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terça-feira, 16 de junho de 2026

Por que recompensamos tantas atividades de baixo valor social e tão poucas atividades ligadas ao conhecimento, à ciência e à participação cívica?



"Imagine todas as pessoas

Compartilhando o mundo inteiro"

(John Lennon)


Imagine um aplicativo que pagasse para você estudar!

Todos os dias, milhões de brasileiros passam horas diante da tela do celular.

Alguns assistem a vídeos curtos. Outros discutem política nas redes sociais. Muitos jogam. Há ainda quem aposte dinheiro em plataformas de apostas online na esperança de uma recompensa rápida.

Agora imagine uma pergunta diferente.

E se existisse um aplicativo que pagasse para você estudar?

À primeira vista, a ideia pode parecer utópica. Afinal, estamos acostumados a associar remuneração ao trabalho e não ao aprendizado.

Mas será que essa distinção continuará fazendo sentido no futuro?

Hoje, uma parte significativa da economia digital é construída para capturar nossa atenção. Empresas investem bilhões para manter usuários conectados, engajados e retornando às plataformas diariamente.

Os mecanismos são conhecidos: recompensas instantâneas, desafios, níveis, rankings e reconhecimento social.

São exatamente os mesmos elementos que tornam jogos eletrônicos tão atraentes.

Mas existe uma questão intrigante.

Se a tecnologia é capaz de convencer milhões de pessoas a passar horas acumulando moedas virtuais, por que não poderia estimular milhões de pessoas a aprender?

Na prática, algo semelhante já acontece.

Estudantes do ensino médio já participaram da identificação de exoplanetas. Cidadãos comuns colaboram com pesquisas científicas, projetos de software livre, enciclopédias digitais e iniciativas de preservação histórica.

A internet mostrou que conhecimento pode ser produzido de forma distribuída.

A inteligência artificial pode ampliar esse fenômeno.

Aliás, experiências nessa direção já existem.

Projetos de ciência cidadã, como o Zooniverse, permitem que voluntários de diferentes países colaborem com pesquisas científicas reais, classificando galáxias, identificando exoplanetas, monitorando espécies e analisando documentos históricos.

No campo educacional, universidades e instituições internacionais vêm experimentando sistemas de microcredenciais, certificados digitais e percursos formativos modulares capazes de reconhecer competências específicas adquiridas ao longo da vida. Iniciativas apoiadas pelo European MOOC Consortium e por programas-piloto da União Europeia apontam para um futuro em que a aprendizagem poderá ser registrada, validada e reconhecida de maneira muito mais flexível do que os modelos tradicionais de certificação.

Nenhuma dessas experiências corresponde exatamente ao aplicativo imaginado neste artigo.

Mas todas sugerem que os elementos necessários para sua construção já começam a existir.

Imagine uma plataforma na qual cada pessoa pudesse contribuir com aquilo que sabe ou deseja aprender.

Um estudante ajudaria a classificar imagens astronômicas.

Um aposentado colaboraria na transcrição de documentos históricos.

Um professor auxiliaria na elaboração de materiais educacionais.

Um morador contribuiria para o monitoramento de serviços públicos de sua cidade.

Um pesquisador independente participaria de projetos de ciência cidadã.

Uma escritora produziria poemas, contos ou textos culturais.

Cada contribuição seria registrada, validada e valorizada.

Em vez de apenas acumular curtidas ou seguidores, o participante construiria reputação, conhecimento e participação em projetos reais.

Talvez não fosse necessário sequer pagar diretamente pelo estudo.

A recompensa poderia assumir diversas formas: certificados, microcredenciais, participação em projetos, bolsas de pesquisa, acesso a cursos, reconhecimento público ou até participação econômica em iniciativas bem-sucedidas.

A questão central não é financeira.

É cultural.

Mas toda ideia inovadora precisa enfrentar uma pergunta inevitável: quem pagaria essa conta?

Uma plataforma desse tipo poderia assumir formatos distintos.

No modelo privado, empresas poderiam financiar desafios, pesquisas e projetos de inovação em busca de soluções para problemas reais. A recompensa aos participantes viria dos ganhos econômicos produzidos pelos próprios projetos.

No modelo público, governos poderiam direcionar parte dos recursos já destinados à qualificação profissional, educação continuada, ciência cidadã ou inclusão digital para estimular a participação dos cidadãos em atividades de aprendizagem e colaboração.

Também seria possível imaginar modelos híbridos, reunindo universidades, empresas, fundações e poder público.

Outra questão fundamental seria a validação das contribuições.

Se há recompensa, haverá tentativas de fraude.

Por isso, mecanismos de reputação, auditoria por pares, inteligência artificial, certificação de competências e verificação comunitária seriam indispensáveis para garantir que o sistema premiasse efetivamente a qualidade e não apenas a quantidade de interações.

A inclusão digital também não pode ser ignorada.

Nem todos possuem acesso adequado à internet, equipamentos modernos ou alfabetização tecnológica suficiente para participar em igualdade de condições.

Uma iniciativa desse tipo precisaria ser acompanhada de políticas de acesso digital, capacitação e suporte, sob pena de ampliar desigualdades já existentes.

Há ainda questões jurídicas relevantes.

Em determinadas áreas, especialmente nas profissões regulamentadas, a participação colaborativa não poderia substituir a atuação de profissionais habilitados.

Da mesma forma, seria necessário definir claramente os direitos sobre criações intelectuais, pesquisas, soluções tecnológicas e demais resultados produzidos coletivamente.

A proteção dos dados pessoais também exigiria atenção permanente.

Qualquer plataforma baseada em reputação, aprendizado e inteligência artificial precisaria observar rigorosamente as garantias previstas na Lei Geral de Proteção de Dados.

Nada disso invalida a ideia.

Ao contrário.

Mostra que transformar conhecimento em um ativo socialmente valorizado não é apenas um desafio tecnológico. É também um desafio econômico, jurídico, institucional e cultural.

Durante décadas, discutimos políticas sociais, mercado de trabalho e educação como temas separados.

Mas o avanço da tecnologia talvez permita aproximá-los.

Uma pessoa desempregada não precisa necessariamente permanecer inativa.

Ela pode estudar, colaborar, pesquisar, criar e participar.

Uma pessoa aposentada não precisa ficar isolada de sua experiência acumulada.

Ela pode continuar contribuindo.

Um jovem não precisa esperar concluir a universidade para participar de projetos relevantes.

Pode começar imediatamente.

Ao mesmo tempo, a sociedade se beneficiaria de um enorme capital intelectual hoje disperso.

Milhões de pessoas possuem tempo, conhecimento, criatividade e experiência que permanecem subutilizados.

Talvez o maior recurso estratégico do Brasil não esteja apenas em suas riquezas naturais, mas justamente nesse potencial humano ainda pouco aproveitado.

