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sábado, 17 de janeiro de 2026

Trump, Gaza e o Conselho da Paz: Entre o poder internacional e a soberania palestina



O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente a criação do chamado Conselho da Paz, órgão internacional destinado a supervisionar o governo tecnocrático da Faixa de Gaza. A iniciativa, que já incluiu nomes como o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e líderes como Marco Rubio, propõe uma governança transitória da região marcada por conflitos históricos e crises humanitárias. O convite estendeu-se também ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, ao argentino Javier Milei e ao turco Recep Tayyip Erdogan, embora o governo brasileiro ainda não tenha se posicionado oficialmente.


Um plano distante da criação de um Estado palestino

Apesar da retórica de “paz e estabilidade”, o plano de Trump não prevê a criação de um Estado palestino soberano, nem mesmo após um período de transição supervisionada. Gaza permaneceria sob a administração de tecnocratas e supervisão internacional, enquanto Israel manteria influência sobre a segurança do território. O Hamas, apesar da pressão internacional, ainda permanece ativo em diversas áreas de Gaza, mantendo funções administrativas e certo poder local.

Essa ausência de soberania efetiva contrasta diretamente com a solução de dois Estados, defendida historicamente pelo Brasil, por grande parte da comunidade internacional e reiterada em fóruns da ONU. Enquanto a política brasileira sempre apoiou a coexistência de Israel e Palestina como Estados independentes (Lula tem reiterado o apoio a dois Estados), o plano de Trump limita a autodeterminação palestina e mantém o controle de fato nas mãos de atores internacionais e do próprio governo americano.


A presença de Tony Blair e o peso simbólico do Conselho

A inclusão de Tony Blair é um elemento particularmente controverso. O ex-primeiro-ministro britânico é lembrado no Oriente Médio por seu papel na Guerra do Iraque, e sua participação em um órgão que supervisionaria a governança palestina suscita desconfiança. Para críticos, a presença de Blair reforça a percepção de interferência externa e “colonialismo” moderno, em vez de uma solução que respeite a soberania local.


O dilema brasileiro: riscos e benefícios

Para o Brasil, o convite para integrar o Conselho da Paz apresenta benefícios diplomáticos claros, incluindo a oportunidade de se colocar como mediador internacional e reforçar sua imagem global. No entanto, os riscos são igualmente relevantes. Participar de um órgão que supervisiona Gaza sem garantir soberania palestina pode ser interpretado como um desalinhamento da política histórica do país, que apoia a solução de dois Estados.

Além disso, há implicações internas: aceitar o convite pode gerar debates sobre neutralidade diplomática e alinhamento com os Estados Unidos, enquanto recusar poderia ser interpretado como ausência de protagonismo internacional. A decisão exigirá, portanto, uma avaliação cuidadosa do Itamaraty, envolvendo análise de riscos políticos, geopolíticos e humanitários.


Conclusão: entre pragmatismo e princípios

O plano de Trump para Gaza, com seu Conselho da Paz, representa um movimento audacioso na diplomacia internacional, combinando política, segurança e reconstrução humanitária. No entanto, sua distância da criação de um Estado palestino soberano, a presença de figuras controversas e a manutenção do poder de Israel sobre a região colocam limites claros à sua legitimidade.

Para o Brasil, a participação no conselho poderá ser uma oportunidade estratégica, mas desde que seja ponderada frente à política histórica de apoio à solução de dois Estados, ao respeito à autodeterminação palestina e à percepção internacional sobre imparcialidade diplomática. Em última análise, o desafio será equilibrar pragmatismo político e princípios históricos de soberania e direitos civis, evitando transformar uma iniciativa de estabilidade em um instrumento de controvérsia internacional.

Há 80 anos, o CSNU iniciava com o Brasil na mesa: da esperança à crise de Gaza 🇺🇳🇧🇷



Hoje, 17 de janeiro de 2026, celebramos 80 anos da primeira sessão do Conselho de Segurança da ONU (17/01/1946, Church House, Londres). Criado após a Segunda Guerra Mundial, o órgão nasceu com a missão de manter a paz global. O Brasil, como um dos seis membros não permanentes iniciais, participou ativamente, ajudando a eleger o presidente temporário (Austrália) e definir regras de procedimento – um marco histórico para nossa diplomacia multilateral.


Primeiros passos e o papel brasileiro

Logo após a sessão inaugural, o Conselho enfrentou sua primeira crise real: o Irã em 1946, quando tropas soviéticas permaneceram além do prazo acordado no norte do país. O CSNU mediou a retirada, e o Brasil apoiou resoluções multilaterais, defendendo a soberania e o diálogo pacífico, princípios que ecoam até hoje na nossa Constituição de 1946. Foi o primeiro teste concreto do Conselho: quando as potências cooperam (EUA, URSS, Reino Unido, China, França), a ONU pode atuar com eficácia.


Oriente Médio e limites da ONU

Em 1947, o Plano de Partilha da Palestina criou o Estado de Israel, mas também plantou as sementes de conflitos duradouros. Ao longo das décadas, o Conselho enfrentou vetos e disputas entre potências, que travaram decisões sobre o conflito israelo-palestino. 

Atualmente, em Gaza (2023-2026), agências como UNRWA e UNICEF prestam assistência humanitária, mas resoluções do Conselho frequentemente não são implementadas, bloqueadas por interesses estratégicos.

O Brasil propõe reformas, como a redução do poder de veto e maior representação do Sul Global, defendendo soluções multilaterais e inclusivas.


Brasil hoje: hora de liderar?

Como potência emergente, apoiamos a paz e os direitos palestinos, mas sem assento permanente no CSNU, nossa voz ainda encontra limites. A experiência de 1946 nos inspira: a ONU pode ser um espaço de mediação eficaz, mas somente se houver compromisso real das potências mundiais.

📜 Há 136 anos: o Encilhamento e os primeiros tremores da República



Em 17 de janeiro de 1890, nos albores da República — há exatos 136 anos —, Ruy Barbosa, então ministro da Fazenda, lançava um plano ousado para modernizar o Brasil. A proposta buscava acelerar a industrialização, expandir o crédito e injetar ideias liberais na transição do Império. O que começou como ambição iluminista revelou, porém, as fragilidades de uma nação em gestação.


