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terça-feira, 23 de junho de 2026

O “botão de desligar” da inteligência artificial e a soberania digital



A economista italiana Francesca Bria, assessora da Comissão Europeia para soberania tecnológica, afirmou que os Estados Unidos poderiam apertar o “botão de desligar” da inteligência artificial no mundo. A frase, publicada em entrevista à Folha de S.Paulo em 23 de junho de 2026, surgiu no contexto do debate sobre restrições impostas pelos Estados Unidos ao acesso internacional a determinadas tecnologias e modelos avançados de inteligência artificial, incluindo discussões sobre controles de exportação e restrições de acesso a determinadas tecnologias avançadas de inteligência artificial.

Tomada literalmente, a afirmação é exagerada. Não existe um interruptor único capaz de desligar toda a inteligência artificial do planeta. Modelos já instalados localmente, soluções de código aberto, sistemas chineses, iniciativas europeias e infraestruturas privadas continuariam existindo.

Mas a metáfora aponta para um problema real: a concentração das camadas mais estratégicas da inteligência artificial em poucas empresas e poucos países.

Essa concentração pode ser medida. Segundo levantamentos da Synergy Research Group divulgados em 2025, Amazon Web Services (AWS), Microsoft Azure e Google Cloud respondiam conjuntamente por aproximadamente dois terços do mercado global de computação em nuvem. No campo dos semicondutores voltados à inteligência artificial, a NVIDIA ocupa posição dominante no fornecimento de aceleradores utilizados para o treinamento de grandes modelos, enquanto a fabricação dos chips mais avançados permanece fortemente concentrada em poucas empresas e localidades, com destaque para Taiwan.

Tal dependência aparece em pelo menos quatro níveis.

O primeiro é o controle direto sobre plataformas comerciais. Empresas sediadas nos Estados Unidos, como OpenAI, Google DeepMind, Anthropic, Microsoft e Meta, desenvolvem alguns dos modelos mais avançados do mundo e podem restringir acesso a serviços, APIs, atualizações e produtos em nuvem.

A dependência não decorre apenas da concentração de mercado. Ela também resulta dos custos de migração. Quanto mais governos, empresas ou universidades estruturam seus sistemas em torno de um fornecedor específico, mais difícil e onerosa se torna sua substituição. Esse fenômeno, conhecido como vendor lock-in, é um dos principais desafios contemporâneos da soberania digital.

Isso não significa ausência de concorrência internacional. Empresas chinesas como Baidu, Alibaba, iFlytek, SenseTime e, mais recentemente, DeepSeek vêm reduzindo a distância tecnológica em diversas áreas, enquanto iniciativas europeias, como a francesa Mistral AI, buscam construir alternativas alinhadas às prioridades regulatórias e estratégicas da União Europeia.

O segundo nível é a cadeia de suprimentos. A IA depende de semicondutores avançados, GPUs, máquinas de litografia, data centers e energia. Essa cadeia é global, mas possui gargalos em pontos específicos. A fabricação de chips de última geração produzidos em nós de processo avançados permanece fortemente concentrada em Taiwan e, em menor medida, na Coreia do Sul. Equipamentos de litografia de ponta são dominados pela holandesa ASML. Já o software de projeto eletrônico (EDA), a propriedade intelectual de arquiteturas e boa parte do desenho dos aceleradores utilizados em inteligência artificial permanecem fortemente concentrados em empresas norte-americanas. A interdependência é global, mas os pontos de estrangulamento são relativamente poucos.

O terceiro é o controle jurídico e regulatório. Empresas privadas possuem interesses próprios, acionistas e estratégias comerciais, mas continuam sujeitas às leis do país onde estão sediadas. Em tempos normais, prevalece a lógica de mercado. Porém, em guerra comercial, sanções ou disputa geopolítica, a lógica estatal pode se impor.

Os controles de exportação adotados pelos Estados Unidos sobre tecnologias avançadas destinadas à China nos últimos anos ilustram esse fenômeno. Em determinados setores estratégicos, empresas privadas podem ser impedidas de vender determinados produtos ou serviços mesmo quando existe interesse econômico em fazê-lo.

O quarto é o campo mais sensível: coerção política, operações cibernéticas e medidas excepcionais de segurança nacional. Esse é o cenário mais extremo, mas justamente por isso preocupa governos que dependem de tecnologias estrangeiras para serviços públicos, defesa, energia, finanças e comunicação.