Imagine se parte da energia hoje consumida por apostas, desinformação e guerras simbólicas nas redes sociais fosse direcionada para ciência, cultura, educação e participação cívica.

Imagine se, ao invés de apenas reclamar dos problemas públicos, os cidadãos pudessem colaborar continuamente na construção de soluções.

Imagine se aprender fosse tão estimulante quanto jogar.

Talvez a pergunta mais importante não seja se um aplicativo poderia pagar para você estudar.

Talvez o Brasil seja um dos países em que essa discussão se torna mais relevante.

Temos milhões de estudantes, aposentados, trabalhadores em transição profissional e beneficiários de programas sociais que frequentemente permanecem afastados de atividades permanentes de aprendizagem e colaboração.

Em vez de enxergar essas pessoas apenas como beneficiárias de políticas públicas ou candidatas a empregos formais, poderíamos começar a vê-las também como participantes potenciais de uma grande rede nacional de conhecimento.

Uma política pública voltada para educação continuada, certificação de competências, ciência cidadã e colaboração digital poderia produzir benefícios que ultrapassam a formação profissional.

Poderia fortalecer a cultura científica, ampliar a participação cívica, estimular a inovação e criar novos caminhos para a inclusão econômica e social.

Talvez a verdadeira pergunta seja: por que ainda não encontramos uma forma de recompensar adequadamente quem aprende, cria conhecimento e ajuda a melhorar a sociedade?

Talvez a tecnologia já tenha criado as ferramentas. O desafio agora seja encontrar a vontade política, econômica e cultural para utilizá-las.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O que a última decisão do TSE revelou sobre a crise fluminense



"O direito vive da interpretação." — Hans Kelsen


A disponibilização, em 15 de junho, do acórdão que julgou os embargos de declaração nas ações envolvendo as eleições fluminenses de 2022 trouxe elementos que ajudam a compreender melhor um dos julgamentos mais relevantes da atual crise institucional do Rio de Janeiro.

À primeira vista, a publicação do acórdão poderia parecer apenas uma formalidade processual.

O resultado já era conhecido desde a sessão realizada em 2 de junho.

O Tribunal Superior Eleitoral havia rejeitado, por maioria, os embargos da Procuradoria-Geral Eleitoral e mantido a estrutura essencial do julgamento que reconheceu abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, declarou a inelegibilidade do ex-governador Cláudio Castro e determinou a realização de novas eleições.

Mas essa leitura seria incompleta.

A leitura do acórdão e, sobretudo, dos votos escritos disponibilizados posteriormente revela algo mais importante: a verdadeira controvérsia jurídica remanescente já não diz respeito à existência dos abusos eleitorais.

Ela passou a se concentrar nos efeitos da renúncia e na relação entre diploma, mandato e legitimidade da eleição.


Uma condenação que deixou de ser controvertida

O primeiro dado relevante é aquilo que praticamente desapareceu do debate.

Os embargos apresentados pelas defesas buscavam apontar omissões, contradições e nulidades no julgamento realizado em março.

O relator, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, rejeitou essas alegações e reafirmou os fundamentos centrais da condenação.

Os votos da maioria acompanharam essa conclusão.

Na prática, o acórdão consolida o entendimento de que houve utilização indevida de estruturas estatais ligadas à CEPERJ e à UERJ em contexto eleitoral, preservando a inelegibilidade dos principais investigados.

Isso não significa que novos recursos estejam excluídos.

Mas significa que a discussão sobre a existência dos ilícitos eleitorais encontra-se significativamente mais estabilizada do que estava há alguns meses.


A controvérsia que sobreviveu ao julgamento

A parte mais interessante do acórdão surge justamente onde o consenso terminou.

A Procuradoria-Geral Eleitoral sustentava que a renúncia de Cláudio Castro teria tornado prejudicada apenas a perda do mandato, mas não impediria a cassação formal do diploma obtido nas eleições de 2022.

A distinção pode parecer técnica, mas está longe de ser irrelevante.

O diploma é o ato jurídico pelo qual a Justiça Eleitoral reconhece a regularidade da eleição e habilita o candidato ao exercício do cargo. Já o mandato decorre dessa diplomação.

Sob essa perspectiva, a renúncia extinguiria o exercício do cargo, mas não necessariamente impediria o reconhecimento posterior da invalidade da própria diplomação.

Foi exatamente esse o raciocínio defendido pela Procuradoria-Geral Eleitoral.


O que revelou a divergência

Os votos escritos dos ministros Floriano de Azevedo Marques e Estela Aranha mostram que essa tese não era marginal dentro da Corte.

Ambos entenderam que os embargos deveriam ser acolhidos para explicitar a cassação dos diplomas de Castro e Thiago Pampolha.

A divergência não se limitou à interpretação de uma expressão ou de um detalhe processual. Ela alcançou a própria natureza jurídica da diplomação.

Em um dos trechos mais expressivos do julgamento, Floriano de Azevedo Marques sustenta que "cassa-se o mandato porque foi cassado o diploma, e não o contrário".

A frase ajuda a compreender o núcleo da controvérsia.

Se o diploma é a fonte jurídica do mandato, a perda deste não necessariamente elimina a possibilidade de desconstituição daquele.


A posição vencedora

A maioria, contudo, seguiu caminho diverso.

O relator concluiu que não houve formação de maioria para a cassação formal dos diplomas.

Segundo essa interpretação, apenas três ministros manifestaram-se expressamente nesse sentido.

Consequentemente, os embargos da Procuradoria-Geral Eleitoral foram rejeitados.

O resultado prático foi a preservação da redação original do acórdão. A condenação permaneceu assim como a inelegibilidade, mas a cassação formal dos diplomas não foi acrescida ao julgamento.


Uma discussão que pode ultrapassar o Rio de Janeiro

Talvez o aspecto mais relevante da leitura do acórdão seja outro.

A controvérsia revelada pelos votos possui potencial para transcender o caso fluminense.

A questão de saber se a renúncia impede ou não a cassação posterior do diploma não interessa apenas ao Rio de Janeiro.

Ela pode surgir em processos envolvendo governadores, prefeitos, senadores ou parlamentares que deixem seus cargos antes do julgamento definitivo das ações eleitorais.

Por essa razão, não parece improvável que a discussão ainda produza novos capítulos nos tribunais superiores. 

A questão não interessa apenas ao processo eleitoral fluminense. Ela dialoga diretamente com temas constitucionais atualmente submetidos ao Supremo Tribunal Federal, especialmente no âmbito da ADI 7942, em que se discutem os parâmetros da sucessão governamental decorrente da vacância do cargo de governador no Estado do Rio de Janeiro. 

Embora os objetos processuais não sejam idênticos, a forma como se compreendem os efeitos da renúncia, da diplomação e da condenação eleitoral influencia o contexto jurídico em que o STF será chamado a decidir.


