(Mais do que indicar quem está na frente, os levantamentos começam a mostrar os limites e as possibilidades de crescimento das principais candidaturas ao Governo Estadual e ao Senado)
As pesquisas eleitorais são fotografias de um determinado momento. Não antecipam o resultado das urnas e, especialmente quando ainda existe grande número de eleitores sem voto definido, precisam ser interpretadas com cautela.
No entanto, fotografias sucessivas permitem observar movimentos. E, quando colocamos lado a lado as pesquisas realizadas no Estado do Rio de Janeiro em julho e agosto, talvez a pergunta mais interessante já não seja simplesmente quem está em primeiro, segundo ou terceiro lugar.
Nesse sentido, é preciso começar a perguntar também: quem ainda pode crescer?
Para tentar responder, intenção de voto não basta. É necessário observar conjuntamente pelo menos quatro elementos:
- intenção de voto;
- rejeição;
- grau de conhecimento acerca dos candidatos;
- quantidade de eleitores ainda indecisos.
Essa combinação começa a revelar uma eleição majoritária bastante peculiar no Estado.
Na disputa pelo Governo, Eduardo Paes permanece amplamente à frente enquanto Douglas Ruas, ainda desconhecido para muita gente, apresentou sinais de haver crescido entre julho e agosto. Já o ex-governador Anthony Garotinho enfrenta dificuldades que parecem relacionadas não à falta de conhecimento de seu nome, mas justamente ao elevado número de eleitores que já o conhecem e dizem que não votariam nele.
No Senado, a situação é muito mais aberta. Benedita da Silva aparece na liderança das principais pesquisas, porém a segunda vaga está longe de estar definida. E há uma diferença fundamental: vários candidatos ainda são desconhecidos por uma parcela enorme dos eleitores...
Por isso, julho e agosto talvez estejam mostrando não apenas quem tem mais votos hoje, mas também os possíveis pisos, tetos e territórios ainda disponíveis para cada candidatura.
Governo: três institutos, uma mesma ordem
As três pesquisas mais recentes realizadas no Rio apresentam diferenças nos percentuais, mas concordam inteiramente sobre a ordem da disputa.
Na Quaest divulgada em 25 de agosto, Eduardo Paes aparece com 37%, Douglas Ruas com 14% e Anthony Garotinho com 7%. Vinte por cento ainda estão indecisos e 16% afirmam que votarão em branco, nulo ou que não pretendem votar.
O Datafolha, realizado entre 18 e 21 de agosto, encontrou Paes com 41%, Ruas com 19% e Garotinho com 9%. Nesse levantamento, 4% estavam indecisos e 16% declaravam voto branco ou nulo. Considerados apenas os votos válidos naquele momento, o Datafolha calculou Paes com 51%.
Já o Paraná Pesquisas, realizado entre 22 e 24 de agosto, registrou 44,5% para Paes, 15,5% para Ruas e 11,6% para Garotinho.
Não seria metodologicamente correto escolher um desses números e tratá-lo como se fosse a medida exata do eleitorado fluminense. Pesquisas diferentes podem variar no tamanho e no perfil da amostra, na formulação das perguntas — espontâneas ou estimuladas — e na forma de apresentar indecisos, brancos e nulos. No caso do Senado, há ainda a particularidade de o eleitor poder indicar dois nomes. E, quando brancos, nulos e indecisos são excluídos para o cálculo dos chamados “votos válidos”, os percentuais dos candidatos naturalmente aumentam, sem que isso represente crescimento efetivo da intenção de voto.
Feita essa ressalva, o que chama atenção é justamente a convergência da estrutura da disputa apesar das diferenças metodológicas: Eduardo Paes aparece isolado na liderança, Douglas Ruas ocupa o segundo lugar e Anthony Garotinho, o terceiro.
Entretanto, a comparação dos resultados de agosto com os de julho acrescenta algo que uma fotografia isolada não mostra: o movimento.
