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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Finalmente escalei o Pão de Açúcar!


Quem acompanha o meu blogue possivelmente deve ter visto o relato sobre a frustrada tentativa de alcançar a pé o Pão de Açúcar em abril deste ano, quando pude apenas me contentar com um bonito passeio no Morro da Urca que corresponde ao nível intermediário do bondinho (teleférico). Naquela ocasião, fui parar na Praia do Forte por equívoco, entrando sem permissão numa área militar. Leiam depois o artigo Um passeio ecológico e cultural pelo Morro da Urca:

Desta última vez, porém, tomei a atitude certa. Fui fazer um passeio que exige um certo grau de dificuldade com gente que conhece a área e trabalha com profissionalismo. Afinal, pra quem não quer ir lá em cima no bondinho, é preciso escalar para chegar até o alto do Pão de Açúcar. Nem que sejam só dez metros de pedra por uma das vias mais fáceis dali.

Admito que nunca tinha escalado na minha vida. O máximo que eu havia feito antes foram umas “escalaminhadas” para alcançar o topo de alguns picos. Então, mesmo tendo já realizado várias travessias longas, posso dizer que o montanhismo está sendo para mim uma experiência completamente nova.

Após informar-me acerca do passeio, através do Facebook, encontrei-me com o grupo da Kmon Adventure na praça da Praia Vermelha às 13 horas. Núbia Mara, minha esposa, desta vez foi comigo mas não pôde aventurar-se por causa do seu problema nos dois joelhos. Então combinamos de nos encontrar lá no Pão de Açúcar. Ela iria de bondinho pegando um dos últimos dias da promoçao Carioquinha, onde os moradores do Rio pagam metade do preço, enquanto eu subiria o morro andando.


A galera que foi comigo no passeio é super gente boa e transmitiu um ótimo astral. Tinha tanto rapazes como moças. Todos neófitos em alpinismo, exceto uma menina que havia escalado antes um trecho do Morro da Babilônia instruída pelo nosso guia Fábio Magrão. Este já conhecia a trilha do Pão de Açúcar com a palma da mão, além de outros lugares do Rio e fora da cidade, sendo que sua especialidade é justamente o montanhismo.

Despedi-me de Núbia e deixamos a Praia Vermelha pra trás, inciando o passeio pelo agradável bosque da Pista Cláudio Coutinho que também é chamada de Caminho do Bem-te-vi. E seguimos por ali até o final. Sua extensão totaliza pouco mais de um quilômetro e duzentos metros.

Só a caminhada leve pelo Caminho do Bem-te-vi já é sensacional! Trata-se de um mergulho no verde tendo o azul intenso do mar ao seu lado. Não chega a ser uma trilha pois, como disse, é uma pista e bem espaçosa por sinal. O ar puro e o visual fascinante com a encantadora Ilha de Cotunduba já são suficientes para fazer o excursionista delirar. E vi muitas pessoas pescando ali naquela tarde maravilhosa de sábado.


Antes de pegarmos a trilha, uma placa bem no comecinho já adverte o turista sobre o risco de se aventurar imprudentemente. Ali fizemos um breve alongamento orientado pelo guia, o que proporciona um grande bem para a saúde e ajuda a prevenir algum mal jeito no corpo que possa tornar o passeio desagradável, coisa que jamais observei nas minhas caminhadas amadoras. Depois, com o corpo já preparado, prosseguimos costeando o Pão de Açúcar até começarmos a subir.

O pedaço inicial da trilha é totalmente virado para o mar aberto, situado entre a Praia Vermelha e a saída da Baía da Guanabara, Em alguns trechos, já dá para se ver Niterói com a imponente Fortaleza de Santa Cruz e várias praias do referido município. Observei muitos barquinhos a vela bailando pelo oceano como se estivessem fazendo um treinamento e vi também uns navios cargueiros transportando mercadoria. No céu, aviões partindo do aeroporto Santos Dumont buscavam ganhar altitude em seus voos. E para a perplexidade de todos encontramos ainda um homem vestido de terno, o qual passou por nós para gravar uma mensagem no meio do mato.


Mais lá pra cima tivemos outra surpresa que foi bem mais agradável. Uma família de miquinhos surgiu das árvores vindo em nossa direção (provavelmente em busca de comida que os turistas costumam dar). Uma das pessoas do grupo teve vontade de alimentar os primatas com um gominho de mixirica mas o guia advertiu para que não fizéssemos aquilo e o pessoal respeitou.

Daquele ponto até o início da escalada, os micos nos acompanharam. Tínhamos chegado a um belo mirante natural com uma considerável altura. O guia então abriu a mochila que carregara com os equipamentos de proteção (cintos especiais, sapatilhas e capacetes) e subiu primeiro para prender a corda bem como sinalizar os pontos de apoio. Na nossa frente, tinham uns homens arriscando a vida bobamente por estarem escalando a rocha sem nada.

É de grande importância seguirmos corretamente as regras de um esporte radical. A vida é um presente precioso e que deve ser aproveitada com gratidão e respeito. Pois do que adianta alguém morrer tragicamente em seus momentos de lazer por falta de cuidados deixando os seus familiares todos tristes e cheios de traumas psicológicos? E se o excursionista imprudente sofre um terrível dano físico a ponto de ficar tetraplégico e depois ter que depender dos outros para o resto da vida? Ora, será que as pessoas que se arriscam sem motivo não têm a consciência de que a existência atuante delas na sociedade pode ainda proporcionar muito bem ao seu próximo?

Na escalada tivemos que subir um por um. O último foi o rapaz da equipe da Kmon Adventure (o Tiago) que esteve sempre presente conosco para qualquer eventualidade. Eu acabei sendo o penúltimo e as sapatilhas não couberam no meu pé de número 45. Precisei escalar de tênis, fato que tornou a minha vida um pouco mais difícil.


E se vocês acham que subi tranquilo até o final, estão completamente enganados. No início bem que eu fui direitinho até encarar um pedaço mais complicado. Sentindo uma sensação psicológica de cansaço, resolvi dar uma paradinha e fui contemplar o lindo cenário natural estando ainda agarrado na pedra.

Que loucura eu cometi em olhar para baixo justamente naquele momento! Mesmo amarrado com uma corda, tive medo. Meu calçado às vezes deslizava na pedra e deu vontade de desistir. Precisei ser forte, respirar fundo e ouvir as orientações pacientes do guia para não me bloquear. Num certo momento, acabei pedindo que me dessem uma segunda corda para me facilitar a escalada e, persistindo, consegui concluir aquele desafio.