O deslocamento da crise

Quando observamos o conjunto do processo, percebe-se uma transformação importante.

No início, a crise fluminense girava em torno da existência dos abusos eleitorais. Em seguida, o debate deslocou-se para as consequências jurídicas desses ilícitos. Agora, após a disponibilização do acórdão e dos votos escritos, a controvérsia concentra-se em questão ainda mais específica: os limites da renúncia diante da jurisdição eleitoral e a relação entre diploma, mandato e legitimidade da eleição.

A pergunta já não é apenas se houve abuso de poder. A questão passa a ser quais efeitos jurídicos sobrevivem à saída voluntária do agente do cargo e como esses efeitos devem ser compreendidos pelo sistema constitucional.

Talvez seja justamente aí que a observação de Hans Kelsen encontre sua melhor aplicação ao caso fluminense. A divergência revelada pelos votos escritos não decorre dos fatos apurados pela Justiça Eleitoral, mas da interpretação de seus efeitos jurídicos. A distinção entre diploma e mandato, bem como o alcance da renúncia diante da condenação eleitoral, demonstram como diferentes leituras de um mesmo conjunto normativo podem conduzir a conclusões distintas mesmo entre ministros que concordam quanto à existência dos ilícitos.

E é precisamente nessa zona de interseção entre direito eleitoral e direito constitucional — que também dialoga com as discussões atualmente travadas no Supremo Tribunal Federal sobre a sucessão governamental fluminense — que parecem estar os próximos capítulos da crise institucional do Rio de Janeiro.

Uma decisão aguardada por Itaguaí



Após meses de expectativa, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) finalmente pautou para o próximo dia 18 de junho, quinta-feira, o julgamento do Recurso Especial Eleitoral que discute a candidatura de Rubem Vieira de Souza, o Dr. Rubão, nas eleições municipais de 2024 em Itaguaí.

A notícia possui relevância que ultrapassa os limites da disputa entre grupos políticos locais. Trata-se de uma decisão aguardada por todo o município, independentemente das preferências partidárias de cada cidadão.

O caso envolve a interpretação do § 5º do art. 14 da Constituição Federal (redação dada pela Emenda Constitucional nº 16/1997), que disciplina a possibilidade de reeleição para um único mandato subsequente aos chefes do Executivo (Presidente, governadores e prefeitos). 

Assim, a controvérsia em torno da candidatura de Rubem Vieira (Dr. Rubão) não decorre de uma proibição expressa a um "terceiro mandato" no texto constitucional, mas da aplicação concreta dessa regra — em especial, de como contar mandatos, sucessões e substituições no exercício do comando do Executivo. 

Participei desse debate desde o início, ao apresentar notícia de inelegibilidade perante a 105ª Zona Eleitoral, sustentando a incidência da vedação constitucional ao exercício de terceiro mandato consecutivo. A tese foi posteriormente acolhida na sentença, em conjunto com os argumentos apresentados nas demais impugnações, e posteriormente mantida na decisão monocrática do relator no TSE. Ainda assim, mais importante do que qualquer posição individual é que a controvérsia receba agora uma definição colegiada e definitiva pela Corte Eleitoral.

Assim, a interpretação adotada pelo TSE determinará se houve ou não extrapolação do limite de reeleições no caso concreto, com efeitos diretos sobre a estabilidade administrativa e o calendário político de Itaguaí.

Em decisão monocrática, o ministro André Mendonça manteve o indeferimento do registro de candidatura de Rubão. Contra essa decisão foram interpostos agravos regimentais, cujo julgamento teve início em março de 2025.

Naquela oportunidade, o relator votou pela manutenção do indeferimento do registro. Posteriormente, o ministro Nunes Marques acompanhou o voto do relator. Em seguida, o ministro Dias Toffoli formulou pedido de vista, diante da pendência do julgamento do Tema 1229 da repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


"Tema 1229 - Saber se a substituição do titular da chefia do Poder Executivo, por breve período, em virtude de decisão judicial, é causa legítima da inelegibilidade (ou irreelegibilidade) para um segundo mandato consecutivo da qual trata o art. 14, § 5º, da Constituição Federal, na redação dada pela Emenda de n. 16/1997."


Desde então, o processo passou a ser acompanhado com atenção não apenas pelos agentes políticos locais, mas também por cidadãos interessados na estabilidade institucional do município. O julgamento do Tema 1229 pelo STF, a mudança na composição do TSE e a sucessão na Presidência da Corte ocorreram durante o período em que o processo permaneceu pendente, contribuindo para ampliar a expectativa em torno de sua conclusão.

Nos últimos meses, o debate público concentrou-se menos no mérito da controvérsia e mais na ausência de uma definição definitiva. Afinal, enquanto o processo permanecia pendente, Itaguaí seguia convivendo com uma situação política excepcional, marcada pela sucessão de acontecimentos que tiveram origem ainda nas eleições de 2024.

Agora, porém, a discussão muda de natureza.

A principal pergunta deixa de ser quando o TSE irá julgar e passa a ser qual será o resultado do julgamento.

Naturalmente, diferentes grupos políticos possuem expectativas distintas quanto ao desfecho do julgamento e às suas consequências jurídicas e políticas, sendo que muitos acompanham o processo principalmente por suas possíveis consequências administrativas e eleitorais, considerando a possibilidade de termos ainda neste ano um pleito suplementar em Itaguaí.

Mas existe um ponto sobre o qual todos podem concordar: a importância de uma definição.

Em qualquer democracia, controvérsias eleitorais são naturais. O próprio sistema de recursos existe para permitir a revisão das decisões e assegurar a ampla defesa. Contudo, a estabilidade institucional depende de que esses conflitos encontrem uma solução definitiva em prazo razoável.

Independentemente da posição política de cada cidadão, a conclusão do julgamento permitirá que Itaguaí volte a olhar para frente com maior previsibilidade. Seja qual for o resultado, haverá uma decisão do órgão máximo da Justiça Eleitoral brasileira, encerrando uma etapa que há muito tempo influencia o debate político local.

A pauta do dia 18 de junho representa, portanto, mais do que um simples ato processual. Ela simboliza a retomada do tempo institucional da Justiça Eleitoral e a perspectiva de encerramento de um dos capítulos mais relevantes da história política recente do município.

Em momentos como este, mais importante do que antecipar vencedores ou derrotados é valorizar o funcionamento das instituições democráticas. O julgamento pertence ao Tribunal Superior Eleitoral. Seus efeitos, porém, serão sentidos por toda a população de Itaguaí.

E é exatamente por isso que se trata de uma decisão tão aguardada.

domingo, 14 de junho de 2026

Entre a desconfiança e a necessidade de sentido: por que as teorias conspiratórias sobrevivem?