O Encilhamento

O plano, conhecido como Encilhamento, provocou expansão monetária galopante, especulação em bancos e empresas fictícias, e uma bolha que terminou em inflação corrosiva. O colapso minou a confiança na jovem República, avivou tensões políticas e expôs o fosso entre progressismo e instituições débeis — ecoando o alerta do próprio Barbosa de que a liberdade econômica sem freios pode virar tirania.


Ruy Barbosa: além do Encilhamento

Ruy, contudo, transcende esse episódio. Jurista genial, baluarte do Estado de Direito, da imprensa livre e do constitucionalismo, teve papel decisivo na Constituição de 1891 e brilhou na Conferência de Haia (1907). Seu legado — lei, educação e liberdades — mostra que grandes visões colidem com os limites do tempo, mas permanecem inspiradoras.


Lições históricas

O Encilhamento simboliza os tropeços da republicanização brasileira: o choque entre modernidade importada, interesses oligárquicos e instabilidade institucional. Hoje, suas lições sobre regulação, confiança pública e o custo das ilusões financeiras continuam atuais, especialmente em tempos de crises cíclicas.


🗓️ 17/01/1890
📚 Economia, Direito e República


OBS: Charge retratando Ruy Barbosa, então ministro da Fazenda, tentando equilibrar as finanças do país.

As Margens do Tempo



Não é o passado que é estranho.
É a maneira como aprendemos a esquecê-lo.

A história costuma ser apresentada como uma escada: degrau após degrau, uma ascensão contínua que começa na ignorância e culmina no presente. Tudo o que vem antes é tratado como ensaio, atraso ou preparação imperfeita. O mundo moderno, confortável em sua narrativa de progresso, olha para trás como quem observa ruínas — belas, talvez, mas definitivamente superadas.

Este conto nasce da recusa dessa simplicidade.

Ambientado no ano 1000 — um ponto frequentemente descrito como obscuro, instável ou atrasado —, ele acompanha um cientista contemporâneo lançado, por acidente, em um passado que não corresponde às expectativas que herdou. Em vez de barbárie e estagnação, encontra cidades vivas. Sistemas de água. Hospitais. Bibliotecas. Métodos. Debate. Tradução. Continuidade.

Córdoba, Constantinopla, Cairo, Jerusalém e Bagdá não surgem aqui como cenários exóticos, mas como centros ativos de civilização, cada um guardando uma resposta distinta à mesma pergunta fundamental: como sustentar o conhecimento humano diante da impermanência?

À medida que o viajante atravessa geografias e culturas, a própria noção de avanço começa a se desfazer. O tempo deixa de parecer uma linha reta e assume a forma de uma constelação — feita de focos de luz que se acendem, se apagam e, às vezes, reaparecem séculos depois sob outros nomes.

As Margens do Tempo não é uma história sobre alterar o passado, mas sobre ser alterado por ele. Sobre perceber que nem todo progresso é visível, que nem toda permanência é atraso e que algumas das ideias mais modernas da humanidade já respiraram livremente antes de serem silenciadas.

O que acontece quando alguém descobre que o passado não precisa ser salvo — apenas lembrado?

É a essa pergunta que as páginas seguintes retornam, uma cidade por vez, até que o tempo, como sempre, decida por conta própria o que deve permanecer.


A Cidade Onde o Tempo Não Caíra

O laboratório cheirava a ozônio e café frio. As equações ainda pulsavam na tela quando o erro aconteceu — não um erro conceitual, mas humano: um parâmetro ajustado com pressa, uma vírgula deslocada. O cientista nunca saberia dizer se ouviu um som ou se o mundo simplesmente se dobrou sobre si mesmo.

Houve luz. Depois, silêncio.

Quando abriu os olhos, não havia concreto, nem cabos, nem aço. O chão sob suas mãos era de pedra lisa, morna, e refletia a luz do sol como se tivesse sido polida por séculos de passos. O ar era limpo, surpreendentemente fresco, carregado de aromas que ele não reconhecia de imediato — água corrente, folhas esmagadas, especiarias.

Levantou-se com dificuldade. À sua frente, uma cidade.

Mas não uma ruína, nem um amontoado de casas primitivas, como sua imaginação treinada por séculos de clichês lhe ensinara a esperar. Era uma cidade viva, vasta, organizada, pulsante.

Córdoba.

As ruas não eram caóticas. Eram estreitas, sim, mas planejadas, sombreadas por arcadas e toldos de tecido claro. A água corria em canais rasos ao longo das vias, murmurando como um coração constante. Ele se ajoelhou instintivamente e tocou a corrente: limpa, fria. Não era esgoto — era abastecimento.

Homens e mulheres passavam com naturalidade. Alguns vestiam túnicas simples, outros tecidos finos, bordados com precisão matemática. Havia comerciantes discutindo pesos e medidas com seriedade quase científica, crianças recitando versos em voz alta, aprendizes observando artesãos com atenção concentrada. Não havia gritos de desespero, nem sujeira acumulada, nem o odor pesado que ele associava às cidades pré-modernas.

O cientista sentiu algo raro: desorientação intelectual.

Ao longe, erguiam-se edifícios de uma elegância funcional. Não monumentos vazios, mas construções pensadas para durar e servir. Cúpulas claras refletiam o sol; pátios internos abrigavam jardins geométricos, onde laranjeiras e fontes conviviam em equilíbrio calculado. Ele percebeu que a cidade respirava — arquitetura e natureza em diálogo.

Entrou em um edifício maior, guiado mais pela curiosidade do que pela razão. Lá dentro, o silêncio era respeitoso. Fileiras de mesas, pergaminhos, instrumentos. Um homem de barba grisalha discutia com jovens atentos, traçando diagramas no chão com um bastão. O cientista reconheceu símbolos: astronomia. Não rudimentar — precisa. Observacional. Testada.

Mais adiante, ouviu falar de medicina. De corpos estudados não por superstição, mas por método. De doenças descritas, classificadas, tratadas. Falavam de equilíbrio, de prevenção, de higiene como princípio — não como milagre.

Ele sentiu um nó na garganta.