O sol se pôs e não cheguei a me despedir do dia. O grupo gastou mais de uma hora para escalar e o céu já começava a escurecer quando voltamos a caminhar. Felizmente tinha lua e ela estava linda na imensidão celeste, bem cheia clareando os nossos passos. E quanto mais agente subia, mais bonito ficava aquela parte da saída da Guanabara que era vista dali com a cidade de Niterói toda iluminada do outro lado. Prosseguimos com cuidado até que, num mirante, salvo engano chamado de Pedra Filosofal, já conseguíamos identificar a charmosa Praia de Copacabana olhando em outra direção oposta à baía do Rio de Janeiro.

Pegamos um trechinho de mata no final. Quase exausto, conquistei o Pão de Açúcar doido para estar com Núbia. Fui o primeiro a sair da trilha. Passei pelos degraus de uma escadinha, entrei no banheiro e lavei as mãos sujas de terra. Dirigi-me para a lanchonete que tem logo após a estação do bondinho e, como não consegui achá-la, o guia ofereceu-me o seu celular para que eu telefonasse.


Lamentavelmente o sinal da Tim não pegou justamente num dos pontos turísticos mais importantes do Brasil. Uma vergonha! E eu só morri de preocupação porque fui justamente Núbia quem acabou me encontrando ao ouvir a minha voz. Ela tinha ficado horas lá em cima esperando-me enquanto eu caminhava e matou o tempo conversando com uns turistas estrangeiros. Divertiu-se comunicando-se com uns chineses que não entendiam nada do nosso idioma.

O grupo mais Núbia reuniu-se antes de descer no bondinho (para quem veio a pé a descida sai de graça). Tiramos algumas fotos juntos e dali voltamos para a Praia Vermelha onde resolvemos dividir uma pizza (uma metade de marguerita e a outra de quatro queijos). Tava uma delícia!

Enfim, retornei satisfeito para a casa e feliz com a mais nova conquista. Pois, além de ter finalmente subido a pé o Pão de Açúcar, realizei a minha primeira escalada com segurança e bem orientado. Mesmo com o vexame que dei no finalzinho, quando pedi para segurar numa segunda corda, a aventura valeu a pena pelo sabor da superação, tornando-se mais uma experiência que entrou para o rol.



OBS: A Kmon Adventure realizou este passeio pelo acessível preço de R$ 50,00 (cinquenta reais) por pessoa. Maiores informações podem ser obtidas com o guia Fábio Magrão, telefones daqui do Rio (21) 3593-6481 / 7960-3299 (Tim) e 8544-6481(Oi), ou pelo site http://magr37.wix.com/kmonadventure#!INÍCIO/mainPage. As fotos acima foram tiradas pelos participantes do grupo, os quais compartilharam as imagens no Facebook, nos seus respectivos álbuns, em especial dos amigos ‎Sonia Barreto Gertner, Michael Petine e Juliana Dias.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Um passeio ecológico e cultural pelo Morro da Urca

Quem foi que disse que segunda-feira não é dia propício para dar um passeio?!

Pois foi o que fiz na tarde de ontem (02/04), quando resolvi realizar uma bela caminhada pelas matas do Morro da Urca e do Pão de Açúcar, aproveitando-me de uma ótima oportunidade que a profissão liberal oferece – o direito de organizar a própria agenda. Se não posso gozar de férias de trinta dias, semelhante aos empregados da iniciativa privada e os funcionários públicos, por outro lado tenho a possibilidade de me dar ao luxo de escolher um dia na semana sem audiências no Fórum ou atividades necessárias para não marcar nenhum compromisso e aproveitar o dia.

Tendo almoçado com a esposa no boteco que tem perto de casa (ao lado da porta de entrada do meu edifício), saí daqui do Grajaú antes das 13 horas e fui sozinho de metrô para Botafogo afim de evitar o congestionado trânsito de veículos na rua. Desembarquei do coletivo e, como não estava com paciência de procurar onde fica o ponto do ônibus de integração da Urca com o Metrô, fui andando a pé.

A caminhada de Botafogo até à Praia Vermelha não é lá tão agradável por causa das movimentadas ruas. Fazer este trajeto a pé vale mais pelos prédios históricos da UFRJ situados no local antes de chegar até o local de embarque do teleférico que sobe para o Morro da Urca. Neste percurso urbano, é possível ver também o Instituto Benjamin Constant, situado em outro prédio antigo, além do Instituto Militar de Engenharia (IME) e a UNIRIO.

No entanto, eu estava mesmo era afim de curtir a tarde junto à natureza mergulhando naquelas matas que embelezam o Morro da Urca e o Pão de Açúcar. E, tão logo meus pés alcançaram a Praia Vermelha, refresquei-me bebendo uma gelada água de coco e, em seguida, fui seguindo em direção à Pista Cláusio Coutinho também chamada de “Caminho do Bem-te-vi” ou “estrada do Costão”. Na ocasião, um extenso grupo de aprendizes de guia turístico estavam também indo para lá.

O Caminho do Bem-te-vi é uma leve e bela caminhada que pessoas de todas as idades podem fazer na Praia Vermelha. Seu nome é uma homenagem ao ex-treinador da Seleção Brasileira de Futebol Cláudio Coutinho, formado pela Escola de Educação Física do Exército. Sua extensão é de 1,25 quilômetros. E, na marca dos 350 metros, fica o começo da trilha de acesso ao Morro da Urca. Aí, os que têm mais disposição para encarar subidas íngremes e gostam de natureza não podem deixar de fazer este roteiro alternativo.

Desde a tenra infância que eu já passeava no Pão de Açúcar. Só que, naquela época, sempre que ia lá na companhia de meus pais, utilizávamos o teleférico que é chamado também de “bondinho” pelos cariocas. Isto por causa da semelhança entre os primeiros veículos sustentados pelos cabos com os saudosos bondes urbanos. Em 1999, quando comecei a namorar minha mulher, refiz aquela viagem com ela, dando-lhe aquele inesquecível presente já que Núbia jamais havia subido neste famoso ponto turístico do Rio de Janeiro. Só que, desta vez, em 02 de abril de 2012, eu pude realizar o meu passeio a pé.

