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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Cantor Cristão: uma fantástica riqueza musical dos nossos antepassados


Na primeira semana do mês de novembro, passei numa loja de artigos evangélicos e resolvi adquirir um exemplar do hinário “Cantor Cristão”.

Fiz esta compra não apenas para relembrar o passado e muito menos usar nos cultos da congregação da qual faço parte (na IBS usamos projeções computadorizadas), mas sim para pesquisar sobre determinadas músicas e seus compositores já que a maioria das canções eu desconheço.

Atualmente cada vez se usa menos os hinários nas congregações cristãs. Já nos anos 90, a projeção de louvores novos escritos em transparências já estavam sendo preferidos dentro das igrejas denominadas como “renovadas”. E, hoje em dia, com os avanços da informática, os retroprojetores puderam ser substituídos pelos modernos computadores em que comunidades de diversas concepções teológicas já aderiram às invenções técnicas e aos novos cânticos.

Entretanto, não foi a tecnologia em si ou os movimentos de renovação carismática que mandaram para escanteio os velhos hinos do passado. O ritmo da vida moderna alterou-se no decorrer do século XX, tornando o cotidiano mais agitado e menos contemplativo. Com isto, tanto as músicas seculares como as religiosas foram influenciadas conforme o estilo de um público que experimenta emoções fortes, despertado não mais pelo toque do piano e sim ao som da guitarra.

A grande maioria dos louvores do Cantor Cristão vem do século XIX e várias composições surgiram no século XVIII, antes mesmo da Revolução Francesa. Não são em sua maioria canções brasileiras, mas foram adequadamente traduzidas para o nosso idioma e entoadas por muitas décadas no meio evangélico, influenciando gerações. E, mesmo refletindo uma europeirização dos costumes nacionais (não se pode negar que o protestantismo no Brasil atendeu a interesses de dominação cultural), devemos considerar as boas lembranças despertadas por cada uma das músicas.

Penso que devemos louvar a Deus conforme o contexto dos nossos dias afim de realmente estabelecermos uma identificação com aquilo que se faz nas nossas congregações. A cultura, por ser um fenômeno permanentemente em mudança, exige um acompanhamento contínuo de maneira que os cânticos entoados não podem desconectar a Igreja com o ambiente humano das nossas relações.

Contudo, nunca é bom esquecer as riquezas produzidas no passado e de um hinário que trás lindas músicas que foram escritas numa época em que o romantismo inspirava multidões em quase todo o mundo, inclusive na literatura e nas artes em geral, marcando a primeira metade do século XIX. E, neste sentido, não podemos negar que, sob um certo aspecto, a cultura religiosa do cristianismo se romantizou.

Num momento em que, nas próximas décadas, as edições impressas do Cantor Cristão tendem a um desaparecimento, talvez nos restem umas versões gravadas na internet e nos futuros substitutos dos CDs e DVDs. Porém, não acho nada bom que as canções dos hinários façam parte apenas de um museu virtual que acabará sendo visitado apenas por um grupo de internautas interessados. Isto porque não parece proveitoso que as gerações de hoje percam quase todos os vínculos com o passado de seus bisavós, tataravós e outros ancestrais anteriores.

Vale a pena lembrar que, nos nossos tempos, pouco se sabe a respeito dos hinos que eram cantados na Igreja primitiva e acredito que se trate de algo que seria de grande preciosidade para os cristãos do século XXI. Aliás, é bom lembrar que, de acordo com os estudiosos da Bíblia, algumas epístolas de Paulo contêm fragmentos correspondentes a músicas que talvez possam ter sido entoadas pela Igreja no primeiro século como o caso de Filipenses 2.6-11 (sobre a kenosis de Cristo), bem como Colossenses 1.15-20, 1Tm 3.16 e 2Tm 2.11-13. Porém, todos estes hinos vieram a se perder e o que se sabe mesmo é que os salmos deveriam integrar o canto cristão tradicional.

Conforme o próprio Paulo exortou as igrejas, ceio que devemos ter em nosso meio salmos e também muita música “entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais” (Efésios 5.19; ARA), não deixando de lado os hinos clássicos que marcaram gerações, os quais marcaram a vida de muitos jovens e podem se tornar uma verdadeira oportunidade para louvarmos a Deus somente com a voz na ausência de determinados instrumentos como os CDs e os DVDs.

Para o Natal, podemos encontrar no Cantor Cristão algumas letras voltadas especificamente para esta época. Dentre elas, gostaria de transcrever a seguir a inesquecível composição “Nasce Jesus” do baiano Manuel Avelino de Souza (1886-1962) que é a de numero 29 do hinário. Trata-se de um verdadeiro louvor ao Autor da nossa salvação:


1. O povo, sim, coberto
De densas trevas perto
Do abismo e não desperto
Vê surpreso um grande e divinal clarão.

Coro:
É Jesus que nasce, autor da salvação,
Cristo amado a todos traz a redenção!
O coro angelical, num hino triunfal,
Proclama o Cristo, com adoração!


2. Cumprindo as profecias
Nos nasce o Rei messias,
Em horas tão sombrias
Cada povo em trevas vê o seu clarão!

3. Jesus o Rei da glória
Humilde em sua história,
A todos dá vitória;
Vinde ver o Cristo em sua humilhação!

4. Oh! nova alegre e boa
No céu azul ressoa,
Que Cristo nos perdoa.
Aceitai-O, ó povos; dai-Lhe o coração!



Obrigado pela visita!

Rodrigo Phanardzis Ancora da Luz

2 comentários:

  1. Sinto muita saudade do tempo em que se entoava, com reverência, hinos bem escritos que transmitiam o sentimento de adoração ao Deus Único. Atualmente ,muitas vezes, fico ouvindo a congregação cantar sem atinar com o conteúdo pobre e repetitivo, como um mantra...

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    1. Graça e paz, minha irmã!

      Acho que essa tendência emburrecedora tem ocorrido tanto no secular quanto no religioso. Estamos vivendo um empobrecimento cultura no país e o triste é que isso chega ba se refletir dentro das igrejas com os grupos gospel tentando mutas vezes se adaptar ao "gosto do freguês".

      Ora, será que estamos nos esquecendo de que o louvor deve ser dirigido ao Senhor, nosso Deus, e não aos homens?

      Nada contra um "mantra" se ele for a expressão de um sentimento de adoração, gratidão, alegria espiritual, etc. Mas sei lá. Sem querer dar uma de Mical que criticou Davi por ter dançado, o que já andei vendo por aí muitas vezes parece mais o cultivo de uma alienação bem distante do chamado culto racional.

      Um abraço e obrigado pela leitura e comentários.

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