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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O homem que ajudou Jesus a carregar a cruz



"E, como o conduzissem, constrangendo um cireneu, chamado Simão, que vinha do campo, puseram-lhe a cruz sobre os ombros, para que a levasse após Jesus." (Evangelho de Lucas, capítulo 23, versículo 26; versão e tradução ARA)

Nas narrativas sobre o martírio de nosso Senhor, os evangelhos falam de um curioso personagem que teria acompanhado Jesus em sua dolorosa caminhada rumo ao Calvário. Trata-se de Simão de Cirene.

Normalmente era o próprio condenado quem carregava a parte horizontal de sua cruz, o que, de acordo com a História, significava um tipo de submissão forçada da pessoa ao poderio romano. Também seria uma forma de humilhar mais ainda o indivíduo sentenciado. Principalmente se o apenado fosse considerado um revoltoso.

Supõe-se que a esta altura Jesus já estivesse fisicamente enfraquecido por causa dos pesados açoites que costumavam anteceder as crucificações, sendo que a barra por ele transportada poderia pesar até uns vinte quilos. A informação sobre o castigo perverso de açoitamento consta relatado no texto do 2º Evangelho (Mc 15:15). Assim, os soldados obrigaram que um homem circunstancialmente presente carregasse o madeiro indo atrás do Senhor.

É interessante como que o autor sagrado fala de um personagem que, mesmo fazendo um papel secundário, teve o seu nome expressamente mencionado. Isto nos leva a considerar que este Simão, cujos filhos o relato paralelo de Marcos diz se chamarem Alexandre e Rufo (Mc 15:21), provavelmente veio a se tornar uma personalidade conhecida na Igreja Primitiva junto com os membros de sua casa. Aliás, é no mínimo intrigante o fato de Paulo, nas saudações que fez em sua carta dirigida aos crentes de Roma (Rm 16:13), alistar justamente o nome de um Rufo e ainda ressaltar o acolhimento da mãe deste .

Ao vir do campo para a cidade, Simão nem poderia imaginar o destino que o aguardava naquele trajeto. O homem simplesmente estava passando e os soldados resolveram abordá-lo para que prestasse um serviço obrigatório. Aliás, o conquistador estrangeiro, agindo com certo desprezo e arrogância em relação aos povos dominados, parecia não respeitar limites para dispor dos súditos do Império Romano em proveito de suas atividades, impondo-lhes absurdas corveias.

Outro detalhe interessante acerca desse Simão seria sobre a sua origem/procedência. Diz o texto que ele era de Cirene, um porto do Norte da África, situado na atual Líbia. Provavelmente ele fosse um judeu que deveria ter vindo a Jerusalém para participar da Páscoa que é uma das principais festas dos israelitas. Percorreu longas distâncias por mar e por terra e teve uma inesperada experiência quando chegou na Palestina, o que acredito tê-lo marcado profundamente.

É certo que a imaginação nos permite elaborarmos os mais belos contos envolvendo esse personagem, conforme talvez se encontre na literatura apócrifa, mas todas as narrativas que forem inventadas logicamente nos levariam a meditarmos sobre a sua conversão pessoal. Pois, se pensarmos bem, Simão precisou desenvolver fé para encontrar num crucificado o seu Senhor e conseguir entender as coisas além dos acontecimentos visíveis.

Se ele e Jesus vieram a se comunicar verbalmente, não sabemos. Tenho pra mim que isto dificilmente aconteceu porque não estavam andando lado a lado e o Mestre já deveria ter se enfraquecido pela perda de sangue durante o duro castigo com açoites. Só que nem sempre nos expressamos apenas com palavras. Atitudes e gestos podem penetrar profundamente no coração do receptor. Basta que o destinatário da mensagem encontre-se suficientemente aberto para ela.

Mais um detalhe que visualizo neste episódio teria sido que Simão de Cirene figurou ali a autêntica natureza do discipulado de Cristo, a qual consiste em tomarmos a cruz e seguirmos a Jesus (Lc 9:23; 14:27). Acredito que a sua mente só veio a compreender aqueles acontecimentos mais tarde e a experiência que teve indo atrás do Mestre na certa contribuiu para edificar a vida dos demais irmãos na Igreja. Se nenhum dos apóstolos conseguiu seguir o Senhor até ali (eis aí um bom contraste em relação às impensadas palavras ditas por Simão Pedro de Lc 22:33), sabemos que Deus providenciou um outro companheiro para aliviar Jesus naquele difícil momento.