Ao concluir o íngreme trecho de subida, cheguei a uma bifurcação e dei de cara com a Baía da Guanabara. Após apreciar aquela vista surpreendente, resolvi tomar o caminho da direita indo em direção ao Pão de Açúcar com seus 396 metros de altura. Continuei e atrás de mim veio um casal de turistas estrangeiros que se enganaram pensando que eu, com toda a minha determinação, estivesse indo em direção do Morro da Urca. Tão logo eles me alcançaram, expliquei-lhes que estavam no rumo errado e esclareci que eu continuaria procurando por uma trilha que pudesse me levar ao topo daquele belo monólito. Curiosamente a moça sabia falar muito bem o português.

Minutos após despedir-me do gentil casal, eu já estava chegando à base da pedra do Pão de Açúcar. Dali apreciei as vistas dos dois lado: da Praia Vermelha e da Baía de Guanabara, incluindo Urca e Botafogo. Procurei incansavelmente por alguma trilha que prosseguisse até o topo, mas nada encontrei. Então, como não sou nenhum escalador de montanhas (e nem estava preparado com equipamentos especiais), tive que retornar pela mesma trilha, mas sempre atento para ver se acharia algum caminho.

Quase de volta ao ponto da bifurcação, encontrei uma picada na floresta que eu pensei que me levaria ao Pão de Açúcar. Segui por ela e comecei a descer o morro pelo lado da Baía de Guanabara. Continuei e não demorou muito para que eu ouvisse barulho de obra bem como de crianças.

Tendo passeado em outras oportunidades pela Urca e a praia do Forte São João, dava para perceber que eu estava caminhando em direção da unidade de direção de pesquisa do Exército onde está localizada a Escola Superior de Guerra (ESG). Provavelmente ali seria mais uma área de treinamento militar e eu fui sair nos quintais de um estabelecimento municipal de ensino que talvez sirva aos filhos dos oficiais e/ou das crianças moradoras da Urca. Trata-se da Escola Municipal Estácio de Sá, nome dado em homenagem ao primeiro governador da capitania do Rio de Janeiro.

Em falar no Estácio de Sá, eis que nem todo mundo sabe que a fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro se deu na região da Fortaleza de São João e não no extinto Morro do Castelo. Isto ocorreu no dia 1° de março de 1565, no contexto histórico da expulsão dos franceses, e ficou relatado pelo jesuíta José de Anchieta. Juntamente com a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, em Niterói, o forte que veio a ser construído ali pelos portugueses serviu de base estratégica para defender a Cidade Maravilhosa de invasões estrangeiras durante os séculos seguintes.

Como errei o caminho para subir no Pão de Açúcar, aproveitei o momento para desfrutar daquele cenário da área militar do Forte São João. A praia ali é pequena e linda! Quase não vi pessoas, exceto uma mulher e um senhor idoso pescando. Do outro lado da Baía de Guanabara, dava pra reconhecer parte de Niterói com seus bairros costeiros como Icaraí, São Francisco, Charitas e Jurujuba. Sentindo sede, fui até uma cantina que serve aos soldados e bebi um mate tomando em seguida um picolé de chocolate.

Dali eu só teria duas alternativas. Ou sairia da área militar pela porta de entrada e encerrar meu passeio, ou então retornar pela trilha na qual desci e terminar a caminhada no Morro da Urca com seus 220 metros de altura. Ainda cheio de disposição, encarei novamente aquele caminho íngreme e, em menos de meia hora, eu já estava de volta ao ponto da bifurcação.

Quanto mais eu me aproximava do Morro da Urca, mais bonita ficava a paisagem e movimentado de pessoas o trajeto. Se na picada que leva até à área militar não encontrei ninguém, o percurso da Praia Vermelha ao nível intermediário do teleférico estava cheio de visitantes subindo e descendo. Mesmo numa segunda-feira de baixa temporada turística.

Foi ali, no alto do Morro da Urca, onde passei as últimas horas do meu passeio apreciando aquela vista deslumbrante da cidade. A área é extensa e oferece opções de alimentação, compras, entretenimento, informação cultural e até mesmo espaço para shows. Permaneci no local desde o fim da tarde até à noite, pelo que vi o Rio todo iluminado.

Durante este tempo, conversei com algumas pessoas lá e conheci um colega de profissão, o doutor Edgar, que estava ali fazendo um curso de guia turístico. Juntos tentamos conversar em inglês com duas professoras norueguesas e também observei uma conversa em castelhano entre o seu Edgar e um grupo de visitantes. Tendo chegado até lá com meus próprios pés, pude apreciar gratuitamente um show da cantora Ithamara Koorax. Do contrário, teria que pagar R$ 53,00 (cinquenta e três reais) que é o valor do ingresso do bondinho. E não me arrependo de ter esperado aquelas horas e assisti-la interpretando músicas do Villa Lobos.

Às oito e vinte da noite, voltei descendo no teleférico sem que também precisasse pagar. Isto porque eu tinha vindo pela trilha e aí para os amantes da aventura, após às 19 horas, o bondinho sai de graça. O motivo talvez seja porque, neste horário, o portão de acesso à estação já se encontra fechado não sendo mais possível retornar a pé para a Praia Vermelha. Ainda mais no escuro!

Ao chegar em casa, minutos antes das dez, levei uma bronca da esposa. Núbia já estava bem preocupada com minha demora e, como o meu celular ficou em casa, ela ficou mais nervosa ainda. Porém, valeu a pena! Tem dias que agente precisa sair da rotina, inventar coisas novas para fazer e se divertir. Do contrário, a nossa vida fica muito chata.


OBS: As fotos foram tiradas nos meus passeios anteriores (com Núbia em 1999 e na época de infância entre o fim dos anos 70 e o começo da década de 80). Já a ilustração, eu a retirei da Wikipédia, a qual refere-se à fundação da cidade do Rio de Janeiro e tem sua autoria atribuíada ao colaborador identificado por Junius, sendo permitida a sua divulgação: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Funda%C3%A7%C3%A3o_do_Rio_de_Janeiro.JPG

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Lembranças de um delicioso sábado em janeiro

Durante o mês de janeiro, mesmo após o fim do recesso forense (única época de descanso para os advogados), houve ocasiões em que aproveitei intensamente o melhor do meu descanso semanal - o sábado. Um desses dias foi justamente no final de uma semana atribulada com fortes aborrecimentos, irritação e notícias ruins, mas que não me impediram de curtir uma manhã e uma tarde maravilhosas.


