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sábado, 14 de julho de 2012

Sete meses depois, estou novamente deixando o Rio



Parece mentira, mas não é. Neste mês de julho, estou de mudança do Rio de Janeiro para Muriqui, distrito de Mangaratiba. Saio daqui debaixo de muita luta e dificuldades.

Nasci aqui e vivi na companhia de meus pais nos primeiros anos da infância sempre morando no Grajaú. Com o falecimento de papai (1983), minha mãe mudou-se para Petrópolis e, após cursar a 1ª série lá (1984), fui viver com o avô paterno na cidade mineira de Juiz de Fora a partir de 1985. Ainda no final da década de 80, retornei ao Rio onde novamente estive morando no Grajaú só que com a avó paterna e no atual apartamento onde me encontro hoje. No finalzinho de 1992, outra mudança para Juiz de Fora e, em 1999, transferi-me para Nova Friburgo, lugar onde permaneci por treze anos até decidir sair de lá conforme relatei no artigo Despedindo-me desta inesquecível cidade, de 01/12/2011, onde relatei minha experiência lá na serra.

Posso dizer que, neste curto tempo em que fixei residência aqui, muita coisa se passou e realmente acredito que tive uma missão a cumprir. Creio que Deus usou a mim e a Núbia para apoiarmos a avó materna nos seus últimos meses de vida.

Chegamos à Cidade Maravilhosa dia 11/12. Era finalzinho de primavera, mas as temperaturas ainda não estavam tão quentes. O caminhão com a mudança teve muita dificuldade para estacionar porque, aos domingos e feriados, a pracinha do Grajaú é fechada pela Prefeitura para fins de lazer. Núbia já tinha vindo um dia antes com a nossa gata Sofia e, naquele final de semana, ela acabou dormindo na casa de minha mãe que fica no outro quarteirão, na avenida Engenheiro Richard.

Quem passou parte de sua vida no interior e volta a viver numa cidade grande sente grande diferença como foi o meu caso e também o de Núbia já que ela estava há seis anos em Nova Friburgo e se adaptando ali. Lá na serra, poucas vezes precisávamos tomar ônibus e os médicos de minha esposa, bem como sua fisioterapeuta, o dentista e a psicóloga, ficavam todos próximos de nosso apartamento bem no Centro. Eu já conhecia bem a região devido às caminhadas feitas desde 99. No inverno, curtíamos o frio tomando deliciosos chocolates quentes e comendo maravilhosas tortas nos cafés. Indo aos restaurantes de lá pagávamos bem menos por quantidades bem mais fartas do que no Rio.

Todavia, foram as ideias de alcançar uma vida melhor, conseguir trabalho, fazer um mestrado, aproveitar oportunidades pra ganhar dinheiro e ter novas experiências que me trouxeram dessa vez ao Rio de Janeiro. E, no fundo, eu também pensava se estar junto de pessoas da família também não seria parte da missão que Deus teria pra mim, sendo que a minha identificação com as causas de Nova Friburgo tinham diminuído se comparado com outros anos anteriores quando fui um militante sócio-ambiental com maior atuação naquela cidade.

Nos meses de dezembro e janeiro, ainda estava difícil a nossa adaptação. Passamos o Natal aqui e o final do ano em Muriqui com a sogra e a cunhada. E tão logo retornamos, levei a avó materna para um passeio por lá numa viagem de táxi afim de proporcioná-la uns dias alegres perto da praia. Porém, infelizmente, a doença não permitiu que ela aproveitasse conforme eu desejava. Pois, estando já bem convalescida e senil, até um passeio de carro ou na cadeira de rodas era um sofrimento.

Em fevereiro, esforcei-me por adaptar-me melhor ao Rio, fazendo passeios turísticos com Núbia, caminhadas ecológicas e me interessando por causas sócio-ambientais. Devido à demorado na instalação da internet, comecei a publicar no blogue vários textos que havia escrito em meu caderninho. Foram vinte postagens só naquele mês! No Carnaval, não saímos daqui.

