A eleição para o Governo do Estado do Rio de Janeiro em 2026 produziu uma situação jurídica incomum e gerou uma questão constitucional que, a meu ver, merece ser enfrentada com profundidade pelo Supremo Tribunal Federal.
Antes de tratar propriamente dos argumentos jurídicos, considero importante fazer uma declaração de transparência.
Filiado ao PDT, apoiei politicamente Eduardo Paes nesta eleição. Minha posição sempre foi pública. Isso, contudo, não significa que eu tenha atuado juridicamente em nome do candidato, do PSD ou da coligação que disputou o Governo do Estado. Não integrei sua equipe jurídica e não represento qualquer dessas partes nos processos relacionados à eleição.
Neste mês de outubro, quando apresentei manifestações ao Tribunal Superior Eleitoral e, posteriormente, ao Supremo Tribunal Federal, agi em nome próprio, como advogado e eleitor, a partir de uma questão constitucional que identifiquei antes mesmo de o TSE concluir o julgamento que acabou alterando o resultado inicialmente proclamado.
Portanto, faço esta exposição também como uma forma de prestação de contas pública sobre a minha atuação.
UMA QUESTÃO LEVANTADA ANTES DO JULGAMENTO DO TSE
Na madrugada de 8 de outubro de 2026, antes da sessão em que o Tribunal Superior Eleitoral julgaria o Recurso Ordinário Eleitoral nº 0602359-26.2026.6.19.0000, interposto por Anthony Garotinho, protocolei nos autos uma Manifestação Informativa/Memoriais, a qual encontra-se acessível no sistema do PJe da Justiça Eleitoral.
Naquela oportunidade, deixei expresso que não pretendia ingressar no processo como parte, assistente ou recorrente e, principalmente, que não estava defendendo o registro da candidatura de Garotinho. Meu objetivo era outro: submeter ao Tribunal uma questão constitucional relacionada à formação da maioria absoluta nas eleições majoritárias.
A pergunta que formulei era relativamente simples:
A maioria absoluta exigida pela Constituição precisa existir na primeira votação ou pode surgir posteriormente, por meio da exclusão de votos que, naquele momento, haviam sido conscientemente atribuídos a outro candidato que constava da urna?
Essa indagação foi apresentada antes de conhecido o resultado do julgamento. Portanto, não se trata de tese construída posteriormente para adaptar a argumentação ao desfecho da eleição. Essa anterioridade está registrada nos próprios autos do TSE.
OS 274.411 VOTOS DE GAROTINHO E O PROBLEMA CONSTITUCIONAL
No primeiro turno, 274.411 eleitores escolheram Anthony Garotinho para ser o próximo governador do Rio de Janeiro.
Sua candidatura estava sub judice. Posteriormente, o TSE manteve o indeferimento de seu registro e determinou a exclusão daqueles votos da base utilizada para calcular a votação válida.
É preciso compreender exatamente o que estou questionando.
Não sustento que esses votos devam produzir qualquer efeito em benefício de Garotinho!
Se sua candidatura foi definitivamente indeferida, é perfeitamente possível reconhecer que ele não possa utilizar aqueles votos para ser eleito, obter mandato ou conseguir qualquer vantagem eleitoral.
O problema constitucional surge no passo seguinte.
Uma coisa é dizer que esses votos não podem beneficiar o candidato que os recebeu. Outra, juridicamente diferente, é afirmar que a retirada posterior desses votos pode aumentar retroativamente o percentual de outro candidato e criar uma maioria absoluta que não existia quando os eleitores foram às urnas.
Foi precisamente essa distinção que apresentei ao TSE.
O QUE SIGNIFICA “NA PRIMEIRA VOTAÇÃO”?
A Constituição Federal, ao disciplinar a eleição presidencial — regra aplicável também à eleição para governador — estabelece no art. 77, § 2º, que será eleito aquele que obtiver maioria absoluta dos votos, excluídos os brancos e nulos. Logo depois, porém, o § 3º dispõe: “Se nenhum candidato alcançar maioria absoluta na primeira votação, far-se-á nova eleição...”
A expressão “na primeira votação” não me parece acidental.
A primeira votação é um acontecimento determinado no tempo. É naquele momento que milhões de cidadãos comparecem às urnas, escolhem candidaturas e exercem a soberania popular.
