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sábado, 9 de maio de 2026

Tarifas, qualidade e concessões: o novo paradoxo regulatório do setor elétrico brasileiro



A recente manifestação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a renovação das concessões de distribuição de energia elétrica talvez represente uma das mais importantes sinalizações regulatórias do setor elétrico brasileiro nos últimos anos. Segundo a postagem publicada em sua página no Facebook, no dia 08/05/2026:


"Anunciamos hoje um investimento de quase R$ 130 bilhões para melhorar a qualidade da distribuição de energia elétrica em 13 estados até 2030. Mais do que a cifra, há novas exigências definidas pelo Governo do Brasil nos contratos de renovação de concessão, para que as distribuidoras ofereçam um serviço cada vez melhor para famílias, empresas e indústria. 

Conheça algumas das diretrizes:

» A satisfação do consumidor passa a ser indicador de avaliação das distribuidoras  

» A qualidade oferecida tem de ser a mesma em todos os bairros das cidades

» Metas obrigatórias para restabelecer a luz após temporais e eventos extremos

» Melhoria dos canais de atendimento à população

» Fortalecimento das redes em áreas rurais e destinadas à agricultura familiar  

» Regularizar a situação caótica de compartilhamento de fios de energia elétrica e de comunicações nas cidades brasileiras

» Critérios claros para definir situações que podem levar ao fim da concessão

Atualizamos também o Luz Para Todos, uma das mais ambiciosas iniciativas de inclusão energética do mundo. Com o atendimento de 18 milhões de pessoas desde 2003 e a universalização do acesso a quase 99,8% da população, prorrogamos o programa até 2028/29. O foco será em mulheres chefes de família e comunidades vulneráveis e isoladas, com projeção de atender cerca de 230 mil famílias e previsão de uso produtivo da energia, voltado para a geração de renda e o fortalecimento de cadeias locais."


À primeira vista, o anúncio parece concentrar-se no investimento de aproximadamente R$ 130 bilhões previsto até 2030 e na prorrogação do programa Luz para Todos. Mas a dimensão mais relevante talvez esteja em outro ponto: a tentativa de redefinir a própria lógica das concessões elétricas no Brasil.

Historicamente, o modelo regulatório brasileiro concentrou-se sobretudo em três pilares: expansão da rede, equilíbrio econômico-financeiro e sustentabilidade dos investimentos.

A qualidade percebida pelo consumidor, embora presente nos indicadores técnicos tradicionais, muitas vezes aparecia de forma agregada e distante da realidade concreta enfrentada pela população.

Foi justamente aí que o discurso presidencial pareceu buscar uma inflexão.

Quando o governo afirma que “a qualidade oferecida tem de ser a mesma em todos os bairros das cidades”, o que se percebe é uma tentativa de deslocar o foco regulatório da simples universalização formal do serviço para uma lógica de qualidade territorializada.

Essa mudança é significativa.

Durante décadas, indicadores médios de continuidade do serviço permitiram que determinadas regiões periféricas, rurais ou menos rentáveis recebessem atendimento inferior sem que isso necessariamente comprometesse o desempenho global da concessionária. O novo discurso regulatório sugere uma menor tolerância institucional a essas assimetrias.

Ao mesmo tempo, o anúncio incorpora um elemento cada vez mais central na infraestrutura contemporânea: a resiliência climática.

As metas obrigatórias para recomposição do fornecimento após temporais e eventos extremos revelam que o governo já internaliza o impacto crescente das mudanças climáticas sobre a operação das redes elétricas. Isso dialoga diretamente com os grandes apagões recentes e com o desgaste público enfrentado por distribuidoras em diversas regiões do país.

Nesse contexto, a situação da Enel Brasil ganhou dimensão simbólica.

Embora a crise mais intensa tenha ocorrido em São Paulo, onde apagões prolongados produziram forte reação política e institucional, o debate acabou irradiando para todo o modelo de concessões. No Rio de Janeiro, a concessão da Enel também passou a operar sob ambiente regulatório mais rigoroso, especialmente diante da vulnerabilidade climática de regiões como Costa Verde, Serra Fluminense e áreas rurais extensas.

O próprio debate recente nos órgãos de controle e no âmbito das agências reguladoras passou a demonstrar menor tolerância institucional à degradação da qualidade do serviço prestado, especialmente em setores considerados essenciais e intensivos em infraestrutura crítica.

A percepção de que indicadores agregados muitas vezes mascaravam falhas territoriais relevantes contribuiu para ampliar a pressão por mecanismos regulatórios mais responsivos e por critérios mais rigorosos de acompanhamento da prestação do serviço.

A mensagem política do governo parece clara: a renovação das concessões deixa de ser percebida como procedimento meramente automático e passa a exigir demonstração concreta de qualidade, eficiência operacional e capacidade de resposta.

Mas essa nova lógica produz um desafio complexo.

As próprias medidas anunciadas pelo governo implicam aumento potencial de custos regulatórios:


  • fortalecimento da rede;
  • modernização tecnológica;
  • enterramento ou reorganização de fiação;
  • ampliação da resiliência climática;
  • reforço do atendimento rural;
  • expansão da capacidade operacional em eventos extremos.


Tudo isso exige investimento intensivo em capital.

Na prática regulatória, isso significa expansão relevante da Base de Remuneração Regulatória (BRR) das distribuidoras, sobre a qual incide a remuneração do capital reconhecida pela ANEEL.

Ainda que o custo regulatório de capital (WACC) atualmente utilizado no setor elétrico esteja em patamares inferiores aos observados em ciclos anteriores — em torno de aproximadamente 6% a 7% reais, conforme metodologias regulatórias recentes — o aumento expressivo do CAPEX previsto (cerca de R$ 130 bilhões até 2030) pode ampliar significativamente a remuneração total reconhecida às concessionárias.

Em outras palavras: mesmo em cenário de relativa estabilização macroeconômica, o crescimento da base de ativos regulatórios tende a pressionar reajustes tarifários futuros, especialmente nos processos de revisão tarifária periódica e recomposição de investimentos.

Em termos regulatórios, isso cria uma tensão estrutural relevante.

Quanto maior o volume de investimentos reconhecidos pela regulação, maior tende a ser a base de ativos sobre a qual incide a remuneração regulatória das distribuidoras. Assim, mesmo em cenários de relativa redução do custo de capital, a ampliação expressiva do CAPEX pode pressionar os ciclos tarifários futuros.

Trata-se de um paradoxo regulatório particularmente complexo: o mesmo investimento necessário para ampliar qualidade, resiliência climática e modernização da rede pode também produzir aumento relevante da pressão tarifária no médio e longo prazo.