O movimento de Douglas Ruas em agosto
Na Quaest de julho, Paes tinha 38%, enquanto Garotinho e Ruas apareciam empatados com 10%. Em agosto, no mesmo instituto, Paes foi a 37%, Ruas chegou a 14% e Garotinho caiu para 7%.
No Paraná Pesquisas ocorre movimento semelhante. Em 31 de julho:
- Paes: 48,6%- Ruas: 11,1%- Garotinho: 11%
No levantamento de agosto:
- Paes: 44,5%- Ruas: 15,5%- Garotinho: 11,6%
É preciso evitar conclusões exageradas. Oscilações precisam ser consideradas à luz das margens de erro, e houve alterações na composição das candidaturas. Ainda assim, quando dois institutos diferentes registram crescimento do mesmo candidato em suas próprias séries, passa a existir um sinal que merece atenção.
O fenômeno mais perceptível de agosto parece ser, portanto, a consolidação de Douglas Ruas como principal adversário de Eduardo Paes.
Todavia, existe uma informação ainda mais interessante. Ruas cresceu justamente quando começou a ser conhecido.
O território eleitoral de Douglas Ruas
Em julho, a Quaest revelou algo fundamental: 70% dos eleitores fluminenses diziam não conhecer Douglas Ruas. Naquele momento esse seria 9 cenário:
- 13% afirmavam conhecê-lo e poderiam votar nele;
- 70% não o conheciam;
- 17% o conheciam e não votariam nele.
Em agosto:
- 20% dizem conhecê-lo e poderiam votar nele;
- 59% ainda não o conhecem;
- 21% dizem conhecê-lo e não votariam.
Esse talvez seja um dos dados mais importantes disponíveis hoje sobre a eleição para governador. Em aproximadamente um mês, o desconhecimento de Ruas caiu onze pontos. Ao mesmo tempo, aumentaram tanto seu potencial de voto quanto sua rejeição...
Isso é exatamente o que costuma acontecer quando uma candidatura pouco conhecida começa a entrar efetivamente no debate eleitoral: algumas pessoas passam a gostar do candidato; outras passam a rejeitá-lo.
Até agora, porém, o saldo eleitoral parece ter sido favorável a Ruas, porque seu crescimento nas pesquisas ocorreu simultaneamente ao aumento de seu conhecimento.
É daí que surge uma das perguntas centrais para o decisivo mês de setembro: quando os 59% que ainda dizem não conhecer Douglas Ruas começarem a conhecê-lo, quantos poderão transformar-se em eleitores e quantos passarão a rejeitá-lo?
A resposta pode determinar não apenas o tamanho de Ruas ao final da campanha, mas também se a eleição será resolvida no primeiro turno.
Paes vive uma situação completamente diferente
Eduardo Paes praticamente não possui o problema do desconhecimento, mas não sofre o mesmo percentual de rejeição que Garotinho.
Na Quaest de julho, apenas 10% diziam não conhecê-lo. Cinquenta por cento afirmavam conhecê-lo e poderiam votar nele. E 40% o conheciam e não votariam.
Em agosto, o desconhecimento caiu para apenas 7%. Ao mesmo tempo, 52% dizem conhecê-lo e poder votar nele, contra 41% que o conhecem e não votariam.
Portanto, Paes não precisa ser apresentado ao eleitorado. Seu desafio é outro: converter potencial de voto em voto efetivamente declarado e impedir que os adversários ampliem sua rejeição.
Pode-se dizer que isso ajuda a compreender por que a intenção de voto em Paes pode aparecer entre 37% e 44,5% dependendo do instituto, enquanto existe um contingente maior que admite votar nele.
Também podemos compreender a sua força nos cenários de segundo turno. Na Quaest de agosto, Paes vence Ruas por 50% a 20% e Garotinho por 53% a 12%.
Certamente que isso não torna a eleição já decidida. A própria Quaest registra que 42% dos eleitores dizem que sua escolha para governador ainda pode mudar.
No entanto, a pesquisa demonstra que Paes começa a campanha com uma vantagem estrutural que vai além da intenção estimulada.
Garotinho enfrenta um problema de natureza diferente: o teto
Anthony Garotinho também é amplamente conhecido. E justamente aí pode estar sua principal dificuldade.