Em seu tempo, aprendera a ver o passado como uma longa noite interrompida apenas pela ciência moderna. Mas ali, naquela cidade do ano 1000, havia luz contínua. Não elétrica, mas intelectual. Uma luz feita de tradução, de preservação, de avanço. Aristóteles dialogava com médicos persas; matemáticos indianos conversavam com filósofos andalusinos. O conhecimento não tinha fronteira religiosa — tinha método.

Ao cair da noite, as ruas não mergulharam na escuridão total. Lâmpadas a óleo, bem distribuídas, mantinham a cidade segura. Pessoas caminhavam. Conversavam. Viviam.

O cientista sentou-se à beira de uma fonte e compreendeu, com uma clareza quase dolorosa, que seu maior erro não fora o experimento — fora a presunção. A ideia de que o progresso era uma linha reta que começava com ele e seus pares.

Ali, em Córdoba, o tempo não “regredira”. Apenas seguira outro caminho.

Quando o fenômeno finalmente o puxou de volta — luz, vertigem, retorno —, ele trouxe consigo algo que nenhuma equação poderia medir: a certeza de que a história não é uma escada, mas uma constelação.

E que, por um instante, ele tocara uma estrela esquecida.


A Cidade Que Nunca Caiu

Dois dias depois, o laboratório já não lhe parecia o mesmo.

Nada havia mudado — os cabos estavam no lugar, as telas intactas, o café ainda esquecido na xícara —, mas ele havia retornado diferente. Córdoba não saía de seus pensamentos. Não como lembrança, mas como correção histórica. Como uma frase mal traduzida que, finalmente, fazia sentido.

Decidiu repetir o experimento.

Desta vez, com cautela obsessiva. Reviu parâmetros, ajustou campos, recalculou margens de erro. Não buscava o passado por curiosidade; buscava confirmação. Queria voltar àquela cidade, caminhar mais, observar melhor, compreender se o que vira era exceção ou regra.

Quando ativou o sistema, não houve falha aparente.

Houve, porém, o mesmo colapso do espaço.

Mas o cheiro era outro.

Ao abrir os olhos, sentiu o vento — forte, salgado. O ar trazia o peso do mar e algo mais antigo: pedra, incenso, metal. O chão sob seus pés era amplo, pavimentado com blocos irregulares, gastos por incontáveis gerações. Não havia canais de água à vista, mas cisternas profundas, bocas escuras que guardavam reservas invisíveis.

Levantou o olhar.

Diante dele, muralhas.

Não simples muros, mas camadas de história empilhadas em pedra. Torres, ameias, passagens elevadas. A cidade não se oferecia — ela se defendia.

Constantinopla.

A percepção veio antes do nome. A escala era esmagadora. Nada ali parecia improvisado. Cada rua conduzia a outra mais larga, cada via principal desembocava em praças monumentais. O traçado urbano não buscava suavidade; buscava permanência.

Seguiu o fluxo humano até uma avenida larga, ladeada por colunas antigas. Reconheceu fragmentos de um mundo que julgava perdido: Roma ainda viva, não como ruína, mas como esqueleto funcional. Arcos sustentavam edifícios reutilizados, estátuas antigas dividiam espaço com símbolos cristãos. O passado não fora demolido — fora absorvido.

As pessoas caminhavam com propósito. Funcionários do Estado, mercadores, monges, soldados. A diversidade era visível, mas contida por uma ordem rigorosa. Não havia o colorido aberto de Córdoba; havia disciplina, protocolo, hierarquia. Ainda assim, não havia miséria espalhada, nem abandono evidente.

O cientista passou diante de um hospital.

Reconheceu-o não pelo nome, mas pela organização: alas separadas, silêncio controlado, cuidadores atentos. Ali, a medicina não era caridade improvisada — era instituição. Herdada, catalogada, praticada.

Mais adiante, ouviu o canto.

Não o chamado islâmico que ainda ecoava em sua memória recente, mas coros graves, ressoando em uma construção colossal. Aproximou-se, e a visão o paralisou.

A cúpula parecia flutuar.

A Hagia Sophia não era apenas um edifício; era um argumento arquitetônico. Luz filtrada, espaço calculado, acústica quase sobrenatural. O cientista sentiu algo que não sentira em Córdoba: peso histórico absoluto. Ali, a cidade não era jovem nem curiosa — era consciente de si mesma como centro do mundo.

Sentou-se em silêncio.

Percebeu então a diferença essencial entre as duas cidades que o tempo lhe mostrara.

Córdoba avançava — traduzia, experimentava, expandia o saber.
Constantinopla preservava — administrava, registrava, sustentava.

Uma projetava o futuro; a outra impedia o colapso do passado.

Ambas eram avançadas. Ambas eram complexas. Ambas desmentiam a narrativa simplista de uma Europa adormecida e de um Oriente exótico. O mundo do ano 1000 era multipolar, sofisticado, consciente — apenas esquecido.

Quando a instabilidade temporal começou novamente — o zumbido baixo, a pressão no peito —, ele não resistiu. Já compreendia que não controlava o destino de suas viagens.

Antes de desaparecer, olhou uma última vez para a cidade.

E teve uma certeza que nenhuma cronologia moderna lhe ensinara:

o mundo não despertou com a modernidade —
ele apenas mudou de guardiões.


A Cidade do Rio Eterno

Desta vez, ele acertou.

Ou assim pensou.

Os cálculos estavam exatos, os campos estáveis, o pulso temporal contido dentro das margens teóricas. Não haveria dispersão, nem desvio. O destino era claro, escolhido conscientemente: Cairo, o coração do Nilo, o eixo entre mundos.

A luz veio — intensa, breve — e cessou.

O chão era de terra batida misturada à pedra. O ar, quente e úmido, parecia carregar séculos em suspensão. Antes mesmo de abrir os olhos por completo, ele ouviu: água em movimento, vozes profundas, o ranger distante de madeira, o som ritmado de passos e animais.

Quando se ergueu, o rio estava diante dele.

Não como paisagem, mas como presença. O Nilo não corria — ordenava. Barcos cruzavam suas águas com naturalidade ancestral. Mercadorias, pessoas, notícias. Tudo passava por ali. Tudo dependia dele.