E é justamente aí que emerge um dos debates regulatórios mais relevantes dos próximos anos: o custo de capital das concessionárias e sua repercussão tarifária.

Nos últimos meses, diversos processos regulatórios em agências federais passaram a discutir, ainda que indiretamente, a necessidade de reavaliar parâmetros econômico-financeiros diante da evolução do cenário macroeconômico. Questões como WACC regulatório, custo de financiamento e aderência das premissas econômicas passaram a ocupar espaço crescente nas discussões técnicas.

O paradoxo é evidente.

O governo deseja simultaneamente tarifas moderadas, maior qualidade, redes mais resilientes, ampliação de investimentos, fiscalização mais rígida e maior proteção do consumidor.

Conciliar todos esses objetivos sem pressionar excessivamente as tarifas talvez seja o principal desafio do novo ciclo regulatório do setor elétrico brasileiro.

Nesse cenário, o debate deixa de ser apenas econômico e passa a assumir dimensão jurídica e institucional.

A própria Lei nº 8.987/1995 estabelece, em seu art. 9º, a necessidade de preservação do equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão, enquanto o art. 38 disciplina hipóteses de caducidade diante da inadequação da prestação do serviço.

Isso significa que o novo modelo regulatório precisará equilibrar simultaneamente estabilidade contratual, segurança jurídica, capacidade de investimento, qualidade da prestação do serviço e proteção efetiva do usuário.

O desafio torna-se ainda mais complexo porque o endurecimento regulatório — inclusive com maior discussão sobre hipóteses de caducidade ou responsabilização das concessionárias — não elimina a necessidade de preservação da atratividade econômica do setor, especialmente em atividades altamente intensivas em capital e dependentes de financiamento de longo prazo.

O equilíbrio econômico-financeiro das concessões não pode ser compreendido apenas como mecanismo de proteção da concessionária. Tampouco a modicidade tarifária pode ser reduzida à simples contenção artificial de preços. O verdadeiro desafio regulatório consiste em construir um modelo capaz de equilibrar remuneração adequada, investimento eficiente, estabilidade regulatória, qualidade do serviço e proteção efetiva do usuário.

O anúncio do governo federal indica que o Brasil pode estar ingressando em uma nova fase regulatória.

Uma fase em que a legitimidade das concessões dependerá menos da simples expansão da infraestrutura e cada vez mais da capacidade de entregar qualidade real, resiliência operacional e percepção concreta de eficiência ao consumidor.

E isso tende a redefinir profundamente a relação entre Estado, agências reguladoras, concessionárias e usuários nos próximos anos.

Mais do que uma simples renovação contratual, o que parece estar em curso é uma tentativa de redefinir os próprios critérios de legitimidade das concessões públicas no Brasil contemporâneo.

sábado, 2 de maio de 2026

Governar ou tensionar? O dilema do Executivo após a derrota no Senado



Por ocasião da recente crise institucional envolvendo a rejeição de indicação ao Supremo Tribunal Federal, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva se vê diante de uma escolha que vai além do episódio imediato: governar com o Senado que existe ou tensionar para disputar o Senado que virá.


1. O diagnóstico do Valor Econômico: indecisão e rearranjo institucional

Uma interessante reportagem do Valor Econômico neste sábado (02/05) descreve um cenário de indecisão no núcleo duro do governo após a rejeição do nome de Jorge Messias pelo Senado.

Segundo a matéria, o presidente Lula avalia dois caminhos principais:


  • Reapresentar o nome de Messias, insistindo na indicação rejeitada;
  • Ou adotar uma postura mais assertiva, descrita como um possível “xeque-mate” no Senado, o que, por sua vez, implicaria uma estratégia de enfrentamento político.


O texto destaca que a derrota foi significativa e fora do padrão histórico, refletindo um ambiente de maior resistência do Senado ao Executivo. A proximidade das eleições de outubro também aparece como fator relevante, com senadores mais sensíveis a cálculos eleitorais do que à disciplina de base governista.

Além disso, a matéria sugere que a decisão não é apenas jurídica ou administrativa, mas profundamente política: qualquer movimento do presidente será interpretado como sinal de força ou fraqueza perante o Congresso.

Esse contexto confirma que a rejeição não se limita ao nome indicado, mas expressa um rearranjo nas relações entre Executivo e Legislativo, com impacto direto na governabilidade.


2. Reapresentar o nome: governar dentro dos limites institucionais

A primeira alternativa — reapresentar Jorge Messias — significaria uma tentativa de preservar a lógica tradicional de governabilidade.


✔️ Vantagens:

  • Sinaliza coerência e fidelidade política;
  • Evita escalada de conflito institucional;
  • Mantém canais de negociação com o Senado.


⚠️ Riscos:

  • Alta probabilidade de nova derrota, dada a autonomização do Senado em ano eleitoral;
  • Reforço da percepção de fragilidade política;
  • Possível desgaste adicional do governo.


📌 Leitura técnica:

Essa opção parte da premissa de que ainda é possível recompor maioria dentro do próprio Senado.

No entanto, os dados recentes — rejeição inédita, ambiente eleitoral e fragmentação política — indicam que essa premissa é cada vez menos sustentável.

Nesse cenário, insistir na reapresentação do nome deixa de ser uma estratégia de governabilidade e passa a se aproximar de uma aposta de alto risco institucional, com baixa probabilidade de êxito político imediato.


3. Tensionar o Senado: deslocar o conflito para o campo político

A segunda alternativa — tensionar a relação institucional — representa uma mudança de lógica.

Esse movimento já começa a se manifestar no debate público. Setores da base política, a exemplo de uma fala do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) nas redes sociais, defendem que a derrota no Senado pode ser convertida em oportunidade de mobilização, inclusive com a indicação de um nome que simbolize agendas sociais e identitárias, como forma de deslocar o conflito para a arena pública e eleitoral.



Mais do que a escolha de um nome específico, esse tipo de posicionamento revela uma estratégia. Trata-se, em essência, de transformar uma derrota institucional em disputa política ampliada, deslocando o centro da decisão para fora do Senado.

Aqui, o governo deixaria de buscar apenas a aprovação do nome e passaria a politizar o conflito com o Senado.


✔️ Vantagens:

  • Pode gerar mobilização política e social;
  • Reposiciona o governo como ator ativo, e não reativo;
  • Explora o contexto eleitoral, em que 54 das 81 cadeiras do Senado estarão em disputa.


⚠️ Riscos:

  • Agravamento do bloqueio legislativo;
  • Dificuldade de aprovação de pautas prioritárias;
  • Isolamento institucional no curto prazo.


📌 Leitura técnica:

Essa estratégia parte de outra premissa: o conflito institucional pode ser convertido em capital político eleitoral.

