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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O julgamento do pastor Estêvão

Era um domingo muito tenso na reunião da Igreja. Ao invés de estarem todos se confraternizando e louvando a Deus, os membros da congregação compareceram ali para acompanhar passivamente o conselho eclesiástico decidir pela expulsão do pastor Estêvão.

O pastor Estêvão era um homem muito popular e querido pelos evangélicos, católicos e até por pessoas da cidade que não seguiam a nenhuma religião. Promovia diversas atividades sociais, bem como organizava protestos contra os políticos corruptos, o que incomodava bastante os interesses dos poderosos e dos líderes eclesiásticos locais. Contudo, nada podia ser dito contra a sua reta conduta. Ele apenas era visto com desconfiança por sua posição teológica liberal pelos que tinham mais apego doutrinário à ortodoxia. Só que, desta vez, o ousado pastor tinha deixado perplexos os crentes conservadores daquele lugar. Na semana anterior à reunião, Estêvão fora denunciado ao bispo presidente do conselho por ter celebrado uma união homo-afetiva entre duas lésbicas.

Para que o estatuto da igreja fosse cumprido, uma assembleia geral precisou ser convocada e o pastor Estêvão teria que ser ouvido. E foi o que prontamente fizeram os principais conselheiros porque aquela era a grande chance que tinham para afastar da liderança o irmão herege e perturbador do sistema econômico e social.

Levantando-se no meio de todos, após ter cumprimentado os irmãos com a "paz do Senhor" e explicado porque estavam todos reunidos ali, o bispo Ananias passou a inquirir o réu:

- “É verdade isto que andam falando a seu respeito? Tem quinze minutos para se defender”

A esta pergunta respondeu o pastor Estêvão, deixando sua cadeira e tomando o microfone:

- “Meus queridos irmãos e irmãs. Por favor, sejam capazes de me ouvir. Como ensino aos meus alunos do seminário, o glorioso Deus inspirou os autores da Bíblia afim de orientarem o povo de Israel na sua caminhada histórica. Porém, todos eles foram homens de carne e osso, iguais a mim e a vocês, cujos corações sentiram-se motivados para escrever coisas que, conforme seus valores, consideravam serem as corretas. E deste modo, de acordo com a necessidade do povo, ensinaram preceitos direcionados à realidade social da época, fazendo tudo com sensibilidade, mas sempre dentro de seus valores culturais e pessoais. Ao terem testemunhado diante da nação israelita, seus discursos foram atualizados em conformidade com o novo contexto histórico da época dos escribas redatores dos textos bíblicos nas gerações seguintes. E foi desta maneira que surgiram os escritos das partes da Bíblia que a cristandade chama de Antigo Testamento e o mesmo se aplica ao Novo Testamento.”

Até aí muitos ouviam aquelas palavras com alguma admiração. Outros, porém mais versados na doutrina religiosa, levantavam desconfiança em seus corações. Só que a grande maioria mal conseguia acompanhar o que estava sendo discursado. Mas assim mesmo o pastor Estêvão prosseguiu:

- “Um dia, veio ao mundo um homem chamado Jesus da descendência do rei Davi e do patriarca Abraão, como muitos outros judeus na sua época. Ele começou sua atividade ministerial andando entre os pobres e pregava sobre o Reino de Deus e a prática do amor. Em volta dele, juntaram-se pessoas de todos os tipos: ladrões, prostitutas, coletores de impostos, leprosos e toda a ralé do Galil. E creio que até muitos homossexuais deveriam segui-lo também, apesar deste detalhe não ter ficado registrado nos evangelhos oficiais e nem nos apócrifos. Porém, o que importava era que Jesus não condenava a ninguém pelo seu modo de ser ou falhas de caráter. Ele aceitava o outro incondicionalmente! Certa vez absolveu uma mulher adúltera que iria ser apedrejada dizendo aos seus acusadores que atirasse a primeira pedra quem nunca pecou. Em outro episódio, quando seus discípulos foram acusados por alguns religiosos de profanarem o sábado, Jesus lembrou aqueles fariseus provincianos do que Davi fizera na vez em que seu bando precisava urgentemente de comida, pelo que fora ao sacerdote Abiatar pedir que fossem dados os pães exclusivos do santuário para a satisfação de uma necessidade vital. E isto Jesus disse-lhes para mostrar que o direito à vida está acima de qualquer lei porque antes de tudo é preciso cuidar da sobrevivência e do bem estar do seu próximo.”

Neste momento, em que membros do conselho eclesiástico estavam prontos para contra-argumentarem e pedirem uma parte na palavra, o pastor Estêvão, ao perceber que novamente iria encarar uma discussão teológica inútil, resolveu propositalmente radicalizar o seu discurso:

- “Agora ouçam, ó homens egolátricos, insensíveis para ouvir e meditar nas coisas espirituais, vocês sempre resistem ao vento evolutivo da história. Assim como aqueles fariseus medíocres e invejosos do interior da Galileia teriam perseguido a Jesus, vocês fazem a mesma coisa. Pois como vou negar a um homossexual nascido nesta condição o direito de ter um relacionamento afetivo com alguém com quem possa se relacionar intimamente? Que poder tem uma meia dúzia de versículos de uma Bíblia escrita por homens para impedir duas pessoas do mesmo sexo de serem felizes da única maneira que elas conseguem ser? Mas se os evangelhos contam que os religiosos da época de Jesus teriam tramado suas ciladas contra ele, vocês que se consideram detentores das tradições cristãs e pensam serem donos de Deus estão praticando o mesmo pecado. Vocês cujos ancestrais espirituais receberam as boas novas pelo testemunho apostólico e não guardaram a sua essência!”

Quando ouviram isto, os conselheiros da igreja ficaram furiosos, taparam os ouvidos e começaram a ranger os dentes contra o pastor Estêvão, clamando:

- “Herege! Herege!”

Já outros chamavam-no de “ateu”, “pecador”, “pederasta” e até de “pedófilo”. Porém, mesmo em meio aos gritos furiosos e irracionais das pessoas presentes, eis que, naquele momento, o pastor Estêvão ainda conseguiu dizer suas últimas palavras usando o microfone da igreja:

- “Quando olho para o céu, sinto como se Jesus, sentado do lado do Pai, estivesse de pé encorajando-me a continuar levando estas boas-novas da inclusão e ministrando a Santa Ceia aos nossos irmãos gays e lésbicas.”

Com a aprovação do bispo, um jovem chamado Saulo, estudante do seminário teológico e que tinha um blogue sobre apologética cristã na internet, resolveu intervir, desligando primeiramente o microfone que estava nas mãos do pastor Estêvão.

Virgem, reprimido sexualmente, sem nunca ter namorado e se considerando zeloso das tradições dos evangélicos, o rapaz fazia de tudo para agradar o bispo que também era o reitor da faculdade. Ambicionava algum dia ocupar o lugar de Estêvão de depois de Ananias, após se formar.

Sem nenhum respeito pelo pastor e professor, Saulo chegou por detrás do seu mestre, agarrou-o com violência e o colocou à força pra fora do templo:

- “Seu blasfemo e enganador! Fora da casa de Deus! É por causa de falsos irmãos como você que o nome de Cristo é ridicularizado entre os ímpios. Saia daqui!”

Seguindo Saulo, muios conselheiros ali presentes continuaram clamando contra o pastor Estêvão. Uns tentaram até exorcisá-lo. E, quando chegaram na porta da igreja, ele foi empurrado escada abaixo. Porém, ainda disse:

- "Senhor, perdoa-os porque esses homens não compreendem o que estão fazendo."

Ainda naquele dia, Saulo liderou uma manifestação de evangélicos e católicos fundamentalistas pelas ruas da cidade afim de protestarem contra o homossexualismo e o casamento gay. E, no meio dos religiosos, estavam também uns neonazistas e muitos machistas homofóbicos infiltrados.