Na Quaest de julho, temos os seguintes dados sobre o ex-governador:
- 23% diziam conhecê-lo e poderiam votar nele;
- somente 15% não o conheciam;
- 62% o conheciam e não votariam.
Já em agosto, os números ficaram ainda mais difíceis:
- 17% conhecem e poderiam votar;
- 15% continuam sem conhecê-lo;
- 68% conhecem e não votariam.
É importante observar que diferentes institutos utilizam formulações diferentes para medir rejeição, razão pela qual seus percentuais não devem ser comparados mecanicamente. Mesmo assim, o sentido geral aparece também nos demais levantamentos.
No Datafolha, Garotinho tem 45% de rejeição, contra 26% de Paes e 19% de Ruas. No Paraná Pesquisas, lidera a rejeição com 40,3%, enquanto Paes tem 25,3% e Ruas 12,6%.
Portanto, os três institutos apontam para o mesmo problema.
Garotinho dispõe de pouco eleitorado que ainda precise descobrir quem ele é. Seu desafio não é prioritariamente apresentar-se — é convencer pessoas que já possuem uma opinião formada a seu respeito a mudar de opinião.
Ocorre que isso costuma ser muito mais difícil. Trata-se da diferença entre desconhecimento e rejeição.
Um eleitor que não conhece determinado candidato ainda pode caminhar para qualquer lado. Já um eleitor que conhece e afirma que não votaria nele precisa ser reconquistado.
Por isso, embora Ruas e Garotinho aparecessem praticamente juntos no início da disputa, suas possibilidades de crescimento hoje parecem bastante diferentes.
Baixa rejeição nem sempre significa grande potencial
Aqui cabe uma advertência importante. Pois seria tentador olhar para a rejeição relativamente baixa de Douglas Ruas no Paraná Pesquisas — 12,6% — e concluir que ele teria quase todo o restante do eleitorado disponível.
Entretanto, não é assim que funciona. Parte importante dessa baixa rejeição decorre justamente do fato de que muitos eleitores ainda não conhecem quem é o presidente da ALERJ, ex-secretário do governador Cláudio Castro e filho do prefeito de São Gonçalo, o capitão Nelson...
Por sua vez, o mesmo fenômeno aparece de maneira ainda mais evidente na disputa pelo Senado. Um candidato desconhecido dificilmente será rejeitado por alguém que sequer sabe quem ele é.
Sendo assim, a rejeição precisa sempre ser analisada ao lado do conhecimento. Essa talvez seja uma das principais lições dessas pesquisas.
Senado: uma eleição muito mais aberta
Se a eleição para governador já começa a apresentar uma estrutura relativamente clara, a disputa pelas duas vagas do Senado permanece muito mais difícil de interpretar.
A Quaest de agosto registrou os seguintes números:
- Benedita da Silva: 10%- Carlos Jordy: 7%- Marcelo Crivella: 6%- Mônica Benício: 5%- Carlos Portinho: 5%- Pedro Paulo: 3%- Waguinho: 2%
Todavia, há dois números ainda mais impressionantes: 29% estão indecisos e 28% declaram branco, nulo ou que não irão votar. Na pergunta espontânea, quando os nomes não são apresentados, 88% não sabem indicar candidato ao Senado.
Trata-se do retrato de uma eleição que ainda está muito longe de estar cristalizada.
E há uma dificuldade adicional: em 2026 o eleitor terá dois votos para senador.
Isso torna as comparações entre institutos especialmente delicadas.
Na Quaest de julho, por exemplo, os dois votos eram consolidados e os resultados reduzidos a uma base de 100%. Já no Paraná Pesquisas, cada entrevistado pode citar até dois candidatos, fazendo com que os percentuais não sejam diretamente equivalentes.
Portanto, não é correto olhar para os 29,6% de Benedita no Paraná e os 10% na Quaest e concluir que algum instituto necessariamente esteja errado.
As perguntas e as formas de apresentação dos votos são diferentes. Logo, o mais útil, neste momento, talvez seja observar posições relativas e séries dentro de cada instituto.