Mosaico romano do Minotauro, Conímbriga (Portugal).


Volta e meia surgem teorias segundo as quais governos, organizações secretas, grandes empresas ou grupos ocultos estariam controlando os acontecimentos do mundo. Algumas parecem inofensivas. Outras ganham enorme repercussão, influenciam debates políticos e chegam a mobilizar milhões de pessoas.

A expansão das redes sociais introduziu um elemento novo nesse fenômeno. Se no passado rumores e suspeitas circulavam de forma limitada, hoje algoritmos digitais podem amplificar conteúdos emocionalmente impactantes em escala global. Narrativas conspiratórias frequentemente oferecem histórias simples, dramáticas e fáceis de compartilhar, características que favorecem sua disseminação em ambientes digitais competitivos pela atenção do público.

A reação mais comum dos céticos diante desse fenômeno costuma ser classificá-lo como simples desinformação ou ignorância. No entanto, talvez essa explicação seja insuficiente.

As teorias conspiratórias não resultam de uma única causa. Elas emergem da interação entre predisposições psicológicas, memória histórica, ambiente informacional e níveis de confiança institucional.

A pergunta mais interessante não é se determinada teoria está correta ou equivocada, mas por que tantas pessoas estão dispostas a acreditar nela.

A história oferece uma pista importante: nem toda suspeita nasce da imaginação. Conspirações reais existiram e continuam existindo. Casos como o Watergate, a Operação Condor, o Escândalo Irã-Contras e os programas de vigilância revelados por Edward Snowden demonstram que governos, empresas e organizações já mentiram, espionaram e conspiraram em diversas ocasiões. Essa memória histórica alimenta uma desconfiança que não surge do nada.

O próprio futebol, em evidência durante esses dias da Copa, nos oferece um exemplo bastante ilustrativo. Durante anos, suspeitas de manipulação de resultados eram frequentemente tratadas como exagero de torcedores inconformados. Entretanto, o escândalo envolvendo o árbitro Edílson Pereira de Carvalho, em 2005, revelou a existência de um esquema criminoso ligado a apostas esportivas. Mais recentemente, a Operação Penalidade Máxima demonstrou que jogadores chegaram a ser aliciados para influenciar determinados lances em partidas do Campeonato Brasileiro.

Quando fatos como esses vêm à tona, fortalecem uma percepção compreensível: se já aconteceu antes, pode acontecer novamente.

Mas existe uma diferença importante entre reconhecer que conspirações existem e concluir que tudo é resultado de uma conspiração.

É nesse ponto que a reflexão filosófica pode oferecer uma contribuição valiosa.

O filósofo escocês David Hume questionou a confiança excessiva na razão pura e, em sua crítica ao raciocínio causal desenvolvida na obra Investigação sobre o Entendimento Humano, chamou atenção para o papel dos hábitos, crenças e expectativas na forma como compreendemos o mundo. Segundo o autor, grande parte das nossas expectativas não decorre de certezas lógicas, mas do hábito de associar acontecimentos que se repetem ao longo do tempo.

A psicologia cognitiva contemporânea parece confirmar, sob novas bases, algumas intuições de Hume. Os trabalhos de Daniel Kahneman e Amos Tversky sobre heurísticas e vieses cognitivos — posteriormente popularizados por Kahneman em Thinking, Fast and Slow — demonstraram que os seres humanos frequentemente recorrem a atalhos mentais para interpretar a realidade. 

Pesquisas recentes sobre comportamento digital e desinformação indicam que conteúdos emocionalmente carregados tendem a gerar maior engajamento e circulação nas plataformas digitais. Nesse ambiente, explicações simplificadas, moralmente polarizadas e capazes de despertar forte reação emocional encontram condições particularmente favoráveis para se difundir.

Talvez essa observação ajude a compreender por que as teorias conspiratórias encontram terreno tão fértil.

Os seres humanos parecem possuir uma necessidade profunda de atribuir sentido aos acontecimentos. Temos dificuldade em aceitar que fatos relevantes possam resultar da combinação de inúmeros fatores independentes, erros humanos, interesses conflitantes e até mesmo do acaso.

Uma narrativa conspiratória oferece algo que a realidade frequentemente não proporciona: uma explicação simples para problemas complexos.

Ela identifica responsáveis, estabelece relações de causa e efeito aparentemente claras e transforma eventos dispersos em uma história coerente. Em um mundo marcado por incertezas, isso pode gerar uma sensação de compreensão e controle.

Sob esse aspecto, as teorias conspiratórias não estão tão distantes de outras formas pelas quais as sociedades buscam interpretar a realidade. Mitos, lendas, religiões e ideologias também procuram responder perguntas fundamentais sobre a origem dos problemas, o funcionamento do mundo e o papel dos indivíduos na história.

Naturalmente, isso não significa que todas as explicações sejam equivalentes ou que a busca pela verdade deva ser abandonada. Pelo contrário. A existência de conspirações reais torna ainda mais importante o exercício do pensamento crítico.

Talvez o maior desafio contemporâneo seja encontrar um equilíbrio entre dois extremos igualmente problemáticos.

De um lado, está a ingenuidade de acreditar em tudo o que nos é apresentado. De outro, a tendência de enxergar manipulações ocultas por trás de qualquer acontecimento.

Entre esses extremos encontra-se o ceticismo saudável: a disposição para duvidar, questionar, investigar e exigir evidências antes de aceitar ou rejeitar uma hipótese.

Esse desafio possui consequências políticas relevantes. Nenhuma sociedade democrática é formada apenas por especialistas, acadêmicos ou técnicos. Governos e instituições precisam dialogar com cidadãos que carregam experiências pessoais, memórias históricas, medos, expectativas e diferentes graus de confiança nas estruturas de poder.

Por isso, simplesmente ridicularizar quem acredita em determinadas teorias raramente resolve o problema. Muitas vezes, por trás de uma narrativa equivocada, existe uma preocupação legítima que merece ser compreendida.

Afinal, o debate público não se limita apenas aos fatos. Ele envolve também percepções, valores e necessidades humanas profundas.

Talvez seja justamente essa a razão pela qual as teorias conspiratórias sobrevivem. Elas não persistem apenas porque algumas pessoas desconhecem determinados fatos. Subsistem porque oferecem respostas para uma necessidade humana antiga: a busca por sentido em um mundo que nem sempre parece fazer sentido.

E essa necessidade, ao que tudo indica, continuará existindo muito depois que as teorias da moda forem substituídas por novas versões da mesma inquietação humana.

Todavia, explicar por que uma crença surge não equivale a demonstrar que ela seja verdadeira. A necessidade humana de atribuir sentido aos acontecimentos ajuda a compreender a origem de determinadas narrativas, mas não substitui a necessidade de evidências para avaliá-las.