Finalmente, devemos considerar que o ato praticado por Simão de Cirene não ficou esquecido. Aquele encargo que os romanos impuseram a um transeunte fizeram dele um personagem privilegiado na memória da Igreja. Seu nome veio a se tornar conhecido entre os cristãos, ensinando-nos sobre a importância de ajudarmos uns aos outros a levarmos as nossas cargas. Aprendemos assim que devemos valorizar mais as oportunidades concedidas pela vida quando, circunstancialmente, precisamos ajudar o irmão a carregar a sua cruz. É quando entramos na história da vida de alguém e Deus nos usa para que o sofrimento do outro se torne suportável.


OBS: A ilustração acima refere-se a uma escultura do artista alemão Valentin Kraus (1873-1941) retratando Simão de Cirene ajudando Jesus a carregar a cruz rumo ao calvário. A obra encontra-se na Igreja de São Nicolau, em Munique, Alemanha. A foto é atribuída a Andreas Praefcke, sendo material dedicado ao domínio público e disponibilizado no acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:M%C3%BCnchen_Alt%C3%B6ttinger_Kapelle_Kreuzweg_05.jpg

7 comentários:

  1. Maravilhosa exposição!
    Deus sempre nos providencia um escape.
    Que Ele te abençoe grandiosamente meu irmão.

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    1. Boa noite!

      Muito obrigado por sua leitura e comentários que muito me incentivam.

      Participe sempre que desejar!

      Saudações fraternas.

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  2. Muito bem colocada a sua opinião.. E realmente o encontro de Simão com Jesus foi muito mais que uma simples ajuda de um transeunte, mas Simão estava ali para comemorar a páscoa, e imagino eu que a intenção de Simão era participar do sacrificio do cordeiro e que com certeza era uma honraria aos judeus.. e Simão nem imagina que na verdade ele se encontraria com o verdadeiro Cordeiro.. aquele cujo qual João Batista declarou.. Eis o Cordeiro, que tira o pecado do mundo.. Maravilhoso texto.. obrigada!!!

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  3. Muito bem colocada a sua opinião.. E realmente o encontro de Simão com Jesus foi muito mais que uma simples ajuda de um transeunte, mas Simão estava ali para comemorar a páscoa, e imagino eu que a intenção de Simão era participar do sacrificio do cordeiro e que com certeza era uma honraria aos judeus.. e Simão nem imagina que na verdade ele se encontraria com o verdadeiro Cordeiro.. aquele cujo qual João Batista declarou.. Eis o Cordeiro, que tira o pecado do mundo.. Maravilhoso texto.. obrigada!!!

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    1. Bom dia, Elida.

      Também muito bem colocado o seu comentário.

      Interessante que muitas das vezes podemos ser surpreendidos por oportunidades maravilhosas de ajudar ou de sermos ajudados. Isso nos ensina o quanto devemos estar com as janelas de nossa mente abertas, isto é, atentos ao movimento das coisas ao nosso redor.

      Acabo de me lembrar da vez em que Jesus discursou profeticamente no Monte das Oliveiras sobre o bem que fizemos a alguém necessitado, comparando-o com o se fosse destinado também a ele. E, neste entendimento, todos os dias o Cristo vem a nós.

      Obrigado por sua colaboração. Tudo de bom!

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  4. Amém meu irmão, estavos como igreja cultuando ADeus ontem, quando recebi do Espírito Santo a lembrar deste testemunho .ocorrido.Despertou mais ainda em mim o desejo de buscar relatos mais profundos, quando o sr.fez um certo comentário . Quando este Simão de cirene descobriu o real peso daquela cruz eo seu significado.o impacto a estrutura da sua fé , , depois de descobrir quem era aquele que no momento que os dois se encontraram .O nosso salvador não tinha beleza alguma , esta escrito em Isaías 53.Que Deus derrame cada dia sobre sua vida seu Espírito Santo

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    1. Olá, Karyna,

      Primeiramente obrigado por sua leitura e comentários.

      Penso que se aplicarmos Mateus 25:31-46 aos que cruzam pelo nosso caminho carregando seus pesados fardos, futuramente compreenderemos a importância da ajuda que tivemos na vida de tais pessoas.

      Por mais decepcionantes que as pessoas muitas vezes sejam, é bom não desistirmos de fazer o bem. E o homem que ajudou Jesus a carregar a cruz, ao que me parece, agiu desinteressadamente e sem esperar nada em troca.

      Abraço e participe sempre que desejar!

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