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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

16 de setembro de 1947: o dia em que um brasileiro chegou à Presidência da Assembleia Geral da ONU


Osvaldo Aranha preside a Assembleia das Nações Unidas, 1947


“Aqui será organizado um mundo em paz, ou surgirá a guerra.” — Oswaldo Aranha


Há exatos 79 anos, em 16 de setembro de 1947, um brasileiro assumia uma das posições de maior projeção da diplomacia internacional. Naquele dia, Oswaldo Euclides de Sousa Aranha foi eleito presidente da Segunda Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas.

A ONU tinha apenas dois anos de existência. O mundo ainda tentava compreender as consequências da Segunda Guerra Mundial e, ao mesmo tempo, já começava a perceber a formação de uma nova divisão internacional, que em pouco tempo receberia o nome de Guerra Fria.

Foi nesse cenário que um representante do Brasil foi escolhido para conduzir os trabalhos do principal órgão deliberativo da jovem Organização das Nações Unidas.

E não se tratou de uma escolha meramente protocolar.


Uma eleição disputada — e adversários de peso

Os registros oficiais das Nações Unidas permitem reconstituir com precisão o que aconteceu naquela tarde de 16 de setembro.

A eleição ocorreu durante a 81ª reunião plenária da Assembleia Geral. No primeiro escrutínio, foram depositados 55 votos. Oswaldo Aranha recebeu 26 votos; o australiano Herbert Vere Evatt, 23; e o representante da Tchecoslováquia, Jan Masaryk, seis.

Como eram necessários 28 votos para a maioria, ninguém foi eleito.

Realizou-se então um segundo escrutínio, limitado aos dois candidatos mais votados. Dessa vez, Aranha recebeu 29 votos, contra 22 de Evatt, e foi declarado presidente da Segunda Sessão da Assembleia Geral.

A simples enumeração dos votos, porém, não revela inteiramente o significado daquela disputa. Os adversários de Aranha estavam entre as figuras mais expressivas da diplomacia de seu tempo.

Herbert Vere Evatt era jurista, político e ministro das Relações Exteriores da Austrália. Fora juiz da High Court of Australia entre 1929 e 1940 — tornando-se, quando nomeado, o mais jovem integrante da corte — e participara ativamente da Conferência de São Francisco de 1945, que elaborou a Carta das Nações Unidas. Defendia especialmente que países pequenos e médios tivessem maior influência na nova organização internacional. Sua importância era tamanha que, apenas um ano depois da derrota para Aranha, seria eleito presidente da Terceira Sessão da Assembleia Geral, em 1948–49, presidindo-a quando foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Jan Masaryk, por sua vez, era ministro das Relações Exteriores da Tchecoslováquia e filho de Tomáš Garrigue Masaryk, fundador e primeiro presidente do país. Diplomata de longa trajetória, fora representante tchecoslovaco em Londres e, durante a ocupação nazista, tornou-se conhecido por suas transmissões radiofônicas pela BBC dirigidas à população de seu país. Participara da Conferência de São Francisco e assinara a Carta das Nações Unidas pela Tchecoslováquia. Em 1947, ainda procurava preservar as ligações do país com as democracias ocidentais em meio à crescente influência soviética; morreria em circunstâncias até hoje discutidas poucas semanas depois da tomada do poder pelos comunistas, em fevereiro de 1948.

Aranha, portanto, não venceu uma disputa contra personagens de segunda linha. Competiu com dois protagonistas da política internacional do pós-guerra — um deles seu sucessor na própria Presidência da Assembleia..


Naquela mesma manhã

Antes mesmo de ser eleito definitivamente, Oswaldo Aranha já havia desempenhado papel de destaque naquele 16 de setembro.

Na condição de presidente temporário, coube a ele abrir, pela manhã, os trabalhos da Segunda Assembleia Geral. A documentação preservada pela Fundação Alexandre de Gusmão registra que o discurso foi pronunciado às 11 horas; a eleição definitiva aconteceria somente mais tarde.

Suas palavras revelam bastante sobre o ambiente internacional daquele momento.

A guerra terminara apenas dois anos antes. Hiroshima e Nagasaki ainda eram acontecimentos recentes. A Europa encontrava-se parcialmente destruída. Milhões de pessoas haviam sido deslocadas. As relações entre Estados Unidos e União Soviética deterioravam-se rapidamente, enquanto a nova organização internacional ainda precisava demonstrar que seria capaz de evitar que o planeta voltasse a mergulhar numa catástrofe semelhante.

Aranha resumiu o desafio com uma frase de impressionante contundência: “Aqui será organizado um mundo em paz, ou surgirá a guerra.”