Mas aquele deslumbramento foi logo interrompido com o agravamento do estado de saúde de minha avó de modo que mal foi possível comemorar meu sexto ano de casamento (04/03). Em março, ela foi caindo tão rapidamente que precisamos interná-la. A família já não conseguia dar banho nela e nem fazê-la se alimentar. Estando minha mãe ocupada também com os cuidados com o neto, enquanto minha irmã saía de casa para trabalhar, acabei responsabilizando-me pela avó. Depois que ela ficou dias na UPA da Sans Peña e estava precisando urgente de uma hemotransfusão, ingressei com uma ação judicial na qualidade de curador para que houvesse transferência para um hospital com melhores condições. E só por ordem da Justiça foi que Estado e Município se mexeram. Mesmo assim, vovó não resistiu e faleceu dia 21/03 no CTI do Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari (ver artigo).

Nos dois meses seguintes procurei ocupar-me com passeios e caminhadas dentro da cidade. Conheci bastante esta área do Rio de Janeiro onde me criei na tenra infância. Andei por trilhas, subi morros, entrei dentro de algumas comunidades já pacificadas, visitei museus, conheci prédios históricos e ainda estabeleci contatos com moradores atuantes para desenvolvermos um trabalho ecológico, social e cultural, trabalhando transversalmente a questão da espiritualidade. Reunimos por algumas vezes no bairro vizinho do Andaraí para tratarmos da fundação da ONG Espaço Cultural Amigos do Rio Joana e discutirmos problemas locais. Também, mesmo com a ausência da vovó, não deixamos de festejar os aniversários de abril (de minha mãe, meu e de Núbia). Já em maio, meu avó materno chegou de Costa Rica e permaneceu uns dias hospedado aqui em casa. E, em junho, foi a vez de comemorar os dois anos de vida do sobrinho Henrique.

Sobre a ONG, considero que esta foi uma das sementes que estou deixando quase que plantada (só falta legalizar a documentação). Desde que me interessei pelo movimento ecológico, morando ainda em Nova Friburgo, eu já pensava no meio ambiente do Grajaú aqui no Rio. Desejava em meu coração que houvesse um trabalho de resgate da história e de valorização da natureza e da cultura do bairro. Pensava na qualidade de vida da localidade e, quando cheguei no Rio, estava idealizando uma aproximação com as comunidades carentes situadas no entorno, em especial as do Complexo do Andaraí que são mais perto. Aí, entrando em contato com pessoas pela internet, fiquei sabendo da existência de um movimento pela defesa do rio Joana que é um importante afluente do Maracanã cujas nascentes estão nas serras do Grajaú e do Andaraí. Abracei então a causa e sonhei com a possibilidade de promover alguma aproximação entre moradores do morro e do asfalto em torno de uma causa ambiental que iria demandar obras sociais. Ansiei que o muro da separação entre a classe média e os pobres da Cidade Maravilhosa começasse a ser rompido por aqui.

Tudo estaria prosseguindo como planejava se não fossem os problemas de saúde de Núbia, os quais se agravaram bastante a partir de meados de junho. Por razões de privacidade, não estou autorizado a entrar em detalhes acerca de sua doença expondo a vida de alguém abertamente na internet. Mas compartilho que mergulhei num grande sofrimento a partir daí, sendo que não sei se fiz bem ou mal quando chamei minha sogra para passar uns dias em nossa casa e me ajudar, sendo ela uma senhora de quase oitenta anos e hipertensa.

Como se já não bastassem os problemas de Núbia, cometi o erro de sair pra uma caminhada dia 23/06 sem avisar para onde estava indo e acabei me perdendo das matas do Parque Nacional da Tijuca conforme já relatado no artigo de 28/06. Núbia, minha mãe, a sogra, minha tia e tantas outras pessoas ficaram desesperadas com o meu desaparecimento de três dias e duas noites. E, se a situação estava difícil, complicou mais. As pessoas que já estavam acompanhando a situação da saúde de Núbia sentiram-se mais tensas ainda de modo que, com o meu retorno pra casa, a mãe dela teve uma crise nervosa no outro dia e precisou ser levada para a emergência do Hospital do Andaraí.

