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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Alicerces e Raízes


“Eu lhes mostrarei com quem se compara aquele que vem a mim, ouve as minhas palavras e as pratica. É como o homem que, ao construir uma casa, cavou fundo e colocou os alicerces na rocha. Quando veio a inundação, a torrente deu contra aquela casa, mas não a conseguiu abalar, porque estava bem construída. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as pratica, é como um homem que construiu uma casa sobre o chão, sem alicerces. No momento em que a torrente deu contra aquela casa, ela caiu, e a sua destruição foi completa”. (Evangelho de Lucas 6.47-49; Nova Versão Internacional – NVI)


Esta passagem do terceiro Evangelho, que também aparece como o ensinamento final do festejado Sermão da Montanha (Mt 7.24-27), trás em si um dos mais valiosos segredos do Reino de Deus.

Em ambas as ocasiões, o ouvinte praticante da Palavra é comparado ao homem que constrói sua casa sobre a rocha. Porém, o que talvez diferencie a versão de Lucas do texto de Mateus seja a ênfase sobre os alicerces da casa, enquanto que, no primeiro Evangelho, Jesus foca mais no tipo de solo onde é feita a edificação (rocha versus areia).

Tal ensino de Jesus tem uma profunda relação com as Escrituras hebraicas, isto é, com o Antigo Testamento da Bíblia cristã. Pois é uma parábola que se harmoniza com Mishlê (Provérbios) onde o autor fala das casas construídas pelo justo e pelo ímpio, o qual não consegue resistir a uma situação de adversidade:


“A casa do ímpio será destruída,
mas a tenda dos justos florescerá.”

(Pv 14.11; NVI)

“Passada a tempestade,
o ímpio já não existe,
mas o justo permanece firme para sempre.”

(Pv 10.25; NVI)


Acredito que algumas indagações didáticas podem ser propostas para tentarmos compreender melhor a célebre metáfora de Jesus:

1) Qual a profundidade e a medida de esforço empreendido por um empreiteiro para cavar numa rocha o lugar onde serão colocados os alicerces?

2) Como são os alicerces dessa casa construída sobre a rocha?

3) Por que o homem justo consegue sobreviver às tempestades da vida pela prática da Palavra?

Ao imaginar uma casa edificada na rocha, não posso esquecer-me de comentar sobre a Capadócia, uma região da Turquia em que antigas habitações subsistem por vários séculos. Ali, o turista pode visitar diversas moradias que foram feitas em local ainda mais difícil – dentro da rocha. Um verdadeiro patrimônio cultural da humanidade!

Devido à característica dura do terreno, não é possível cavar a rocha da mesma maneira que se faz com a terra ou a areia onde se usa a pá. É preciso perfurar o solo rochoso, gastar bastante tempo na colocação dos alicerces, enfrentar dias que poderão ser de frio ou calor, agir com persistência, não desanimar e retomar a construção várias vezes. Contudo, o resultado da obra é bem gratificante, pois, ao final, tem-se uma habitação resistente ao ambiente, segura e durável.

Meditando mais sobre o tipo de alicerce da casa e do justo que é um ouvinte praticante da Palavra, verifica-se que o virtuoso fundamento capaz de dar solidez à vida de um homem é de natureza experimental e não filosófica ou idealista. Isto porque não basta alguém conhecer as instrução divina apenas com a mente. É necessário que o ouvinte prove dela, vivenciando o ensino em seu cotidiano.

Neste sentido, torna-se oportuno citar este maravilhoso trecho do livro do profeta Jeremias, o qual, assim como a parábola da casa alicerçada sobre a rocha, encontra o seu paralelo bíblico no verso 3 do Salmo primeiro:


“Mas bendito é o homem cuja confiança está no SENHOR, cuja confiança nele está. Ele será como uma árvore plantada junto às águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Ele não temerá quando chegar o calor, porque suas folhas estão sempre verdes; não ficará ansiosa no ano da seca nem deixará de dar fruto”. (Jr 17.7-8; NVI)


Enquanto que na metáfora de Jeremias o verso precedente fala da confiança em Deus (v. 7), o Salmo primeiro faz sua comparação em três paralelismos ao homem que não anda em pecado (v. 1), mas que encontra prazer na instrução divina e nela medita (v. 2). Logo, estas seriam as “raízes” do justo, as quais correspondem ao perfeito entrelaçamento da fé com as obras que é muito bem expresso na epístola de Tiago onde a confiança não se separa da ação praticada pelo crente.

É através de uma verdadeira confiança no Eterno, capaz de manifestar-se em atitudes de obediência, que o homem aprende a construir bases sólidas e superar as adversidades que sucedem a todos, sem acepção de pessoas. Pois, quando passamos a cumprir os mandamentos, começamos a perceber que há significado na boa conduta incentivada pela Palavra, em que a experiência vai esculpindo em nossos corações uma firmeza interior decorrente da transformação sobrenatural do caráter. Aí o preceito, que antes parecia absurdo, ganha então sentido na mente do homem que obedece.

Do contrário, jamais conseguiremos compreender por que razão devemos perdoar uma pessoa que só nos faz mal? Qual o motivo de negarmos os instintos carnais e nos abstermos do adultério e de outras práticas sexuais que a Bíblia considera ilícitas? Onde está o fundamento de honrarmos os pais e amarmos os semelhantes como a nós mesmos? Que benefício pode haver em agirmos com honestidade nos negócios?

Estou certo de que nada disso conseguiremos compreender pela mera audição de uma mensagem pregada durante o culto na igreja ou através de uma leitura do texto bíblico. Pois, conforme disse Jesus, é preciso por em prática a sua instrução, o que, segundo o Salmo primeiro, deve acontecer o tempo todo pela meditação da Palavra. Então, quando estivermos radicados no ensino espiritual, teremos finalmente construído um castelo no nosso interior, capaz de suportar os mais terríveis cataclismos da vida, como é muito bem interpretado na literatura rabínica dos primeiros séculos da era comum e contemporânea ao surgimento do Novo testamento, onde se encontra a interessante resposta do rabi Eleazar ben Azariá, conforme citado por Geza Vermes num de seus livros:


“Aquele cujas obras são mais abundantes do que a sua sabedoria, a que se compara?”: “Uma árvore cujos galhos são poucos, mas cujas raízes são muitas, mesmo que todos os ventos do mundo venham e soprem contra ela, não pode ser arrancada do lugar” (mAb 3.18, comentando sobre Jr 17.8)


Que sejamos como a árvore bem plantada junto ao ribeiro de águas e firmes como a casa alicerçada sobre a rocha!

Tenha um excelente final de semana!