Cairo — ou melhor, al-Qahira — se estendia além, numa sucessão de bairros vivos, densos, intensamente humanos. Diferente de Córdoba e de Constantinopla, a cidade não parecia contemplar o tempo; ela o atravessava.

As ruas eram cheias, vibrantes, quase excessivas. Mercados se espalhavam em todas as direções: grãos, tecidos, livros, especiarias, metais trabalhados. O cientista sentiu o peso do conhecimento circulando não em silêncio, mas em debate. Professores discutiam jurisprudência, estudantes recitavam trechos memorizados, escribas copiavam textos com velocidade treinada.

Havia hospitais. Havia escolas. Havia observadores do céu e do corpo humano. Mas tudo ali parecia menos cerimonial e mais prático. O Cairo não preservava como Constantinopla, nem refinava como Córdoba — o Cairo organizava o mundo em movimento.

Ao cair da tarde, ele percebeu o primeiro sinal de algo errado.

Nada aconteceu.

Nenhum retorno. Nenhuma instabilidade. Nenhum chamado.

Esperou.

O sol desceu lentamente, tingindo a cidade de tons ocres e dourados. O chamado à oração ecoou, profundo, harmônico, organizando o tempo social com uma precisão que relógios modernos imitariam séculos depois.

Ainda assim, nada.

O cientista sentiu, pela primeira vez, medo real.

Não o medo físico — a cidade era segura, funcional, viva —, mas o medo ontológico: e se não houvesse volta?
E se o tempo, como o Nilo, seguisse apenas em uma direção?

Ao anoitecer, exausto e desorientado, foi abordado por um homem de fala calma e olhar atento. Não havia desconfiança em seu tom, apenas curiosidade controlada. Ofereceu-lhe água, pão, um lugar para descansar. Em troca, nada além de histórias, se ele quisesse contá-las.

Aceitou.

A casa era simples, mas fresca, organizada em torno de um pátio interno. A água corria ali também — sempre a água — como se o mundo islâmico tivesse entendido algo essencial que seu próprio tempo ainda lutava para reaprender.

Deitou-se sob um céu que não conhecia, pontilhado de estrelas familiares e, ainda assim, deslocadas.

Foi então que aconteceu.

No silêncio profundo da noite, sentiu o mesmo arrepio elétrico do laboratório. Não havia luz, nem ruptura — apenas uma presença. Uma vibração precisa, contida, quase respeitosa.

A mensagem não veio em palavras faladas, mas em compreensão imediata.

Você não está perdido.
O deslocamento foi maior do que o previsto.
O retorno imediato não é possível.
Desloque-se para Bagdá.
Dentro de um ano, no local indicado, você será resgatado.

Bagdá.

O nome ressoou como promessa e advertência. Ele conhecia sua história — a Casa da Sabedoria, os astrônomos, os médicos, os tradutores. Mas agora não era mais história. Era destino.

Sentou-se na escuridão, respirando fundo.

Um ano.

Um ano vivendo em um mundo que não era o seu, mas que, ironicamente, parecia compreender melhor certas verdades fundamentais: que o conhecimento se preserva, que a cidade pode ser humana, que o passado não é atraso — é fundação.

Olhou para o céu mais uma vez.

Talvez não estivesse preso no tempo.

Talvez estivesse, finalmente, dentro dele.


A Cidade das Três Memórias

A decisão foi tomada ao amanhecer.

O cientista observava o Nilo enquanto a cidade despertava, como se o próprio rio lhe ensinasse a aceitar o fluxo. Bagdá ficava a leste, distante, além de desertos, rotas comerciais, impérios sobrepostos. Não havia atalhos temporais disponíveis — apenas o caminho dos homens.

Partiria por terra.

A caravana não era grande. Mercadores, viajantes, estudiosos, alguns peregrinos. Pessoas acostumadas ao deslocamento lento, à ideia de que o mundo se revela passo a passo. Ninguém lhe perguntou de onde vinha; naqueles tempos, o movimento era resposta suficiente.

À medida que o Cairo ficava para trás, ele sentiu algo novo: o silêncio do espaço aberto. O deserto não era vazio — era método. Durante o dia, a luz parecia absoluta; à noite, o céu se abria em profundidade quase dolorosa. As estrelas eram mapas vivos, conhecidos pelos guias com precisão prática, não poética.

O cientista percebeu que sua formação moderna o havia preparado para compreender fórmulas, mas não para habitar o tempo. Ali, cada dia tinha peso. Cada parada era necessária. A pressa não tinha utilidade.

Ao longo da jornada, cidades surgiam como ilhas: Gaza, Ramla, vilas fortificadas, mercados provisórios montados em torno da água. O mundo do ano 1000 era mais conectado do que aprendera, mas essa conexão exigia corpo, espera, convivência.

E então, após dias de estrada, ela apareceu.

Jerusalém.

Não se anunciou por grandiosidade, mas por densidade simbólica. As muralhas não eram as maiores que ele vira, nem as ruas as mais organizadas. Ainda assim, algo ali pesava mais que a arquitetura.

Entraram pela cidade em silêncio quase involuntário.

Ali, o tempo parecia dobrar-se sobre si mesmo. Cada pedra carregava camadas invisíveis. O cientista sentiu uma estranha vertigem — não temporal, mas histórica. Era como se todas as narrativas que aprendera disputassem o mesmo espaço físico.

Ouviu línguas diferentes. Viu trajes distintos. Reconheceu ritos que se cruzavam sem se fundir. Judeus, cristãos, muçulmanos — todos caminhando pelas mesmas ruas estreitas, cada qual sustentando sua própria eternidade.

Jerusalém não era como Córdoba, onde o conhecimento fluía.
Não era como Constantinopla, onde o império se preservava.
Não era como o Cairo, onde o mundo se organizava.

Jerusalém lembrava.

Era uma cidade construída menos para viver e mais para significar.

O cientista caminhou até um ponto elevado e olhou ao redor. Percebeu que ali não estava apenas em trânsito geográfico, mas em uma pausa imposta pelo próprio curso da história. Bagdá ainda o aguardava, distante. O resgate, prometido, parecia subitamente abstrato.

Pela primeira vez desde a primeira viagem, sentiu dúvida.