Compreender as motivações que levam uma pessoa a aderir a determinada narrativa não significa validar informações falsas nem relativizar a responsabilidade de grupos políticos, estruturas profissionais de desinformação, influenciadores digitais ou agentes econômicos que deliberadamente produzam ou disseminem mentiras capazes de causar danos individuais ou coletivos.

Além das motivações individuais, a confiança institucional desempenha papel decisivo. Em sociedades onde governos, tribunais, meios de comunicação e órgãos de controle desfrutam de maior credibilidade, teorias conspiratórias tendem a encontrar maior resistência. Já em contextos marcados por corrupção, opacidade administrativa ou sucessivos escândalos, a desconfiança pode tornar narrativas alternativas mais plausíveis aos olhos de parte da população.

Se a proliferação de teorias conspiratórias decorre tanto de fatores psicológicos quanto institucionais, sua mitigação exige mais do que simples correções factuais. Transparência administrativa, comunicação pública clara, fortalecimento dos mecanismos independentes de investigação, educação midiática e ampliação do acesso à informação confiável constituem algumas das estratégias capazes de reduzir o espaço ocupado por narrativas infundadas sem restringir o debate democrático.

Diversos estudos em ciência política sugerem que a confiança interpessoal e institucional constitui um ativo fundamental para o funcionamento das democracias. Nesse contexto, ganha relevância a ideia de "capital social", desenvolvida por Robert Putnam. Quando esse capital de confiança se deteriora, narrativas alternativas e explicações conspiratórias tendem a encontrar terreno mais fértil.

Em uma democracia, o problema não é que existam pessoas que acreditam em teorias conspiratórias. O problema surge quando deixamos de conversar com elas. Nenhuma sociedade é formada apenas por especialistas, acadêmicos ou técnicos. Governos, parlamentos e instituições precisam lidar com cidadãos reais, carregando medos, esperanças, memórias e desconfianças. Compreender essas percepções talvez seja mais importante do que tentar eliminá-las.

Isso exige, ao menos, quatro frentes de atuação. A primeira é ampliar a transparência pública e facilitar o acesso a informações verificáveis. A segunda consiste em fortalecer mecanismos independentes de investigação e fiscalização. A terceira envolve investir em educação midiática e pensamento crítico desde a escola. Por fim, torna-se necessário aperfeiçoar a comunicação pública, tornando-a mais clara, acessível e capaz de dialogar com diferentes segmentos da sociedade.


📝 Nota do autor:

Esta reflexão dialoga, entre outras referências, com a obra Investigação sobre o Entendimento Humano, de David Hume; com os estudos sobre heurísticas e vieses cognitivos desenvolvidos por Daniel Kahneman e Amos Tversky, especialmente apresentados em Thinking, Fast and Slow; com pesquisas sobre confiança institucional e capital social de Robert Putnam; e com estudos contemporâneos sobre desinformação digital produzidos por instituições como o Oxford Internet Institute e o Pew Research Center.

A imagem que acompanha este artigo reproduz o mosaico romano do Minotauro existente nas ruínas de Conímbriga, em Portugal. Na mitologia grega, o Labirinto era uma construção destinada a ocultar o Minotauro em seu interior, desafiando aqueles que buscavam encontrar a saída em meio a caminhos complexos e enganosos.

A metáfora dialoga com a reflexão desenvolvida neste texto. Diante da complexidade do mundo contemporâneo, os seres humanos continuam procurando explicações capazes de atribuir ordem, sentido e coerência aos acontecimentos. Nem sempre, porém, os caminhos mais simples conduzem necessariamente às melhores respostas.


📷: Créditos de imagem atribuídos a Manuel Anastácio, conforme disponibilizada sob licença livre no Wikimedia Commons. Fonte: Wikimedia Commons.

Quando o vice assumiu: o dia em que o Brasil ganhou seu primeiro presidente fluminense



No dia 14 de junho de 1909, uma segunda-feira, o Brasil viveu um daqueles acontecimentos que, embora marcantes em seu tempo, acabaram sendo quase esquecidos pela memória coletiva.

Naquela manhã, faleceu o presidente da República, Afonso Pena. No mesmo dia, o vice-presidente Nilo Peçanha assumiu o comando do país.

A sucessão ocorreu de forma imediata e dentro da ordem constitucional, constituindo a primeira vez que um vice-presidente assumia definitivamente a chefia do Estado brasileiro em razão da morte do titular. O episódio representou um importante teste para as ainda jovens instituições republicanas, então com apenas duas décadas de existência.

Mais de um século depois, os nomes dos dois permanecem presentes em ruas, praças, escolas e estações de transporte público. No Rio de Janeiro, por exemplo, milhares de pessoas passam diariamente pela Praça Afonso Pena e pela estação de metrô que leva o mesmo nome. Poucos, entretanto, saberiam explicar quem foi o homem homenageado ou recordar as circunstâncias que levaram seu vice a ocupar a Presidência da República.

O episódio ocorreu em um momento singular da história brasileira. A República tinha apenas vinte anos de existência. Muitos dos protagonistas da Proclamação de 1889 ainda estavam vivos e exerciam influência sobre os rumos do país. Ao mesmo tempo, consolidava-se o sistema político dominado pelas oligarquias estaduais, especialmente de São Paulo e Minas Gerais, conhecido posteriormente como política do café com leite.

Afonso Pena era um dos principais representantes dessa fase de consolidação institucional da República. Mineiro, jurista e político experiente, governava o país desde 1906. Seu mandato foi marcado pela expansão das ferrovias, pelo incentivo à imigração e por projetos voltados à integração econômica e territorial do Brasil.

Sua morte, contudo, abriu espaço para uma figura bastante diferente.

Nilo Peçanha, natural de Campos dos Goytacazes, no então Estado do Rio de Janeiro, não se enquadrava perfeitamente no perfil dos presidentes civis da República Velha. Sua origem política, sua trajetória pessoal e mesmo sua posição dentro das disputas nacionais o tornavam uma figura singular naquele contexto.

Primeiro fluminense a ocupar a Presidência da República, Nilo também se destacava por características pouco comuns entre as lideranças nacionais da época. Sua ascendência mestiça foi explorada por adversários políticos e frequentemente utilizada como instrumento de ataques pessoais em um país que havia abolido a escravidão apenas vinte e um anos antes. Embora o tema ainda seja objeto de estudos históricos, sua trajetória passou a ser vista por muitos pesquisadores como um marco simbólico na presença de brasileiros de origem afrodescendente nos mais altos cargos da República.

Sua chegada ao poder não decorreu de uma eleição presidencial, mas da sucessão constitucional prevista para os casos de vacância do cargo. Ainda assim, o breve governo de Nilo Peçanha deixaria marcas duradouras.

