Oficialmente, 12 de outubro é considerado um feriado nacional por razões de tradição religiosa. Boa parte da população brasileira, entretanto, comemoram esta data apenas como sendo o dia das crianças.
Durante os anos de minha infância, esta foi uma das datas que eu mais gostava. Isto porque era uma oportunidade para receber presentes assim como em dezembro (Natal) e em abril (mês do meu aniversário). E, por ter nascido numa família pouco religiosa e sem nenhum envolvimento com igrejas, eu mal sabia que, no dia 12/10, os católicos celebram Nossa Senhora Aparecida. Aliás, as próprias escolas seculares onde estudei focavam mais no festejo das crianças e não na suposta aparição de Maria.
Ainda assim, nem outubro e nem o Natal me interessavam mais do que abril. Em 12/10, eu ganhava só presentes. Já em 25/12, nem sempre as comidas típicas da festa natalícia de Jesus despertavam o meu apetite. Porém, no mês do meu aniversário, eu podia conciliar os presentes, mais a festa que era feita especificamente para mim (também no dia 12), os ovos de chocolate da Páscoa e ainda tinha a comemoração do níver da mamãe em 04/04.
Não posso negar que eu era uma criança bem apegada aos meus brinquedos. Papai me deu uma coleção de carrinhos e havia no meu quarto um cavalinho de pano no qual eu era doido para subir nele. Também passava horas soltando a minha imaginação com os bonequinhos do Playmobil. Gostava de um joguinho com peças para montar cidades cujo nome agora não me recordo.
Eu me distraía assistindo desenhos na TV a ponto de quase viver dentro das animações e ser influenciado por elas. Tanto é que, no meu aniversário de dois anos, quando me colocaram pra dormir contra a minha vontade, consegui sair do berço pulando em cima do travesseiro que havia jogado para fora, conforme observava os personagens da televisão. Felizmente não me machuquei, mas deixei os adultos perplexos. Tanto é que papai acabou fazendo depois uma portinha no berço a fim de que eu passasse a sair normalmente. E não demorou muito para que substituíssem o meu lugar de dormir por uma cama de solteiro.
Outra coisa que adorava fazer naqueles tempos era passear. Até meus três anos e meio ou quatro, moramos num prédio situado no Rua Comendador Martinelli, Grajaú, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ali perto ficava uma reserva florestal que, desde a década passada, passou a ser considerada como parque. Fora isto, o bairro tinha uma deliciosa praça e minhas duas avós e uma bisavó também viviam na localidade, sendo que eu tinha vários colegas na vila onde era a casa da bisa. Contudo, também costumávamos sair para outros pontos da cidade. Além das praias, dos teatros e dos cinemas (estes ainda não tinham se tornado templos da Igreja Universal), visitávamos os lugares turísticos cariocas, sendo que os meus destinos preferidos eram o Pão de Açúcar e o zoológico.
Posso dizer que foram bons tempos que foram vivenciados com alegria durante os anos iniciais de minha vida. Depois vim a sofrer com a separação dos meus pais, seguida da perda de uma parte dos meus brinquedos por causa de um projeto de mudança, das cenas de espancamento que presenciava num péssimo relacionamento que a minha mãe teve com outro cara e, finalmente, aconteceu o falecimento do papai em setembro de 1983.
Com estas perdas e o meu amadurecimento posterior, percebi que a minha alegria de fato nunca esteve nos brinquedos perdidos, nas festas de aniversário ou nos passeios. Realmente o que eu mais desejava era ter o papai e a mãe sempre juntos, isto é, a presença paterna e materna.
Penso que, quando nos tornamos pessoas religiosas, muitas das vezes buscamos em Deus o suprimento da ausência dos pais que tivemos durante a infância. Mesmo quando eles ainda estão vivos, todos sentimos falta daquele relacionamento original que era baseado no mais sincero e perceptível afeto, em que palavras eram ouvidas sem precisarem ser pronunciadas.
Sem dúvida que Deus também é o nosso Pai e a nossa Mãe. Não como os pais e mães terrenos, mas como o celestial. Nossa relação com Ele é diferente, baseada numa intimidade que é muito mais profunda e, além de tudo, eterna. Pois Dele viemos e para Ele voltaremos. Nele vivemos porque a Sua Presença nos contém, acompanhando-nos em todos os nossos momentos de vida. Inclusive quando andamos esquecidos Dele.
Que neste dia 12 de outubro, você deixe Deus cuidar da criança que ainda vive dentro do seu coração!
Este blogue tem por objetivo divulgar aquilo que eu penso. Escrevo não somente assuntos jurídicos como também comento sobre política, religião, sexualidade, filosofia, questões locais da cidade onde moro e tudo o que me vem na cabeça. Quem desejar fazer seus comentários, fique a vontade. Aqui não tem censura!
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Ir para onde?
“São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.” (art. 6º da CRFB/1988) - grifou-se
Tenho acompanhado o drama das 700 famílias do Conjunto Habitacional Cingapura de São Paulo que têm resistido à decisão da Justiça para deixarem suas moradias por causa dos comprovados riscos de explosão do gás metano no local.
Hoje, durante o Bom Dia Brasil, telejornal da Rede Globo, fiquei perplexo diante das respostas dos moradores, os quais pretendem recorrer da imposição judicial. No decorrer da entrevista, uma mulher assim se manifestou, baseando-se no senso comum:
"Não tem vazamento de gás, nunca ninguém sentiu cheiro de gás. Isso é um absurdo. Eu tenho de trabalhar e deixo meu nenê na creche. Ele não vai poder mais ficar na creche?"
Outro homem, que, segundo a sua qualificação profissional, não tem condições técnicas de afirmar nada acerca da existência ou não do risco, posicionou-se desta maneira diante da reportagem:
"Eu me considero seguro morando aqui, lógico. Eu sempre morei aqui, minha vida em São Paulo sempre foi aqui. Não vejo insegurança nem risco aqui"
Demagogicamente, a Prefeitura de São Paulo resolveu apoiar a ignorância das pessoas, ao invés de buscar a medida mais acertada que seria encontrar um local digno e adequado para hospedar esses moradores até que o problema se resolvesse, removendo-os depois definitivamente para uma área realmente segura.
No entanto, se nos colocarmos na posição do pobre que passou a vida toda pagando aluguel e vivendo sob a constante ameaça de despejo, deixar a sua casa própria e ir para um lugar incerto acaba se tornando uma novo problema. E, agindo assim, poucos avaliam o risco de viver em cima de um antigo lixão que a qualquer momento pode explodir.
Aqui em Nova Friburgo, quando ocorreram as enchentes de janeiro deste ano, milhares de famílias que ficaram desabrigadas foram mandadas para abrigos improvisados. Depois de terem perdido seus patrimônios, essas vítimas da tragédia vieram a ser muito mal atendidas pelo Poder Público. E, embora o governo tenha lhes prometido casas, os recursos do "Minha Casa, Minha Vida" sofreram redução de verbas e a Prefeitura até hoje não tomou as medidas adequadas para que os moradores pudessem ter um lugar seguro para reconstruírem suas vidas. Logo, o destino de muitos acabou sendo o mesmo da população que vivia no Morro do Bumba (tragédia de abril de 2010), em Niterói, entre os quais encontramos famílias que estão até hoje precisando de moradia.
A causa de todo o problema está na falta de responsabilidade do próprio Poder Público que não só permite construções como também edifica em lugares inapropriados. Pois foi buscando alcançar prestígio político que Paulo Maluf veio a se tornar o autor do superfaturado "Projeto Cingapura" quando era então prefeito de São Paulo nos anos 90, tendo erguido prédios onde jamais deveria. E a escolha do local não poderia ter sido pior.