Mas há um limite importante.

O ganho eleitoral é incerto enquanto o custo institucional é imediato.


4. O verdadeiro dilema: tempo político versus tempo institucional

O ponto central não está na escolha do nome, mas na incompatibilidade entre dois tempos:


  • tempo institucional, que exige decisões imediatas (indicação ao STF, agenda legislativa);
  • tempo eleitoral, que projeta ganhos futuros (renovação do Senado, recomposição de base).


Essa tensão cria um cenário clássico de trade-off:


Caminho Benefício Custo
Governar (reapresentar) estabilidade institucional risco de nova derrota
Tensionar potencial ganho político bloqueio imediato


5. Conclusão: a escolha que definirá o padrão de governo

A decisão que o Executivo vier a tomar não será apenas tática — será estrutural.

Optar por governar dentro dos limites atuais significa aceitar a fragmentação do Senado e buscar recomposição gradual.

Optar por tensionar implica apostar na reconfiguração política via eleições, assumindo custos institucionais no presente.

Nesse contexto, a questão deixa de ser jurídica ou procedimental e passa a ser essencialmente política: governar com o Congresso que existe — ou disputar o Congresso que virá.

Em última análise, a decisão não dirá apenas como o governo pretende preencher uma vaga no Supremo Tribunal Federal — dirá como pretende governar sob pressão: pela negociação dentro das instituições ou pela mobilização para além delas.


📷: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Desenrola 2.0 e o problema estrutural: por que o mês não fecha no Brasil



As recentes sinalizações do governo federal em torno do Desenrola 2.0, com descontos que podem chegar a 90% nas dívidas, somadas à proposta de restringir instituições que pratiquem juros considerados abusivos, revelam algo importante: o problema do endividamento das famílias brasileiras deixou de ser tratado como um fenômeno individual e passou a ser reconhecido como uma questão estrutural da economia.

E esse reconhecimento, por si só, já representa um avanço.

O Desenrola — em sua primeira versão e agora em sua possível ampliação — cumpre uma função essencial: atua sobre o estoque de dívida, permitindo que milhões de brasileiros reorganizem sua vida financeira, recuperem acesso ao crédito e voltem a participar da economia formal.

Do ponto de vista macroeconômico, isso é altamente relevante.

Reduzir passivos acumulados, limpar registros de inadimplência e substituir dívidas com juros de 6% a 10% ao mês por condições mais equilibradas tende a destravar consumo, melhorar a circulação de crédito e gerar efeitos positivos sobre a atividade econômica. Não se trata apenas de política social — é também política econômica.

Mas há um ponto que precisa ser enfrentado com clareza.

O avanço recente — seja pela renegociação em escala, seja pela tentativa de disciplinar o custo do crédito — aponta na direção correta, mas ainda não resolve o ponto central: a capacidade de o fluxo mensal das famílias sustentar o custo de viver.


Limpar só o nome não resolve por que a dívida se forma novamente

O Desenrola resolve o passado.
O desafio continua sendo o presente — e, sobretudo, o futuro imediato das famílias.

Se a estrutura que levou ao endividamento permanece inalterada, o sistema tende a se recompor. Em outras palavras: a dívida volta.

E por quê?

Porque o problema central não está apenas no valor das dívidas, mas no funcionamento do fluxo mensal das famílias.

A realidade de grande parte dos brasileiros pode ser resumida em um ciclo simples:


renda insuficiente → crédito para fechar o mês → juros que comprimem a renda futura → nova dependência de crédito


Enquanto esse mecanismo não for interrompido, qualquer política baseada apenas em renegociação terá efeito limitado.


O controle de juros: necessário, mas insuficiente

Nesse contexto, a proposta de restringir instituições que pratiquem juros considerados abusivos parte de um diagnóstico correto: o custo do crédito no Brasil, em diversas modalidades, pode se distanciar significativamente da capacidade de pagamento das famílias.

Trata-se de um esforço relevante para disciplinar o mercado e reduzir distorções.

Mas também aqui há um limite.

Regular o preço do crédito — seja por teto direto, seja por parâmetros estatísticos — atua sobre um elemento do problema, mas não altera sua base estrutural.

Sem mudanças na renda e, principalmente, no custo de vida, o crédito continuará sendo utilizado como instrumento de sobrevivência — ainda que a taxas menores.

O risco, nesse cenário, é produzir alívio parcial sem romper o ciclo.

É importante reconhecer, contudo, os efeitos colaterais potenciais de intervenções sobre o preço do crédito. 

Experiências anteriores indicam que limites mais rígidos podem levar à redução da oferta, aumento da seletividade e deslocamento do crédito para modalidades menos reguladas. 

Em contextos de maior incerteza regulatória, instituições tendem a restringir operações em segmentos de maior risco — justamente onde estão os consumidores mais vulneráveis. Por isso, a regulação de juros deve ser calibrada, combinando disciplina de mercado com previsibilidade e transparência.


O ponto central: o mês não fecha

Dados recentes ajudam a dimensionar o problema.

Mais de dois terços dos brasileiros estão endividados. Uma parcela relevante está inadimplente.

Dados recentes do Banco Central, referentes ao início de 2026, indicam que cerca de 29% da renda das famílias está comprometida com dívidas. Em um contexto de inflação anual próxima de 4% e taxa básica de juros em torno de 10,5%, esse nível de comprometimento reduz significativamente a margem de manobra das famílias, sobretudo diante de choques em itens essenciais.

Isso significa que, antes mesmo de qualquer imprevisto, uma parte significativa da renda já está previamente destinada a compromissos financeiros.

Ao mesmo tempo, o custo de vida básico — com alimentação, moradia e contas essenciais — frequentemente consome a maior parte do orçamento, especialmente entre famílias de menor renda.

Em muitos casos, o essencial já ultrapassa a renda disponível.

Nesse contexto, recorrer ao crédito deixa de ser escolha e passa a ser necessidade.


Mais do que dívida bancária: o crédito social

Há ainda um aspecto pouco discutido.

Parte relevante do endividamento ocorre fora do sistema financeiro formal — em empréstimos entre familiares, amigos ou conhecidos.

Quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas econômico e passa a ser também social.

O crédito deixa de ser apenas bancário e se torna relacional, baseado em confiança.
E a inadimplência deixa de afetar apenas contratos — passa a afetar vínculos.

Esse é um dos sinais mais claros de que o problema ultrapassou o sistema financeiro.

A agenda de crédito responsável no Brasil ganhou base jurídica mais robusta com a Lei 14.181/2021, que atualizou o Código de Defesa do Consumidor para tratar do superendividamento. A norma introduziu princípios de concessão responsável de crédito, reforçou o dever de informação e abriu espaço para mecanismos de repactuação que preservem o mínimo existencial. 