Benedita começa com a base mais consolidada
No Paraná Pesquisas, Benedita tinha 29,8% em julho e 29,6% em agosto. Trata-se de uma estabilidade praticamente absoluta.
Crivella, por sua vez, passou de 25,4% para 21%, enquanto Pedro Paulo oscilou de 17,2% para 16,4%. A composição da lista sofreu alterações, o que impede atribuir essas variações diretamente a transferências de voto, mas a permanência de Benedita próxima dos 30% chama atenção.
Na Quaest, apesar das diferenças metodológicas, Benedita também aparece numericamente à frente em julho e agosto. E o Datafolha igualmente a colocou em primeiro lugar, com 15% na preferência pesquisada, enquanto Jordy e Portinho registraram 8% e Crivella, Pedro Paulo e Mônica, 6%.
Assim, talvez seja precipitado afirmar que Benedita já tenha uma das vagas garantidas, mas existe uma conclusão mais segura: ela é, até agora, a candidata que aparece de maneira mais consistente na liderança da disputa ao Senado nos diferentes institutos.
O fato de Benedita também ser bastante conhecida...
A Quaest de julho permite enxergar outro lado dessa força. Naquele levantamento, foram apurados os seguintes resultados quanto à candidata que já foi deputada constituinte, senadora e a primeira mulher a governar o Rio:
- 28% conheciam Benedita e poderiam votar nela;
- 25% não a conheciam;
- 47% conheciam e não votariam.
Já o Crivella apresentava situação ainda mais polarizada:
- 23% conheciam e poderiam votar;
- apenas 14% não o conheciam;
- 63% conheciam e não votariam.
Entretanto, o Paraná Pesquisas de agosto chegou a uma conclusão semelhante por outro método de pergunta. Crivella registrou 25,6% de rejeição, praticamente empatado com Benedita, com 25,4% enquanto Waguinho aparece com 14,4%, Pedro Paulo com 9,5% e Carlos Jordy com 9,1%.
Novamente, os números absolutos não devem ser misturados com os da Quaest, porque as perguntas são diferentes.
No entanto, pode-se afirmar que o padrão seja evidente: Benedita e Crivella são nomes muito conhecidos, possuem eleitorado consolidado e também encontram rejeição considerável.
Isso sugere candidaturas com pisos relevantes, mas, possivelmente, com menos espaço desconhecido para explorar.
O desempenho paradoxal de Pedro Paulo
Pedro Paulo apresenta talvez uma das situações mais interessantes. No Paraná Pesquisas, ele aparece com 16,4%, em terceiro lugar, atrás de Benedita e Crivella. Sua rejeição é de apenas 9,5%.
À primeira vista, poderíamos interpretar a baixa rejeição como sinal de grande potencial de crescimento. Mas a Quaest de julho mostrava algo fundamental:
- somente 8% diziam conhecê-lo e poderiam votar nele;
- 65% ainda não o conheciam;
- 27% o conheciam e não votariam.
Portanto, a baixa rejeição de Pedro Paulo em determinadas pesquisas precisa ser lida conjuntamente com seu grau de conhecimento.
E isso cria uma oportunidade e um desafio!
A oportunidade é evidente: existe um enorme grupo de eleitores que ainda pode formar uma opinião sobre Pedro Paulo.
Por certo, o desafio também existe. O candidato ainda precisará tornar-se conhecido sem transformar esse desconhecimento predominantemente em rejeição.
Há ainda uma peculiaridade política.
Eduardo Paes possui entre 37% e 44,5% das intenções para governador nos três levantamentos recentes enquanto Pedro Paulo está muito abaixo desse patamar para senador. Isso demonstra que o eleitor de Paes não está automaticamente transferindo seu voto para o candidato ao Senado apoiado por seu grupo político.
Como cada eleitor terá dois votos para senador, essa transferência não exige necessariamente abandonar outro candidato. Um cidadão pode, por exemplo, manter sua primeira preferência e utilizar Pedro Paulo como segundo voto.
