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sábado, 29 de novembro de 2025

29 de novembro de 1807 — há 218 anos, o ponto de virada que transformou o Brasil



Em 29 de novembro de 1807 iniciou-se a comitiva que levaria a corte do Casa de Bragança de Lisboa ao Brasil — uma mudança de endereço que, nas décadas seguintes, faria do então vilarejo do Rio de Janeiro a capital de um império e semeou as bases do Brasil moderno.


🛳️ Embarque, quem veio e por quê?

Entre os dias 25 e 27 de novembro de 1807, mais de 10 mil pessoas — talvez até 15 mil segundo algumas estimativas — reuniram-se para partir. Eram membros da família real, da nobreza, do alto funcionalismo civil e militar, clero, e funcionários da Corte.

Na comitiva estava a rainha D. Maria I, mãe do regente; o príncipe regente D. João VI; a princesa esposa dele; suas filhas infantas; e entre as crianças — o futuro imperador do Brasil, D. Pedro I. Ou seja: toda a linhagem e aparato essencial da coroa lusitana.

O embarque começou por volta de 27 de novembro. No entanto, ventos desfavoráveis impediram a partida imediata no dia 28. Foi apenas na manhã do dia 29 que a ordem de zarpar foi dada — a esquadra, escoltada pela marinha britânica, largou do porto de Lisboa.

Esse movimento não pode ser lido como uma simples “fuga” — e sim como a transferência da sede do Estado português para o Brasil. Políticos, instituições, arquivos, tesouraria, riqueza, mobilia, enfim, o aparato do poder.


🏙️ O Rio de Janeiro se converte em metrópole interiorizada


Com a chegada da corte, o Rio — então uma cidade modesta, periférica e colonial — passou por uma verdadeira “inversão metropolitana”: uma colônia tornando-se capital de um império pluricontinental.

Essa transferência implicou transformações profundas:


  • Abertura dos portos: com a presença da Corte, foi decretada a abertura dos portos brasileiros às “nações amigas” — rompendo o antigo monopólio comercial entre Brasil e Portugal. Isso abriu o Brasil ao comércio internacional.
  • Instituições de Estado criadas ou instaladas: tribunais de justiça, repartições públicas, secretarias, arquivamento de documentos oficiais, mecanismos administrativos — tudo trouxe o Brasil de sua condição colonial para uma estrutura institucional própria.
  • Cultura, ciência e infraestrutura: com a corte vieram a imprensa régia, bibliotecas, centros de ensino, instituições de cultura — sementes do que depois seriam instituições nacionais permanentes.


Em suma: o Brasil, pela primeira vez, deixou de ser periferia de um império distante. O Estado português enraizou-se em solo brasileiro e o Rio de Janeiro passou a ostentar o papel de capital — tornando real a ideia de uma “metrópole interiorizada”.


👑 A importância da presença de D. Maria e D. Pedro — e a primazia de D. João


É importante destacar que não foi apenas D. João que veio ao Brasil: a corte incluía D. Maria I, sua mãe, e D. Pedro, entre outros membros da família. A presença da rainha reforçava a legitimidade da mudança; já D. Pedro — ainda criança — estaria entre as bases da futura Independência.

Entretanto, era D. João quem de fato decidia e ordenou a transferência. Isto porque, por efeito de doença mental, D. Maria I já não exercia o governo: era D. João, como príncipe regente, que titulava o comando do reino e conduziu a decisão.

Essa distinção é relevante: embora D. Maria estivesse fisicamente presente no novo solo, o protagonismo das mudanças e das decisões estava com D. João — e a presença da família real completa contribuiu para dar à mudança um caráter de continuidade dinástica e institucional, e não de exílio temporário.


🇧🇷 Da transferência à Independência: como o ato de 1807/1808 pavimentou o Brasil


A instalação da corte no Brasil não foi um evento isolado — foi o catalisador de um novo ciclo histórico. Com instituições, engrenagens administrativas e culturais funcionando localmente, o Brasil passou a experimentar uma autonomia prática, ainda que formalmente dependente de Lisboa. Historiadores qualificam essa transição como decisiva para o processo de emancipação nacional.

O deslocamento da metrópole para o Rio trouxe uma estrutura capaz de sustentar um Estado próprio, com leis, tribunais, economia aberta, aparato administrativo — o que tornava possível a ideia de um Brasil independente, sem a necessidade de depender de Portugal.

Em 1822, com a figura de D. Pedro — já acostumado a viver e governar a partir do Brasil, vivendo a dinâmica local — veio o desfecho lógico: a Proclamação da Independência. A mudança de 1807/1808 não foi causa única — mas sem dúvida foi o terreno fértil sem o qual dificilmente o Brasil teria as condições concretas para se emancipar quando o momento chegou.