Se o tempo podia acolhê-lo assim — com cidades vivas, pessoas reais, escolhas concretas —, então o retorno já não era simples regressão ao ponto de partida. Seria outra ruptura.

Ao cair da noite, Jerusalém acendeu suas poucas luzes. Não para iluminar ruas, mas para marcar presença. O cientista compreendeu que aquela cidade não pertencia a um império específico, nem a uma época definida.

Ela pertencia à memória humana.

E enquanto se preparava para seguir viagem nos dias seguintes, teve a sensação inquietante de que Jerusalém não era apenas uma parada — era um aviso silencioso:

nem todo caminho através do tempo é feito para ser atravessado sem transformação.


A Cidade Onde o Conhecimento Respirava

A estrada entre Jerusalém e Bagdá não era apenas longa — era dilatadora do espírito.

A caravana avançava por planícies abertas e trechos áridos, cruzando rios menores, postos de descanso, cidades que existiam porque o comércio exigia pausa. O cientista aprendeu a medir o tempo não pelo calendário, mas pelo corpo: o cansaço dos pés, o ritmo dos animais, a repetição das refeições simples. Cada dia parecia retirar uma camada de urgência moderna que ele nem sabia carregar.

Quando o Tigre surgiu no horizonte, amplo e calmo, ele compreendeu que estava próximo do destino prometido.

Bagdá não se revelava de uma vez. Primeiro, os campos irrigados. Depois, os bairros externos, densos e vivos. Por fim, a cidade circular — organizada, consciente de sua centralidade. Diferente de todas as outras que visitara, Bagdá não se apoiava no passado nem apenas no presente: ela se projetava para o pensamento.

Entrar em Bagdá era entrar em um sistema.

As ruas eram cheias, mas funcionais. Oficinas conviviam com escolas, mercados com bibliotecas. O som predominante não era o da multidão, mas o do debate. Pessoas discutiam textos, interpretações, cálculos. O conhecimento ali não era reverenciado em silêncio — era usado.

Ele encontrou abrigo com facilidade. Um quarto simples, mas limpo, próximo a um complexo de estudo. Em troca, ofereceu o que aprendera a fazer desde o Cairo: ouvir, observar, ajudar quando possível. Logo, tornou-se presença constante em círculos de estudiosos, copistas, astrônomos.

A Casa da Sabedoria não era um monumento isolado — era um ecossistema. Textos gregos, persas, indianos circulavam em tradução contínua. Médicos discutiam tratamentos baseados em observação; matemáticos refinavam métodos; astrônomos ajustavam instrumentos com paciência artesanal.

O cientista sentia algo paradoxal: ali, mil anos no passado, ele não era um estrangeiro intelectual. Muitos conceitos lhe eram familiares — método, hipótese, revisão. O que mudava era o ritmo: o saber não servia ao lucro imediato nem à glória pessoal. Servia à continuidade humana.

Os meses passaram sem que ele percebesse.

Adotou uma rotina. Manhãs de estudo e conversa. Tardes ajudando em observações do céu, mesmo que fingisse ignorância para não revelar demais. Noites de reflexão silenciosa à beira do rio, observando Bagdá respirar sob as estrelas.

E então, sem aviso, a contagem começou a pesar.

Duas semanas.

A mensagem não se repetira, mas ele a sentia com clareza crescente, como um campo se intensificando. O ponto de resgate estava definido. O tempo, fechado.

Foi aí que o conflito surgiu — não como explosão, mas como erosão lenta.

Voltar significava retornar a um mundo que ele agora via com distância crítica: a ideia de progresso linear, o esquecimento seletivo, a arrogância de julgar o passado como atraso. Permanecer significava abdicar de tudo o que conhecia, inclusive da própria identidade oficial, para viver como mais um elo anônimo numa cadeia de transmissão do saber.

Em Bagdá, ele não era herói nem profeta. Era um homem útil.

E isso o perturbava profundamente.

Em seu tempo, passara a vida tentando provar relevância. Ali, a relevância era natural, integrada, quase invisível. Ninguém precisava ser genial para contribuir; bastava estar disposto a aprender e preservar.

Na última semana, evitou o rio.

Caminhava mais, observava menos. Cada detalhe da cidade parecia agora uma pergunta direta: Você pertence a onde?
À segurança do retorno ou à densidade do presente vivido?

Na véspera da contagem final, sentou-se sozinho, com um manuscrito aberto diante de si — uma tradução em andamento, imperfeita, humana, cheia de margens anotadas. Percebeu que aquele texto sobreviveria a ele, talvez por séculos. Sua própria vida moderna, não necessariamente.

Bagdá não lhe pedia nada.

E isso tornava a escolha ainda mais difícil.

Quando fechou os olhos naquela noite, soube que o resgate viria. A física cumpriria sua promessa. Mas compreendeu, com uma clareza silenciosa, que voltar já não significava regressar inteiro.

Porque, em algum ponto entre Córdoba e Bagdá, ele deixara de ser apenas um visitante do passado.

Tornara-se parte dele.


O Ponto Onde o Tempo Decide

A última noite chegou sem cerimônia.

Bagdá não anunciou o momento. O rio seguia seu curso, os estudiosos ainda discutiam sob lamparinas, os copistas continuavam a traçar letras que sobreviveriam a impérios. Nada indicava que, para um único homem, o tempo estava prestes a se fechar.

Ele caminhou até o local indicado — um espaço discreto, quase banal. Nenhum marco, nenhuma solenidade. Apenas o céu aberto e o murmúrio distante da cidade. Sentiu o campo se formar lentamente, como uma pressão que não doía, mas exigia atenção. A física, fiel, cumpria o acordo.

E, ainda assim, algo não se encaixava.

Não houve o clarão imediato. Nem o colapso brusco que aprendera a reconhecer. Houve uma hesitação — curta, quase imperceptível, mas real. Como se o próprio tecido do tempo avaliasse o que estava prestes a remover.

Ele pensou em Córdoba, na água correndo pelas ruas.
Pensou em Constantinopla, na cúpula que flutuava.
Pensou no Cairo, no Nilo organizando o mundo.
E, por fim, em Bagdá — não como cidade, mas como método.

Então percebeu algo inquietante:
em nenhuma dessas viagens ele fora apenas observador.

