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quinta-feira, 24 de maio de 2012

As leis reparatórias dos sumerianos, o talião e o enigma do perdão

Muitos séculos antes de Moisés, o direito dos povos começou a ser escrito pelos sumérios em estelas e tábuas de argila na antiga Mesopotâmia, nome este dado pelos gregos ao atual Iraque significando “terra entre rios”.

Situada entre os rios Tigre e o Eufrates, a Mesopotâmia pode ser considerada o berço da nossa civilização ocidental. Formada por inúmeras cidades-reino, eis que vários povos de origens diferentes fixaram-se ali. Nas férteis planícies do sul, estavam os sumérios que alguns místicos acreditam terem-se originado da lendária Atlântida. No centro, uma região de características mais árida, encontrávamos os acadianos. E, ao norte, os assírios que habitavam as montanhas. A economia era agropastoril e havia um considerável comércio fluvial com embarcações subindo e descendo.

Diz a Bíblia que o patriarca Abraão teria vindo de Ur dos caldeus, povo este que só ocupou tal cidade por volta do século IX a.C. Antes disto, porém, Ur chegou a ser um grandioso reino em sua terceira dinastia sob o governo do monarca Ur-Nammu, cerca de 2111 a 2094 a.C., tendo estendido os domínios territoriais de seu país sobre Eridu, Uruk, Nipur, Larsa, Késh e outras cidades menores da Mesopotâmia. Ao seu filho Shulgi (c. 2050 a.C) é atribuída a autoria do código de leis mais antigo até hoje encontrado pelos pesquisadores, tendo sido traduzido por Samuel Noah Kramer (1897-1990) na década de 50 da nossa era.

Eis aí algumas disposições do Código de Ur-Nammu:

1. Se um homem matar outro homem deverá ser morto.
2. Se um homem for culpado de roubo deverá ser morto.
3. Se um homem for culpado de seqüestro deverá ser preso e condenado a pagar 15 shekels de prata.
4. Se um escravo se casar com uma escrava, e esta cativa for posta em liberdade, então nenhum dos dois poderá deixar o cativeiro.
5. Se um escravo se casar com um indivíduo livre, deverá entregar o primeiro filho da união para o seu dono.
6. Se um homem deflorar a esposa virgem de outro homem ele deverá ser morto.
7. Se uma mulher casada dormir com outro homem ela deverá ser espancada até a morte. Mas o homem será posto em liberdade.
8. Se um homem violentar a escrava virgem de outro homem deverá pagar 5 shekels de prata.
9. Se um homem se divorcia da primeira esposa deverá pagar para ela uma mina de prata.
10. Se um homem se divorcia de uma mulher que já tenha sido casada deverá pagar a ela meia mina de prata.
11. Se um homem tiver intercurso sexual com uma viúva sem com ela ter redigido contrato, então não precisará pagar nada.
12. Se um homem for acusado de feitiçaria, mas contra ele não houver provas então esse homem deverá passar pelo “Julgamento Divino”. Se ele for inocente, deverá receber 3 shekels de prata daquele que o acusou.
13. Se uma mulher for acusada de infidelidade deverá passar pelo “Julgamento divino”. Se for inocente, seu acusador deverá lhe pagar a terça parte de uma mina de prata.
14. Se um homem ficar noiva de uma mulher, mas esta for dada a outro homem, então o antigo noivo deverá receber três vezes o valor pago pela moça.
15. Se um homem devolver o escravo fugido a outro homem deverá receber 2 shekels de prata.
16. Se um homem furar o olho de outro homem deverá pagar meia mina de prata.
17. Se um homem amputar o pé de outro homem deverá pagar 10 shekels de prata.
(http://historiadodireitounesp.blogspot.com.br/2010/04/ur-nammu.html)

Com a queda de Ur, através de uma guerra perdida para o Elão (região do sudeste da Pérsia), um novo reino sumeriano passou a ter influência sobre a Mesopotâmia entre os anos de 2033 a 1753 a.C. Até o início do governo de Hammurabi, em Babilônia. Localizada às margens do Diyala, afluente do Tigre, floresceu a cidade de Eshnunna, a qual destacou-se pela importância econômica e política adquirida. Suas normas jurídicas, descobertas em 1947, foram importantíssimas para darem solidez aos governos dos respectivos reis que, durante certo período, submeteram até a Assíria.

Em resumo, o Código de Eshnunna dispunha sobre casamentos, a proteção do mushkênum (classe intermediária entre os homens livres e escravos que suponho serem estrangeiros que trabalhassem para o palácio real), estabelecia valores pecuniários sobre os preços dos produtos, prestação de serviços, irregularidades, salários, juros, indenizações, etc. Excepcionalmente, em somente cinco hipóteses previstas, poderia ser aplicada pelo rei a pena de morte sobre determinados casos tipo o adultério feminino, a defloração por outro homem de uma jovem prometida em casamento e a queda de um muro mal conservado que tivesse causado a morte de um homem livre estando o seu proprietário já notificado pelos funcionários do governo. Porém, a maioria dos conflitos era mesmo resolvida pela reparação pecuniária imposta pelos juízes:

“Além disso: em uma causa (que implique a aplicação de uma compensação) de 1/3 de mina até uma mina de prata, os juízes julgarão a causa (…) Mas um processo de vida (pertence) ao rei.”

Tudo isso nos leva a crer pelas aparências de que as leis de Eshnunna foram mais avançadas do que as regras do talião adotadas amplamente no posterior Código de Hammurabi já no primeiro império babilônico. Porém, fico a pensar como deveria ser a vida numa sociedade onde quase tudo parecia ser resolvido através de somas em dinheiro?!

Em sua festejada obra Uma coleção de direito babilônico pré-hammurabiano. Leis do reino de Eshnunna, editora Vozes, o padre professor manauense Emanuel Bouzon (1933-2006) pesquisou sobre os valores financeiros praticados naquela cidade-reino onde um siclo correspondia a cerca de oito gramas ou um gur, conforme esta relação: 1 gur = 300 litros; 1 sut = 10 litros; 1 qa = 1 litro; 1 mina = 500 gramas.

Um sut de cevada era a diária de um trabalhador no campo e também o aluguel de um jumento, mas não pagava o uso de uma foice (1 sut e 5 qa). Se uma escrava fosse deflorada, o seu dono receberia 1/3 de uma mina de prata. Já uma briga entre dois homens livres (awilum) que resultasse em lesões, poderia custar ao agressor uma mina de prata por um olho, 2/3 de mina pelo corte de um dedo, 1/2 de mina por um dente ou orelha e 10 siclos do precioso metal só pela bofetada recebida. Se um cachorro brabo mordesse um awilum e lhe causasse a morte, o dono do animal pagaria 2/3 de uma mina de prata enquanto que, se a vítima fosse um escravo (wardum), pesavam somente 15 siclos.

Ora, considerando que 1 gur de cevada equivalia a um siclo de prata, eis que a vida de um escravo morto por um animal doméstico feroz importava nada menos do que 4.500 litros do cereal. Logo, se o dono do cão levasse dois bofetões na cara dados pelo proprietário do escravo, a dívida estaria mais do que paga.

Podemos constatar que as leis sumerianas sobre reparação pecuniária influenciaram o mundo por milênios e se relacionam até com a Torá de Moisés quando a Bíblia contempla algumas hipóteses de indenização por ofensas. No Código da Aliança (Êxodo 20.22-23.19), a sedução de uma virgem em Israel poderia resultar em reparação financeira caso o pai recusasse a dar sua filha em casamento. Conforme se lê em Êx 22.16-17, “avançar o sinal” sem nem ao menos estar noivo não era nada barato:

“Se alguém seduzir qualquer virgem que não estava desposada e se deitar com ela, pagará seu dote e a tomará por mulher. Se o pai dela definitivamente recusar dar-lha, pagará ele em dinheiro conforme o dote das virgens.” (ARA)

Por sua vez, em Deuteronômio, a difamação de uma jovem acusada pelo marido de não ter sido entregue virgem pela família poderia render cem ciclos de prata pagos pelo genro ao sogro além do castigo físico (Dt 22.13-19). Tal norma foi imposta para que a dor da humilhação social fosse sentida também na pele de quem violou a honra de uma mulher israelita. Seria o somatório da multa com os açoites. Porém, se pensarmos pelo ponto de vista da esposa, esta jamais conseguiria que o marido lhe desse o divórcio caso fosse de sua vontade (entre os hebreus antigos só o homem poderia dar uma carta de separação).