Assim sendo, a capacidade da campanha de comunicar essa possibilidade poderá tornar-se uma variável importante da eleição.
Jordy também merece atenção dos adversários
Carlos Jordy aparece com 7% na Quaest, 8% no Datafolha e 11,9% no Paraná Pesquisas.
Ainda que os percentuais não sejam diretamente comparáveis, sua presença no grupo competitivo em levantamentos diferentes indica que a candidatura do deputado da extrema direita não pode ser desprezada.
No Paraná, a rejeição de Jordy é de apenas 9,1%. Por isso, novamente será preciso acompanhar o seu grau de conhecimento pelo eleitorado.
Todavia, existe um fator político adicional: o PL ainda possui uma base eleitoral expressiva no Rio, perceptível inclusive no desempenho de Flávio Bolsonaro para presidente e de Douglas Ruas para governador.
A questão será se Jordy — e também Carlos Portinho — conseguirão transformar parte desse eleitorado em uma combinação eficiente de dois votos para o Senado. Daí a atenção que devemos ter contra esse inimigo em potencial do campo democrático.
Mônica Benício e Portinho também possuem território a conquistar
A Quaest de julho revelava o tamanho do desconhecimento de outros candidatos.
Carlos Portinho, embora exerça o mandato de senador desde, era desconhecido por 82% dos entrevistados. Apenas 6% diziam conhecê-lo e poderiam votar nele, enquanto 12% o conheciam e não votariam.
Mônica Benício era desconhecida por 74%. Sete por cento diziam conhecê-la e poderiam votar nela, enquanto 19% afirmavam que não votariam.
Portanto, ambos possuem uma característica semelhante à de Ruas no Governo, embora partam de patamares diferentes: uma parte muito grande do eleitorado ainda precisa formar uma opinião sobre eles.
Essa é uma reserva eleitoral potencial, mas não uma garantia de crescimento.
Conhecimento novo pode gerar voto. Porém, ao projetar sua candidatura,o político também pode também ganhar rejeição...
Indecisos não formam um bloco único
Talvez este seja o erro mais comum ao interpretar pesquisas.
Quando se lê que existem 20%, 30% ou até mais eleitores sem candidato definido, pode surgir a tentação de imaginar esse conjunto como um enorme reservatório que, no final, será distribuído proporcionalmente entre os candidatos que hoje já estão na frente.
Não há razão para acreditar que isso necessariamente acontecerá.
Existem diferentes tipos de indecisão.
Há o eleitor que conhece todos os principais candidatos, mas ainda não escolheu.
Há aquele que simpatiza com mais de um.
Há o eleitor que já escolheu governador, mas ainda não pensou no Senado.
Há quem tenha definido apenas um de seus dois votos para senador.
E há quem simplesmente ainda não conheça determinadas candidaturas.
São situações completamente diferentes.
É por isso que conhecimento e rejeição ajudam a interpretar onde os indecisos podem estar.
Ruas possui enorme quantidade de eleitores que ainda precisam conhecê-lo enquanto Garotinho tem poucos eleitores nessa condição, mas muitos que já afirmam rejeitá-lo.
Todavia, Paes é amplamente conhecido e possui um contingente expressivo que admite votar nele, mesmo sendo menor sua intenção declarada no primeiro turno. Ou seja, encontra-se numa posição bem favorável para ser o maior vencedor desse pleito.
Em relação à corrida ao Senado, Benedita e Crivella são muito mais conhecidos, enquanto Pedro Paulo, Portinho e Mônica ainda possuem grande espaço para apresentação.
A eleição, portanto, não está apenas disputando votos. Trata-se da disputa por opiniões ainda não formadas.
Piso, teto e território disponível
Talvez seja possível resumir o atual estágio da eleição fluminense através de três conceitos.
Piso é a base que o candidato já demonstra possuir.
Teto é a dificuldade de avançar quando parcela elevada do eleitorado já afirma que não votará nele.
Território disponível é formado por aqueles que ainda não conhecem suficientemente a candidatura ou que conhecem, mas permanecem abertos a ela.