Tocara objetos. Conversara. Aprendera.
Deixara vestígios mínimos, porém reais.

Talvez o tempo não fosse uma estrada a ser cruzada, mas um equilíbrio a ser mantido.

A pressão aumentou. O ar pareceu vibrar. Por um instante, ele teve certeza de que seria puxado de volta — ao laboratório, às telas frias, à segurança de um mundo que se julgava único herdeiro do progresso.

Mas, no mesmo instante, sentiu outra coisa:
um peso nos pés.
Como se algo o ancorasse.

Não uma força física — uma necessidade.

Imagens atravessaram sua mente sem ordem: manuscritos incompletos, traduções interrompidas, observações ainda por registrar. Pessoas que não saberiam que precisariam dele, mas que sentiriam sua ausência. Conhecimentos que talvez não atravessassem os séculos sem pequenas mãos anônimas para sustentá-los.

O campo oscilou.

Ele compreendeu, então, que a escolha jamais fora plenamente sua. A tecnologia abrira a porta, mas o tempo decidia quem podia atravessá-la de volta. Nem todos os viajantes eram devolvidos. Alguns eram absorvidos — não como punição, mas como correção.

Quando a luz finalmente veio, não foi violenta.

Foi suave.

E breve.

Na manhã seguinte, Bagdá acordou como sempre. O rio correu. As escolas abriram. Um copista comentou a ausência de um conhecido recente, alguém silencioso, atento, que fazia perguntas estranhas, mas úteis. Alguém que não retornara à margem naquela noite.

Em outro tempo — talvez — um laboratório registrou uma flutuação inexplicável. Um sistema desligou-se sozinho. Nenhum corpo foi encontrado. Nenhum dado conclusivo permaneceu.

Apenas uma variável em aberto.

Séculos depois, um manuscrito sobreviveria por acaso.
Margens anotadas com precisão incomum.
Uma tradução particularmente elegante.
Um detalhe técnico que parecia… adiantado.

Nada que provasse coisa alguma.

Afinal, o tempo raramente deixa testemunhas claras.

Às vezes, ele apenas escolhe guardar alguém.


Epílogo — As Margens do Tempo

O manuscrito não deveria estar ali.

Era isso que incomodava a pesquisadora desde o primeiro momento.

O arquivo era legítimo — Biblioteca Nacional, fundo oriental, códice catalogado desde o século XIX. O papel, compatível. A tinta, analisada. A caligrafia, coerente com copistas de Bagdá do início do século XI. Nada, absolutamente nada, indicava falsificação.

E ainda assim, algo não se encaixava.

Ela passara a tarde inteira lendo aquela tradução árabe de um tratado grego menor, sem grande fama. O texto em si era correto, até elegante. Mas eram as margens que chamavam atenção. Comentários curtos, precisos, escritos por uma segunda mão — não do copista, mas de alguém que revisara o texto enquanto ele ainda circulava.

As notas não eram comuns.

Não explicavam o óbvio. Não citavam autoridades. Não invocavam tradição. Faziam perguntas metodológicas. Questionavam pressupostos. Sugeriam testes. Usavam uma linguagem estranhamente econômica, quase moderna.

Em um trecho sobre astronomia, a anotação dizia apenas:

“A observação deve preceder a harmonização do modelo.”

Ela franziu a testa.

Aquilo não era típico. Nem para Bagdá, nem para o século XI. Soava… deslocado.

Mais adiante, em um comentário médico:

“O relato do paciente é dado empírico, não ruído.”

A pesquisadora se recostou na cadeira.

Ela conhecia bem a história da ciência islâmica. Sabia que ali havia método, observação, crítica. Mas aquela forma de pensar parecia condensada demais, direta demais — como se alguém já tivesse atravessado debates que só seriam formalizados séculos depois.

No verso da última página, quase apagada, havia uma nota isolada, escrita com menos cuidado, como se não fosse destinada a leitores futuros:

“Preservar também é avançar.”

Não havia assinatura.

Nenhuma data.

Apenas um símbolo pequeno, geométrico, que ela não reconheceu de imediato — não era decorativo, nem religioso. Parecia mais um marcador funcional, como os que se usam para indicar ponto de referência.

Ela fechou o manuscrito devagar.

Naquela noite, em casa, abriu o computador e, sem saber exatamente por quê, pesquisou antigos projetos experimentais de física teórica desaparecidos, nunca concluídos, citados apenas em notas de rodapé. Um nome surgiu, quase irrelevante, associado a um laboratório desativado após um “evento não reprodutível”.

Nada conclusivo.

Ainda assim, ela imprimiu uma imagem do manuscrito e a colocou ao lado da tela. Comparou a geometria do símbolo marginal com diagramas contemporâneos de campos teóricos. Não coincidiam — mas rimavam.

Dias depois, ao submeter um artigo preliminar, escolheu um título cauteloso:

“Anotações marginais anômalas em um manuscrito bagdadino do século XI.”

Nenhuma afirmação extraordinária. Nenhuma hipótese ousada.

Mas, ao final, incluiu uma frase que hesitou antes de manter:

“Algumas ideias parecem não pertencer inteiramente ao tempo em que aparecem.”

O artigo foi aceito com revisões.

O manuscrito voltou ao arquivo.

O mundo seguiu.

E, em algum ponto indeterminado entre o que foi e o que poderia ter sido, o tempo permaneceu em silêncio — guardando, como sempre, apenas fragmentos suficientes para que a pergunta nunca desaparecesse por completo.

Porque certas viagens não deixam rastros claros.

Deixam apenas margens.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

16 de Janeiro de 1822: José Bonifácio e o Primeiro Gabinete Brasileiro



204 anos, o Brasil vivia um momento decisivo em sua caminhada rumo à independência. Em 16 de janeiro de 1822, José Bonifácio de Andrada e Silva, conhecido como o Patriarca da Independência, assumiu a liderança do primeiro gabinete ministerial formado por brasileiros, nomeado por Dom Pedro I.

Embora ilegal aos olhos das Cortes de Lisboa, que insistiam em recolonizar o Brasil e retirar parte da autonomia conquistada após a vinda da corte portuguesa em 1808, esse ministério representava um passo concreto para que o país começasse a se governar com voz própria. José Bonifácio, com sua visão política e firmeza, tornou-se o principal articulador das ações que levariam, apenas oito meses depois, à Independência do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822.