✍️ Reflexão final

Quando pensamos no Brasil de hoje — um país com instituições próprias, diversidade cultural, centros urbanos vibrantes, abertura econômica — parte desse legado remonta ao dia 29 de novembro de 1807.

Pode-se afirmar que a transferência da Corte não foi apenas um gesto de sobrevivência diante da ameaça napoleônica; foi um salto histórico que mudou a geopolítica do Atlântico — e redesenhou de vez o destino da colônia, já não periferia, mas capital de um império interiorizado e, afinal, berço da nação que se tornaria independente.

Sem a vinda da Corte portuguesa para o Brasil e a posterior permanência de D. Pedro, a independência das velhas capitanias de algum modo ocorreria em algum momento. Porém,  possivelmente, o Brasil, com esse território gigante, não existiria tal como conhecemos.


📅 Cronologia básica da transferência da corte e do caminho à Independência

1807 – 29 de novembro: Início do embarque da corte portuguesa rumo ao Brasil, incluindo D. Maria I, D. João (Príncipe Regente), a princesa esposa e D. Pedro. A esquadra parte de Lisboa escoltada por navios britânicos.

1808 – 7 de março: Chegada da corte ao Rio de Janeiro; a cidade começa a se transformar em capital do Império.

1808 – 28 de janeiro: Abertura dos portos às nações amigas; fim do monopólio comercial português sobre o Brasil.

1808/1821 – Período Joanino: criação de instituições administrativas, culturais e científicas; fundação de escolas, bibliotecas, museus e imprensa régia; surgimento de primeiras instituições financeiras.

1815 – Elevação do Brasil à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, formalizando a centralidade do território brasileiro dentro do império.

1821 – Retorno de D. João VI a Portugal; D. Pedro permanece no Brasil, assumindo papel político de liderança local.

1822 – 7 de setembro: Proclamação da Independência do Brasil por D. Pedro I, consolidando o processo iniciado pela transferência da corte quinze anos antes.


Quadro 1: O embarque da família real portuguesa para o Brasil em 1807 , pintura do século XIX atribuída a Nicolas-Louis-Albert Delerive. Museu Nacional dos Coches, Lisboa, Portugal .

Quadro 2: Chegada ao Rio de Janeiro do príncipe-regente D. João VI. A Esquadra portuguesa na Baía da Guanabara, em 1808, com a Nau Príncipe Real, que trouxe D. João VI, no primeiro plano.


📝 Nota de família: 

De acordo com registros biográficos públicos, o jovem Firmino Herculano de Morais Âncora (nascido em Lisboa, 1790 – falecido no Rio de Janeiro, 1862), ancestral distante do autor (creio que há seis gerações), teria vindo para o Brasil na época da imigração da Família Real Portuguesa, no início do período Joanino. Ele se tornou engenheiro militar, participou da implantação de obras públicas e desempenhou papéis importantes na carreira militar e administrativa do país.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Se os EUA atacarem a Venezuela: o que está em jogo para o Brasil e a América Latina



Enquanto navios de guerra americanos cruzam o Caribe rumo à costa venezuelana e o presidente Trump anuncia que “opções terrestres” poderão ser usadas em breve, cresce a apreensão por um desfecho que pode recolocar a América Latina sob fogo — e obrigar o Brasil a tomar decisões difíceis...


🌐 A escalada de tensão que reacende antigos fantasmas


Nas últimas semanas, a movimentação naval dos EUA — com destaque para o porta-aviões USS Gerald R. Ford — e alertas de operações terrestres dirigidas à Venezuela reacenderam temores regionais. A Casa Branca afirma que mira “cartéis e narcotráfico”, mas para muitos governos latino-americanos esse tipo de ação remete a precedentes perigosos de intervenção externa.

Para o governo venezuelano, a retórica já soa como ameaça real. O regime de Nicolás Maduro anunciou mobilização da Força Aérea e milícias, em defesa do que chamou de sua “soberania sagrada”.

Por sua vez, na América Latina, cresce um sentimento de repúdio generalizado. O ex-chanceler brasileiro Celso Amorim alertou publicamente que uma invasão poderia “incendiar a América do Sul”. Para ele, as consequências vão além de Caracas: envolvem instabilidade humanitária, fluxos migratórios e erosão da ordem regional.


🇧🇷 O Brasil entre o temor, a responsabilidade e o dilema diplomático


Para o Brasil, as consequências de um ataque à Venezuela não seriam apenas distantes — poderiam atingir diretamente suas fronteiras e provocar uma crise humanitária.