CHATOS ANTECEDENTES

Eu havia retornado das curtas férias no município de Mangaratiba (mais precisamente Muriqui), na segunda-feira daquela semana (09/01/2012), e não fora possível embarcar com a minha gata de estimação Sofia na viagem de volta para casa.

No dia 10/01 (terça-feira), estressei-me ao levar minha avó materna para fazer exames no Hospital Pedro Ernesto da UERJ porque encontrei dificuldades para conduzi-la no andador do táxi até a entrada do hospital. Mesmo os funcionários tendo nos liberado da quilométrica fila de pacientes que também aguardavam para serem atendidos no laboratório da instituição. Lamentavelmente ninguém veio buscá-la numa cadeira de rodas, deixando-nos numa situação bem difícil.

Em 11/01 (quarta-feira), gastei quase R$ 5.500,00 descapitalizando-me e pagando enormes dívidas, sendo que hoje eu e Núbia estamos com uma renda familiar limitada a menos de R$ 2.400,00. Também naquele dia processei a empresa de ônibus Costa Verde para poder trazer de volta a Sofia de volta pra casa porque Núbia estava sofrendo bastante sem a companhia do nosso animal de estimação.

Na data de 12/01 (quinta-feira), acordei cedo para levar minha esposa a um laboratório em Vila Isabel para coletar sangue. Depois, fiquei muito contrariado com o atendimento da CEDAE e da AMPLA no telefone, sendo que ainda perdi muito tempo falando com a Oi/Telemar paa resolver problemas.

Finalmente, tive em 13/01 (sexta-feira) o meu pior dia. Não que eu seja supersticioso, pois já vivenciei outras sextas-feiras 13 de muita sorte. Só que esta foi de arrasar.

Quando eu estava indo resolver coisas em Niterói, afim de solucionar um problema referente à conta da luz da casa de Muriqui junto à AMPLA e pretendia pegar o formal de partilha do inventário de meu sogro na 8ª Vara Cível daquela Comarca (seu Francisco falecera em 2002), fui surpreendido com duas más notícias: (i) a perda de uma grande causa no STJ; (ii) o indeferimento da medida de antecipação da tutela no processo contra a Costa Verde para trazer a nossa gata antes da sentença.

O fato da Justiça não ter reconhecido a tutela antecipada no caso da gatinha só veio a aumentar a tristeza de minha mulher naqueles dias. O entendimento da magistrada que apreciou meu pedido foi que:

“(...) não se tratando de hipótese em que está em jogo direito à vida ou à saúde, deve-se respeitar o contraditório, erigido a princípio constitucional, no capítulo dos direitos e garantias fundamentais, sendo necessário aguardar a oportunidade conferida à parte ré de apresentar defesa”.

Com isto, a decisão determinou que aguardássemos a sessão conciliatória designada para o dia 26/04/2012 (justo no aniversário de Núbia), a qual está marcada para às 12:45 no IX Juizado Especial Cível do Rio de Janeiro, bairro Maracanã.

Conforme eu muito bem aprendi com um advogado e ex-vereador de Nova Friburgo pelo PSB, de decisão judicial ou nós cumprimos ou recorremos. Logo, por mais insatisfeito que eu tenha ficado, prefiro limitar meus comentários ao posicionamento da juíza apenas noticiando aqui o que ocorreu no processo. E, em falar nos recursos, confesso que como profissional tenho o hábito de não me conformar facilmente com as sentenças acórdãos desfavoráveis nos meus processos.

Foi justamente devido ao meu inconformismo que, anos atrás, havia conseguido uma surpreendente multa diária de R$ 10.000,00 em sede de segunda instância numa ação movida em face do DER, Estado do Rio de Janeiro, três empreiteiras poderosas e mais um consórcio formado pelas mesmas para a execução das obras de alargamento e pavimentação da rodovia RJ-142 em 2006. Com o acórdão favorável da 12ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça daqui, eu já estava calculando uma dívida de milhões para o meu cliente receber por causa do descumprimento da decisão praticado pelos réus, fazendo os cálculos de quanto talvez receberia de honorários num percentual de 20%.

Aconteceu, entreanto, que uma das empresas havia recorrido ao quase inacessível Superior Tribunal de Justiça, mesmo contrariando outros posicionamentos de magistrados do próprio STJ sobre o assunto. Então, vim a amargar uma das piores derrotas de minha carreira capaz de fazer esquecer a brilhante vitória que tivera em 2005 contra o cantor Zezé di Camargo meses depois de ter começado a exercer a advocacia.

Lamentavelmente, o meu recurso fora distribuído perante o sistema do STJ pelo número da inscrição da OAB de meu colega sem que eu soubesse deste fato. Aí o ministro anulou monocraticamente o acórdão do Tribunal Estadual que havia beneficiado meu cliente e, quando a decisão publicou no Diário Oficial, eu nada fiquei sabendo pelo outro advogado para poder interpor o recurso de agravo regimental afim de que o órgão colegiado julgador reapreciasse as posições do magistrado. Assim, eu só vim a ficar sabendo do que ocorrera em 13/01, quando publicou uma despacho do desembargador daqui do Rio mandando cumprir o que fora determinado pelo julgador de Brasília.

Bem, uma falta grave dessas poderia custar-me o pouco que tenho de patrimônio numa ação indenizatória movida pelo meu cliente contra mim se o outro advogado que me auxiliou na causa não fosse o próprio filho dele. Todavia, com aquele resultado, o meu sonho de adolescente em me tornar um homem de sete dígitos (um milionário) antes do 40 foi por água abaixo. Um desejo que, por anos, idolatrei decadentemente, mas que, neste últimos anos, já não ocupava mais tanto espaço no meu coração.

Os contatos com este colega de profissão naquela sexta-feira 13 não foram totalmente agradáveis. Ao acompanhar o processo no Tribuna de Justiça do Rio, logo após ter resolvido todas as minhas tarefas com sucesso em Niterói, verifiquei que nada poderia ser feito referente à anulação decidida pelo STJ. Aí preferi encerrar qualquer discussão acerca do mau acontecimento e tratar de esfriar a minha cabeça descansando no sábado.