O contexto histórico era complexo. As Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, sediadas em Lisboa, tentavam restringir o poder de Dom Pedro e recolonizar o Brasil. Em resposta, o gabinete de José Bonifácio buscou defender os interesses brasileiros, preparando o terreno político e administrativo para um país que começava a afirmar sua soberania.

Esse episódio é mais do que uma data no calendário: é um símbolo da coragem política e da importância de lideranças comprometidas com a nação. José Bonifácio e seu ministério mostram que a independência não foi um ato isolado, mas um processo construído com estratégia, diálogo e determinação.

Relembrar essa data é também refletir sobre como memória, política e cidadania estão interligadas, e como decisões corajosas podem transformar o destino de um país.

🇧🇷 Que nunca falte coragem para defender o Brasil


Curiosidade: José Bonifácio era natural de Santos, São Paulo, e tinha formação em mineralogia e química, além de experiência em política europeia. Sua atuação no Brasil mostra como conhecimento técnico e visão política caminham juntos na construção da história.


OBS: Desenho póstumo de José Bonifácio por S. A. Sisson, feito entre 1857 e 1863.

Chegar à cobertura: o novo enfoque da segurança pública no Brasil



O debate sobre segurança pública voltou ao centro da agenda nacional em um momento particularmente sensível: a troca no comando do Ministério da Justiça, a tramitação da PEC da Segurança Pública no Congresso e uma série de operações recentes de grande impacto contra o crime organizado. Longe de serem fatos isolados, esses elementos se conectam e ajudam a compreender o momento atual.

Em matéria publicada pela Agência Brasil, o presidente Lula afirmou que a política de segurança pública vive um “bom momento”, destacando operações estruturais de combate ao crime organizado, como a Operação Carbono Oculto, a apreensão de navios com combustível contrabandeado e investigações financeiras de grande alcance. Mais do que a enumeração de ações, o discurso sinaliza uma mudança de enfoque: o combate ao crime não pode se limitar à violência nas periferias, mas precisa alcançar as estruturas econômicas e decisórias que sustentam organizações criminosas.

A Operação Carbono Oculto, por exemplo, ilustra bem essa lógica estrutural. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a investigação resultou no bloqueio judicial de mais de R$ 1 bilhão em bens, além da identificação de um esquema que movimentou dezenas de bilhões de reais em fraudes no setor de combustíveis. Estimativas oficiais apontam movimentações superiores a R$ 50 bilhões em operações financeiras suspeitas, envolvendo importações fraudulentas, créditos tributários indevidos e estruturas paralelas de lavagem de dinheiro. Trata-se de um ataque direto ao coração econômico do crime organizado — algo historicamente raro no país.

Esse cenário dialoga diretamente com os pontos que abordei em Saída de Lewandowski: o interino e os desafios da Justiça, ao analisar a importância da continuidade administrativa em um ministério estratégico. A transição no comando não pode significar paralisia institucional. Em áreas sensíveis como segurança pública, a previsibilidade e a manutenção das políticas em curso são essenciais para que operações complexas e investigações de longo prazo não sofram descontinuidade.

A própria fala do presidente reforça essa lógica: não se trata de ações pontuais ou espetaculares, mas de um esforço coordenado e persistente do Estado brasileiro. Para que isso ocorra, o fator institucional é tão importante quanto o operacional. Grandes investigações financeiras, cooperação entre Polícia Federal, Receita Federal, Ministérios Públicos e órgãos estaduais dependem de estabilidade administrativa e comando técnico permanente.

Esse debate já havia sido antecipado no texto Saída de Lewandowski e os desafios da segurança pública, no qual destaquei que o ano de 2026 se apresenta como decisivo para a consolidação — ou não — de uma política de segurança pública mais integrada. A tramitação da PEC da Segurança Pública surge justamente como tentativa de transformar diretrizes em política de Estado, superando a fragmentação histórica entre União, estados e municípios.

Os dados nacionais ajudam a contextualizar esse debate. De acordo com o Mapa da Segurança Pública, do próprio Ministério da Justiça, o Brasil registrou queda de 6,3% nos homicídios dolosos em 2024, em relação ao ano anterior. Foram mais de 2.300 mortes a menos em um único ano. Trata-se de uma tendência que vem se mantendo desde 2020, com uma redução acumulada próxima de 16% nos homicídios letais intencionais no período.

Por certo, esses números não autorizam triunfalismos. O Brasil ainda convive com índices elevados de violência, e as realidades regionais são muito desiguais. Ainda assim, os dados reforçam a ideia de que políticas baseadas em integração, inteligência e coordenação federativa produzem resultados mais consistentes do que respostas puramente repressivas e desarticuladas.

O otimismo possível, portanto, não reside na ideia de que o problema da violência está resolvido — ele não está. Mas há sinais de amadurecimento institucional importantes. O foco crescente na inteligência financeira, na integração entre órgãos e na coordenação entre União, estados e municípios indica uma compreensão mais realista do fenômeno criminal no Brasil.

A PEC da Segurança Pública, ainda em debate no Congresso, não é uma solução mágica. Ela exigirá ajustes, fiscalização rigorosa e debate público qualificado. Contudo, representa uma tentativa concreta de dar estabilidade, continuidade e racionalidade a um sistema historicamente marcado por improvisos e respostas emergenciais.

Se há algo positivo neste momento, é a percepção de que segurança pública não se constrói apenas com retórica ou força bruta, mas com governança, instituições fortes e políticas que sobrevivam a trocas de governo e crises políticas. Transformar o discurso em política permanente é o verdadeiro desafio — e também a principal oportunidade.

O “bom momento” citado pelo presidente só se sustentará se vier acompanhado de crítica responsável, controle democrático e compromisso com resultados de longo prazo. Otimismo, aqui, não é ingenuidade: é a aposta cautelosa de que o país pode (e precisa) aprender com seus erros e avançar com mais maturidade na construção de uma segurança pública eficaz, republicana e duradoura.

Sucesso ao novo ministro!


