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A situação política e institucional do Estado do Rio de Janeiro em 2026 produziu um cenário que dificilmente poderia ter sido previsto no início do ano.
De um lado, o Supremo Tribunal Federal ainda precisa concluir o julgamento de duas ações relacionadas à dupla vacância do Governo do Estado e à forma de escolha de quem deveria exercer o chamado mandato-tampão: a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 7.942 e a Reclamação nº 92.644.
De outro, surgiu depois das eleições de outubro uma terceira controvérsia: a ADPF nº 1.362, proposta pelo PSD Nacional, que questiona a decisão do Tribunal Superior Eleitoral que retirou os 274.411 votos atribuídos a Anthony Garotinho da base de cálculo da votação válida e, com isso, transformou a votação de Douglas Ruas, originalmente correspondente a 49,27%, em maioria absoluta suficiente para encerrar a eleição no primeiro turno.
As três ações possuem objetos jurídicos diferentes.
No entanto, dependendo do que o STF decidir nas próximas semanas, elas podem acabar se encontrando em um mesmo problema constitucional: quem deve governar o Estado do Rio enquanto o eleitorado ainda não tiver concluído a escolha do governador para o mandato que se inicia em 6 de janeiro de 2027?
COMO COMEÇOU A INTERINIDADE NO GOVERNO DO RIO
A atual situação de interinidade nasceu depois da dupla vacância do Poder Executivo estadual.
Cláudio Castro renunciou ao cargo em 23 de março de 2026, um dia antes de seu julgamento no TSE. O vice-governador Thiago Pampolha já havia deixado o mandato anteriormente para assumir vaga no Tribunal de Contas do Estado.
A partir daí surgiu uma controvérsia sobre a forma de preenchimento do restante do mandato: eleição indireta pela Assembleia Legislativa ou eleição direta pela população?
A questão chegou ao Supremo por dois caminhos.
Na ADI nº 7.942, relatada pelo ministro Luiz Fux, discute-se principalmente a constitucionalidade das regras estaduais relativas à eleição para o mandato-tampão e, consequentemente, a definição sobre a forma de preenchimento da dupla vacância.
Já na Reclamação nº 92.644, de relatoria do ministro Cristiano Zanin, discute-se a decisão do TSE que havia determinado eleição indireta, em meio à controvérsia sobre se a vacância teria ou não natureza eleitoral.
Foi justamente na Reclamação que Zanin suspendeu a eleição indireta e determinou que o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro permanecesse interinamente no Governo até que o Plenário do Supremo resolvesse a controvérsia.
Posteriormente, depois que Douglas Ruas foi eleito presidente da Assembleia Legislativa, a Alerj requereu que ele assumisse o Governo com base na ordem sucessória prevista na Constituição estadual. Fux rejeitou o pedido justamente porque já existia determinação expressa do Plenário para que o presidente do TJ-RJ permanecesse no Executivo “até nova deliberação” do STF.
Assim, Ricardo Couto permanece no Palácio Guanabara não porque possua mandato eletivo para governar o Estado, mas em decorrência de uma solução excepcional construída pelo próprio Supremo enquanto não termina o julgamento sobre a sucessão.
A ADPF 1.362 ACRESCENTOU UMA NOVA VARIÁVEL
O que ninguém poderia prever quando a ADI 7.942 e a Reclamação 92.644 começaram a ser julgadas era que a própria eleição geral de 2026 produziria uma nova controvérsia capaz de interferir diretamente nesse problema sucessório.
Na totalização original do primeiro turno, realizada em 4 de outubro, Douglas Ruas obteve 49,27% e Eduardo Paes 42,76%. A própria Justiça Eleitoral anunciou naquele momento a realização do segundo turno.
Dias depois, entretanto, o TSE concluiu o julgamento do recurso relativo à candidatura de Anthony Garotinho. Por maioria de cinco votos a dois, manteve o indeferimento do registro e determinou que os 274.411 votos atribuídos a Garotinho fossem excluídos da base de cálculo dos votos válidos.
