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domingo, 3 de novembro de 2013

"(...) fujam para os montes (...)"


"Quando, porém, virdes Jerusalém sitiada de exércitos, sabei que está próxima a sua devastação. Então, os que estiverem na Judeia, fujam para os montes; os que se encontrarem dentro da cidade, retirem-se; e os que estiverem nos campos, não entrem nela. Porque estes dias são de vingança, para se cumprir tudo o que está escrito. Ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Porque haverá grande aflição na terra e ira contra este povo. Cairão a fio da espada e serão levados cativos para todas as nações; e, até que os tempos dos gentios se completem, Jerusalém será pisada por eles." (Evangelho de Lucas, capítulo 21, versículos de 20 a 24; versão e tradução ARA)

Como vimos na postagem anterior, a qual abordou a parte do Sermão Profético de Jesus no 3º Evangelho que fala a respeito das perseguições (Lc 21:12-19), nosso Salvador encorajou os discípulos a uma resistente perseverança. Agora, porém, nesta seção sobre o cerco de Jerusalém acima transcrita, o Mestre orientou seus seguidores a deixarem a cidade quando chegasse a guerra.

Jesus fora indagado pelos discípulos no verso 7 sobre quando ocorreria a destruição do Templo de Jerusalém e quais os sinais que evidenciariam o cumprimento de tais coisas. E, de acordo com a história judaica, esse fato realmente ocorreu no ano 70 da nossa era quando as tropas do general Tito invadiram a Cidade Santa porque a sua população havia se revoltado contra os romanos. Na época, o movimento político dos zelotes teria dado causa à rebelião que acabou resultando num verdadeiro massacre.

Para o Salvador, no entanto, aqueles acontecimentos iminentes significavam o cumprimento de antigas profecias registradas nas Escrituras Sagradas (verso 22). Provavelmente o Mestre estivesse se referindo ao Livro de Daniel, tendo em vista que, nos outros dois evangelhos sinóticos, os textos paralelos usam a expressão "abominação da desolação" (Mt 24:15; Mc 13:14; conf. com Dn 9:27; 11:31; 12:11). Ou seja, uma época de profanação do Templo e que não seria possível mais a apresentação das ofertas sacrificiais no santuário:

"Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar à transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos Santos. Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas; as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos. Depois de sessenta e duas semanas, será morto o Ungido e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será num dilúvio, e até ao fim haverá guerra; desolações são determinadas. Ele fará firme aliança com muitos, por uma semana; na metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; sobre a asa das abominações virá o assolador, até que a destruição, que está determinada, se derrame sobre ele." (Daniel, capítulo 9, versículos de 24 a 27; ARA)

De fato, o Sermão Profético bem interpretou Daniel. Ali Jesus deu um sentido prático e atualizado, valendo a sua aplicação também para toda a história da humanidade até à sua redenção final. Ou seja, nosso Senhor foi capaz de fazer uma leitura dos fatos de sua época e, dessa maneira, prever o futuro, dando aos seus seguidores um direcionamento certo. Trata-se aí da indicação de como a Igreja deve se portar diante de situações semelhantes que nos acompanharão até a consumação dos séculos.

Se considerarmos o contexto histórico em que os sinóticos foram escritos (suponho ser entre o final do século I e o começo do II), as comunidades cristãs destinatárias de Lucas já teriam ciência da destruição do Templo, mas deveriam ser prevenidas em relação a outras revoltas que ainda sucederiam. Tanto é que, na rebelião liderada pelo falso messias Simão bar Kochba, entre 132 e 135, o imperador Adriano aniquilou Jerusalém, expulsou os judeus da Palestina e ergueu um templo a Júpiter no mesmo local onde era o santuário sagrado. Assim, as comunidades cristãs que lá existiam não deveriam tomar partido nesses conflitos.

De fato, os crentes que estavam na Judeia fugiram de Jerusalém antes de sua destruição e foram se refugiar em Pela, nas montanhas da Transjordânia. Tiveram um comportamento que para os radicais zelotes certamente foi visto como sendo de covardia e de traição. No entendimento desse partido de guerrilheiros, o judeu teria que resistir militarmente ao dominador estrangeiro sendo certo que os tais pretendiam se impor pela força e não atentando para os desígnios de Deus. Ignoravam o poder da palavra através do diálogo construtivo.

Pois bem. Temos uma interessante situação que parece paradoxal. Se as perseguições serviriam de uma oportunidade para os discípulos testemunharem (verso 13), tornar-se-ia inútil e até prejudicial à causa do Reino de Deus se a Igreja desse o seu apoio aos zelotes. Assim, a fuga para os montes não somente poupou a vida das pessoas nas comunidades eclesiásticas como também contribuiu para enfraquecer o propósito incorreto daquele movimento insano e violento.