É justamente daí que surge o ponto central da controvérsia que é saber se uma maioria absoluta inexistente ao término da primeira votação pode ser constituída posteriormente pela retirada, do universo considerado, de votos conscientemente atribuídos a outro concorrente.
A Constituição não afirma que haverá segundo turno apenas se nenhum candidato possuir maioria absoluta depois de resolvidas definitivamente todas as controvérsias judiciais sobre registros de candidaturas. Ela se refere expressamente à maioria existente “na primeira votação”.
O CONTRAPONTO DO ART. 16-A DA LEI DAS ELEIÇÕES
Há, evidentemente, um argumento jurídico importante em sentido contrário ao que sustento e que precisa ser enfrentado com transparência.
O art. 16-A da Lei nº 9.504/1997, a chamada Lei das Eleições, permite que o candidato cujo registro esteja sub judice continue praticando atos de campanha e permaneça com seu nome na urna eletrônica enquanto houver recurso pendente. Ao mesmo tempo, a própria norma estabelece que a validade dos votos atribuídos a essa candidatura fica condicionada ao posterior deferimento do registro por instância superior.
Portanto, a presença de Garotinho na urna não significava que seu registro estivesse deferido nem que os votos depositados em seu nome estivessem definitivamente assegurados.
Esse é, a meu ver, o argumento mais forte contra a tese que venho defendendo.
Pode-se sustentar que, uma vez mantido definitivamente o indeferimento da candidatura, a condição prevista no art. 16-A não se implementou. Consequentemente, os votos perderam sua validade e, não sendo votos válidos, devem ser retirados do universo utilizado para calcular a maioria absoluta. Como o art. 77, § 2º, da Constituição determina que votos brancos e nulos não sejam computados para essa finalidade, a consequência aparentemente natural seria a retotalização realizada pelo TSE.
Essa interpretação possui fundamento jurídico relevante e não deve ser simplesmente ignorada. Porém, é precisamente nesse ponto que surge a questão constitucional que apresentei primeiro ao TSE e, posteriormente, ao STF.
O art. 16-A resolve a validade dos votos para a candidatura que os recebeu. Ele também resolve, necessariamente e sem qualquer outra indagação constitucional, todos os efeitos que a invalidação posterior desses votos produzirá sobre a formação da maioria absoluta de um candidato diferente?
Entendo que essa segunda conclusão não é automática.
A norma infraconstitucional estabelece que a validade dos votos atribuídos ao candidato sub judice depende do deferimento posterior de seu registro. Isso explica por que Garotinho não pode aproveitar os 274.411 votos depois de mantido o indeferimento de sua candidatura.
Contudo, permanece outra questão: qual é o efeito constitucional dessa invalidação sobre o resultado da “primeira votação” a que se refere expressamente o art. 77, § 3º, da Constituição?
Em outras palavras, uma coisa é afirmar que os votos não podem produzir efeitos em favor de Garotinho. Outra é concluir que sua invalidação posterior necessariamente autoriza a reconstrução retroativa do denominador da primeira votação, fazendo surgir, para outro candidato, uma maioria absoluta que não existia no momento em que os eleitores compareceram às urnas.
Essa distinção não pretende afastar o art. 16-A. Ao contrário, parte de sua aplicação e pergunta até onde chegam os seus efeitos quando confrontados com a disciplina constitucional própria das eleições majoritárias em dois turnos.
O próprio Supremo Tribunal Federal já demonstrou que o art. 16-A não deve ser interpretado de maneira puramente mecânica. Nas ADIs nº 4.513 e 4.542, ao examinar o parágrafo único desse dispositivo no contexto das eleições proporcionais, o Tribunal lhe conferiu interpretação conforme à Constituição à luz dos princípios democrático e da soberania popular.
É verdade que aquele julgamento tratava do sistema proporcional e não resolve a situação agora discutida no Rio de Janeiro. Aliás, no caso de candidatura que já estivesse indeferida sub judice no dia da eleição, como ocorreu aqui, a própria tese do STF admite a exclusão dos votos para o partido no sistema proporcional.
Por isso, não invoco esse precedente como resposta pronta para a controvérsia atual.
Sua importância está em outro ponto: o tratamento jurídico de votos atribuídos a candidaturas sub judice precisa ser compatibilizado com os princípios e regras constitucionais aplicáveis ao sistema eleitoral concreto.
