Vivemos um período que pode ser descrito como de erosão democrática global. Em diferentes países, observa-se o enfraquecimento da confiança nas instituições, a polarização extrema do debate público, o crescimento de lideranças personalistas e a judicialização crescente de temas que antes eram resolvidos no âmbito político. Democracias consolidadas enfrentam tensões internas profundas; democracias mais jovens, como a brasileira, sentem essas pressões de maneira ainda mais intensa.
Nunca estivemos tão conectados tecnicamente — e talvez nunca tão fragmentados simbolicamente.
A expansão das redes digitais multiplicou vozes, mas também fragmentou consensos. A circulação acelerada de informações reduziu o tempo de reflexão coletiva. O conflito político tornou-se permanente, instantâneo e muitas vezes desancorado de processos institucionais de mediação.
Diante desse cenário, discute-se em vários países como reinventar a democracia para o século XXI. Surgem propostas como:
- assembleias cidadãs sorteadas para temas complexos;
- júris cívicos para decisões de alto impacto;
- processos deliberativos estruturados;
- participação qualificada e decisão informada;
- maior transparência e comunicação ativa das instituições.
Esses instrumentos não substituem eleições, mas buscam fortalecer a mediação entre sociedade e Estado. Contudo, antes de multiplicarmos mecanismos, talvez seja necessário enfrentar uma questão mais fundamental: qual é o papel do Parlamento nesse novo contexto?
Parlamento: a democracia como fala organizada
A palavra “parlamento” vem do verbo francês parler — falar. Mas não se trata de qualquer fala. Trata-se de fala pública, argumentativa, registrada, sujeita à réplica e destinada à decisão.
Historicamente, parlamentos surgem como espaços onde o conflito deixa de ser resolvido pela força e passa a ser resolvido pela palavra. O Parlamento é a institucionalização do desacordo.
Quando essa função se enfraquece, o conflito não desaparece — ele apenas muda de lugar. Migra para as ruas, para as redes sociais ou para os tribunais.
O deslocamento brasileiro: omissão e hiperjudicialização
No Brasil contemporâneo, o Legislativo mantém amplos poderes formais, mas perdeu centralidade simbólica no debate público. Muitas decisões estruturantes acabam sendo tomadas pelo Executivo por instrumentos céleres ou, em temas sensíveis, pelo Judiciário — em especial pelo STF.
Não se trata de acusar o Judiciário de usurpação. Na maioria das vezes, ele atua porque foi provocado. E é provocado porque o Parlamento evitou decidir ou decidiu sem construir debate público suficiente para sustentar politicamente a decisão.
Quando o Legislativo se omite ou comunica mal, abre espaço para que outros poderes ocupem o vazio.
O problema não é o Judiciário decidir. O problema é o Parlamento não mediar antes que a decisão chegue lá.
Democracia não é apenas eleição
Há uma compreensão reducionista da democracia como sinônimo de voto periódico. Elegem-se representantes, estes votam projetos e o processo se encerra. Mas isso empobrece a experiência democrática.
Entre a eleição e a votação de um projeto deveria existir algo essencial: a mediação pública do conflito.
Mediação significa:
- explicitar divergências reais;
- ouvir posições técnicas e sociais;
- registrar argumentos contrários com respeito;
- tornar visíveis os custos e impactos das escolhas.
Quando o Parlamento vota sem explicar, sem estruturar o debate e sem traduzir o impacto das decisões para a sociedade, ele se transforma em cartório legislativo ou palco de discursos para redes sociais.
E, nesse cenário, cresce a desconfiança.
A Casa do Povo precisa reaprender a falar
Se o Parlamento é a “casa do povo”, sua função central não é apenas aprovar leis — é produzir debate qualificado. Isso implica:
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Explicar antes de decidir.Projetos relevantes precisam de versões simplificadas, relatórios claros sobre impactos orçamentários e sociais e sessões explicativas específicas.
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Assumir temas difíceis.Questões sensíveis não podem ser evitadas por medo de desgaste. Quando o Legislativo se esquiva, transfere a responsabilidade para juízes.
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Criar rituais deliberativos visíveis.Audiências estruturadas, ciclos temáticos e sínteses públicas são instrumentos para transformar o conflito em construção política — não em espetáculo.
Democracia é, por natureza, mais lenta que a lógica das redes sociais. Mas sua lentidão é virtude, não defeito.
Começar pelo local
A reconstrução dessa cultura deliberativa talvez não comece em Brasília. Pode começar nas Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas — espaços menos visibilizados, mas territorialmente próximos da população.
No âmbito local, é possível:
- tornar obrigatória a apresentação clara de projetos;
- realizar sessões exclusivamente explicativas antes de votações relevantes;
- ampliar a presença institucional em escolas, universidades e rádios comunitárias;
- transformar a comunicação legislativa em dever, não em favor.
A democracia se fortalece quando o cidadão entende o que está sendo decidido e por quê.
Antes das inovações, o sentido
É legítimo pensar em assembleias cidadãs, júris cívicos e novos instrumentos participativos. Mas essas ferramentas só terão efeito se o Parlamento recuperar seu papel originário: o de espaço estruturado de fala, escuta e decisão.
Sem isso, qualquer inovação será percebida como técnica, artificial ou capturada.
O verdadeiro desafio não é criar novos mecanismos. É reconstruir a cultura parlamentar.
Num tempo de fragmentação e hiperconectividade, em que todos falam e poucos escutam, o Parlamento pode voltar a ser o lugar onde se fala para decidir — e se decide depois de ouvir.
Se não o fizermos, outros decidirão por nós.
E a democracia se tornará cada vez mais um rito eleitoral, não um processo contínuo de mediação pública.
OBS: O Painel “Primeiro capítulo de nossa história parlamentar” (segunda imagem do texto), de José Fiúza Guimarães, no Palácio Tiradentes (primeira imagem), no Centro do Rio de Janeiro, retrata Antônio Carlos de Andrada defendendo a autonomia brasileira nas Cortes portuguesas. A frase “Desta tribuna até os reis têm que me ouvir” sintetiza o ideal do Parlamento como espaço de fala pública capaz de limitar o poder.







