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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pedro e Cornélio: afinal quem evangelizou quem?

Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.” (Atos dos Apóstolos 10.34-35; ARA)


É curioso como que muitos dos que se autoproclamam evangelistas arrogam-se em querer converter as outras pessoas não seguidoras de suas doutrinas ou costumes religiosos.

Posso fazer essa crítica porque já fui um cara assim. Um tremendo “mala”! E sei muito bem o que significa ter esta pretensão, alguém achando-se o dono da verdade e da razão, como se fosse o proprietário das “chaves do reino dos céus”.

Na passagem bíblica que fala sobre Pedro e Cornélio (cap. 10 de Atos dos Apóstolos), encontramos um belo exemplo de que o anúncio das Boas Novas do Reino não são propriedade de nenhum homem, seita, grupo étnico ou povo exclusivo. O Evangelho é nada mais do que a pura revelação da mensagem de Deus à humanidade, indicando o Caminho rumo ao conhecimento da Verdade e à promoção da Paz, tratando-se de algo acessível a todos. Um conhecimento que qualquer um é capaz de produzir.

Deus sempre nos leva mais além do nosso cotidiano para que possamos romper com as nossas limitações pessoais. E o episódio de Pedro e Cornélio mostra que aquela comunidade dos discípulos de Jesus, em Jerusalém, precisava vencer alguns preconceitos, afastando o etnocentrismo judaico e, assim, entender qual a dimensão da obra de Deus que fora profetizada há muitos séculos pelos profetas de Israel.

Segundo o livro de Atos, nesta época, Pedro permanecia firme no contexto do seu dia a dia, visitando as comunidades dos irmãos, curando e até ressuscitando pessoas. Contudo, Pedro necessitava de uma outra experiência para ir mais além das suas limitações e, deste modo, cumprir o glorioso chamado de Deus em sua vida.

O texto diz que, enquanto Pedro estava na cidade portuária de Jope (atual Haifa), eis que, em Cesareia, sede do governo provincial na região da Palestina, também marítima, morava um alto oficial do Império Romano chamado Cornélio.

Embora fosse estrangeiro, Cornélio residia entre os judeus e tinha um comportamento íntegro diante de Deus juntamente com toda a sua família. Pois, ao invés de oprimir o povo em nome do dominador romano, ele preferia praticar a caridade e, frequentemente, orava a Deus. Porém, por ser estrangeiro, Cornélio só deveria ser respeitado pelos moradores locais em razão de sua alta posição como autoridade e das boas ações que praticava. Isto porque, naquela época, os estrangeiros eram vistos como invasores, sendo que havia uma histórica briga entre judeus e gregos.

Apesar de sofrer todo este preconceito, Cornélio teve uma experiência sobrenatural numa certa tarde quando viu um anjo. Este, ao lhe aparecer, mandou que Cornélio enviasse mensageiros até Jope onde estava Pedro e conduzisse o apóstolo para Cesareia (At 10.5-6). Temente a Deus, Cornélio dispôs-se a obedecer prontamente a ordem transmitida pelo mensageiro.

Ocorreu que, no dia seguinte, por volta do meio dia, quando os homens enviados por Cornélio estavam a caminho de Jope, Deus falou com Pedro através de uma visão. Nosso irmão vê descer do céu, num lençol, vários animais considerados pela Lei de Moisés como impuros para a alimentação e para o sacrifício. Pedro, então, ouviu uma voz com uma ordem expressa para que ele comesse a carne de vários bichos considerados dieteticamente impuros para a alimentação de acordo com a lei mosaica (Levítico 11). Porém, por três vezes, o apóstolo recusou-se a obedecer o que lhe estava sendo falado na visão, mesmo advertido para que não considerasse como coisa comum aquilo que Deus purificou.

Sem ainda entender o significado daquela experiência, eis que chegaram os homens enviados por Cornélio à casa onde Pedro estava hospedado, quando então o apóstolo recebeu uma direção do Espírito Santo para acompanhá-los (At 10.19-20). Pedro, desta vez, obedeceu à ordem de Deus e, no dia seguinte, partiu com aqueles homens (At 10.23).

Ora, Cornélio estava com o coração totalmente aberto para compreender a Palavra de Deus e convidou seus parentes e amigos para ouvirem o que Pedro teria para compartilhar. E, embora fosse ele um homem piedoso que, continuamente, orava a Deus, não sabemos se de fato Cornélio tinha a concepção sobre a existência de uma única divindade ou se deveria adorar somente a Deus, visto que dificilmente deveria recitar a confissão monoteísta do Shema (Deuteronômio 6.4). Por ignorância, ele chegou a se prostrar diante de Pedro a fim de adorá-lo, tão logo o nosso irmão chegou (At 10.5).