A consequência foi a retotalização da eleição e o reconhecimento de maioria absoluta de Douglas Ruas.
É contra os efeitos constitucionais dessa decisão que o PSD Nacional apresentou a ADPF nº 1.362, atualmente sob relatoria do ministro Cristiano Zanin. O TSE já prestou as informações requisitadas, e o processo passou posteriormente à fase de manifestação da Advocacia-Geral da União.
Como já expus anteriormente, inclusive em manifestação que apresentei ao STF ao requerer ingresso como amicus curiae, considero juridicamente defensável que a invalidação dos votos em relação a Garotinho não produza automaticamente o efeito de criar, em benefício de outro candidato, uma maioria absoluta que não existia ao término da primeira votação.
Se essa tese for acolhida, surge uma consequência que ultrapassa a própria ADPF: a eleição para governador do Rio de Janeiro ainda não terminou.
E é exatamente aí que a ADPF 1.362 passa a se encontrar materialmente com a ADI 7.942 e a Reclamação 92.644.
MEADOS DE NOVEMBRO PODEM SER DECISIVOS
O tempo passa a ter enorme importância.
O calendário de eleições suplementares do TSE reservou 6 de dezembro de 2026 como a última data do ano destinada à realização desses pleitos. Há, inclusive, eleições municipais suplementares já previstas para esse domingo em diversos estados.
É importante fazer uma ressalva aqui. Um eventual segundo turno restabelecido judicialmente no Rio não se enquadra perfeitamente no conceito tradicional de “eleição suplementar”. Não se estaria anulando integralmente uma eleição para realizar outra desde o início, mas completando a segunda etapa da eleição geral cuja realização teria sido indevidamente suprimida.
Ainda assim, 6 de dezembro constitui hoje a referência operacional mais concreta para uma eventual segunda votação ainda em 2026.
Se o STF conseguir definir a ADPF 1.362 até aproximadamente a primeira quinzena de novembro e reconhecer a necessidade de segundo turno, haveria uma janela razoável para que a Justiça Eleitoral organizasse a votação naquele domingo.
Não caberia propriamente ao Supremo administrar urnas ou elaborar o calendário eleitoral. O STF decidiria a questão constitucional e determinaria a realização da segunda votação. A partir daí, caberia à Justiça Eleitoral adotar as providências concretas, com atuação do TRE-RJ e observância das atribuições e normas nacionais do TSE.
A própria resposta do TSE ao Supremo fornece uma pista importante. Ao explicar por que já não seria tecnicamente possível realizar o segundo turno para governador juntamente com a eleição presidencial em 25 de outubro, o Tribunal afirmou que as urnas já estavam preparadas e lacradas e que seria necessária a geração de novas mídias, nova carga dos equipamentos e novas cerimônias de lacração, fiscalização e auditoria.
O TSE não afirmou, portanto, que seria impossível realizar o segundo turno posteriormente. A dificuldade estava na falta de tempo para fazê-lo em 25 de outubro.
Com algumas semanas de antecedência, o cenário seria completamente diferente.
Por isso, uma definição do STF até meados de novembro poderia tornar 6 de dezembro a solução mais simples e institucionalmente menos traumática.
UMA HIPÓTESE A SER AVALIADA: SEGUNDO TURNO EM DEZEMBRO
Se a segunda votação ocorresse em 6 de dezembro, ainda haveria praticamente um mês até a posse constitucional dos governadores, marcada para 6 de janeiro de 2027 pela Constituição Federal, após a alteração promovida pela Emenda Constitucional nº 111/2021.
Nesse cenário, seria possível concluir a votação, proclamar o resultado, proceder à diplomação e preparar a posse do vencedor.
A interinidade de Ricardo Couto poderia então cumprir exatamente a função de transição que justificou sua criação: assegurar continuidade administrativa enquanto o processo político e eleitoral chegasse ao fim.