Importante considerarmos que, no grito e na execução de um confronto bélico, inexiste a oportunidade de diálogo até que as partes silenciem por alguns instantes. A pregação do Evangelho, que busca a construção do novo, é antes de tudo uma conversa. Não se trata de uma alienante proposta apolítica sem nenhum reflexo sobre as relações sociais de exploração/dominação em que a felicidade seja projetada somente para a metafísica. Muito pelo contrário! Contudo, não dá para anunciar as boas-novas quando as pessoas se tornam obstinadas e ensurdecidas.

Quando Jesus falou da situação das mulheres grávidas e das mães que amamentam (verso 23), o Mestre estava referindo-se a uma realidade ainda presenciada nos tempos modernos. Basta assistirmos aos noticiários quando a TV mostra os campos de refugiados em vários países ao redor do mundo, sobretudo na África e Médio Oriente. Nessa horas, as pessoas vulneráveis são as que mais sofrem de modo que eu incluiria também os casos dos mais idosos, dos cadeirantes, deficientes visuais e dos portadores de doenças crônicas. Além da escassez de água e de comida, esses grupos carecem de medicamentos e de cuidados especiais.

Não faz muito tempo, recebi um email da Missão Portas Abertas em que, segundo o relato de Alyne Romeiro, coordenadora do ministério de jovens da ONG, após ter visitado a Síria, Deus estaria transformando a maldição em bênção. Pois nos demais países que recebem refugiados da guerra, milhares de famílias, vítimas do conflito armado, estão sendo ajudadas por cristãos. Assim informou a missionária que:

“Deus está usando essa situação de guerra, porque, de outra forma, esses refugiados [muitos deles muçulmanos] não ouviriam falar de Jesus. Além de receberem recursos para o aluguel, comida e roupas, eles permitem que os cristãos que os visitam também orem por eles e preguem o evangelho”

Como se vê, apesar da radicalidade do regime sírio, eis que os ambiente está se tornando propício para a comunicação das boas-novas de Cristo nesta parte do Médio Oriente. Ou seja, mesmo em meio à tribulação, vidas estão sendo alcançadas pela Palavra de Deus e pelo amor fraternal.

Pensando agora na realidade brasileira, exorto aos meus irmãos em Cristo que fujam desses confrontos dos manifestantes mascarados com a polícia. Convenientemente é bom evitarmos por enquanto os protestos de rua para não darmos ocasião aos vândalos e baderneiros. Como cristãos queremos contribuir para a construção de um país melhor conforme os valores do Reino, mas não fazendo uso de métodos violentos ou dando qualquer tipo de apoio aos black-blocs. Logo, diante da barbárie exibida pelos telejornais, temos que nos refugiar nessas horas nos montes das orações pedindo ao Senhor para afastar essa nuvem cinzenta que, repentinamente, encobriu os céus de nossa nação, trazendo uma energia que não é nada boa para a democracia e para a paz. Vale dizer que, conforme havia abordado no artigo sobre a entrada de Jesus em Jerusalém, o messianismo do nosso Mestre é antes humilde e pacífico.

No versículo 24, Jesus predisse o que aconteceria com Jerusalém por causa da revolta dos zelotes. O resultado histórico foi uma diáspora em que os judeus ficaram quase dois mil anos dispersos entre as nações sofrendo preconceitos anti-semitas, inquisições e pogroms. A ocupação da cidade se daria até completar "o tempo dos gentios", o que parece ser uma referência a Dn 9:27. Algo que, apesar da fundação do Estado de Israel (14/05/1948), pode estar ainda aguardando cumprimento futuro porque os dias de angústia ainda não cessaram. A profecia de Daniel não se limitou à destruição de Jerusalém e permanece em aberto até o fim da "última semana". Até que o Reino de Deus seja plenificado, o que se faz representar pela vinda do Filho do Homem "com poder e grande glória" (verso 27). É o que ainda pretendo abordar num próximo estudo do Evangelho aqui no blogue, com a permissão do Altíssimo.

Uma ótima semana para todos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro O cerco e a destruição de Jerusalém pelos romanos sob o comando de Tito (1850) do artista escocês David Roberts (1796-1864). Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Ercole_de_Roberti_Destruction_of_Jerusalem_Fighting_Fleeing_Marching_Slaying_Burning_Chemical_reactions_b.jpg

2 comentários:

  1. É para mim uma honra acessar ao seu blog e poder ver e ler o que está a escrever
    reparei que se tem esforçado por nos dar o melhor,
    é um blog que nos convida a ficar mais um pouco e que dá gosto vir aqui mais vezes.
    Posso afirmar que gostei do que vi e li,decerto não deixarei de visitá-lo mais vezes.
    Sou António Batalha.
    Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
    PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se ainda não segue pode fazê-lo
    agora, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.
    Que a Paz de Jesus esteja no seu coração e no seu lar.

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    1. Caro Antonio Jesus,

      Fico muito feliz em receber seus comentários que me dão incentivo para prosseguir com esses trabalhos.

      Já tive o prazer de acessar o seu site. Muito bom!

      Grande abraço e que as bênçãos de Deus o acompanhem, extensivo também aos seus familiares.

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