O SÁBADO

A palavra sábado vem do hebraico Shabat, o que significa “cessar”. Biblicamente, o novo dia iniciava-se com o por do sol e não pela manhã. Por este motivo, judeus e cristãos adventistas começam a celebrar a guarda o santificado repouso semanal já no fim da tarde de sexta-feira e não a partir da meia noite.

Atentando-me para a significação bíblica do Shabat, eis que resolvi preparar-me para o repouso semanal na própria tarde do dia 13/01/2012, uma sexta-feira. Fiz os últimos contatos pelo Facebook da casa de minha mãe (eu ainda estava sem internet) e vim descansar ao lado da esposa como bem orienta um livro cabalista – o Zohar. E assim passei aquela noite tentando evitar que a multidão dos pensamentos perturbassem minha paz.

Enquanto a maioria das pessoas neste país e ao redor do mundo nem conseguem uma moradia digna para habitar, como poderia eu sentir-me frustrado por não ter conseguido me tornar um milionário antes dos quarenta?!

Meses atrás do recebimento da má notícia, eu já havia decidido estudar pra ser um servidor do Tribunal de Justiça afim de alcançar uma renda que fosse tão somente satisfatória para minhas necessidades e continuar curtindo com simplicidade a vida que o Criador tem me ensinado a experimentar. Porém, com o recebimento da notícia, deixei-me abalar com a perda de um dinheiro incerto. Algo que meu cliente e eu poderíamos receber ou não porque, infelizmente, em casos deste tipo, o Judiciário vem reduzindo os valores em sede de execução das multas diárias contra inúmeras empresas com o argumento de impedir o “enriquecimento sem causa”.

Para não permanecer desenvolvendo angústias e frustrações na mente, o melhor a se fazer é praticar atividades libertadoras. Assim, uns vão aos sábados para suas sinagogas ou igrejas. Outros, que não seguem religião ou que se congregam em outro dia com seus irmãos de fé, podem muito bem fazer passeios, caminhadas, estar com a família, ouvir música, praticar um esporte diferente da rotina habitual ou mesmo envolver-se com alguma devoção alternativa a Deus. Eu mesmo optei por praticar o Shabat a partir de 2010 porque não conseguia descansar no primeiro dia da semana por frequentar igreja aos domingos. Ainda mais se fosse a dois cultos no mesmo dia.

Naquele dia, tanto pra mim que sofria com a vergonha da falha profissional (e com a perda da chance de ficar “rico”), quanto pra minha esposa Núbia que sentia saudades de Sofia, fizemos bem em levar minha avó materna para passear na praça do bairro ao invés de ficarmos em casa nos lamentando. Fomos pouco depois das nove na casa dela. Núbia arrumou-a e saímos pela rua conduzindo vovó na cadeira de rodas.

Transportar um idoso cadeirante pelo Rio de Janeiro não é nada fácil! Principalmente quando a grande maioria das ruas da Zona Norte não estão adaptadas para pessoas portadoras de necessidades especiais ou idosos em situação debilitada. As calçadas daqui do bairro Grajaú encontram-se esburacadas e os motoristas ainda estacionam seus carros em locais indevidos. Felizmente, às vezes, pode-se contar com a gentileza de pessoas que se sensibilizam visto que alguns condutores até param esperando-nos concluir a travessia e ainda há outros que chegam a prestar algum auxílio como fez um ciclista no posto de gasolina ajudando a encher os pneus murchos da cadeira de rodas.

Depois da passagem pelo posto, fomos à praça Edmundo Rego, bem aqui no Centro do Grajaú. É onde fica a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, uma das opções de visita turística na Zona Norte da Cidade Maravilhosa, embora não tão representativa quanto à famosa Igreja da Penha. Só que é justamente passando um final de semana aqui que um visitante pode observar o curtir o lazer da família carioca numa praça bem propícia para a convivência humana capaz de superar muitos outros bairros da Zona Sul.

Além da tradicional paróquia, a praça dispõe de brinquedos para divertir o público infantil e da terceira idade com uma academia de ginástica ao ar livre para os velhinhos se exercitarem. É patrulhada continuamente por uma cabine de Polícia Militar e conta com um razoável comércio: duas agências do mesmo banco ITAÚ, uma padaria que funciona também como restaurante e lanchonete, um restaurante, duas farmácias, dois supermercados, duas lanchonetes, um boteco e uma casa lotérica. Aos finais de semana e, principalmente, aos domingos, moradores armam ali suas barracas de artesanato, sendo possível encontrar uns doces caseiros também. E praticamente todos os dias o logradouro é frequentado por aposentados jogadores de dama e xadrez, mães com seus bebês, muitos idosos e gente passeando com cachorro. Se o calor aperta, existem bancos debaixo da aprazível sombra de umas árvores trepadeiras em dois cantos da praça.

Eu, Núbia e vovó Marisa descansamos do sol forte de janeiro numa dessas sombras agradáveis. Ela na cadeira de rodas e nós sentados num banquinho de madeira. Ali conversamos por algum tempo e procurei hidratar-me bebendo um tereré com água mineral, saudável vício que passei a cultivar depois de ter visitado o Pantanal em 1999. Mas a vovó ficou apenas tomando água na temperatura ambiente em seu copo de plástico enquanto Núbia envenenava-se com um Coca-Cola. E nisto uma senhora com sua cachorrinha veio sentar-se no banco em frente e pôs-se a conversar conosco.

Sem que eu esperasse, os sinos da igreja acusaram meio dia, embora fosse horário de verão. Permanecemos por mais um pouquinho ali e depois fomos amenizar a fome comendo algo no Girão Lanches. Vovó já estava apertada para ir ao banheiro e Núbia precisou ajudá-la nesta hora.

Posteriormente pensei. Para uma pessoa idosa e com a sua saúde debilitada, de que adiantariam ganhar milhões de reais ou de dólares? Pois, se o dinheiro é apenas um meio pelo qual tentamos satisfazer algumas das nossas necessidades, pouca coisa acrescentaria na vida de alguém como no caso de minha avó, exceto se for para lhe proporcionar um tratamento de saúde com mais dignidade. Pois, ainda que ela pudesse consultar-se com os melhores médicos e se livrar do precário atendimento no Hospital Pedro Ernesto, o amor da pessoas é algo que jamais pode ser comprado com dinheiro e às vezes nem mesmo a saúde. Logo, qualquer acúmulo de bens materiais nos últimos anos de vida de uma pessoa seria a mais pura ilusão tal como é o apego a qualquer coisa deste mundo nas demais faixas etárias. E assim como morreu o José de Alencar no Hospital Sírio-Libanês, o pobre com câncer despede-se desta vida num leito do INCA ou numa outra unidade pública de saúde qualquer. Ou ainda em sua própria casa fazendo chá de ervas com orações sem nem ao menos ter a sua doença devidamente diagnosticada pelos médicos.