Olhando com atenção para o problema, não consigo culpar os moradores pela atitude pouco racional que estão manifestando neste momento. Posso não concordar com determinadas formas de protesto e nem com a recusa de cumprimento da ordem judicial. Porém, também não me parece que o Poder Público esteja agindo com sensibilidade diante da situação.
De acordo com o juiz prolator da decisão, da 10ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de São Paulo, Dr. Valentino Aparecido de Andrade, "trata-se, sem dúvida, de uma medida extrema essa de essa de interdição e remoção dos moradores mas ela é a única que pode eficazmente controlar a situação de risco a que essas pessoas estão submetidas, exigindo-se a intervenção do Poder Judiciário".
Ora, a Prefeitura de São Paulo pretende essas pessoas aonde?!
Entendo que a interdição do local e a remoção dos moradores são realmente necessárias. Só que não dá para negar que o povo brasileiro continua sendo tratado como gado pelas suas autoridades. Pois, numa situação assim, o mínimo que deveria ser feito seria abrigar cada família num dos melhores hotéis de São Paulo e pagar para cada pessoa do conjunto habitacional uma justa indenização pelo transtorno sem que ninguém precise depois ingressar com ações judiciais reparatórias de prejuízos.
Vale ressaltar que, após o Maluf, São Paulo ainda foi governada pelo PT e também pelo PSDB. Em sua louca gestão, Martha Suplicy não tomou as iniciativas cabíveis para cuidar do problema, o qual simplesmente foi ignorado assim como costumam fazer os administradores das demais prefeituras na maioria das cidades brasileiras. E, infelizmente, episódios como este continuarão ocorrendo até que a nossa população tome consciência da maneira como ela deve se inserir ativamente na política afim de brigar pelos seus direitos.
OBS: A primeira ilustração foi extraída da página da Prefeitura Municipal de São Paulo em http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/noticias/?p=3837.
Já a segunda imagem do deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), obtida através da Wikipédia, foi produzida pela Agência Brasil, sendo a sua autoria é atribuída a José Cruz.
domingo, 9 de outubro de 2011
O olhar de Moisés e a experimentação do Santíssimo
Em quatro décadas de exílio, no país de Midiã, certamente que Moisés já deveria estar habituado com aquelas áridas paisagens da Península do Sinai. Seus dias pareciam ser monótonos para o ponto de vista de um ocidental moderno e compreendiam uma incansável rotina de pastoreio dos animais do sogro com quem ele morava. Ir para o Norte, para o Sul, Leste ou Oeste, sem dúvida eram caminhos bem conhecidos pelo príncipe que se recusou a ser chamado "filho da filha de Faraó" e que, preferindo o maltrato junto com o seu povo, não encontrou outra solução a não ser deixar o Egito das pirâmides com todos os seus ricos tesouros.
Certa vez, conduzindo o rebanho para além do deserto, Moisés chegou a um monte chamado Horebe que, futuramente, viria a ser conhecido como a "Montanha de Deus" e se tornaria destino de inúmeras peregrinações religiosas judaicas, cristãs e muçulmanas. Até aí, porém, aquela elevação era só mais um componente da geografia da região onde ele habitava anonimamente. Só que, naquele dia, que poderia ter sido igual a todos os outros que o antecederam, Moisés resolveu prestar a atenção em algo diferente, alcançando uma primária experiência que mudaria não somente a sua vida como a história da nação de Israel.
A princípio, aquele fenômeno misterioso não amedrontou Moisés. Deixando-se levar pelo desejo de auto-pesquisa, ele resolveu dar uma espiada naquela simples planta espinhosa cuja madeira é "imprestável para talhar ídolos", conforme bem observa a literatura judaica pós-bíblica. Só que o orgulho e a soberba não tinham espaço no coração daquele peregrino octagenário cheio de vitalidade e ainda capaz de se maravilhar diante das situações mais comuns da natureza. Mesmo tendo sido um nobre da coorte da maior super potência do segundo milênio antes de Cristo.
Como explicar aquele acontecimento através da ciência ensinada nas universidades dos egípcios? Nem nos laboratórios e biblioteca da Harvard do Nilo existiam soluções para tal problema. Por se tratar de um mistério, o fato jamais poderia ser compreendido pela metodologia teórica passada nos livros. Logo, a única saída seria Moisés experimentar subjetivamente, saindo um pouco de si mesmo e procurando estudar a realidade por todos os ângulos ao seu alcance.
Assim fez Moisés quando se interessou pelo episódio da sarça que ardia e não se consumia, atentando para a realidade divina que há em todas as coisas e em todas as pessoas. Com abertura, livre de preconceitos acadêmicos e de ideias prontas, Moisés aproximou-se do arbusto. Ele não se negou ao questionamento e fez daquele momento uma grande oportunidade para seu enriquecimento pessoal através de um saber verificável que jamais pode prender-se a condutas dogmáticas ou fundamentalistas.
Ao inebriar-se com a visão da sarça em chamas, aflorou em Moisés aquele mesmo desejo de saber original dos patriarcas, mas que foi reprimido durante séculos de dominação econômica, política e cultural. Deixando de lado a alienação imposta pelo dominador, ele soube dar vazão à sua subjetividade na investigação do objeto a sua frente afim de situar-se com consciência na realidade. E, com isto, também permitiu que a verdade se estabelecesse nele de maneira libertadora, rompendo todas as correntes da opressão escravocrata e da dependência ideológica, as quais incutem o medo nas consciências, ferindo, humilhando, rebaixando a autoestima, silenciando a dança e a palavra de um povo afim de coisificar o ser.
Contudo, a investigação do sagrado requer do sujeito uma profunda reverência. E foi o que Moisés aprendeu. Após perceber seu chamado quando se aproximou da sarça, ele se deparou com a advertência que todos nós precisamos interiorizar:
Ao experimentarmos o Deus vivo, devemos lembrar que não estamos diante de qualquer pessoa e muito menos diante de uma força da natureza. Ele é o Santíssimo e subsiste em seu próprio existir, sendo infinito e absolutamente transcendente. Pois até os termos "Santo", "Eterno", "Pai" ou o impronunciável Tetragrama YHWH (consoantes de Yahweh), bem como outras possíveis representações, tornam-se todas insuficientes para definir quem as diversas tradições religiosas do planeta entendem ser o "Criador e Rei do Universo" por serem conceitos construídos conforme a nossa imagem e semelhança.
"Tirar as sandálias" é fundamental para que possamos incessantemente buscar o Deus vivo ao invés de encontrarmos um ídolo mudo, motivo pelo qual o Pai Nosso é iniciado pelo reconhecimento da santidade do Nome de Deus (conf. Mt 6.9). Porém, o célebre episódio da Torá mostra-nos o quanto descalçar os pés é ato simbólico e que todos os métodos de participação do Mistério poderão ser insuficientes por mais disciplinados que busquemos ser. Isto porque não existe receita espiritual para um encontro com o Eterno como se pudéssemos achá-lo frequentando um "lugar sagrado", ouvindo um louvor específico, sentando numa posição como a da ioga ou pronunciando palavrinhas mágicas. Pois, ainda que algumas boas práticas de vivência ajudem a relaxar a mente, elas jamais serão a real experiência.