No caso de uma eleição majoritária sujeita a dois turnos, considero que ainda resta responder se a regra do art. 16-A, ao retirar eficácia dos votos para a candidatura posteriormente indeferida, também autoriza que uma decisão posterior altere retroativamente a configuração constitucional da primeira votação e transforme uma votação inferior à maioria absoluta em vitória no primeiro turno.
É essa a questão que, a meu ver, deverá ser enfrentada pelo Supremo.
NÃO SE TRATA DE “VALIDAR OS VOTOS DE GAROTINHO”
Tenho visto circular nas redes sociais a afirmação de que defender o segundo turno significaria agora pretender “validar os votos de Garotinho”.
Não é isso!
No TSE, sustentei expressamente que os 274.411 votos poderiam deixar de produzir qualquer efeito em favor de Garotinho, de seu partido ou de sua coligação. O que pedi foi que o Tribunal distinguisse essa invalidação da questão constitucional relativa à formação da maioria absoluta de outro candidato.
Caso reconhecida, para esse específico efeito, a diferença entre o voto originariamente nulo por vontade do eleitor e o voto posteriormente invalidado em razão da situação jurídica da candidatura, requeri que aqueles votos fossem considerados apenas na aferição da maioria absoluta da primeira votação.
Portanto, não se trata de transferir votos, ressuscitar candidatura ou beneficiar Garotinho, mas de definir se a invalidação superveniente pode produzir vantagem eleitoral para candidato que não recebeu aqueles votos.
A DECISÃO DO PRÓPRIO TSE NO DIA DA ELEIÇÃO
Existe ainda outro aspecto que considero relevante, embora seu alcance também deva ser corretamente delimitado.
No próprio dia da eleição, em decisão proferida na Suspensão de Segurança Eleitoral nº 0602621-04.2026.6.00.0000, a Presidência do TSE registrou expressamente que os votos atribuídos à candidatura de Garotinho seriam considerados no cálculo dos percentuais obtidos pelos concorrentes até que fosse proferida decisão colegiada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Essa ressalva é importante.
A decisão não assegurou validade definitiva aos votos nem afirmou que eles permaneceriam no denominador caso o registro viesse a ser definitivamente indeferido. Ao contrário, tratava-se de disciplina provisória própria de uma candidatura que ainda se encontrava sub judice.
Foi, porém, sob esse regime jurídico provisório que a primeira votação ocorreu.
E foi com aqueles votos integrando oficialmente o cálculo dos percentuais que a Justiça Eleitoral verificou que nenhum candidato havia alcançado maioria absoluta e, consequentemente, convocou inicialmente o segundo turno.
Por isso, não invoco essa decisão como precedente capaz, por si só, de impedir a posterior retotalização.
Sua relevância é mais específica: ela demonstra que, no momento em que ocorreu a “primeira votação” mencionada no art. 77, § 3º, da Constituição, o critério oficialmente aplicado pela própria Justiça Eleitoral incluía aqueles votos na aferição dos percentuais.
A questão constitucional surge justamente depois.
A decisão colegiada posterior podia, nos termos do art. 16-A da Lei das Eleições, retirar definitivamente a eficácia dos votos em favor de Garotinho. O que permanece em discussão é se essa alteração superveniente também pode reconstruir retroativamente o significado constitucional da primeira votação e produzir, para outro concorrente, uma maioria absoluta que não havia sido constatada quando as urnas foram fechadas.
Esse elemento integrou a fundamentação da manifestação que posteriormente apresentei ao Supremo Tribunal Federal.
O PRECEDENTE DAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE BELFORD ROXO DE 2016
Há também um precedente eleitoral que considero importante para compreender a controvérsia, embora ele não resolva diretamente a situação hoje discutida no Rio de Janeiro.
Nas eleições municipais de Belford Roxo, em 2016, o Tribunal Superior Eleitoral examinou a situação de candidato que havia participado do primeiro turno com o registro indeferido, mas ainda submetido a recurso.
No Mandado de Segurança nº 0602028-24.2016.6.00.0000, o TSE decidiu que os votos atribuídos a candidatos nessa condição deveriam ser considerados para verificar a necessidade de realização do segundo turno enquanto permanecesse pendente a decisão final da própria Corte sobre o registro.
