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segunda-feira, 2 de março de 2026

Como o ataque dos EUA ao Irã reforça a narrativa de Putin e pode beneficiar a Rússia



A ofensiva militar coordenada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026 e culminando na morte do líder supremo Ali Khamenei, não é apenas um dos episódios mais graves de uso da força no Oriente Médio nas últimas décadas — ela também se insere diretamente no xadrez geopolítico no qual a Rússia de Vladimir Putin tem interesses estratégicos claros.


1. Uma oportunidade narrativa contra os EUA

Desde o início da crise, o Kremlin apresentou a ação como uma “agressão não provocada”, condenando os ataques e classificando a morte de Khamenei como uma violação de normas internacionais e da soberania de um Estado. Putin emitiu declarações fortes nesse sentido, ressaltando sua “profunda solidariedade” com o povo iraniano e atacando o que chamou de “violação moral e do direito internacional” pelos EUA. Isso ecoa uma narrativa que Moscou construiu nas últimas décadas: a de um Ocidente intervencionista e hegemonista que age fora das regras do sistema multilateral.

Essa mesma narrativa tem sido usada pela Rússia para justificar ações próprias — por exemplo na guerra contra a Ucrânia — apresentando-as como defesa contra uma potência ocidental dominante. O ataque ao Irã permite a Moscou reforçar internamente esse discurso, retratando os EUA como adotar uma postura beligerante e unilateral.


2. Distrair a atenção dos EUA de outras frentes, inclusive da Ucrânia

Uma das leituras estratégicas mais plausíveis é que um foco prolongado americano em um conflito no Oriente Médio pode diluir a atenção e os recursos dos EUA em outros lugares onde Moscou enfrenta oposição, especialmente a guerra na Ucrânia. Em termos de recursos militares e políticos, crises externas obrigam Washington a dividir prioridades — e isso politicamente pode fortalecer Moscou no teatro europeu.

Além disso, a realocação de sistemas de defesa e interceptores para o teatro do Golfo pode reduzir a capacidade de apoio ocidental na Ucrânia, abrindo brechas que a Rússia poderia tentar explorar de maneira estratégica e tática (embora com limites).


3. Elevação de preços de energia e alívio econômico estratégico

O conflito teve impacto direto sobre mercados energéticos — em especial sobre o Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Ocorre que a interrupção parcial do tráfego e a sensação de risco elevaram preços do petróleo e do gás globalmente.

Altas de preços de energia tendem a beneficiar grandes exportadores, e a Rússia é um dos principais produtores globais. Embora não derive lucro direto do conflito, a elevação sustentada dos preços pode fortalecer o orçamento estatal russo e ampliar sua capacidade de sustentar esforços militares e diplomáticos — inclusive no teatro ucraniano.


4. Reforço da narrativa de um Ocidente frágil e dividido

Outro vetor narrativo útil a Moscou é a ideia de que o Ocidente se fragmenta sob pressão. A campanha militar contra o Irã provocou críticas inclusive de aliados tradicionais dos EUA, gerou medo de escalada e expôs divergências dentro da comunidade internacional quanto a limites legais e éticos do uso da força. Putin costuma usar esse tipo de percepção para afirmar que a hegemonia americana está “em declínio” ou “exposta a limites”, reforçando a imagem de que a ordem internacional é arbitrária e que a Rússia defende um mundo multipolar.


5. Possível papel diplomático ampliado da Rússia como mediadora

Putin e o Kremlin também se ofereceram para intermediar a calma no Oriente Médio, mantendo contatos com líderes do Golfo e usando laços com Teerã para tentar reduzir as tensões. Essa postura tem duas vantagens para Moscou:


  1. Permite à Rússia exibir um papel de “gestor de crise” — um ator relevante na estabilização de uma guerra que envolve grandes potências.
  2. Aumenta sua visibilidade e influência diplomática, especialmente entre países do Oriente Médio que não desejam escolher lados ou que querem reduzir a instabilidade.


Essa tentativa de se posicionar como mediador pode também enfraquecer, no médio prazo, a narrativa de que somente alianças ocidentais têm soluções para crises internacionais.

Todavia, apesar das possíveis vantagens narrativas e econômicas, a crise no Irã também traz riscos significativos para a Rússia. Uma escalada regional descontrolada pode gerar instabilidade nos mercados energéticos além do ponto de benefício fiscal, prejudicando a economia global — da qual a própria Rússia depende para exportações. Além disso, Moscou mantém uma relação complexa com Israel, especialmente no teatro sírio, onde há coordenação militar sensível; um conflito ampliado pode tensionar esse equilíbrio. 

Por fim, se a guerra evoluir para confronto direto entre grandes potências, o risco sistêmico aumenta inclusive para a Rússia, que não tem interesse em uma desordem global que possa escapar ao seu controle diplomático. Assim, o Kremlin caminha sobre uma linha estreita: capitaliza politicamente a crise, mas procura evitar ser arrastado para seus custos estratégicos ou para uma escalada que não consiga controlar.


Conclusão

O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, embora dramático e carregado de consequências humanitárias e geopolíticas, produz efeitos indiretos que podem beneficiar a estratégia russa:


✔️ Reforça a narrativa de Moscou contra o intervencionismo ocidental;

✔️ Pode diluir o foco estratégico dos EUA em outras frentes, como a Ucrânia;

✔️ Contribui para a elevação de preços de energia, favorecendo exportadores como a Rússia;

✔️ Amplia o espaço para atuação diplomática russa no Oriente Médio.


Ainda assim, os ganhos não são automáticos nem isentos de risco. A Rússia busca explorar a crise como instrumento narrativo e estratégico, mas sem ultrapassar o limiar que a arraste para uma escalada regional fora de seu controle. O episódio ilustra como conflitos locais, no mundo multipolar contemporâneo, produzem efeitos sistêmicos que reverberam muito além do teatro imediato de operações.