  • Refugiados e tensões na fronteira Norte: Estados como Roraima e Amazonas já têm histórico de recepção de venezuelanos. Um conflito poderia disparar um êxodo em massa, pressionando infraestrutura e recursos públicos.
  • Polarização interna e debates inflamados: A mobilização de um ator externo contra país vizinho tende a reacender debates sobre soberania, segurança, migração e identidade latino-americana — dividindo opinião pública e forças políticas.
  • Pressão sobre o governo: O Executivo brasileiro seria cobrado por respostas imediatas: acolhimento, controle fronteiriço, logística humanitária e diplomacia. Falhas neste contexto poderiam custar caro politicamente.


Além disso, o Brasil corre o risco de perder parte do papel de mediador regional que vinha cultivando, e ver sua imagem internacional abalada se for percebido como cúmplice ou passivo diante de uma intervenção externa.


🗳️ Eleições 2026: os cenários para o jogo político


É provável que o conflito venezuelano redesenhe o tabuleiro político brasileiro nas eleições de 2026. Algumas possibilidades:


  • Convocação do nacionalismo e da soberania: Se o governo conseguir se posicionar como defensor da autonomia regional e mediador imparcial, pode reforçar apoio entre parcelas da população contrárias à ingerência estrangeira.
  • Crise econômica e social como munição eleitoral: A inflação e a pressão sobre migração/refugiados podem alimentar insatisfação popular — setores da oposição poderiam explorar o tema como falha do governo.
  • Polarização e radicalização discursiva: A crise tende a reforçar divisões ideológicas: quem defende intervenção, quem defende soberania, quem defende acolhimento humanitário. Isso favorece discursos mais extremos e diminui o espaço para moderação.


Em outras palavras: a Venezuela pode transformar-se em tema central de campanha, influenciando programas, alianças e votos.


🤝 O Brasil de Lula num dilema estratégico — e com chance de protagonismo


Para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, há uma encruzilhada. Mas também há espaço para estratégia.


  • Rejeitar a intervenção e reafirmar soberania nacional: Isso reforça a tradição diplomática do Brasil, ressoa com a opinião pública contra ingerências e retoma o papel histórico de evitar intervenções externas.
  • Oferecer-se como mediador e porta-voz da América Latina: Em vez de alinhar-se automaticamente a Washington ou Caracas, o Brasil poderia buscar um papel de ponte, propondo diálogo, missão de observadores internacionais ou mediação neutra — ganhando prestígio internacional e evitando rupturas traumáticas.
  • Preparar infraestrutura humanitária e resposta migratória: Criar planos de acolhimento, assistência, controle sanitário e integração de refugiados. Isso é fundamental para minimizar impactos sociais e evitar crise interna.


Em suma: se bem conduzido, o país pode sair da crise não ferido — ou até fortalecido como ator diplomático —. Se mal conduzido, há riscos reais de descontrole interno, desgaste político e perda de credibilidade internacional.


🌎 E para a América Latina como um todo: risco de retorno às antigas disputas


Uma intervenção externa — liderada pelos EUA — em 2025 poderia marcar o fim de uma era de tentativas de integração pacífica latino-americana. Eis as possíveis consequências:


  • Reativação de rivalidades regionais, com governos divididos entre apoio, neutralidade ou oposição.
  • Erosão da cooperação multilateral, como a ideia de unidade latino-americana; tratados de não-intervenção seriam testados.
  • Aumento do papel das potências externas (EUA, Rússia, China) na região — o que pode levar a disputas indiretas por influência, comércio e alianças militares.


Isso reacende fantasmas da Guerra Fria e expõe novamente a região a riscos de desestabilização generalizada.


✍️ Conclusão


A hipótese de uma guerra dos EUA contra a Venezuela — até bem pouco tempo vista como remota — hoje se apresenta como possibilidade real. Se concretizada, não será apenas um conflito distante: será um duro teste à estabilidade da América Latina, à segurança do Brasil, à capacidade de resposta humanitária e à maturidade democrática regional.

Para o Brasil, o desafio é urgente: como responder de forma coerente com seus valores de soberania, solidariedade regional e compromisso com a paz — sem se deixar arrastar por polarizações externas? A resposta pode definir o país nas eleições de 2026, e também sua imagem para as próximas décadas.

A última Flor do Tempo

 

Palmeira-talipot florescendo no JBRJ


(Conto – Rio de Janeiro, novembro de 2025)


O sol de fim de tarde filtrava-se entre as árvores altas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, tingindo de dourado o chão úmido. O ar carregava o cheiro doce das bromélias e o rumor distante das maritacas. A poucos metros, um grupo de visitantes fotografava, em silêncio reverente, a palmeira-talipot em plena floração — um acontecimento raro, notícia em todos os jornais naquela semana.