Foi durante sua administração que surgiram as Escolas de Aprendizes Artífices, consideradas a origem da atual rede federal de educação profissional e tecnológica. Em um período em que a educação pública ainda alcançava uma parcela reduzida da população, a iniciativa representou um passo importante para a formação técnica de trabalhadores brasileiros.

Por essa razão, talvez seja injusto lembrar Nilo Peçanha apenas como o vice-presidente que substituiu Afonso Pena. Seu governo, embora curto, deixou um legado que atravessou gerações.

O episódio de 14 de junho de 1909 também revela algo importante sobre a própria história republicana. Costumamos enxergar a Primeira República por meio de grandes fórmulas simplificadoras — a política do café com leite, o domínio das oligarquias, a alternância entre São Paulo e Minas Gerais. A realidade, entretanto, era mais complexa.

A ascensão de Nilo Peçanha demonstra que existiam tensões, disputas regionais e trajetórias individuais capazes de alterar, ainda que temporariamente, o curso da política nacional.

Seu governo duraria apenas dezessete meses. Em novembro de 1910, transmitiria o cargo a Hermes da Fonseca, sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca e representante de uma tradição política mais próxima dos militares que haviam participado da fundação da República. Dessa forma, o breve período de Nilo Peçanha acabou situado entre dois momentos distintos da história republicana: a consolidação do sistema oligárquico da chamada política do café com leite e o retorno de uma liderança militar à Presidência da República.

Talvez por isso valha a pena recordar aquela segunda-feira de junho de 1909.

Não apenas porque um presidente morreu e outro assumiu o seu lugar, mas porque aquele dia oferece uma janela para compreender um Brasil que ajudou a construir as bases do país moderno e que, apesar de sua importância, permanece pouco conhecido pelos brasileiros de hoje.

Quando os passageiros desembarcam na estação Afonso Pena, na Tijuca, ou quando estudantes passam por instituições que levam o nome de Nilo Peçanha, poucos imaginam que esses dois personagens estiveram ligados a uma das sucessões presidenciais mais incomuns da história brasileira. Naquela segunda-feira de 14 de junho de 1909, a morte de um presidente levou ao poder um político fluminense, mestiço e fora dos padrões dominantes da época. Seu governo foi breve, mas deixou marcas que ainda permanecem no Brasil atual.


📝 Nota: 

Durante o governo de Nilo Peçanha foi assinado o Decreto nº 7.566, de 23 de setembro de 1909, que criou as Escolas de Aprendizes Artífices em diversas unidades da federação. Consideradas o embrião da atual Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, essas instituições estão na origem dos atuais Institutos Federais espalhados pelo país.



📷: Imagem do retrato de Nilo Peçanha feito pelo pintor francês Auguste Petit. Acervo do Museu da República.

As Copas que assisti



Esta é a minha décima segunda Copa do Mundo.

A primeira foi em 1978. Eu era uma criança muito pequena, com apenas dois anos de idade. Não sabia o que era a Seleção Brasileira nem entendia de futebol. Suponho que já tivesse alguma bola entre os brinquedos do meu quarto e uma identificação mínima com o escudo do Flamengo, já que meu pai, Francisco, era flamenguista apaixonado. Aliás, nas primeiras semanas de vida eu já usava uma fralda estampada com as cores do clube.

Em 1982, eu tinha seis anos. Meus pais haviam se separado entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980. Morava numa casa de vila no Grajaú, e todo o ambiente estava enfeitado de verde e amarelo. Lembro bem do Laranjito pintado no chão da vila e da música “Voa, Canarinho, Voa”, que tocava o tempo todo na televisão e nas rádios.

Recordo dos primeiros jogos, da euforia da vizinhança e de como minha avó materna, Marisa, comemorava os gols batendo numa velha geladeira que ficava na sala, já que a cozinha não tinha espaço para ela. Era a seleção de Falcão, Zico, Sócrates, Júnior e tantos outros maestros da bola. Infelizmente, fomos eliminados pela Itália na segunda fase do torneio. Paolo Rossi, autor dos três gols italianos, acabou se tornando tão conhecido no Brasil que seu sobrenome virou até apelido de gripe entre os torcedores mais bem-humorados.

Em 1986, eu morava em Juiz de Fora com meu avô paterno, Sylvio. Ele não gostava de futebol, mas outras pessoas da casa assistiam aos jogos, como sua esposa Diva e a cunhada Leonora. Se não me engano, sua sogra, dona Rita, ainda era viva naquela época. Também era um tempo em que ainda se jogavam tiras de papel picado pelas janelas durante as comemorações. Eu adorava fazer aquilo do décimo quarto andar do Edifício Excelsior, na Avenida Rio Branco, o mesmo prédio onde funcionava um antigo cinema de rua. Inclusive, ainda me recordo de ter assistido a algumas sessões ali.

Embora os torcedores depositassem menos esperança naquela seleção do que na de 1982, o Brasil avançou mais no torneio e acabou eliminado apenas nas quartas de final, nos pênaltis, diante da França. Foi também a Copa que revelou Tafarel como goleiro da Seleção. Mais uma vez, porém, eu ainda não veria o Brasil conquistar o título.

Em 1990, aos 14 anos, eu passava alguns dias na casa de minha avó Darcília, em Muriqui, no mesmo imóvel onde atualmente moro com Núbia, na Rua Primeiro de Maio. No entanto, o Brasil acabou eliminado logo nas oitavas de final pela Argentina de Diego Maradona. E olha que havíamos conquistado a Copa América pouco antes.

Eu diria que, entre a pré-adolescência e o início da juventude, foi o período em que mais acompanhei o futebol. Assumi definitivamente minha paixão pelo Flamengo e seguia os campeonatos com entusiasmo, embora, curiosamente, nunca tenha ido ao Maracanã. Também acompanhava com alegria as partidas da seleção de veteranos que disputava torneios de masters e que tantas vezes foram transmitidos pela Band, com narração de Luciano do Valle.

Contudo, foi Galvão Bueno quem mais me acompanhou nas transmissões das Copas do Mundo. Em 1994, aos 18 anos, finalmente chegou o tetra. Era a seleção de Romário, Bebeto e Tafarel. Comemorei intensamente aquele título na Avenida Rio Branco, em Juiz de Fora, quando a multidão tomou a principal via da cidade na altura do Bom Pastor, próximo ao McDonald's.

Na Copa de 1998, também torci bastante. O Brasil chegou à final, mas acabou derrotado pela França. Apesar da decepção, aplaudi os franceses e reconheci seus méritos. O futebol brasileiro vivia um novo grande momento e, em breve, Ronaldo consolidaria sua trajetória como o Fenômeno.