📷: Evgenia Novozhenina/Reuters, conforme extraído de https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/03/02/russia-pedido-cessar-fogo.htm

domingo, 1 de março de 2026

Rio aos 461 anos: da fundação entre espadas à reconstrução pela responsabilidade



Em 1º de março de 1565, Estácio de Sá fundava a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em meio a conflitos coloniais e disputas geopolíticas entre portugueses e franceses. A cidade não nasceu em paz. Nasceu em disputa.

Nasceu também sobre um território que já era habitado por povos indígenas, cuja presença histórica muitas vezes foi silenciada pela narrativa oficial. O Rio não surgiu do nada. Foi construído — com tensões, contradições e violência — como quase todas as grandes cidades do mundo moderno.

Ao longo dos séculos, o Rio foi capital do Império, depois da República, centro financeiro, cultural e político do país. Foi vitrine internacional e palco de decisões que moldaram o Brasil. Mas também acumulou desigualdades, ocupação desordenada, exclusão territorial e problemas estruturais que atravessaram gerações.

Aos 461 anos, a pergunta que se impõe não é apenas o que o Rio foi. É o que ele pode se tornar.


📉 A cidade que hoje envelhece

O Rio de Janeiro já não cresce como foi no século XX. A taxa de fecundidade caiu, o crescimento populacional desacelerou e a proporção de idosos aumenta gradualmente.

Isso não significa decadência e sim uma transição.

Uma cidade que envelhece precisa ser:


  • mais organizada,
  • mais eficiente,
  • mais humana.


O envelhecimento populacional pode reduzir pressões típicas da expansão urbana desordenada. No entanto, a nova realidade exige planejamento fiscal, saúde preventiva e adaptação da infraestrutura.

O desafio não é demográfico. É antes de tudo institucional...


🏢 Mercado imobiliário: menos expansão, mais requalificação

O Rio não precisa mais se expandir indefinidamente para longe. Precisa é se reorganizar por dentro!

O Centro da cidade, que já foi coração econômico e político do país, enfrenta vacância comercial e perda de moradores. Porém, não podemos esquecer que ali há infraestrutura instalada, transporte, equipamentos públicos.

Reconversão de prédios comerciais em residenciais, incentivo à moradia no Centro, estímulo ao uso misto — tudo isso pode reduzir deslocamentos longos e revitalizar áreas hoje subutilizadas.

Em vez do carioca pensar em fuga, que tal todos lutarmos por uma reorganização desse espaço e dos serviços prestados?! Ao invés de propagar ideias vencidas sobre abandono, não seria melhor defendermos o reaproveitamento?!

Certamente o futuro urbano do Rio passa por adensar onde já há infraestrutura e reduzir a fragmentação territorial.


🚍 Mobilidade: qualidade antes de quantidade

Uma cidade mais madura demograficamente não precisa apenas de mais ônibus ou mais trilhos. Precisa de mobilidade inteligente: calçadas acessíveis, integração modal eficiente, previsibilidade e conforto.

O transporte público não pode ser apenas deslocamento. Deve ser política de inclusão!

Se o Rio conseguir aproximar moradia e trabalho, reduzir deslocamentos pendulares longos e adaptar o sistema às necessidades da população idosa, poderá ganhar produtividade e qualidade de vida.


🚰 Saneamento: a política silenciosa que transforma cidades

Poucas políticas são tão estruturantes quanto o saneamento básico.

Esgoto tratado significa:


  • menos internações hospitalares,
  • valorização imobiliária,
  • proteção ambiental,
  • dignidade urbana.


A universalização prevista até 2033 representa uma oportunidade histórica. Não se trata apenas de cumprir metas contratuais. Trata-se de alterar a base da desigualdade territorial.

Saneamento é justiça urbana aplicada.


🌆 O Rio não é uma cidade condenada!

Há uma narrativa recorrente de que o Rio vive uma eterna decadência... De que a cidade perdeu protagonismo... De que a saída é ir embora...

Essa narrativa ignora três fatos:


  1. O Rio continua sendo um dos principais polos culturais, turísticos e energéticos do país.
  2. Possui capital humano qualificado e universidades de excelência.
  3. Tem patrimônio natural e simbólico que poucas cidades no mundo possuem.


Problemas estruturais existem — e são sérios. Porém, não são insolúveis.

Cidades não se regeneram por acaso. Elas dependem de: decisão política, responsabilidade administrativa e participação cívica.


🎯 Uma escolha coletiva

Aos 461 anos, o Rio está diante de uma escolha:


  • Pode continuar administrando crises.
  • Ou pode reorganizar-se com planejamento de longo prazo.


Envelhecimento demográfico, requalificação urbana, mobilidade acessível e saneamento universal não são temas eleitorais imediatos. São temas de geração.

O Rio nasceu em conflito, cresceu em ciclos de expansão e crise, bem como sobreviveu a transferências de capital, crises fiscais, transformações econômicas. Não se trata de uma cidade frágil e sim complexa.

Celebrar o aniversário do Rio não significa negar os seus problemas. É antes de mais nada afirmar que eles podem ser enfrentados com maturidade institucional e responsabilidade coletiva.

O futuro da cidade não será definido pelo número de habitantes — mas pela qualidade das decisões tomadas agora. E essa decisão pertence aos cariocas que permanecem, constroem e acreditam num futuro melhor.


📷: Marcelo Piu / Prefeitura do Rio de Janeiro.

Depois de Khamenei: sucessão, guerra e o risco de um Oriente Médio em combustão



A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em meio aos ataques conjuntos de EUA e Israel, mudou o patamar da crise. Não é apenas mais um episódio de escalada: trata-se de um choque no “coração” de um Estado que organiza boa parte do seu poder político e militar em torno da figura do Líder Supremo — e que, por isso mesmo, construiu um mecanismo de continuidade para sobreviver a ele.


A sucessão já começou (e isso diz muito)

Em 1º de março de 2026, fontes de notícias relataram a ativação do mecanismo interino: Alireza Arafi, clérigo e membro do Conselho dos Guardiões, foi designado para integrar o Conselho de Liderança (órgão temporário) ao lado do presidente Masoud Pezeshkian e do chefe do Judiciário Gholamhossein Mohseni Ejei, enquanto a Assembleia dos Peritos escolhe um novo líder.