Kenjiro Tanaka, 102 anos, caminhava devagar, apoiado no antebraço firme do bisneto. Cada passo era uma memória. O corpo hesitava, mas os olhos — pequenos, fundos — carregavam uma claridade surpreendente.

Ao seu lado, o adolescente Gabriel ajeitava a mochila e perguntava, curioso:

— Biso, é essa aí? A talipot que só floresce uma vez?

Kenjiro assentiu.

Uma vez… e depois morre. Assim como certas histórias, que só acontecem uma vez — e duram para sempre.

A árvore erguia-se como um guarda-sol colossal, folhas imensas abertas como braços. No topo, despontava a enorme inflorescência: milhares de pequenas flores douradas, vibrando com a luz do fim de tarde.

Gabriel deu um assobio baixo.

— Parece coisa de filme.

Kenjiro sorriu com ternura.

— Na minha aldeia, em Kyushu, no Japão, dizíamos que quando a talipot florescia, era porque o tempo queria contar um segredo. Raramente alguém vivia para ver isso mais de uma vez.

Ele fez uma pausa, respirando fundo. Um leve tremor atravessou-lhe a mão.

— Eu tinha sua idade, talvez um pouco mais, quando a guerra começou. Lembro de caminhar com meu pai pelos campos de arroz queimados. O mundo parecia estar acabando… e mesmo assim, no templo antigo, no alto da colina, havia uma talipot crescendo. Muito jovem ainda. Os monges cuidavam dela como se fosse uma promessa.

Gabriel o olhou com respeito — era raro o bisavô falar daquele tempo.

— Foi nessa época que o senhor saiu do Japão, né?

— Sim. — Kenjiro ajeitou o chapéu de palha, gasto.

 — Fui primeiro para os Estados Unidos.

 Trabalhava carregando caixas em um depósito. O inglês vinha devagar, mas o corpo aguentava. Um dia, a empresa decidiu abrir uma filial no Brasil. Me mandaram para cá porque eu dizia “bom dia” com um sorriso. — Ele riu. — Foi o suficiente para acharem que eu me daria bem entre brasileiros.

Gabriel gargalhou.

— E se deu.

— Me dei. — Kenjiro suspirou. — Conheci sua bisavó, Maria Clara… e minha vida floresceu aqui. Como esta palmeira. Só uma vez. Mas grande o bastante para valer tudo.

Eles se aproximaram da árvore. Pessoas fotografavam, mas a dupla parou apenas para observar. O vento leve fazia a copa balançar, espalhando um perfume discreto, quase imperceptível.

— Sabe por que essa palmeira é especial? — perguntou Kenjiro.

— Por causa da floração única?

— Também. Mas, na Ásia, ela simboliza algo mais profundo. Pacientes são aqueles que esperam décadas para alcançar a beleza completa. A talipot nos ensina que a vida não precisa correr. Cada instante prepara o próximo. Cada dor prepara um entendimento. Cada amor prepara outro amor que virá depois.

Gabriel baixou os olhos.

— Às vezes fico ansioso, vovô… com escola, futuro, essas coisas. Parece que tem que dar tudo certo rápido.

Kenjiro pousou a mão trêmula no ombro do menino.

— Nada verdadeiro cresce rápido demais. Nem você. Nem as pessoas que ama. A talipot espera a vida inteira para florescer — e quando floresce, ela ilumina tudo ao redor. O que importa não é a velocidade… é a profundidade.

O silêncio entre os dois foi tranquilo, como uma semente encontrando terra fértil.

— Venha — murmurou o velho. — Vamos ver o pôr do sol. É outro espetáculo que só acontece uma vez por dia, mas nunca se repete igual.

Saíram devagar do Jardim Botânico, chamaram um UBER pelo aplicativo e seguiram para o Arpoador. O céu começava a virar laranja. Na orla, surfistas recolhiam pranchas, turistas se ajeitavam nas pedras, e músicos de rua afinavam guitarras.

Kenjiro respirou fundo.

— Quando eu tinha a sua idade, Gabriel… eu não sabia se viveria para ver muitos pores do sol. Hoje, cada um me parece um presente.

Sentaram-se na pedra grande, onde o horizonte se abre entre o Morro Dois Irmãos e o mar. O sol descia lento, pintando o Atlântico com faixas de ouro.

Gabriel encostou-se no bisavô.

— E o senhor acha que ainda vai ver outro pôr do sol?