Trata-se de avanço relevante, pois reconhece que a solvência do consumidor não é apenas questão contratual, mas também de equilíbrio econômico. Ainda assim, sua efetividade depende da articulação com renda, custo de vida e desenho do crédito — sob pena de atuar apenas quando o problema já se consolidou.

Esse movimento recente também precisa ser compreendido em uma dimensão institucional mais ampla. 

O Desenrola, a política monetária conduzida pelo Banco Central do Brasil e a disciplina jurídica do crédito — especialmente após a reforma do Código de Defesa do Consumidor pela Lei 14.181/2021 — passam a compor um mesmo arranjo regulatório, ainda que de forma não plenamente coordenada. 

Enquanto o Desenrola atua sobre o estoque e a política monetária influencia o custo agregado do crédito, o direito do consumidor busca estabelecer limites normativos à sua concessão.

Há, contudo, um risco relevante nesse processo: intervenções localizadas sobre determinadas modalidades de crédito podem gerar efeitos de deslocamento, com migração da oferta para segmentos menos regulados ou com menor visibilidade institucional — como o consignado privado, cooperativas ou formas indiretas de financiamento ao consumo. 

Conforme já se observa em debates recentes sobre o consignado privado, a restrição de juros em um nicho pode empurrar o crédito para outros canais de financiamento, muitas vezes menos transparentes e menos regulados. Trata-se de fenômeno conhecido em regulação financeira: quando o custo é comprimido em um ponto, o sistema tende a se reorganizar em outro. 

Por isso, a atuação estatal precisa ser coordenada e sistêmica, sob pena de reduzir distorções em um segmento enquanto as reproduz em outros.


O que ainda falta: atuar sobre o fluxo

Se o Desenrola atua sobre o estoque e o controle de juros atua sobre o preço, o ponto que ainda precisa ser enfrentado é o fluxo mensal das famílias.

Isso envolve quatro dimensões centrais:


1. Renda

Crescimento real gradual, previsibilidade e ampliação do emprego formal.

2. Custo de vida

Redução estrutural de despesas essenciais: energia, água e gás, transporte, alimentação e habitação.

3. Crédito

Oferta mais justa, transparente e compatível com a capacidade de pagamento.

4. Poupança e proteção

Mecanismos de reserva e, quando necessário, instrumentos de segunda linha inspirados no direito do superendividamento, capazes de evitar que choques se transformem em ciclos de dívida.


Pode-se dizer que, no campo da renda, programas como o Bolsa Família cumprem papel importante ao estabilizar o consumo básico e reduzir a vulnerabilidade imediata. Ao garantir um piso mínimo previsível, contribuem para evitar que despesas essenciais sejam convertidas diretamente em dívida. 

No entanto, seu alcance é limitado quando isolado: sem redução do custo de vida e sem serviços públicos eficazes, parte relevante do benefício acaba absorvida por despesas rígidas. 

Em outras palavras, a política de renda é condição necessária — mas não suficiente — para fazer o mês fechar.


Mais do que política de dívida: política de custo de viver

O Brasil já avançou ao reconhecer o problema e agir sobre ele.

Mas o passo seguinte exige uma mudança de perspectiva: não basta reduzir dívidas — é preciso reduzir o custo de viver.

Porque, no limite, o verdadeiro problema não é quanto as famílias devem. É por que precisam se endividar para viver.

Essa discussão também pode ser compreendida sob uma perspectiva constitucional. O chamado “custo de viver” não é apenas uma variável econômica, mas se relaciona diretamente com a concretização de direitos fundamentais, como a dignidade da pessoa humana e a garantia do mínimo existencial. 

O acesso à moradia, à energia, ao transporte e à alimentação não pode ser tratado exclusivamente como questão de mercado quando sua ausência compromete a própria capacidade de subsistência.

Nesse sentido, o endividamento recorrente deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a refletir uma tensão estrutural entre renda disponível e condições materiais de vida. Quando despesas essenciais consomem a maior parte — ou a totalidade — da renda, o crédito passa a operar como substituto imperfeito de direitos básicos. 

A consequência é a transformação de necessidades fundamentais em obrigações financeiras, deslocando para o indivíduo um ônus que, em alguma medida, pertence ao desenho institucional da economia. 

Ao transformar condições materiais mínimas de vida em ônus creditício, o sistema desloca para o direito privado uma responsabilidade que, em última análise, é da própria ordem econômica constitucional.


Conclusão: o desafio que permanece

O Desenrola 2.0 é necessário.
O controle de juros é relevante.

Mas, isoladamente, ambos são insuficientes.

O desafio estrutural continua sendo este: fazer o mês fechar sem depender do crédito — de forma recorrente e sustentável.

Enquanto isso não acontecer, o sistema continuará operando da mesma forma — apenas com pausas temporárias.

E o crédito seguirá sendo, na prática, a política econômica invisível — e, muitas vezes, inevitável — das famílias brasileiras.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Infraestrutura Comum, Sentidos Fragmentados: Brasil, Índia e o Paradoxo da Era Digital


📸: Ricardo Stuckert


O evento internacional de tecnologia realizado na Índia, palco da recente manifestação do presidente brasileiro sobre inteligência artificial e desigualdade, não foi apenas um encontro sobre inovação. Foi, sobretudo, um momento de disputa narrativa sobre o significado político da transformação digital no século XXI.

Ao afirmar que “sem ação coletiva, a Inteligência Artificial aprofundará desigualdades históricas” e que “quando poucos controlam algoritmos e infraestruturas digitais (…) falamos de dominação”, o presidente recolocou o debate tecnológico no terreno da justiça social e da soberania democrática.



Mas o que os últimos dez anos revelam quando comparamos Brasil e Índia — dois grandes países do Sul Global — sob a ótica da evolução tecnológica e social?


1. A convergência da infraestrutura

Entre 2016 e 2026, Brasil e Índia passaram por uma revolução silenciosa.

No Brasil, a expansão do 4G, a chegada do 5G e a digitalização de serviços públicos culminaram na consolidação do Pix, sistema criado pelo , que transformou a infraestrutura financeira nacional.

Na Índia, o sistema de pagamentos UPI e a identidade digital Aadhaar consolidaram uma arquitetura digital pública em escala continental, convertendo o país em referência global de infraestrutura digital inclusiva.

Ambos os países:


  • ampliaram drasticamente a conectividade móvel;
  • integraram milhões de cidadãos ao sistema financeiro digital;
  • passaram a depender das mesmas plataformas globais de nuvem e redes sociais;
  • inseriram-se em cadeias tecnológicas transnacionais.