Politicamente, isso aponta para uma intenção clara do regime: mostrar continuidade institucional, evitar vácuo de poder e reduzir a janela de instabilidade.

Todavia, um elemento central no processo de sucessão é o papel da Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC), que se tornou muito mais do que uma força militar. Ao longo das últimas décadas, especialmente sob a liderança de Khamenei, o IRGC ampliou seu alcance político, econômico e social, consolidando-se como um ator decisivo dentro do Estado iraniano e entre as facções clericais (inclusive com conexões ao Basij, sua força auxiliar).

Em um cenário de alta pressão externa e militar, a influência do IRGC pode se traduzir em duas formas: prima facie, como um poder capaz de orientar consensos na Assembleia dos Peritos — favorecendo candidatos com credenciais de segurança ou com apoio nas elites militares — e, secundariamente, como força capaz de alavancar ou cooptar alianças internas para garantir que a transição não fragmente o sistema.

Nomes como Mojtaba Khamenei são mencionados exatamente por sua profunda ligação com o IRGC e o Basij, apesar das barreiras ideológicas a uma sucessão “dinástica”; isso mostra como o IRGC, ao controlar capacidades de segurança e estruturas sociais, pode ser o árbitro efetivo da continuidade do regime mesmo mais do que a própria Assembleia de Especialistas. 


A retaliação iraniana e o “alargamento” do conflito

O risco mais imediato é simples: o conflito deixou de ser “pontual”. Houve retaliações iranianas relatadas contra alvos na região, inclusive com mísseis contra países do Golfo Pérsico e referência a ataques a “bases dos EUA” — algo que amplia a chance de ciclo de ação–reação e de incidentes que escapem do controle.

Esse alargamento importa porque eleva:


  • o risco de engajamento direto contínuo;
  • o risco de “erros de cálculo” (um ataque com grande número de vítimas, por exemplo);
  • e o custo econômico global (energia, seguros, rotas, aviação).


ONU: acusação de “crime de guerra” e o limite do multilateralismo

A crise chegou ao Conselho de Segurança, com linguagem máxima: a representação iraniana qualificou os ataques como “crime de guerra” e “crime contra a humanidade” (na narrativa diplomática), enquanto EUA e Israel defenderam a ação no marco de ameaça e segurança.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, advertiu que os ataques e as retaliações “minam a paz e a segurança internacionais” e pediu contenção para evitar uma cadeia “incontrolável” de eventos.

Aqui está a contradição estrutural: a ONU funciona como fórum de disputa de narrativas e legitimidades, mas tende a ficar travada quando os atores centrais são grandes potências e aliados — exatamente quando a contenção seria mais necessária.


Petróleo: o “prêmio geopolítico” volta ao preço

Mesmo sem fechamento efetivo de rotas, o mercado precifica risco. Quando mísseis começam a alcançar o Golfo e ativos militares regionais entram no tabuleiro, sobe o “prêmio geopolítico” do petróleo: mais volatilidade, pressão inflacionária e insegurança para países importadores. (E nem os EUA ficam imunes: a produção doméstica não isola o consumidor americano de um choque global de preços.)


Quatro cenários para o Irã (e para o mundo)

A sucessão interina não significa “fim do regime”. Ela pode, inclusive, reforçá-lo. Os cenários mais plausíveis:


  1. Continuidade controlada (mais provável): sucessor alinhado ao establishment; regime usa a crise para “fechar fileiras”.
  2. Militarização ampliada: mais poder decisório do aparato de segurança (especialmente IRGC), sem romper formalmente a teocracia.
  3. Fragmentação interna (menos provável, mas perigosa): disputas prolongam a sucessão, aumentam fissuras, estimulam instabilidade.
  4. Ruptura profunda (curto prazo improvável): só ocorreria com colapso de coesão do aparato de segurança + mobilização social sustentada.


O ponto decisivo é este: a sucessão foi desenhada para reduzir a oportunidade de ruptura — e crises externas costumam fortalecer a lógica de “ameaça à pátria”, elevando o apoio (ou a submissão) ao núcleo duro do sistema.


O alerta dos precedentes: Iraque, Líbia, Síria e Afeganistão

O receio sobre o surgimento de novas “milícias islâmicas” é historicamente justificado — mas o paralelo correto precisa ser calibrado.


Iraque (2003): queda do Estado e vácuo

O risco iraquiano nasce do desmonte do Estado e do vácuo institucional — terreno fértil para milícias e, depois, para o Estado Islâmico. A lição: derrubar o topo sem plano de transição pode produzir monstros.


Líbia (2011): fragmentação após a queda do centro

A Líbia é o exemplo clássico de “regime cai, Estado não segura”: multiplicação de centros armados, guerra civil intermitente e disputa por recursos.


Síria: o Estado não cai, mas o conflito se regionaliza

Na Síria, o regime resistiu e o país virou palco de guerra longa, proxies e múltiplos atores. Este é o risco estrutural mais parecido com o Irã, se a escalada continuar: não necessariamente colapso, mas conflito prolongado e regionalizado, com redes aliadas atuando em vários teatros.


Afeganistão: colapso de um Estado dependente

O Afeganistão colapsou quando o Estado revelou forte dependência de sustentação externa. O Irã, ao contrário, tem aparato interno robusto — portanto esse modelo é menos aplicável.


Em resumo: o Irã não se parece com o Afeganistão e não é “Líbia por desenho”. O risco mais realista, se a guerra se prolongar, é uma dinâmica mais próxima da síria: escalada regional, proxies, instabilidade longa e difícil de encerrar — com custo humano e econômico crescente.


O risco adicional: “decapitação” sucessiva

Surge então a pergunta decisiva: haverá novos ataques visando novos líderes e candidatos? Mesmo sem uma política declarada, a lógica de “alvos de liderança” tende a:


  • aumentar o incentivo iraniano à retaliação;
  • reduzir espaço de negociação;
  • e tornar a transição interna ainda mais securitizada.


