população de menor renda.


O desafio agora é transformar melhora em mobilidade social

Retirar uma família da extrema pobreza é uma conquista. Retirá-la da pobreza é outra. Entretanto, permitir que seus filhos tenham educação suficiente para competir em igualdade de condições e alcançar posições econômicas melhores representa uma transformação ainda maior.

Esse deveria ser o próximo estágio e inclui a educação básica que é de responsabilidade dos estados e municípios.

O Brasil precisa continuar reduzindo a pobreza sem transformar seus cidadãos em dependentes permanentes do Estado. Precisa combinar proteção social com educação, qualificação profissional, emprego, empreendedorismo, investimento e crescimento econômico.

Não deveria haver contradição entre incentivar quem produz riqueza e proteger quem ainda não conseguiu alcançar condições mínimas de dignidade. Aliás, devemos reconhecer que os programas sociais contribuem para que os recursos distribuídos aos mais pobres aqueçam o mercado de consumo.

Todavia, o verdadeiro sucesso ocorrerá quando cada vez menos brasileiros precisarem de assistência porque passaram a obter, por seu próprio trabalho e pelas oportunidades oferecidas por uma economia dinâmica, renda suficiente para construir uma vida digna.

Mais importante do que perguntar quanto os ricos possuem é acompanhar quantos brasileiros ainda vivem sem o necessário — e quantos estão conseguindo superar essa condição.

Os números numa comparação com os anos anteriores desde 2022 mostram que milhões conseguiram melhorar de vida. Precisamos agora é fazer com que esse movimento continue.

O Brasil não pode retroceder!


Fontes e referências metodológicas


  • IBGE — Síntese de Indicadores Sociais: publicação anual destinada à análise das condições de vida, padrão de vida, trabalho, rendimentos, pobreza e desigualdades da população brasileira.
  • IBGE — PNAD Contínua: principal base amostral utilizada para indicadores recentes de trabalho e rendimento.
  • Observatório Brasileiro das Desigualdades — Relatórios 2024, 2025 e 2026: acompanhamento multidimensional das desigualdades brasileiras, a partir de indicadores produzidos por diferentes fontes oficiais.
  • DIEESE — Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2025: sistematização dos resultados referentes predominantemente a 2024.
  • FGV IBRE — “Renda cresce e pobreza cai, mas Brasil segue marcado por desigualdades regionais” (2026): análise da evolução da renda domiciliar per capita, pobreza e extrema pobreza no período recente.
  • Banco Mundial: referência internacional para linhas monetárias de pobreza utilizadas em parte das estatísticas do IBGE.

📷: Ricardo Stuckert