O conto bíblico em análise, tido como proveniente da tradição javista pela Teoria Documentária e que corresponde aos seis primeiros versículos do capítulo 3 de Êxodo, seria antes de mais nada uma mera narrativa que nos ensina de maneira romanceada a aproximação mística do homem com Deus. Ela parece ser despida de qualquer historicidade, sendo, evidentemente, fruto do imaginário de um povo em que a oralidade precedeu o registro nas Escrituras. Aliás, o próprio nome hebraico do segundo livro da Torá (Shemot), tem por objetivo focar nos chamados de Moisés e de Israel.
Hoje, se formos visitar a Península do Sinai, e procurarmos pelo monte sagrado da revelação, certamente que não encontraremos ali nem anjos ou plantas queimando misteriosamente. Até a localização exata do Horebe é algo incerto e bastante discutível entre os estudiosos. Contudo, quem pagar por um turismo exótico desses, certamente voltará para casa ou frustrado, ou convicto de que a Luz Divina não está restrita a um lugar específico do globo terrestre.
Com esta maravilhosa historia judaica aprendemos basicamente que precisamos olhar atentamente os fatos ao nosso redor e agirmos com reverência em relação ao Mistério Sagrado que a todo instante fala em qualquer local com os homens. Deus está em você, em mim, na natureza, nos animais, nas estrelas e em cada acontecimento. Sua glória pode manifestar-se até nos momentos mais ociosos do cotidiano. Seja na fila de um banco, quando nos encontramos presos num congestionamento, durante as tarefas domésticas ou na conversa mantida com alguém. Então, se prestarmos a atenção, talvez encontraremos um "arbusto em chamas" diante de nosso rosto.
OBS: A ilustração acima refere-se a uma pintura de 1848 na Catedral de São Isaac, em São Petersburgo, cuja autoria é atribuída ao artista russo Eugène Pluchart (1809-1880). A obra retrata Deus aparecendo a Moisés no episódio da sarça ardente (Êxodo 3). Parte da inspiração deste artigo veio de uma leitura do sugestivo livro Experimentar Deus: a transparência de todas as coisas, editora Vozes, do pensador Leonardo Boff, bem como de The Gospel of Thomas: a Guide for Spiritual Practice, de Ron Miller.
Certa vez, conduzindo o rebanho para além do deserto, Moisés chegou a um monte chamado Horebe que, futuramente, viria a ser conhecido como a "Montanha de Deus" e se tornaria destino de inúmeras peregrinações religiosas judaicas, cristãs e muçulmanas. Até aí, porém, aquela elevação era só mais um componente da geografia da região onde ele habitava anonimamente. Só que, naquele dia, que poderia ter sido igual a todos os outros que o antecederam, Moisés resolveu prestar a atenção em algo diferente, alcançando uma primária experiência que mudaria não somente a sua vida como a história da nação de Israel.
"Apareceu-lhe o Anjo do SENHOR numa chama de fogo, no meio de uma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia. Então, disse consigo mesmo: Irei para lá e verei essa grande maravilha; por que a sarça não se queima?" (Êxodo 3.2-3; ARA) - destaquei
A princípio, aquele fenômeno misterioso não amedrontou Moisés. Deixando-se levar pelo desejo de auto-pesquisa, ele resolveu dar uma espiada naquela simples planta espinhosa cuja madeira é "imprestável para talhar ídolos", conforme bem observa a literatura judaica pós-bíblica. Só que o orgulho e a soberba não tinham espaço no coração daquele peregrino octagenário cheio de vitalidade e ainda capaz de se maravilhar diante das situações mais comuns da natureza. Mesmo tendo sido um nobre da coorte da maior super potência do segundo milênio antes de Cristo.
Como explicar aquele acontecimento através da ciência ensinada nas universidades dos egípcios? Nem nos laboratórios e biblioteca da Harvard do Nilo existiam soluções para tal problema. Por se tratar de um mistério, o fato jamais poderia ser compreendido pela metodologia teórica passada nos livros. Logo, a única saída seria Moisés experimentar subjetivamente, saindo um pouco de si mesmo e procurando estudar a realidade por todos os ângulos ao seu alcance.
Assim fez Moisés quando se interessou pelo episódio da sarça que ardia e não se consumia, atentando para a realidade divina que há em todas as coisas e em todas as pessoas. Com abertura, livre de preconceitos acadêmicos e de ideias prontas, Moisés aproximou-se do arbusto. Ele não se negou ao questionamento e fez daquele momento uma grande oportunidade para seu enriquecimento pessoal através de um saber verificável que jamais pode prender-se a condutas dogmáticas ou fundamentalistas.
Ao inebriar-se com a visão da sarça em chamas, aflorou em Moisés aquele mesmo desejo de saber original dos patriarcas, mas que foi reprimido durante séculos de dominação econômica, política e cultural. Deixando de lado a alienação imposta pelo dominador, ele soube dar vazão à sua subjetividade na investigação do objeto a sua frente afim de situar-se com consciência na realidade. E, com isto, também permitiu que a verdade se estabelecesse nele de maneira libertadora, rompendo todas as correntes da opressão escravocrata e da dependência ideológica, as quais incutem o medo nas consciências, ferindo, humilhando, rebaixando a autoestima, silenciando a dança e a palavra de um povo afim de coisificar o ser.
Contudo, a investigação do sagrado requer do sujeito uma profunda reverência. E foi o que Moisés aprendeu. Após perceber seu chamado quando se aproximou da sarça, ele se deparou com a advertência que todos nós precisamos interiorizar:
"Vendo o SENHOR que ele se voltava para ver, Deus, no meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui! Deus continuou: Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa." (versos 5 e 6; mesma tradução bíblica)
Ao experimentarmos o Deus vivo, devemos lembrar que não estamos diante de qualquer pessoa e muito menos diante de uma força da natureza. Ele é o Santíssimo e subsiste em seu próprio existir, sendo infinito e absolutamente transcendente. Pois até os termos "Santo", "Eterno", "Pai" ou o impronunciável Tetragrama YHWH (consoantes de Yahweh), bem como outras possíveis representações, tornam-se todas insuficientes para definir quem as diversas tradições religiosas do planeta entendem ser o "Criador e Rei do Universo" por serem conceitos construídos conforme a nossa imagem e semelhança.
"Tirar as sandálias" é fundamental para que possamos incessantemente buscar o Deus vivo ao invés de encontrarmos um ídolo mudo, motivo pelo qual o Pai Nosso é iniciado pelo reconhecimento da santidade do Nome de Deus (conf. Mt 6.9). Porém, o célebre episódio da Torá mostra-nos o quanto descalçar os pés é ato simbólico e que todos os métodos de participação do Mistério poderão ser insuficientes por mais disciplinados que busquemos ser. Isto porque não existe receita espiritual para um encontro com o Eterno como se pudéssemos achá-lo frequentando um "lugar sagrado", ouvindo um louvor específico, sentando numa posição como a da ioga ou pronunciando palavrinhas mágicas. Pois, ainda que algumas boas práticas de vivência ajudem a relaxar a mente, elas jamais serão a real experiência.
O conto bíblico em análise, tido como proveniente da tradição javista pela Teoria Documentária e que corresponde aos seis primeiros versículos do capítulo 3 de Êxodo, seria antes de mais nada uma mera narrativa que nos ensina de maneira romanceada a aproximação mística do homem com Deus. Ela parece ser despida de qualquer historicidade, sendo, evidentemente, fruto do imaginário de um povo em que a oralidade precedeu o registro nas Escrituras. Aliás, o próprio nome hebraico do segundo livro da Torá (Shemot), tem por objetivo focar nos chamados de Moisés e de Israel.