O velho sorriu, sereno.

Talvez. Mas não importa. O de hoje… — ele apontou para o horizonte ardente — …já vale por todos. Como a talipot, que floresce uma vez, mas faz valer uma vida inteira.

O sol sumiu aos poucos. O mar brilhou, depois escureceu. O vento trouxe cheiro de sal, vida e despedida.

E os dois ficaram ali, lado a lado — um começando, outro concluindo — assistindo ao espetáculo silencioso do tempo.


📷: Rafael Ribeiro, conforme extraído de https://www.gov.br/jbrj/pt-br/assuntos/noticias/floracao-rara-de-palmeira-no-jardim-botanico-do-rio-de-janeiro

🕰️ Petrópolis: patrimônio, memória e o futuro da cidade imperial

 


Petrópolis carrega séculos de história — palácios, fábricas antigas, ruas de pedra, encostas verdejantes, memórias da monarquia e da industrialização. Por isso, o tombamento de áreas históricas sempre foi mais do que “selar prédios antigos”: é proteger identidade, paisagem e memória coletiva.


Recentemente, o Iphan propôs uma rerratificação do tombamento do “Conjunto Urbano-Paisagístico de Petrópolis”. A intenção oficial, segundo o órgão, é atualizar os limites da proteção, reconhecendo conjuntos fabris, vilas operárias e encostas de Mata Atlântica — não apenas edifícios isolados. 


Mas há quem alerte: a proposta, se aprovada sem critérios claros e ampla participação social, pode resultar no destombamento de até 39% da área atualmente protegida — o que causaria perda de proteção para trechos significativos já tombados há décadas. 


❗ Por que isso importa:


Quando áreas sensíveis perdem proteção, corre-se risco de descaracterização urbana: prédios modernos fora de contexto, intervenções invasivas, destruição da paisagem que dá à Petrópolis seu caráter único.


A memória coletiva pode ser abalada. Não são só os prédios — são ruas, vazios urbanos, encostas, cenários naturais que contam a trajetória da cidade e de seus moradores ao longo de gerações.


O turismo cultural e histórico pode sofrer. Muitas pessoas visitam Petrópolis justamente pela atmosfera de cidade-imperial preservada. Se essa coerência histórica for rompida, o apelo turístico perde força — e isso afeta economia, comércio e serviços locais.


A decisão define se a cidade seguirá valorizando sua história ou abrirá mão de parte dela em nome de “desenvolvimento”.


Por outro lado, há quem defenda que a rerratificação — se feita com transparência, critério técnico e participação da comunidade — pode fortalecer a preservação: incorporando áreas que historicamente não estavam protegidas (complexos industriais antigos, encostas, vilas operárias) e garantindo que a cidade seja protegida de modo mais abrangente e coerente com sua identidade. 


📢 Por isso, é urgente: todos nós admiradores da bela cidade serrana devemos acompanhar de perto esse processo, cobrar transparência, consulta pública e respeito ao patrimônio. Petrópolis não é só um destino turístico: é um patrimônio comum, parte da memória viva de gerações.


Se perdermos essa chance de cuidá-la bem, corremos o risco de entregar à próxima geração uma cidade com menos história — e menos alma.


📷: Iphan

A Derrubada dos Vetos ao “PL da Devastação”: Quando o Congresso Escolhe Ignorar a Ciência



A sessão conjunta do Congresso Nacional realizada em 27 de novembro de 2025 ficará marcada como um dos maiores retrocessos ambientais do Brasil nas últimas décadas. Deputados e senadores derrubaram a maior parte dos vetos feitos pelo Presidente Lula à Lei Geral do Licenciamento Ambiental — vetos que haviam sido aplicados justamente para impedir dispositivos que fragilizavam a proteção ambiental, a fiscalização e a própria segurança de empreendimentos de impacto.

Com a decisão parlamentar, dispositivos considerados arriscados por ambientalistas, pesquisadores, órgãos técnicos e comunidades tradicionais voltam a valer. Trata-se de um movimento que revela um profundo desprezo pela ciência, pelo planejamento de longo prazo e pela responsabilidade socioambiental.


O que estava em jogo?

O licenciamento ambiental é o principal mecanismo técnico-científico usado para avaliar riscos de empreendimentos ao meio ambiente e às populações que dele dependem. Ele exige estudos, pareceres, análise de impactos, compensações e fiscalização — elementos essenciais para prevenir desastres e garantir segurança.