Foi justamente no final de junho que senti na pele o fato de não ter buscado um trabalho profissional aqui no Rio durante todo esse tempo. Com o dinheiro acabando e me deparando com a realidade de que Núbia já não está podendo mais ficar sozinha, tomei a arriscada decisão de mudar-me para uma suíte na casa da sogra com a expectativa de que, com outras pessoas ajudando-me a cuidar da esposa, eu sairia para trabalhar fora. E, assim, iniciei o segundo semestre viajando nós cinco pra Muriqui: eu Núbia, a sogra, a cunhada e a gata.

Tão logo retornei ao Rio dia 04/07, afim de começar a preparar a mudança, resolvi ficar o primeiro sábado do mês lá em Muriqui ao lado da esposa. Querendo passear por outros municípios, embarquei num trem do Engenhão até Japeri e de lá, fazendo baldeações, passei por Paracambi, Seropédica, Itaguaí e, finalmente, cheguei ao destino. Entretanto, nem pude almoçar. Núbia não estava em casa e, quando a encontrei, estando muito mal, precisei levá-la ao posto de saúde do distrito onde foi logo medicada e orientada a buscar uma internação para tratamento.

Esta semana que se passou, mal pude cuidar dos assuntos da mudança. Interrompi todas as coisas para conseguir vaga numa clínica para Núbia pela Unimed. Foi um sofrimento terrível e tivemos que pressionar bastante o plano e a médica dela para que as coisas andassem. Quase entrei com um processo na Justiça e teria feito isto na quinta-feira se tudo não se resolvesse. Então, como foi aberta vaga na única clínica que atende a especialidade exigida dentro da rede credenciada, levei-a para lá no mesmo dia em que confirmei com a funcionária que me atendeu ao telefone.

Sem ter nenhuma previsão de alta, vou tratando de providenciar a mudança enquanto Núbia permanece internada. Pretendo estar com ela nos quatro dias semanas de visita (domingo, terça, quinta e sábado) e ainda conversar com o médico responsável na quarta que é a única vez em que ele atende os familiares para dar alguma posição. Com a grana curta, vou pagar o transporte da mobília e depois retornar com o imóvel vazio afim de pintar o teto sujo da cozinha antes de procurar a imobiliária.

Não nego que já tive outras batalhas bem duras. Em 2010, Núbia esteve muito mal, época em que seus joelhos incharam, o fígado ficou gorduroso, foram várias crises de vesícula e ela perdeu a gravidez sem que a Unimed autorizasse a internação. Como tínhamos menos de um mês usando o plano, internações eletivas não podiam ser autorizadas e a auditoria médica da empresa entendeu que a morte de um feto no útero da mulher não seria caso de urgência de modo que o único socorro foi mesmo procurar o Hospital Maternidade de Nova Friburgo pelo SUS. Por conta disto, ataquei o parceria entre a CAARJ e as seguradoras através de um artigo em 02/06/2010 aqui no blogue.

É com certa tristeza no coração que me despeço do Rio pelos recentes acontecimentos desagradáveis, crendo na continuidade de minha missão no município de Mangaratiba e esperando que Núbia irá se recuperar tornando felizes os anos da velhice de sua mãe. Não estou com a expectativa de navegar num mar de rosas. Sei que precisarei de muita sabedoria e equilíbrio emocional para lidar com as diversas situações que se apresentam. Além da saúde de Núbia e da sogra, tem a necessidade de conseguir trabalho começando do zero praticamente descapitalizado na nova cidade. Porém, a minha situação não é a pior do mundo e creio que Deus não nos abandona.