Ou seja: a “decapitação” não necessariamente abre caminho para democratização — pode abrir caminho para radicalização e guerra mais extensa.


Conclusão: o mundo entrou na fase mais perigosa

A morte de Khamenei não encerra a crise — ela a reconfigura. A sucessão interina indica capacidade de continuidade. As retaliações ampliam o teatro de risco. A ONU alerta, mas não garante contenção. E o preço do petróleo passa a carregar o medo do “acidente histórico”.

É exatamente nessas horas que o mundo precisa reafirmar o óbvio difícil: desescalada, canais diplomáticos e regras mínimas de contenção não são ingenuidade — são a única alternativa racional quando o custo da escalada pode ser global.


Nota sobre o luto oficial e o mecanismo constitucional de sucessão no Irã

Após a confirmação da morte do Líder Supremo, o governo iraniano declarou 40 dias de luto nacional, período que possui forte significado religioso no islamismo xiita, marcando tradicionalmente o encerramento formal do ciclo de luto (arba'in).

Do ponto de vista jurídico, a Constituição da República Islâmica do Irã, em seu Artigo 111, estabelece que, em caso de morte, renúncia ou incapacidade do Líder Supremo, suas funções são exercidas temporariamente por um Conselho de Liderança provisório, composto pelo Presidente da República, pelo Chefe do Poder Judiciário e por um clérigo membro do Conselho dos Guardiões.

Cabe à Assembleia dos Peritos (Artigos 107 e 111) eleger o novo Líder Supremo “o mais breve possível”, assegurando a continuidade institucional do regime e evitando vácuo de poder.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre a Autodefesa e a Escalada: O Ataque ao Irã e os Limites do Direito Internacional



Na madrugada de 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar contra alvos no território iraniano. A justificativa oficial invocou segurança nacional, neutralização de ameaças estratégicas e impedimento do avanço nuclear do regime de Teerã. A dimensão da ação, contudo, levanta uma pergunta que ultrapassa a conjuntura: trata-se de legítima defesa ou do início de uma nova guerra sem amparo claro no sistema jurídico internacional?

A resposta não é simples — mas é essencial.


A Regra Geral: Proibição do Uso da Força

O sistema jurídico internacional contemporâneo, estruturado após 1945, tem como pedra angular a proibição do uso da força entre Estados. A Organização das Nações Unidas (ONU), por meio de sua Carta, estabelece que nenhum Estado deve recorrer à força contra a integridade territorial ou independência política de outro.

Há apenas duas exceções clássicas:


  1. Autorização do Conselho de Segurança;
  2. Legítima defesa em caso de ataque armado.


No caso atual, não há notícia de autorização formal do Conselho de Segurança. Restaria, portanto, a tese da legítima defesa.


A Legítima Defesa: Clássica ou Preventiva?

O artigo 51 da Carta da ONU admite a legítima defesa “no caso de ocorrer um ataque armado”. A leitura tradicional exige que o ataque já tenha ocorrido ou esteja em curso.

Entretanto, tanto Washington quanto Tel Aviv têm recorrido à noção de legítima defesa preventiva — isto é, agir antes que a ameaça se concretize plenamente. Essa tese, historicamente controversa, exige demonstração de iminência clara, necessidade absoluta e proporcionalidade.

A dificuldade jurídica surge quando a operação é descrita como “em larga escala” e acompanhada de discursos que sugerem mudança de regime. Autodefesa não equivale a autorização para remodelação política de outro Estado. Quanto maior a extensão e duração da ação militar, maior o questionamento sobre sua proporcionalidade.

A tese da legítima defesa preventiva é controversa porque amplia uma exceção que, pela Carta da ONU, foi pensada para situações de ataque armado já em curso ou claramente iminente. Se bastar a alegação de “ameaça futura”, abre-se espaço para que qualquer Estado justifique ações militares unilaterais com base em percepções subjetivas de risco. Isso enfraquece a regra geral de proibição do uso da força e aumenta o risco de conflitos sucessivos.


O Direito Interno dos EUA

Nos Estados Unidos, a Constituição confere ao Congresso o poder de declarar guerra, enquanto o Presidente é comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Desde 1973, a War Powers Resolution estabelece que o Presidente deve informar o Congresso em até 48 horas após envolver tropas em hostilidades e que, na ausência de autorização formal, a operação deve cessar após 60 dias (com possível prorrogação técnica de 30 dias).

A controvérsia, portanto, não é apenas internacional, mas também doméstica: a ação foi autorizada pelo Congresso? Haverá sustentação legislativa para uma campanha prolongada? Em um cenário de escalada, o debate constitucional tende a ganhar força.


O Direito Interno de Israel

Em Israel, a Lei Básica: O Governo determina que apenas o Governo pode iniciar uma guerra, ainda que ações militares defensivas possam ser adotadas diante de necessidade imediata.

A distinção entre “guerra” formal e “operação militar significativa” não é apenas semântica — ela define o grau de controle parlamentar e a extensão da legitimidade política interna.

Se a operação evoluir para conflito prolongado, aumentará o escrutínio jurídico e político dentro do próprio sistema israelense.


O Risco Geopolítico: O Mundo em Tensão

Independentemente da legitimidade jurídica arguida, os riscos políticos são evidentes:


  • Possível ampliação do conflito no Oriente Médio;
  • Envolvimento indireto de potências como Rússia e China;
  • Pressão sobre alianças regionais;
  • Radicalização interna no próprio Irã, com fortalecimento da narrativa de “nação sitiada”.


Historicamente, ações externas contra regimes sob pressão interna tendem a produzir efeito paradoxal: ao invés de enfraquecer a liderança, podem consolidá-la no curto prazo.


