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segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Rio pode inaugurar uma nova política

 


"A democracia é um conjunto de regras para a solução dos conflitos sem derramamento de sangue." (Norberto Bobbio)


Navegando hoje pelas redes sociais, encontrei uma interessante postagem do ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes no Facebook que chamou minha atenção.

Ao comentar ações conjuntas envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o prefeito Eduardo Cavaliere e o governador interino Ricardo Couto, Paes escreveu:


"É isso!  Governos sem conversinha ideológica trabalhando juntos.  O Castro passou anos tratando mal o governo federal.  Jogando a culpa no presidente da república por sua incompetência na Segurança Pública.  O Luiz Inácio Lula da Silva sempre esteve disposto a ajudar o Rio mas o discurso burro ideológico impedia isso.  Agora com o Governador interino pensando no bem do Estado, as parcerias avançam.  Só esse ano são 6BI de economia no pagamento da divida do Estado com a União.  E ainda hoje o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o prefeito Eduardo Cavaliere iniciam as obras de macrodrenagem do Jardim Maravilha em Guaratiba na Zona Oeste do Rio.  Mais de R$350mi do PAC mudando a vida de mais de 50 mil pessoas.  Parabéns Luiz Inácio Lula da Silva , o Rio deve muito a você!

Xô guerra ideológica!  Governos tem que trabalhar juntos pelo povo.  E ponto final!

Minha ideologia é uma só:  SALVAR O ESTADO DO RIO!!!!!"


Independentemente das preferências partidárias ou ideológicas de cada leitor, a reflexão proposta pelo ex-prefeito toca em um tema que merece atenção maior do que a disputa política do momento.

Seria possível que o Rio de Janeiro estivesse diante da oportunidade de inaugurar uma nova cultura de gestão pública?


Uma década de turbulências

Os últimos dez anos da política fluminense dificilmente podem ser descritos como um período de normalidade institucional.

O Estado assistiu a uma sucessão de crises políticas, econômicas e administrativas que produziram efeitos profundos sobre a confiança da população nas instituições.

Governadores foram presos, investigados, afastados ou submetidos a processos judiciais de grande repercussão.

Ao mesmo tempo, o Rio enfrentou dificuldades fiscais severas, deterioração de serviços públicos, problemas na área de segurança e sucessivas disputas políticas que frequentemente extrapolaram os limites do debate administrativo.

Em muitos momentos, a impressão transmitida à sociedade era a de que o conflito político ocupava mais espaço do que a solução dos problemas concretos.

Naturalmente, divergências fazem parte da democracia.

O problema surge quando a disputa permanente passa a dificultar a cooperação necessária para enfrentar desafios que não pertencem a um único partido, governo ou corrente ideológica.


A redescoberta da cooperação institucional

Talvez seja justamente nesse contexto que a postagem de Eduardo Paes encontre parte de sua relevância.

Quando ele afirma que governos devem trabalhar juntos, está defendendo uma ideia que vai além da conjuntura eleitoral.

A administração pública moderna tornou-se complexa demais para funcionar de forma isolada.

Segurança pública, mobilidade urbana, saneamento básico, habitação, prevenção de enchentes, desenvolvimento regional e infraestrutura dependem da atuação coordenada entre União, estados e municípios.

Nenhum desses desafios pode ser enfrentado adequadamente por uma única esfera de governo.

A cooperação institucional não elimina divergências políticas, mas permite que elas coexistam com a busca de resultados concretos.


O significado da experiência interina

Independentemente do desfecho jurídico ainda pendente perante o Supremo Tribunal Federal, a experiência da gestão interina conduzida pelo desembargador Ricardo Couto produziu um fenômeno político interessante.

Pela primeira vez em muitos anos, parte significativa do debate público passou a concentrar-se menos na disputa entre grupos políticos e mais em indicadores administrativos, equilíbrio fiscal, capacidade de gestão e coordenação institucional.

Não se trata de afirmar que a interinidade resolveu os problemas do Estado. Tampouco de ignorar os desafios que continuam existindo.

Mas é difícil negar que a experiência recolocou em evidência uma discussão importante: qual deve ser o papel da administração pública em períodos de crise institucional?


A política que vem depois da crise

Talvez a pergunta mais importante para o futuro do Rio de Janeiro não seja quem vencerá a próxima eleição.

A questão me parece ser outra.

Que tipo de governo a sociedade fluminense espera construir depois de uma década marcada por sucessivas crises?

Durante muito tempo, a política brasileira foi fortemente influenciada pela lógica dos líderes carismáticos, das disputas personalistas e da expectativa de que indivíduos específicos seriam capazes de resolver problemas estruturais.

No entanto, instituições sólidas dependem de planejamento, transparência, continuidade administrativa, responsabilidade fiscal e capacidade de cooperação. 

Esses atributos costumam produzir menos manchetes do que os grandes embates políticos.

Mas são eles que permitem resultados duradouros.


Um novo ciclo possível

Não existe garantia de que o Rio de Janeiro esteja ingressando em um novo ciclo.

A história raramente oferece certezas. Porém, existem sinais que merecem atenção.

A cooperação entre diferentes esferas de governo, a valorização crescente da capacidade administrativa e a busca por maior estabilidade institucional podem indicar uma mudança gradual de expectativas por parte da sociedade.

Se essa tendência se consolidará ou não, apenas os próximos anos poderão responder.

Todavia, depois de uma década marcada por crises sucessivas, considero significativo que parte do debate público comece a girar menos em torno dos conflitos e mais em torno da capacidade de construir soluções.

E, talvez, seja justamente essa a principal lição do momento atual.

Governos passam, partidos mudam, lideranças surgem e desaparecem, mas o verdadeiro desafio permanece o mesmo: construir instituições capazes de trabalhar juntas em benefício da população, independentemente de quem esteja temporariamente ocupando os cargos de poder.

Depois de uma década de crises, talvez o maior legado que um governante possa deixar ao Rio de Janeiro não seja uma vitória eleitoral, mas um Estado mais estável, mais cooperativo e institucionalmente mais forte do que aquele que recebeu.

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