Quanto ao pastor Estêvão ele foi tratado como se estivesse morto pela comunidade eclesiástica local. Os evangélicos moradores da cidade passaram a não mais convidá-lo para entrar nas suas casas. Nenhum outro pastor permitiu mais que Estêvão pregasse em púlpito e houve até gente que deixou de cumprimentá-lo na rua virando a cara, além de que a faculdade teológica dispensou-o de suas funções. Contudo, alguns homens e mulheres verdadeiramente piedosos aproximaram-se de sua pessoa e juntos lamentaram por causa da ignorância do povo.


OBS: A ilustração acima refere-se à obra Apedrejamento de Santo Estevão, obtida por intermédio da Wikipédia.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Lembranças de um delicioso sábado em janeiro

Durante o mês de janeiro, mesmo após o fim do recesso forense (única época de descanso para os advogados), houve ocasiões em que aproveitei intensamente o melhor do meu descanso semanal - o sábado. Um desses dias foi justamente no final de uma semana atribulada com fortes aborrecimentos, irritação e notícias ruins, mas que não me impediram de curtir uma manhã e uma tarde maravilhosas.


CHATOS ANTECEDENTES

Eu havia retornado das curtas férias no município de Mangaratiba (mais precisamente Muriqui), na segunda-feira daquela semana (09/01/2012), e não fora possível embarcar com a minha gata de estimação Sofia na viagem de volta para casa.

No dia 10/01 (terça-feira), estressei-me ao levar minha avó materna para fazer exames no Hospital Pedro Ernesto da UERJ porque encontrei dificuldades para conduzi-la no andador do táxi até a entrada do hospital. Mesmo os funcionários tendo nos liberado da quilométrica fila de pacientes que também aguardavam para serem atendidos no laboratório da instituição. Lamentavelmente ninguém veio buscá-la numa cadeira de rodas, deixando-nos numa situação bem difícil.

Em 11/01 (quarta-feira), gastei quase R$ 5.500,00 descapitalizando-me e pagando enormes dívidas, sendo que hoje eu e Núbia estamos com uma renda familiar limitada a menos de R$ 2.400,00. Também naquele dia processei a empresa de ônibus Costa Verde para poder trazer de volta a Sofia de volta pra casa porque Núbia estava sofrendo bastante sem a companhia do nosso animal de estimação.

Na data de 12/01 (quinta-feira), acordei cedo para levar minha esposa a um laboratório em Vila Isabel para coletar sangue. Depois, fiquei muito contrariado com o atendimento da CEDAE e da AMPLA no telefone, sendo que ainda perdi muito tempo falando com a Oi/Telemar paa resolver problemas.

Finalmente, tive em 13/01 (sexta-feira) o meu pior dia. Não que eu seja supersticioso, pois já vivenciei outras sextas-feiras 13 de muita sorte. Só que esta foi de arrasar.

Quando eu estava indo resolver coisas em Niterói, afim de solucionar um problema referente à conta da luz da casa de Muriqui junto à AMPLA e pretendia pegar o formal de partilha do inventário de meu sogro na 8ª Vara Cível daquela Comarca (seu Francisco falecera em 2002), fui surpreendido com duas más notícias: (i) a perda de uma grande causa no STJ; (ii) o indeferimento da medida de antecipação da tutela no processo contra a Costa Verde para trazer a nossa gata antes da sentença.

O fato da Justiça não ter reconhecido a tutela antecipada no caso da gatinha só veio a aumentar a tristeza de minha mulher naqueles dias. O entendimento da magistrada que apreciou meu pedido foi que:

“(...) não se tratando de hipótese em que está em jogo direito à vida ou à saúde, deve-se respeitar o contraditório, erigido a princípio constitucional, no capítulo dos direitos e garantias fundamentais, sendo necessário aguardar a oportunidade conferida à parte ré de apresentar defesa”.

Com isto, a decisão determinou que aguardássemos a sessão conciliatória designada para o dia 26/04/2012 (justo no aniversário de Núbia), a qual está marcada para às 12:45 no IX Juizado Especial Cível do Rio de Janeiro, bairro Maracanã.

Conforme eu muito bem aprendi com um advogado e ex-vereador de Nova Friburgo pelo PSB, de decisão judicial ou nós cumprimos ou recorremos. Logo, por mais insatisfeito que eu tenha ficado, prefiro limitar meus comentários ao posicionamento da juíza apenas noticiando aqui o que ocorreu no processo. E, em falar nos recursos, confesso que como profissional tenho o hábito de não me conformar facilmente com as sentenças acórdãos desfavoráveis nos meus processos.

Foi justamente devido ao meu inconformismo que, anos atrás, havia conseguido uma surpreendente multa diária de R$ 10.000,00 em sede de segunda instância numa ação movida em face do DER, Estado do Rio de Janeiro, três empreiteiras poderosas e mais um consórcio formado pelas mesmas para a execução das obras de alargamento e pavimentação da rodovia RJ-142 em 2006. Com o acórdão favorável da 12ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça daqui, eu já estava calculando uma dívida de milhões para o meu cliente receber por causa do descumprimento da decisão praticado pelos réus, fazendo os cálculos de quanto talvez receberia de honorários num percentual de 20%.

Aconteceu, entreanto, que uma das empresas havia recorrido ao quase inacessível Superior Tribunal de Justiça, mesmo contrariando outros posicionamentos de magistrados do próprio STJ sobre o assunto. Então, vim a amargar uma das piores derrotas de minha carreira capaz de fazer esquecer a brilhante vitória que tivera em 2005 contra o cantor Zezé di Camargo meses depois de ter começado a exercer a advocacia.

Lamentavelmente, o meu recurso fora distribuído perante o sistema do STJ pelo número da inscrição da OAB de meu colega sem que eu soubesse deste fato. Aí o ministro anulou monocraticamente o acórdão do Tribunal Estadual que havia beneficiado meu cliente e, quando a decisão publicou no Diário Oficial, eu nada fiquei sabendo pelo outro advogado para poder interpor o recurso de agravo regimental afim de que o órgão colegiado julgador reapreciasse as posições do magistrado. Assim, eu só vim a ficar sabendo do que ocorrera em 13/01, quando publicou uma despacho do desembargador daqui do Rio mandando cumprir o que fora determinado pelo julgador de Brasília.

Bem, uma falta grave dessas poderia custar-me o pouco que tenho de patrimônio numa ação indenizatória movida pelo meu cliente contra mim se o outro advogado que me auxiliou na causa não fosse o próprio filho dele. Todavia, com aquele resultado, o meu sonho de adolescente em me tornar um homem de sete dígitos (um milionário) antes do 40 foi por água abaixo. Um desejo que, por anos, idolatrei decadentemente, mas que, neste últimos anos, já não ocupava mais tanto espaço no meu coração.

Os contatos com este colega de profissão naquela sexta-feira 13 não foram totalmente agradáveis. Ao acompanhar o processo no Tribuna de Justiça do Rio, logo após ter resolvido todas as minhas tarefas com sucesso em Niterói, verifiquei que nada poderia ser feito referente à anulação decidida pelo STJ. Aí preferi encerrar qualquer discussão acerca do mau acontecimento e tratar de esfriar a minha cabeça descansando no sábado.


O SÁBADO

A palavra sábado vem do hebraico Shabat, o que significa “cessar”. Biblicamente, o novo dia iniciava-se com o por do sol e não pela manhã. Por este motivo, judeus e cristãos adventistas começam a celebrar a guarda o santificado repouso semanal já no fim da tarde de sexta-feira e não a partir da meia noite.

Atentando-me para a significação bíblica do Shabat, eis que resolvi preparar-me para o repouso semanal na própria tarde do dia 13/01/2012, uma sexta-feira. Fiz os últimos contatos pelo Facebook da casa de minha mãe (eu ainda estava sem internet) e vim descansar ao lado da esposa como bem orienta um livro cabalista – o Zohar. E assim passei aquela noite tentando evitar que a multidão dos pensamentos perturbassem minha paz.

