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sábado, 17 de janeiro de 2026

As Margens do Tempo



Não é o passado que é estranho.
É a maneira como aprendemos a esquecê-lo.

A história costuma ser apresentada como uma escada: degrau após degrau, uma ascensão contínua que começa na ignorância e culmina no presente. Tudo o que vem antes é tratado como ensaio, atraso ou preparação imperfeita. O mundo moderno, confortável em sua narrativa de progresso, olha para trás como quem observa ruínas — belas, talvez, mas definitivamente superadas.

Este conto nasce da recusa dessa simplicidade.

Ambientado no ano 1000 — um ponto frequentemente descrito como obscuro, instável ou atrasado —, ele acompanha um cientista contemporâneo lançado, por acidente, em um passado que não corresponde às expectativas que herdou. Em vez de barbárie e estagnação, encontra cidades vivas. Sistemas de água. Hospitais. Bibliotecas. Métodos. Debate. Tradução. Continuidade.

Córdoba, Constantinopla, Cairo, Jerusalém e Bagdá não surgem aqui como cenários exóticos, mas como centros ativos de civilização, cada um guardando uma resposta distinta à mesma pergunta fundamental: como sustentar o conhecimento humano diante da impermanência?

À medida que o viajante atravessa geografias e culturas, a própria noção de avanço começa a se desfazer. O tempo deixa de parecer uma linha reta e assume a forma de uma constelação — feita de focos de luz que se acendem, se apagam e, às vezes, reaparecem séculos depois sob outros nomes.

As Margens do Tempo não é uma história sobre alterar o passado, mas sobre ser alterado por ele. Sobre perceber que nem todo progresso é visível, que nem toda permanência é atraso e que algumas das ideias mais modernas da humanidade já respiraram livremente antes de serem silenciadas.

O que acontece quando alguém descobre que o passado não precisa ser salvo — apenas lembrado?

É a essa pergunta que as páginas seguintes retornam, uma cidade por vez, até que o tempo, como sempre, decida por conta própria o que deve permanecer.


A Cidade Onde o Tempo Não Caíra

O laboratório cheirava a ozônio e café frio. As equações ainda pulsavam na tela quando o erro aconteceu — não um erro conceitual, mas humano: um parâmetro ajustado com pressa, uma vírgula deslocada. O cientista nunca saberia dizer se ouviu um som ou se o mundo simplesmente se dobrou sobre si mesmo.

Houve luz. Depois, silêncio.

Quando abriu os olhos, não havia concreto, nem cabos, nem aço. O chão sob suas mãos era de pedra lisa, morna, e refletia a luz do sol como se tivesse sido polida por séculos de passos. O ar era limpo, surpreendentemente fresco, carregado de aromas que ele não reconhecia de imediato — água corrente, folhas esmagadas, especiarias.

Levantou-se com dificuldade. À sua frente, uma cidade.

Mas não uma ruína, nem um amontoado de casas primitivas, como sua imaginação treinada por séculos de clichês lhe ensinara a esperar. Era uma cidade viva, vasta, organizada, pulsante.

Córdoba.

As ruas não eram caóticas. Eram estreitas, sim, mas planejadas, sombreadas por arcadas e toldos de tecido claro. A água corria em canais rasos ao longo das vias, murmurando como um coração constante. Ele se ajoelhou instintivamente e tocou a corrente: limpa, fria. Não era esgoto — era abastecimento.

Homens e mulheres passavam com naturalidade. Alguns vestiam túnicas simples, outros tecidos finos, bordados com precisão matemática. Havia comerciantes discutindo pesos e medidas com seriedade quase científica, crianças recitando versos em voz alta, aprendizes observando artesãos com atenção concentrada. Não havia gritos de desespero, nem sujeira acumulada, nem o odor pesado que ele associava às cidades pré-modernas.

O cientista sentiu algo raro: desorientação intelectual.

Ao longe, erguiam-se edifícios de uma elegância funcional. Não monumentos vazios, mas construções pensadas para durar e servir. Cúpulas claras refletiam o sol; pátios internos abrigavam jardins geométricos, onde laranjeiras e fontes conviviam em equilíbrio calculado. Ele percebeu que a cidade respirava — arquitetura e natureza em diálogo.

Entrou em um edifício maior, guiado mais pela curiosidade do que pela razão. Lá dentro, o silêncio era respeitoso. Fileiras de mesas, pergaminhos, instrumentos. Um homem de barba grisalha discutia com jovens atentos, traçando diagramas no chão com um bastão. O cientista reconheceu símbolos: astronomia. Não rudimentar — precisa. Observacional. Testada.

Mais adiante, ouviu falar de medicina. De corpos estudados não por superstição, mas por método. De doenças descritas, classificadas, tratadas. Falavam de equilíbrio, de prevenção, de higiene como princípio — não como milagre.

Ele sentiu um nó na garganta.

Em seu tempo, aprendera a ver o passado como uma longa noite interrompida apenas pela ciência moderna. Mas ali, naquela cidade do ano 1000, havia luz contínua. Não elétrica, mas intelectual. Uma luz feita de tradução, de preservação, de avanço. Aristóteles dialogava com médicos persas; matemáticos indianos conversavam com filósofos andalusinos. O conhecimento não tinha fronteira religiosa — tinha método.

Ao cair da noite, as ruas não mergulharam na escuridão total. Lâmpadas a óleo, bem distribuídas, mantinham a cidade segura. Pessoas caminhavam. Conversavam. Viviam.

O cientista sentou-se à beira de uma fonte e compreendeu, com uma clareza quase dolorosa, que seu maior erro não fora o experimento — fora a presunção. A ideia de que o progresso era uma linha reta que começava com ele e seus pares.

Ali, em Córdoba, o tempo não “regredira”. Apenas seguira outro caminho.

Quando o fenômeno finalmente o puxou de volta — luz, vertigem, retorno —, ele trouxe consigo algo que nenhuma equação poderia medir: a certeza de que a história não é uma escada, mas uma constelação.

E que, por um instante, ele tocara uma estrela esquecida.


A Cidade Que Nunca Caiu

Dois dias depois, o laboratório já não lhe parecia o mesmo.

Nada havia mudado — os cabos estavam no lugar, as telas intactas, o café ainda esquecido na xícara —, mas ele havia retornado diferente. Córdoba não saía de seus pensamentos. Não como lembrança, mas como correção histórica. Como uma frase mal traduzida que, finalmente, fazia sentido.

Decidiu repetir o experimento.

Desta vez, com cautela obsessiva. Reviu parâmetros, ajustou campos, recalculou margens de erro. Não buscava o passado por curiosidade; buscava confirmação. Queria voltar àquela cidade, caminhar mais, observar melhor, compreender se o que vira era exceção ou regra.

Quando ativou o sistema, não houve falha aparente.

Houve, porém, o mesmo colapso do espaço.

Mas o cheiro era outro.

Ao abrir os olhos, sentiu o vento — forte, salgado. O ar trazia o peso do mar e algo mais antigo: pedra, incenso, metal. O chão sob seus pés era amplo, pavimentado com blocos irregulares, gastos por incontáveis gerações. Não havia canais de água à vista, mas cisternas profundas, bocas escuras que guardavam reservas invisíveis.

Levantou o olhar.

Diante dele, muralhas.

Não simples muros, mas camadas de história empilhadas em pedra. Torres, ameias, passagens elevadas. A cidade não se oferecia — ela se defendia.

Constantinopla.

A percepção veio antes do nome. A escala era esmagadora. Nada ali parecia improvisado. Cada rua conduzia a outra mais larga, cada via principal desembocava em praças monumentais. O traçado urbano não buscava suavidade; buscava permanência.

Seguiu o fluxo humano até uma avenida larga, ladeada por colunas antigas. Reconheceu fragmentos de um mundo que julgava perdido: Roma ainda viva, não como ruína, mas como esqueleto funcional. Arcos sustentavam edifícios reutilizados, estátuas antigas dividiam espaço com símbolos cristãos. O passado não fora demolido — fora absorvido.