Atualmente temos o instituto do dano moral que é largamente aplicado pelos tribunais brasileiros e de outros países. Nosso direito não faz nenhum tabelamento de preços para as indenizações, mas prevê constitucionalmente o direito da vítima em ser reparada num valor que seja proporcional ao agravo (art. 5º, incisos V e X). Desta maneira, o constituinte apoiou-se no princípio da razoabilidade para que o Judiciário então fizesse a avaliação do dano imaterial, cabendo ao magistrado decidir sobre quanto o lesionador deve pagar por uma ofensa verbal, um olho que ficou cego, uma restrição indevida no SPC/SERASA ou até mesmo um atraso de horas no voo aéreo.

Mas será que os conflitos conseguem ser realmente pacificados por meio de um pagamento em dinheiro?!

Dificilmente um homem íntegro fica satisfeito por receber uma indenização por calúnias, xingamentos ou agressões físicas. Há vítimas que não querem receber nada do ofensor e optariam até por retribuições mais severas. Seja por orgulho ou por simples impossibilidade de recomposição do dano em dinheiro.

Se a vítima for pessoa muito rica, do que lhe adiantará receber quarenta salários mínimos de um agressor que também seja cheio da grana?!

E o que dizermos da corrupção gerada no meio social em que pessoas começam a viver em função da indústria das indenizações, procurando situações que possam render lucros com o dano moral? Nos Estados Unidos, por exemplo, há quem se jogue até diante de um automóvel para tentar uma grana extra na Justiça e, no Brasil, as coisas não têm sido diferentes na rotina dos Juizados Especiais e Justiça do Trabalho, havendo também advogados que colaboram com o oportunismo de seus clientes.

Curiosamente, a Lei de Moisés acolheu o princípio do talião. É o que se lê no Código da Aliança, além do que consta na Lei de Santidade (Lv 24.19-20) e no Código Deuteronômico (Dt 29.21), repetindo-se, portanto, três vezes na Bíblia:

“Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe.” (Êx 21.23-25; ARA)

Ora, se pensarmos que “olho por olho” não deve ser aplicado literalmente por expressar idiomaticamente o princípio de que a punição deva equivaler à gravidade do crime, então o semita Código de Hammurabi teria sido mais avançado do as leis sumerianas que o antecederam a partir do século XXII a.C. Mas claro que, na avaliação desse progresso, onde penas de até 40 açoites poderiam ser aplicadas ao réu, dificilmente algum humanista concordaria que o criminoso seja punido com castigos físicos nos dias de hoje.

Não deve ter sido por menos que as leis de Eshnunna vieram a ser reformadas no primeiro império babilônico onde o sábio rei Hammurabi adotou o sistema do talião cujo significado literal é “tal qual”. Algo que, embora possa não ter se aplicado literalmente em relação à expressão “olho por olho”, acabou se revelando de qualquer modo brutal porque, no fim das contas, gera uma perda dos dois lados. Funciona bem para por uma sociedade em equilíbrio, mas acaba resultando em duas pessoas lesadas.

Quem já se vingou alguma vez nunca se deu conta da sensação de vazio que é percebida logo depois que a retribuição é consumada? O que fazer depois que o outro recebeu o troco?!

Pois bem. Por que razão Jesus condenou a aplicação da vingança quando teria discursado no Sermão da Montanha (Mt 5.38-42)? Qual o benefício de “dar a outra face” quando deixo de exercer o meu direito de obter uma justa retribuição contra o meu ofensor?

Infelizmente os homens na época de Eshnunna desconheciam o perdão e, se não fosse o enigmático princípio do talião de Hammurabi, talvez a humanidade nem teria chegado a tão grandiosa descoberta. Com isto, abre-se caminho para o amor e para que ocorra uma regeneração social, uma voluntária mudança de atitude por parte do agressor e a recomposição do dano multiplicada por mil, gerando satisfação para todas as partes. Tanto quem libera o perdão quanto quem o recebe passa a compartilhar da alegria da convivência restaurada em que o evento ruim tornou-se em coisa boa.

Que haja mais perdão no mundo!


OBS: A primeira ilustração trata-se de um achado arqueológico do Código de Ur-Nammu e o segundo das leis de Eshnunna. Tem-se em seguida a Bíblia e a capa de um exemplar da nossa Constituição Federal de 1988. Já a última imagem refere-se ao quadro O Sermão da Montanha, uma pintura do artista dinarmaquês Carl Heinrich Bloch (1834-1890)

domingo, 9 de outubro de 2011

O olhar de Moisés e a experimentação do Santíssimo

Em quatro décadas de exílio, no país de Midiã, certamente que Moisés já deveria estar habituado com aquelas áridas paisagens da Península do Sinai. Seus dias pareciam ser monótonos para o ponto de vista de um ocidental moderno e compreendiam uma incansável rotina de pastoreio dos animais do sogro com quem ele morava. Ir para o Norte, para o Sul, Leste ou Oeste, sem dúvida eram caminhos bem conhecidos pelo príncipe que se recusou a ser chamado "filho da filha de Faraó" e que, preferindo o maltrato junto com o seu povo, não encontrou outra solução a não ser deixar o Egito das pirâmides com todos os seus ricos tesouros.

Certa vez, conduzindo o rebanho para além do deserto, Moisés chegou a um monte chamado Horebe que, futuramente, viria a ser conhecido como a "Montanha de Deus" e se tornaria destino de inúmeras peregrinações religiosas judaicas, cristãs e muçulmanas. Até aí, porém, aquela elevação era só mais um componente da geografia da região onde ele habitava anonimamente. Só que, naquele dia, que poderia ter sido igual a todos os outros que o antecederam, Moisés resolveu prestar a atenção em algo diferente, alcançando uma primária experiência que mudaria não somente a sua vida como a história da nação de Israel.

"Apareceu-lhe o Anjo do SENHOR numa chama de fogo, no meio de uma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia. Então, disse consigo mesmo: Irei para lá e verei essa grande maravilha; por que a sarça não se queima?" (Êxodo 3.2-3; ARA) - destaquei

A princípio, aquele fenômeno misterioso não amedrontou Moisés. Deixando-se levar pelo desejo de auto-pesquisa, ele resolveu dar uma espiada naquela simples planta espinhosa cuja madeira é "imprestável para talhar ídolos", conforme bem observa a literatura judaica pós-bíblica. Só que o orgulho e a soberba não tinham espaço no coração daquele peregrino octagenário cheio de vitalidade e ainda capaz de se maravilhar diante das situações mais comuns da natureza. Mesmo tendo sido um nobre da coorte da maior super potência do segundo milênio antes de Cristo.

Como explicar aquele acontecimento através da ciência ensinada nas universidades dos egípcios? Nem nos laboratórios e biblioteca da Harvard do Nilo existiam soluções para tal problema. Por se tratar de um mistério, o fato jamais poderia ser compreendido pela metodologia teórica passada nos livros. Logo, a única saída seria Moisés experimentar subjetivamente, saindo um pouco de si mesmo e procurando estudar a realidade por todos os ângulos ao seu alcance.

Assim fez Moisés quando se interessou pelo episódio da sarça que ardia e não se consumia, atentando para a realidade divina que há em todas as coisas e em todas as pessoas. Com abertura, livre de preconceitos acadêmicos e de ideias prontas, Moisés aproximou-se do arbusto. Ele não se negou ao questionamento e fez daquele momento uma grande oportunidade para seu enriquecimento pessoal através de um saber verificável que jamais pode prender-se a condutas dogmáticas ou fundamentalistas.

Ao inebriar-se com a visão da sarça em chamas, aflorou em Moisés aquele mesmo desejo de saber original dos patriarcas, mas que foi reprimido durante séculos de dominação econômica, política e cultural. Deixando de lado a alienação imposta pelo dominador, ele soube dar vazão à sua subjetividade na investigação do objeto a sua frente afim de situar-se com consciência na realidade. E, com isto, também permitiu que a verdade se estabelecesse nele de maneira libertadora, rompendo todas as correntes da opressão escravocrata e da dependência ideológica, as quais incutem o medo nas consciências, ferindo, humilhando, rebaixando a autoestima, silenciando a dança e a palavra de um povo afim de coisificar o ser.