Entretanto, erros ingênuos como esses jamais seriam imputados por Deus aos homens, visto que Cornélio estava com o seu coração completamente aberto para ouvir o Evangelho, aguardando apenas que alguém lhe anunciasse uma mensagem que lhe acrescentaria bastante coisa pra a sua experiência de vida.

Quebrando um forte preconceito existentes entre os judeus comuns daquela época, na região da Palestina, Pedro entrou na casa de um estrangeiro e faz ali um breve discurso sobre Jesus, mas que foi suficiente para salvar a vida daquelas pessoas que estavam presentes e com os seus ouvidos atentos para qualquer ação de Deus, a ponto de todas elas receberem instantaneamente o dom do Espírito Santo como os primeiros discípulos no dia de Pentecostes (At 10.44-46, conferir com Atos 2).

Lendo os versos 36 a 43 do capítulo 10 de Atos, percebe-se que Pedro fez menção do ministério de Jesus ocorrido entre os judeus alguns anos antes, pois se tratava ainda de um fato ainda recente na memória do povo e, na certa, conhecido por Cornélio bem como pelos demais ouvintes (At 10.37-38). Prosseguindo, Pedro falou da morte de Jesus (At 10.39), sua ressurreição (At 10.40-41), da missão recebida para pregar ao povo (At 10.42) e do perdão dos pecados (At 10.43).

Sem que fosse necessário Pedro fazer alguma citação das Escrituras hebraicas, diz o texto que o Espírito Santo foi derramado sobre aqueles receptivos ouvintes enquanto o apóstolo ainda discursava. E, mesmo sem os receptores terem ainda experimentado o ritual do batismo em águas, começaram a falar em línguas e a glorificar a Deus, confirmando que, realmente, estavam experimentando a conversão.

Reparem que não foram necessárias muitas palavras (nem “apelos pastorais”, ida numa igreja evangélica, curso pra “novos convertidos” ou imposição de mãos) para que Cornélio e aquelas pessoas experimentassem Deus. Seus corações estavam verdadeiramente abertos na expectativa de compreenderem a Palavra de Deus. E, quando receberam o dom do Espírito Santo, estava mais do que confirmado que aqueles homens, mesmo estrangeiros, poderiam ter acesso ao sagrado da mesma maneira que os primeiros discípulos, Jesus ou os antigos profetas de Israel. E, inclusive, tinham também um a mensagem para evangelizar Pedro e a Igreja.

Acredito que, com isto, Deus estava quebrando todo e qualquer preconceito étnico ou racial que pudesse existir naquela época dentro da Igreja, a qual foi formada a princípio por judeus, considerados como guardiões de uma tradição milenar dada por Moisés. Até então, é possível que muitos pensassem que a salvação fosse apenas para os israelitas que aceitassem a Cristo (At 11.18), não visualizando ainda a extensão ilimitada do plano de Deus.

Pode-se dizer que Pedro experimentou um considerável crescimento na sua vida espiritual como apóstolo e pregador da Palavra de Deus. Uma experiência que, assim como as anteriores em sua vida, levou-o a romper com suas limitações pessoais, sendo conduzido pelo Espírito Santo para alcançar um grau superior de maturidade espiritual para aperfeiçoamento seu e da Igreja. Aliás, nesta altura de sua caminhada, Pedro já não era mais aquele homem inconstante descrito nos Evangelhos. Agora, além da coragem para enfrentar multidões e autoridades, Pedro estava se tornando mais compreensivo quanto aos propósitos de Deus para a humanidade.

Ora, esta história da Bíblia nos ensina que precisamos remover de nossas mentes o preconceito, seja ele qual for. Evangelizar é, antes de mais nada, um compartilhar de ideias e de experiências. Pois, quando comunicamos ao outro o nosso aprendizado de vida, não podemos ter ouvidos de mercador para os relatos das outras pessoas, pensando de maneira pretensiosa que só nós estamos anunciando as Boas Novas.

Para quebrar mais um paradigma ainda forte na Igreja do século 21, digo que muito nós podemos aprender com pessoas de outras religiões ou que não sigam a nenhum credo. Pois certamente que o budista, o taoísta, o hinduísta, o judeu e até o muçulmano dispõem de valiosos ensinos sapiençais provenientes de suas respectivas culturas e que nos acrescentarão bastante. Mesmo as religiões de origem mais tribal como as tradições afro e indígena muito presentes na sincrética umbanda, além do candomblé que é 100% de origem negra.