Enquanto a maioria das pessoas neste país e ao redor do mundo nem conseguem uma moradia digna para habitar, como poderia eu sentir-me frustrado por não ter conseguido me tornar um milionário antes dos quarenta?!

Meses atrás do recebimento da má notícia, eu já havia decidido estudar pra ser um servidor do Tribunal de Justiça afim de alcançar uma renda que fosse tão somente satisfatória para minhas necessidades e continuar curtindo com simplicidade a vida que o Criador tem me ensinado a experimentar. Porém, com o recebimento da notícia, deixei-me abalar com a perda de um dinheiro incerto. Algo que meu cliente e eu poderíamos receber ou não porque, infelizmente, em casos deste tipo, o Judiciário vem reduzindo os valores em sede de execução das multas diárias contra inúmeras empresas com o argumento de impedir o “enriquecimento sem causa”.

Para não permanecer desenvolvendo angústias e frustrações na mente, o melhor a se fazer é praticar atividades libertadoras. Assim, uns vão aos sábados para suas sinagogas ou igrejas. Outros, que não seguem religião ou que se congregam em outro dia com seus irmãos de fé, podem muito bem fazer passeios, caminhadas, estar com a família, ouvir música, praticar um esporte diferente da rotina habitual ou mesmo envolver-se com alguma devoção alternativa a Deus. Eu mesmo optei por praticar o Shabat a partir de 2010 porque não conseguia descansar no primeiro dia da semana por frequentar igreja aos domingos. Ainda mais se fosse a dois cultos no mesmo dia.

Naquele dia, tanto pra mim que sofria com a vergonha da falha profissional (e com a perda da chance de ficar “rico”), quanto pra minha esposa Núbia que sentia saudades de Sofia, fizemos bem em levar minha avó materna para passear na praça do bairro ao invés de ficarmos em casa nos lamentando. Fomos pouco depois das nove na casa dela. Núbia arrumou-a e saímos pela rua conduzindo vovó na cadeira de rodas.

Transportar um idoso cadeirante pelo Rio de Janeiro não é nada fácil! Principalmente quando a grande maioria das ruas da Zona Norte não estão adaptadas para pessoas portadoras de necessidades especiais ou idosos em situação debilitada. As calçadas daqui do bairro Grajaú encontram-se esburacadas e os motoristas ainda estacionam seus carros em locais indevidos. Felizmente, às vezes, pode-se contar com a gentileza de pessoas que se sensibilizam visto que alguns condutores até param esperando-nos concluir a travessia e ainda há outros que chegam a prestar algum auxílio como fez um ciclista no posto de gasolina ajudando a encher os pneus murchos da cadeira de rodas.

Depois da passagem pelo posto, fomos à praça Edmundo Rego, bem aqui no Centro do Grajaú. É onde fica a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, uma das opções de visita turística na Zona Norte da Cidade Maravilhosa, embora não tão representativa quanto à famosa Igreja da Penha. Só que é justamente passando um final de semana aqui que um visitante pode observar o curtir o lazer da família carioca numa praça bem propícia para a convivência humana capaz de superar muitos outros bairros da Zona Sul.

Além da tradicional paróquia, a praça dispõe de brinquedos para divertir o público infantil e da terceira idade com uma academia de ginástica ao ar livre para os velhinhos se exercitarem. É patrulhada continuamente por uma cabine de Polícia Militar e conta com um razoável comércio: duas agências do mesmo banco ITAÚ, uma padaria que funciona também como restaurante e lanchonete, um restaurante, duas farmácias, dois supermercados, duas lanchonetes, um boteco e uma casa lotérica. Aos finais de semana e, principalmente, aos domingos, moradores armam ali suas barracas de artesanato, sendo possível encontrar uns doces caseiros também. E praticamente todos os dias o logradouro é frequentado por aposentados jogadores de dama e xadrez, mães com seus bebês, muitos idosos e gente passeando com cachorro. Se o calor aperta, existem bancos debaixo da aprazível sombra de umas árvores trepadeiras em dois cantos da praça.

Eu, Núbia e vovó Marisa descansamos do sol forte de janeiro numa dessas sombras agradáveis. Ela na cadeira de rodas e nós sentados num banquinho de madeira. Ali conversamos por algum tempo e procurei hidratar-me bebendo um tereré com água mineral, saudável vício que passei a cultivar depois de ter visitado o Pantanal em 1999. Mas a vovó ficou apenas tomando água na temperatura ambiente em seu copo de plástico enquanto Núbia envenenava-se com um Coca-Cola. E nisto uma senhora com sua cachorrinha veio sentar-se no banco em frente e pôs-se a conversar conosco.

Sem que eu esperasse, os sinos da igreja acusaram meio dia, embora fosse horário de verão. Permanecemos por mais um pouquinho ali e depois fomos amenizar a fome comendo algo no Girão Lanches. Vovó já estava apertada para ir ao banheiro e Núbia precisou ajudá-la nesta hora.

Posteriormente pensei. Para uma pessoa idosa e com a sua saúde debilitada, de que adiantariam ganhar milhões de reais ou de dólares? Pois, se o dinheiro é apenas um meio pelo qual tentamos satisfazer algumas das nossas necessidades, pouca coisa acrescentaria na vida de alguém como no caso de minha avó, exceto se for para lhe proporcionar um tratamento de saúde com mais dignidade. Pois, ainda que ela pudesse consultar-se com os melhores médicos e se livrar do precário atendimento no Hospital Pedro Ernesto, o amor da pessoas é algo que jamais pode ser comprado com dinheiro e às vezes nem mesmo a saúde. Logo, qualquer acúmulo de bens materiais nos últimos anos de vida de uma pessoa seria a mais pura ilusão tal como é o apego a qualquer coisa deste mundo nas demais faixas etárias. E assim como morreu o José de Alencar no Hospital Sírio-Libanês, o pobre com câncer despede-se desta vida num leito do INCA ou numa outra unidade pública de saúde qualquer. Ou ainda em sua própria casa fazendo chá de ervas com orações sem nem ao menos ter a sua doença devidamente diagnosticada pelos médicos.

Após o lanche, voltamos pra casa de minha avó que fica numa antiga vila da Rua Engenheiro Richard, a principal via do bairro e cheia de tamarineiras que homenageia o nome do maranhense construtor do bairro (ver foto ao lado). Segundo a história do Grajaú, os seus idealizadores, na primeira metade do século XX, foram engenheiros de Minas Gerais e da Região Nordeste. Daí, muitas ruas levaram o nome de cidades mineiras ou nordestinas. E o próprio nome da localidade é uma homenagem ao município maranhense de Grajaú.

O começo de tarde daquele sábado fez-me lembrar os velhos tempos de infância em que tomei um refrescante banho de mangueira. Eram cerca de duas horas da tarde quando resolvi fazer isto na vila. O calor estava escaldante e a água até chegou a sair um pouco morna da bica, de modo que, naquele momento, apenas faltava uma piscina Tone, coisa considerada como o cúmulo da breguice suburbana pelos cariocas mais elitistas.

Terminado o almoço, Núbia já não se aguentava de sono e retornou pra casa afim de dormir. Eu, porém, sentia-me cheio de disposição e estava turbinado com as anfetaminas da erva mate quando havia tomado tereré na praça. Deixei minha esposa no apartamento e fui pro Parque Estadual do Grajaú caminhar.

O Parque Estadual do Grajaú, com seus 55 hectares de área, é uma das maiores atrações paisagísticas do bairro, apesar de desconhecido pela maioria dos cariocas e moradores do Rio. Foi criado no final dos anos 70 com a denominação de Reserva Florestal do Grajaú por meio do Decreto Estadual nº 1.921, de 22 de junho de 1978, atendendo a uma reivindicação dos moradores do bairro e da Sociedade dos Amigos da Reserva do Grajaú, vindo a se tornar desde então um ambiente de lazer da comunidade. No começo do século, a unidade foi transformada em parque para melhor adequá-la ao artigo 55 lei do SNUC, através do Decreto Estadual nº 32.017, de 15 de outubro de 2002. E, tempos depois, a sua administração foi transferida à Prefeitura do Rio de Janeiro (2007) juntamente com o Parque da Chacrinha em Copacabana.