Contudo, a investigação do sagrado requer do sujeito uma profunda reverência. E foi o que Moisés aprendeu. Após perceber seu chamado quando se aproximou da sarça, ele se deparou com a advertência que todos nós precisamos interiorizar:

"Vendo o SENHOR que ele se voltava para ver, Deus, no meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui! Deus continuou: Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa." (versos 5 e 6; mesma tradução bíblica)

Ao experimentarmos o Deus vivo, devemos lembrar que não estamos diante de qualquer pessoa e muito menos diante de uma força da natureza. Ele é o Santíssimo e subsiste em seu próprio existir, sendo infinito e absolutamente transcendente. Pois até os termos "Santo", "Eterno", "Pai" ou o impronunciável Tetragrama YHWH (consoantes de Yahweh), bem como outras possíveis representações, tornam-se todas insuficientes para definir quem as diversas tradições religiosas do planeta entendem ser o "Criador e Rei do Universo" por serem conceitos construídos conforme a nossa imagem e semelhança.

"Tirar as sandálias" é fundamental para que possamos incessantemente buscar o Deus vivo ao invés de encontrarmos um ídolo mudo, motivo pelo qual o Pai Nosso é iniciado pelo reconhecimento da santidade do Nome de Deus (conf. Mt 6.9). Porém, o célebre episódio da Torá mostra-nos o quanto descalçar os pés é ato simbólico e que todos os métodos de participação do Mistério poderão ser insuficientes por mais disciplinados que busquemos ser. Isto porque não existe receita espiritual para um encontro com o Eterno como se pudéssemos achá-lo frequentando um "lugar sagrado", ouvindo um louvor específico, sentando numa posição como a da ioga ou pronunciando palavrinhas mágicas. Pois, ainda que algumas boas práticas de vivência ajudem a relaxar a mente, elas jamais serão a real experiência.

O conto bíblico em análise, tido como proveniente da tradição javista pela Teoria Documentária e que corresponde aos seis primeiros versículos do capítulo 3 de Êxodo, seria antes de mais nada uma mera narrativa que nos ensina de maneira romanceada a aproximação mística do homem com Deus. Ela parece ser despida de qualquer historicidade, sendo, evidentemente, fruto do imaginário de um povo em que a oralidade precedeu o registro nas Escrituras. Aliás, o próprio nome hebraico do segundo livro da Torá (Shemot), tem por objetivo focar nos chamados de Moisés e de Israel.

Hoje, se formos visitar a Península do Sinai, e procurarmos pelo monte sagrado da revelação, certamente que não encontraremos ali nem anjos ou plantas queimando misteriosamente. Até a localização exata do Horebe é algo incerto e bastante discutível entre os estudiosos. Contudo, quem pagar por um turismo exótico desses, certamente voltará para casa ou frustrado, ou convicto de que a Luz Divina não está restrita a um lugar específico do globo terrestre.

Com esta maravilhosa historia judaica aprendemos basicamente que precisamos olhar atentamente os fatos ao nosso redor e agirmos com reverência em relação ao Mistério Sagrado que a todo instante fala em qualquer local com os homens. Deus está em você, em mim, na natureza, nos animais, nas estrelas e em cada acontecimento. Sua glória pode manifestar-se até nos momentos mais ociosos do cotidiano. Seja na fila de um banco, quando nos encontramos presos num congestionamento, durante as tarefas domésticas ou na conversa mantida com alguém. Então, se prestarmos a atenção, talvez encontraremos um "arbusto em chamas" diante de nosso rosto.


OBS: A ilustração acima refere-se a uma pintura de 1848 na Catedral de São Isaac, em São Petersburgo, cuja autoria é atribuída ao artista russo Eugène Pluchart (1809-1880). A obra retrata Deus aparecendo a Moisés no episódio da sarça ardente (Êxodo 3). Parte da inspiração deste artigo veio de uma leitura do sugestivo livro Experimentar Deus: a transparência de todas as coisas, editora Vozes, do pensador Leonardo Boff, bem como de The Gospel of Thomas: a Guide for Spiritual Practice, de Ron Miller.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

As borlas das vestes de Jesus




"E Jesus, levantando-se, o seguia, e também os seus discípulos. E eis que uma mulher, que durante doze anos vinha padecendo de uma hemorragia, veio por trás dele e lhe tocou na orla da veste; porque dizia consigo mesma: Se eu apenas lhe tocar a veste, ficarei curada. E Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou. E, desde aquele instante, a mulher ficou sã." (Evangelho de Mateus 8.19-22; ARA) - destaquei

A maioria dos cristãos ainda não consegue pensar num Jesus que estivesse de fato integrado à cultura judaica. Eu, porém, imagino o Senhor andando pelas ruas e cidades da Palestina usando os trajes típicos de seu povo, tal como prescrito pela Torá, a Lei de Moisés:

"Disse o SENHOR a Moisés: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes que nos cantos das suas vestes façam borlas pelas suas gerações; e as borlas em cada canto, presas por um cordão azul. E as borlas estarão ali para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR e os cumprais; não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos, após os quais andais adulterando, para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sereis a vosso Deus." (Números 15.37-40; ARA)

Estas borlas ou franjas, como consequência de um mandamento bíblico, ganhou uma enorme importância dentro da cultura judaica (antes de usarem o talit, os judeus ortodoxos ainda se vestiram assim até o século XVIII). Tratava-se do tsitsit e, como o texto nos mostra, tinha por objetivo fazer com que o cidadão israelita viesse a se lembrar da Lei de Moisés e guardar os seus mandamentos. Inclusive, para reforçar mais ainda a simbologia, tendo em vista o valor numérico das letras em hebraico da palavra tsitsit ser de número 600, foram acrescentados às vestes oito fios e cinco nós de uma franja, cuja soma dá 613 e corresponde o número total dos preceitos da Torá, segundo o Talmude.

"Nossas roupas com quatro cantos exigem tsitsit, e poucas roupas atualmente (exceto ponchos) têm quatro cantos, portanto usamos um talit especial com quatro cantos para podermos cumprir essa mitsvá. Durante as preces matinais, os homens usam um talit gadol – uma versão maior do talit catan. Tradicionalmente, os meninos começam a usar um talit catan aos três anos de idade." (http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1124380/jewish/Tsitsit.htm)

Contudo, no verso 5 de Mateus 23, Jesus aparece criticando os fariseus por alargarem os seus filactérios e alongarem suas franjas afim de serem notados pelos homens como praticantes de boas obras.

Certamente que as franjas foram dadas ao povo judeu para uma observância pessoal dos mandamentos. Algo que servia para alertar o israelita sobre os impulsos maus de seus corações (os pensamentos) e não seguisse tudo aquilo que atraísse suas vistas. Logo, não era uma coisa para ser exibida publicamente como se este ou aquele sujeito fosse um destaque moral, mas sim para cada um guardar para si mesmo.

Deve-se observar que Jesus conformou-se com o uso do tsitsit ainda que tenha reprovado a sua prática como fingimento, fato que me leva a fazer algumas reflexões sobre como deve ser o nosso comportamento em relação à guarda dos mandamentos de Deus, dos quais o crente nao deve ter vergonha de praticar.

Assim como Jesus não teve vergonha de suas franjas e nem se preocupou em alongá-las para ser visto pelos homens, nós não devemos nos retrair diante da sociedade a ponto de escondermos das pessoas a nossa opção pela obediência a Deus. Um homem fiel, por exemplo, deve assumir que se relaciona sexualmente só com a sua companheira e desta maneira agir com clareza diante de seus colegas de trabalho e demais pessoas de seu convívio, abstendo-se de comportamentos contrários à Palavra de Deus e se recusando a frequentar certos ambientes de prostituição e promiscuidade. Igualmente, lembrando aqui da célebre frase do Rui Barbosa, o homem não deve ter "vergonha de ser honesto" em seus negócios e atividades políticas, como se estivesse fazendo papel de trouxa ao devolver o troco que recebeu a mais.