Assim como amei intensamente o Rio nesses últimos meses, o meu coração agora se dilata por Mangaratiba. Mudando-me para lá por esses dias, chegarei em época de campanha eleitoral, mas sem poder votar lá. Já estou acompanhando a política da cidade através de grupos específicos do Facebook e estou me colocando à disposição de Deus para que o Senhor me use na expansão do seu Reino onde eu me encontrar. E oro para que a transformadora mensagem do Evangelho de Cristo possa chegar com poder na belíssima região da Costa Verde, inclusive na minha vida.

Caminhando pelas trilhas da vida, dou a Deus toda glória que lhe é devida e peço que o vento do seu Espírito Santo me leve. Bendigo a Jesus Cristo a quem foi dado o domínio sobre toda a Terra, declarando que Mangaratiba é do Senhor. E que seja o Rio de Janeiro abençoado juntamente com todas as pessoas com as quais pude conviver e aprender nestes últimos sete meses.

7 comentários:

  1. Meu amigo, te desejo felicidades nessa nova etapa da sua vida. Desejo de coração que sua esposa se recupere completamente e que você possa prosperar em todos os sentidos na bela cidade de Mangaratiba.

    um abraço

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    1. Edu,

      Muito obrigado por suas palavras.

      Realmente estamos precisando de muita saúde e prosperidade, embora creio que o principal já seja a Presença de Deus.

      Muitas bençãos pra você também. Paz!

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  2. myrian phanardzis15 de julho de 2012 00:49

    Sinto um aperto no peito por vê-lo partir novamente quando já estava acostumada e feliz com sua presença não só junto a mim como também dos seus irmãos e sobrinho...mas, creio que vc. continuará sendo abençoado pq tem um coração maravilhoso e Deus sabe como ninguém a pessoa que vc. realmente é...
    A sua vitória agora só depende de vc.! E eu aqui distante (geograficamente) mais uma vez, ficarei torcendo e orando muito pra vê-lo feliz!
    Deus mostrou que ele tem planos grandiosos na sua vida! Pq. do contrário , não tería permitido que nós o encontrassemos perdido em uma floresta sem saber ao menos onde procurá-lo...lembre-se sempre disso!
    Meu amor de mãe é eterno e incondicional ...não se esqueça!

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    1. Mãe, realmente este episódio na Floresta da Tijuca não é para se esquecer jamais. E nem esquecer que Deus tem propósito para as nossas vidas (se foi um milagre pode ter sido também um sinal). Assim, basta que estejamos dispostos a cumprir Sua vontade.

      Quando eu estava sumido, um pastor lá de N. Friburgo chegou a ligar para Núbia e perguntou "você acredita em Deus?" Ela, a princípio respondeu com sinceridade que não. Depois que fui achado, ele lhe fez a mesma pergunta: "E agora você acredita em Deus?" Então ela respondeu que sim.

      Obrigado mais uma vez pelos comentários e que nós, em nossa pequena família, possamos intensamente amar uns aos outros. Beijos.

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  3. Pessoal,

    Hoje mesmo pretendo pedir à NET o desligamento da internet aqui em casa pois estou com a mudança agendada para esta sexta. Até que seja instalada a rede na nova residência, devo entrar menos vezes na blogosfera e nas redes sociais, tendo que priorizar questões relacionadas ao trabalho nas oportunidades.

    Agradeço a todos que estão torcendo por mim.

    Abração!

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  4. Rodrigo, desejo-lhe boa sorte nesta sua nova empreitada, que Deus esteja sempre contigo, é uma pena que esteja se mudando de nosso bairro, mas se um dia você voltar para cá, entre em contato conosco para marcarmos outra subida no Pico do Papagaio, sua presença é sempre bem vinda entre nós.

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    1. Valeu, Raul! Precisávamos ter feito mais caminhadas além daquela em que fomos ao pico do bairro e nas cachoeiras. Não perderei uma conexão com o Grajaú pois parte da minha família (mãe e irmãos) vivem aqui, na avenida Engenheiro Richard. E continuo também no Face, sendo que a internet encurta bastante as distâncias. Abração!

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