Os vetos de Lula barravam pontos que:


  • flexibilizavam o licenciamento para atividades potencialmente poluidoras;
  • permitiam autolicenciamento por meio da chamada LAC (Licença por Adesão e Compromisso);
  • diminuíam a participação dos órgãos técnicos;
  • reduziam a proteção de territórios de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais;
  • transferiam responsabilidades a estados e municípios sem garantir capacidade técnica equivalente.


Com a derrubada dos vetos, todos esses pontos voltam a vigorar.


O desprezo pela ciência e pela técnica

A votação do Congresso evidencia uma postura clara: a política ambiental brasileira está sendo guiada por interesses imediatistas, não por evidências científicas nem pela preocupação com o futuro do país e do planeta.


1. Autolicenciamento substituindo avaliação técnica

Permitir que empreendedores se licenciem sozinhos — apenas declarando que cumprem requisitos — é abrir mão da ciência. Estudos de impacto ambiental, análises geológicas, hidrológicas, sociais e ecológicas deixam de ser exigidos.


2. Fragilização das instituições ambientais

A transferência de responsabilidades para governos locais ignora a estrutura desigual entre municípios e estados. Muitos não possuem equipes técnicas capazes de analisar sequer um estudo básico de impacto.


3. Ignorar alertas científicos sobre a crise climática

A derrubada dos vetos ocorre num momento em que o mundo inteiro reforça a urgência de políticas ambientais sérias. Escolher flexibilizar regras ambientais neste contexto é negar abertamente os alertas da comunidade científica.


4. Risco de desastres ambientais

Sem rigor técnico, aumenta o risco de contaminação de rios, desmatamentos ilegais, destruição de unidades de conservação, conflitos territoriais e impactos irreversíveis sobre biomas como Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.


Consequências para o país

A votação causa preocupação nacional e internacional. Entre os efeitos esperados estão:

  • aumento do desmatamento e da degradação ambiental;
  • avanço sobre terras indígenas e quilombolas;
  • insegurança jurídica para empreendedores sérios;
  • pressões sobre biomas já ameaçados;
  • enfraquecimento da fiscalização;
  • perda de credibilidade do país em acordos ambientais.


Para especialistas, trata-se de um dos maiores retrocessos ambientais em mais de 30 anos.


Como votaram os deputados do Rio de Janeiro

Ainda não há divulgação nominal oficial completa da votação sobre a derrubada dos vetos. Entretanto, já é possível registrar como votou a bancada fluminense no momento anterior, quando o PL foi aprovado pela Câmara em julho de 2025 — votação que abriu caminho para a crise atual.

Segundo levantamento consolidado por veículos locais, os deputados do Rio votaram assim no texto-base do chamado “PL da Devastação”:


Votaram a FAVOR do PL (a favor da flexibilização ambiental)

Altineu Côrtes (PL)
Bebeto (PP)
Caio Vianna (PSD)
Carlos Jordy (PL)
Chris Tonietto (PL)
Dani Cunha (União)
Delegado Ramagem (PL)
Doutor Luizinho (PP)
General Pazuello (PL)
Gutemberg Reis (MDB)
Hélio Lopes (PL)
Hugo Leal (PSD)
Jorge Braz (Republicanos)
Júlio Lopes (PP)
Luciano Vieira (Republicanos)
Luiz Lima (Novo)
Marcos Soares (União)


Votaram CONTRA o PL (defesa do controle técnico e da ciência)

Bandeira de Mello (PSB)
Benedita da Silva (PT)
Chico Alencar (PSOL)
Enfermeira Rejane (PCdoB)
Glauber Braga (PSOL)
Jandira Feghali (PCdoB)
Laura Carneiro (PSD)
Lindbergh Farias (PT)
Marcelo Queiroz (PP)
Marcos Tavares (PDT)


Ausentes

Áureo Ribeiro (Solidariedade)
Dimas Gadelha (PT)
Juninho do Pneu (União)
Marcelo Crivella (Republicanos)


Por que registrar esses votos importa?

O futuro ambiental do Brasil depende de decisões técnicas e responsáveis. Saber como vota cada parlamentar é essencial para que a sociedade possa cobrar coerência, compromisso com a ciência e respeito ao meio ambiente.

A derrubada dos vetos não é apenas um ato legislativo: é um símbolo de como parte do Congresso ainda prefere ignorar evidências, sacrificar o futuro do país e abrir espaço para pressões econômicas que não levam em conta a vida, a natureza e as próximas gerações.

Que em outubro de 2026, o povo brasileiro lhes dê a resposta através do voto!