Como um verdadeiro israelita, Jesus honrava a Deus e a Sua Palavra onde quer que estivesse, anunciando a Verdade em cada aldeia de Israel e pagando o preço pela escolha de seu ministério, tanto no meio do seu povo como diante do samaritano ou do estrangeiro que encontrasse. Desde a manhã até à noite, em todas as condições e a todas as horas da sua existência, sempre, e em todo lugar, ele se mostrava pronto a se entregar como um sacrifício vivo pela causa do Pai.

Vivendo com profunda naturalidade, sem precisar de recursos financeiros ou do marketing religioso, eis que até as vestes de Jesus exalavam o Poder de Deus que estava sobre ele. E este Poder estava baseado em sua autenticidade e relacionamento sincero com o Pai, sendo manifestado espontaneamente pela prática de um amor não fingido e que seria notado pela sociedade sem que ele precisasse preocupar-se em divulgar a sua imagem para ficar conhecido como o Messias prometido a Israel. E, assim, a sua fama se divulgou de maneira bem surpreendente, ainda que ele pedisse as pessoas que guardassem segredo a respeito dos milagres feitos por seu intermédio.

Que nós também possamos imitar os exemplos de vida ensinados por Jesus Cristo, andando em seus passos e almejando por uma obediência sem falsidade.

OBS: A imagem acima foi retratada nas catacumbas de Roma, antigos cemitérios subterrâneos onde as comunidades cristãs e judaicas se reuniam secretamente nos primeiros séculos da era comum. Extraído de http://campus.belmont.edu/honors/CatPix/womanblood.jpg através da Wikipédia, sendo material de domínio público, livre de direitos autorais.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Um pouquinho sobre o direito dos povos do antigo Oriente Próximo

Estou a pesquisar sobre a Mesopotâmia, comparando-a com a Torá judaica que é a legislação que eu conheço um pouco melhor porque se encontra na Bíblia (trata-se dos cinco primeiros livros da lei de Moisés chamados também de pentateuco).

Tenho descoberto que os códigos mesopotâmicos anteriores ao do rei Hamurábi (cerca de 1726-1686 a.e.c.), tais como o de Urukagina (c. 2350 a.e.c.) e de Ur-Nammu (c. 2100-2050 a.e.c.), foram leis mais humanas do que as posteriores por incrível que pareça. Em Ur-Nammu, tem-se a possibilidade de aplicação de penas pecuniárias (indenizações) ao invés da retribuição taliana do "olho por olho, dente por dente". Já o texto de Urakagina, conforme o historiador Samuel Noah Kramer, especialista em Mesopotâmia, tal legislação seria "um dos mais precisos documentos de combate à tirania e à opressão do poder da história humana, em todos os possíveis sentidos, e também como o primeiro registro da concepção da história de liberdade, pela palavra amargi, epistemologicamente definida como o 'retorno para a mãe'" - o destaque em itálico é meu.

"Tem-se no Código de Urukagina (ou Uruinimgina) mecanismos de limitação dos poderes dos sacerdotes, bem como dos altos funcionários públicos, o que é visto como uma forma de limitação do poer público, assim como um combate à corrupção. Também encontra-se uma busca de justiça social, através de garantias de direitos aos cegos, pobres, viúvas e outros desafortunados. Pode-se dizer também que pela primeira vez na história escrita do homem fez-se valer a ideia de liberdade individual. A terra era considerada uma propriedade dos deuses, competindo aos homens somente a sua fiel remuneração. Assim, todo homem tinha o direito de usar uma parcela do solo, mas não a recebia como título de propriedade. O Código de Urukagina negava a pena de morte, tendo em vista que considerava a vida um dom divino e esta era, portanto, uma disposição celestial. Dessa forma, qualquer dano deveria ser reparado por uma multa em dinheiro ou em cereal. Percebe-se facilmente que não contemplava a Lei de talião." (ALBERGARIA, Bruno. História do direito: evolução das leis, fatos e pensamentos. São Paulo: Atlas, 2011, pág. 18)

Em termos patrimoniais, sobre a disposição de ninguém ser dono da terra a não ser a divindade, vejo ali até uma certa equivalência com a Torá (ver Levítico 25.23). Porém, a não aplicação da pena de morte demonstra que, num passado remoto da humanidade, parece ter havido um momento de maior respeito pela vida onde a punição máxima talvez pudesse ser a expulsão do indivíduo do grupo.

No entanto, como o Código de Urukagina jamais foi encontrado (sabe-se de sua existência por outras fontes), seria precipitado alguém afirmar que aquela lei teria sido a primeira Torá escrita quase que como a de "fogo negro", como dizem os místicos judeus. Mas ainda assim, pode-se verificar na crença em Deus (ou nos deuses mesopotâmicos) algo que foi benéfico afim de restringir a exploração do homem pelo homem.

Como se sabe, a evolução da história da Mesopotâmia e do Oriente Próximo produziu a divisão social em classes a partir dos códigos de Eshnunna (c. 1930 a.e.c.) e de Hamurábi. Fez-se distinção entre o awilum, o muskênum e o escravo nos textos legais e tais normas acabaram sendo muito bem suplantadas pela Torá que foi talvez a legislação mais humana dentre os códigos até então encontrados pelos arqueólogos.

Com isto, deve-se considerar que, na origem da civilização, a ideia da divindade pode ter sido libertadora no começo (principalmente lá pelos séculos XXIV - XXIII a.e.c.), mas que, no segundo milênio, a religião das cidades-reino da Mesopotâmia achou-se corrompida em virtude do desenvolvimento econômico e social (aumento das riquezas e da exploração que induzia à escravidão por dívidas) e das questões políticas que envolviam guerras (escravidão por motivo de conquista). Logo, pode-se imaginar que os deuses teriam passado de concedentes da terra para senhores escravocratas dentro da concepção do homem da época, o que, segundo o meu raciocínio, explicaria as epopeias acadianas de que os seres humanos tivesses sido criados pelos deuses para trabalharem de escravos.

Com os hebreus, povo que se identificou como uma nação formada por ex-escravos dos faraós egípcios, tem-se um certo restabelecimento das primeiras leis mesopotâmicas como se vê na Torá com a instituição do ano sabático, o perdão das dívidas, a limitação do tempo de escravidão, a obrigação de conceder empréstimos sem a cobrança de juros ao necessitado, a previsão do acolhimento ao órfão, à viúva e até ao estrangeiro peregrino que estivesse em estado necessidade.

Sendo assim, concluo dizendo que a concepção sobre a divindade parece ter variado entre os povos conforme as mudanças econômicas, sociais e políticas, o que explica o retrocesso humanitário do Código de Hamurábi em relação às normas anteriores e uma possível retomada dos princípios das leis do Código de Urukagina pela Torá.


OBS: A ilustração acima refere-se a um fragmento de um cone de barro inscrito por Urukagina, príncipe da cidade mesopotâmica de Lagash. Foi encontrado em Telloh e fala sobre construções feitas pelo tal governante. Atualmente o achado encontra-se no Museu do Louvre, em Paris. Quanto à imagem, que é de domínio público, foi extraída de http://en.wikipedia.org/wiki/File:Clay_cone_Urukagina_Louvre_AO4598ab.jpg

terça-feira, 14 de junho de 2011

O leitmotiv bíblico do pensar socialista

"E os produtos do descanso da terra serão livres para comer, para vós e para todos, igualmente - para ti, para teu servo e para teu hóspede que habitar contigo. E para teu animal e para o animal selvagem que houver em tua terra, todo o seu produto será para comer." (Levítico 25.6-7; Sêfer)

"O sábado da terra garantirá comida para vós, para ti, o teu servo, tua serva, o assalariado ou aquele que mora contigo, em suma, os que vivem em teu meio. Quanto ao teu gado e aos animais selvagens da tua terra, alimentar-se-ão de tudo o que a terra produzir." (Tradução Ecumênica da Bíblia - TEB)


Milênios antes do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) nascer e do surgimento do movimento ambientalista, a instrução bíblica já orientava o povo de Israel a promover a tão falada inclusão social dos dias atuais, bem como estimulava a nação a conviver harmonicamente com o ecossistema silvestre trabalhado.