Retaliação já em curso: do risco hipotético ao risco material

No caso em questão, a retaliação iraniana já ultrapassou a lógica bilateral e atingiu a infraestrutura de segurança regional: houve retaliações iranianas contra Israel e também atingindo países do Golfo que hospedam ativos dos EUA, com episódios descritos por autoridades locais e reportagens internacionais, além de medidas como restrições/fechamentos temporários de espaço aéreo em meio aos alertas.

Esse dado muda a qualidade do risco: não se trata apenas de uma projeção teórica. Trata-se de escalada real, com potencial de encadear reações em cadeia.


O Petróleo e o Fator Econômico

O impacto imediato mais sensível está no mercado energético.

O Estreito de Hormuz é rota estratégica para parcela significativa do comércio mundial de petróleo. Mesmo sem interrupção física do fluxo, a mera percepção de risco eleva o “prêmio geopolítico” no preço do barril.

Petróleo mais caro significa:


  • Pressão inflacionária global;
  • Dificuldade adicional para países importadores;
  • Aumento de custos logísticos e alimentares;
  • Volatilidade nos mercados financeiros.


Embora os Estados Unidos hoje sejam grandes produtores, o preço da gasolina e da energia ainda responde ao mercado global. Portanto, mesmo economias robustas não ficam imunes.


O Sistema da ONU Está em Xeque?

Quando grandes potências recorrem à força sem consenso no Conselho de Segurança, reforça-se a percepção de que o sistema internacional funciona mais por correlação de poder do que por coerção jurídica.

A credibilidade do sistema multilateral depende da coerência entre norma e prática. Se a exceção (autodefesa preventiva ampla) se tornar regra, o próprio princípio da proibição do uso da força perde densidade normativa.

Todavia, a gravidade do episódio levou o tema ao Conselho de Segurança em Nova York, enquanto o Secretário-Geral da ONU advertiu que a escalada e as retaliações "minam a paz e a segurança internacionais" e reiterou a proibição do uso da força prevista na Carta.


O Caminho Possível: Diplomacia e Desescalada

Nenhum sistema internacional é estável quando a guerra volta a ser instrumento ordinário de política externa.

A saída responsável exige:


  • Retomada de canais diplomáticos;
  • Mediação multilateral;
  • Garantias verificáveis sobre programas estratégicos;
  • Compromisso com o direito internacional humanitário;
  • Proteção efetiva de civis.


O mundo enfrenta desafios econômicos, climáticos e sociais profundos. Uma nova guerra de grandes proporções apenas ampliaria instabilidade, pobreza e fragmentação geopolítica.


Conclusão

O ataque de 28 de fevereiro de 2026 inaugura um momento delicado para o direito internacional e para a estabilidade global.

A questão central não é apenas se havia ameaça, mas se os limites jurídicos foram respeitados. Em tempos de tensão, a diferença entre autodefesa e escalada pode definir não apenas o destino de uma região, mas a solidez do próprio sistema internacional.

A paz, ainda que difícil, continua sendo a única solução capaz de preservar vidas, economias e a própria legitimidade das nações.

40 anos do Plano Cruzado: o choque heterodoxo que marcou uma geração — e o caminho até o Plano Real



Em 28 de fevereiro de 1986, o Brasil acordava sob uma nova moeda e sob a promessa de que a inflação finalmente seria vencida. Naquela data, uma sexta-feira, através do Decreto-Lei nº 2.283, de 27 de fevereiro de 1986, o governo do presidente José Sarney  lançava o Plano Cruzado — uma das mais ousadas e simbólicas tentativas de estabilização econômica da história brasileira. 

Quarenta anos depois, o episódio continua a suscitar reflexão: foi um erro? Foi inevitável? Foi um laboratório necessário para que o Brasil aprendesse como enfrentar a hiperinflação? Talvez tenha sido tudo isso ao mesmo tempo.


📉 O contexto: inflação crônica e a “década perdida”

A década de 1980 ficou conhecida como a “década perdida” na América Latina. No Brasil, a inflação havia se tornado estrutural. Preços eram remarcados diariamente. Salários perdiam valor em semanas. A indexação automática — mecanismo criado para proteger contratos da corrosão inflacionária — havia se transformado no próprio combustível da inflação.

O país vivia a transição democrática. A chamada Nova República ainda buscava estabilidade institucional. A crise econômica, portanto, tinha também dimensão política e social.


💰 As principais medidas do Plano Cruzado

O Plano Cruzado foi um “choque heterodoxo”, isto é, uma tentativa de romper abruptamente a dinâmica inflacionária por meio de medidas administrativas e institucionais. 

Entre suas principais medidas:


1️⃣ Nova moeda:

O cruzeiro foi substituído pelo cruzado (1 cruzado = 1.000 cruzeiros). A mudança pretendia simbolizar uma ruptura com o passado inflacionário.


2️⃣ Congelamento geral de preços:

Todos os preços foram congelados nos níveis de 27 de fevereiro de 1986. A lógica era simples: interromper a espiral de reajustes automáticos.


3️⃣ Congelamento de salários e “gatilho salarial”:

Salários também foram congelados, com previsão de reajuste automático caso a inflação acumulasse 20%.


4️⃣ Tentativa de desindexação:

Buscou-se eliminar mecanismos formais de correção monetária que alimentavam a inflação inercial.


📈 O sucesso inicial — e a euforia popular

Nos primeiros meses, a inflação despencou. A população sentiu alívio imediato. Surgiram os chamados “fiscais do Sarney”: consumidores que denunciavam estabelecimentos que descumprissem o congelamento.

A popularidade do governo cresceu significativamente. Nas eleições de 1986, o PMDB surfou na euforia: elegeu 22 de 23 governadores, maioria absoluta na Câmara (487/559 deputados) e Senado — a última vez que um partido governou sem coalizões.

Parecia até que o Brasil havia vencido a inflação.


⚠️ O desgaste: escassez, ágio e distorções



Entretanto, a estabilização não se sustentou.