Quanto aos não religiosos, nós, os seguidores de Jesus, devemos igualmente estar atentos para dialogar com aqueles que nos trazem um discurso mais científico. Precisamos neste ponto abrir nossas mentes e percebermos que Deus também fala através dos físicos, médicos, historiadores, filósofos, sociólogos, filólogos, biólogos e até sexólogos, mesmo que estes pesquisadores não frequentem igrejas e uns até se declarem ateus. Pois, nestas horas, precisamos ter humildade para recebermos através deles orientações e esclarecimentos, considerando suas experiências de vida tão importantes quanto as nossas.

Para completar, quero incluir neste rol de evangelistas os poetas, os cantores, os atores de TV (mesmo os que trabalham na Globo), os escritores e todos aqueles que se aventuram no campo das artes seculares explorando o subjetivismo. E ainda menciono os desconhecidos, as pessoas simples, o homem do campo, a dona de casa, o catador de material reciclável, a pessoa portadora de necessidades especiais e até os animais. Pois todos já têm dentro de si uma percepção do Evangelho e uma riqueza de experiências, de modo que aquilo que precisamos fazer é contribuir para que o outro também some conosco na construção de um mundo melhor. Ou seja, serem participantes da construção ou vivência do Reino de Deus aqui na Terra, conforme Jesus Cristo muito pregou.

Um abraço a todos e tenham um excelente final de semana com muita paz e descanso!


OBS: A primeira imagem acima trata-se do quadro "Pedro batizando o centurião Cornélio" (1709) do artista italiano Francesco Trevisani que viveu entre os séculos XVI e XVII. Já a segunda cuida-se de uma obra anônima da arte bizantina que mostra "Pedro e o galo", lembrando a experiência da negação do discípulo.

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Rodrigão, pra mim evangelizar é antes de mais nada promover o bem na vida do próximo sem mesmo que haja um discurso ou sequer uma palavra.

    Como disse o irmão Francisco de Assis "Pregue o Evangelho em todo tempo.Se necessário, use palavras".

    Difícil seguir esse conselho para quem não se desarmou ainda da pretensa superioridade travestida de piedade!

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  3. Concordo com você, Franklin, e eu ainda ampliaria a ideia de evangelizar, no sentido de promover o Reino de Deus.

    A presença do evangelista numa comunidade ou no meio de pessoas é algo que deve trazer transformações. E aí palavras são só instrumentos que acompanharão condutas.

    Antes de mais nada, é fundamental que o evangelista já esteja experimentando o Reino afim de que suas palavras tenham fundamento e não se tornem vazias.

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  4. "Difícil seguir esse conselho para quem não se desarmou ainda da pretensa superioridade travestida de piedade!"


    Boa observação!

    Creio que o evangelismo, por estar baseado mais na conduta do que nas palavras, relaciona-se com uma conduta de humildade.

    "Deus resiste aos soberbos e dá graça aos humildes."

    Quando o evangelista se desarma e decide comunicar as Boas Novas do Reino através de sua experimentação, sem esconder-se atrás de máscaras, suas palavras tornam-se verdadeiras e o seu recado alcança corações.

    É preciso que a mensagem seja dita de coração pra coração!

    Abraços.

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  5. Rodrigo, excelente texto e reflexão.

    O Reino de Deus não pode ser anunciado através de uma mensagem sectária, elitista, exclusivista, mas uma mensagem que leve em consideração que cada ser humano tem em si, a centelha divina, e para a sua fonte um dia voltará. A nossa colaboração com a mensagem deste Reino, é despertar nas pessoas o seu lado "divino" onde habita a Luz(conforme li em um texto aqui).

    abraços

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  6. É isso aí, Edu.

    Já dizia o saudoso Gershom Scholem, professor de misticismo judaico da Universidade Hebraica de Jerusalém que o Eterno é conhecido "não pela teologia dogmática, mas por meio da experiência viva e da intuição".

    Assim, quando passamos a ter esta visão, toda a fala humana pode se tornar uma linguagem da exploração espiritual.

    Tudo que existe, meu irmão, é forma mística da verdade divina, do Logos, sem o qual "nada do que foi feito se fez".

    Valeu pelos comentários!

    Tenha uma boa semana.

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