As recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticando o estilo de liderança de Donald Trump — especialmente a ideia de “governar o mundo pelo Twitter” — não podem ser lidas como um episódio isolado, nem como mero gesto retórico. Elas fazem parte de uma estratégia diplomática mais ampla, cuidadosamente construída ao longo de 2025 e início de 2026, e dialogam tanto com a reorganização da ordem internacional quanto com a política doméstica brasileira.
Este artigo busca analisar essa estratégia em três planos interligados: o cenário internacional, as tensões internas da esquerda brasileira e o cálculo eleitoral de Lula diante da atual configuração política.
1. Uma estratégia internacional coerente, não episódica
Desde o início de 2025, o governo Lula vem reposicionando o Brasil como um ator previsível, institucional e multilateral, em contraste com a crescente imprevisibilidade do sistema internacional. Esse reposicionamento teve marcos claros:
- a defesa reiterada do multilateralismo em fóruns globais;
- a publicação de um artigo assinado por Lula em grandes jornais europeus, enfatizando a necessidade de regras, instituições e cooperação internacional;
- o avanço decisivo do acordo Mercosul–União Europeia;
- uma aproximação pragmática com Trump no final de 2025, voltada à contenção de riscos;
- e, por fim, a crítica pública ao unilateralismo personalista do ex-presidente americano, já em janeiro de 2026.
Lida em conjunto, essa sequência revela um fio condutor claro: Lula não busca confronto direto com os Estados Unidos, mas tampouco aceita subordinação. Sua crítica não é à existência dos EUA como potência, e sim ao método — decisões unilaterais, personalismo e diplomacia feita por redes sociais.
Esse discurso encontra ressonância imediata na Europa, especialmente em um momento em que líderes como Macron, Scholz e Sánchez tentam reduzir a dependência europeia de Washington sem romper a aliança atlântica. A fala de Lula, nesse sentido, não é dirigida apenas a Trump, mas também — e talvez principalmente — a Bruxelas, Paris, Berlim e Madri.
2. Brasil entre EUA, UE e China: autonomia pragmática
A estratégia brasileira busca posicionar o país como um polo autônomo em um sistema triangular:
- União Europeia: parceira normativa e institucional, ancorada no acordo Mercosul–UE, na agenda ambiental e na previsibilidade diplomática.
- China: principal parceira econômica, com relações estruturais em comércio e investimentos, mantidas de forma pragmática e sem alinhamento ideológico.
- Estados Unidos: parceiro inevitável, porém volátil sob Trump, com quem o Brasil tenta extrair ganhos pontuais sem dependência excessiva.
Nesse contexto, a crítica de Lula ao estilo de Trump não reduz necessariamente a margem de negociação com Washington. Ao contrário: ao demonstrar que o Brasil possui alternativas reais (Europa e China), Lula aumenta seu poder de barganha. Trump, historicamente, tende a reagir a esse tipo de movimento tentando reequilibrar sua influência por meio de acordos bilaterais.
Quanto à China, não há sinais concretos de ruptura ou tensão. O que se observa, no máximo, é um ajuste de prioridades diplomáticas nos últimos meses, com maior foco europeu. Pequim tende a valorizar estabilidade e continuidade contratual — e isso o Brasil tem mantido.
3. As divisões da esquerda brasileira diante do multilateralismo
Internamente, a estratégia de Lula não é consensual à esquerda. Há três discursos críticos principais:
- A esquerda socialista ortodoxa, que vê o multilateralismo liberal (ONU, OMC, UE) como instrumento de reprodução do capitalismo global e do imperialismo. Para esse campo, acordos como o Mercosul–UE são estruturalmente assimétricos e incompatíveis com um projeto de ruptura.
- A esquerda nacional-desenvolvimentista crítica, que aceita o multilateralismo apenas como instrumento, desde que não limite a política industrial, o papel do Estado e a soberania econômica.
- Uma esquerda identitária globalista, minoritária no Brasil, que critica Lula não por excesso de pragmatismo econômico, mas por considerar sua diplomacia cautelosa demais em temas de direitos humanos universais.
Lula se posiciona claramente fora da esquerda ortodoxa. Ele aposta na reforma do sistema internacional, não em sua ruptura. Isso gera críticas, mas não surpresa.
4. O paralelo com 2003–2006: a história se repete, com mais margem
O dilema atual é estruturalmente semelhante ao vivido por Lula em seu primeiro mandato. Entre 2003 e 2006, ele enfrentou forte oposição interna ao manter o tripé macroeconômico, respeitar contratos e buscar inserção global responsável. Houve rupturas, saída de quadros do PT e acusações de “neoliberalismo”.
A resposta de Lula naquela época foi clara:
- aceitou perder a esquerda radical;
- compensou com políticas sociais robustas;
- construiu legitimidade internacional.
O resultado foi crescimento, alta aprovação e reeleição.
A diferença agora é que Lula atua com muito mais capital político. Ele já é uma liderança global consolidada e enfrenta um cenário em que não há adversário competitivo à esquerda. A oposição real está concentrada do centro-direita à extrema direita.
Isso explica o conforto do presidente diante das críticas vindas da esquerda radical: o custo eleitoral é baixo, enquanto os ganhos diplomáticos e econômicos potenciais são elevados.
5. Repercussão eleitoral: quem ganha e quem perde
A estratégia tende a produzir efeitos distintos no eleitorado:
- Esquerda moderada e jovens urbanos: tendem a apoiar a defesa do multilateralismo, da cooperação e da previsibilidade.
- Centro político: reage de forma pragmática, desde que a política externa seja associada a estabilidade econômica e geração de oportunidades.
- Direita pró-EUA: pode rejeitar a crítica a Trump, mas dificilmente migrará para Lula de qualquer forma.
- Esquerda radical: mantém críticas ideológicas, mas sem capacidade de ameaça eleitoral real.
Conclusão
A fala de Lula sobre Trump não é improviso, nem bravata. Ela integra uma estratégia consciente de inserção internacional, que combina multilateralismo, autonomia pragmática e cálculo político interno. Trata-se de uma escolha que desagrada setores da esquerda antissistêmica, mas que dialoga com a Europa, amplia a margem de negociação com os EUA e preserva relações estruturais com a China.
Assim como em 2003, Lula aceita a tensão interna como custo de governabilidade. A diferença é que, agora, ele o faz com mais experiência, mais prestígio internacional e menos riscos eleitorais.
Em um mundo cada vez mais fragmentado, o Brasil tenta ocupar um espaço raro: o de país que fala com todos, sem se submeter a ninguém.