Quando criança, frequentei a antiga reserva com minha família. Papai, mamãe, vizinhos e professores do jardim de infância levaram-me lá por diversas vezes, o que criou em minha mente uma forte identificação com o verde desde cedo. Eu olhava para o Bico do Papagaio, uma pedra com mais de 400 metros de altitude, e desejava um dia subir até lá em cima.

Por volta dos 12 ou 13 anos, já um pré-adolescente com fortes sinais da puberdade pelo corpo mas com quase nenhum pingo de juízo na cabeça, decidi ir sozinho até o Bico do Papagaio. E ainda repeti a experiência uma outra ocasião naquela época, sem ter sofrido nenhum machucado grave, mas tive o privilégio de me maravilhar com a vista da Baía de Guanabara com a Ponte Rio-Niterói ligando as duas cidades.

Desta vez, porém, contentei-me em subir só até à base da grande pedra do Grajaú. Dali mesmo, numa altura menor do que o topo, com segui reconhecer muito mais coisas do que no começo de minha transição para a idade adulta. Além da Ponte e das águas salgadas da Guanabara, olhei para o fundo da baía e identifiquei com facilidade a Serra dos Órgãos com o Dedo de Deus e a Pedra do Sino, ambos entre os municípios de Guapimirim e Teresópolis. E, bem ao longe, estavam as serras que dividem Cachoeiras de Macacu com Nova Friburgo, cidade na qual morava até recentemente em dezembro de 2011.

O Parque do Grajaú é, sem dúvida, uma península das matas da Tijuca cercada por um mar de CO² por todos os lados. Lá de cima, pode-se contemplar a parte plana do vale do rio Maracanã e de alguns de seus afluentes, passando por antigas florestas e manguezais da época do descobrimento que deram lugar a uma selva de pedra com seus edifícios e ruas asfaltadas. Todavia, se o excursionista tiver uma dose boa de imaginação, ele conseguirá despir a cidade de sua sufocante indumentária de concreto e, no lugar dos prédios e, deste modo, visualizar naquele cenário uma natureza ainda conservada com tribos de índios morando na planície e a onça pintada passeando pelos arredores. Assim, em lugar da poluição que tano afeta a baía de Guanabara devido ao despejo do esgoto e aos constantes vazamentos de óleo, imaginaríamos peixes, golfinhos e até baleias em suas águas mansas. Um ambiente que lembraria não apenas o passado como pode nos ajudar na projeção de um futuro com sustentabilidade.

Do alto do Parque do Grajaú também é possível idealizar um Rio de Janeiro melhor, sem violência, livre das injustiças sociais e da corrupção de seus governantes. Podemos pensar num Rio com uma população mais harmonizada com a vida em que cada qual consiga reconhecer no outro um igual, sem cultivar dentro de si o medo da aproximação, mas transformando o temor em amor.

E por que não desejarmos uma cidade melhor?

Mas voltando a falar das escaladas aos morros, fico pensando que, com mais conhecimento aprendido sobre a vida, não sentimos mais a necessidade de subirmos tanto. Por volta dos 12 anos, do todo daquela pedra, eu jamais conseguiria decifrar as imagens daquele cenário da mesma maneira que fiz desta última caminhada no parque ou quando levei minha esposa ao Corcovado este mês. Um adolescente criado em cidade nem sempre consegue perceber que toda aquela edificação de casas, lojas, clubes, shoppings e igrejas foi construída sobre uma natureza viva. Porém, as experiências que tive com minhas caminhadas ecológicas durante anos por Nova Friburgo e região ajudaram-me bastante nesta interpretação do ambiente.

Inegavelmente que qualquer quantia se tornaria dispensável para viver tal momento, exceto o suficiente para as minhas necessidades nutricionais básicas. Tivesse com o bolso vazio ou com uma conta bancária com sete dígitos daria tudo no mesmo já que nada pagamos para respirar e existir. Estar num lugar como aquele basta poder andar, ter olhos e viver, sendo que, até mesmo para quem não consegue caminhar com autonomia, a exemplo de minha avó, as asas do pensamento já seriam suficientes quando a Divina Presença nos satisfaz por completo.

Deixei o Parque do Grajaú e ainda caminhei mais um pouco pelo bairro, parando para beber uma água mineral na Praça Nobel. Mais tarde, tomei um mate em uma padaria em outra rua onde puxei papo com duas jovens que trabalham naquele estabelecimento. Uma delas veio contar-me sobre o seu sonho de futuramente estudar e se advogada.

Achei por bem não encorajá-la, pelo que lhe mostrei um pouco da realidade forense sem contaminá-la com as minhas frustrações do momento. Mas é claro que não dava para evitar que os sentimentos ruins decorrentes da última decepção jurídica de minha vida saíssem pelas minhas palavras. Afinal somos humanos e nos ressentimos com facilidade das coisas com as quais nos apegamos. E, por mais que tentemos, ainda assim é difícil evitar o apego.

Outra coisa interessante que pude refletir naquele sábado foi que, se a advocacia forense tornou-se para mim um estorvo e um mar de preocupações e de decepções, o mesmo não poderia afirmar acerca da realidade daquela jovem de condição humilde.

Trabalhando aos sábados e, às vezes, até nos domingos, certamente seria uma considerável oportunidade para aquela menina poder defender os seus clientes na (in)Justiça brasileira. Mesmo sendo em causas mais simples como as ações de Vara de Família, em Vara de Trabalho, no crime ou de Juizado Especial Cível, coisas que não costumo pegar. Pois a angustiante vida n a advocacia contenciosa ainda é bem mais preferível do que depender de um trabalho massacrante dentro de uma padaria que em muito faz lembrar a escravidão. E sem esquecer também da valorização que a nossa sociedade medíocre ainda atribui às pessoas com curso superior, dando aos advogados, médicos e engenheiros um status de “doutor” mesmos sem a diplomação no doutorado.

Quantos pobres neste país não sonham em um dia conseguir qualquer diploma de graduação universitária para desfrutarem de uma vida melhor? Pois enquanto os metidos a rico da classe média ficam fazendo vestibular pensando em ser médicos, juízes, auditores ficais, executivos de multinacionais ou grandes empresários, qual é a expectativa comum da pessoa mais pobre? Penso que, mesmo se alguém humilde sonha com tais profissões, muitas delas primeiro preferem tentar subir o “degrau” de enfermeiro, assistente social, professor, ou técnico em alguma área, o que é mais comum. E, dentro do Direito, ser apenas um advogado já proporciona algum respeito dentro da sociedade onde vivemos.

Chegando em casa ainda com dia claro, encontrei Núbia acordada e telefonando no sofá da sala. Tomei aquele banho refrescante no chuveiro e celebramos o final do Shabat ouvindo um CD da Sarah Brightman. Minhas forças já se encontravam renovadas para mais uma semana de lutas que, biblicamente falando, só estava começando com o anoitecer.


OBS: Todas as imagens acima, exceto o símbolo do Parque Estadual do Grajaú, foram extraídas da Wikipédia. A primeira refere-se ao Bico do Papagaio que é a maior elevação geográfica do bairro Grajaú e uma das maiores atrações do parque, sendo parte integrante do acervo de conteúdo livre da Wikimedia Foundation que pode ser utilizado por outros projetos. A segunda foto, também encontrada no acervo virtual da Wiki, tem a indicação apenas do nome do seu autor (Junius), o qual teria dedicado-a ao domínio público de obras. Quanto á terceira imagem, também de domínio público, parece ser oriunda de um outro acervo de coisas antigas acessado pela Wikipédia e que foi caracterizado como Photographias Ouvidor. A quarta imagem trata-se do símbolo do Parque Estadual do Grajaú e eu a encontrei no site do INEA, entidade da Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro. A quinta foto é uma vista parcial das matas do Grajaú e está sendo divulgada nas mesmas condições que a primeira imagem. E, finalmente, a sexta foto refere-se à Praça Nobel também situada no bairro, mais próxima da comunidade de Nova Divineia com autoria atribuída ao Junius pela Wikipédia.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Serão a ortodoxia e a doutrina religiosa necessárias?

“Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo. Acautelai-vos, para não perderdes aquilo que temos realizado com esforço, mas para receberdes completo galardão. Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho. Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más.” (2João 7-11; ARA)

Este trecho da segunda epístola atribuída pela tradição católica ao apóstolo João expressa muito bem o cenário da Igreja no século II, quando se destacaram os apologetas do cristianismo. Dentre eles, podemos lembrar do ortodoxo bispo Irineu de Lyon, discípulo de Policarpo de Esmirna.

Segundo alguns estudiosos do Novo Testamento, tanto a primeira epístola de João quanto a segunda teriam sido textos resultantes de reações de algumas lideranças da Igreja aos grupos que o catolicismo, tempos depois, veio chamar de “gnósticos”. E, atualmente, muitos críticos do cristianismo oficial consideram que jamais existiu a seita do gnosticismo, mas sim comunidades e pastores que não se adequavam ao modo de pensar imposto por uma facção eclesiástica dominadora.

Por razões de objetividade para manter o foco da mensagem, não vou aprofundar-me nas questões históricas. Quem desejar conhecer mais acerca deste apaixonante assunto, recomendo o livro Além de toda a crença da historiadora Elaine Pagels, publicado no Brasil pela editora Objetiva, a qual empreendeu um sério estudo sobre os evangelhos e textos considerados como “apócrifos”.

Eu, apesar de concordar com a autora sobre os abusos praticados pelos cristãos ortodoxos em relação aos seus “hereges”, durante os últimos 1900 anos de história da Igreja, tenho percebido a importância do conhecimento da verdade real baseada numa busca autêntica e reta do pesquisador. Pois, saindo do meu mundinho idealizado de teologias liberais, chego à conclusão de que o aspecto esotérico das religiões não se encontra acessível a todos em termos de compreensão espiritual já que existem diversos níveis de consciência na humanidade, se é que podemos assim dizer. E, na prática, sem receberem um ensino firme, as pessoas tornam-se presas fáceis de lobos enganadores, os quais aproveitam-se da ingenuidade alheia.

No final do ano passado (2011), visitei uma senhora católica, a qual, como grande parte dos brasileiros seguidores da religião dominante, sempre teve o outro pé no espiritismo formando assim a sua crença popular. Para ela, ir num domingo à missa, depois participar de uma sessão mediúnica num centro kardecista e, quando passa por problemas, ainda fazer um “trabalho” para entidades cultuadas na Umbanda, são atividades que se relacionam com o frágil conjunto de crenças da maioria das pessoas. Tudo muito cultural e servindo como um meio de enfrentar psicologicamente os problemas do cotidiano.

Pois bem. Esta senhora idosa e humilde, que sobrevive com sua filha incapacitada recebendo um benefício assistencial do governo de apenas um salário mínimo, foi capaz de entregar suas economias guardadas na poupança a uma mulher enganadora que bateu em sua porta. Tendo acolhido estranhos em sua residência, ambas (mãe e filha) foram facilmente ludibriadas por uma espertalhona, a qual se apresentou com aquele velho papo de que “fizeram uma bruxaria para destruir a vida de sua filha”. E, prometendo desfazer o suposto mal armado por terceiros invejosos, a safada conseguiu arrancar das duas mais de mil reais, dinheiro que elas precisavam para comer, fazer reparos na casa, tratar dos dentes, comprar remédios, etc.

Se coisas deste tipo acontecessem só com os católicos, seria até fácil discursar contra os padres atuais por estes não proporcionarem uma base bíblica sólida para o rebanho de devotos sob os cuidados do patriarcado romano. Porém, é verdade que problemas análogos também ocorrem de uma outra maneira com os ditos “evangélicos”. E, lamentavelmente, apesar de muitos crentes lerem um pouquinho mais as Escrituras do que seus irmãos do catolicismo, ainda assim eles continuam vulneráveis aos lobos devoradores já que o conhecimento que as pessoas leigas têm da Bíblia muitas das vezes é superficial.

Os evangélicos, em sua maioria, não vão aos terreiros de Umbanda, nem consultam horóscopos ou muito menos procuram a suposta adivinhação das ciganas que ficam “lendo” as mãos dos outros nas esquinas das ruas. Porém, tenho visto que este grupo de crentes (o segundo maior do país) cai com facilidade nos discursos marqueteiros das seitas neo-pentecostais que proliferam aos montes por aí e também dizem:

“Fizeram um trabalho de macumba para destruir a sua vida. Venha para a corrente de libertação dos setenta pastores! Aqui a sua vida vai mudar com Jesus!”.

Não é difícil encontrarmos tantos evangélicos, vindos até mesmo de denominações tradicionais, contribuindo financeiramente para os programas de seitas neo-pentecostais na TV. Aos domingos pela manhã, eles estão presentes nos cultos de suas congregações que frequentam desde criança. Só que à noite ou durante a semana, eles preenchem parte do tempo ouvindo as mensagens deturpadas desses enganadores midiáticos.

Confesso que muitas das vezes eu me sinto impotente diante da ignorância do povo e, nestas horas, ainda prefiro ver as pessoas seguindo a ortodoxia das igrejas reformadas mais tradicionais do que estarem disponíveis para qualquer vento de doutrina. Pois em igrejas onde o estudo bíblico é incentivado nas escolas dominicais, o aprendizado teórico de algum modo contribui para o crescimento intelectual do crente.

Por outro lado, sei o quanto é difícil transmitir um conteúdo de informação bíblica para o público capaz de satisfazer os anseios de cada um pela via experimental. Depois de alguém receber uma doutrinação rígida em escola bíblica dominical, todo o aprendizado mental pode perder o sentido diante de situações difíceis e o cristão imaturo acaba indo atrás de coisas que prometem soluções imediatas para seus problemas.

Voltando à segunda epístola de João e levando em conta que o seu autor anônimo estava efetivamente combatendo a ação de enganadores e não à pluralidade teológica dentro da Igreja, posso encontrar ali uma ótima direção pastoral para fins de cuidar dos demais irmãos mais frágeis na fé.

Lendo os três versos que antecedem a passagem bíblica acima citada (os versos 4, 5 e 6 de 2João), podemos observar que o “presbítero” autor da carta fala na prática obediente do amor. Ou seja, junto com o alicerce da verdade está uma vida amorosa capaz de tornar o ensino apostólico real, construtivo, acolhedor, motivador e inclusivo em todos os seus aspectos. Seja quanto á aceitação do outro por sua condição moral ou nas questões sociais.

Será que um crente ainda “bebê espiritual” vai trocar facilmente uma congregação comunitária que o ama de verdade pelas teologias enganadoras de prosperidade?

Pois eu digo que, mesmo se tal irmão cair nas ciladas desses pregadores mentirosos, muitas serão as probabilidades de um retorno rápido ao lar espiritual de origem. Até mesmo porque a sua conduta errante será bem compreendida pelos demais membros da Igreja, os quais o amarão sem reservas e sem julgamentos morais pelo tropeço cometido.

De qualquer modo, chego à conclusão de que a ortodoxia é totalmente dispensável bem como recusável por se tratar de algo incompatível com a pluralidade de ideias e com o próprio desenvolvimento da atividade de pensar. No entanto, o incondicional apego à verdade (o conhecimento real das coisas e o esclarecimento), que deve ser inseparável do amor não fingido, precisa estar sempre presente no meio de uma congregação disposta a servir a Deus. Pois, se não houver um amor sincero, todo o conteúdo transmitido pelas lideranças e mestres acaba se tornando algo frio, distante e muito teórico.