Após o lanche, voltamos pra casa de minha avó que fica numa antiga vila da Rua Engenheiro Richard, a principal via do bairro e cheia de tamarineiras que homenageia o nome do maranhense construtor do bairro (ver foto ao lado). Segundo a história do Grajaú, os seus idealizadores, na primeira metade do século XX, foram engenheiros de Minas Gerais e da Região Nordeste. Daí, muitas ruas levaram o nome de cidades mineiras ou nordestinas. E o próprio nome da localidade é uma homenagem ao município maranhense de Grajaú.

O começo de tarde daquele sábado fez-me lembrar os velhos tempos de infância em que tomei um refrescante banho de mangueira. Eram cerca de duas horas da tarde quando resolvi fazer isto na vila. O calor estava escaldante e a água até chegou a sair um pouco morna da bica, de modo que, naquele momento, apenas faltava uma piscina Tone, coisa considerada como o cúmulo da breguice suburbana pelos cariocas mais elitistas.

Terminado o almoço, Núbia já não se aguentava de sono e retornou pra casa afim de dormir. Eu, porém, sentia-me cheio de disposição e estava turbinado com as anfetaminas da erva mate quando havia tomado tereré na praça. Deixei minha esposa no apartamento e fui pro Parque Estadual do Grajaú caminhar.

O Parque Estadual do Grajaú, com seus 55 hectares de área, é uma das maiores atrações paisagísticas do bairro, apesar de desconhecido pela maioria dos cariocas e moradores do Rio. Foi criado no final dos anos 70 com a denominação de Reserva Florestal do Grajaú por meio do Decreto Estadual nº 1.921, de 22 de junho de 1978, atendendo a uma reivindicação dos moradores do bairro e da Sociedade dos Amigos da Reserva do Grajaú, vindo a se tornar desde então um ambiente de lazer da comunidade. No começo do século, a unidade foi transformada em parque para melhor adequá-la ao artigo 55 lei do SNUC, através do Decreto Estadual nº 32.017, de 15 de outubro de 2002. E, tempos depois, a sua administração foi transferida à Prefeitura do Rio de Janeiro (2007) juntamente com o Parque da Chacrinha em Copacabana.

Quando criança, frequentei a antiga reserva com minha família. Papai, mamãe, vizinhos e professores do jardim de infância levaram-me lá por diversas vezes, o que criou em minha mente uma forte identificação com o verde desde cedo. Eu olhava para o Bico do Papagaio, uma pedra com mais de 400 metros de altitude, e desejava um dia subir até lá em cima.

Por volta dos 12 ou 13 anos, já um pré-adolescente com fortes sinais da puberdade pelo corpo mas com quase nenhum pingo de juízo na cabeça, decidi ir sozinho até o Bico do Papagaio. E ainda repeti a experiência uma outra ocasião naquela época, sem ter sofrido nenhum machucado grave, mas tive o privilégio de me maravilhar com a vista da Baía de Guanabara com a Ponte Rio-Niterói ligando as duas cidades.

Desta vez, porém, contentei-me em subir só até à base da grande pedra do Grajaú. Dali mesmo, numa altura menor do que o topo, com segui reconhecer muito mais coisas do que no começo de minha transição para a idade adulta. Além da Ponte e das águas salgadas da Guanabara, olhei para o fundo da baía e identifiquei com facilidade a Serra dos Órgãos com o Dedo de Deus e a Pedra do Sino, ambos entre os municípios de Guapimirim e Teresópolis. E, bem ao longe, estavam as serras que dividem Cachoeiras de Macacu com Nova Friburgo, cidade na qual morava até recentemente em dezembro de 2011.

O Parque do Grajaú é, sem dúvida, uma península das matas da Tijuca cercada por um mar de CO² por todos os lados. Lá de cima, pode-se contemplar a parte plana do vale do rio Maracanã e de alguns de seus afluentes, passando por antigas florestas e manguezais da época do descobrimento que deram lugar a uma selva de pedra com seus edifícios e ruas asfaltadas. Todavia, se o excursionista tiver uma dose boa de imaginação, ele conseguirá despir a cidade de sua sufocante indumentária de concreto e, no lugar dos prédios e, deste modo, visualizar naquele cenário uma natureza ainda conservada com tribos de índios morando na planície e a onça pintada passeando pelos arredores. Assim, em lugar da poluição que tano afeta a baía de Guanabara devido ao despejo do esgoto e aos constantes vazamentos de óleo, imaginaríamos peixes, golfinhos e até baleias em suas águas mansas. Um ambiente que lembraria não apenas o passado como pode nos ajudar na projeção de um futuro com sustentabilidade.

Do alto do Parque do Grajaú também é possível idealizar um Rio de Janeiro melhor, sem violência, livre das injustiças sociais e da corrupção de seus governantes. Podemos pensar num Rio com uma população mais harmonizada com a vida em que cada qual consiga reconhecer no outro um igual, sem cultivar dentro de si o medo da aproximação, mas transformando o temor em amor.

E por que não desejarmos uma cidade melhor?

Mas voltando a falar das escaladas aos morros, fico pensando que, com mais conhecimento aprendido sobre a vida, não sentimos mais a necessidade de subirmos tanto. Por volta dos 12 anos, do todo daquela pedra, eu jamais conseguiria decifrar as imagens daquele cenário da mesma maneira que fiz desta última caminhada no parque ou quando levei minha esposa ao Corcovado este mês. Um adolescente criado em cidade nem sempre consegue perceber que toda aquela edificação de casas, lojas, clubes, shoppings e igrejas foi construída sobre uma natureza viva. Porém, as experiências que tive com minhas caminhadas ecológicas durante anos por Nova Friburgo e região ajudaram-me bastante nesta interpretação do ambiente.

