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quinta-feira, 15 de maio de 2014

A caçada ao "veinho pendófilu"




Em uma cidade dos grotões do Brasil chamada de Justiçópolis, um menino estava navegando na internet enquanto sua mãe fazia as tarefas domésticas. Preocupada com o horário, pois já faltava menos de uma hora para o filho entrar na escola, dona Maria resolveu adverti-lo quanto ao dever de casa passado pela professora:

- "E aí, Juninho? Já resolveu os pobremas de matemática?"

Procurando desviar a atenção da mãe, o garoto resolveu levantar um outro assunto já que não havia estudado nada da aula anterior porque ficou a manhã toda jogando no computador, de modo que ir para o colégio era o que ele menos desejava naquele dia.

- "Ei, mãe! Olha só a foto do seu Juca no Justiçópolis Alerta. Tá dizendo aqui que ele é procurado pela polícia como um pen-dó-fi-lu."

Deixando o arroz estalar no fogo, dona Maria correu depressa até o computador:

- "O quê?! Sai logo daí, menino, e vai pro teu quarto. Deixa eu cuidar disso. Hoje é melhor você não ir sozinho para a escola."

Ao reconhecer no computador a foto que parecia ser do vizinho, dona Maria resolveu imediatamente compartilhar a imagem no perfil de sua irmã Jurema dentro de uma rede social chamada Feiobuque, digitando assim:

- "Vê si esse pendófilu ñ é a kara do seu Juca daqui na rua"

Dona Jurema nem se encontrava online aquela hora pois havia ido ao médico e o seu celular da operadora Morto estava sem sinal de área como sempre. Porém, muita gente dentre os dois mil e tantos "amigos" da tia de Juninho leram a mensagem postada na internet e foram logo respondendo:

- "Véio safado!", escreveu uma senhora que cantava no coral da igreja do bairro.

- "É... O maníaco pode morá ao lado e agenti ñ sabê", comentou um jovem.

- "Nunca imaginei q o marido da dona Margô pudesse fazer essas coisas", disse outra pessoa.

- "Vai ve que a muié dele n~ dava conta", digitou mais um internauta.

- "E o vovô conseguia consumar o delito? Aja viagra! Kkkkkkkkkkk", ridicularizou um usuário da rede social que se identificava anonimamente pelo nome "Eu Amo Justissópolis"

- "Será que vocês não estão enganados sobre esse caso?", perguntou uma estudante do bairro sem receber resposta alguma dos demais.

- "Bem que eu imaginava que tinha um tarado solto na nossa comunidade! No dia do Natal, quando alguns moradores se vestiram de Papai Noel, soube de uma menina que contou pra mãe ter um senhor esquisito fantasiado e que ficava botando o órgão genital pra fora da calça diante das crianças!", acrescentou um homem.

- "São essas gurias que tão cada veis mais sem vergonha! Quando trouxe meu companheiro p/ morar em comigo, a filha do meu primeiro marido ficava a toda hora passando na frente dele de shortinho curto até que um dia sentei a mão na cara daquela vaquinha. Ameacei colocar ela pra fora di casa si acontessece alguma coisa os 2", comentou uma mulher chamada Vanessa.

- "Só pode ser esse véio mesmo que  tá abusando das crianças! Por isso q seu Juca tava abraçandu meu netinho naquele dia do Natal! Agente axa que conhesse as pessoa mais qdo essas coisa acontecem é qui si discobre a verdade.", escreveu novamente a senhora do coral.

Alguns minutos depois, o assunto já tinha passado da internet para as ruas, esquinas, botecos e praças da comunidade. Em frente à mercearia do seu Manoel, populares discutiam entre si qual deveria ser o destino do "veinho pendófilu":

- "Esse velho nojento tem que ser preso! Vamos chamar o 190 agora!", disse uma mulher enraivecida.

- "Não adianta ligar pra polícia, minha filha! Depois ele arruma um advogado, solta um dinheirinho lá dentro e fica livre. Ou então pega menos tempo de cadeia, porque tem mais de setenta anos, sai de lá e volta a fazer judiaria com as criança. Os policiais de hoje adoram dar uma de preto. Num país desses, é agente é que tem de fazer justiça como disse aquela jornalista, a Renata Cheirazeda", interveio um senhor racista que se arrogava entender de leis.

- "O Brasil tinha que ter pena de morte como nos Estados Unidos! Lá eles até castram o estuprador!", comentou um homem que bebia cerveja num bar em frente ao mercadinho.