As pessoas caminhavam com propósito. Funcionários do Estado, mercadores, monges, soldados. A diversidade era visível, mas contida por uma ordem rigorosa. Não havia o colorido aberto de Córdoba; havia disciplina, protocolo, hierarquia. Ainda assim, não havia miséria espalhada, nem abandono evidente.

O cientista passou diante de um hospital.

Reconheceu-o não pelo nome, mas pela organização: alas separadas, silêncio controlado, cuidadores atentos. Ali, a medicina não era caridade improvisada — era instituição. Herdada, catalogada, praticada.

Mais adiante, ouviu o canto.

Não o chamado islâmico que ainda ecoava em sua memória recente, mas coros graves, ressoando em uma construção colossal. Aproximou-se, e a visão o paralisou.

A cúpula parecia flutuar.

A Hagia Sophia não era apenas um edifício; era um argumento arquitetônico. Luz filtrada, espaço calculado, acústica quase sobrenatural. O cientista sentiu algo que não sentira em Córdoba: peso histórico absoluto. Ali, a cidade não era jovem nem curiosa — era consciente de si mesma como centro do mundo.

Sentou-se em silêncio.

Percebeu então a diferença essencial entre as duas cidades que o tempo lhe mostrara.

Córdoba avançava — traduzia, experimentava, expandia o saber.
Constantinopla preservava — administrava, registrava, sustentava.

Uma projetava o futuro; a outra impedia o colapso do passado.

Ambas eram avançadas. Ambas eram complexas. Ambas desmentiam a narrativa simplista de uma Europa adormecida e de um Oriente exótico. O mundo do ano 1000 era multipolar, sofisticado, consciente — apenas esquecido.

Quando a instabilidade temporal começou novamente — o zumbido baixo, a pressão no peito —, ele não resistiu. Já compreendia que não controlava o destino de suas viagens.

Antes de desaparecer, olhou uma última vez para a cidade.

E teve uma certeza que nenhuma cronologia moderna lhe ensinara:

o mundo não despertou com a modernidade —
ele apenas mudou de guardiões.


A Cidade do Rio Eterno

Desta vez, ele acertou.

Ou assim pensou.

Os cálculos estavam exatos, os campos estáveis, o pulso temporal contido dentro das margens teóricas. Não haveria dispersão, nem desvio. O destino era claro, escolhido conscientemente: Cairo, o coração do Nilo, o eixo entre mundos.

A luz veio — intensa, breve — e cessou.

O chão era de terra batida misturada à pedra. O ar, quente e úmido, parecia carregar séculos em suspensão. Antes mesmo de abrir os olhos por completo, ele ouviu: água em movimento, vozes profundas, o ranger distante de madeira, o som ritmado de passos e animais.

Quando se ergueu, o rio estava diante dele.

Não como paisagem, mas como presença. O Nilo não corria — ordenava. Barcos cruzavam suas águas com naturalidade ancestral. Mercadorias, pessoas, notícias. Tudo passava por ali. Tudo dependia dele.

Cairo — ou melhor, al-Qahira — se estendia além, numa sucessão de bairros vivos, densos, intensamente humanos. Diferente de Córdoba e de Constantinopla, a cidade não parecia contemplar o tempo; ela o atravessava.

As ruas eram cheias, vibrantes, quase excessivas. Mercados se espalhavam em todas as direções: grãos, tecidos, livros, especiarias, metais trabalhados. O cientista sentiu o peso do conhecimento circulando não em silêncio, mas em debate. Professores discutiam jurisprudência, estudantes recitavam trechos memorizados, escribas copiavam textos com velocidade treinada.

Havia hospitais. Havia escolas. Havia observadores do céu e do corpo humano. Mas tudo ali parecia menos cerimonial e mais prático. O Cairo não preservava como Constantinopla, nem refinava como Córdoba — o Cairo organizava o mundo em movimento.

Ao cair da tarde, ele percebeu o primeiro sinal de algo errado.

Nada aconteceu.

Nenhum retorno. Nenhuma instabilidade. Nenhum chamado.

Esperou.

O sol desceu lentamente, tingindo a cidade de tons ocres e dourados. O chamado à oração ecoou, profundo, harmônico, organizando o tempo social com uma precisão que relógios modernos imitariam séculos depois.

Ainda assim, nada.

O cientista sentiu, pela primeira vez, medo real.

Não o medo físico — a cidade era segura, funcional, viva —, mas o medo ontológico: e se não houvesse volta?
E se o tempo, como o Nilo, seguisse apenas em uma direção?

Ao anoitecer, exausto e desorientado, foi abordado por um homem de fala calma e olhar atento. Não havia desconfiança em seu tom, apenas curiosidade controlada. Ofereceu-lhe água, pão, um lugar para descansar. Em troca, nada além de histórias, se ele quisesse contá-las.

Aceitou.

A casa era simples, mas fresca, organizada em torno de um pátio interno. A água corria ali também — sempre a água — como se o mundo islâmico tivesse entendido algo essencial que seu próprio tempo ainda lutava para reaprender.

Deitou-se sob um céu que não conhecia, pontilhado de estrelas familiares e, ainda assim, deslocadas.

Foi então que aconteceu.

No silêncio profundo da noite, sentiu o mesmo arrepio elétrico do laboratório. Não havia luz, nem ruptura — apenas uma presença. Uma vibração precisa, contida, quase respeitosa.

A mensagem não veio em palavras faladas, mas em compreensão imediata.

Você não está perdido.
O deslocamento foi maior do que o previsto.
O retorno imediato não é possível.
Desloque-se para Bagdá.
Dentro de um ano, no local indicado, você será resgatado.

Bagdá.

O nome ressoou como promessa e advertência. Ele conhecia sua história — a Casa da Sabedoria, os astrônomos, os médicos, os tradutores. Mas agora não era mais história. Era destino.

Sentou-se na escuridão, respirando fundo.

Um ano.

Um ano vivendo em um mundo que não era o seu, mas que, ironicamente, parecia compreender melhor certas verdades fundamentais: que o conhecimento se preserva, que a cidade pode ser humana, que o passado não é atraso — é fundação.

Olhou para o céu mais uma vez.

Talvez não estivesse preso no tempo.

Talvez estivesse, finalmente, dentro dele.


A Cidade das Três Memórias

A decisão foi tomada ao amanhecer.

O cientista observava o Nilo enquanto a cidade despertava, como se o próprio rio lhe ensinasse a aceitar o fluxo. Bagdá ficava a leste, distante, além de desertos, rotas comerciais, impérios sobrepostos. Não havia atalhos temporais disponíveis — apenas o caminho dos homens.

Partiria por terra.

A caravana não era grande. Mercadores, viajantes, estudiosos, alguns peregrinos. Pessoas acostumadas ao deslocamento lento, à ideia de que o mundo se revela passo a passo. Ninguém lhe perguntou de onde vinha; naqueles tempos, o movimento era resposta suficiente.

À medida que o Cairo ficava para trás, ele sentiu algo novo: o silêncio do espaço aberto. O deserto não era vazio — era método. Durante o dia, a luz parecia absoluta; à noite, o céu se abria em profundidade quase dolorosa. As estrelas eram mapas vivos, conhecidos pelos guias com precisão prática, não poética.

O cientista percebeu que sua formação moderna o havia preparado para compreender fórmulas, mas não para habitar o tempo. Ali, cada dia tinha peso. Cada parada era necessária. A pressa não tinha utilidade.

Ao longo da jornada, cidades surgiam como ilhas: Gaza, Ramla, vilas fortificadas, mercados provisórios montados em torno da água. O mundo do ano 1000 era mais conectado do que aprendera, mas essa conexão exigia corpo, espera, convivência.

E então, após dias de estrada, ela apareceu.

Jerusalém.

Não se anunciou por grandiosidade, mas por densidade simbólica. As muralhas não eram as maiores que ele vira, nem as ruas as mais organizadas. Ainda assim, algo ali pesava mais que a arquitetura.