“E agora, senhora, peço-te, não como se escrevesse mandamento novo, senão o que tivemos desde o princípio: que nos amemos uns aos outros. E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que andeis nesse amor.” (2João 5-6; ARA)

Que o amor jamais falte nas congregações, grupos de oração e classes bíblicas existentes na nossa nação! Pois a sua prática é a verdadeira “doutrina” do Messias.


OBS: A ilustração acima foi colhida de um acervo de conteúdo livre da Wikimedia Foundation que pode ser utilizado por outros projetos, sendo um material de domínio público. A gravura refere-se ao padre grego Irineu de Lyon, tido pelos católicos como o Santo Irineu.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Campanha "Atitude contra a Aids" do Ministério da Saúde

Dia 02/02/2012, o Ministério da Saúde lançou aqui no Rio de Janeiro a sua campanha de prevenção à AIDS no Carnaval 2012 com o objetivo de estimular o uso de preservativos durante as festas carnavalescas, voltando-se a propaganda para jovens de 15 a 24 anos e com prioridade no público gay.

O órgão pede aos blogueiros que divulguem a campanha através da internet, o que pra mim não custa nada fazer. Só que, geralmente quando exponho material ou texto de terceiros em minhas páginas, costumo publicar junto com meus comentários pessoais. E aí vão as minhas breves considerações.

Até hoje não existe método mais eficiente de proteção contra a AIDS do que o uso de preservativos! Campanhas de abstinência sexual ao público solteiro, conforme promovia o retrógrado governo Bush nos Estados Unidos com o apoio de grupos religiosos radicais dentro de escolas, acaba não surtindo um resultado desejado. Isto porque, na maioria dos casos, as pessoas vão querer transar mesmo, motivo pelo qual seria hipocrisia um governo mascarar uma realidade em que adolescentes andam fazendo sexo cada vez mais cedo.

Igualmente, considero de pouca eficácia o estímulo à masturbação a dois, coisa que, ultimamente, passou a ser divulgado pelas instituições envolvidas com a prevenção à AIDS como um substititutivo da relação sexual penetrativa por ser baixíssimo o risco de transmissão da doença. Porém, no calor do envolvimento, os parceiros podem não se conter e quebrarem os limites por eles estabelecidos, fazendo sexo desprovidos camisinha. Logo, mesmo nas hipóteses em que as pessoas resolvem apenas "ficar" sem chegarem transar, parece-me desaconselhável não levarem consigo preservativos porque elas podem acabar mudando de ideia quando a coisa esquenta. Mas de qualquer modo, se na hora H faltar a camisinha, é preferível se masturbar do que se contaminar (ou contaminar alguém) com o vírus HIV.

Confesso que, devido aos meus valores espirituais, sou contra a prática do sexo sem que haja um compromisso de relacionamento, o que necessariamente não precisa ser um casamento formal. Porém, o comportamento da sociedade obriga-nos a ser realistas e aí a forma mais segura de prevenção é incentivar o público a vestir a camisinha, sem nenhum julgamento moral ou preconceito.

Penso também que a distribuição de preservativos (não só nesta época como em todo o ano) precisa ocorrer em vários pontos nas cidades brasileiras de fácil acesso ao cidadão. Não somente os postos de saúde deveriam fornecê-los, mas também outras unidades governamentais ou instituições privadas que se tornariam conveniadas com o SUS, recebendo do governo pra isto.

Além do público gay, o Ministério da Saúde também está focado ambém nos heterossexuais. Dentre os filmes a serem transmitidos pela TV e internet, são apresentadas situações em que os públicos-alvo da campanha (homens gays jovens e um casal heterossexual) encontram-se prestes a ter relações sexuais sem camisinha. Em ambas as exibições, surgem personagens fantasiosos com uma camisinha: uma fadinha, no caso do filme do casal gay, e um siri, no do casal heterossexual.

Outra novidade da campanha é o clipe do Michel Teló para a campanha de prevenção contra AIDS. Nota 10 pra esta iniciativa de marketing do Ministério da Saúde!



OBS: A primeira ilustração acima foi extraída de uma página oficial do Ministério da Saúde, acessada em http://www.aids.gov.br/campanhas/2012/carnaval/. Já a segunda imagem encontrei-a disponível no Facebook. O vídeo está no Youtube.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Todo paciente deve ter direito a um acompanhante!

O Hospital Espanhol, CNPJ n.º 33.005.638/0001-74, situado na Rua do Riachuelo, n.º 302, Centro, Rio de Janeiro, RJ, telefone (21) 2158-9000, não tem permitido a entrada de acompanhantes dos pacientes atendidos no seu setor de emergência.

Um aviso fixado na porta da médica diz que só é permitida a entrada dos acompanhantes na consulta se o paciente tiver mais de 65 anos. Tal fato foi verificado na presente data quando levei minha esposa até o hospital (Núbia está sofrendo com infecção urinária) e a médica disse que eu não poderia acompanhá-la na consulta.

Acontece que este tipo de procedimento adotado pela instituição é flagrantemente desumano pois todo paciente deve ter direito a um acompanhante, não importando a idade da pessoa ou se ela é portadora de deficiência ou não. E isto precisa ser reconhecido tanto nas consultas, como nas internações, ficando sempre a critério do paciente e nunca do médico dizer se quer ou não a presença de quem lhe acompanhará no atendimento.

De acordo com o item 26 da Portaria do Ministério da Saúde nº 1286, de 26/10/93, tal direito é amplamente reconhecido como se pode ler a seguir:

"O paciente tem direito a acompanhante, se desejar, tanto nas consultas, como nas internações. As visitas de parentes e amigos devem ser disciplinadas em horários compatíveis, desde que não comprometam as atividades médico/sanitárias. Em caso de parto, a parturiente poderá solicitar a presença do pai".

Certamente que o Hospital Espanhol não é o único no país que atua desta maneira. Há instituições que agem com uma falta de humanidade muito pior. Principalmente aquelas que são integrantes do SUS.

Recordo que, em 2010, quando ainda morávamos em Nova Friburgo e minha esposa ficou vários dias internada no Hospital Maternidade pertencente ao município para fazer uma curetagem (na ocasião ela tinha perdido o bebê com oito semanas de gestação), não me deixaram acompanhá-la. Durante o longo tempo em que ela permaneceu ali, eu mal podia estar com ela no curto horário de visita que não chegava a duas horas e ainda tive dificuldades para conseguir falar com alguns médicos da unidade já que alguns muito mal me receberam para dar informações.

Ora, até quando a saúde continuará sendo um serviço tão desumano no nosso país?!

No caso do Hospital Espanhol aqui no Rio, trata-se de uma instituição privada e que é conveniada com planos de saúde como a Unimed da qual minha esposa é cliente. Porém, a questão está bem além disso pois envolve os direitos básicos de qualquer ser humano e se relaciona com a dignidade de qualquer pessoa que, ao passar por problemas de saúde, pode sentir-se fragilizada nessas horas de dor e, portanto, ter a necessidade de que algum amigo, parente ou cônjuge fique ao seu lado.