Enquanto as pessoas debatiam a novidade do bairro, passava na TV o programa do repórter Bundena mostrando imagens de uma mulher acusada de traficar bebês para a máfia de transplantes órgãos. O apresentador lançava no ar a seguinte pergunta:

- "E aí, minha gente? Qual é o castigo que ela merece?"

Naquele instante, seu Juca surgiu subindo pela rua, após ter desembarcado no ponto de ônibus. Levava consigo duas sacolas de compras e foi visto por um garotinho que gritou em estado de pânico:

- "Mâeeeeee! Socorro! Olha lá o vovô pendófilu!"

A multidão enfurecida correu na direção de seu Juca, pisou em suas sacolas e, arrastando-o, resolveram amarrá-lo num poste com uma corda. Uns cuspiam no rosto enquanto outros davam chutes e socos. Por pouco não chegaram a lhe causar uma grave lesão pois, por aquela hora, passava uma patrulha policial que viu a confusão. Saindo do carro, o sargento Moisés deu um tiro para o alto e todos pararam de bater no idoso.

- "O que vocês estão fazendo?", perguntou o PM.

- "Esse senhor é um pendófilu! Tá dizendo na internet que ele abusa e crianças", respondeu uma mulher totalmente descontrolada e fora de si.

- "Nada disso! O seu Juca é um senhor honesto, decente e amigo da polícia. Foi ele quem criou a página do Justiçópolis Alerta, a qual ajuda agente a prender muito vagabundo aqui no bairro", esclareceu o sargento conseguindo esfriar os ânimos.

- "Então como é que a foto dele está estampada na página que o próprio criou? Algo está errado!, questionou o dono de uma farmácia mostrando o celular com a imagem.

Profundamente indignado, embora estivesse meio zonzo por causa das pancadas sofridas, seu Juca respondeu:

- "Foi tudo um engano meu. É que ontem, ao colocar no ar uma denúncia anônima que havia recebido, acabei clicando acidentalmente na minha própria foto ao invés de reproduzir o retrato falado do suspeito. Hoje mesmo, após o delegado me falar que a história não passava de boato, pretendia excluir a mensagem assim que chegasse em casa. Agora, porém, vou é deletar a página inteira. Acabou o Justiçópolis Alerta!"


OBS: Ilustração acima de autor desconhecido utilizada e várias páginas da internet.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado pela leitura, Leila!

      Participe sempre que desejar.

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  2. Bem interessante, Rodrigo.

    Essa última mulher que foi morta ilustra bem como esse tipo de coisa, potencializado pelas redes sociais podem ser perigosos. A multidão ensandecida não pensa, age por impulso e com sede de vingança ou mesmo de uma justiça capenga.
    Ao mesmo tempo eu consigo entender quando pessoas lincham algum estuprador ou ladrão, pois a indignação é grande. Mas há um fio tênue aí entre justiça e extravasamento impensado da violência.

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    1. Olá, Eduardo.

      Concordo com suas colocações.

      Há algo que também ocorre nos linchamentos e execuções públicas que seria o extravasamento das frustrações sociais em cima de uma só pessoa que, durante o momento de fúria coletiva, torna-se a encarnação de todo o mal. Quando elas atiram suas pedras, podem estar também apedrejado seus patrões que as exploram, o miliciano ou o traficante que dominam o bairro com mão de ferro, o ex-cônjuge que as traiu, os estelionatários que as fraudaram, o perito no INSS que negou o benefício do auxílio-doença, o agiota que cobrou a dívida, o advogado que não ganhou a causa, o hospital porque não prestou bom atendimento, o motorista de ônibus porque não parou a condução no ponto, bem como os próprios pecados projetados no outro. O sujeito espancado, por mais que tivesse sido uma figura estimada dentro da comunidade, torna-se o horror de todos, algo que faz lembrar um pouco do "servo sofredor" do capítulo 53 do livro bíblico de Isaías, bem como o sacrifício de Jesus na cruz.

      Verdade é que esse "extravasamento impensado da violência", como bem colocou, tem um efeito devastador na vida em sociedade. Seria a mesma carga energética que faz um sujeito irado matar seu próximo. Trata-se de um impulso que existe em todos nós e que necessita de auto-compreensão afim de que as tensões não dominem o nosso querer, mas sejam subjugadas pela racionalidade e pelos sentimentos superiores.

      Ótima semana ao amigo!

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