Inegavelmente que qualquer quantia se tornaria dispensável para viver tal momento, exceto o suficiente para as minhas necessidades nutricionais básicas. Tivesse com o bolso vazio ou com uma conta bancária com sete dígitos daria tudo no mesmo já que nada pagamos para respirar e existir. Estar num lugar como aquele basta poder andar, ter olhos e viver, sendo que, até mesmo para quem não consegue caminhar com autonomia, a exemplo de minha avó, as asas do pensamento já seriam suficientes quando a Divina Presença nos satisfaz por completo.

Deixei o Parque do Grajaú e ainda caminhei mais um pouco pelo bairro, parando para beber uma água mineral na Praça Nobel. Mais tarde, tomei um mate em uma padaria em outra rua onde puxei papo com duas jovens que trabalham naquele estabelecimento. Uma delas veio contar-me sobre o seu sonho de futuramente estudar e se advogada.

Achei por bem não encorajá-la, pelo que lhe mostrei um pouco da realidade forense sem contaminá-la com as minhas frustrações do momento. Mas é claro que não dava para evitar que os sentimentos ruins decorrentes da última decepção jurídica de minha vida saíssem pelas minhas palavras. Afinal somos humanos e nos ressentimos com facilidade das coisas com as quais nos apegamos. E, por mais que tentemos, ainda assim é difícil evitar o apego.

Outra coisa interessante que pude refletir naquele sábado foi que, se a advocacia forense tornou-se para mim um estorvo e um mar de preocupações e de decepções, o mesmo não poderia afirmar acerca da realidade daquela jovem de condição humilde.

Trabalhando aos sábados e, às vezes, até nos domingos, certamente seria uma considerável oportunidade para aquela menina poder defender os seus clientes na (in)Justiça brasileira. Mesmo sendo em causas mais simples como as ações de Vara de Família, em Vara de Trabalho, no crime ou de Juizado Especial Cível, coisas que não costumo pegar. Pois a angustiante vida n a advocacia contenciosa ainda é bem mais preferível do que depender de um trabalho massacrante dentro de uma padaria que em muito faz lembrar a escravidão. E sem esquecer também da valorização que a nossa sociedade medíocre ainda atribui às pessoas com curso superior, dando aos advogados, médicos e engenheiros um status de “doutor” mesmos sem a diplomação no doutorado.

Quantos pobres neste país não sonham em um dia conseguir qualquer diploma de graduação universitária para desfrutarem de uma vida melhor? Pois enquanto os metidos a rico da classe média ficam fazendo vestibular pensando em ser médicos, juízes, auditores ficais, executivos de multinacionais ou grandes empresários, qual é a expectativa comum da pessoa mais pobre? Penso que, mesmo se alguém humilde sonha com tais profissões, muitas delas primeiro preferem tentar subir o “degrau” de enfermeiro, assistente social, professor, ou técnico em alguma área, o que é mais comum. E, dentro do Direito, ser apenas um advogado já proporciona algum respeito dentro da sociedade onde vivemos.

Chegando em casa ainda com dia claro, encontrei Núbia acordada e telefonando no sofá da sala. Tomei aquele banho refrescante no chuveiro e celebramos o final do Shabat ouvindo um CD da Sarah Brightman. Minhas forças já se encontravam renovadas para mais uma semana de lutas que, biblicamente falando, só estava começando com o anoitecer.


OBS: Todas as imagens acima, exceto o símbolo do Parque Estadual do Grajaú, foram extraídas da Wikipédia. A primeira refere-se ao Bico do Papagaio que é a maior elevação geográfica do bairro Grajaú e uma das maiores atrações do parque, sendo parte integrante do acervo de conteúdo livre da Wikimedia Foundation que pode ser utilizado por outros projetos. A segunda foto, também encontrada no acervo virtual da Wiki, tem a indicação apenas do nome do seu autor (Junius), o qual teria dedicado-a ao domínio público de obras. Quanto á terceira imagem, também de domínio público, parece ser oriunda de um outro acervo de coisas antigas acessado pela Wikipédia e que foi caracterizado como Photographias Ouvidor. A quarta imagem trata-se do símbolo do Parque Estadual do Grajaú e eu a encontrei no site do INEA, entidade da Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro. A quinta foto é uma vista parcial das matas do Grajaú e está sendo divulgada nas mesmas condições que a primeira imagem. E, finalmente, a sexta foto refere-se à Praça Nobel também situada no bairro, mais próxima da comunidade de Nova Divineia com autoria atribuída ao Junius pela Wikipédia.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Saudades da Ilha Grande




Um dos lugares por onde andei e que sinto muita vontade de voltar, com certeza é a Ilha Grande!

Desde criança, eu já tinha uma enorme fascinação pelas ilhas. Quando ia à praia, desejava nadar até elas e imaginava encontrar um tesouro escondido na areia conforme assistia nos desenhos animados. Porém, bastava eu me afastar alguns metros da costa que logo um adulto da família vinha chamar a minha atenção para que voltasse e não morresse afogado.

Talvez minhas ideias fossem até alimentadas pelo seriado “A Ilha da Fantasia”, de Aaron Spelling e Leonard Goldberg, que passou na TV brasileira entre o final dos anos 70 e início da década de 80. Ou, quem sabe, não foi pelos filmes do "Simbad, o Marujo", que, por diversas vezes, assisti na Sessão da Tarde?

Entretanto, nos meus tempos de infância, bem antes de inventarem a impressionante série de “Lost”, já não ouvia falar muito bem da Ilha Grande. Na época, ainda existia um presídio de segurança máxima lá e, quando passava dias na casa de minha avó paterna em Muriqui, ela me apavorava com a possibilidade quase improvável de que bandidos fugidos da penitenciária, após atravessarem a Baía de Sepetiba, fossem capazes se esconder nos povoados de veraneio ao longo da rodovia Rio-Santos para invadir o nosso quintal e, justamente, nos assaltar.

Depois da exibição de uma reportagem da Glória Maria no Fantástico sobre as belezas da Ilha Grande, comecei a ficar muito curioso por conhecer o lugar. Ansiava bastante por estar numa ilha onde pudesse encontrar praias paradisíacas, rios e cachoeiras com águas limpas, morros elevados, ruínas históricas e vilarejos com gente morando.

