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segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Mar que Ficou Para Trás



O vento soprava do Atlântico quando Manoel subiu pela última vez o pequeno caminho de terra que conduzia à igreja da Madalena.

Lá embaixo, o mar quebrava contra as rochas negras da ilha do Pico. O cheiro de sal misturava-se ao odor da terra vulcânica e das vinhas protegidas pelos intermináveis muros de pedra que serpenteavam pela paisagem.

Era um cenário que ele conhecia desde o nascimento.

Os mesmos campos.

As mesmas casas caiadas.

As mesmas embarcações de pesca retornando ao entardecer.

O mesmo horizonte azul que parecia não ter fim.

Ainda assim, naquela manhã, tudo parecia diferente.

Talvez porque soubesse que em breve partiria.

Seu pai falava havia meses sobre o assunto.

As terras estavam cada vez mais divididas entre herdeiros. As colheitas nem sempre bastavam. A população crescia mais depressa do que as oportunidades.

Do outro lado do oceano, diziam, havia terras.

Havia futuro.

Havia uma nova vida.

Poucos sabiam exatamente como seria essa vida.

Mas todos conheciam alguém que já havia partido.

Alguns mandavam notícias.

Outros desapareciam para sempre.

Manoel tinha pouco mais de quinze anos.

Era jovem demais para compreender plenamente o significado da palavra despedida.

Mas já possuía idade suficiente para perceber o silêncio que tomava conta da casa sempre que o assunto surgia.

Sua mãe evitava olhar para o mar.

Seu pai falava menos do que o habitual.

Os avós rezavam mais.

E ninguém mencionava aquilo que todos sabiam.

Talvez jamais voltassem.



Na Ilha Terceira, a centenas de quilômetros dali, Mariana observava as embarcações fundeadas diante de Angra.

As ruas da cidade eram maiores do que as da Madalena.

Os navios chegavam de diferentes partes do império português.

Mercadorias passavam pelo porto.

Militares circulavam pelas fortificações.

Ainda assim, as preocupações de sua família eram semelhantes às de tantas outras.

Havia filhos demais.

Recursos de menos.

E um oceano inteiro separando a esperança da realidade.

Mariana também não compreendia completamente o significado da viagem.

Imaginava o Brasil como uma terra distante, envolta em histórias e exageros.

Uma terra onde as árvores eram gigantes.

Onde os pássaros tinham cores impossíveis.

Onde o inverno era diferente.

Onde tudo parecia novo.

O que ela não imaginava era o tamanho da saudade.


A travessia foi longa.

Dias transformaram-se em semanas.

Semanas transformaram-se em meses.

O oceano mostrava diferentes humores.

Havia manhãs de calmaria absoluta.

Havia noites de tempestade em que o navio rangia como se fosse partir-se ao meio.

Muitas pessoas adoeciam.

Algumas morriam.

Outras rezavam.

Quase todas tinham medo.

Mas o medo era acompanhado por algo igualmente poderoso.

A esperança.



Quando finalmente avistaram a Ilha de Santa Catarina, muitos demoraram alguns instantes para acreditar.

A paisagem parecia saída de um sonho.

Montanhas cobertas por mata fechada.

Praias extensas.

Águas claras.

Vegetação tão abundante que parecia engolir o horizonte.

Nada lembrava os campos vulcânicos dos Açores.

Nada lembrava os muros de pedra.

Nada lembrava as pequenas aldeias deixadas para trás.

O mundo havia mudado.



Os primeiros anos foram difíceis.

Muito mais difíceis do que as promessas feitas pelos recrutadores.

Era preciso abrir caminhos.

Construir casas.

Preparar lavouras.

Adaptar-se ao clima.

Aprender a conviver com uma natureza exuberante e imprevisível.

As distâncias pareciam enormes.

As ferramentas eram poucas.

O trabalho era constante.

Ainda assim, aos poucos, uma comunidade surgia.

Famílias que antes habitavam ilhas diferentes agora tornavam-se vizinhas.

Pessoas do Pico encontravam pessoas da Terceira.

Moradores do Faial conheciam moradores de São Jorge.

Sob o céu de Santa Catarina, antigos desconhecidos passavam a compartilhar o mesmo destino.