Todos esses conceitos ajudam a compreender por que candidatos com percentuais semelhantes podem estar em situações completamente diferentes.
Um político com 10% de intenção e 70% de desconhecimento pode possuir uma trajetória potencial muito diferente de outro com os mesmos 10%, porém conhecido por quase todos e rejeitado pela maioria.
Foi exatamente o que os resultados das sondagens de julho começaram a mostrar entre Douglas Ruas e Anthony Garotinho. E é algo que poderá acontecer também entre os candidatos ao Senado, o que coloca em dúvida as chances de Crivella obter nessa corrida, mesmo quando recebe um apoio parcial do meio religioso evangélico.
As próximas pesquisas precisam ser lidas de outra maneira
Daqui para frente, talvez seja menos importante perguntar apenas: “Quem ganhou dois pontos?”
Acredito que será mais útil procurar respostas para essas indagações que considero realmente pertinentes:
- O candidato ficou mais conhecido?
- Esse aumento de conhecimento virou intenção de voto ou rejeição?
- A espontânea cresceu?
- O voto declarado ficou mais firme?
- O número de indecisos diminuiu?
- Para onde eles foram?
No caso de Douglas Ruas, por exemplo, o dado decisivo de setembro talvez não seja simplesmente passar de 14% para 16% ou cair para 13%. Será observar se os atuais 59% que ainda não o conhecem diminuíram — e, principalmente, para qual lado caminharam.
No caso de Garotinho, além da atenção que devemos ter quanto às ações de impugnação ao seu registro de candidato no TRE, será importante saber se o ex-governador conseguirá reduzir a rejeição de um eleitorado que já o conhece amplamente.
Para Eduardo Paes, a questão que mais importa é preservar o potencial de voto suficiente para continuar na faixa de uma possível vitória no primeiro turno.
No Senado, será preciso acompanhar a preservação da base de Benedita; se a rejeição de Crivella impõe um teto e em que altura; se Jordy consegue converter o eleitorado do PL; se Pedro Paulo passará a ser conhecido pelo eleitor de Paes bem como melhor aceito pelo eleitor de Lula; e, finalmente, se Portinho e Mônica conseguem transformar desconhecimento em crescimento.
A eleição começa agora a entrar em sua fase mais interessante
Julho nos mostrou uma eleição ainda em formação. Agosto começa a revelar o movimento da campanha nesta segunda quinzena do mês.
Não tenho dúvidas de que Eduardo Paes permanece amplamente favorito ao Governo, mas não podemos descuidar de Douglas Ruas que deixou de ser apenas um candidato pouco conhecido e agora começa a se consolidar como o nosso principal adversário. Garotinho, por sua vez, encontra na rejeição um obstáculo muito mais difícil de superar do que o simples desconhecimento.
No Senado, Benedita apresenta até aqui a candidatura mais consistentemente posicionada, mas a segunda vaga permanece aberta em um cenário no qual dezenas de pontos percentuais do eleitorado ainda não possuem escolhas consolidadas — e muitos candidatos continuam desconhecidos pela maioria.
Por isso, talvez o maior erro neste momento seja imaginar que todos os votos ainda indefinidos serão simplesmente distribuídos entre os candidatos na mesma proporção das pesquisas atuais.
Não serão necessariamente.
Eleição não é apenas uma disputa pelo eleitor que ainda não escolheu. Também é uma disputa para definir candidatos que ele ainda não conhece.
As próximas semanas mostrarão quem conseguirá transformar conhecimento em voto — e quem, ao ficar mais conhecido, encontrará justamente o contrário: rejeição.
Desse modo, as pesquisas de setembro, portanto, deverão ser lidas não apenas como um placar. E, como expus acima, precisarão ser analisadas como movimento.
Nesse momento, talvez seja justamente na distância entre ser desconhecido, ser conhecido e ser rejeitado que se acham escondidas algumas das respostas mais importantes sobre o futuro da eleição no Rio de Janeiro.
Vamos acompanhar!