Em 2002, assisti a poucos jogos. Eu morava em Nova Friburgo e não fazia questão de ter televisão em casa. Namorava Núbia e, na manhã da final, estávamos hospedados em um hotel em Icaraí, Niterói. Assistimos ao jogo no refeitório e depois vimos a cidade explodir em festa com a conquista do pentacampeonato.

Na Copa de 2006, assistimos às partidas debaixo das cobertas na fria casa alugada onde morávamos no bairro Braunes, em Nova Friburgo. O Brasil acabou eliminado pela França nas quartas de final. Saí com a sensação de que faltou garra à equipe, embora também seja verdade que o adversário fez uma grande partida.

Em 2010, na primeira Copa realizada em solo africano, morávamos em um apartamento na Rua Farinha Filho, no Centro de Nova Friburgo. Fazia menos frio do que nas Braunes e era possível acompanhar os jogos com mais conforto, usando apenas pantufas, casaco e calça de moletom. Núbia já sofria com dores nos joelhos, mas aproveitamos bastante o torneio. Como em 2006 e também em alguns mundiais da minha infância, o Brasil voltou a ser eliminado na fase de mata-mata. Eu tinha 34 anos, quatro de casado e dividia a casa com Núbia e nossa gata tricolor, Sofia.

Em 2014, já estávamos morando em Muriqui, onde vinte e quatro anos antes eu havia assistido à eliminação do Brasil diante da Argentina. Vivíamos uma fase financeira difícil, mas conseguíamos seguir em frente. Assistimos aos jogos em casa, embora a atenção já começasse a se dividir entre a televisão e os smartphones. A histórica derrota por 7 a 1 para a Alemanha rapidamente se transformou em uma avalanche de memes e comentários nas redes sociais.

Eu diria que as Copas de 2018 e 2022 foram as mais frias que vivi. Depois que nossa televisão queimou, não tivemos iniciativa de comprar outra. A mudança do sinal e os constantes problemas de energia me desanimaram a investir em um novo aparelho. Lembro das polêmicas envolvendo a Copa da Rússia, dos protestos discretos contra a legislação considerada hostil à população LGBT+, do episódio constrangedor envolvendo torcedores brasileiros e uma jovem russa, além da curiosidade de ver o prefeito da cidade vizinha de Itaguaí aparecer em registros feitos no país durante o torneio.

Entretanto, a Copa de 2022, realizada no Catar, pareceu ainda mais fria. Disputada entre novembro e dezembro, logo após as eleições presidenciais brasileiras, encontrou muitos torcedores ainda absorvidos pelo clima político do país. Havia quem não aceitasse o resultado das urnas e, em muitos lugares, o entusiasmo típico das Copas parecia reduzido. Nas ruas, percebi pouca euforia. Na final, acabei torcendo pela Argentina e por Lionel Messi.



Agora, em 2026, espero que o povo aproveite mais uma vez a oportunidade para se divertir. Ainda não percebo o mesmo entusiasmo de outras épocas, mas acredito que o clima possa melhorar ao longo do torneio.

Ontem (13/06) aconteceu a estreia da Seleção Brasileira diante do Marrocos, e a partida terminou empatada em 1 a 1. Nas redes sociais, li muitas críticas à equipe, mas penso que ainda é cedo para julgamentos definitivos. Tratava-se do primeiro jogo da competição e o adversário não era qualquer um: o Marrocos foi semifinalista do Mundial anterior e vem se consolidando como uma das forças emergentes do futebol internacional. Creio que o desempenho pode evoluir ao longo da Copa e, quem sabe, o tão sonhado hexa finalmente venha desta vez.

Afinal, as Copas sempre foram mais do que futebol. Elas marcam momentos da nossa vida, ajudam a medir a passagem do tempo e despertam lembranças de pessoas, lugares e fases que nunca voltam exatamente da mesma forma.

Ao olhar para trás, percebo que cada Copa acabou se transformando numa fotografia afetiva de um período da minha existência. Mudaram as cidades, as casas, os familiares ao meu redor, os amigos, os hábitos e até a maneira de acompanhar os jogos. Algumas pessoas partiram, outras chegaram, e a vida seguiu seu curso. Talvez seja por isso que continuo gostando das Copas do Mundo: não apenas pelos resultados dentro de campo, mas porque elas me permitem revisitar quem eu era em cada etapa da caminhada.

Ao revisitar essas lembranças, percebo também que esta não é a primeira vez que escrevo sobre Copas do Mundo. Em 2010, antes da África do Sul, perguntei aqui no blog onde estaria a torcida depois da Copa

Em 2014, publiquei o artigo intitulado "Apesar de toda a gastança, quero torcer pelo Brasil". Naquele momento, entendia que era possível criticar os excessos e problemas relacionados ao evento sem abandonar a paixão pelo futebol. 

Em 2018, escrevi "Será esta a Copa da frieza?", quando já percebia mudanças na forma como os brasileiros viviam os Mundiais.

Depois do empate na estreia diante do Marrocos, continuo me perguntando se o entusiasmo das antigas poderá voltar ou se apenas aprendemos a torcer de outra maneira.

Apesar da impressão inicial de que esta Copa seria mais fria, alguns sinais apontam em outra direção. Em Mangaratiba, por exemplo, a Prefeitura lançou a campanha "Minha Rua na Copa", incentivando moradores a resgatar a tradição de decorar ruas e espaços públicos. Além da notícia oficial sobre estudantes ajudando a pintar vias do Centro, vi praças enfeitadas em bairros como Muriqui e Itacuruçá e soube de uma grande concentração de torcedores diante do telão montado para a transmissão dos jogos. Talvez o entusiasmo não seja exatamente o mesmo de décadas atrás, mas ainda existe. Apenas encontrou novas formas de se manifestar.


Registro feito pela Prefeitura de Mangaratiba 

Talvez seja justamente essa a principal diferença em relação às Copas da minha infância. As ruas já não são decoradas da mesma forma, a televisão deixou de ser o único ponto de encontro da família e as redes sociais passaram a disputar nossa atenção. Ainda assim, o desejo de torcer, celebrar e compartilhar emoções continua presente.

Hoje percebo que cada um daqueles textos registrava menos a história do futebol e mais as transformações do meu próprio olhar sobre o país, a sociedade e a passagem do tempo. Talvez seja justamente por isso que continuo gostando das Copas do Mundo: porque, a cada quatro anos, elas me ajudam a recordar não apenas os jogos que assisti, mas também a pessoa que fui em cada etapa da vida.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Da Pousada Literária à Costa Verde: lições de um reconhecimento internacional




A recente inclusão da Pousada Literária, de Paraty, na The Travel Green List 2026, da tradicional revista britânica Wanderlust, representa muito mais do que o reconhecimento de um empreendimento hoteleiro. A conquista projeta internacionalmente uma reflexão que interessa a toda a Costa Verde: como transformar a sustentabilidade em um diferencial competitivo para o turismo?