Foi assim que Manoel conheceu Mariana.

Não houve nada de extraordinário.

Nenhuma grande aventura.

Nenhum episódio destinado aos livros.

Apenas encontros repetidos em missas, festas religiosas e trabalhos comunitários.

Olhares.

Conversas.

Sorrisos discretos.

Até que um dia decidiram construir uma vida juntos.

Como tantas outras pessoas.



Os anos passaram.

Vieram os filhos.

Vieram as colheitas.

Vieram as dificuldades.

Vieram também as alegrias.

A casa aumentou.

As árvores plantadas cresceram.

As crianças tornaram-se adultos.

Os netos começaram a nascer.

Pouco a pouco, os Açores deixaram de ser uma realidade presente para se transformar em lembrança.

Primeiro desapareceram os rostos dos parentes que haviam ficado.

Depois, algumas histórias.

Depois, certas palavras.

Mas não desapareceu tudo.

Os costumes permaneceram.

As receitas permaneceram.

As festas religiosas permaneceram.

As rezas permaneceram.

O mar permaneceu.

Sempre o mar.

O mesmo oceano que os havia separado da terra natal continuava diante deles.

Imenso.

Silencioso.

Eterno.



Numa tarde já no início do século XIX, Manoel caminhou até uma elevação próxima da vila.

Os cabelos haviam embranquecido.

As mãos carregavam as marcas de décadas de trabalho.

Mariana sentou-se ao seu lado.

Por alguns minutos permaneceram em silêncio.

À frente deles, a pequena povoação se espalhava pela paisagem.

Casas.

Roças.

Barcos.

Crianças correndo.

Vida.

Muita vida.

Nenhum dos dois sabia o que o futuro reservava.

Não sabiam que novas gerações nasceriam naquela terra.

Não sabiam que seus descendentes participariam da construção de cidades, governos e instituições.

Não sabiam os nomes que a história ainda registraria.

E isso pouco importava.

O que realmente importava estava diante de seus olhos.

A travessia havia valido a pena.

Os filhos estavam ali.

Os netos estavam ali.

A comunidade prosperava.

A semente havia germinado.

O mundo que deixaram para trás permanecia do outro lado do oceano.

Mas aquele novo mundo agora também lhes pertencia.

Quando o sol começou a desaparecer no horizonte, Manoel segurou a mão de Mariana.

Durante alguns instantes observaram o mar em silêncio.

O mesmo mar que um dia haviam atravessado.

O mesmo mar que guardava lembranças, perdas e esperanças.

O mesmo mar que havia ficado para trás.

E também o mesmo mar que os havia trazido até ali.


📝 Nota histórica:



O conto "O Mar que Ficou Para Trás" é uma obra de ficção histórica inspirada no contexto da imigração açoriana para Santa Catarina durante os séculos XVIII e XIX.

Os personagens centrais foram construídos a partir de referências genealógicas do autor existentes sobre um casal de origem açoriana formado por um homem natural da Ilha do Pico e uma mulher nascida na Ilha Terceira, cujos descendentes viveram na Ilha de Santa Catarina. Os acontecimentos, diálogos, sentimentos e situações descritos na narrativa constituem recriação literária, não havendo documentação conhecida que permita reconstituir suas vidas em detalhes.

Entre 1748 e 1756, a Coroa Portuguesa promoveu a transferência de milhares de famílias dos Açores e da Madeira para o sul do Brasil, especialmente para a então Capitania de Santa Catarina. A iniciativa buscava fortalecer a ocupação da região diante das disputas territoriais existentes no Atlântico Sul. Os colonos receberam terras e contribuíram decisivamente para a formação econômica, cultural e demográfica de diversas localidades catarinenses.

A influência açoriana permanece viva até os dias atuais na arquitetura, na culinária, nas festas religiosas, na pesca artesanal, no folclore e em inúmeros costumes preservados ao longo das gerações, constituindo um dos elementos fundamentais da identidade histórica de Santa Catarina.


OBS: Última imagem feita por Gaspard Duché de Vancy em 1785 mostrando o centro da vila do Desterro a partir do morro onde fica hoje o Hospital de Caridade – Foto: Acervo Sara Regina Poyares dos Reis/Divulgação/ND

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