📝Uma variável jurídica que pode redesenhar parte da disputa
Há ainda uma variável que não nasce propriamente das pesquisas, mas que poderá interferir diretamente na distribuição dos votos nas próximas semanas: a situação jurídica da candidatura de Anthony Garotinho.
O Ministério Público Eleitoral apresentou impugnação ao seu pedido de registro, com fundamento em condenação por improbidade administrativa e na suspensão de seus direitos políticos. A defesa contesta a existência atual do impedimento e sustenta, entre outros argumentos, que o período de suspensão já teria sido cumprido. Caberá à Justiça Eleitoral decidir a controvérsia. Portanto, enquanto não houver decisão definitiva capaz de afastá-lo da disputa, é necessário tratar a sua candidatura como existente e evitar antecipar um resultado judicial que ainda não ocorreu.
Do ponto de vista eleitoral, porém, é legítimo perguntar: o que aconteceria com os atuais votos de Garotinho caso a impugnação fosse acolhida e sua candidatura acabasse efetivamente retirada da disputa?
O Paraná Pesquisas de agosto fornece uma primeira pista particularmente interessante porque testou dois cenários no mesmo levantamento.
Com Garotinho entre os candidatos, o resultado foi:
- Eduardo Paes: 44,5%- Douglas Ruas: 15,5%- Anthony Garotinho: 11,6%
Sem o nome de Garotinho, Paes passa a 48,3% com chances maiores de vencer no primeiro turno enquanto Ruas sobe para 18,6%. Outros candidatos menores também registram oscilações positivas.
A comparação merece atenção. A retirada de Garotinho da lista é acompanhada por um crescimento de 3,8 pontos de Paes e de 3,1 pontos de Ruas.
Entretanto, isso não significa que possamos afirmar que determinada parcela dos atuais eleitores de Garotinho “migrou” para Paes e outra para Ruas. Para fazer essa afirmação seria necessária uma tabela de fluxo individual dos entrevistados, mostrando como respondeu cada eleitor nos dois cenários. Comparar apenas os percentuais agregados permite observar o efeito da mudança da lista, mas não reconstruir com precisão a trajetória de cada voto.
Ainda assim, a simulação enfraquece uma hipótese que poderia parecer intuitiva: a de que a eventual saída de Garotinho beneficiaria automaticamente e de maneira predominante Douglas Ruas por ambos disputarem parcelas do eleitorado mais à direita ou de oposição a Eduardo Paes.
Os números não mostram isso. Paes também cresce de maneira relevante quando Garotinho desaparece da lista — e, numericamente, sua variação é até um pouco maior que a de Ruas.
Isso sugere que o eleitorado de Garotinho é provavelmente mais heterogêneo do que uma classificação ideológica simples permitiria imaginar.
Há eleitores atraídos por sua trajetória pessoal, por governos anteriores, por vínculos regionais, por lembranças de políticas públicas de outras épocas, por razões religiosas, ou simplesmente pelo conhecimento de um nome presente na política fluminense há décadas. Nem todos necessariamente se identificam com o PL, com Eduardo Paes ou com qualquer outro bloco de maneira automática.
A própria análise da rejeição ajuda a entender essa particularidade. Garotinho possui uma combinação bastante incomum: é amplamente conhecido, conserva uma parcela eleitoral própria, mas também apresenta a maior rejeição entre os principais candidatos. No Paraná Pesquisas de agosto, 40,3% afirmaram que não votariam nele de jeito nenhum.
Isso pode significar que seus atuais 11,6% contenham um componente relativamente pessoal e resistente: são eleitores que permanecem com Garotinho apesar de sua elevada rejeição no restante da população.
Se esse candidato deixasse a eleição, tais votos não precisariam seguir uma única direção.
Parte poderia procurar Douglas Ruas como alternativa de oposição a Paes.
Parte poderia optar pelo próprio Paes.
Parte poderia migrar para candidaturas menores.
E parte poderia simplesmente retornar à indecisão, ao voto branco ou ao voto nulo.
Por isso, uma eventual saída de Garotinho criaria um novo território disponível, mas não necessariamente um território pertencente antecipadamente a Douglas Ruas.