Há ainda outro aspecto importante. Se a linha sucessória fosse restabelecida antes da realização do segundo turno, Douglas Ruas, na condição de atual presidente da Alerj, poderia reivindicar a Chefia interina do Executivo justamente durante uma eleição em que seria candidato.
Isso não significaria, naturalmente, autorização para qualquer utilização eleitoral da máquina pública. Existem normas, controles e sanções contra abuso de poder. No entanto, é evidente que governar o Estado proporciona visibilidade, agenda institucional e poder administrativo que o outro concorrente não possuiria.
Por outro lado, manter por muito tempo o presidente do Tribunal de Justiça à frente do Executivo também é uma solução constitucionalmente excepcional e desconfortável sob a ótica da separação dos Poderes.
Esse é precisamente o tipo de dilema que demonstra por que as três ações podem deixar de ser analisadas isoladamente.
E SE O SEGUNDO TURNO FICAR PARA 2027?
A situação se torna muito mais complexa se a decisão da ADPF não vier a tempo de permitir uma votação em dezembro.
O TSE já divulgou as datas reservadas às eleições suplementares de 2027.
No primeiro semestre estão previstos os domingos de 10 de janeiro, 14 de fevereiro, 7 de março, 4 de abril, 16 de maio e 6 de junho.
Essas datas não obrigariam automaticamente que o eventual segundo turno fluminense ocorresse nelas. A situação seria excepcional e exigiria calendário específico da Justiça Eleitoral.
Entretanto, essas datas ajudam a visualizar os possíveis cenários, considerando que a Justiça Eleitoral queira aproveitar o mesmo dia de uma eleição suplementar.
UMA ELEIÇÃO EM 10 DE JANEIRO
A primeira data prevista no calendário de eleições suplementares de 2027 é 10 de janeiro, apenas quatro dias depois da data constitucional prevista para a posse do governador.
Se ainda não houvesse vencedor definitivo em 6 de janeiro, seria praticamente inevitável uma decisão do STF sobre quem permaneceria governando o Estado até a realização do segundo turno, proclamação do resultado, diplomação e posse.
Nesse cenário, a ordem já existente na Reclamação 92.644 poderia adquirir uma função diferente daquela que possuía originalmente. Ricardo Couto deixaria de ser apenas o interino encarregado de conduzir o final do mandato 2023-2027 e poderia passar a exercer uma função de transição entre dois períodos constitucionais enquanto a própria eleição geral ainda estivesse inconclusa.
Isso dependeria, evidentemente, de nova decisão do Supremo.
A expressão atualmente utilizada — permanência do presidente do TJ ‘até nova deliberação’ — não resolve por si só o que ocorrerá depois de 6 de janeiro, mas impede afirmar que a ordem judicial contenha, em seu próprio texto, uma data automática de cessação.
FEVEREIRO OU MARÇO MUDARIAM AINDA MAIS O CENÁRIO
Se o eventual segundo turno fosse realizado somente em 14 de fevereiro ou 7 de março, haveria uma mudança institucional adicional.
A nova legislatura da Assembleia Legislativa toma posse em 1º de fevereiro de 2027, data em que também se inicia a reorganização de sua Mesa Diretora. A própria Alerj já informa que os 70 deputados eleitos para a legislatura 2027-2030 tomarão posse nessa data.
Douglas Ruas já não estará na situação atual de deputado e presidente da Assembleia.
Consequentemente, a discussão sobre a sucessão não poderia continuar sendo feita simplesmente com base na atual presidência da Alerj. Haveria um novo presidente do Poder Legislativo estadual, o qual passaria a ocupar sua própria posição na linha sucessória.
Isso poderia gerar uma situação institucional ainda mais complexa: substituir o presidente do TJ pelo atual presidente da Alerj, depois substituir este pelo novo presidente eleito pela legislatura de 2027 e, finalmente, poucos dias ou semanas depois, dar posse ao governador escolhido no segundo turno.