Hoje, se formos visitar a Península do Sinai, e procurarmos pelo monte sagrado da revelação, certamente que não encontraremos ali nem anjos ou plantas queimando misteriosamente. Até a localização exata do Horebe é algo incerto e bastante discutível entre os estudiosos. Contudo, quem pagar por um turismo exótico desses, certamente voltará para casa ou frustrado, ou convicto de que a Luz Divina não está restrita a um lugar específico do globo terrestre.
Com esta maravilhosa historia judaica aprendemos basicamente que precisamos olhar atentamente os fatos ao nosso redor e agirmos com reverência em relação ao Mistério Sagrado que a todo instante fala em qualquer local com os homens. Deus está em você, em mim, na natureza, nos animais, nas estrelas e em cada acontecimento. Sua glória pode manifestar-se até nos momentos mais ociosos do cotidiano. Seja na fila de um banco, quando nos encontramos presos num congestionamento, durante as tarefas domésticas ou na conversa mantida com alguém. Então, se prestarmos a atenção, talvez encontraremos um "arbusto em chamas" diante de nosso rosto.
OBS: A ilustração acima refere-se a uma pintura de 1848 na Catedral de São Isaac, em São Petersburgo, cuja autoria é atribuída ao artista russo Eugène Pluchart (1809-1880). A obra retrata Deus aparecendo a Moisés no episódio da sarça ardente (Êxodo 3). Parte da inspiração deste artigo veio de uma leitura do sugestivo livro Experimentar Deus: a transparência de todas as coisas, editora Vozes, do pensador Leonardo Boff, bem como de The Gospel of Thomas: a Guide for Spiritual Practice, de Ron Miller.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Proteja o seu sentimento e o do seu próximo
"Se é a razão que faz o homem, é o sentimento que o conduz". (Rousseau)
Vivemos num mundo administrado pela razão e manipulado pelas emoções. Os nossos governantes são racionais. O povo, porém, é sentimental, capaz de tomar as mais importantes decisões existenciais através do impulso.
Não considero errado a maioria das pessoas ter sentimentos. Ruim e antiético é alguém querer manipulá-los conforme seus próprios interesses, aproveitando-se da inocência alheia.
"Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham os escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!" (Mateus 18.7; ARA)
O termo skandalon, utilizado pelo escritor do evangelho para expressar comparativamente em grego as mensagens de Jesus, tinha o significado de "pedra de tropeço" (Mt 16.23), o que não encontra um correspondente exato dentro do nosso idioma. Pode-se dizer que seria causar uma "queda", induzir a outra pessoa em erro.
Aproveitar-se da inocência alheia é uma conduta que foi hiperbolicamente reprovada por Jesus. Se seguirmos o texto bíblico, encontraremos a agressiva figura da mutilação de órgãos cujo sentido choca tanto os valores de hoje quanto os da sociedade judaica da época do Segundo Templo. Ali o Senhor chega a dizer que é melhor a pessoa entrar na Vida sem a mão, o pé ou um dos olhos do que ser jogado inteiramente no "inferno" (Mt 18.8-9).
Na história eclesiástica, houve gente que, não compreendendo o ensino de Jesus, chegou a levar tais versículos ao pé da letra, mutilando partes do próprio corpo. Alguns homens, a exemplo de Orígenes, praticaram até a autocastração genital, provavelmente porque não se conformavam com o fato de sentirem o natural desejo pelo sexo, numa absurda deturpação de Mt 19.12.
Mas afinal, o que a mensagem do Evangelho quer dizer com o arrancar um olho ou cortar a mão?
Dentre várias explicações possíveis e não excludentes, tenho pra mim que tanto a ideia da automutilação corporal quanto o "fogo eterno" são igualmente figuras de linguagem, pois Jesus parecia até zombar da existência de um castigo infernal. O que na certa estava sendo demonstrado contextualmente em Mateus seria o mal que alguém pudesse causar a si mesmo plantando "escândalos" afim de causar tropeços ao seu irmão, conduta esta que gera desconexão com a vida e torna vazia a existência de quem age assim. Logo, é mais sensato afastar o mal hábito de colocar "cascas de banana" no caminho dos outros.
E quais seriam os tipos de tropeços que costumamos armar contra as pessoas?
Ao meditar sobre isto, vejo inúmeras possibilidades, sendo que tudo parece começar com maliciosas palavras capazes de envenenar a mente do outro. Palavras que não edificam, mas destroem relacionamentos causando feridas.
Além de palavras, colocamos escândalos nos caminhos de alguém através de condutas fraudulentas. Sem nada dizermos, podemos influenciar a decisão do outro apenas pelo que aparentamos ser. Os gestos, a maneira de vestir ou de olhar não deixam de ser expressões da comunicação humana.
Em regra, o sujeito enganador busca despertar bons sentimentos na outra pessoa. Ele sabe que está tentando manipular alguém que é sincero, de bom coração, capaz de valorizar sua honra, praticar prontamente a caridade, nutrir expectativas, agir com fidelidade na relação afetiva e não consentir com o mal. Então, como nem sempre os honestos são suficientemente prudentes a ponto de perceberem a maldade humana, eles acabam sendo vítimas das mentiras.
Quantos tropeços não existem hoje em dia no meio religioso em geral?!
E o que dizer da política nacional? Sem palavras...
Para vivermos neste mundo cheio de lobos ferozes temos que aprender a proteger nossas emoções. Jesus recomendou que fôssemos "simples como as pombas e prudentes como as serpentes" (Mt 10.16 e Evangelho de Tomé 39), o que significa preservarmos o bom caráter e, simultaneamente, termos percepção sobre a malícia por trás dos argumentos de uma conversa mole. Principalmente diante de apelos sentimentais.
Assim como o aforismo da pomba e da serpente serve para ilustrar o comportamento sábio que precisamos ter diante das situações da vida, pode-se afirmar que há um grande segredo implícito na conciliação entre a razão e a emoção. É que, embora seja a emoção aquilo que nos permite desfrutar plena e diretamente dos bens da existência, a razão serve como uma excelente armadura protetiva. E, deste modo, quem sabe investir juntamente na razão e na emoção torna-se apto para compreender o universo com maior amplitude e alcança o desejado discernimento.
Que possamos não só deixar de criar skandalon para o próximo, mas também ficarmos atentos contra as armadilhas emocionais que colocam no nosso caminho e livrarmos o nosso irmão de tropeçar em coisas que vão afetar seus sentimentos.
OBS: Ilustração acima extraída do site http://www.propheticrevelation.net/the_sin_of_adam.htm
Vivemos num mundo administrado pela razão e manipulado pelas emoções. Os nossos governantes são racionais. O povo, porém, é sentimental, capaz de tomar as mais importantes decisões existenciais através do impulso.
Não considero errado a maioria das pessoas ter sentimentos. Ruim e antiético é alguém querer manipulá-los conforme seus próprios interesses, aproveitando-se da inocência alheia.
"Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham os escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!" (Mateus 18.7; ARA)
O termo skandalon, utilizado pelo escritor do evangelho para expressar comparativamente em grego as mensagens de Jesus, tinha o significado de "pedra de tropeço" (Mt 16.23), o que não encontra um correspondente exato dentro do nosso idioma. Pode-se dizer que seria causar uma "queda", induzir a outra pessoa em erro.
