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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O juízo histórico contra os "lavradores maus"


"A seguir, passou Jesus a proferir ao povo esta parábola: Certo homem plantou uma vinha, arrendou-a a lavradores e ausentou-se do país por prazo considerável. No devido tempo, mandou um servo aos lavradores para que lhe dessem do fruto da vinha; os lavradores, porém, depois de o espancarem, o despacharam vazio. Em vista disso, enviou-lhes outro servo, mas eles também a este espancaram e, depois de o ultrajarem, o despacharam vazio. Mandou ainda um terceiro; também a este, depois de o ferirem, expulsaram. Então, disse o dono da vinha: Que farei? Enviarei o meu filho amado; talvez o respeitem. Vendo-o, porém, os lavradores, arrazoavam entre si, dizendo: Este é o herdeiro; matemo-lo, para que a herança venha a ser nossa. E, lançando-o fora da vinha, o mataram. Que lhes fará, pois, o dono da vinha? Virá, exterminará aqueles lavradores e passará a vinha a outros. Ao ouvirem isto, disseram: Tal não aconteça! Mas Jesus, fitando-os, disse: Que quer dizer, pois, o que está escrito? A pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser a principal pedra, angular? Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó." (Evangelho de Lucas, capítulo 20, versículos de 9 a 18; versão e tradução ARA)

Até hoje a parábola dos lavradores maus, presente também em Mt 21:23-27 e Mc 12:1-12, bem como no Evangelho não oficial de Tomé 65-66, ainda é mal interpretada por muitos no cristianismo como se Jesus estivesse falando sobre sua rejeição pela nação israelita. Padres e pastores de outras épocas fizeram dessa passagem um perigoso discurso contra judeus capaz de induzir os ouvintes a um anti-semitismo sendo que, na verdade, a metáfora tratava-se de uma crítica referida aos sacerdotes e escribas como o próprio texto de Lucas mostrará mais à frente (20:19). Afinal, o Mestre teria falado dos vinhateiros e não da vinha.

Não tenho dúvidas de que, ao proferir a parábola, Jesus teria inspirado-se no Cântico da Vinha que se encontra nos versos de 1 a 7 do capítulo 5 do livro de Isaías. Só que ali o profeta fala dos frutos que eram ruins para o consumo e a comercialização - as "uvas bravas". E, realmente, a crítica de Isaías foi dirigida à casa de Israel de um modo geral por estar vivendo em apostasia e pecado. Já na parábola de Jesus, não há qualquer menção de que o fruto fosse de má qualidade. O problema estava nos lavradores que eram maus, ingratos, capazes de retribuir uma oportunidade de trabalho com espancamentos e assassinatos. Queriam o lugar do dono da vinha para si numa repetição concreta do pecado de Adão, confundindo o uso laboral da terra com o direito de posse/titularidade. Pensavam que, uma vez matando o herdeiro, a gleba ficaria um dia sem dono e eles substituiriam o proprietário.

Sem dúvida isso é o que ocorre até hoje no ministério pastoral! Quer fosse nos tempos de Isaías, de Jesus e na atualidade em relação aos líderes da Igreja, eis que a conduta jamais se restringiu a um povo específico ou determinada religião. Os que deveriam cuidar do rebanho começam a abusar da fé das pessoas esquecendo-se de que existe Deus. Através do discurso religioso e/ou político, passam a manipular, extorquir dinheiro, reprimir e excluir seres humanos visando um interesse próprio.

"Muitos pastores destruíram a minha vinha e pisaram o meu quinhão; a porção que era o meu prazer, tornaram-na em deserto." (Jr 12:10)
"O SENHOR entra em juízo contra os anciãos do seu povo e contra os seus príncipes. Vós sois os que consumistes esta vinha; o que roubaste do pobre está em vossa casa." (Is 3:14)

A troca de vinhateiros, no entanto, não significa o fim do povo judeu, mas sim de um sacerdócio que havia se corrompido ta como na época do Primeiro Templo. A destruição de Jerusalém, feita pelas tropas de Tito no ano 70 de nossa era, vai de algum modo emoldurar o contexto no qual se desenvolve o ensino dos evangelistas através da parábola atribuída a Jesus. Porém, jamais podemos cometer o engano de achar que o seu cumprimento teria se dado exclusivamente naquele período pretérito de revoltas judaicas contra Roma. A história continua se repetindo hoje ainda dentro da Igreja e creio que o autor sagrado já estivesse preocupado com algumas situações nas comunidades eclesiásticas de sua época. Tanto é que a ausência do dono da vinha faz lembrar faz a espera do segundo advento de Cristo. Ou seja, a mensagem já teria um duplo direcionamento, valendo ressaltar que os seguidores primitivos e seus pastores nunca foram perfeitos.