A possibilidade de sucessivas mudanças no comando do Executivo acrescentaria dificuldades administrativas. Isso, porém, não bastaria para afastar a ordem sucessória constitucional. Uma solução de continuidade dependeria de fundamento jurídico específico e de delimitação temporal.
Não significa que o presidente do TJ tenha um direito próprio a permanecer no Governo. Significa apenas que o Supremo precisaria ponderar estabilidade institucional, continuidade administrativa, separação dos Poderes e normalidade do processo eleitoral.
Uma eventual mudança na Presidência do TJ-RJ durante a interinidade acrescentaria outra questão: quais seriam seus efeitos sobre o exercício do Executivo? A resposta dependeria da redação e dos fundamentos da ordem judicial então vigente, sem que se possa presumir de antemão que a permanência esteja vinculada pessoalmente a Ricardo Couto ou que acompanhe automaticamente quem vier a presidir o Tribunal.
CONTINUIDADE ADMINISTRATIVA E INTEGRIDADE ELEITORAL
Existe um componente político inevitável nessa discussão.
Diante da possibilidade de realização do segundo turno, a permanência de uma autoridade que não disputa a eleição pode parecer a solução mais equilibrada durante a campanha.
O exercício interino do governo por um dos concorrentes tornaria especialmente relevante a fiscalização das condutas eleitorais. Essa circunstância, entretanto, não dispensa o exame do título constitucional para a substituição nem constitui, por si só, fundamento para afastá-lo.
A questão constitucional deve ser formulada em termos institucionais: qual solução preserva melhor a continuidade administrativa, a igualdade entre os concorrentes, a normalidade do processo eleitoral e a separação dos Poderes enquanto a eleição ainda não terminou?
Nesse contexto, a circunstância de um dos candidatos poder assumir interinamente o Executivo durante a campanha é um fato relevante, mas deve ser examinada sob a ótica da integridade do processo eleitoral.
TRÊS PROCESSOS QUE PODEM PRECISAR DE UMA SOLUÇÃO COORDENADA
A ADI 7.942 e a Reclamação 92.644 nasceram da crise sucessória provocada pela dupla vacância do Executivo estadual, em um contexto diretamente marcado pelo julgamento eleitoral relacionado às eleições de 2022.
A ADPF 1.362 nasceu meses depois das duas ações para responder a uma controvérsia sobre a eleição de 2026 destinada a escolher o governador do mandato seguinte.
Até aqui, são processos juridicamente independentes.
Todavia, se o Supremo reconhecer que o segundo turno ainda precisa ser realizado, essa separação ficará muito mais difícil de manter na prática.
A ADI e a Reclamação perguntam quem deve governar durante a vacância. Já a ADPF pode levar ao reconhecimento de que a eleição destinada ao mandato seguinte ainda precisa ser concluída. Se essa conclusão ultrapassar a data prevista para a posse, surgirá uma nova questão sobre o exercício interino do Executivo.
Caso isso ocorra, será difícil resolver a sucessão sem levar em consideração o calendário eleitoral — e igualmente difícil organizar a eleição sem saber quem exercerá o Governo enquanto ela acontece.
Por isso, uma decisão da ADPF 1.362 até meados de novembro teria importância que vai muito além da escolha entre Eduardo Paes e Douglas Ruas. Permitiria à Justiça Eleitoral trabalhar com a possibilidade concreta de uma votação em 6 de dezembro e reduziria enormemente o risco de que a indefinição ultrapasse a data constitucional da posse.
Se, ao contrário, o julgamento avançar para o final do ano ou para 2027, o STF poderá ser obrigado a resolver uma situação constitucional inédita: manter ou substituir um governador interino depois de 6 de janeiro enquanto milhões de eleitores ainda aguardam para concluir a escolha de quem deverá governá-los pelos próximos quatro anos.
A sucessão e a eleição, portanto, podem estar prestes a se encontrar no Supremo. E o calendário talvez seja tão importante quanto as próprias teses jurídicas.
📷: Antonio Augusto/STF.