"A palavra grega originalmente designava o alimento colocado na haste de uma armadilha; veio a significar, depois, qualquer coisa que faz tropeçar e cair numa armadilha." (Comentários da Bíblia de Estudo de Genebra ao verso 1 do capítulo 17 do Evangelho de Lucas)
Aproveitar-se da inocência alheia é uma conduta que foi hiperbolicamente reprovada por Jesus. Se seguirmos o texto bíblico, encontraremos a agressiva figura da mutilação de órgãos cujo sentido choca tanto os valores de hoje quanto os da sociedade judaica da época do Segundo Templo. Ali o Senhor chega a dizer que é melhor a pessoa entrar na Vida sem a mão, o pé ou um dos olhos do que ser jogado inteiramente no "inferno" (Mt 18.8-9).
Na história eclesiástica, houve gente que, não compreendendo o ensino de Jesus, chegou a levar tais versículos ao pé da letra, mutilando partes do próprio corpo. Alguns homens, a exemplo de Orígenes, praticaram até a autocastração genital, provavelmente porque não se conformavam com o fato de sentirem o natural desejo pelo sexo, numa absurda deturpação de Mt 19.12.
Mas afinal, o que a mensagem do Evangelho quer dizer com o arrancar um olho ou cortar a mão?
Dentre várias explicações possíveis e não excludentes, tenho pra mim que tanto a ideia da automutilação corporal quanto o "fogo eterno" são igualmente figuras de linguagem, pois Jesus parecia até zombar da existência de um castigo infernal. O que na certa estava sendo demonstrado contextualmente em Mateus seria o mal que alguém pudesse causar a si mesmo plantando "escândalos" afim de causar tropeços ao seu irmão, conduta esta que gera desconexão com a vida e torna vazia a existência de quem age assim. Logo, é mais sensato afastar o mal hábito de colocar "cascas de banana" no caminho dos outros.
E quais seriam os tipos de tropeços que costumamos armar contra as pessoas?
Ao meditar sobre isto, vejo inúmeras possibilidades, sendo que tudo parece começar com maliciosas palavras capazes de envenenar a mente do outro. Palavras que não edificam, mas destroem relacionamentos causando feridas.
Além de palavras, colocamos escândalos nos caminhos de alguém através de condutas fraudulentas. Sem nada dizermos, podemos influenciar a decisão do outro apenas pelo que aparentamos ser. Os gestos, a maneira de vestir ou de olhar não deixam de ser expressões da comunicação humana.
Em regra, o sujeito enganador busca despertar bons sentimentos na outra pessoa. Ele sabe que está tentando manipular alguém que é sincero, de bom coração, capaz de valorizar sua honra, praticar prontamente a caridade, nutrir expectativas, agir com fidelidade na relação afetiva e não consentir com o mal. Então, como nem sempre os honestos são suficientemente prudentes a ponto de perceberem a maldade humana, eles acabam sendo vítimas das mentiras.
Quantos tropeços não existem hoje em dia no meio religioso em geral?!
E o que dizer da política nacional? Sem palavras...
Para vivermos neste mundo cheio de lobos ferozes temos que aprender a proteger nossas emoções. Jesus recomendou que fôssemos "simples como as pombas e prudentes como as serpentes" (Mt 10.16 e Evangelho de Tomé 39), o que significa preservarmos o bom caráter e, simultaneamente, termos percepção sobre a malícia por trás dos argumentos de uma conversa mole. Principalmente diante de apelos sentimentais.
Assim como o aforismo da pomba e da serpente serve para ilustrar o comportamento sábio que precisamos ter diante das situações da vida, pode-se afirmar que há um grande segredo implícito na conciliação entre a razão e a emoção. É que, embora seja a emoção aquilo que nos permite desfrutar plena e diretamente dos bens da existência, a razão serve como uma excelente armadura protetiva. E, deste modo, quem sabe investir juntamente na razão e na emoção torna-se apto para compreender o universo com maior amplitude e alcança o desejado discernimento.
Que possamos não só deixar de criar skandalon para o próximo, mas também ficarmos atentos contra as armadilhas emocionais que colocam no nosso caminho e livrarmos o nosso irmão de tropeçar em coisas que vão afetar seus sentimentos.
OBS: Ilustração acima extraída do site http://www.propheticrevelation.net/the_sin_of_adam.htm
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Que a tua luz brilhe!
A luz, criada no primeiro dia da criação, representa não apenas a claridade que vemos, mas também a luz de vida e alegria derramada sobre o universo. E este derramar de luz é mesmo um ato de bondade do Deus Eterno. É a base de toda a existência e que envolve todos os atos da poética narrativa bíblica caracterizando o hino de tradição sacerdotal que inicia o Bereshit (Gênesis).
Ainda dentro das Escrituras hebraicas, esta luz é também relacionada à Torá, vocábulo que não significa apenas o Pentateuco ou a "lei", mas sim a "instrução" e "orientação" divinas.
"Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho." (Salmo 119.105; ARC)
Tempos depois, Jesus veio ao mundo nos ensinar que somos "luz do mundo". Ele, o Filho do Homem, não só teria se declarado como luz do mundo, mas também disse que os demais homens também são luz:
"Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus."
(Mateus 5.14-16; ARC)
Pode-se dizer que a proposta de Jesus aqui seria corrigir a ocultação da luz, o que pode ser entendido como causa dos problemas da humanidade. Durante o célebre Sermão da Montanha, o Mestre sugere que tornemos exposta a nossa luz afim de que o seu brilho chegue até os lugares mais sombrios da Terra que são os corações dos homens distantes de Deus e imersos em conflito.
Curiosamente Jesus não estava falando de nenhuma luz que não fosse aquela que nós mesmos já contemos, mas que se encontra encapsulada e oculta no nosso íntimo. Logo, posso entender que o dito atribuído a Jesus no 1º Evangelho fala sobre o despertar das centelhas de bondade, aquela mesma luz divina derramada no começo da criação.
Neste sentido, podemos compreender que toda a desarmonia e "escuridão" existentes hoje no mundo seriam projeções de um conflito que há dentro de nós, visto que somos o foco de emanação e origem desse desequilíbrio. Um conflito que está latente em nosso inconsciente, mas que ignoramos e não tratamos.
Portanto, eis a chave para mudarmos o mundo: removermos o conflito de dentro de nós. Pois esta é a consciência que Jesus veio despertar em seus ouvintes no Sermão do Monte ou, do contrário, seremos cegos tentando conduzir outro cego.
A seguir, compartilho uma motivadora música do cantor Asaph Borba, Deixa tua luz brilhar, disponibilizada no Youtube pela Adorarnet.
OBS: Mensagem originalmente postada no blogue Café com Gente em 02/05/2011 sob o título "Que resplandeça a luz existente no teu interior!" - http://cafecomgente.blogspot.com/2011/05/que-resplandeca-luz-existente-no-teu.html
Ainda dentro das Escrituras hebraicas, esta luz é também relacionada à Torá, vocábulo que não significa apenas o Pentateuco ou a "lei", mas sim a "instrução" e "orientação" divinas.
"Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho." (Salmo 119.105; ARC)
Tempos depois, Jesus veio ao mundo nos ensinar que somos "luz do mundo". Ele, o Filho do Homem, não só teria se declarado como luz do mundo, mas também disse que os demais homens também são luz:
"Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus."
(Mateus 5.14-16; ARC)
Pode-se dizer que a proposta de Jesus aqui seria corrigir a ocultação da luz, o que pode ser entendido como causa dos problemas da humanidade. Durante o célebre Sermão da Montanha, o Mestre sugere que tornemos exposta a nossa luz afim de que o seu brilho chegue até os lugares mais sombrios da Terra que são os corações dos homens distantes de Deus e imersos em conflito.