Entraram pela cidade em silêncio quase involuntário.

Ali, o tempo parecia dobrar-se sobre si mesmo. Cada pedra carregava camadas invisíveis. O cientista sentiu uma estranha vertigem — não temporal, mas histórica. Era como se todas as narrativas que aprendera disputassem o mesmo espaço físico.

Ouviu línguas diferentes. Viu trajes distintos. Reconheceu ritos que se cruzavam sem se fundir. Judeus, cristãos, muçulmanos — todos caminhando pelas mesmas ruas estreitas, cada qual sustentando sua própria eternidade.

Jerusalém não era como Córdoba, onde o conhecimento fluía.
Não era como Constantinopla, onde o império se preservava.
Não era como o Cairo, onde o mundo se organizava.

Jerusalém lembrava.

Era uma cidade construída menos para viver e mais para significar.

O cientista caminhou até um ponto elevado e olhou ao redor. Percebeu que ali não estava apenas em trânsito geográfico, mas em uma pausa imposta pelo próprio curso da história. Bagdá ainda o aguardava, distante. O resgate, prometido, parecia subitamente abstrato.

Pela primeira vez desde a primeira viagem, sentiu dúvida.

Se o tempo podia acolhê-lo assim — com cidades vivas, pessoas reais, escolhas concretas —, então o retorno já não era simples regressão ao ponto de partida. Seria outra ruptura.

Ao cair da noite, Jerusalém acendeu suas poucas luzes. Não para iluminar ruas, mas para marcar presença. O cientista compreendeu que aquela cidade não pertencia a um império específico, nem a uma época definida.

Ela pertencia à memória humana.

E enquanto se preparava para seguir viagem nos dias seguintes, teve a sensação inquietante de que Jerusalém não era apenas uma parada — era um aviso silencioso:

nem todo caminho através do tempo é feito para ser atravessado sem transformação.


A Cidade Onde o Conhecimento Respirava

A estrada entre Jerusalém e Bagdá não era apenas longa — era dilatadora do espírito.

A caravana avançava por planícies abertas e trechos áridos, cruzando rios menores, postos de descanso, cidades que existiam porque o comércio exigia pausa. O cientista aprendeu a medir o tempo não pelo calendário, mas pelo corpo: o cansaço dos pés, o ritmo dos animais, a repetição das refeições simples. Cada dia parecia retirar uma camada de urgência moderna que ele nem sabia carregar.

Quando o Tigre surgiu no horizonte, amplo e calmo, ele compreendeu que estava próximo do destino prometido.

Bagdá não se revelava de uma vez. Primeiro, os campos irrigados. Depois, os bairros externos, densos e vivos. Por fim, a cidade circular — organizada, consciente de sua centralidade. Diferente de todas as outras que visitara, Bagdá não se apoiava no passado nem apenas no presente: ela se projetava para o pensamento.

Entrar em Bagdá era entrar em um sistema.

As ruas eram cheias, mas funcionais. Oficinas conviviam com escolas, mercados com bibliotecas. O som predominante não era o da multidão, mas o do debate. Pessoas discutiam textos, interpretações, cálculos. O conhecimento ali não era reverenciado em silêncio — era usado.

Ele encontrou abrigo com facilidade. Um quarto simples, mas limpo, próximo a um complexo de estudo. Em troca, ofereceu o que aprendera a fazer desde o Cairo: ouvir, observar, ajudar quando possível. Logo, tornou-se presença constante em círculos de estudiosos, copistas, astrônomos.

A Casa da Sabedoria não era um monumento isolado — era um ecossistema. Textos gregos, persas, indianos circulavam em tradução contínua. Médicos discutiam tratamentos baseados em observação; matemáticos refinavam métodos; astrônomos ajustavam instrumentos com paciência artesanal.

O cientista sentia algo paradoxal: ali, mil anos no passado, ele não era um estrangeiro intelectual. Muitos conceitos lhe eram familiares — método, hipótese, revisão. O que mudava era o ritmo: o saber não servia ao lucro imediato nem à glória pessoal. Servia à continuidade humana.

Os meses passaram sem que ele percebesse.

Adotou uma rotina. Manhãs de estudo e conversa. Tardes ajudando em observações do céu, mesmo que fingisse ignorância para não revelar demais. Noites de reflexão silenciosa à beira do rio, observando Bagdá respirar sob as estrelas.

E então, sem aviso, a contagem começou a pesar.

Duas semanas.

A mensagem não se repetira, mas ele a sentia com clareza crescente, como um campo se intensificando. O ponto de resgate estava definido. O tempo, fechado.

Foi aí que o conflito surgiu — não como explosão, mas como erosão lenta.

Voltar significava retornar a um mundo que ele agora via com distância crítica: a ideia de progresso linear, o esquecimento seletivo, a arrogância de julgar o passado como atraso. Permanecer significava abdicar de tudo o que conhecia, inclusive da própria identidade oficial, para viver como mais um elo anônimo numa cadeia de transmissão do saber.

Em Bagdá, ele não era herói nem profeta. Era um homem útil.

E isso o perturbava profundamente.

Em seu tempo, passara a vida tentando provar relevância. Ali, a relevância era natural, integrada, quase invisível. Ninguém precisava ser genial para contribuir; bastava estar disposto a aprender e preservar.

Na última semana, evitou o rio.

Caminhava mais, observava menos. Cada detalhe da cidade parecia agora uma pergunta direta: Você pertence a onde?
À segurança do retorno ou à densidade do presente vivido?

Na véspera da contagem final, sentou-se sozinho, com um manuscrito aberto diante de si — uma tradução em andamento, imperfeita, humana, cheia de margens anotadas. Percebeu que aquele texto sobreviveria a ele, talvez por séculos. Sua própria vida moderna, não necessariamente.

Bagdá não lhe pedia nada.

E isso tornava a escolha ainda mais difícil.

Quando fechou os olhos naquela noite, soube que o resgate viria. A física cumpriria sua promessa. Mas compreendeu, com uma clareza silenciosa, que voltar já não significava regressar inteiro.

Porque, em algum ponto entre Córdoba e Bagdá, ele deixara de ser apenas um visitante do passado.

Tornara-se parte dele.


O Ponto Onde o Tempo Decide

A última noite chegou sem cerimônia.

Bagdá não anunciou o momento. O rio seguia seu curso, os estudiosos ainda discutiam sob lamparinas, os copistas continuavam a traçar letras que sobreviveriam a impérios. Nada indicava que, para um único homem, o tempo estava prestes a se fechar.

Ele caminhou até o local indicado — um espaço discreto, quase banal. Nenhum marco, nenhuma solenidade. Apenas o céu aberto e o murmúrio distante da cidade. Sentiu o campo se formar lentamente, como uma pressão que não doía, mas exigia atenção. A física, fiel, cumpria o acordo.

E, ainda assim, algo não se encaixava.

Não houve o clarão imediato. Nem o colapso brusco que aprendera a reconhecer. Houve uma hesitação — curta, quase imperceptível, mas real. Como se o próprio tecido do tempo avaliasse o que estava prestes a remover.

Ele pensou em Córdoba, na água correndo pelas ruas.
Pensou em Constantinopla, na cúpula que flutuava.
Pensou no Cairo, no Nilo organizando o mundo.
E, por fim, em Bagdá — não como cidade, mas como método.

Então percebeu algo inquietante:
em nenhuma dessas viagens ele fora apenas observador.

Tocara objetos. Conversara. Aprendera.
Deixara vestígios mínimos, porém reais.

Talvez o tempo não fosse uma estrada a ser cruzada, mas um equilíbrio a ser mantido.

A pressão aumentou. O ar pareceu vibrar. Por um instante, ele teve certeza de que seria puxado de volta — ao laboratório, às telas frias, à segurança de um mundo que se julgava único herdeiro do progresso.

Mas, no mesmo instante, sentiu outra coisa:
um peso nos pés.
Como se algo o ancorasse.