O caso da Anthropic não significa que os Estados Unidos possam desligar a IA mundial. Significa que Washington pode influenciar o acesso a tecnologias de fronteira quando as considera estratégicas. A diferença é relevante: não há um apagão global, mas pode haver perda seletiva de acesso às ferramentas mais avançadas.

Também seria equivocado imaginar que apenas os Estados importam. Empresas, fundações, universidades, consórcios internacionais, comunidades de software livre e iniciativas open source reduzem parcialmente essa dependência. Modelos abertos e infraestruturas distribuídas funcionam como uma espécie de antídoto contra a concentração absoluta. Mas eles não eliminam o problema, sobretudo quando se trata de modelos de fronteira, chips de última geração e capacidade computacional em larga escala.

Entre a dependência absoluta e a autossuficiência existe um amplo espaço de soluções intermediárias. Padrões abertos, requisitos de portabilidade, interoperabilidade entre plataformas, diversificação de fornecedores e acordos internacionais podem reduzir vulnerabilidades sem exigir que cada país reproduza integralmente toda a cadeia tecnológica.

A disputa não se resume aos Estados Unidos. A China avançou rapidamente com empresas como Baidu, Alibaba, iFlytek, SenseTime e, mais recentemente, DeepSeek. A Europa tenta recuperar espaço por meio de empresas como a francesa Mistral AI, de debates sobre a construção de uma infraestrutura tecnológica europeia integrada — frequentemente agrupados sob o conceito de EuroStack, expressão utilizada para designar propostas e debates sobre uma pilha tecnológica europeia integrad — e de programas voltados ao fortalecimento da infraestrutura digital e da capacidade europeia em inteligência artificial.

Para o Brasil, a lição é direta. Não se trata de buscar autossuficiência completa, objetivo caro e talvez inviável. O desafio é reduzir vulnerabilidades.

Algumas medidas apresentam resultados relativamente rápidos e custos moderados, como a formação de profissionais qualificados, o fortalecimento da pesquisa universitária, a adoção de padrões de interoperabilidade e a diversificação de fornecedores tecnológicos. Outras exigem horizontes mais longos e investimentos muito mais elevados, como a construção de infraestrutura computacional de grande escala ou o fortalecimento da indústria nacional de semicondutores.

Isso exige políticas públicas concretas: financiamento de infraestrutura nacional de computação; estímulo a data centers sustentáveis; fortalecimento de universidades e centros de pesquisa; incentivos fiscais para pesquisa e desenvolvimento; formação massiva de profissionais em IA; apoio a startups nacionais; exigências de portabilidade e interoperabilidade; proteção de dados sensíveis; e cooperação com diferentes polos tecnológicos, sem dependência exclusiva de um único país.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028 já aponta nessa direção ao prever investimentos em infraestrutura, pesquisa e aplicações públicas. Mas o debate precisa sair do plano abstrato. Soberania digital não é nacionalismo tecnológico. É capacidade de escolha.

Também é preciso reconhecer que soberania tecnológica não é um objetivo sem custos. Data centers consomem energia e água em larga escala, incentivos públicos possuem impacto orçamentário e políticas excessivamente protecionistas podem reduzir competição e inovação. O desafio consiste em equilibrar autonomia estratégica, sustentabilidade ambiental, eficiência econômica e inserção internacional.

A pergunta central, portanto, não é se existe literalmente um botão de desligar. A pergunta é outra: quem controla as infraestruturas das quais governos, empresas e cidadãos se tornam cada vez mais dependentes?

No século XIX, o poder passava pelas rotas marítimas, ferrovias e cabos telegráficos. No século XX, pelo petróleo, pela energia elétrica, pelos satélites e pelas telecomunicações. No século XXI, passa também por chips, nuvens, dados e inteligência artificial.

A frase de Francesca Bria pode ser retoricamente forte. Mas seria imprudente descartá-la como simples alarmismo. Em tempos de guerra comercial e rivalidade tecnológica, a sede da matriz de uma empresa, a localização dos servidores, a origem dos chips e a jurisdição aplicável podem definir muito mais do que contratos privados. Podem definir margens reais de soberania. E, talvez mais importante, podem definir o grau de liberdade que cada sociedade terá para escolher seus próprios caminhos tecnológicos em um mundo cada vez mais dependente da inteligência artificial e cada vez mais marcado pela competição entre grandes plataformas, Estados e ecossistemas tecnológicos.

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