Curiosamente Jesus não estava falando de nenhuma luz que não fosse aquela que nós mesmos já contemos, mas que se encontra encapsulada e oculta no nosso íntimo. Logo, posso entender que o dito atribuído a Jesus no 1º Evangelho fala sobre o despertar das centelhas de bondade, aquela mesma luz divina derramada no começo da criação.
Neste sentido, podemos compreender que toda a desarmonia e "escuridão" existentes hoje no mundo seriam projeções de um conflito que há dentro de nós, visto que somos o foco de emanação e origem desse desequilíbrio. Um conflito que está latente em nosso inconsciente, mas que ignoramos e não tratamos.
Portanto, eis a chave para mudarmos o mundo: removermos o conflito de dentro de nós. Pois esta é a consciência que Jesus veio despertar em seus ouvintes no Sermão do Monte ou, do contrário, seremos cegos tentando conduzir outro cego.
A seguir, compartilho uma motivadora música do cantor Asaph Borba, Deixa tua luz brilhar, disponibilizada no Youtube pela Adorarnet.
OBS: Mensagem originalmente postada no blogue Café com Gente em 02/05/2011 sob o título "Que resplandeça a luz existente no teu interior!" - http://cafecomgente.blogspot.com/2011/05/que-resplandeca-luz-existente-no-teu.html
domingo, 2 de outubro de 2011
Irã: pastor Yousef pode ser sentenciado a morte imediatamente
Recebi uma preocupante notícia em minha caixa de e-mails de que um pastor cristão pode ser executado no Irã e achei relevante compartilhá-la aqui no meu blogue afim de que mais pessoas no Brasil possam também se mobilizar.
Até quando a intolerância religiosa e o totalitarismo vão continuar fazendo mais vítimas no mundo?!
Muito triste a situação do Irã e das pessoas que lá são perseguidas por motivos de religião ou ideologia política.
Também acho triste o Brasil manter relações com um país tão retrógrado e que tem violado frontalmente os direitos humanos, inclusive a liberdade de crença.
Será que a Dilma vai se calar?!
Chega de Estados fundamentalistas e ditatoriais!
Oremos por este país e pela vida desse pastor.
Irã: pastor Yousef pode ser sentenciado a morte imediatamente
Poucos dias depois que o Irã libertou dois norte-americanos acusados de espionagem no país, um tribunal iraniano confirmou a acusação de apostasia contra o pastor Yousef Nadarkhani e sentenciou à morte.
O tribunal da província de Gilan determinou que o pastor Nadarkhani devia negar sua fé em Jesus Cristo, pois ele vem de uma família de ascendência islâmica. O Supremo Tribunal do Irã disse anteriormente que não deveriam determinar se o pastor Yousef tinha sido muçulmano ou não em sua conversão.
No entanto, os juízes exigiram que ele se retratasse de sua fé em Cristo antes mesmo de terem provas contra ele. Os juízes afirmaram que, embora o julgamento vá contra as atuais leis iranianas e internacionais, eles precisam manter a decisão do Tribunal Supremo em Qom.
Quando pediram a ele para que se “arrependesse” diante dos juízes, Yousef disse: “Arrependimento significar voltar. Eu devo voltar para o quê? Para a blasfêmia que vivia antes de conhecer a Cristo?” Os juízes responderam: “você deve voltar para a religião dos seus antepassados, deve voltar ao Islã”. Yousef ouviu e respondeu: “Eu não posso fazer isso.”
Família
O pastor Yousef conseguiu ver seus filhos pela primeira vez desde março. Ele estava de bom humor e falava de sua enorme vontade de servir a Igreja depois que fosse libertado da prisão.
O pastor Yousef enfrentou duas audiências adicionais na terça (27/09) e quarta (28/09), com o propósito principal de o fazerem negar sua fé cristã. Os advogados do pastor Yousef tentarão apelar para que revejam a sentença, mas se o tribunal agir segundo sua própria interpretação da Sharia (lei islâmica), Yousef pode ser executado a qualquer momento.
Tecnicamente, não há mais direitos para recursos e sob a interpretação da lei da Sharia, o pastor Yousef tinha direito a três chances de se retratar. Amanhã será sua última chance de se retratar. Depois, ele poderá ser executado a qualquer momento.
A Missão Portas Abertas convoca: oremos pelo pastor Yousef Nadarkhani, para que Deus o proteja e o livre da sentença de morte possa ser liberto da prisão. Envolva mais pessoas para, juntos, intercedermos pelo nosso irmão.
Fonte: Christian Solidarity Worldwide
Tradução: Missão Portas Abertas
OBS: A informação chegou ao meu conhecimento pelo Pr. Paulo Feliciano Araújo da 1ª Igreja Batista em São Francisco Xavier, Rio de Janeiro, RJ, através de e-mail enviado em 30/09/2011.
Até quando a intolerância religiosa e o totalitarismo vão continuar fazendo mais vítimas no mundo?!
Muito triste a situação do Irã e das pessoas que lá são perseguidas por motivos de religião ou ideologia política.
Também acho triste o Brasil manter relações com um país tão retrógrado e que tem violado frontalmente os direitos humanos, inclusive a liberdade de crença.
Será que a Dilma vai se calar?!
Chega de Estados fundamentalistas e ditatoriais!
Oremos por este país e pela vida desse pastor.
Irã: pastor Yousef pode ser sentenciado a morte imediatamente
Poucos dias depois que o Irã libertou dois norte-americanos acusados de espionagem no país, um tribunal iraniano confirmou a acusação de apostasia contra o pastor Yousef Nadarkhani e sentenciou à morte.
O tribunal da província de Gilan determinou que o pastor Nadarkhani devia negar sua fé em Jesus Cristo, pois ele vem de uma família de ascendência islâmica. O Supremo Tribunal do Irã disse anteriormente que não deveriam determinar se o pastor Yousef tinha sido muçulmano ou não em sua conversão.
No entanto, os juízes exigiram que ele se retratasse de sua fé em Cristo antes mesmo de terem provas contra ele. Os juízes afirmaram que, embora o julgamento vá contra as atuais leis iranianas e internacionais, eles precisam manter a decisão do Tribunal Supremo em Qom.
Quando pediram a ele para que se “arrependesse” diante dos juízes, Yousef disse: “Arrependimento significar voltar. Eu devo voltar para o quê? Para a blasfêmia que vivia antes de conhecer a Cristo?” Os juízes responderam: “você deve voltar para a religião dos seus antepassados, deve voltar ao Islã”. Yousef ouviu e respondeu: “Eu não posso fazer isso.”
Família
O pastor Yousef conseguiu ver seus filhos pela primeira vez desde março. Ele estava de bom humor e falava de sua enorme vontade de servir a Igreja depois que fosse libertado da prisão.
O pastor Yousef enfrentou duas audiências adicionais na terça (27/09) e quarta (28/09), com o propósito principal de o fazerem negar sua fé cristã. Os advogados do pastor Yousef tentarão apelar para que revejam a sentença, mas se o tribunal agir segundo sua própria interpretação da Sharia (lei islâmica), Yousef pode ser executado a qualquer momento.
Tecnicamente, não há mais direitos para recursos e sob a interpretação da lei da Sharia, o pastor Yousef tinha direito a três chances de se retratar. Amanhã será sua última chance de se retratar. Depois, ele poderá ser executado a qualquer momento.
A Missão Portas Abertas convoca: oremos pelo pastor Yousef Nadarkhani, para que Deus o proteja e o livre da sentença de morte possa ser liberto da prisão. Envolva mais pessoas para, juntos, intercedermos pelo nosso irmão.