Os versos bíblicos que foram citados acima estão relacionados ao ano sabático (Shemitá), no qual haveria um "descanso" para a terra consistente na não ocorrência de plantio durante o período. E também seria um ano onde os israelitas ficariam liberados de grande parte de seus trabalhos cotidianos afim de estudarem melhor a Torá, conforme diz também Deuteronômio 31.10-13.

Assim, durante o ano da Shemitá (vocábulo que se traduz pela ação de "libertar"), os produtos que crescessem espontaneamente no campo deveriam ser distribuídos igualitariamente entre todos, o que incluía ricos e pobres, homens e mulheres, nacionais e estrangeiros residentes no país, animais domésticos e animais selvagens. Quem fosse credor de uma dívida deveria renunciar ao seu direito (Dt 9.2) e todos os cidadãos não poderiam deixar de emprestar ao necessitado sem a cobrança de juros (Lv 25.37).

Após o período de sete Shemitás, ocorria o Jubileu no quinquagésimo ano, compreendendo, além do repouso dos campos, o perdão absoluto das dívidas e o resgate das terras vendidas. Pois, entendendo que cada família tinha direito a uma terra, a lei de Moisés não permitia a aquisição perpétua da propriedade alheia mas só o arrendamento temporário, evitando assim que houvesse uma absurda concentração fundiária nas mãos de poucos.

Tal legislação teve por objetivo promover o equilíbrio da sociedade, evitando que os ricos ficassem cada vez mais ricos e os pobres mais miseráveis, combatendo algo que é tremendamente nocivo para qualquer povo - a formação de classes.

Pode-se dizer que a formação de classes sociais ocorre justamente pelas diferenças de participação das pessoas no processo produtivo e na partilha dos bens gerados, o que, consequentemente, vai influenciar no acesso ao poder político e nas formas como este passa a ser exercido. Em outras palavras, o modo de produção deixa de ser comunitário e as necessidades acabam sendo ignoradas ou tratadas insuficientemente devido à desigual distribuição dos benefícios do desenvolvimento.

Por outro lado, toda sociedade humana necessita de um aparelho produtivo e o desenvolvimento contempla a diferenciação que há entre as pessoas. Então, neste processo, é inevitável que venha a ocorrer uma acumulação de riquezas por parte de alguns enquanto outros poderão experimentar situações de risco econômico por motivos de enfermidade, acidente, inadequação, viuvez, nascimento de filhos, perdas familiares, fenômenos ambientais (secas ou enchentes), dentre outras causas. E, se este empobrecimento não for combatido por iniciativas de inclusão social, surgem riscos de rupturas políticas através de revoltas e o preocupante aumento da criminalidade.

No entanto, um fato interessante que se observa na proposta bíblica é que ela ultrapassa em muito o socialismo científico de Marx porque não exige que os homens passem pela dependência de um Estado afim de que as necessidades possam ser finalmente satisfeitas.

Originalmente, não era desejo da Torá que os israelitas viessem a constituir uma monarquia, mas sim pudessem continuar vivendo anarquicamente em suas tribos espalhadas pela terra de Canaã onde cada um assumiria a sua responsabilidade social praticando atos de caridade para com o seu próximo. E esta filantropia voluntária dispensaria a criação de um governo e a tão opressora tributação das famílias, permitindo que os recursos econômicos circulem com maior liberdade na própria sociedade.

Lamentavelmente, o rumo da história dos hebreus foi outro diverso daquele idealizado pela Torá. Sem estarem maduros naquela época para assumir tão nobre responsabilidade, os israelitas optaram por constituir um rei que os liderasse nos diversos aspectos, entregando a alguém o papel messiânico que, a princípio, sempre foi da própria nação sob a direção de Deus. E o Estado que deveria distribuir a justiça social, tornou-se em vários momentos um terrível instrumento dos ricos para explorar o restante da população, conforme foi denunciado pelos profetas bíblicos. As prescrições sobre os anos sabáticos não foram observadas (Jr 34.8-16) e o resultado foi a ruína do próprio reino com o consequente exílio de 70 anos na Babilônia.

Felizmente, os judeus conseguiram sobreviver até o globalizado 2011 (ou o ano 5771), atravessando períodos de dominação de vários povos, inquisições religiosas e holocaustos nazistas. E foi nos momentos mais difíceis que esta milenar cultura superou as adversidades, preservando os seus valores através do ensino da Torá nas sinagogas espalhadas fora do território de Israel.

Sem dúvida que a essência das prescrições éticas e sociais é um princípio eterno, aplicável em todas as épocas e em quaisquer circunstâncias. Deste modo, as Mitsvot (mandamentos) do Monte Sinai continuam sendo nos dias de hoje um farol capaz de iluminar e inspirar os homens a praticarem a justiça social em todas as nações, independentemente do regime político a ser adotado, onde as necessidades das pessoas precisam ser prioritariamente satisfeitas.


OBS: A palavra leitmotiv vem de uma expressão idiomática do alemão e genericamente significa a causa lógica conexiva entre dois ou mais entes quaisquer.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O que temos feito com o nosso descanso semanal?


“Lembra-te do dia de sábado para santificá-lo. Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus trabalhos, mas o sétimo dia é sábado dedicado ao SENHOR, o teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teus filhos ou filhas, nem teus servos ou servas, nem teus animais, nem os estrangeiros que moram em tuas cidades. Pois em seis dias o SENHOR fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou. Portanto, o SENHOR abençoou o sétimo dia e o santificou.” (Êxodo 20.8-11; Nova Versão Internacional – NVI)


Nós brasileiros temos vivido estressadamente (somos o segundo país pais estressado mo mundo) e cometido um grave erro em relação à vida. Trata-se do desrespeito praticado contra o repouso semanal, o qual chega a ser quase totalmente ignorado pelo comércio nas semanas que antecedem o Natal onde inúmeras lojas abrem de domingo a domingo no mês de dezembro.

Para o povo israelita, zelosos de suas tradições milenares, o sábado é considerado um dia sagrado conforme prescrito na lei mosaica - a Torah. Trata-se do Shabbat, o qual é reverenciado mesmo pelos judeus mais liberais em que os rabinos extraem profundos mandamentos baseados no 4º mandamento do Decálogo. Só que, infelizmente, a guarda deste preceito bíblico vem sendo desprezada pela maioria dos povos ocidentais.

A palavra hebraica Shabbat tem a ver com os verbos cessar ou descansar do nosso idioma. Surge pela primeira vez em Shemot (Êxodo) como um dia de repouso semanal consagrado a Deus, o que confirma a tradição de Bereshit (Gênesis) de que, no sétimo dia da criação, o Eterno descansou de toda a sua obra. E, deste modo, a instrução da Torah orienta ao homem que igualmente observe a mesma conduta, cessando com todas as atividades que sejam incompatíveis com este repouso no final de uma semana.

Ao contrário do que muitos cristãos pensam, Jesus não revogou o 4º mandamento. Sendo judeu, ele observava os preceitos da Torah, baseava seus ensinos nas Escrituras hebraicas e viveu a instrução divina em sua essência mais do que qualquer outro homem. Pois, ao curar aos sábados e ter permitido que os seus discípulos praticassem uma colheita de subsistência sem fins laborativos naquele dia, o Messias mostrou aos escribas legalistas de seu tempo que a aplicação de um mandamento não pode ser contrária ao princípio que rege a vida.