E esse fenômeno teria uma consequência adicional muito importante.
Atualmente Paes aparece nas diferentes pesquisas próximo da fronteira entre uma eleição resolvida no primeiro turno e a necessidade de segundo turno. No Paraná, a simples retirada de Garotinho leva Paes de 44,5% para 48,3% dos votos totais pesquisados, antes mesmo de excluir brancos, nulos e indecisos.
Portanto, paradoxalmente, uma decisão judicial que retirasse um candidato de oposição poderia aumentar a possibilidade de Paes vencer já no primeiro turno, caso parte suficiente daquele eleitorado migrasse para ele ou se deslocasse para opções que não entram no cálculo dos votos válidos.
Ao mesmo tempo, Ruas também cresce no cenário sem Garotinho. Assim, a retirada do ex-governador poderia reforçar sua condição de principal adversário de Paes, mas não necessariamente reduzir a vantagem do líder.
É perfeitamente possível, portanto, que as duas coisas aconteçam simultaneamente: Ruas se consolidar ainda mais em segundo lugar e Paes ficar mais próximo de vencer no primeiro turno.
Esse é um detalhe importante porque mostra novamente como uma eleição não pode ser interpretada apenas através da lógica de transferência entre blocos políticos.
E se Garotinho continuar concorrendo sub judice?
Existe ainda uma segunda hipótese, juridicamente diferente.
A Lei das Eleições permite que o candidato cujo registro esteja sub judice continue praticando atos de campanha e o seu nome permaneça na urna enquanto estiver nessa condição. A validade dos votos recebidos, porém, fica condicionada ao posterior deferimento de seu registro. É o que estabelece o artigo 16-A da Lei nº 9.504/1997:
Art. 16-A. O candidato cujo registro esteja sub judice poderá efetuar todos os atos relativos à campanha eleitoral, inclusive utilizar o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão e ter seu nome mantido na urna eletrônica enquanto estiver sob essa condição, ficando a validade dos votos a ele atribuídos condicionada ao deferimento de seu registro por instância superior. (Incluído pela Lei nº 12.034, de 2009)
Parágrafo único. O cômputo, para o respectivo partido ou coligação, dos votos atribuídos ao candidato cujo registro esteja sub judice no dia da eleição fica condicionado ao deferimento do registro do candidato. (Incluído pela Lei nº 12.034, de 2009) (Vide ADI nº 4542) (Vide ADI nº 4513)
Isso significa que é preciso distinguir duas situações.
Se a Justiça Eleitoral efetivamente retirar Garotinho da disputa em tempo hábil e ele deixar de figurar como opção eleitoral, seus atuais eleitores precisarão escolher outro candidato. Com isso, será possível observar politicamente para onde essa parcela do eleitorado se deslocará.
Se, ao contrário, o ex-governador chegar à eleição com o registro ainda sub judice, poderá receber votos normalmente, mas a validade definitiva desses votos dependerá do desfecho judicial. Eles não são simplesmente “transferidos” posteriormente para Paes, Ruas ou qualquer outro candidato.
São, portanto, dois fenômenos completamente diferentes: migração de intenção de voto antes da eleição e tratamento jurídico dos votos depois da votação.
Para a análise das pesquisas, o primeiro é o mais interessante. E o Paraná Pesquisas já oferece uma primeira indicação: uma eventual ausência de Garotinho não parece produzir uma migração uniforme para um único adversário. Paes e Ruas crescem, assim como há alterações entre candidaturas menores.
Essa possibilidade acrescenta uma quinta variável às quatro que vêm orientando a leitura desta eleição. Além de intenção de voto, rejeição, conhecimento e indecisão, poderá haver também uma alteração na própria oferta de candidatos.
Se isso acontecer, uma parcela de aproximadamente um décimo do eleitorado hoje associado a Garotinho terá de refazer sua escolha. E então teremos um teste concreto para uma das perguntas centrais desta análise: quando um território eleitoral volta a ficar disponível, quem consegue ocupá-lo?
As próximas pesquisas poderão começar a responder.

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