O congelamento gerou distorções nos chamados “preços relativos”. Alguns produtos ficaram artificialmente baratos; outros, inviáveis para produção. Como os custos continuavam a se mover — especialmente diante do desequilíbrio fiscal persistente — muitas empresas reduziram a oferta.

Começaram a surgir:


  • Desabastecimento;
  • Vendas com ágio (“por fora”);
  • Queda na confiança do mercado.


Sem ajuste estrutural das contas públicas, o congelamento tornou-se insustentável.

Em novembro de 1986 veio o Cruzado II, com reajustes e aumentos tributários. A inflação retornou. Em seguida, vieram o Plano Bresser (1987) e o Plano Verão (1989), ambos igualmente incapazes de produzir estabilidade duradoura.

O fim da década culminaria em hiperinflação aberta.


🧠 O aprendizado institucional

O Plano Cruzado fracassou em seus objetivos permanentes, mas deixou lições fundamentais:


  • O congelamento de preços, isoladamente, não substitui ajuste fiscal;
  • A credibilidade institucional é determinante;
  • Expectativas econômicas não podem ser controladas apenas por decreto;
  • A indexação precisava ser desarmada de forma tecnicamente sofisticada.


Esses aprendizados não foram perdidos.


💵 O desfecho histórico: o Plano Real

O verdadeiro ponto de inflexão viria apenas em 1994, com o Plano Real, durante o governo Itamar Franco, quando Fernando Henrique Cardoso esteve à frente da economia.

Diferentemente dos planos anteriores, o Real:


  • Atacou simultaneamente o déficit fiscal;
  • Criou uma unidade de conta estável (a URV) antes da nova moeda;
  • Desindexou contratos de maneira gradual;
  • Construiu credibilidade política e técnica;
  • Aproveitou ambiente internacional mais favorável.


O resultado foi histórico: a hiperinflação foi eliminada de forma duradoura.


📜 Quatro décadas depois

Quarenta anos após o Plano Cruzado, o episódio permanece como símbolo de uma geração que viveu o drama da inflação diária — mas também como etapa necessária de aprendizado institucional.

O Cruzado não foi apenas um fracasso. Foi um laboratório histórico. Mostrou os limites das soluções administrativas e abriu caminho para uma estabilização mais madura.

O Plano Real não surgiu do nada. Ele nasceu das tentativas anteriores, dos erros acumulados, da experiência institucional adquirida.

Recordar o Plano Cruzado é, portanto, recordar um momento de esperança coletiva — e também compreender como a estabilidade monetária, hoje muitas vezes naturalizada, foi duramente conquistada.


📊 Nota histórica: os números que marcaram uma geração

Alguns números ajudam a dimensionar a magnitude do que estava em jogo.

Em janeiro de 1986, pouco antes do lançamento do Plano Cruzado, a inflação mensal girava em torno de 16% ao mês. Após o congelamento de preços e a introdução do cruzado, o índice despencou para aproximadamente 0,6% ao mês em abril de 1986 — uma queda abrupta que alimentou a sensação de vitória definitiva sobre a inflação.

Mas a euforia foi passageira.

Sem o ajuste estrutural necessário, a inflação retornou com força crescente. Em 1989, o país enfrentaria taxas mensais que chegaram próximas de 80% ao mês em determinados momentos — o que, na prática, significava preços dobrando em poucas semanas.

A comparação revela a dimensão do desafio: o Brasil experimentou, em poucos anos, tanto o alívio quase instantâneo de uma estabilização quanto o trauma da hiperinflação aberta.

Esses números não são apenas estatísticas econômicas. São o retrato de uma época em que o salário precisava ser gasto no dia do pagamento, em que etiquetas eram remarcadas diariamente e em que a estabilidade monetária parecia um objetivo quase inalcançável — até que, em 1994, o Plano Real finalmente a tornasse duradoura.

A estabilidade não foi um acidente da história — foi fruto de aprendizado acumulado.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Democracia interna, candidaturas orgânicas e o desafio das pré-campanhas na política contemporânea



A política contemporânea vive um tempo de intensificação da personalização. Redes sociais, ciclos informacionais acelerados e campanhas praticamente permanentes ampliaram o protagonismo individual na disputa pública. Nesse contexto, cresce o debate sobre democracia interna nos partidos, candidaturas orgânicas e o papel das pré-campanhas na formação das lideranças.

O tema é especialmente relevante em períodos que antecedem eleições majoritárias, quando diferentes pré-candidaturas emergem dentro de uma mesma legenda e o partido precisa equilibrar legitimidade interna e competitividade externa.


Democracia interna formal e democracia interna real

Sob o ponto de vista jurídico-institucional, a democracia interna partidária é assegurada por estatutos e pela legislação eleitoral. As convenções são o momento formal de deliberação: é ali que candidaturas são aprovadas, coligações definidas e estratégias consolidadas. Trata-se da dimensão normativa da vida partidária — aquela que garante legalidade e previsibilidade.

Contudo, a prática política revela uma dimensão adicional: a democracia interna real. Antes da convenção, constrói-se uma correlação de forças. Lideranças articulam apoios, mobilizam militantes, testam discursos e acumulam capital político. Quando a convenção ocorre, muitas vezes ela ratifica uma dinâmica já amadurecida na fase anterior.

O cientista político francês Maurice Duverger demonstrou como sistemas eleitorais moldam o comportamento partidário. Já Giulio Panebianco destacou que partidos não são apenas estruturas formais, mas organizações com centros de poder, disputas internas e processos informais decisivos. A regra existe — mas o poder circula também fora do texto estatutário.

Reconhecer essa distinção não significa deslegitimar a democracia interna; ao contrário, permite compreendê-la em sua complexidade.


Candidaturas orgânicas e legitimidade política

A ideia de candidatura orgânica remete àquela que emerge de processos coletivos, ancorada em trajetória, identidade programática e compromisso partidário. É um conceito importante, especialmente em partidos ideológicos, que valorizam coerência histórica e construção coletiva.