“O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado”. (Marcos 2.27; NVI)

“O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar a vida ou matar?” (Marcos 3.4; NVI)

“Qual de vocês, se tiver uma ovelha e ela cair num buraco no sábado, não irá pegá-la e tirá-la de lá? Quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Portanto, é permitido fazer o bem no sábado” (Mateus 12.11-12; NVI)

“Cada um de vocês não desamarra no sábado o seu boi ou jumento do estábulo e o leva para dar-lhe água? Então, esta mulher, uma filha de Abraão a quem Satanás mantinha presa por dezoito longos anos, não deveria no dia de sábado ser liberta daquilo que a prendia?” (Lucas 13.15-16; NVI)


Tais palavras de Jesus, diferentemente do que a maioria dos cristãos desconhecem, estavam de acordo com os princípios rabínicos posteriores em que a salvação de vidas deve se sobrepor ao sábado. Ou seja, Jesus expressou uma compreensão aberta sobre o 4º mandamento que já se encontrava em construção em seu século, provavelmente entre os fariseus mais liberais da escola de Hillel. Na certa, Jesus e outros rabis contemporâneos a ele estavam revendo a visão rigorosa que passou a existir no judaísmo pós-exílico a respeito da guarda do sábado e que ficou mais acentuada na época da dominação helenista sobre a Palestina. Tanto é que os escritos judaicos posteriores apresentam uma semelhança com o ensino de Jesus:


“O sábado vos foi entregue, e não vós ao sábado” (Mekh. Exod. 31.14)

“Se um homem tem uma dor de garganta, eles podem pingar remédio na sua boca no sábado, pois há dúvida de que sua vida está em perigo, isto se sobrepõe ao Sabá” (nYoma 8.6)


Quem lê a Torah irrefletidamente fica com a falsa impressão de que o Shabbat teria sido imposto aos israelitas com uma rigidez fechada. Porém, nenhum mandamento é para ser compreendido ao pé da letra como teriam feito os fariseus mais legalistas dos tempos de Jesus, indo contra o sentido da “instrução”, vocábulo este que melhor traduz para o português o significado de Torah..

O Shabbat, como todo mandamento, tem o objetivo de promover a vida. Com o descanso semanal, o homem retoma o seu alento para prosseguir na peregrinação que faz nesta terra, renovando suas forças. E, como se pode ver pela história, o descanso semanal tornou-se tão importante que influenciou a legislação trabalhista de vários países no mundo, tornando-se um direito inegociável do trabalhador ainda que flexibilizado na atualidade quanto ao dia e determinadas épocas do ano (justamente no Natal onde se comemora o nascimento do Messias que é o senhor do sábado).

Contudo, a crítica que quero focar neste artigo relaciona-se mais especificamente à maneira como lidamos com o nosso descanso semanal. Isto é, sobre a qualidade do nosso repouso e a sua relação com a instrução bíblica do Shabbat.

O verbo cessar neste contexto é sinônimo de parar de vez com as atividades rotineiras durante o tempo do repouso, sem cultivar preocupações e se abstendo de coisas estressantes. Significa também que, durante o Shabbat você não vai substituir a ausência do trabalho por coisas que perturbam a mente ou que provocam mais fadigas durante o lazer.

A definição do que seria uma brincadeira estressante pode variar conforme a rotina de cada um. Para alguém que trabalha diariamente diante da tela de um computador, não me parece adequado passar o final de semana inteiro na internet. Do mesmo modo, podemos dizer acerca de quem gasta boa parte de suas horas no trânsito em função de suas obrigações laborais e justo no dia de descanso resolve distrair-se tirando o carro da garagem para passear.

Desde 2008, tenho meditado acerca do 4º mandamento e obtido experiências bem positivas nas vezes em que decidi pô-lo em prática. E, com o tempo, acabei criando uma nova rotina em meus sábados, o que tem me proporcionado bem estar, embora eu ainda não tenha alcançado o estado ideal de repouso que o Shabbat propõe. Então, como tenho os finais de semana descomprometidos o trabalho, inicio o meu descanso da mesma maneira que os judeus e adventistas fazem. Respeitando o dia bíblico, vou parando com minhas atividades lá pelo por do sol da sexta-feira e evito compromissos até o por do sol de sábado, o que me proporciona uma renovação das energias.

Mas qual seria a utilidade de se considerar o dia bíblico que começava com o por do sol e não à meia noite?

Para um ecologista isto tem muito a ver. Pois, nos tempos antigos, a hora não era medida em minuto, mas sim pela duração do período em que a terra recebe a luz solar, variando conforme a estação do ano. Daí, dependendo da época e da distância do lugar em relação à linha do Equador, a hora poderia ter mais ou menos do que os 60 minutos fictícios, de modo que, no verão, as pessoas trabalhavam mais na lavoura do que no inverno. Porém, quando chegava a noite, não tinha mais como alguém permanecer no campo ou viajar e a família reunia-se para beber chá envolta da fogueira. Era o tempo orgânico.

Ora, se o Shabbat judaico inicia-se no por do sol da sexta-feira, logo o trabalhador dos tempos bíblicos acumulava duas noites de descanso e só retornava a laborar na manhã do primeiro dia da semana. Então, a despedida do Shabbat, feita no sábado à noite, passou a ter um significado todo especial que os judeus chamam de Havdalah, o qual deve é comemorado com muita alegria na crença de que bençãos são liberadas em tal momento.


“Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então, te deleitarás no SENHOR. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do SENHOR o disse.” (Isaías 58.13-14; ARA)


Como disse antes, Jesus não revogou a Torah como ele mesmo disse em Mateus 5.17-20, o que deixa bem claro que o Shabbat não foi abolido, mas sim interpretado em harmonia com a vida. Tal como todos os outros do Decálogo, o 4º mandamento deve ser observado sem nenhum legalismo como se os costumes tivessem que virar uma tradição inflexível, servindo o sábado de motivo para que a pessoa venha a se omitir de fazer o bem ao seu próximo em caso de necessidade ou mesmo de trabalhar caso não tenha outra opção, pois imagine o que seria dos serviços essenciais e emergenciais se, nos dias de hoje, todos parassem no mesmo dia da semana. Então, até o socorro espiritual é válido aos sábados. Pois, afinal, todo mandamento deve relacionar-se com o amor que é o resumo e a essência da Torah.

Aproveite que hoje é sexta e planeje um deleitoso descanso semanal!


OBS: A ilustração acima a uma obra do século XIV da Espanha referindo-se ao Havdalah praticado pelos judeus. As citações da literatura rabínica foram extraídas do livro "O Autêntico Evangelho de Jesus" de Geza Vermes. A palavra Havdalah, utilizada para referir-se à cerimônia de despedida do Shabbat significa separação (distinção) entre o santo e o profano.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Uma inspiradora revelação sobre quem somos


Os estudiosos discutem interminavelmente se as variadas histórias existentes nas culturas dos povos antigos sobre a criação (e também sobre o dilúvio) viriam de uma fonte comum. Fala-se, por exemplo, em notáveis semelhanças entre trechos do Bereshit (Gênesis) e a Epopeia de Atrakhasis, um poema babilônico sobre o começo da vida em sociedade, escrito há mais de 1600 anos a.C.

Segundo as versões sobre a Epopeia de Atrakhasis, os seres humanos teriam surgido para desempenhar a árdua tarefa dos deuses inferiores em cuidar da terra e foram criados da carne e do sangue de uma divindade. Porém, como os homens começaram a se multiplicar e a incomodar os deuses fazendo barulho, estes decidiram acabar com a raça humana através de um dilúvio...

Prossegue a lenda dizendo que o piedoso Atrakhasis fora advertido em sonhos por um deus acerca da catástrofe planejada e recebeu instruções de construir um barco para salvar-se junto com sua família mais alguns animais. E não muito diferente do Noé da Bíblia, o herói babilônico também soltou aves da arca afim de verificar se as águas já teriam baixado depois das chuvas torrenciais do dilúvio, chegando a oferecer ao final um sacrifício no alto de uma montanha dedicado aos deuses que “sentiram o cheiro suave” (conf. com Gn 8.21).

Questiona-se se a tradição bíblica teria ou não se originado da curiosa Epopeia de Atrakhasis devido às fortes semelhanças entre as duas narrativas. Porém, a existência de histórias anteriores na própria região da Mesopotâmia aponta para um mito originado num tempo ainda mais remoto em que os ancestrais de todos aqueles povos civilizados, antes de conhecerem a escrita, sentavam-se ao redor de uma fogueira para ouvir histórias contadas por um ancião nos acampamentos nômades dos grupos humanos.

Para Alan Millard, professor de hebraico antigo e de línguas semitas da Universidade de Liverpool (Reino Unido), os relatos dos capítulos 1 e 2 de Gênesis teriam os seguintes pontos em comum com outras histórias da criação do mundo e do homem: “uma divindade pré-existente; a criação como resultado de uma ordem divina; o ser humano como o ponto alto da criação, formado do pó da terra como se molda um vaso, mas também de certa forma um reflexo da divindade”.