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Itaguaí: a nova reviravolta e a necessidade urgente de decisão definitiva


Haroldo Rodrigues de Jesus Neto


Nesta quinta-feira, 27 de novembro de 2025, o STF revogou a liminar que mantinha Dr. Rubão no cargo de prefeito de Itaguaí e determinou seu afastamento imediato. A cadeira número 1 da cidade retorna, então, ao presidente da Câmara Municipal, o vereador Haroldo Rodrigues de Jesus Neto, o Haroldinho, até que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decida definitivamente o mérito da eleição de 2024.

Essa decisão traz de volta ao centro do debate algo que sempre esteve claro: a urgência de um desfecho para encerrar a indefinição institucional e restaurar a legitimidade da escolha popular.


Por que a decisão do STF torna ainda mais imperioso um pleito suplementar?


  • Reconhecimento da controvérsia sobre a elegibilidade: o STF entendeu que, no caso concreto, não se aplica a exceção que permitiria a reeleição após mandato interino, pois o período exercido por Rubão antes das eleições é considerado relevante para caracterizar o que seria um terceiro mandato. Com isso, a Corte reafirma a possibilidade de que sua eleição tenha sido irregular.

  • Revogação da liminar de posse indica que o quadro jurídico mudou: a retirada de Dr. Rubão do cargo demonstra que a Corte reconhece a gravidade da questão e a necessidade de reavaliar os efeitos da eleição de 2024 — o que abre caminho para a adoção de medidas compatíveis com a proteção da democracia.

  • A indefinição eleitoral e administrativa se prolonga: com o afastamento e a volta da interinidade, fica evidente que a continuidade do governo depende apenas de decisões judiciais. A população não pode ficar submetida a ciclos intermináveis de disputa e instabilidade institucional. É fundamental que o TSE julgue definitivamente o recurso, e que, diante da ilegitimidade potencial da chapa vencedora, convoque pleito suplementar.


Democracia, legitimidade e soberania popular em jogo


Democracia não se resume a “quem tirou mais votos”. Trata-se de garantir que o vencedor tenha respaldo legítimo da maioria — ou, quando houver nulidade relevante, de dar aos cidadãos a oportunidade de escolher livremente um novo representante. No caso de Itaguaí:


  • Como demonstrado anteriormente, se os votos de Rubão forem anulados, o segundo colocado não alcança maioria absoluta, o que torna sua eventual diplomação contrária à lógica de representar a vontade da maioria.

  • A realização de uma nova eleição — um pleito suplementar — seria a forma mais coerente de restaurar a legitimidade popular e permitir que a cidade tenha um prefeito eleito sem sombra de dúvida jurídica

  • A interinidade exercida pelo presidente da Câmara Municipal traz mais legitimidade nesse momento do que manter no cargo alguém cuja validade da eleição está seriamente questionada. Essa solução temporária preserva a continuidade administrativa sem sacrificar os valores democráticos.


A responsabilidade do TSE e da Justiça Eleitoral


Com a decisão do STF, o TSE recebe um recado claro: é hora de resolver definitivamente o impasse. E, por isso, a Corte Superior Eleitoral deve:


  1. Retomar o julgamento do recurso relativo à eleição de 2024 em Itaguaí;
  2. Considerar com rigor as implicações constitucionais da inelegibilidade por “terceiro mandato”:
  3. Admitir, se for o caso (provavelmente o será), a convocação de pleito suplementar, para garantir que o prefeito seja escolhido legítima e democraticamente.


Inegavelmente, a demora em encerrar esse processo prolonga a incerteza, prejudica a gestão pública e mina a confiança da população nas instituições.


Conclusão: Itaguaí não pode esperar mais!


A decisão do STF desta semana representa um marco — e também uma convocação à responsabilidade institucional. Não se trata apenas de litígio jurídico, mas de assegurar que a vontade popular, expressa nas urnas, seja respeitada. A democracia exige mais do que interpretações técnicas: exige coragem para garantir que o poder público seja exercido com legitimidade, representatividade e transparência.

Assim, é imperativo que o TSE julgue com celeridade e firmeza, e que, diante da ilegitimidade da chapa vencedora, determine a realização de nova eleição para prefeito de Itaguaí. A cidade e seus cidadãos merecem uma escolha clara, sem dúvidas ou contestações, e um governo cuja autoridade não esteja permanentemente suspensa pelo litígio eleitoral.

Luzes na Cidade, Sombras no Morro




Um conto natalino inspirado em “Boas Festas”, de Assis Valente


No Natal de 1933, o Rio de Janeiro parecia viver dois mundos ao mesmo tempo. No Centro e na Zona Sul, as luzes da Avenida Rio Branco, as vitrines da Confeitaria Colombo e o vai-e-vem elegante dos bondes criavam a imagem de uma cidade moderna, festiva e vibrante. Mas nos morros e subúrbios, a noite caía mais cedo, as ruas eram de barro e o Natal era mais esperança do que celebração.