Importante destacar também que a transferência da vinha para outros não deve ser vista como coisa ruim. Os ouvintes da parábola no Templo parecem ter compreendido que a mesma tragédia de destruição da época do profeta Jeremias iria repetir-se novamente (verso 16). Contudo, Jesus lhes respondeu citando uma metáfora do festivo Salmo 118 que, originalmente, seria aplicada ao rei de Israel quando este teria vivido uma desesperadora situação de batalhas militares em que a derrota se apresentasse como inevitável. E, naquele momento, a própria liderança do monarca estaria talvez ameaçada perante o próprio povo por causa de uma sequência de resultados negativos ou porque o adversário atacou-o com um exército mais numeroso.

Na releitura de Jesus e da Igreja, o verso bíblico citado teria aplicação imediata à sua pessoa que, dentro de uma análise mais profunda, corresponderia às boas-novas do Reino de Deus anunciadas pelos profetas de todas as eras. Se o poema fez menção de uma total inversão de valores através da mudança da sorte do rei que não deixou de ter fé em meio ao aperto, o messianismo humilde do Salvador com sua revolucionária proposta evangelizadora não teria pronta aceitação.

Só que Jesus vem a se tornar a "principal pedra" (literalmente "a cabeça da esquina"). Mesmo covardemente assassinado, o Mestre passa a ser o sólido fundamento de um outro edifício que começou a ser erguido. Seu exemplo e ensino norteiam a caminhada do povo de Deus na construção de uma nova realidade. E foi neste sentido que a ressurreição do Senhor parece ter sido significada pelos primeiros seguidores.

A parábola é encerrada com uma advertência de juízo (verso 18), a qual requer bom compreendimento para não gerar interpretações proselitistas equivocadas. A questão posta aí não se limita a alguém tornar-se ou não adepto da religião cristã. Isto seria errar em relação ao processo revolucionário do Reino ignorando o desígnio de Deus em relação à História.

Assim, o Salmo 118, muito lembrado na época pascal entre os judeus, torna-se o recado de Jesus para os ouvintes do seu tempo e também do nosso presente. O povo que o saudara jubilosamente na estrada de Jerusalém louvando a Deus (Lc 19:38) agora precisava conhecer em seus corações o sentido da mensagem por ele anunciada. Dizer "bendito o que vem em nome do SENHOR" precisa ser muito mais do que uma simples confissão verbal porque inclui decisão, atitude e comprometimento com a causa do Reino.

Que isso seja "maravilhoso aos nossos olhos", como diz o verso 23 do poema bíblico, e passemos a nos tornar agentes da obra de Deus na terra, fazendo história nos passos de Jesus. Assim, no dia que se chama hoje, iremos nos alegrar num estado de eternidade e celebrando tão grandiosa salvação de um Pai infinitamente misericordioso que jamais deixou de amar a humanidade.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro O filho do dono da vinha, pintado pelo artista francês James Tissot (1836-1902). Encontra-se atualmente no Museu do Brooklyn, em Nova York. Eu extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brooklyn_Museum_-_The_Son_of_the_Vineyard_(Le_fils_de_la_vigne)_-_James_Tissot.jpg

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Boa noite, Gabriel!

      Obrigado aí pela visita e leitura.

      Grande abraço!

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  2. Em tempo.
    Como não chamar a atenção para teor de covardia envolvido nessa importantissima parabola.
    Passagens biblicas como essa nos dão uma ideia do quanto a covardia é ingrediente dos mais significativos no contexto da miseria humana.

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    1. Bem lembrado, amigo!

      Veja aí a morte de Jesus como narrada nos evangelhos em que as autoridades não podiam prender publicamente Jesus na frente do povo porque as multidões impediriam (Lc 19:47-48). Precisaram capturá-lo de noite e à traição.

      Até hoje a covardia ainda se repete com líderes e ativistas sociais que abraçam a causa do pobre contra os poderosos. O Brasil continua cheio de casos de assassinatos, sobretudo na região amazônica.

      Valeu!

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