Fonte: Christian Solidarity Worldwide
Tradução: Missão Portas Abertas
OBS: A informação chegou ao meu conhecimento pelo Pr. Paulo Feliciano Araújo da 1ª Igreja Batista em São Francisco Xavier, Rio de Janeiro, RJ, através de e-mail enviado em 30/09/2011.
sábado, 1 de outubro de 2011
Adeus, vovó!
"Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão" (Eclesiastes 3.20; ARA)
Essa última semana de setembro foi muito difícil. Precisei interromper minhas atividades laborais meus estudos e o cursinho preparatório para a prova do Tribunal de Justiça bem como ausentar-me num convite confirmado para comemorar as "Festas das Primícias" do Ano Novo Judaico numa comunidade judaico-messiânica aqui em Nova Friburgo.
Fui pego de surpresa na noite desta segunda-feira (26/09), ao saber que minha avó paterna tinha passado mal na sua casa de veraneio em Muriqui (RJ) e se encontrava lá sozinha precisando de socorro. Liguei para o seu celular. Ela atendeu. Só que eu mal conseguia compreender o que ela estava tentando me dizer. Imaginei logo que tivesse sido um derrame.
Sem ter carro e morando no outro lado do Estado do Rio de Janeiro, há mais de 200 quilômetros, precisei ter sangue frio para administrar a situação. Entrei em contato com minha tia e descobrimos uma pessoa da localidade que pôde ir até sua residência e levá-la ao posto de saúde. Fiquei até de madrugada comunicando-me por telefone com minha tia até saber que vovó tinha sido removida para o hospital público que fica na sede do município (Muriqui é distrito de Mangaratiba). Disseram-me que a situação parecia encaminhada e menos preocupante.
No dia seguinte (27/09), após ter dormido por pouco mais de uma hora, saí cedo de Nova Friburgo em direção ao Rio onde embarquei em outro ônibus com destino a Angra dos Reis. Isto para não depender dos poucos horários disponíveis da linha da viação Costa Verde para Mangaratiba que faz paradas em três localidades até lá, demorando cerca de três horas. Viajei preparado para dormir durante vários dias em Muriqui e separei algum dinheiro para que minha esposa se mantivesse em casa.
Cheguei ao hospital pouco depois do meio dia, após ter almoçado e realizado algumas coisas necessárias na internet. No nosocômio, demorei a localizá-la, sendo que a recepção da unidade não tinha as informações onde minha avó pudesse ser encontrada até que eu a encontrei na emergência. Estava muito agitada, não conseguia falar direito e o lugar mal tinha estrutura para prestar um atendimento adequado aos pacientes.
Telefonei para minha tia afim de que ela entrasse em contato com o Bradesco Saúde e tentei verificar com os médicos sobre o diagnóstico e a possibilidade de remoção, sem ter conseguido falar até então com o profissional que estivera cuidando diretamente de seu caso desde o início do plantão. Seu quadro era de insuficiência cardíaca descompensada e também de insuficiência renal.
Contudo, eu mal poderia imaginar que havia chegado ao hospital na última hora de vida da minha avó. E, tão logo retornei ao leito onde estava, não demorou muito para que ela viesse a sofrer um infarto, um processo que eu duvidava que estivesse acontecendo. Vovó chegou a dizer que estava morrendo, mas eu não acreditei que fosse verdade e pensava ser uma reação emocional da parte dela até que, notando umas reações estranhas, chamei a enfermeira, a qual fechou a enfermaria, retirando de lá os acompanhantes e pacientes menos graves afim de que fosse tentada uma reanimação. No corredor do hospital, restou-me apenas a alternativa de orar e recitar uns versos dos salmos da Bíblia que trouxera na mochila.
Com a notícia de seu falecimento, iniciou outra batalha. Além de avisar minha tia, que ainda estava no Rio fazendo contatos, precisei comparecer ao cartório de registro civil para a certificação do óbito e contratar os serviços de uma funerária. Nestas horas ter uma faculdade de Direito adianta um pouco, mas a atenção nem sempre funciona bem quando estamos agindo em causa própria. Ainda mais debaixo de fortes emoções.
Confesso que aquele dia foi marcante pra mim, sendo que jamais tinha acompanhado uma pessoa em seus últimos instantes de vida. Quando minha tia chegou, senti a necessidade de desabafar sem lhe esconder as coisas ruins que passavam em minha mente, capazes de gerar terríveis sentimentos de culpa.
Recordo que, quando meu sogro veio a falecer nos braços de minha esposa, eu banalizava os sentimentos de culpa que Núbia alimentava dentro do seu coração. Considerava ilógico ela responsabilizar a si mesma pela morte do pai quando ele havia infartado dentro de sua casa às cinco da madrugada. Só que eu jamais tinha enfrentado uma situação semelhante para conseguir compreender como é complicado alguém lidar com o trauma da impotência pela perda de uma pessoa sob seus cuidados.
Em casos de saúde, jamais os familiares e acompanhantes podem se considerar o motivo do falecimento do ente querido. Pois somente poderemos nos tornar responsáveis por um evento se formos a sua causa direta. Do contrário, deve-se levar em conta as inúmeras variáveis que concorrem para um acontecimento ruim. E aí o que podemos indagar seria um tipo de fatalismo, aceitando que chegou a hora da pessoa partir.
Vovó viveu 89 anos. Faltava praticamente um mês em meio para que ela completasse os 90. Teve dois filhos e enterrou meu pai em 1983 quando ele tinha seus 36 anos. Morava sozinha em seu apartamento no Grajaú, Rio de Janeiro, e sempre teve uma saúde razoavelmente boa. Conviver com ela não era fácil e, por ser muito geniosa, dificultava a aproximação tanto dos familiares quanto dos vizinhos. Eu mesmo não costumava ser bem sucedido nas visitas que lhe fazia e precisava ser bem cauteloso tanto nas palavras quanto nas atitudes para evitar algum atrito.
Entretanto, vovó tinha boas qualidades. Era trabalhadeira, atuou como professora na rede pública municipal do Rio de Janeiro por muitos anos, formou-se em Biologia aos 50 anos e gostava de ajudar pessoas. Aliás, devo dizer que ela contribuiu bastante para o meu sustento econômico, assim como prestava auxílios financeiros a pessoas que nem eram parentes de sangue como minha outra avó (por parte de mãe), minha sogra e outros que nem pertenciam à família. Vivia com honestidade e disto todos os que lidavam com ela podiam testemunhar. E mais do que eu, que sou neto, reconheço que minha esposa, cunhada e sogra demonstraram mais empatia por ela.
Nestes dias finais de luto, agradeço a Deus pela vida da vovó e também por ter conseguido chegar a tempo no hospital de Mangaratiba para uma despedida final. E talvez a minha fraca presença ali tenha sido pra ela uma das coisas mais significativas. Não imaginava que sua partida iria ocorrer antes de seus 90 anos, porém o tempo de cada um é algo que somente o Soberano e Altíssimo conhece.
Com o falecimento da vovó, não resta mais ninguém na minha linha ascendente paterna (cheguei a ter meus quatro avós e cinco bisavós quando nasci). Prossigo agora com minha esposa, mãe, os avós maternos, dois irmãos uterinos, tios, primos, sogra, cunhada e mais a imensa família de Deus espalhada pelos quatro cantos da Terra.
OBS: A segunda foto acima refere-se aos dias em que eu e Núbia passamos na casa de minha avó em Muriqui na ocasião do ano novo de 2003.
Darcília Ferreira da Silva Pinhão nasceu em 14 de novembro de 1921 na cidade do Rio de Janeiro e faleceu em 27 de setembro de 2011, às 13:30 horas, no Hospital Municipal Victor de Souza Breves, em Mangaratiba (RJ). Era filha de Domingos Ferreira da Silva Pinhão e Margarida da Rocha Pinhão.