A jurisprudência atualmente sistematizada pelo próprio TSE registra esse entendimento: a pendência do recurso não impedia a participação no segundo turno, nos termos do art. 16-A da Lei das Eleições.
A limitação é fundamental.
O precedente não estabeleceu que votos de candidatura definitivamente indeferida deveriam permanecer para sempre na base de cálculo da maioria absoluta. Ao contrário, a solução era expressamente provisória e vinculada à existência de recurso ainda pendente no TSE. A própria legislação determina que a validade dos votos atribuídos a candidato sub judice fica condicionada ao posterior deferimento do registro.
No caso concreto de Belford Roxo, essa questão nem chegou a produzir o mesmo problema verificado no Rio de Janeiro em 2026. Posteriormente, o TSE deferiu o registro de Deodalto Ferreira, permitindo que o segundo turno fosse realizado com sua candidatura regularmente reconhecida.
Por isso, seria incorreto afirmar que o precedente de 2016 demonstra, por si só, que votos posteriormente invalidados devam continuar compondo o denominador da maioria absoluta.
Sua importância é outra.
Ele demonstra que o próprio TSE já reconheceu que, enquanto a situação jurídica da candidatura ainda estava pendente, os votos efetivamente depositados pelos eleitores eram relevantes para verificar se o primeiro colocado havia ou não alcançado maioria absoluta e, portanto, se deveria haver segundo turno.
Mais do que isso, no voto condutor daquele julgamento chegou-se a cogitar, em tese, que, se o candidato classificado para o segundo turno viesse posteriormente a ser excluído, poderia surgir a necessidade de convocação do terceiro colocado.
Essa consideração, contudo, também deve ser corretamente qualificada: tratava-se de uma hipótese aventada no raciocínio do julgamento, e não de uma decisão definitiva sobre o destino de votos depois de um indeferimento final.
Ainda assim, o raciocínio evidencia uma distinção relevante para a controvérsia atual: a exclusão superveniente de determinada candidatura e a eliminação da própria necessidade constitucional do segundo turno não são necessariamente consequências equivalentes.
No Rio de Janeiro em 2026, a situação apresenta uma diferença importante. Garotinho ficou em terceiro lugar e não disputaria a segunda votação. A controvérsia não consiste, portanto, em saber se ele poderia permanecer no segundo turno, mas em definir se a posterior invalidação de seus votos pode suprimir o próprio segundo turno que havia sido inicialmente convocado.
É justamente por essa diferença que o precedente de Belford Roxo não oferece uma resposta pronta, mas fornece um elemento importante para a reflexão constitucional.
Se a Justiça Eleitoral já reconheceu que os votos de uma candidatura sub judice podem ser relevantes para determinar a necessidade de segundo turno enquanto o registro está pendente, resta saber qual deve ser o efeito, sobre o resultado constitucional da primeira votação, da decisão definitiva proferida depois.
Essa distinção — e não a simples reprodução da solução adotada em Belford Roxo — foi incorporada à petição com a qual requeri meu ingresso como amicus curiae na ADPF nº 1.362, perante o Supremo Tribunal Federal.
O STF E A AUTONOMIA DA REGRA DA MAIORIA ABSOLUTA
Outro precedente que considerei relevante foi o histórico RMS nº 23.234/AM, relatado pelo saudoso ministro Sepúlveda Pertence.
Naquele julgamento, o Supremo distinguiu a questão da validade da eleição da regra constitucional utilizada para determinar a maioria necessária à proclamação do eleito.
O precedente não resolve automaticamente o caso atual, mas ajuda a demonstrar algo importante. Isto é, afirmar que determinados votos são juridicamente nulos segundo a legislação eleitoral não encerra, necessariamente, toda a investigação constitucional.
Ainda resta saber quais efeitos essa nulidade produz sobre a maioria absoluta prevista diretamente na Constituição.
POR QUE LEVEI A QUESTÃO AO STF?
Depois do julgamento do TSE, o PSD Nacional, partido de Eduardo Paes, ajuizou a ADPF nº 1.362 perante o Supremo Tribunal Federal.
Como a questão constitucional discutida na ação coincidia em grande medida com aquela que eu já havia apresentado ao TSE antes do julgamento, requiri ao ministro Cristiano Zanin meu ingresso na ADPF como amicus curiae, buscando oferecer contribuição técnico-constitucional complementar à petição inicial.