Nunca fomos tão conectados tecnicamente.

A infraestrutura é compartilhada.
Os cabos submarinos são comuns.
Os algoritmos operam globalmente.

Há uma homogeneização material da base tecnológica.


2. A divergência simbólica

Paralelamente à expansão da conectividade, Brasil e Índia viveram intensificação da polarização política, disputas narrativas amplificadas por redes sociais e crescente fragmentação do espaço público.

A promessa inicial da internet — criar uma ágora global — cedeu espaço à segmentação algorítmica.

Cada indivíduo passou a habitar um microambiente informacional.
A infraestrutura unifica.
O sentido fragmenta.

A frase que emerge como síntese dessa década é esta:


Nunca fomos tão conectados tecnicamente porque dependemos da mesma infraestrutura global.

Nunca fomos tão fragmentados simbolicamente porque não partilhamos mais o mesmo sentido do mundo.


Essa tensão ajuda a compreender o alerta presidencial sobre “integridade da informação” e “proteção da democracia”. O problema já não é apenas acesso à tecnologia — é coesão simbólica.


3. O Sul Global e a disputa pela governança digital

O fato de a declaração ter sido feita na Índia não é trivial. Brasil e Índia não são apenas mercados consumidores de tecnologia; buscam afirmar-se como protagonistas na governança digital global.

Ambos defendem:


  • maior regulação das grandes plataformas;
  • soberania de dados;
  • inclusão digital como política pública;
  • proteção das indústrias criativas nacionais.


Há uma tentativa de deslocar o eixo do debate, tradicionalmente centrado nos Estados Unidos e na Europa, para uma perspectiva do Sul Global.

No entanto, a ambição regulatória convive com uma dependência estrutural das mesmas infraestruturas privadas globais que se pretende disciplinar.

Esse é o paradoxo central.


4. Inclusão técnica não é integração social

O aumento do acesso à internet e a digitalização financeira produziram inclusão funcional. Milhões passaram a realizar pagamentos instantâneos, acessar serviços públicos online e participar do comércio eletrônico.

Mas inclusão técnica não significa integração social.

O crescimento da conectividade não eliminou:


  • desigualdades regionais;
  • assimetrias educacionais;
  • tensões políticas;
  • conflitos identitários.


A tecnologia ampliou vozes — mas também ampliou antagonismos.


5. O dilema da próxima década

Se a década passada foi marcada pela expansão da infraestrutura, a próxima será definida pela disputa sobre seu significado.

A inteligência artificial, mencionada pelo presidente, não é apenas uma ferramenta produtiva. É uma tecnologia estruturante de poder simbólico: organiza fluxos de informação, molda percepções e influencia decisões coletivas.

O desafio não é apenas evitar a exclusão digital.
É evitar a dissolução do espaço comum de sentido.


Conclusão

Quando, em 2016, escrevi sobre “uma espécie cada vez mais dividida”, antecipava uma tensão que os números de 2026 apenas confirmam: a aceleração tecnológica produz inclusão funcional, mas não garante unidade simbólica nem justiça distributiva. Brasil e Índia tornaram-se laboratórios vivos desse paradoxo digital contemporâneo — capazes de conectar centenas de milhões em poucos anos e, ainda assim, aprofundar disputas narrativas, desigualdades estruturais e assimetrias de poder.

A infraestrutura se universaliza; o sentido permanece fragmentado. A divisão não decorre da ausência de tecnologia, mas da maneira como ela é apropriada social e politicamente. A infraestrutura global nos conectou como nunca — porém a experiência simbólica tornou-se cada vez mais segmentada.

O alerta presidencial sobre desigualdade algorítmica e dominação estrutural, proferido na Índia, insere-se nesse contexto mais amplo: não se trata apenas de distribuir acesso, mas de reconstruir o espaço público compartilhado. Como antevia Roberto Mangabeira Unger, urge “reconstruir uma estratégia de desenvolvimento voltada para a democratização da economia do lado da oferta, das oportunidades produtivas e educacionais”.

A era digital produziu uma humanidade tecnicamente interdependente e simbolicamente fragmentada. A pergunta decisiva que emerge do encontro na Índia é clara: seremos capazes de transformar a infraestrutura comum em um sentido comum — ou permaneceremos conectados por cabos e divididos por narrativas?


📊 Nota final — Indicadores comparativos (Brasil e Índia, 2016–2026)

1. Conectividade à internet

  • Brasil: saiu de cerca de 60–65% de usuários de internet em 2016 para patamar superior a 85% em meados da década atual.
  • Índia: avançou de aproximadamente 30–35% em 2016 para algo próximo de 65–70%, com crescimento acelerado impulsionado por dados móveis de baixo custo.


2. Pagamentos digitais

  • Brasil: o Pix, lançado em 2020 pelo Banco Central, ultrapassou rapidamente a marca de centenas de milhões de transações diárias, tornando-se infraestrutura essencial da economia.
  • Índia: o sistema UPI movimenta bilhões de transações mensais, consolidando o país como referência global em pagamentos instantâneos de grande escala.


3. Eletrificação

  • Brasil: mantém índice próximo da universalização (acima de 99% dos domicílios com acesso à energia).
  • Índia: elevou significativamente sua taxa de eletrificação na última década, aproximando-se da universalização formal, embora persistam desafios de qualidade e estabilidade do fornecimento em áreas rurais.


4. Economia digital

  • Brasil: crescimento expressivo de fintechs, e-commerce e digitalização de serviços públicos.
  • Índia: consolidação como polo global de serviços de TI e expansão de políticas industriais voltadas a semicondutores e inteligência artificial.


Síntese estatística:

Ambos os países ampliaram dramaticamente a inclusão digital e a digitalização econômica. Contudo, os indicadores sociais — renda, desigualdade regional, acesso educacional — continuam revelando assimetrias internas relevantes.

A expansão quantitativa da infraestrutura não eliminou a fragmentação qualitativa do tecido social.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Três anos de governo: união, reconstrução e colheita — expectativas para 2026



As imagens que sintetizam os últimos anos de governo comunicam mais do que slogans: elas organizam um sentido político de ciclo. União, reconstrução e colheita não são apenas palavras; são etapas de um processo de retomada democrática, institucional e social após um período de rupturas, conflitos e desorganização do Estado. Ao avaliar os três primeiros anos da atual gestão federal, é possível identificar coerência entre discurso, prioridades e resultados, ainda que persistam desafios estruturais.


2023 — O ano da União

O primeiro ano foi marcado pela recomposição do tecido democrático. A prioridade foi estabilizar o país institucionalmente, restaurar pontes entre Poderes, reconstruir a credibilidade internacional e revalorizar políticas públicas que haviam sido desmontadas.