Essa última semana de setembro foi muito difícil. Precisei interromper minhas atividades laborais meus estudos e o cursinho preparatório para a prova do Tribunal de Justiça bem como ausentar-me num convite confirmado para comemorar as "Festas das Primícias" do Ano Novo Judaico numa comunidade judaico-messiânica aqui em Nova Friburgo.
Fui pego de surpresa na noite desta segunda-feira (26/09), ao saber que minha avó paterna tinha passado mal na sua casa de veraneio em Muriqui (RJ) e se encontrava lá sozinha precisando de socorro. Liguei para o seu celular. Ela atendeu. Só que eu mal conseguia compreender o que ela estava tentando me dizer. Imaginei logo que tivesse sido um derrame.
Sem ter carro e morando no outro lado do Estado do Rio de Janeiro, há mais de 200 quilômetros, precisei ter sangue frio para administrar a situação. Entrei em contato com minha tia e descobrimos uma pessoa da localidade que pôde ir até sua residência e levá-la ao posto de saúde. Fiquei até de madrugada comunicando-me por telefone com minha tia até saber que vovó tinha sido removida para o hospital público que fica na sede do município (Muriqui é distrito de Mangaratiba). Disseram-me que a situação parecia encaminhada e menos preocupante.
No dia seguinte (27/09), após ter dormido por pouco mais de uma hora, saí cedo de Nova Friburgo em direção ao Rio onde embarquei em outro ônibus com destino a Angra dos Reis. Isto para não depender dos poucos horários disponíveis da linha da viação Costa Verde para Mangaratiba que faz paradas em três localidades até lá, demorando cerca de três horas. Viajei preparado para dormir durante vários dias em Muriqui e separei algum dinheiro para que minha esposa se mantivesse em casa.
Cheguei ao hospital pouco depois do meio dia, após ter almoçado e realizado algumas coisas necessárias na internet. No nosocômio, demorei a localizá-la, sendo que a recepção da unidade não tinha as informações onde minha avó pudesse ser encontrada até que eu a encontrei na emergência. Estava muito agitada, não conseguia falar direito e o lugar mal tinha estrutura para prestar um atendimento adequado aos pacientes.
Telefonei para minha tia afim de que ela entrasse em contato com o Bradesco Saúde e tentei verificar com os médicos sobre o diagnóstico e a possibilidade de remoção, sem ter conseguido falar até então com o profissional que estivera cuidando diretamente de seu caso desde o início do plantão. Seu quadro era de insuficiência cardíaca descompensada e também de insuficiência renal.
Contudo, eu mal poderia imaginar que havia chegado ao hospital na última hora de vida da minha avó. E, tão logo retornei ao leito onde estava, não demorou muito para que ela viesse a sofrer um infarto, um processo que eu duvidava que estivesse acontecendo. Vovó chegou a dizer que estava morrendo, mas eu não acreditei que fosse verdade e pensava ser uma reação emocional da parte dela até que, notando umas reações estranhas, chamei a enfermeira, a qual fechou a enfermaria, retirando de lá os acompanhantes e pacientes menos graves afim de que fosse tentada uma reanimação. No corredor do hospital, restou-me apenas a alternativa de orar e recitar uns versos dos salmos da Bíblia que trouxera na mochila.
Com a notícia de seu falecimento, iniciou outra batalha. Além de avisar minha tia, que ainda estava no Rio fazendo contatos, precisei comparecer ao cartório de registro civil para a certificação do óbito e contratar os serviços de uma funerária. Nestas horas ter uma faculdade de Direito adianta um pouco, mas a atenção nem sempre funciona bem quando estamos agindo em causa própria. Ainda mais debaixo de fortes emoções.
Confesso que aquele dia foi marcante pra mim, sendo que jamais tinha acompanhado uma pessoa em seus últimos instantes de vida. Quando minha tia chegou, senti a necessidade de desabafar sem lhe esconder as coisas ruins que passavam em minha mente, capazes de gerar terríveis sentimentos de culpa.
Recordo que, quando meu sogro veio a falecer nos braços de minha esposa, eu banalizava os sentimentos de culpa que Núbia alimentava dentro do seu coração. Considerava ilógico ela responsabilizar a si mesma pela morte do pai quando ele havia infartado dentro de sua casa às cinco da madrugada. Só que eu jamais tinha enfrentado uma situação semelhante para conseguir compreender como é complicado alguém lidar com o trauma da impotência pela perda de uma pessoa sob seus cuidados.
Em casos de saúde, jamais os familiares e acompanhantes podem se considerar o motivo do falecimento do ente querido. Pois somente poderemos nos tornar responsáveis por um evento se formos a sua causa direta. Do contrário, deve-se levar em conta as inúmeras variáveis que concorrem para um acontecimento ruim. E aí o que podemos indagar seria um tipo de fatalismo, aceitando que chegou a hora da pessoa partir.
Vovó viveu 89 anos. Faltava praticamente um mês em meio para que ela completasse os 90. Teve dois filhos e enterrou meu pai em 1983 quando ele tinha seus 36 anos. Morava sozinha em seu apartamento no Grajaú, Rio de Janeiro, e sempre teve uma saúde razoavelmente boa. Conviver com ela não era fácil e, por ser muito geniosa, dificultava a aproximação tanto dos familiares quanto dos vizinhos. Eu mesmo não costumava ser bem sucedido nas visitas que lhe fazia e precisava ser bem cauteloso tanto nas palavras quanto nas atitudes para evitar algum atrito.
Entretanto, vovó tinha boas qualidades. Era trabalhadeira, atuou como professora na rede pública municipal do Rio de Janeiro por muitos anos, formou-se em Biologia aos 50 anos e gostava de ajudar pessoas. Aliás, devo dizer que ela contribuiu bastante para o meu sustento econômico, assim como prestava auxílios financeiros a pessoas que nem eram parentes de sangue como minha outra avó (por parte de mãe), minha sogra e outros que nem pertenciam à família. Vivia com honestidade e disto todos os que lidavam com ela podiam testemunhar. E mais do que eu, que sou neto, reconheço que minha esposa, cunhada e sogra demonstraram mais empatia por ela.
Nestes dias finais de luto, agradeço a Deus pela vida da vovó e também por ter conseguido chegar a tempo no hospital de Mangaratiba para uma despedida final. E talvez a minha fraca presença ali tenha sido pra ela uma das coisas mais significativas. Não imaginava que sua partida iria ocorrer antes de seus 90 anos, porém o tempo de cada um é algo que somente o Soberano e Altíssimo conhece.
Com o falecimento da vovó, não resta mais ninguém na minha linha ascendente paterna (cheguei a ter meus quatro avós e cinco bisavós quando nasci). Prossigo agora com minha esposa, mãe, os avós maternos, dois irmãos uterinos, tios, primos, sogra, cunhada e mais a imensa família de Deus espalhada pelos quatro cantos da Terra.
OBS: A segunda foto acima refere-se aos dias em que eu e Núbia passamos na casa de minha avó em Muriqui na ocasião do ano novo de 2003.
Darcília Ferreira da Silva Pinhão nasceu em 14 de novembro de 1921 na cidade do Rio de Janeiro e faleceu em 27 de setembro de 2011, às 13:30 horas, no Hospital Municipal Victor de Souza Breves, em Mangaratiba (RJ). Era filha de Domingos Ferreira da Silva Pinhão e Margarida da Rocha Pinhão.
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