📷: Ricardo Stuckert/PR

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Mangaratiba rumo a 2031: o bicentenário como teste de futuro

 


Introdução – O bicentenário como espelho

Mangaratiba caminha para completar 200 anos de emancipação política em 11 de novembro de 2031, data em que foi elevada à categoria de vila autônoma, então denominada Nossa Senhora da Guia de Mangaratiba. O bicentenário não deve ser apenas comemorativo. Datas simbólicas funcionam como espelhos coletivos: convidam a revisitar o passado sem idealizações, compreender o presente com honestidade e projetar o futuro com responsabilidade.

Cidade marcada por belezas naturais singulares, posição estratégica na Costa Verde e forte diversidade cultural, Mangaratiba nunca sofreu por falta de potencial. Seus maiores dilemas sempre estiveram ligados à forma como esse potencial foi administrado ao longo do tempo. 

Este ensaio propõe uma leitura crítico-histórica, acessível e jornalística, articulando identidade, planejamento público, orçamento e infraestrutura, sem personalizar culpas, mas destacando escolhas e continuidades.


1. Identidade e território: da aldeia à cidade turística

A história oficial registra que a ocupação do território remonta ao século XVII, com aldeamentos indígenas organizados por missionários e a primeira construção, em 1688, da capela de Nossa Senhora da Guia — marco fundacional do núcleo urbano. Elevada à freguesia em 1764 e, posteriormente, à vila em 1831, Mangaratiba nasce institucionalmente vinculada ao litoral, ao porto e às rotas econômicas regionais.

Essa trajetória ajuda a entender uma tensão que atravessa os séculos. De um lado, a cidade exaltada em hinos e discursos oficiais, como na letra de Alberto Rodrigues da Silva, apresentada como paisagem exuberante e destino turístico. De outro, a cidade vivida: pescadores, quilombolas, trabalhadores do comércio e do turismo, servidores públicos, moradores da Mata Atlântica e dos bairros periféricos.

A música Habitat Natural da Planta, de Daniel Soares, expressa essa segunda dimensão — cotidiana, afetiva e territorial. O conflito surge quando as políticas públicas passam a enxergar Mangaratiba apenas como cenário, deixando em segundo plano as necessidades estruturais de quem vive nela o ano inteiro.


2. Turismo: vocação histórica e risco permanente

No século XIX, Mangaratiba foi porto estratégico para o escoamento do café do Vale do Paraíba. Com o declínio dessa atividade e o avanço das ferrovias, a cidade entrou em novo ciclo econômico no século XX, impulsionado pela Rodovia Rio–Santos e pela consolidação do turismo.

O turismo tornou-se vocação, mas também armadilha. A ocupação desordenada, a sazonalidade econômica e a pressão sobre serviços públicos revelam os limites de um modelo baseado na exploração intensiva da paisagem. Iniciativas como a ideia da Costa Verde como “um só destino” ampliam oportunidades, mas expõem riscos claros: sem saneamento, planejamento urbano e controle ambiental, o turismo ameaça destruir o próprio ativo que o sustenta.


3. Saneamento: o divisor de águas do futuro

Poucos temas revelam tão claramente os impasses históricos de Mangaratiba quanto o saneamento básico. Apesar de sua centralidade para a saúde pública, o meio ambiente e o turismo, o tema permaneceu por décadas fora das prioridades políticas.

A ausência de coleta e tratamento adequados de esgoto compromete praias, rios e a imagem do município. Não se trata apenas de infraestrutura, mas de estratégia de sobrevivência econômica. Sem saneamento, não há turismo sustentável, nem qualidade de vida, nem futuro.

As medidas adotadas pelo Ministério Público nas últimas décadas expõem aquilo que o planejamento tardio insiste em adiar. No horizonte do bicentenário, o saneamento surge como fronteira decisiva entre estagnação e desenvolvimento real.


4. Planejamento em saúde: avanço técnico, memória curta

O Plano Municipal de Saúde 2026–2029 sinaliza amadurecimento institucional. Reconhece gargalos históricos — como a dificuldade de fixação de profissionais, a pressão sobre a regulação e a demanda reprimida em saúde mental — e adota metodologia mais alinhada ao SUS.

Ainda assim, o plano revela um problema recorrente: a falta de avaliação clara do ciclo anterior. Planeja-se mais do que se aprende. Sem balanços transparentes do que foi cumprido ou não, o planejamento corre o risco de se transformar em formalidade administrativa, pouco conectada à realidade dos serviços.


5. Orçamento público: equilíbrio no papel, risco na prática

A Lei Orçamentária Anual de 2026 apresenta equilíbrio contábil e volume expressivo de recursos. No entanto, a dependência elevada de royalties do petróleo — receitas voláteis — para financiar despesas permanentes cria fragilidade estrutural.

O predomínio do custeio sobre o investimento, especialmente na saúde, perpetua a terceirização e limita a construção de capacidade pública própria. Soma-se a isso o alto volume destinado ao pagamento de sentenças judiciais, sinal de passivos acumulados por decisões mal resolvidas no passado.

O orçamento revela, assim, uma cidade que administra o presente pagando dívidas históricas, com pouco espaço para transformação estrutural.


6. Mobilidade urbana: planejamento sob pressão

O transporte público ilustra um padrão recorrente em Mangaratiba. A precariedade prolongada do serviço levou à judicialização do tema, e a resposta orçamentária recente parece mais reativa do que planejada.

Quando o Judiciário antecipa o planejamento, evidencia-se um modelo de gestão que avança não pela estratégia, mas pela pressão externa. O custo dessa lógica é alto — financeiro, institucional e social.


Conclusão – O que Mangaratiba quer celebrar em 2031?

Ao completar 200 anos de emancipação política, Mangaratiba será chamada a decidir o sentido de sua celebração. Apenas a exaltação da paisagem e do passado? Ou a coragem de enfrentar dilemas estruturais com transparência e escolhas responsáveis?

O bicentenário pode marcar a virada da cidade-cenário para a cidade vivida; do improviso para o planejamento; da dependência de receitas fáceis para a sustentabilidade de longo prazo.

Celebrar Mangaratiba é assumir compromisso com seu futuro. E isso exige mais do que festas: exige decisões informadas, memória histórica e vontade política de transformar potencial em realidade.