Entre os principais marcos, destacam-se:


  • A defesa firme da democracia e das instituições, com resposta política e jurídica aos ataques ao Estado de Direito;
  • A retomada do diálogo federativo, com estados e municípios voltando a ser tratados como parceiros;
  • O reposicionamento do Brasil no cenário internacional, com diplomacia ativa, ambientalmente responsável e voltada à cooperação Sul-Sul;
  • A reconstrução de políticas sociais, com a reorganização do sistema de proteção à população mais vulnerável.


A união não significou unanimidade, mas sim capacidade de governar em ambiente plural, resgatando a normalidade democrática e reduzindo tensões que paralisavam o país.


2024 — O ano da Reconstrução

Com a estabilidade política mínima restabelecida, o segundo ano aprofundou a reconstrução do Estado e da capacidade de planejamento público. Foi o momento de reerguer estruturas administrativas, recuperar programas estratégicos e recolocar o desenvolvimento no centro da agenda.

Entre os avanços, podem ser citados:


  • A retomada dos investimentos públicos, com foco em infraestrutura, saúde, educação e ciência;
  • A reconstrução da política ambiental, com queda significativa do desmatamento e recuperação do protagonismo climático do Brasil;
  • A reindustrialização como política de Estado, estimulando inovação, tecnologia e geração de empregos qualificados;
  • O fortalecimento de empresas e instituições estratégicas, essenciais à soberania nacional.


Reconstruir significou planejar o futuro, corrigindo distorções herdadas e devolvendo ao Estado sua função indutora do desenvolvimento.


2025 — O ano da Colheita

O terceiro ano simboliza os resultados concretos das escolhas feitas desde o início do mandato. A colheita aparece na melhoria de indicadores sociais, no crescimento econômico com inclusão e no aumento da confiança da sociedade nas políticas públicas.

Entre os sinais mais visíveis dessa fase:


  • Redução da fome e da pobreza extrema;
  • Geração de empregos e recuperação da renda do trabalho;
  • Fortalecimento da agricultura, da produção de alimentos e do mercado interno;
  • Ampliação de investimentos estruturantes por meio de programas como o novo PAC.


A colheita não é um ponto final, mas a confirmação de que o caminho adotado produziu resultados, especialmente para quem mais depende do Estado.


2026 — O ano da Verdade: expectativas e desafios

O quarto ano se apresenta como o momento da verdade política. É quando o governo será avaliado não apenas por intenções, mas pelo conjunto da obra. As expectativas para 2026 envolvem consolidar avanços e enfrentar entraves históricos.

Entre os principais desafios estão:


  • Aprofundar a justiça social e reduzir desigualdades regionais;
  • Avançar em reformas que tornem o Estado mais eficiente sem perder seu caráter social;
  • Enfrentar a desinformação e o extremismo político que ainda ameaçam a democracia;
  • Sustentar o crescimento econômico com responsabilidade fiscal e inclusão.


Se os três primeiros anos foram de reconstrução e entrega de resultados, 2026 será o ano de prestar contas à sociedade, reafirmando o compromisso com a democracia, o desenvolvimento e a verdade dos fatos.


Considerações finais

O balanço dos três primeiros anos indica um governo que escolheu reconstruir o país a partir do diálogo, da política pública e da centralidade do povo. Em um cenário internacional instável e com heranças internas complexas, a gestão demonstrou capacidade de liderança, resiliência institucional e foco social.

A expectativa para 2026 é que o país chegue a esse momento com mais estabilidade, menos desigualdade e maior clareza sobre qual projeto de nação está em disputa. A verdade, afinal, não se impõe por discurso — ela se revela nos resultados.

sábado, 6 de dezembro de 2025

A nova pesquisa Datafolha e a urgência de Lula buscar o centro



A pesquisa Datafolha divulgada nesta primeira semanas de dezembro de 2025 mostra que a avaliação do governo Lula está estagnada — com 32% dos entrevistados considerando a gestão “ótima ou boa”, e 37% a classificando como “ruim ou péssima” enquanto outros 30% veem o governo como “regular”.

No recorte da avaliação pessoal do presidente, há um leve empate técnico: 49% aprovam o trabalho de Lula, enquanto 48% o desaprovam.

Esses números pintam um retrato claro: o governo vive uma fase de base razoável — mas insuficiente para impor sua agenda com força plena, especialmente se houver polarização, crise econômica ou disputa eleitoral acirrada. Com aprovação abaixo de 1/3 da população e reprovação superior, o “núcleo duro” de apoio parece já esgotado.


Por que esse cenário torna essencial buscar alianças no centro


  1. Ampliar a base de apoio na sociedade: Uma aprovação de 32% revela que o apoio se limita a um segmento da população. Para consolidar governabilidade — e para que as reformas que o governo pretende implementar tenham respaldo —, será preciso atrair eleitores decepcionados com o radicalismo de direita ou com as oposições tradicionais. O centro — composto de eleitores pragmáticos, moderados ou insatisfeitos com extremismos — é, portanto, alvo estratégico.

  2. Diluir a polarização e reduzir riscos eleitorais: Numa disputa polarizada, com candidatos extremados, a margem de 5 pontos (diferença entre aprovação e reprovação) é muito frágil. Para Lula garantir chances sólidas em 2026, precisa buscar composições de governo ou alianças políticas que atraiam quem está “em cima do muro” ou descontente com o radicalismo. Um centro forte pode ser o diferencial.

  3. Estabilidade institucional e governabilidade: Com apoio restrito a nichos, qualquer crise — econômica, social ou de segurança — pode rapidamente ampliar a rejeição. Alianças mais amplas, com partidos e lideranças de centro, podem dar ao governo maior margem para negociar, governar e aprovar medidas.

  4. Construção de narrativa de união e pragmatismo: Num momento em que boa parte da população está dividida, um governo que se apresenta como moderado, disposto a dialogar e aberto a consensos ganha respeito — e neutraliza ataques de opositores radicais. A moderação e o pragmatismo podem ser mais atrativos do que a pureza ideológica.


Conclusão


A nova pesquisa do Datafolha evidencia um fato inegável: o governo Lula hoje não conta com ampla aprovação — e navegar com 32% de aval e 37% de rejeição é um caminho instável. Para manter relevância política, garantir governabilidade e pavimentar uma eventual disputa em 2026 com chances de vitória, é imprescindível que Lula busque alianças sólidas no campo do centro político e social.

Somente assim ele poderá ampliar sua base de apoio, neutralizar polarizações extremas e reconstruir uma narrativa de governabilidade realista e abrangente.