No entanto, a organicidade não se constrói apenas na convenção. Ela também se forma no diálogo com a sociedade, na presença territorial, na formulação de propostas e na capacidade de mobilização pública. Em outras palavras: a legitimidade interna e a legitimidade externa se alimentam mutuamente.

A tensão surge quando o tempo partidário não coincide com o tempo político.


O sistema eleitoral e o incentivo à personalização

No Brasil, o sistema proporcional para o Legislativo incentiva o voto nominal e fortalece a construção de marcas pessoais. Já nas eleições majoritárias — como as de governador — a disputa é essencialmente centrada em nomes. O eleitor tende a identificar projetos por meio de lideranças concretas.

Esse desenho institucional não é neutro. Ele estimula visibilidade individual, presença midiática e consolidação precoce de narrativas. Assim, a política passa a operar em lógica de antecipação: quem ocupa espaço primeiro molda o debate público.

Nesse cenário, as pré-campanhas deixam de ser mera etapa preparatória e tornam-se elemento estruturante da própria disputa.


O tempo das pré-campanhas

Embora o calendário oficial delimite prazos legais, o tempo político começa antes. Pré-candidaturas:


  • testam discursos,
  • medem receptividade,
  • articulam alianças,
  • mobilizam bases,
  • constroem reconhecimento público.


Esse movimento influencia não apenas o eleitorado, mas também as decisões internas do partido. Uma pré-campanha bem-sucedida altera a correlação de forças na convenção. A dinâmica externa retroage sobre a dinâmica interna.

Surge, então, um desafio: como preservar a legitimidade coletiva sem perder capacidade estratégica?


O dilema contemporâneo

Partidos precisam de democracia interna para manter identidade, coesão e legitimidade. Mas eleições majoritárias exigem clareza, liderança definida e capacidade de comunicação ampla.

Se a definição é precipitada, pode comprometer o debate interno.
Se a definição é excessivamente tardia, pode gerar desvantagem competitiva.

O verdadeiro dilema não é escolher entre o “eu” e o “nós”, mas integrar liderança e coletividade de forma equilibrada.


O contexto fluminense

No Rio de Janeiro, essa equação ganha contornos específicos. O eleitorado é historicamente sensível à imagem pessoal dos candidatos, a mídia regional intensifica a exposição individual e a disputa majoritária tende a se organizar em torno de figuras reconhecidas.

No contexto fluminense de 2026, observa-se dinâmica semelhante. Diferentes forças políticas articulam pré-candidaturas que influenciam, desde já, o ambiente das futuras convenções partidárias. Lideranças estaduais e municipais consolidam capital político por meio da gestão pública, da mobilização de bases ideológicas ou da atuação legislativa, moldando a disputa antes do calendário formal.

Esse movimento revela que, no Rio de Janeiro, onde eleições majoritárias historicamente são sensíveis à imagem pessoal dos candidatos, o debate interno se entrelaça com o externo. A maturidade partidária, nesse cenário, depende da capacidade de coordenar estratégia e organicidade, evitando que a pluralidade interna se converta em dispersão competitiva.

Nesse ambiente, múltiplas pré-candidaturas dentro de um mesmo partido podem representar vitalidade democrática — mas também exigem coordenação estratégica para evitar dispersão de energia política.

A maturidade partidária talvez esteja justamente na capacidade de transformar o debate interno em fortalecimento externo.


Conclusão

Democracia interna não é obstáculo à competitividade eleitoral; é sua base de legitimidade. Mas a política contemporânea impõe um desafio adicional: harmonizar o tempo do partido com o tempo da sociedade.

Candidaturas orgânicas não surgem apenas por decisão formal. Elas são construídas na interação entre estrutura partidária, trajetória pessoal e diálogo social. A convenção é o momento de consagração — mas a pré-campanha é parte constitutiva do processo.

Em última análise, a política democrática exige lideranças que expressem o coletivo sem ignorar a dinâmica real da disputa. O desafio não está em negar a personalização, mas em impedir que ela substitua o projeto. Lideranças fortes podem — e talvez devam — ser expressão de processos coletivos consistentes.

O equilíbrio entre convicção programática e estratégia eleitoral é, hoje, uma das provas mais sofisticadas da maturidade democrática dos partidos.


Nota metodológica:

Embora não existam dados oficiais que permitam quantificar com precisão o impacto das pré-campanhas sobre as correlações internas nas convenções partidárias no estado do Rio de Janeiro, a experiência recente e a análise do comportamento político indicam que o engajamento antecipado de aspirantes — por meio de redes sociais, mobilizações territoriais e construção de narrativa pública — tende a modificar significativamente o ambiente interno de decisão nas legendas, influenciando as dinâmicas de escolha de candidatos.

Ainda que tal impacto não seja mensurável em percentual fechado, ele se revela, nos ciclos eleitorais recentes, como fator relevante na formação da legitimidade interna e na competitividade das candidaturas majoritárias no estado.

O fogo no Parlamento e a tentação da exceção: 27 de fevereiro de 1933 e os testes de estresse da democracia



Em 27 de fevereiro de 1933, o edifício do Parlamento alemão, o Reichstag, em Berlim, incendiou-se. O episódio entrou para a história não apenas como um crime — atribuído, à época, ao holandês Marinus van der Lubbe — mas como um ponto de inflexão institucional: em poucos dias, a Alemanha abriu a porta para um regime de exceção que logo se tornaria uma ditadura.

Relembrar o Incêndio do Reichstag não é exercício de curiosidade histórica. É uma forma de enxergar, com nitidez, um padrão recorrente: crises (reais, provocadas ou oportunamente exploradas) frequentemente servem para ampliar poderes executivos, reduzir garantias e enfraquecer a fiscalização institucional — inclusive em democracias contemporâneas.


1) O que o incêndio “destravou” na Alemanha de 1933

A noite do incêndio foi seguida por uma resposta normativa fulminante. Em 28 de fevereiro de 1933, o presidente Paul von Hindenburg editou o chamado “Decreto para a Proteção do Povo e do Estado”, conhecido como Decreto do Incêndio do Reichstag. Na prática, o decreto suspendeu garantias e liberdades civis e deu base para uma repressão política em larga escala.