Finalmente, em janeiro de 1999, realizei este meu antigo desejo de passeio juntamente com tantos outros destinos. Aliás, aquela foi uma época da minha vida em que passei a maior parte do mês só viajando e cheguei a descobrir lugares surpreendentes nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, conseguindo colocar meus pés em vários lugares diferentes em tão pouco tempo. E fiz tudo aquilo sozinho, tendo visitado, além da Ilha Grande e Angra dos Reis, as seguintes localidades das quais me recordo: Visconde de Mauá, Maringá, Maromba, Airuoca, São Tomé das Letras, Três Corações, Mariana, Ouro Preto, Poços de Caldas, Miguel Pereira e Paty do Alferes.

Pelo que me lembro, fiquei umas três noites na Ilha Grande dormindo na barraca de um camping na Vila de Abraão (o principal povoado da ilha). Fiz longas caminhadas e um passeio de barco. Estive não só em locais próximos (não muito distante do Abraão tem um poço de água doce), mas houve um dia em que cometi a loucura de retornar da Praia de Dois Rios utilizando uma trilha proibida até Lopez Mendes onde poderia muito bem ter me perdido ou até sofrido algum acidente.

Naquele janeiro de 1999, eu tinha ainda 22 anos e queria viver com muita intensidade aqueles momentos. Pouco me importava com certos riscos e bebia de maneira alucinada quase toda noite. Estava afastado da Igreja e desviado dos caminhos de Deus. Por sorte, tinha conseguido aprovação no primeiro ano da faculdade de Direito que cursei em Juiz de Fora, no Instituto Vianna Júnior, e estava então transferindo minha matrícula para o campus da Universidade Estácio de Sá, em Nova Friburgo. Com meu filme queimado em Minas, por causa de um crime praticado no mês de junho de 1997, na época em que fora aluno de Administração da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e ainda investigado pela Polícia, pretendia encontrar um novo ambiente nas serras fluminenses, tentando uma outra vida onde passaria a morar sem nenhum parente por perto. Namoradas e amigos eu não tinha. Transava com prostitutas ou com qualquer garota que me desse chance. E, com exceção do consumo exagerado de álcool, saúde era o que não faltava para aquele corpo que, depois de anos de uma infância e adolescência com elevado grau de obesidade, experimentava então o alívio de ter me livrado de 24 quilos no decorrer de 1998 com um simples controle de alimento.

Apesar de todas as loucuras que explodiam dentro de mim, eu estava tentando me relacionar com a vida e aí a Ilha Grande compôs o meu cenário interior durante aqueles dias. Talvez o local representasse a paz que tanto almejasse e a beleza que minha alma precisasse ter. Mas, ao mesmo tempo, acho que também existisse em mim uma necessidade de superação e de auto-afirmação através da conquista de novos lugares que são destinos turísticos, ainda que sem nenhum interesse de registrar o momento através da fotografia (contentava-me em comprar camisetas estampadas ou um barato souvenir).

Penso que, no fim, de toda busca, seja ela fútil ou não, sempre encontramos algo com um maior significado, nem que aquilo nos sirva para um mero aprendizado. Porém, as mensagens que as aulas da vida ao ar livre me comunicaram vieram a fazer parte de um processo pessoal de crescimento para que eu aprendesse a respeitar melhor a existência. Pois, sempre que visitamos um paraíso ecológico, quer sejamos apaixonados pela natureza ou não, ficamos envolvidos de tal maneira pelo ambiente que até um troglodita urbano e materialista, como eu me transformara antes, consegue voltar para casa um pouquinho melhor do que como chegou.

Depois daquela maravilhosa oportunidade que Deus me concedeu, retornei à Ilha Grande por mais uma vez, salvo engano em 2001. Só que, nesta segunda ocasião, eu já tinha um relacionamento com Núbia, atualmente minha esposa. E, antes de me conhecer, ela também já tinha visitado a ilha e passado uma noite de Ano Novo no Abraão na companhia de seus amigos.

Mesmo acompanhado por minha mulher, fiz alguns passeios sozinho. Em outros, estive com ela e tive que conter a ansiedade dos meus pés para não me embrenhar na mata deixando-a para trás. Houve também um dia em que caminhei só do Abraão até o Farol dos Castelhanos e voltei, enquanto Núbia permaneceu no acampamento. Porém, para agradá-la, fomos juntos de barco até a outra ponta da ilha, na Enseada de Araçatiba, perto da famosa Gruta do Acaiá. Numa outra oportunidade, fomos à praia de Dois Rios e posso dizer que tivemos bastante sorte por não ter chovido naqueles deliciosos dias de verão pois as chuvas caíam só no continente, de modo que o tempo estava excepcionalmente bem seco em Ilha Grande.

De todos os pontos da Ilha Grande que conheci, Dois Rios foi sem dúvida o que mais me agradou até agora. Talvez o grande atrativo dali esteja na existência de dois cursos d'água que desembocam na praia cortando uma pequena área de manguezal, além de povoado ser bem pequeno e pacato. Inclusive, era em Dois Rios onde funcionava o antigo presídio até ser destruído pelo então governador Leonel Brizola, o que, na minha opinião, poderia ter sido muito bem aproveitado para ser um curso de Biologia junto com um centro de pesquisas.

Em nenhuma das duas ocasiões que estive na Ilha Grande consegui percorrê-la por inteiro (faltaram muitas praias do lado voltado para o oceano aberto) e talvez os meus desejos por novidades e pela totalidade ainda me motivem a retornar. Então, se Deus permitir, ainda quero conhecer o Provetá (segundo maior povoado da ilha) e a praia do Aventureiro, iniciando uma longa caminhada a partir do Abraão.

Pelas minhas condições de hoje, não sei quando vou conseguir realizar tal projeto visto que minha esposa ainda está recuperando-se dos seus problemas de saúde, a grana está pouca e os compromissos de trabalho com a advocacia costumam me aprisionar o ano inteiro até a época do recesso forense que vai de 20 de dezembro até 6 de janeiro, quando estão os prazos processuais e as audiências focam suspensos, de modo que, desde 2005, já nem sei mais o que é tirar umas férias.

De qualquer modo, sou grato pelas chances que o Criador proporcionou-me de conhecer não só a Ilha Grande como um montão de outros lugares interessantes, tanto longe quanto perto de casa (meus melhores passeios foram feitos aqui na região de Nova Friburgo andando a pé durante a época de estudante). E, mesmo sentindo falta das caminhadas de outrora, continuo agora andando pelas trilhas da espiritualidade, em busca dos corações das pessoas e de Deus. Uma viagem que considero mais íntima e voltada para dentro de mim.