A frase fazia parte de uma reflexão mais ampla. Para ele, os numerosos assuntos da agenda poderiam ser resumidos numa questão fundamental: que caminho as Nações Unidas escolheriam. Não bastava ter encerrado militarmente a Segunda Guerra. Era necessário construir politicamente a paz.

Vista quase oito décadas depois, a afirmação ajuda a compreender o peso que se atribuía à ONU em seus primeiros anos. Não se tratava apenas de mais um organismo diplomático. Para uma geração que acabara de viver duas guerras mundiais em menos de três décadas, a Organização carregava a esperança de construção de algum mecanismo permanente de solução internacional de conflitos.


Quem era Oswaldo Aranha

A vitória também não surgiu do nada.

Nascido em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 15 de fevereiro de 1894, Oswaldo Aranha formou-se em Direito e construiu sua trajetória inicialmente na política gaúcha. Teve participação decisiva na Revolução de 1930 e tornou-se uma das figuras mais importantes dos primeiros governos de Getúlio Vargas.

Foi ministro da Justiça entre 1930 e 1931 e, depois, ministro da Fazenda entre 1931 e 1934, período particularmente difícil em razão dos efeitos da crise econômica mundial sobre o Brasil. Em seguida, tornou-se embaixador nos Estados Unidos, onde aprofundou sua interlocução com o governo de Franklin D. Roosevelt.

Em 1938, assumiu o Ministério das Relações Exteriores, permanecendo à frente do Itamaraty até 1944. Durante a Segunda Guerra Mundial, desempenhou papel importante na aproximação brasileira com os Estados Unidos e no alinhamento do Brasil aos Aliados.

Aranha era, portanto, uma figura intimamente ligada ao ciclo político de Vargas, mas possuía ao mesmo tempo trajetória própria, formação jurídica, experiência econômica e uma rede de relações internacionais incomum entre os políticos brasileiros de sua geração.

Quando chegou às Nações Unidas em 1947, não era um estreante na diplomacia..


Aranha já conhecia aquele plenário

A eleição de setembro não foi o primeiro momento em que ele assumiu a Presidência da Assembleia Geral naquele ano.

Em 28 de abril de 1947, durante a Primeira Sessão Especial da Assembleia Geral, convocada principalmente para tratar da questão da Palestina, Aranha também havia sido eleito presidente. O resultado fora ainda mais expressivo: recebeu 45 votos entre 50 votantes, enquanto outros cinco nomes receberam um voto cada.

Assim, a relação histórica das próprias Nações Unidas registra Oswaldo Aranha duas vezes em 1947: como presidente da Primeira Sessão Especial e posteriormente da Segunda Sessão ordinária da Assembleia Geral.

Quando tomou a palavra depois da eleição de setembro, ele próprio atribuiu parte da confiança que recebera ao trabalho realizado durante aquela sessão especial. O registro oficial mostra ainda que Aranha afirmou ter inicialmente resistido à candidatura e que acabara aceitando diante da insistência das delegações latino-americanas e de outros países.

Antes de tudo isso, em março de 1947, também havia exercido a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Em poucos meses, portanto, o brasileiro transitara pelo centro das duas principais arenas políticas da nova organização internacional.


Um mundo entrando na Guerra Fria

O ano de 1947 ocupa uma posição singular na história do século XX.

Foi naquele período que o presidente norte-americano Harry Truman anunciou a política que ficaria conhecida como Doutrina Truman. Poucos meses depois seria apresentado o Plano Marshall para a reconstrução europeia. A divisão política entre os blocos liderados por Washington e Moscou tornava-se cada vez mais visível.

Ao mesmo tempo, o sistema colonial começava a enfrentar pressões que, nas décadas seguintes, levariam à independência de dezenas de países da Ásia e da África.

A Assembleia que Aranha passou a presidir refletia aquele mundo em transformação.

Ainda estava muito distante da composição atual de 193 Estados-membros. Mas já reunia países com interesses, sistemas políticos e visões internacionais profundamente diferentes. Na Assembleia Geral, cada Estado dispõe formalmente de um voto, independentemente de seu tamanho ou poder econômico e militar.

A Presidência exigia, portanto, mais do que visibilidade. Cabia ao presidente ordenar os trabalhos, reconhecer os oradores, interpretar as regras de procedimento, encaminhar propostas e conduzir votações envolvendo interesses muitas vezes antagônicos das grandes potências.

E uma dessas questões acabaria marcando definitivamente o nome de Aranha.


29 de novembro de 1947

Pouco mais de dois meses de sua eleição, Oswaldo Aranha presidiria a sessão que acabaria se tornando o episódio mais conhecido de sua passagem pelas Nações Unidas.