📷: Ricardo Stuckert/Presidência da República

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

🌱 O Brasil nos últimos três anos: crescimento econômico com propósito



Nos últimos três anos, a economia brasileira apresentou sinais claros de recuperação: o PIB cresceu de forma consistente, a renda média por habitante avançou e o desemprego caiu a níveis históricos, trazendo mais empregos formais e oportunidades para milhões de brasileiros. Mas será que isso significa que estamos “bem-sucedidos” ou “mal-sucedidos” apenas porque saímos ou nos aproximamos do top 10 das maiores economias do mundo?

Na verdade, o tamanho do PIB em dólares é apenas um número, que não revela o quanto a população realmente se beneficia do crescimento. O verdadeiro objetivo do desenvolvimento econômico deve ser proporcionar qualidade de vida, oportunidades reais e bem-estar para todos, conforme vem fazendo o governo Lula. Isso passa por fatores que vão muito além de rankings: educação de qualidade, saúde acessível, serviços públicos eficientes e políticas que reduzam desigualdades históricas.

Por outro lado, jamais devemos esquecer que um país que deseja crescer de forma sólida e sustentável precisa também produzir tecnologias, investir em pesquisa e inovação, formar talentos e criar indústrias com valor agregado — não apenas exportar commodities ou depender de setores tradicionais. É dessa maneira que o Brasil poderá não só aumentar sua economia, mas se tornar mais competitivo globalmente e gerar riqueza que chegue de forma justa à população.

Portanto, mais importante do que subir no ranking global é garantir que cada brasileiro sinta os benefícios do crescimento: empregos decentes, renda que paga dignamente as contas, educação que transforma vidas e oportunidades que permitam sonhar mais alto. O verdadeiro desenvolvimento é aquele que alcança a todos, e não apenas números em relatórios internacionais.

🌎💡 O Brasil cresce. Contudo, o fundamental é crescer com propósito, tecnologia e justiça social.

sábado, 29 de novembro de 2025

🇧🇷🐆 Brasil: pátria da Onça‑pintada, guardiã das florestas, símbolo da nossa força e soberania




A Onça‑pintada é mais do que um felino magnífico — é um símbolo vivo do Brasil. Ela carrega nas pintas da pele um retrato da grandeza da nossa terra: florestas ancestrais, rios caudalosos, biodiversidade exuberante. Terra que é nossa, para cuidar, respeitar e proteger 🌿✨.

Onde há onça, há floresta viva — e isso significa água limpa, clima equilibrado e um Brasil forte. A presença desse grande felino nos biomas Amazônia, Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica é prova de que somos detentores de riquezas naturais incomparáveis, que posicionam nosso país como berço de biodiversidade e protagonista nas discussões ambientais globais.

Hoje, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, esse protagonismo ganha reforço real: desde 2024/2025, foram anunciados investimentos históricos em proteção ambiental — com recursos robustos ao Ibama e novas tecnologias de fiscalização, no intuito de preservar o que é nosso por direito: a Amazônia, o Pantanal, a Mata Atlântica.

🌎 Também no palco internacional, o Brasil retoma sua voz — não como mero ator, mas como guarda da floresta global. A repercussão de iniciativas de conservação, como as que protegem a onça‑pintada e promovem a restauração de ecossistemas, reforça o nosso papel de liderança na crise climática, no desenvolvimento sustentável e na diplomacia verde.

✨ Que a onça — tão brasileira quanto a alma do país — nos lembre de que desenvolver-se não significa destruir. Significa cuidar, preservar, inovar. Que cada mata protegida, cada rio respeitado e cada felino salvo signifique a afirmação de um Brasil soberano, consciente e orgulhoso de sua natureza — para hoje e para as próximas gerações.

🇧🇷🌿 Que viva a Onça-pintada! Que viva o Brasil!

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Isenção para R$ 5 Mil: Justiça Feita



Hoje é dia de celebrar um passo concreto rumo à justiça social. Com orgulho, vemos o governo do Presidente Lula tornar realidade a tão sonhada isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000 por mês — uma medida que representa mais dignidade e mais justiça tributária para milhões de brasileiros que trabalham duro. 


Para muitos, isso significa mais dinheiro no bolso no fim do mês, menos aperto e mais chance de sonhar, construir, viver com tranquilidade. Uma vitória de quem vive do seu trabalho — e não da especulação. 


É também a realização de uma promessa de campanha e de um compromisso com o povo: o presidente Lula não só falou – ele fez


Enquanto isso, não podemos esquecer que o desgoverno anterior, sob Bolsonaro, prometeu aumentar a faixa de isenção para algo próximo de R$ 5 mil. Porém, mesmo com essa promessa pública, não fez — nem corrigiu a tabela defasada desde 2015. Resultado: milhões de trabalhadores continuaram pagando imposto demais, a despeito da inflação e do descompasso salarial (sem nenhum centavo de aumento real do mínimo). 


Por isso, hoje reforçamos: essa conquista não pode depender de promessas feitas a cada eleição — ela deve se transformar em direito permanente. 


Defendo que a correção da isenção do Imposto de Renda no Brasil se torne automática, indexada à inflação ou à renda média, garantindo que quem ganha pouco ou mediano nunca mais seja penalizado pela defasagem. 


Justiça tributária de verdade é dignidade para o trabalho honesto — e para a maioria do povo brasileiro.


✊🏼🇧🇷 Viva a justiça social! Viva Lula!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Que o salário mínimo brasileiro tenha aumentos reais representativos por muitas décadas!



Chegamos ao último final de semana do ano de 2024 com a promessa quase certamente de que o salário mínimo de 2025 será corrigido para a quantia arredondada de R$ 1.518,00 (mil quinhentos e dezoito reais), passando a valer a partir de janeiro.

O aumento trata-se da aplicação da norma aprovada pelo Legislativo, a qual determina um limite real de crescimento de até 2,5% (dois e meio por cento) ao piso salarial. Desse modo, para o cálculo do salário mínimo deve ser considerado o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) dos últimos 12 meses até novembro, que totalizou 4,84% em 2024, mais os 2,5%, tendo em vista a variação do PIB de dois anos antes, o que alcançou o percentual de 3,2%.

Inegavelmente, o país ficou três anos seguidos sem que houvesse um aumento real do salário mínimo em 2020, 2021 e 2022, durante o período em que Jair Bolsonaro governou o Brasil, época em que era dado apenas o reajuste pelo INPC, sem qualquer acréscimo. Tal descaso causava uma perda no poder de compra das famílias brasileiras, diante da disparada dos preços dos alimentos que foi comum naquele período de retrocessos.