Na petição ao STF, preservei expressamente a mesma independência que havia delimitado perante o TSE: atuei em nome próprio, sem representar o PSD, a coligação, Eduardo Paes ou Anthony Garotinho.
Meu apoio político a Paes é público e não tenho razão alguma para escondê-lo. Entretanto, o meu posicionamento jurídico foi apresentado autonomamente antes de conhecido o resultado do julgamento do TSE e não decorre de representação profissional de qualquer candidatura.
Na petição ao Supremo, procurei ainda complementar a discussão apresentada pelo PSD, inclusive propondo uma solução constitucional mais restrita.
Mesmo que o STF não queira estabelecer uma regra geral segundo a qual todo voto dado a candidato posteriormente excluído permaneça no denominador da maioria absoluta, poderia reconhecer uma solução limitada a situações como esta: candidatura que participou da primeira votação sub judice; votos considerados oficialmente nos percentuais; inexistência de maioria absoluta constatada ao final da votação; segundo turno inicialmente convocado; e posterior invalidação dos votos de candidato que sequer estava entre os dois primeiros colocados.
Nessa situação específica, entendo que a invalidação pode produzir todos os seus efeitos contra o candidato excluído sem necessariamente apagar o segundo turno que já resultava da primeira votação.
POR QUE DEFENDO O SEGUNDO TURNO?
O posicionamento que defendo é claro. Entendo que o Estado do Rio de Janeiro deveria realizar o segundo turno para governador.
Defendo a realização do segundo turno não simplesmente porque isso beneficie Eduardo Paes, candidato que apoiei, mas porque considero constitucionalmente problemático transformar posteriormente uma votação inferior à maioria absoluta em vitória de primeiro turno mediante a retirada de votos que, no momento em que a soberania popular foi exercida, haviam sido dirigidos conscientemente a outra candidatura existente na urna.
Se aqueles votos não podem beneficiar Garotinho, que não o beneficiem. No entanto, a questão seguinte precisa ser respondida: podem eles, ao desaparecerem posteriormente do denominador, beneficiar outro candidato que jamais os recebeu e conferir-lhe uma maioria absoluta que não existia quando terminou a primeira votação?
Reconheço que o art. 16-A fornece fundamento relevante à interpretação adotada pela maioria do TSE. Minha divergência não consiste em negar sua incidência, mas em sustentar que a norma infraconstitucional não responde, sozinha, à questão constitucional autônoma sobre o momento em que deve existir a maioria absoluta prevista nos §§ 2º e 3º do art. 77.
A meu ver, a melhor interpretação dos arts. 28 e 77 da Constituição é justamente aquela que preserva o segundo turno.
Essa posição pode ser acolhida ou rejeitada pelo Supremo. O papel de quem apresenta uma tese jurídica não é antecipar o resultado do julgamento, mas, sim, expor os seus fundamentos e submetê-los às instituições competentes.
Foi o que procurei fazer primeiro no TSE e, posteriormente, agora no STF.
TRANSPARÊNCIA TAMBÉM É PARTE DA DEMOCRACIA
Considero importante tornar pública essa atuação porque democracia também exige transparência.
Apoiei um candidato, tenho uma trajetória de filiação partidária há mais de 20 anos, atualmente sou filiado ao PDT desde 2024, e assumi publicamente uma posição jurídica sobre o caso. Atuei em nome próprio, e minhas manifestações no TSE e no STF estão publicamente documentadas nos respectivos processos.
Não pretendo atribuir a mim qualquer protagonismo que não possuo, nem afirmar que minhas manifestações determinarão o entendimento dos tribunais. Procurei apenas exercer, como advogado e cidadão, aquilo que considero parte da responsabilidade democrática: levantar uma questão constitucional relevante, fundamentá-la e submetê-la aos órgãos competentes.
Agora cabe ao Supremo Tribunal Federal decidir.
E, qualquer que seja o resultado, espero que a decisão enfrente claramente a pergunta que considero fundamental para esta eleição e para outras que poderão ocorrer no futuro: a maioria absoluta exigida pela Constituição deve existir na primeira votação ou pode ser formada posteriormente pela exclusão superveniente de votos que nela foram efetivamente depositados?
Essa resposta ultrapassará Paes, Douglas Ruas e Garotinho. Ela ajudará a definir uma regra constitucional para situações semelhantes nas futuras eleições majoritárias brasileiras.