Desejo que, divulgando informações como esta à sociedade, futuramente as coisas comecem a mudar neste país através do exercício maduro da cidadania pela iniciativa de nós todos. E, sendo assim, compartilho a seguir os direitos dos pacientes reconhecidos pelo Ministério da Saúde, conforme extraí da resolução acima citada:



Portaria do Ministério da Saúde nº1286 de 26/10/93 - art.8º e nº74 de  04/05/94  

1. O paciente tem direito a atendimento humano, atencioso e respeitoso, por parte de todos os profissionais de saúde. Tem direito a um local digno e adequado para seu atendimento.  
2. O paciente tem direito a ser identificado pelo nome e sobrenome. Não deve ser chamado pelo nome da doença ou do agravo à saúde, ou ainda de forma genérica ou quaisquer outras formas impróprias, desrespeitosas ou preconceituosas. 
3. O paciente tem direito a receber do funcionário adequado, presente no local, auxílio imediato e oportuno para a melhoria de seu conforto e bem-estar. 
4. O paciente tem direito a identificar o profissional por crachá preenchido com o nome completo, função e cargo.  
5. O paciente tem direito a consultas marcadas, antecipadamente, de forma que o tempo de espera não ultrapasse a trinta (30) minutos. 
6. O paciente tem direito de exigir que todo o material utilizado seja 
rigorosamente esterilizado, ou descartável e manipulado segundo normas de higiene e prevenção. 
7. O paciente tem direito de receber explicações claras sobre o exame a que vai ser submetido e para qual finalidade irá ser coletado o material para exame de laboratório. 
8. O paciente tem direito a informações claras, simples e compreensivas, adaptadas à sua condição cultural, sobre as ações diagnósticas e terapêuticas, o que pode decorrer delas, a duração do tratamento, a localização, a localização de sua patologia, se existe necessidade de anestesia, qual o instrumental a ser utilizado e quais regiões do corpo serão afetadas pelos procedimentos.  
9. O paciente tem direito a ser esclarecido se o tratamento ou o diagnóstico é experimental ou faz parte de pesquisa, e se os benefícios a serem obtidos são proporcionais aos riscos e se existe probalidade de alteração das condições de dor, sofrimento e desenvolvimento da sua patologia. 
10. O paciente tem direito de consentir ou recusar a ser submetido à 
experimentação ou pesquisas. No caso de impossibilidade de expressar sua vontade, o consentimento deve ser dado por escrito por seus familiares ou responsáveis.  
11. O paciente tem direito a consentir ou recusar procedimentos, 
diagnósticos ou terapêuticas a serem nele realizados. Deve consentir de forma livre, voluntária, esclarecida com adequada informação. 
Quando ocorrerem alterações significantes no estado de saúde 
inicial ou da causa pela qual o consentimento foi dado, este deverá 
ser renovado. 
12. O paciente tem direito de revogar o consentimento anterior, a qualquer instante, por decisão livre, consciente e esclarecida, sem que lhe sejam imputadas sanções morais ou legais. 
13. O paciente tem o direito de ter seu prontuário médico elaborado de forma legível e de consultá-lo a qualquer momento. Este 
prontuário deve conter o conjunto de documentos padronizados do 
histórico do paciente, princípio e evolução da doença, raciocínio clínico, exames, conduta terapêutica e demais relatórios e anotações clínicas.  
14. O paciente tem direito a ter seu diagnóstico e tratamento por escrito, identificado com o nome do profissional de saúde e seu registro no respectivo Conselho Profissional, de forma clara e legível. 
15. O paciente tem direito de receber medicamentos básicos, e também medicamentos e equipamentos de alto custo, que mantenham a vida e a saúde.  
16. O paciente tem o direito de receber os medicamentos acompanhados de bula impressa de forma compreensível e clara e com data de fabricação e prazo de validade. 
17. O paciente tem o direito de receber as receitas com o nome genérico do medicamento (Lei do Genérico) e não em código, datilografadas ou em letras de forma, ou com caligrafia perfeitamente legível, e com assinatura e carimbo contendo o número do registro do respectivo  Conselho Profissional.  
18. O paciente tem direito de conhecer a procedência e verificar antes de receber sangue ou hemoderivados para a transfusão, se o mesmo contém carimbo nas bolsas de sangue atestando as sorologias efetuadas e sua validade.  
19. O paciente tem direito, no caso de estar inconsciente, de ter anotado em seu prontuário, medicação, sangue ou hemoderivados, com dados sobre a origem, tipo e prazo de validade. 
20. O paciente tem direito de saber com segurança e antecipadamente, através de testes ou exames, que não é diabético, portador de algum tipo de anemia, ou alérgico a determinados medicamentos (anestésicos, penicilina, sulfas, soro antitetânico, etc.) 
antes de lhe serem administrados.  
21. O paciente tem direito à sua segurança e integridade física nos 
estabelecimentos de saúde, públicos ou privados. 
22. O paciente tem direito de ter acesso às contas detalhadas referentes às despesas de seu tratamento, exames, medicação, internação e outros procedimentos médicos. 
23. O paciente tem direito de não sofrer discriminação nos serviços de saúde por ser portador de qualquer tipo de patologia, principalmente no caso de ser portador de HIV / AIDS ou doenças infecto- contagiosas.  
24. O paciente tem direito de ser resguardado de seus segredos, através da manutenção do sigilo profissional, desde que não acarrete riscos a terceiros ou à saúde pública. Os segredos do paciente correspondem a tudo aquilo que, mesmo desconhecido pelo próprio cliente, possa o profissional de saúde ter acesso e compreender através das informações obtidas no histórico do paciente, exames laboratoriais e radiológicos.  
25. O paciente tem direito a manter sua privacidade para satisfazer suas necessidades fisiológicas, inclusive alimentação adequada e higiênicas, quer quando atendido no leito, ou no ambiente onde está internado ou aguardando atendimento.  
26. O paciente tem direito a acompanhante, se desejar, tanto nas consultas, como nas internações. As visitas de parentes e amigos devem ser disciplinadas em horários compatíveis, desde que não comprometam as atividades médico/sanitárias. Em caso de parto, a parturiente poderá solicitar a presença do pai.  
27. O paciente tem direito de exigir que a  maternidade, além dos 
profissionais comumente necessários, mantenha a presença de um 
neonatologista, por ocasião do parto. 
28. O paciente tem direito de exigir que a maternidade realize o "teste do pézinho" para detectar a fenilcetonúria nos recém- nascidos. 
29. O paciente tem direito à indenização pecuniária no caso de qualquer complicação em suas condições de saúde motivadas por imprudência, negligência ou imperícia dos profissionais de saúde. 
30. O paciente tem direito à assistência dequada, mesmo em períodos festivos, feriados ou durante greves profissionais. 
31. O paciente tem direito de receber ou recusar assistência moral, 
psicológica, social e religiosa.  
32. O paciente tem direito a uma morte digna e serena, podendo optar ele próprio (desde que lúcido), a família ou responsável, por local ou acompanhamento e ainda se quer ou não o uso de tratamentos dolorosos e extraordinários para prolongar a vida. 
33. O paciente tem direito à dignidade e respeito, mesmo após a morte. Os familiares ou responsáveis devem ser avisados imediatamente após o óbito. 
34. O paciente tem o direito de não ter nenhum órgão retirado de seu corpo sem sua prévia aprovação; 
35. O paciente tem direito a órgão jurídico de direito específico 
da saúde, sem ônus e de fácil acesso.

 
FÓRUM DE PATOLOGIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO - GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO - SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE


OBS: A ilustração acima foi extraída do Blog da Saúde, página de comunicação na internet do Ministério da Saúde.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Estão destruindo a natureza no litoral sul fluminense!

Durante as férias que passei em Mangaratiba (mais precisamente em Muriqui), entre o final de dezembro e o começo de janeiro, pude constatar a supressão da vegetação nativa por causa da insaciável expansão imobiliária.

Desde criança, eu já frequentava Muriqui passando temporadas de verão na casa de minha avó paterna na Rua Primeiro de Maio. Nosso meio de transporte eram os ônibus paradores da viação Eval hoje conhecida como Costa Verde. A viagem durava mais de duas horas e o motorista, depois de deixar Santa Cruz, entrava em Itaguaí, em seguida na vila de Itacuruçá e, finalmente, em Muriqui, quando então desembarcávamos e o coletivo continuava o itinerário até a sede do município.