Poucas semanas depois, em 23 de março de 1933, veio a peça que consolidou o novo arranjo: a Lei de Plenos Poderes (Enabling Act / Ermächtigungsgesetz), que permitiu ao governo legislar sem o crivo parlamentar e até em desconformidade com a Constituição de Weimar, inaugurando a arquitetura jurídico-política da ditadura nazista.

Há debate histórico sobre autoria e grau de organização do incêndio — inclusive com dúvidas sobre se van der Lubbe teria agido sozinho —, mas o efeito político é menos controverso: o evento funcionou como gatilho para “emergência permanente”.


2) Um padrão histórico: crise → urgência → exceção → normalização

O caso do Reichstag é o exemplo extremo, porque a exceção devorou o regime em tempo recorde. Mas o mecanismo (em intensidade variável) aparece também em democracias.


EUA após 11/9: expansão de vigilância e poderes de segurança:

Após os ataques de 11 de setembro, o USA PATRIOT Act ampliou de modo significativo os poderes de busca e vigilância do Estado, em nome do combate ao terrorismo. O país permaneceu uma democracia, com eleições e Judiciário operantes, mas o episódio ilustra como o medo e a urgência legislativa podem deslocar o equilíbrio entre liberdade e segurança.


França após 2015: estado de emergência prolongado:

Na França, após os atentados terroristas de 2015, houve decretação de estado de emergência e sua prorrogação, com reforço de instrumentos excepcionais. A lição aqui é outra: medidas extraordinárias tendem a se alongar no tempo e, às vezes, migrar para o direito “normal”.

Esse é o ponto delicado: mesmo quando a democracia não colapsa, a excepcionalidade pode virar hábito, e hábitos mudam instituições.


3) A Constituição brasileira: o “direito de crise” com freios e contrapesos

A Carta Política de 1988 construiu um sistema de gestão de crises com degraus e controles — em reação a experiências autoritárias sofridas pelo Brasil no século XX, a exemplo do Estado Novo e do regime militar. No núcleo desse desenho constitucional estão:


Estado de Defesa (art. 136):

Instrumento para “preservar ou prontamente restabelecer” a ordem pública em situações graves e localizadas, com prazo e regras de controle político.


Estado de Sítio (arts. 137–139):

Medida mais grave, dependente de autorização do Congresso, destinada a hipóteses de comoção de repercussão nacional ou guerra/agressão. É a forma mais intensa de excepcionalidade constitucional e, por isso, mais amarrada a controles e formalidades.


Medida Provisória (art. 62):

Aqui é importante precisão: a MP não é estado de exceção. É um instrumento de urgência legislativa, com força imediata, mas dependente de deliberação do Congresso dentro de prazo constitucional. Ainda assim, seu uso recorrente pode gerar discussões sobre hipertrofia do Executivo e “governar por urgência”.

Além disso, o próprio texto constitucional prevê a intervenção federal como remédio excepcional federativo, inclusive para “pôr termo a grave comprometimento da ordem pública” (art. 34).


Tradução institucional: 

O Brasil tem instrumentos para momentos críticos — mas, em tese, com prazo, finalidade definida, fiscalização parlamentar e possibilidade de controle judicial.


4) Paralelo técnico: como o Brasil reagiu ao 8 de janeiro de 2023



O 8 de janeiro de 2023 foi um ataque grave às sedes dos Três Poderes. A reação institucional mais relevante, do ponto de vista constitucional, foi a opção por um caminho federativo e constitucionalmente tipificado, em vez da suspensão ampla de direitos:


  1. O Presidente da República editou o Decreto nº 11.377, de 8/1/2023, decretando intervenção federal na área de segurança pública do Distrito Federal, com objetivo explícito de pôr fim a grave comprometimento da ordem pública.
  2. O Congresso Nacional aprovou a medida por Decreto Legislativo nº 1, de 10/1/2023, reforçando o controle político previsto na Constituição (art. 49, IV).


E o que não ocorreu é tão importante quanto o que ocorreu:


  • Não houve decretação de estado de defesa ou estado de sítio (com suspensão mais intensa de garantias).
  • A resposta foi canalizada por mecanismos constitucionais ordinários e excepcionais pontuais (intervenção na segurança pública local), preservando o funcionamento do sistema político e das instituições.


A comparação com 1933, portanto, serve como contraste técnico:


  • Em 1933, o evento foi seguido por suspensão generalizada de liberdades e pela progressiva neutralização de controles.
  • Em 2023, a democracia brasileira reagiu por um instrumento delimitado, com prazo, objeto e chancela parlamentar, sem um “decreto guarda-chuva” de suspensão ampla de direitos.


5) A lição durável do Reichstag — e o desafio contemporâneo

O Incêndio do Reichstag permanece como um alerta máximo porque mostra que democracias podem ruir com aparência de legalidade: uma cadeia de atos normativos, sob o argumento de urgência, pode substituir o governo limitado por um governo sem freios.

Por outro lado, democracias contemporâneas também enfrentam uma tentação recorrente: resolver o extraordinário com ferramentas extraordinárias, e depois deixar que essas ferramentas permaneçam. O teste institucional, quase sempre, é o mesmo:


  • A medida é necessária e proporcional?
  • Tem prazo, finalidade específica e prestação de contas?
  • Há controle parlamentar, judicial e social efetivo?
  • Ela é desmontada quando a crise passa — ou vira “novo normal”?


No Brasil, o arranjo constitucional (estado de defesa, estado de sítio, MPs e intervenção) foi desenhado para que a exceção não devore a regra. O 8 de janeiro, como crise, foi respondido com um instrumento de exceção focalizado e com validação do Congresso, sem paralisar o sistema democrático.

A memória de 27 de fevereiro de 1933, portanto, não aponta para analogias apressadas — aponta para um critério: crises são inevitáveis; o que define uma democracia é como ela reage sem se transformar no que diz combater.