Não uma força física — uma necessidade.

Imagens atravessaram sua mente sem ordem: manuscritos incompletos, traduções interrompidas, observações ainda por registrar. Pessoas que não saberiam que precisariam dele, mas que sentiriam sua ausência. Conhecimentos que talvez não atravessassem os séculos sem pequenas mãos anônimas para sustentá-los.

O campo oscilou.

Ele compreendeu, então, que a escolha jamais fora plenamente sua. A tecnologia abrira a porta, mas o tempo decidia quem podia atravessá-la de volta. Nem todos os viajantes eram devolvidos. Alguns eram absorvidos — não como punição, mas como correção.

Quando a luz finalmente veio, não foi violenta.

Foi suave.

E breve.

Na manhã seguinte, Bagdá acordou como sempre. O rio correu. As escolas abriram. Um copista comentou a ausência de um conhecido recente, alguém silencioso, atento, que fazia perguntas estranhas, mas úteis. Alguém que não retornara à margem naquela noite.

Em outro tempo — talvez — um laboratório registrou uma flutuação inexplicável. Um sistema desligou-se sozinho. Nenhum corpo foi encontrado. Nenhum dado conclusivo permaneceu.

Apenas uma variável em aberto.

Séculos depois, um manuscrito sobreviveria por acaso.
Margens anotadas com precisão incomum.
Uma tradução particularmente elegante.
Um detalhe técnico que parecia… adiantado.

Nada que provasse coisa alguma.

Afinal, o tempo raramente deixa testemunhas claras.

Às vezes, ele apenas escolhe guardar alguém.


Epílogo — As Margens do Tempo

O manuscrito não deveria estar ali.

Era isso que incomodava a pesquisadora desde o primeiro momento.

O arquivo era legítimo — Biblioteca Nacional, fundo oriental, códice catalogado desde o século XIX. O papel, compatível. A tinta, analisada. A caligrafia, coerente com copistas de Bagdá do início do século XI. Nada, absolutamente nada, indicava falsificação.

E ainda assim, algo não se encaixava.

Ela passara a tarde inteira lendo aquela tradução árabe de um tratado grego menor, sem grande fama. O texto em si era correto, até elegante. Mas eram as margens que chamavam atenção. Comentários curtos, precisos, escritos por uma segunda mão — não do copista, mas de alguém que revisara o texto enquanto ele ainda circulava.

As notas não eram comuns.

Não explicavam o óbvio. Não citavam autoridades. Não invocavam tradição. Faziam perguntas metodológicas. Questionavam pressupostos. Sugeriam testes. Usavam uma linguagem estranhamente econômica, quase moderna.

Em um trecho sobre astronomia, a anotação dizia apenas:

“A observação deve preceder a harmonização do modelo.”

Ela franziu a testa.

Aquilo não era típico. Nem para Bagdá, nem para o século XI. Soava… deslocado.

Mais adiante, em um comentário médico:

“O relato do paciente é dado empírico, não ruído.”

A pesquisadora se recostou na cadeira.

Ela conhecia bem a história da ciência islâmica. Sabia que ali havia método, observação, crítica. Mas aquela forma de pensar parecia condensada demais, direta demais — como se alguém já tivesse atravessado debates que só seriam formalizados séculos depois.

No verso da última página, quase apagada, havia uma nota isolada, escrita com menos cuidado, como se não fosse destinada a leitores futuros:

“Preservar também é avançar.”

Não havia assinatura.

Nenhuma data.

Apenas um símbolo pequeno, geométrico, que ela não reconheceu de imediato — não era decorativo, nem religioso. Parecia mais um marcador funcional, como os que se usam para indicar ponto de referência.

Ela fechou o manuscrito devagar.

Naquela noite, em casa, abriu o computador e, sem saber exatamente por quê, pesquisou antigos projetos experimentais de física teórica desaparecidos, nunca concluídos, citados apenas em notas de rodapé. Um nome surgiu, quase irrelevante, associado a um laboratório desativado após um “evento não reprodutível”.

Nada conclusivo.

Ainda assim, ela imprimiu uma imagem do manuscrito e a colocou ao lado da tela. Comparou a geometria do símbolo marginal com diagramas contemporâneos de campos teóricos. Não coincidiam — mas rimavam.

Dias depois, ao submeter um artigo preliminar, escolheu um título cauteloso:

“Anotações marginais anômalas em um manuscrito bagdadino do século XI.”

Nenhuma afirmação extraordinária. Nenhuma hipótese ousada.

Mas, ao final, incluiu uma frase que hesitou antes de manter:

“Algumas ideias parecem não pertencer inteiramente ao tempo em que aparecem.”

O artigo foi aceito com revisões.

O manuscrito voltou ao arquivo.

O mundo seguiu.

E, em algum ponto indeterminado entre o que foi e o que poderia ter sido, o tempo permaneceu em silêncio — guardando, como sempre, apenas fragmentos suficientes para que a pergunta nunca desaparecesse por completo.

Porque certas viagens não deixam rastros claros.

Deixam apenas margens.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

16 de Janeiro de 1822: José Bonifácio e o Primeiro Gabinete Brasileiro



204 anos, o Brasil vivia um momento decisivo em sua caminhada rumo à independência. Em 16 de janeiro de 1822, José Bonifácio de Andrada e Silva, conhecido como o Patriarca da Independência, assumiu a liderança do primeiro gabinete ministerial formado por brasileiros, nomeado por Dom Pedro I.

Embora ilegal aos olhos das Cortes de Lisboa, que insistiam em recolonizar o Brasil e retirar parte da autonomia conquistada após a vinda da corte portuguesa em 1808, esse ministério representava um passo concreto para que o país começasse a se governar com voz própria. José Bonifácio, com sua visão política e firmeza, tornou-se o principal articulador das ações que levariam, apenas oito meses depois, à Independência do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822.

O contexto histórico era complexo. As Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, sediadas em Lisboa, tentavam restringir o poder de Dom Pedro e recolonizar o Brasil. Em resposta, o gabinete de José Bonifácio buscou defender os interesses brasileiros, preparando o terreno político e administrativo para um país que começava a afirmar sua soberania.

Esse episódio é mais do que uma data no calendário: é um símbolo da coragem política e da importância de lideranças comprometidas com a nação. José Bonifácio e seu ministério mostram que a independência não foi um ato isolado, mas um processo construído com estratégia, diálogo e determinação.

Relembrar essa data é também refletir sobre como memória, política e cidadania estão interligadas, e como decisões corajosas podem transformar o destino de um país.

🇧🇷 Que nunca falte coragem para defender o Brasil


Curiosidade: José Bonifácio era natural de Santos, São Paulo, e tinha formação em mineralogia e química, além de experiência em política europeia. Sua atuação no Brasil mostra como conhecimento técnico e visão política caminham juntos na construção da história.


OBS: Desenho póstumo de José Bonifácio por S. A. Sisson, feito entre 1857 e 1863.

Chegar à cobertura: o novo enfoque da segurança pública no Brasil



O debate sobre segurança pública voltou ao centro da agenda nacional em um momento particularmente sensível: a troca no comando do Ministério da Justiça, a tramitação da PEC da Segurança Pública no Congresso e uma série de operações recentes de grande impacto contra o crime organizado. Longe de serem fatos isolados, esses elementos se conectam e ajudam a compreender o momento atual.

Em matéria publicada pela Agência Brasil, o presidente Lula afirmou que a política de segurança pública vive um “bom momento”, destacando operações estruturais de combate ao crime organizado, como a Operação Carbono Oculto, a apreensão de navios com combustível contrabandeado e investigações financeiras de grande alcance. Mais do que a enumeração de ações, o discurso sinaliza uma mudança de enfoque: o combate ao crime não pode se limitar à violência nas periferias, mas precisa alcançar as estruturas econômicas e decisórias que sustentam organizações criminosas.