Lembro que, naqueles anos de minha infância, os morros da Rio-Santos (BR-101) eram todos plantados por extensos bananais. E, na Baixada Fluminense, havia uma maior produção agrícola que dava aos sertões do Rio de Janeiro um cenário ainda rural. E, por sua vez, Muriqui era bem menor em termos de edificações, sendo que a maioria de suas ruas nem estavam pavimentadas (cheguei a pegar a Primeiro de Maio ainda de terra). Isto sem falar nos constantes apagões elétricos que ocorriam na localidade.

Desta vez, pude observar Muriqui por vários ângulos durante as minhas caminhadas feitas pelo município de Mangaratiba. Além da vista panorâmica que se tem ainda na rodovia e logo na entrada da vila do distrito, pude subir até um ponto bem alto situado numa serra, próximo a uma trilha que segue para um lugarejo rural chamado Rubião. Dali, numa altitude superior aos 500 metros, observei o quanto Muriqui expandiu-se. Tanto para os lados, avançando sobre a Serra do Mar e sobre a Mata Atlântica, quanto para cima, através de edifícios com três andares ou mais, provocando a poluição visual. Isto sem contar que até no outro lado da Rio-Santos e na estrada velha que vai pra Itacuruçá já existem construções.

Numa quinta-feira (05/01), caminhei de Muriqui até Coroa Grande, tendo antes entrado em Itacuruçá e passado pela estrada velha. Ali, ainda no início dos anos 90, eu costumava descer de bicicleta, beneficiando-me do baixíssimo tráfego de veículos automotores e da belíssima paisagem do litoral. Porém, desta vez, boa parte do trajeto já estava tomado por casas, ocupando terrenos até íngremes e limitando a vista da baía de Sepetiba.

Chegando a Itacuruçá naquele dia, tive outra surpresa desagradável. Depois de um clube de iatistas, deparei-me com um enorme empreendimento imobiliário restringindo o acesso de pessoas à praia. Uma linda área que deveria ser de manguezais está sendo ocupada por casas e apartamentos de veraneio, unidades habitacionais que passam a maior parte do ano vazias impermeabilizando o solo. E o nome de uma das empresas que está investindo ali é a tradicional construtora João Fortes Engenharia em que um de seus proprietários já foi deputado e ministro...

Terminei aquela caminhada andando pela linha do trem indo de Itacuruçá até Coroa Grande, lugar pertencente ao município de Itaguaí. Percorri um pequeno trecho de manguezal que separam as duas localidades, concluindo que se trata de mais uma área ameaçada pela ganância humana. Inclusive porque novos loteamentos estão surgindo em Coroa Grande, o que parece ter total apoio da Prefeitura de Itaguaí.

Descansando em Coroa Grande, pude ver o estrago que está sendo feito na Ilha da Madeira por causa dos empreendimentos do Sr. Eike Batista para a construção de um grande projeto portuário. Propriedades que antes valiam cerca de R$ 50.000,00 foram compradas por milhões pelo poderoso bilionário. E, com isto, tanto a vegetação quanto a topografia da ilha vêm sendo irreversivelmente destruídas.

Lamentavelmente, nem as autoridades municipais de Mangaratiba e nem as de Itaguaí estão cuidando adequadamente do meio ambiente. Na prática, os prefeitos agem como aliados da especulação imobiliária. Não só porque muitas vezes eles pretendem aumentar a arrecadação do IPTU mas também porque, como bem sabemos, sempre existem pessoas próximas da Administração Pública com grandes interesses econômicos em vista. Isto quando elas mesmas não estão lá dentro da máquina governamental beneficiando-se duplamente com os cargos de confiança.

Durante a caminhada que fiz na região serrana de Mangaratiba, em 04/01, encontrei uns homens a serviço da PETROBRÁS construindo ou fazendo a manutenção do trajeto dos dutos que vão de Angra dos Reis até Duque de Caxias. Ora, tal investimento certamente deve ter mobilizado prefeituras, ONGs e maus políticos que adotam falsamente o discurso ambientalista afim de arrancarem compensações financeiras dos empreendedores.

Nestas horas, é evidente que qualquer prefeito finge estar preocupado com a natureza como se fosse um ecologista. Não que ele queira realmente proteger o meio ambiente, mas sim tirar o máximo de vantagens financeiras afim de investir o dinheiro do empreendedor em coisas que nada têm a ver com a reparação ambiental. E, nestas ocasiões, a grana vai mesmo é pra pagar obras com super faturamento ou que tragam um retorno eleitoral nos anos pares.

Confesso que assistir a tudo isso é muito entristecedor. Pois eu gostaria que uma região tão bonita fosse melhor preservada para as gerações do presente e do futuro.

Todas as matas do litoral sul fluminense e do norte paulista não foram recuperadas à toa pelos governos militares de Ernesto Geisel e de João Batista Figueiredo. Acompanhando o projeto megalomaníaco de construir uma usina atômica em Angra dos Reis, os milicos pensaram na reconstituição das florestas afim de amortecerem os impactos na hipótese de um acidente nuclear, protegendo desta maneira as duas maiores metrópoles brasileiras.

Pois bem. Há quem duvide dessa tese da época dos militares de que hoje com três usinas atômicas as florestas não impediriam um desastre de grandes proporções como este que houve em março ano passado no Japão devido ao terremoto. Mas eu tenho pra mim de que, se houver uma situação dessas, no mínimo o abastecimento de água do Rio de Janeiro e de São Paulo seriam prejudicados pela poluição radioativa. Aí, se as matas estiverem preservadas, penso que ficamos menos vulneráveis, o que deve continuar sendo um forte argumento para que haja uma radical conservação da natureza nesta região de Mangaratiba, Angra dos Reis, Paraty, Ubatuba, Caraguatatuba e outros municípios próximos.


OBS: A primeira imagem ilustrativa foi extraída da página da Prefeitura de Mangaratiba. Já a segunda encontra-se na Wikipédia e sua autoria é atribuída a Rcandre com permissão para divulgar. Em relação à terceira foto, eu a pesquisei na página da Eletronuclear http://www.eletronuclear.gov.br/AEmpresa/CentralNuclear/Angra3.aspx

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O Deus de Spinoza

Baseado num e-mail que um amigo me enviou recentemente, gostaria de compartilhar aqui a experiência relacional com Deus do filósofo Baruch Spinoza, nascido em 1632 em Amsterdã e falecido em Haia nod ia 21 de fevereiro de 1677.

Spinoza foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Déscartes e Gottfried Leibniz. Ele era de família judaica, sendo considerado o fundador do criticismo bíblico moderno.

As palavras a seguir compartilhadas foram elaboradas em pleno século XVII por aquela mente brilhante que o Criador nos brindou, sendo que eu concordo com muita coisa exposta por Spinoza. Pois, mesmo sendo um leitor habitual da Bíblia e encontrando sentido em me congregar em templos (ou casas) com outras pessoas, bem como louvar o Eterno e orar, reconheço que também é possível experimentar Deus de uma outra maneira. E considero também que muitas das vezes a atividade religiosa nos afasta de uma relação sincera com Deus quando nos tornamos seres alienados dentro de práticas rotineiras e de uma moral imposta.

Portanto, vale a pena apreciarmos o que Spinoza escreveu com discernimento e absorvendo as coisas boas, pois estas palavras podem contribuir bastante para o desenvolvimento da nossa espiritualidade.


DEUS SEGUNDO SPINOZA

(Deus falando com você)


“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.

Eu quero que gozes, que cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.

Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... não me encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?

Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o Paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único de que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um Céu ou um Inferno.

Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.

Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza de que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste...

Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.

Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.

Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.

Te sentes olhado, surpreendido? Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.

Para que precisas de mais milagres?

Para que tantas explicações?

Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti.



OBS 1: O grande cientista do século XX Albert Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: "Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens".

OBS 2: A ilustração acima trata-se de uma gravura do filósofo Spinoza sob o título em latim que significa "Um judeu e um ateu". Foi obtida através de uma imagem da Wikipédia que, por sua vez, colheu o material dos arquivo da Biblioteca de Nova York: http://en.wikipedia.org/wiki/Baruch_Spinoza