Fato é que as regras atuais, as quais seguem o pacote do corte de gastos, fazem justiça social e fiscal ao mesmo tempo. Isto porque, além dos reajustes proporcionarem ao trabalhador um ganho acima da inflação todos os anos, também permitirá ao governo uma economia com o pagamento de aposentadorias e pensões, por exemplo, tendo em vista que o mínimo é considerado como referência para correção do piso dos benefícios previdenciários no Brasil.

Sabemos que, conforme o artigo 7º, inciso IV, da nossa Constituição Federal, o salário mínimo deve ser capaz de atender às necessidades básicas de um trabalhador e de sua família. E tais necessidades, por sua vez, incluem alimentação, moradia, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social.


" Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

(...)

IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;"


Na prática, o salário mínimo brasileiro ainda está bem distante desse ideal pensado pelo constituinte, apesar de todo ganho real alcançado nos governos anteriores do próprio presidente Lula, ainda na primeira década do século. E, numa comparação com outros países desenvolvidos, mesmo considerando o nosso custo de vida menor quanto à alimentação, realmente nos encontramos muito aquém de um padrão digno.

Penso que, talvez, uma solução para acelerar o aumento do mínimo no Brasil seria fazer com que, nos anos posteriores, o salário deixe de ser a referência no país para corrigir também os benefícios previdenciários. Embora estes também careçam de aumentos reais e o aposentado mereça desfrutar de uma velhice digna numa época da vida em que as despesas do idoso só aumentam, jamais podemos perder de vista que a tendência dos gastos com a Previdência Social tendem a crescer no futuro.

No meu ponto de vista, o teto de 2,5% para os salários poderia até ser dispensável desde que haja um percentual limite para os benefícios previdenciários. Exemplificando, se a aposentadoria pudesse ficar abaixo do novo salário, o governo poderia dar um ganho real aos trabalhadores ativos de 3,2%, reajustando o mínimo para R$ 1.528,00 (mil quinhentos e vinte e oito reais) enquanto o menor valor da aposentadoria ficaria só um pouquinho atrás, sem nenhuma redução.

Como resultado de uma política que privilegie o aumento salarial e desacelere um pouco os reajustes previdenciários, acredito que, dentro de uma década ou menos, já teríamos um número maior de pessoas em atividade. Pois, independentemente dos trabalhadores se aposentarem ou não, os mesmos estarão contribuindo para o INSS.

De qualquer maneira, um aumento real de 2,5% no salário mínimo e nos benefícios previdenciários já pode ser considerado uma conquista. Os R$ 106,00 (cento e seis reais) a mais no contracheque, que equivalem a um total de 7,5%, não apenas vão repor as perdas suportadas ao longo de 2024 como também permitirão a todos esperançar um aumento real acumulado em até 28% quando chegarmos na metade da próxima década, caso a economia prospere até lá.

Que possamos torcer mais pelo Brasil! 

Vida longa ao Presidente Lula!  


OBS: Créditos de imagem atribuídos a Ricardo Stuckert/PR.

sábado, 23 de novembro de 2024

Depois do Lula...

 


A página Análise Política lançou uma pergunta interessante no X (ex-Twitter): "qual o seu político preferido dos partidos progressistas, depois de Lula?"


Entre os quatro da foto acima que printei da postagem, isto é Haddad, Boulos, Erika Hilton e João Campos, logicamente fiquei com o Ministro da Fazenda pois o cara vem fazendo um excelente trabalho na nossa economia desde que assumiu a pasta e está preparado para suceder o Presidente. 


No entanto, a enquete também mencionou o nome de Camilo Santana e deixou em aberto para o internauta indicar outra personalidade ou, simplesmente, informar que não sabe.


Confesso que também fiquei na dívida entre o Haddad e Camilo Santana, os quais logo mencionei nos comentários de lá, considerando a vasta experiência administrativa de ambos...


Só que, depois de melhor refletir, me veio à memória o vice-presidente Geraldo Alckmin. Afinal, considerando que ele foi uns dos melhores governadores de São Paulo e, talvez, teria sido uns dos nomes que eu citaria junto com o da Simone Tebet numa consulta espontânea.


E você, leitor? Qual é o(a) seu(sua) preferido(a)?

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Nosso esporte em evolução!



"Nossa companheira Beatriz Souza do judô acaba de ganhar a primeira medalha de ouro do Brasil na Olimpíada. É importante lembrar que 80% dos atletas que estão em Paris recebem uma coisa chamada Bolsa Atleta, que criamos no Brasil em 2004. Tem várias faixas salariais, mas todo mundo ganha. Fizemos isso porque quando o atleta fica famoso ele tem patrocínio, mas enquanto não é famoso as vezes ele não tem um tênis para andar, a menina não tem um lugar para jogar bola, para saltar, para dançar" (Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República)


Nem todo mundo sabe, mas o programa Bolsa Atleta do governo federal concede auxílio financeiro a 241 dos 276 esportistas brasileiros que estão participando das Olimpíadas de 2024. E os jogos de Paris estão  em evidência a importância do incentivo ao esporte e aos atletas pelo mundo.


Desde 2005, o primeiro ano de vigência do programa, em dezoito anos, o país teve 34.678 atletas com 96.165 bolsas contempladas, o que é fruto de um investimento de R$ 1,6 bilhão até 2023. E, atualmente, mais de nove mil atletas são beneficiados recebendo bolsas que variam de R$ 410 a R$ 16,6 mil, dando condições para que participem de competições nacionais e internacionais, além de subsídios de equipamentos necessários para os treinamentos.


Uns dos exemplos dos beneficiados de maior destaque seria a judoca Beatriz Souza (foto), que ganhou a primeira medalha de ouro nas Olimpíadas de Paris. Ela recebe o valor mais alto pelo governo federal, sendo que, além da Bia, também recebem o auxílio de R$ 16.629,00 os medalhistas Caio Bonfim, prata na marcha atlética, Rebeca Andrade, prata e bronze na ginástica artística, e Rayssa Leal, bronze no skate street feminino.


Para mim, a progressiva melhora do desempenho do Brasil nas Olimpíadas, desde os jogos de Pequim (2008), comprova essa relação com o programa. A meu ver, percebo que temos alcançado melhores resultados numa variedade maior de modalidades, possibilitando que jovens de origem humilde cheguem ao pódio, o que entendo como um reflexo do financiamento.


Ora, qualquer atleta maior de 14 anos pode ser contemplado pelo Bolsa Atleta, devendo inscrever-se pelo site do governo federal. Porém, o interessado precisa estar vinculado a um clube desportivo e ser filiado à entidade administradora do esporte praticado em nível estadual e nacional, sendo ainda uma exigência do Ministério do Esporte que o esportista comprove haver participado de competição oficial no ano anterior da requisição do subsídio.