Contudo, o renomado pesquisador adverte que a existência de ideias semelhantes entre as histórias não significa que todas elas sejam derivadas de uma fonte comum:


“É enganoso reduzir histórias diferentes trazidas das várias partes do mundo aos fatores que têm em comum para afirmar que todas têm uma fonte comum. É improvável que todas essas diferentes histórias, ou uma grande parte delas, tenham uma fonte única. É mais interessante, e mais correto, colocar o texto do Gênesis ao lado de outros relatos do antigo Oriente Próximo, que é o mundo do AT. Ao fazermos isso, notamos que são poucas as antigas histórias de criação que têm mais do que um ou dois conceitos básicos em comum, como a separação entre céus e terra e a criação do homem a partir do barro. Porém, as histórias dos babilônios têm algumas notáveis semelhanças com o relato hebraico.”
(extraído do Manual Bíblico da Sociedade Bíblica Brasileira, págs. 117 e 118)


A meu ver, a existência de uma fonte comum parece bem certa. Pois, mesmo desconhecendo a data e o local onde possa ter se originado a primeira história da criação do cosmos (e do dilúvio), observo na busca por respostas a razão comportamental para a ocorrência de todas as tradições dos povos a respeito de suas origens. Do contrário, os relatos teriam deixado de ser recontados pelas gerações posteriores.

Tudo indica que as histórias de Gênesis foram compostas no meio de inúmeros mitos que já deveriam existir no mundo antigo, tendo o autor da Torá baseado-se numa crença dos hebreus para transmitir-lhes uma mensagem de reverência a Deus dentro de uma visão sacerdotal. Pois, considerando que o povo do segundo milênio antes de Cristo, habituado a enchentes catastróficas, já ouvia falar de dilúvios e criação dos homens pelos deuses, mostrava-se oportuna a utilização dos mitos mais conhecidos pelos israelitas e inseminá-los com um significado espiritual capaz de conduzir os homens a um comportamento ético que respeitasse a vida.

Assim, Gênesis não é uma invenção de seu autor e muito menos foi escrito para se tornar uma dogmática teoria criacionista que contrariasse a ciência. Talvez nem possa ser considerado como uma fonte histórica, no sentido em que hoje compreendemos a História, apesar de suas belas narrativas explicarem poeticamente as origens da vida, da humanidade e da nação de Israel. Aliás, os relatos do Bereshit apenas compõem o revestimento de um ensino profundo, conforme expõe O Livro do Esplendor numa suposta fala do Rabi Simeão ben Yohai, célebre mestre judeu da Galileia do século II:


“Se um homem considera a Torá como uma simples compilação de histórias e de assuntos quotidianos, infeliz dele! Esse gênero de escrita, que tratasse de questões banais, e mesmo um texto melhor, também nós, nós mesmo o poderíamos redigir. Ainda mais, os príncipes deste mundo têm em sua posse livros de um valor ainda mais precioso, que poderíamos imitar se quiséssemos escrever uma 'Torá' semelhante. Mas a Torá, em cada uma das suas palavras, contém verdades supremas e segredos sublimes (…) Assim, os textos que a Torá relata não são mais do que as suas vestes exteriores, e mal daquele que julgue que tal traje é a própria Torá (…) Considerai o seguinte: A parte mais visível de um homem é o vestuário que traz, e aqueles a quem falta entendimento, quando olham esse homem, podem ver nele apenas o vestuário. No entanto, é na realidade o corpo do homem que faz a nobreza das suas vestes e a sua alma é a glória do seu corpo. Acontece o mesmo em relação á Torá. As suas narrativas que descrevem as coisas do mundo compõem a veste que cobre o corpo da Torá. E esse corpo é formado pelos preceitos da Torá, gufey-torah (corpo: princípios fundamentais). Os homens sem entendimento só vêem a narração, o vestuário; mas os que têm um pouco mais de sabedoria vêem igualmente o corpo. Só os verdadeiros sábios, os que servem ao Rei Muito-em-Cima, os que se conservam no Monte Sinai, penetram até à alma, até à verdadeira Torá que é a raiz fundamental de tudo (…) Assim como o vinho deve ser colocado num cântaro para se conservar, assim também a Torá deve ser envolvida numa roupagem exterior. Essa roupagem é feita de fábulas e narrativas. Mas nós, nós devemos penetrar através dela.”


Tais palavras podem ser hoje dirigidas para aqueles que, por acreditarem na teoria de Oparin, ou a da evolução das espécies de Charles Darwin, simplesmente desprezam as histórias de Gênesis, deixando de compreender que as narrativas bíblicas jamais foram redigidas para serem dogmatizadas. Porém, tanto o relato da criação quanto o mito do dilúvio foram escritos pelos sábios afim de comunicarem o papel de Deus na existência do universo e tratar de importantes questões de ordem ética que foram revolucionárias numa época de enorme brutalidade existente no trato entre os seres humanos, de modo que os temas desenvolvidos ao longo do Pentateuco baseiam-se nas narrativas do primeiro livro, sobretudo em ideias relacionadas aos versos iniciais: bondade manifestada por Deus em cada ato criador (1.4,10,18,21, 25, 31); sermos feitos à imagem e semelhança do Eterno (1.26-27); o cuidado com a natureza (1.28; conf. 2.5,15); descanso sabático (2.2-3); relação do homem com o solo (2.7); sopro de vida (2.7); jardim de ensino (2.8); árvore da vida (2.9); árvore do conhecimento do bem e do mal (2.17); a mulher como companheira do homem (2.18), sendo criada do varão (2.21), e se tornando ambos uma só carne (2.24); a nudez (2.25).

Sobre sermos feitos à imagem e semelhança de Deus, Barnabe Assohoto e Samuel Ngewa, ambos teólogos africanos, elaboram o seguinte comentário de aplicação pessoal que se mostram úteis para a compreensão do propósito de Gênesis:


“De acordo com as Escrituras, os seres humanos de ambos os sexos foram feitos à imagem de Deus (1:26b-27). Assim, as pessoas são diferentes de outros seres criados como animais, um fato que tem consequências importantes para a maneira como vivemos. Em primeiro lugar significa que cada ser humano é, de alguma forma, semelhante ao seu Criador. Assim, cada ser humano é especial e importante. Devemos ser capazes de reconhecer o Criador nos homens e nas mulheres que vemos ao nosso redor. Em segundo lugar, significa que não devemos adorar nenhum animal ou a imagem de um animal (…) Em terceiro lugar, uma vez que Deus criou tanto nosso corpo quanto nosso espírito, não devemos considerá-los separadamente e pensar que podemos ignorar o corpo enquanto vivemos para Deus no espírito. As Escrituras deixam claro que não devemos maltratar nosso próprio corpo nem o de outros (…) É importante observar que os homens e as mulheres receberam permissão de exercer domínio sobre as criaturas vivas, mas não sobre seres humanos. Da mesma forma, os homens não receberam autoridade para dominar as mulheres (nem vive-versa). Nossos semelhantes também são portadores da imagem do Criador e, portanto, não devem ser dominados, mas sim servidos.” (extraído do Comentário Bíblico Africano, pág. 11)


Não se pode esquecer que a Torá surgiu num tempo onde havia exploração do trabalho humano através da escravidão, penas cruéis baseadas na regra do Talião, dominação do homem sobre a mulher, adoração servil às divindades antropomorfas ou zoomorfas que poderiam incluir até sacrifícios de pessoas, terríveis reis opressores que se achavam descendentes dos deuses e guerras sangrentas. Logo, dentro deste contexto, pode-se afirmar que os “Cinco Rolos de Moisés”, dos quais Gênesis é o primeiro, tornaram-se a revelação tão esperada pelo escravizado homem do segundo milênio antes de Cristo. O manejo inspirado das tradições antigas significou a resposta para as intermináveis conversas em volta das fogueiras, dando novo sentido às narrativas folclóricas e libertando os homens do jugo dos deuses, visto que somos feitos à imagem e semelhança da divindade, o que nos faz destinatários de um tratamento digno e igualitário no trato entre os homens.

sábado, 2 de outubro de 2010

O verdadeiro sentido da revelação bíblica

Será que a Bíblia não passa de simples narrativas e de uma coletânea de preceitos que regram o cotidiano? Ou existe uma orientação mais profunda que vai além de suas belas histórias?