A Operação Carbono Oculto, por exemplo, ilustra bem essa lógica estrutural. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a investigação resultou no bloqueio judicial de mais de R$ 1 bilhão em bens, além da identificação de um esquema que movimentou dezenas de bilhões de reais em fraudes no setor de combustíveis. Estimativas oficiais apontam movimentações superiores a R$ 50 bilhões em operações financeiras suspeitas, envolvendo importações fraudulentas, créditos tributários indevidos e estruturas paralelas de lavagem de dinheiro. Trata-se de um ataque direto ao coração econômico do crime organizado — algo historicamente raro no país.

Esse cenário dialoga diretamente com os pontos que abordei em Saída de Lewandowski: o interino e os desafios da Justiça, ao analisar a importância da continuidade administrativa em um ministério estratégico. A transição no comando não pode significar paralisia institucional. Em áreas sensíveis como segurança pública, a previsibilidade e a manutenção das políticas em curso são essenciais para que operações complexas e investigações de longo prazo não sofram descontinuidade.

A própria fala do presidente reforça essa lógica: não se trata de ações pontuais ou espetaculares, mas de um esforço coordenado e persistente do Estado brasileiro. Para que isso ocorra, o fator institucional é tão importante quanto o operacional. Grandes investigações financeiras, cooperação entre Polícia Federal, Receita Federal, Ministérios Públicos e órgãos estaduais dependem de estabilidade administrativa e comando técnico permanente.

Esse debate já havia sido antecipado no texto Saída de Lewandowski e os desafios da segurança pública, no qual destaquei que o ano de 2026 se apresenta como decisivo para a consolidação — ou não — de uma política de segurança pública mais integrada. A tramitação da PEC da Segurança Pública surge justamente como tentativa de transformar diretrizes em política de Estado, superando a fragmentação histórica entre União, estados e municípios.

Os dados nacionais ajudam a contextualizar esse debate. De acordo com o Mapa da Segurança Pública, do próprio Ministério da Justiça, o Brasil registrou queda de 6,3% nos homicídios dolosos em 2024, em relação ao ano anterior. Foram mais de 2.300 mortes a menos em um único ano. Trata-se de uma tendência que vem se mantendo desde 2020, com uma redução acumulada próxima de 16% nos homicídios letais intencionais no período.

Por certo, esses números não autorizam triunfalismos. O Brasil ainda convive com índices elevados de violência, e as realidades regionais são muito desiguais. Ainda assim, os dados reforçam a ideia de que políticas baseadas em integração, inteligência e coordenação federativa produzem resultados mais consistentes do que respostas puramente repressivas e desarticuladas.

O otimismo possível, portanto, não reside na ideia de que o problema da violência está resolvido — ele não está. Mas há sinais de amadurecimento institucional importantes. O foco crescente na inteligência financeira, na integração entre órgãos e na coordenação entre União, estados e municípios indica uma compreensão mais realista do fenômeno criminal no Brasil.

A PEC da Segurança Pública, ainda em debate no Congresso, não é uma solução mágica. Ela exigirá ajustes, fiscalização rigorosa e debate público qualificado. Contudo, representa uma tentativa concreta de dar estabilidade, continuidade e racionalidade a um sistema historicamente marcado por improvisos e respostas emergenciais.

Se há algo positivo neste momento, é a percepção de que segurança pública não se constrói apenas com retórica ou força bruta, mas com governança, instituições fortes e políticas que sobrevivam a trocas de governo e crises políticas. Transformar o discurso em política permanente é o verdadeiro desafio — e também a principal oportunidade.

O “bom momento” citado pelo presidente só se sustentará se vier acompanhado de crítica responsável, controle democrático e compromisso com resultados de longo prazo. Otimismo, aqui, não é ingenuidade: é a aposta cautelosa de que o país pode (e precisa) aprender com seus erros e avançar com mais maturidade na construção de uma segurança pública eficaz, republicana e duradoura.

Sucesso ao novo ministro!


📷: Ricardo Stuckert/PR

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Mangaratiba rumo a 2031: o bicentenário como teste de futuro

 


Introdução – O bicentenário como espelho

Mangaratiba caminha para completar 200 anos de emancipação política em 11 de novembro de 2031, data em que foi elevada à categoria de vila autônoma, então denominada Nossa Senhora da Guia de Mangaratiba. O bicentenário não deve ser apenas comemorativo. Datas simbólicas funcionam como espelhos coletivos: convidam a revisitar o passado sem idealizações, compreender o presente com honestidade e projetar o futuro com responsabilidade.

Cidade marcada por belezas naturais singulares, posição estratégica na Costa Verde e forte diversidade cultural, Mangaratiba nunca sofreu por falta de potencial. Seus maiores dilemas sempre estiveram ligados à forma como esse potencial foi administrado ao longo do tempo. 

Este ensaio propõe uma leitura crítico-histórica, acessível e jornalística, articulando identidade, planejamento público, orçamento e infraestrutura, sem personalizar culpas, mas destacando escolhas e continuidades.


1. Identidade e território: da aldeia à cidade turística

A história oficial registra que a ocupação do território remonta ao século XVII, com aldeamentos indígenas organizados por missionários e a primeira construção, em 1688, da capela de Nossa Senhora da Guia — marco fundacional do núcleo urbano. Elevada à freguesia em 1764 e, posteriormente, à vila em 1831, Mangaratiba nasce institucionalmente vinculada ao litoral, ao porto e às rotas econômicas regionais.

Essa trajetória ajuda a entender uma tensão que atravessa os séculos. De um lado, a cidade exaltada em hinos e discursos oficiais, como na letra de Alberto Rodrigues da Silva, apresentada como paisagem exuberante e destino turístico. De outro, a cidade vivida: pescadores, quilombolas, trabalhadores do comércio e do turismo, servidores públicos, moradores da Mata Atlântica e dos bairros periféricos.

A música Habitat Natural da Planta, de Daniel Soares, expressa essa segunda dimensão — cotidiana, afetiva e territorial. O conflito surge quando as políticas públicas passam a enxergar Mangaratiba apenas como cenário, deixando em segundo plano as necessidades estruturais de quem vive nela o ano inteiro.


2. Turismo: vocação histórica e risco permanente

No século XIX, Mangaratiba foi porto estratégico para o escoamento do café do Vale do Paraíba. Com o declínio dessa atividade e o avanço das ferrovias, a cidade entrou em novo ciclo econômico no século XX, impulsionado pela Rodovia Rio–Santos e pela consolidação do turismo.

O turismo tornou-se vocação, mas também armadilha. A ocupação desordenada, a sazonalidade econômica e a pressão sobre serviços públicos revelam os limites de um modelo baseado na exploração intensiva da paisagem. Iniciativas como a ideia da Costa Verde como “um só destino” ampliam oportunidades, mas expõem riscos claros: sem saneamento, planejamento urbano e controle ambiental, o turismo ameaça destruir o próprio ativo que o sustenta.


3. Saneamento: o divisor de águas do futuro

Poucos temas revelam tão claramente os impasses históricos de Mangaratiba quanto o saneamento básico. Apesar de sua centralidade para a saúde pública, o meio ambiente e o turismo, o tema permaneceu por décadas fora das prioridades políticas.

A ausência de coleta e tratamento adequados de esgoto compromete praias, rios e a imagem do município. Não se trata apenas de infraestrutura, mas de estratégia de sobrevivência econômica. Sem saneamento, não há turismo sustentável, nem qualidade de vida, nem futuro.

As medidas adotadas pelo Ministério Público nas últimas décadas expõem aquilo que o planejamento tardio insiste em adiar. No horizonte do bicentenário, o saneamento surge como fronteira decisiva entre estagnação e desenvolvimento real.


4. Planejamento em saúde: avanço técnico, memória curta

O Plano Municipal de Saúde 2026–2029 sinaliza amadurecimento institucional. Reconhece gargalos históricos — como a dificuldade de fixação de profissionais, a pressão sobre a regulação e a demanda reprimida em saúde mental — e adota metodologia mais alinhada ao SUS.