A publicação britânica destacou iniciativas que conciliam preservação ambiental, valorização cultural e fortalecimento das comunidades locais. Entre os aspectos apontados estão o incentivo a fornecedores da região, o uso de ingredientes orgânicos, ações de compensação de carbono, parcerias com cooperativas de reciclagem e a valorização da identidade cultural de Paraty.

Naturalmente, o mérito principal pertence ao empreendimento e aos profissionais que construíram essa trajetória. No entanto, a experiência também suscita uma pergunta importante: o que os governos municipais podem fazer para estimular que mais pousadas, hotéis e operadores turísticos adotem práticas semelhantes?

Durante muito tempo, as políticas públicas de turismo concentraram-se quase exclusivamente na promoção dos destinos e na ampliação do fluxo de visitantes. Hoje, porém, cresce a percepção de que o sucesso de um destino não deve ser medido apenas pelo número de turistas recebidos, mas também pela capacidade de gerar renda, preservar o patrimônio natural e melhorar a qualidade de vida da população local.

Nesse contexto, os municípios possuem instrumentos relevantes para incentivar boas práticas sem necessariamente aumentar a carga tributária ou criar novas exigências burocráticas.

Uma das medidas mais simples seria a criação de um selo municipal de turismo sustentável. Trata-se de uma certificação voluntária destinada a reconhecer empreendimentos que adotem ações como redução do consumo de água e energia, gestão adequada de resíduos, acessibilidade, valorização da cultura local e contratação de trabalhadores da própria região.

O selo poderia ser regulamentado por decreto municipal, coordenado pela Secretaria de Turismo em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente e o Conselho Municipal de Turismo. Os critérios poderiam combinar indicadores objetivos e boas práticas, como metas de redução do consumo de água e energia, percentual mínimo de compras realizadas junto a fornecedores locais, gestão adequada de resíduos e participação em programas de capacitação. A certificação poderia ser renovada periodicamente mediante auditoria simplificada ou apresentação de relatórios padronizados.

O decreto poderia disciplinar procedimentos administrativos e critérios de certificação, observadas a legislação municipal vigente e as diretrizes dos instrumentos de planejamento local.

Mais importante do que o selo em si seria o reconhecimento público associado a ele. Empreendimentos certificados poderiam receber destaque em campanhas promocionais, feiras de turismo, portais institucionais e materiais divulgados pelos órgãos oficiais de turismo.

Outra iniciativa relevante seria ampliar programas de capacitação voltados ao setor. Muitos empresários desejam adotar práticas sustentáveis, mas nem sempre possuem acesso às informações técnicas necessárias. Parcerias com instituições como o SEBRAE, universidades e entidades ambientais poderiam oferecer treinamento em gestão ambiental, economia circular, eficiência energética e turismo de experiência.

Também merece destaque o fortalecimento das cadeias produtivas locais. Quando uma pousada compra alimentos de agricultores da região, contrata guias locais, utiliza artesanato produzido no município e valoriza manifestações culturais tradicionais, o benefício econômico do turismo se espalha por toda a comunidade. É justamente essa lógica que aparece entre os fatores destacados no reconhecimento internacional da Pousada Literária.

Por outro lado, seria um equívoco atribuir toda a responsabilidade aos empreendedores. A sustentabilidade de um destino depende igualmente da atuação do Poder Público em áreas como saneamento básico, coleta de resíduos, mobilidade urbana, ordenamento territorial e preservação ambiental.

Uma pousada pode implantar as melhores práticas ambientais do mundo, mas continuará enfrentando dificuldades se o visitante encontrar praias poluídas, descarte irregular de lixo ou infraestrutura urbana precária.

Os desafios, contudo, não são pequenos. O crescimento do turismo frequentemente convive com pressões por expansão imobiliária, ocupação de áreas ambientalmente sensíveis e aumento da demanda sobre serviços públicos. O equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental exige planejamento, fiscalização e participação social permanentes, sob pena de comprometer justamente os atributos que tornam o destino atrativo.

Talvez a principal lição de Paraty seja justamente esta: o turismo sustentável não nasce de uma única lei, de uma única taxa ou de uma única certificação. Ele resulta da combinação entre iniciativa privada, participação comunitária e políticas públicas consistentes.

O reconhecimento internacional conquistado por Paraty reforça a necessidade de uma agenda regional. Questões como saneamento, mobilidade turística, preservação ambiental e promoção internacional extrapolam os limites de um único município. Um consórcio intermunicipal ou protocolo de cooperação envolvendo Paraty, Angra dos Reis, Mangaratiba e Itaguaí poderia permitir ações conjuntas de promoção turística, capacitação profissional, definição de indicadores regionais de sustentabilidade, integração de roteiros turísticos e proteção ambiental. Essa governança poderia ser apoiada por uma comissão técnica permanente, metas plurianuais compartilhadas e captação de recursos por meio de convênios estaduais, federais ou fundos específicos voltados ao desenvolvimento regional.

Para municípios da Costa Verde, como Mangaratiba e Angra dos Reis, o reconhecimento internacional conquistado por Paraty deveria ser visto não apenas como motivo de orgulho regional, mas como inspiração para a construção de uma estratégia comum. Em um cenário global no qual os viajantes buscam experiências autênticas, contato com a natureza e impacto positivo nos destinos, investir em sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão ambiental para se tornar uma estratégia de desenvolvimento econômico. Talvez essa seja a grande mensagem deixada pela Wanderlust: os destinos turísticos mais promissores do futuro serão aqueles capazes de preservar aquilo que os torna únicos.

O exemplo de Paraty indica caminhos. Cabe agora às autoridades locais e aos empresários do setor turístico transformar iniciativas exemplares em políticas públicas, mecanismos de cooperação regional e estratégias de longo prazo, integrando saneamento, mobilidade e preservação ambiental ao desenvolvimento turístico da Costa Verde.


Lições de outros destinos brasileiros

Experiências bem-sucedidas em diferentes regiões do país demonstram que essa combinação pode assumir formatos diversos, adaptados às características de cada território.

Bonito (MS): controle da capacidade de visitação em atrações naturais e forte integração entre conservação ambiental e atividade turística.

Fernando de Noronha (PE): utilização de mecanismos de cobrança vinculados à preservação ambiental e à manutenção dos ecossistemas insulares.

Brotas (SP): desenvolvimento do ecoturismo e do turismo de aventura associado à valorização dos recursos naturais e ao empreendedorismo local.

Gramado (RS): exemplo de governança turística permanente, baseada no planejamento de longo prazo e na cooperação entre setor público e iniciativa privada.

Esses casos demonstram que não existe um modelo único de turismo sustentável. Cada destino constrói sua própria estratégia a partir de suas características ambientais, culturais e econômicas.