Engana-se quem não atenta para a profundidade das passagens bíblicas, ignorando as verdades e os segredos contidos em cada uma das palavras, as quais sustentam o mundo e trazem consigo um outro sentido profético que nem sempre somos capazes de compreender. Pois, até nos acontecimentos que nos parecem banais, há grandes tipologias e alusões à obra feia por Cristo.

Por outro lado, não vejo lá tanto proveito nas interpretações místicas que surgem por aí (quase sempre tiradas de versículos isolados de seu contexto), o que acaba sendo um desvirtuamento e até uma fuga da orientação divina. Pessoas ficam tentando elaborar teologias para identificarem a pessoa do "anticristo", ou o ano em que Jesus voltará, apegando-se a uma suposta cronologia de seis mil anos a contar de Adão enquanto que o próprio Senhor esclareceu que ninguém nada sabe quanto ao dia e a hora de sua segunda vinda.

Confesso que, por muitos anos, lia as profecias bíblias procurando pistas que me ajudassem a prever os acontecimentos do futuro relacionados aos últimos dias. Escatologia foi algo que sempre me atraiu, desde o final da infância quando já estudava com assiduidade alguns dos textos bíblicos. E, durante algum tempo, num período mais recente de minha caminhada espiritual, eu ainda ficava a indagar sobre o que falaram os sete trovões em Apocalipse 10.4 já que voz vinda dos céus tinha impedido João de registrar.

Contudo, um dia resolvi contentar-me em não saber tudo o que Deus planejou para o seu devido momento, quando li a seguinte passagem no livro de Deuteronômio, deixando de lado minhas preocupações tolas:

“As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos as palavras desta lei. (Deuteronômio 29.29; Nova Versão Internacional – NVI)

Acredito que as revelações bíblicas não foram dadas para que fiquemos indagando acerca de detalhes escatológicos que são desnecessários para a caminhada do homem nesta vida. Coisas do tipo quantos céus existem, ou sobre quais os caminhos que percorre a alma depois da morte, parecem-me inúteis para o nosso aprendizado cotidiano afim de que cresçamos no exercício do amor, praticando o perdão, a tolerância, a caridade, a humildade, a pureza, a pacificação de conflitos e o domínio próprio, dentre outras virtudes espirituais.

Durante o seu ministério, conforme registrado nos Evangelhos, Jesus nos deixou exemplos de interpretação das Escrituras afim de que possamos compreender qual a vontade de Deus para os nossos dias e tomarmos posse em vida do reino celestial. Sendo ele a própria Palavra de Deus encanada, o Senhor explicou com autoridade o sentido profundo da união entre o homem e a mulher quando indagado pelos fariseus a respeito do divórcio:


E, aproximando-se alguns fariseus, o experimentaram, perguntando-lhe: É lícito ao marido repudiar sua mulher? Ele lhes respondeu: Que vos ordenou Moisés? Tornaram eles: Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar. Mas Jesus lhes disse: Por causa da dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito esse mandamento; porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, deixará o homem a seu pai e mão [e unir-se-á a sua mulher], e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não serão dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem. Em casa, voltaram os discípulos a interrogá-lo sobre este assunto. Ele lhes disse: Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra aquela. E, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério. (Evangelho segundo Marcos 10.2-12. versão de Almeida Revista e Atualizada - ARA)


Que avanço para aquela época, não?! Ao dar sua interpretação da Torá, Jesus buscou nas origens da criação qual o verdadeiro sentido da união ente o homem e a mulher, igualando a condição de ambos os sexos quanto à observância dos mandamentos. Ainda mais numa época em que a poligamia masculina ainda era socialmente tolerada e foi largamente praticada até alguns séculos antes de Cristo (quase um milênio atrás, o rei Salomão tivera um numeroso harém de setecentas esposas e trezentas concubinas).

É verdade que, de acordo com as próprias histórias bíblicas, nenhum dos homens compreendeu completamente o sentido revelado das Escrituras e ainda assim Deus interagiu com a dureza de coração da humanidade. Nos momentos de maior ignorância do povo israelita que se encontram registrados no Livro de Juízes, sacrifícios foram oferecidos sem nenhuma observância das normas da Torá. Sem estarem investidos do sacerdócio levítico exclusivo dos descendentes de Arão, Gideão e os pais de Sansão tiveram seus holocaustos aceitos pelo Anjo do SENHOR. E, quanto ao sacrifício insano de Jefté, que prometeu oferecer quem primeiro viesse lhe saudar ao retornar para a casar depois da vitória da batalha, eis que, por patente ironia, Deus permitiu que a escolhida fosse justamente sua única filha. Contudo, Sansão, Jefté e Gideão têm seus nomes exemplificados no rol de heróis da fé do capítulo 11 da Epístola aos Hebreus (verso 32) enquanto que o rei Uzias, certamente um conhecedor da Lei, foi castigado com lepra por ter tentado usurpar as funções sacerdotais (ver 2 Crônicas 26.16-21).

Acredito que Deus não leva em conta a nossa ignorância quanto à sua vontade. Porém, a partir de Jesus, o Evangelho é pregado e o Reino dos Céus anunciado de modo que somos chamados para andarmos na sua luz. Ao estabelecer o verdadeiro intuito da Torá e revelar o propósito de seu ensino, o Senhor nos mostra que o cumprimento dos mandamentos se dá através de uma vida sinceramente destinada à obediência.

Curiosamente, na tentação de Jesus, o diabo chegou a usar até um trecho do Salmo 91 para que o Senhor se jogasse de um lugar alto e fosse acolhido pelos anjos de Deus (Mt 4.6). Durante as perseguições sofridas em seu ministério, Jesus foi acusado por várias vezes de violar o sábado (o quarto mandamento do decálogo) em razão de ter curado pessoas neste dia separado. Certa ocasião, quando os fariseus reclamaram dos discípulos de Jesus por estarem colhendo espigas nos campos para comer, o Senhor lhes deu esta sábia resposta:


Mas ele lhes respondeu: Nunca lestes o que fez Davi, quando se viu em necessidade e teve fome, ele e os seus companheiros? Como entrou na Casa de Deus, no tempo do sumo sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, os quais não é lícito comer, senão aos sacerdotes, e deu também aos que estavam com ele? E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado; de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado. (Evangelho segundo Marcos 2.25-28; ARA)


Com estas palavras, Jesus restabeleceu o sentido do sábado que é o mandamento estimulador da vida instituído na criação, contrastando-o com as sufocantes tradições dos homens cujas regras chegavam a limitar até o número máximo de passos. Como senhor do sábado (e também Senhor da criação), mais uma vez Jesus estava ensinando sobre o real sentido das Escrituras, resgatando a compreensão original.

É certo que nem Moisés, nem os profetas israelitas e nem Jesus deixaram prescrições explícitas que solucionassem cada detalhe dos problemas cotidianos que enfrentamos. Há momentos em que, mesmo abrindo a Bíblia, não encontramos escrita qual a revelação divina para as nossas vidas. Por isso, é que o próprio salmista diz que devemos meditar (refletir) na lei do SENHOR “de dia e de noite”, o que ocorre quando praticamos uma aceitação obediente dos mandamentos.

Como iremos compreender as Escrituras? Existem métodos que nos possibilitem aprender esses conhecimentos?

Contrariando a lógica, o próprio texto bíblico nos esclarece que o temor do SENHOR é a chave do saber (confere com Provérbios 9.10). Ou seja, é a través da reverência que alcançamos a sabedoria e o conhecimento do Santo. Então, quando buscamos a Deus de todo o coração, certamente Ele não ocultará aquilo que lhe é agradável, dando-nos direção pela sua graça. Neste sentido, permanece mais do que atual esta oração do salmista:

“Abre meus olhos para eu contemplar
as maravilhas que vêm da tua lei.
Eu sou peregrino na terra,
não escondas de mim teus mandamentos”

(Salmo 119.18-19; versão da Bíblia de Jerusalém)