Ainda assim, o plano revela um problema recorrente: a falta de avaliação clara do ciclo anterior. Planeja-se mais do que se aprende. Sem balanços transparentes do que foi cumprido ou não, o planejamento corre o risco de se transformar em formalidade administrativa, pouco conectada à realidade dos serviços.


5. Orçamento público: equilíbrio no papel, risco na prática

A Lei Orçamentária Anual de 2026 apresenta equilíbrio contábil e volume expressivo de recursos. No entanto, a dependência elevada de royalties do petróleo — receitas voláteis — para financiar despesas permanentes cria fragilidade estrutural.

O predomínio do custeio sobre o investimento, especialmente na saúde, perpetua a terceirização e limita a construção de capacidade pública própria. Soma-se a isso o alto volume destinado ao pagamento de sentenças judiciais, sinal de passivos acumulados por decisões mal resolvidas no passado.

O orçamento revela, assim, uma cidade que administra o presente pagando dívidas históricas, com pouco espaço para transformação estrutural.


6. Mobilidade urbana: planejamento sob pressão

O transporte público ilustra um padrão recorrente em Mangaratiba. A precariedade prolongada do serviço levou à judicialização do tema, e a resposta orçamentária recente parece mais reativa do que planejada.

Quando o Judiciário antecipa o planejamento, evidencia-se um modelo de gestão que avança não pela estratégia, mas pela pressão externa. O custo dessa lógica é alto — financeiro, institucional e social.


Conclusão – O que Mangaratiba quer celebrar em 2031?

Ao completar 200 anos de emancipação política, Mangaratiba será chamada a decidir o sentido de sua celebração. Apenas a exaltação da paisagem e do passado? Ou a coragem de enfrentar dilemas estruturais com transparência e escolhas responsáveis?

O bicentenário pode marcar a virada da cidade-cenário para a cidade vivida; do improviso para o planejamento; da dependência de receitas fáceis para a sustentabilidade de longo prazo.

Celebrar Mangaratiba é assumir compromisso com seu futuro. E isso exige mais do que festas: exige decisões informadas, memória histórica e vontade política de transformar potencial em realidade.

A “jabuticaba” das emendas parlamentares: quando a exceção vira regra no orçamento público brasileiro



No vocabulário político brasileiro, poucas expressões são tão reveladoras quanto a chamada “jabuticaba institucional”

A jabuticaba é uma fruta nativa do Brasil, rara ou inexistente em outros países. No debate público, a metáfora passou a designar institutos jurídicos ou práticas políticas quase exclusivas do país, difíceis de explicar à luz das democracias consolidadas — e, muitas vezes, de gosto duvidoso.

Ocorre que as emendas parlamentares, sobretudo na forma como operam atualmente, enquadram-se com precisão nessa definição. São uma jabuticaba azeda: típicas do Brasil, formalmente aceitas, mas institucionalmente disfuncionais.


O que significa chamar algo de “jabuticaba”?

Quando juristas e cientistas políticos usam essa metáfora, não se trata de folclore retórico. Chamar um instituto de “jabuticaba” significa dizer que:


  • Ele não encontra paralelo relevante em outros países democráticos;

  • É resultado de arranjos históricos locais, não de boas práticas internacionais;

  • Sobrevive mais por conveniência política do que por racionalidade institucional;

  • E costuma gerar distorções éticas, administrativas ou jurídicas.


Nem toda jabuticaba é ruim. Algumas são apenas exóticas. Outras, no entanto, são azedas: difíceis de justificar e fáceis de criticar quando comparadas a sistemas mais maduros.


A jabuticaba orçamentária brasileira

O Brasil desenvolveu um modelo singular em que parlamentares não apenas aprovam o orçamento, mas indicam diretamente onde e com quem o dinheiro público será gasto, por meio de emendas individuais, de bancada e de relator.

Essa prática rompe com uma lógica básica do Estado moderno: quem legisla e fiscaliza não deve executar políticas públicas. Ainda assim, ela se expandiu, ganhou status constitucional e tornou-se impositiva, reduzindo a margem de planejamento técnico do Executivo.

O resultado é um orçamento fragmentado, personalizado e politizado — uma jabuticaba difícil de explicar a qualquer observador estrangeiro.


Comparação internacional: por que essa jabuticaba é estranha

Em democracias consolidadas, o contraste é evidente.

Nos Estados Unidos, após escândalos envolvendo os earmarks, o Congresso restringiu severamente a indicação direta de projetos. Mesmo quando existem exceções, a execução é rigidamente técnica e auditável.

Na Alemanha, o Parlamento define prioridades macroeconômicas, mas não escolhe beneficiários específicos nem interfere na execução administrativa.

No Reino Unido, deputados não “levam obras” para suas bases eleitorais por meio do orçamento. O capital político vem da atuação legislativa e da fiscalização, não da distribuição de recursos.

Em resumo: o parlamentar não executa orçamento. O Brasil, ao insistir nesse modelo, isola-se institucionalmente.


Da jabuticaba doce à jabuticaba azeda

O argumento de que emendas aproximam o parlamentar de sua base eleitoral é frequentemente apresentado como justificativa democrática. Mas essa suposta “doçura” logo se revela ilusória.

Na prática, o sistema:


  • Premia influência política, não necessidade social;

  • Estimula intermediários frágeis ou artificiais, como ONGs de fachada;

  • Cria incentivos para corrupção sofisticada;

  • Transforma o orçamento em instrumento eleitoral permanente.


A jabuticaba, nesse ponto, perde o sabor e azeda.


O Direito Administrativo diante da jabuticaba

Sob a ótica jurídica, o modelo tensiona princípios constitucionais fundamentais:


  • Impessoalidade, ao permitir escolhas personalizadas;

  • Moralidade, ao confundir interesse público e interesse político;

  • Eficiência, ao pulverizar recursos sem planejamento;

  • Publicidade, ao dificultar a rastreabilidade dos repasses.


Ainda que formalmente legal, o instituto passa a ser materialmente incompatível com a racionalidade constitucional.


Uma ruptura necessária

Nenhuma democracia amadurece sem revisar suas próprias jabuticabas. O Brasil precisa decidir se continuará defendendo exceções institucionais apenas porque são tradicionais, ou se adotará práticas mais alinhadas com a ética pública e o Direito Comparado.

Isso implica:


  • Extinguir ou reduzir drasticamente emendas parlamentares individuais;

  • Proibir a indicação direta de beneficiários;

  • Reforçar o papel do Legislativo como fiscalizador, não executor;

  • Revalorizar o planejamento técnico do orçamento.


Conclusão

A metáfora da jabuticaba não é um insulto à identidade nacional, mas um convite à autocrítica. Algumas singularidades merecem ser celebradas; outras, revistas.

As emendas parlamentares, como estruturadas hoje, são uma jabuticaba azeda do sistema constitucional brasileiro. Reconhecer isso é o primeiro passo para um orçamento público mais ético, eficiente e verdadeiramente republicano.


📌 Nota sobre PECs Recentes e a Reforma Institucional do Orçamento

O debate sobre o modelo político‑institucional brasileiro ganha relevância à medida que o Congresso analisa diversas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que podem alterar o funcionamento do Legislativo, a administração pública e o orçamento federal. Esses debates se conectam diretamente à crítica às chamadas jabuticabas institucionais, como as emendas parlamentares individuais, cujo caráter personalizado e politizado desafia princípios de impessoalidade, eficiência e moralidade.