Nesse cenário contrastante viviam Eduardo, um menino de dez anos do Flamengo, e Joaquim, da mesma idade, morador do Morro da Providência.


O Natal da cidade iluminada


Eduardo morava em uma casa confortável, com árvore montada pela governanta, ceia sendo preparada pela mãe e presentes importados embrulhados com esmero. A grande surpresa daquele ano era um carrinho mecânico europeu, orgulho do comércio sofisticado que chegava aos bairros elegantes.

Naquela véspera de Natal, Eduardo passeava com a mãe pela Cinelândia, observando vitrines decoradas e um grande presépio exposto na Colombo. Era o símbolo da época: brilho, consumo, música e alegria.


O Natal da cidade esquecida


No mesmo dia, Joaquim descia o morro para vender amendoins. Fascinado, parou diante do mesmo presépio, mas por outro motivo: aquilo era quase inalcançável, um mundo que ele observava por alguns instantes antes de voltar à dura rotina da família.

Quando Eduardo e Joaquim se cruzaram diante daquela vitrine, pareciam dois meninos de dois países diferentes. Mas eram apenas duas crianças, igualmente curiosas, igualmente tocadas pelo encanto do Natal.

— Você acha que Papai Noel vem hoje? — perguntou Eduardo.
Joaquim sorriu, com tristeza suave:
— Pra mim? Ele nunca sobe o morro.

A resposta ficou martelando na mente de Eduardo.


A música que mudou tudo


No rádio da confeitaria, tocava uma nova canção que começava a ganhar o país: “Boas Festas”, de Assis Valente. Apesar do título alegre, era uma música marcada pela melancolia — falava justamente da criança esquecida, daquela que vê o Natal dos outros mas não o próprio.

As palavras da canção se misturavam à frase de Joaquim. Era como se o compositor escrevesse exatamente sobre ele.


O gesto que dá sentido ao Natal


De volta para casa, Eduardo olhou o embrulho do carrinho. Era bonito, reluzente, caro. Mas, naquele momento, parecia excessivo para alguém que já tinha tanto.

Impulsivamente, ele pegou o presente, escapou discretamente e voltou ao morro. Procurou Joaquim até encontrá-lo sentado no degrau de casa, olhando para o céu, como quem espera algo que não chega.

— Joaquim… trouxe uma coisa.

O menino pobre abriu o papel devagar, como se tivesse medo de estragar. Quando viu o carrinho mecânico, seus olhos brilharam com uma intensidade que a luz elétrica do Centro jamais alcançaria.

— Por quê? — perguntou, atônito.
Eduardo pensou em responder, mas apenas deu de ombros, num gesto simples e honesto.
Porque era o certo.
Porque a música tinha lhe ensinado algo.
Porque, para que o Natal existisse, alguém precisava romper o ciclo de esquecimento.

Naquela noite, no alto do morro, Joaquim brincou até tarde, fazendo o carrinho deslizar pelo chão de barro como se fosse um tesouro. Pela primeira vez, sentiu que Papai Noel não o tinha esquecido. Só tinha mandado alguém diferente para entregar.


O Rio, a música e o sentido


O Rio de 1933 vivia contradições profundas: modernidade e pobreza, brilho e sombra, festa e fome. “Boas Festas” nasceu exatamente desse contraste — e ecoou tão forte porque reconheceu a dor silenciosa por trás da alegria aparente do Natal.

O conto acima procura revisitar essa atmosfera e recriar um dos muitos encontros possíveis entre esses dois Rios: o que brilha na vitrine e o que luta no morro; o que recebe presentes e o que espera.
E propõe, sobretudo, que a solidariedade é o único ponto onde esses mundos podem realmente se tocar.

Clique AQUI e ouça a música que inspirou este conto 



Nota sobre o autor

Assis Valente (1911–1958) foi um dos compositores mais originais do período de ouro da música brasileira. Baiano, de origem humilde e marcado desde cedo por dificuldades familiares, veio para o Rio de Janeiro ainda jovem, trabalhando como artesão, caricaturista e, mais tarde, como autor de marchinhas e sambas que fariam enorme sucesso nas rádios.

Seu talento era luminoso, mas sua vida pessoal foi profundamente conturbada. Assis Valente viveu entre a pobreza, crises emocionais, solidão afetiva e sucessivas dificuldades financeiras. Esse contraste entre brilho público e sofrimento íntimo aparece de forma clara em grande parte de sua obra — e “Boas Festas”, composta em 1933, é talvez seu exemplo mais simbólico.