Entre as PECs de maior impacto atualmente, destacam-se:


  • PEC 38/2025 – Reforma Administrativa
    Propõe alterações no regime jurídico dos servidores públicos e na estrutura da administração federal, com objetivos declarados de profissionalização, governança e transformação digital. Até janeiro de 2026, a PEC está em tramitação na Câmara dos Deputados, aguardando despacho para análise em comissões, após ter sido protocolada em outubro de 2025. A proposta enfrenta resistência de sindicatos e parlamentares que retiraram assinaturas de apoio. (congressonacional.leg.br)

  • PEC 43/2025 – Processo Legislativo e Participação Popular
    Altera o artigo 61 da Constituição para aprimorar mecanismos de apreciação de projetos de lei, incluindo iniciativa popular. Protocolada no Senado em novembro de 2025, aguarda despacho para avançar em comissões. (www25.senado.leg.br)

  • PEC da Blindagem Parlamentar
    Busca restringir a ação judicial contra parlamentares sem aval do Congresso. A PEC foi aprovada em primeiro turno na Câmara, mas ainda precisa tramitar em plenário e no Senado. A proposta é alvo de críticas por potenciais impactos na responsabilização de parlamentares no uso de emendas e recursos públicos. (agenciabrasil.ebc.com.br)

  • PEC 18/2025 – Segurança Pública
    Tem o objetivo de fortalecer o Sistema Único de Segurança Pública. Já foi aprovada na CCJ da Câmara, mas ainda depende de votação em plenário da Câmara e do Senado. Embora tangencie menos diretamente o orçamento, demonstra a busca do Congresso por redefinir papéis constitucionais e competências administrativas.

  • PEC 66/2023 – Precatórios
    Já promulgada em setembro de 2025, altera regras sobre pagamento de precatórios e integra o planejamento orçamentário federal, mostrando como ajustes constitucionais podem impactar diretamente fluxos financeiros do Estado. (agenciabrasil.ebc.com.br)


🔹 Reflexão institucional

Essas propostas revelam o momento de intenso debate sobre modernização institucional no Brasil. Algumas PECs buscam aumentar eficiência e transparência, enquanto outras podem reforçar privilégios corporativos ou reduzir mecanismos de controle. Em meio a isso, a metáfora da jabuticaba institucional mantém-se relevante: práticas como as emendas parlamentares personalizadas, embora legais, continuam desalinhadas com padrões internacionais de racionalidade orçamentária e fiscalização.

Reconhecer essas tensões é essencial para que o país avance rumo a um orçamento mais ético, eficiente e republicano, em que o legislativo exerça seu papel de fiscalização e definição de políticas, sem se transformar em executor direto de recursos públicos.

Vitória Ideológica da Rússia na Crise da Groenlândia: Como a Retórica de Trump Reforça Narrativas de Moscou?



Nos últimos dias, o mundo assistiu a uma escalada de declarações do ex-presidente norte-americano Donald Trump sobre a Groenlândia. Trump afirmou que “qualquer coisa menos do que o controle dos EUA sobre a ilha é inaceitável”, insistiu que a NATO deve apoiar essa mudança radical de soberania, e até sugeriu que os Estados Unidos poderiam agir mesmo “se eles não gostarem”.

Embora tais afirmações tenham sido amplamente rejeitadas por líderes dinamarqueses e groenlandeses, que reafirmaram que a ilha permanecerá sob soberania da Dinamarca, apoiada pela NATO e pela União Europeia, essas declarações de Trump tiveram um efeito indireto e não desprezível no xadrez geopolítico global: reforçaram a narrativa ideológica que a Rússia e seus aliados promovem há anos sobre a política externa ocidental.


🧠 O poder da narrativa no sistema internacional

A Rússia há muito tempo critica o que chama de “ordem internacional baseada em regras” defendida pelo Ocidente, particularmente pelos Estados Unidos e seus aliados europeus. Moscou argumenta que essa ordem é, na prática, seletiva, usada para justificar intervenções ou pressões quando convém aos interesses americanos e ocidentais — mas seria negada quando se trata de limitar ações de potências rivais. Mesmo quando ruidosamente declaradas para fins políticos, essas tensões permitem a Rússia fortalecer sua crítica à hegemonia americana e minar a credibilidade normativa do Ocidente perante públicos neutros ou hostis.

Analistas observam que o Kremlin tem interesse em desacreditar Washington aos olhos de aliados e de países não alinhados, retratando os EUA como um ator impulsivo, preocupado com própria segurança e interesses econômicos acima de normas internacionais. Essa estratégia inclui instrumentalizar declarações como as relativas à Groenlândia para sugerir que os Estados Unidos não respeitam soberania de outros países e podem pressionar aliados históricos.


🇷🇺 Como a Rússia interpreta e explora a crise

Embora o Kremlin tenha dito oficialmente que a questão da Groenlândia “é uma disputa específica entre os EUA e os países nórdicos” e que não está diretamente envolvido, líderes russos — inclusive o presidente Vladimir Putin em declarações anteriores — aproveitaram a situação para criticar publicamente a postura norte-americana e chamar a atenção para a crescente militarização do Ártico.

Em comentários anteriores ao longo de 2025, Putin chegou a afirmar que não era tolice considerar o interesse americano na Groenlândia como algo significativo, lembrando que os EUA já haviam considerado aquisição do território no passado e que o Ártico é uma região de importância estratégica crescente para todos os atores principais.

Essa retórica — mesmo que diplomática ou moderada no discurso oficial — cria espaço para que Moscou promova duas linhas narrativas simultâneas:


  • Ocidente fragmentado e incoerente: Washington pressiona para mudanças territoriais em pleno século XXI, o que seria uma contradição em relação aos princípios de soberania que costumava defender.
  • Rússia como garantidora da estabilidade: ao se posicionar como um ator que observa a situação com “normalidade” e chama a atenção para os riscos de militarização acrítica, Moscou se apresenta como favorável à paz e à estabilidade do Ártico.


Esses dois vetores discursivos são reforçados sempre que aliados europeus se veem forçados a criticar um parceiro histórico ou a ajustar suas próprias políticas de defesa no Norte. A necessidade de responder coletivamente às declarações americanas — inclusive com movimentos como o envio de tropas europeias à Groenlândia por iniciativa da Dinamarca, Alemanha, Suécia e Noruega — alimenta a narrativa russa de um Ocidente dividido e incapaz de conduzir consensos estratégicos claros.


⚖️ Vitória ideológica sem disparar um tiro

O ponto central é que não se trata de uma vitória militar ou territorial para Moscou, mas sim de uma “vitória” no campo das ideias:


  1. Demonstração de incoerência normativa: as declarações americanas sobre usar a força ou ignorar normas internacionais reforçam narrativas que a Rússia usa para criticar o Ocidente.
  2. Ameaça às alianças tradicionais: a pressão sobre a NATO para apoiar uma mudança radical de soberania dá margem para que a Rússia diga que a aliança é disfuncional ou subserviente aos EUA.
  3. Exploração de tensões internas: ao observar aliados europeus reagirem, Moscou pode usar isso para inflamar divisões dentro da própria aliança, algo que ajuda sua percepção de influência nos debates estratégicos globais.
  4. Narrativas no Sul Global: em regiões sensíveis ao discurso de soberania e não alinhamento, como América Latina, África ou Ásia, a percepção de que “normas internacionais são flexíveis quando convêm aos EUA” pode reforçar discursos favoráveis a narrativas anticoloniais ou multipolares.


Essa vitória ideológica é particularmente valiosa para a Rússia porque, em outras frentes — como o conflito na Ucrânia — seus ganhos militares e diplomáticos são controversos e contestados. Explorar fracassos ou incoerências do Ocidente em fóruns públicos e diplomáticos é uma forma de ampliar sua influência sem mover um único soldado.


📌 Conclusão

Embora a proposta americana sobre a Groenlândia — incluindo sugestões de uso de força militar — tenha sido amplamente rejeitada por aliados e pela própria população groenlandesa, ela acabou servindo aos interesses narrativos da Rússia ao reforçar percepções de que:


  • os Estados Unidos podem agir fora das normas tradicionais do direito internacional;
  • a NATO enfrenta divisões internas diante de pressões unilaterais;
  • potências não alinhadas ganham argumentos para questionar a legitimidade normativa ocidental.


Essa dinâmica ilustra como, na geopolítica contemporânea, a batalha pela narrativa pode ser tão influente quanto a batalha pela posição territorial, e por isso Moscou pode colher benefícios simbólicos — ou ideológicos — mesmo sem ter controle efetivo da região.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Na mesa do bar



A mesa era de madeira, dessas de bar de esquina com cadeiras dobráveis. Quatro cadeiras. Garrafas suadas de cerveja. O barulho distante de motos subindo a rua misturava-se ao noticiário que vinha da televisão pendurada no alto do lado de dentro.


Mais um assalto ali na esquina de baixo, — disse Rogério, balançando a cabeça. — Não tem conversa. Bandido bom é bandido morto.


Dona Celeste, que morava no bairro desde antes do asfalto, suspirou: — Eu já ouvi isso a vida inteira… e a violência só piorou.


Marcos, motorista de aplicativo, entrou no embalo: — O problema é que o Brasil não tem jeito. Corrupção é cultural. Sempre foi assim. Troca governador, troca prefeito… nada muda.


Lucas, professor de História da rede pública, mexia no copo sem responder. Sabia que, se falasse errado, a conversa acabava ali.


— Posso tentar dizer uma coisa sem briga? — perguntou, com cuidado.


Rogério deu de ombros: — Fala aí, professor. Mas sem passar pano pra bandido.


Lucas assentiu. — Justo. Então… quando a gente diz “bandido bom é bandido morto”, eu entendo o sentimento. É medo, cansaço, revolta. Só que isso resolve o quê, na prática?


— Resolve que tira um vagabundo da rua! — rebateu Rogério.


— Às vezes tira — respondeu Lucas. — Mas e depois? Quem investiga quem manda? Quem lucra? Porque o número de mortos sobe, mas o tráfico continua. A pergunta não é moral. É prática.


Dona Celeste apoiou o cotovelo na mesa: — Meu sobrinho foi morto numa operação. Não era bandido. Até hoje ninguém investigou nada.


Rogério ficou em silêncio por um instante.


Marcos então puxou outro fio: — Mas isso tudo vem de fora, né? O Estado não fabrica droga nem arma. O problema é a fronteira. Sempre foi.


Lucas sorriu de leve, não de deboche. — Fronteira importa, sim. Mas deixa eu perguntar uma coisa: depois que a arma entra no país, quem guarda? Quem vende? Quem protege? Quem lava o dinheiro?


— Aí já é outra história… — murmurou Marcos.


— Pois é — disse Lucas. — O mantra ajuda a explicar uma parte, mas quando vira explicação única, a gente para de olhar pra dentro.


Rogério tomou um gole longo. — Tá, mas o Brasil é corrupto mesmo. Isso é da nossa cultura.


Lucas respirou fundo. — A corrupção existe, claro. Mas dizer que ela é “cultural” parece que absolve quem se beneficia dela hoje. Como se ninguém tivesse responsabilidade, como se fosse culpa do DNA do país.


Dona Celeste concordou: — Meu pai era estivador. Nunca roubou um prego.


— Exato — disse Lucas. — Tem corrupção institucional, estrutural, incentivada. Isso é diferente de dizer que “todo mundo é assim”.


A TV anunciou mais uma pesquisa eleitoral.


Marcos apontou para a tela: — Por isso que eu digo: o problema do Brasil é o político. Troca tudo e pronto.


Lucas não discordou de cara. — Político erra muito. Mas deixa eu te perguntar: quem elege? Quem pressiona? Quem fiscaliza? Se a política é o problema, abandonar ela resolve ou piora?


Silêncio de novo. Só o tilintar de copos.


Rogério tentou mudar o rumo: — No fim das contas, só educação salva isso aqui.


Lucas sorriu, agora com mais tristeza. — Educação é fundamental. Eu vivo disso. Mas se fosse solução mágica, professor não morria, escola não era alvo de tiro, aluno não chegava com fome. Educação funciona junto com segurança, renda, saúde, justiça.


Dona Celeste resumiu, olhando a rua escura: — Então a gente repete essas frases porque elas aliviam a cabeça. Mas não resolvem a vida.


Lucas assentiu. — Mantra dá sensação de controle. Pensar dá trabalho. E votar bem, mais ainda.


Rogério levantou-se. — Não concordo com tudo, não. Mas confesso… nunca tinha pensado desse jeito.


Lucas sorriu, aliviado. Não era vitória. Era abertura.


A moto passou de novo, acelerando.

A eleição vinha aí.

A violência continuava.

Mas, naquela mesa de madeira, pelo menos o debate não tinha virado guerra.


Depois das urnas, a mesma mesa...


A mesa era a mesma. O bar também. Só a televisão parecia falar mais alto.


— Governador eleito promete choque de ordem já nos primeiros cem dias — anunciou o jornal.


Rogério pediu para o garçom desligar a TV 


— Ganhou. Vamos ver se agora muda alguma coisa.


Marcos riu sem humor. — Promessa não falta. O problema é que depois dizem que a culpa é do sistema, do outro governo, da herança maldita…


Dona Celeste ajeitou a bolsa no colo: — Eu só queria voltar a sair de casa sem medo depois das seis.


Lucas chegou por último, puxando uma cadeira. — E aí, sobreviveram à eleição?


Rogério respondeu: — Sobreviver, sim. Acreditar… já não sei.


Marcos foi direto: — Agora quero ver você desmontar mantra, professor. Porque o discurso já começou: “agora vai”, “agora resolve”, “era só tirar os políticos errados”.


Lucas respirou fundo. — Posso tentar de novo, sem briga?


— Manda — disse Rogério.


— Repara como o discurso pós-eleição muda pouco. Antes era “bandido bom é bandido morto”. Agora virou “vamos endurecer”. Mas ninguém fala de investigação, de inteligência, de cadeia funcionando.


— Mas tem que endurecer mesmo — insistiu Rogério.


— Pode endurecer — respondeu Lucas. — A questão é: endurecer como? Se for só subir morro com fuzil e descer com estatística, a gente já sabe o final.


Dona Celeste concordou: — Toda eleição é assim. Depois dizem que educação resolve tudo e mandam esperar vinte anos.


Lucas apontou: — Esse é outro mantra. Educação é longo prazo, sim. Mas usar isso como desculpa para não agir agora é covardia política.


Marcos cruzou os braços: — Eu continuo achando que o problema é o político. Esse novo já está cercado dos mesmos de sempre.


Lucas não negou. — A política brasileira tem vícios reais. Mas quando a gente reduz tudo a “o problema é o político”, a gente desiste de exigir política melhor. Vira só xingamento.


Rogério coçou a barba. — Então você está dizendo que a gente erra até quando reclama?


— Não — respondeu Lucas. — Reclamar é legítimo. O problema é quando a reclamação vira slogan. Aí ela não constrói nada.


A TV voltou a falar sozinha: — Novo governador promete reforço nas fronteiras em parceria com o governo federal.


Marcos apontou para a tela: — Tá vendo? De novo isso. Fronteira.


Lucas sorriu de canto. — Fronteira ajuda. Mas se fosse solução total, o Rio já estaria em paz. O crime não atravessa o país sozinho. Ele cria raiz aqui.


Dona Celeste suspirou: — Parece que o discurso muda, mas o roteiro é o mesmo.


— Porque é mais fácil repetir o que já funcionou eleitoralmente — disse Lucas. — Mantra ganha voto. Política pública ganha inimigo.


Rogério ficou em silêncio por um tempo. Depois falou, mais baixo: — Sabe o que é pior? A gente acaba torcendo pra dar certo, mesmo desconfiando.


Lucas assentiu. — Isso não é ingenuidade. É sobrevivência.


Marcos levantou-se para pagar a conta. — Então o que sobra pra gente?


Lucas respondeu sem pose: — Cobrar sem slogan. Desconfiar sem desistir. Discordar sem virar inimigo.


Dona Celeste sorriu pela primeira vez naquela noite. — Se todo mundo conversasse assim, talvez mudasse alguma coisa.


A rua continuava barulhenta.


A violência não tinha ido embora.


O governo era novo.


Os problemas, antigos.


Mas naquela mesa, mais uma vez, ninguém saiu gritando.


E, no Rio, isso já era um começo.