Em 29 de novembro de 1947, durante a 128ª reunião plenária, a Assembleia Geral aprovou a Resolução 181, que recomendava a divisão do território do então Mandato Britânico da Palestina e previa a criação de um Estado árabe e de um Estado judeu, além de um regime internacional especial para Jerusalém.

O resultado foi de 33 votos favoráveis, 13 contrários e 10 abstenções. O Brasil votou a favor.

A decisão foi intensamente contestada pelos representantes árabes e tornou-se um dos acontecimentos centrais da história do Oriente Médio no século XX. A resolução recomendava a criação dos dois Estados; em maio de 1948 seria proclamado o Estado de Israel, seguindo-se a guerra árabe-israelense de 1948. O Estado árabe palestino previsto naquele plano não se concretizou nos termos da resolução.

A atuação de Aranha, entretanto, não se resumiu a anunciar o resultado.

Os registros das sessões de 28 e 29 de novembro mostram-no intervindo continuamente na condução dos trabalhos, administrando questões procedimentais e o calendário da votação. Em 28 de novembro, a Assembleia acabou adiando por 24 horas a decisão para permitir novas tentativas de conciliação; no dia seguinte, Aranha retomou o assunto e, constatando não haver acordo alternativo, encaminhou a Assembleia para a votação.

A historiografia atribui diferentes graus de importância pessoal a sua atuação. Pesquisa acadêmica recente, baseada em documentos da ONU, do Arquivo Histórico do Itamaraty e do CPDOC, concluiu que sua experiência e habilidade procedimental tiveram papel relevante na organização dos debates, nos adiamentos e na criação das condições institucionais que permitiram chegar à votação — sem, contudo, atribuir a Aranha isoladamente a responsabilidade por uma decisão tomada por dezenas de Estados.

Essa distinção é importante.

É possível reconhecer o protagonismo do presidente da Assembleia sem transformar um processo diplomático multilateral extremamente complexo na obra de uma única pessoa.


A memória de Aranha em Israel

A atuação de 1947 deixou uma marca duradoura.

Na memória diplomática israelense, Oswaldo Aranha ocupa uma posição especialmente destacada. O próprio Ministério das Relações Exteriores de Israel registra sua presidência da Assembleia que aprovou o plano de partilha como um marco histórico nas relações entre Brasil e Israel.

Seu nome passou a ser lembrado naquele país, inclusive em espaços públicos.

Essa memória, naturalmente, corresponde sobretudo à perspectiva israelense sobre os acontecimentos. Para palestinos e para os países árabes que rejeitaram a partilha, a Resolução 181 é inserida em uma narrativa histórica bastante diferente.

Essa pluralidade de perspectivas é indispensável para compreender um conflito que permanece sem solução definitiva quase oito décadas depois.

Mas, independentemente da avaliação política posterior sobre a partilha, existe um fato histórico incontornável: era um brasileiro quem presidia a Assembleia Geral quando uma das decisões mais importantes e controversas dos primeiros anos das Nações Unidas foi tomada.


O Brasil e a palavra na Assembleia

A passagem de Aranha pela ONU também se associou, com o tempo, a outra característica singular da diplomacia brasileira: a tradição de o Brasil ser o primeiro Estado-membro a discursar no Debate Geral anual da Assembleia.

Presidir a Assembleia e abrir o Debate Geral são, naturalmente, coisas diferentes.

A primeira é uma função institucional exercida por uma pessoa eleita pelos membros da Assembleia. A segunda diz respeito à ordem dos discursos das delegações nacionais.

A origem exata da tradição brasileira merece uma pequena ressalva histórica porque as próprias fontes institucionais não a descrevem de maneira inteiramente uniforme.

A obra O Brasil nas Nações Unidas, publicada pela Fundação Alexandre de Gusmão, afirma que o país ocupa o primeiro lugar na tribuna do Debate Geral desde a IV Assembleia Geral, em 1949, atribuindo a prática ao ambiente de confrontação entre Estados Unidos e União Soviética: escolher o Brasil ajudaria a evitar que a precedência fosse concedida a uma das duas superpotências. Segundo essa reconstrução, antes da abertura das inscrições o Secretariado consultava a missão brasileira sobre seu interesse em manter a primazia.

Já a página atual da ONU no Brasil situa a tradição a partir da 10ª sessão, em 1955, relacionando a honraria à participação de Oswaldo Aranha nos primeiros anos da Organização.

Em vez de esconder a diferença, talvez ela seja interessante por si mesma: tradições diplomáticas nem sempre nascem de uma regra formal ou de uma data única. Podem surgir gradualmente, transformar-se em prática e só depois adquirir o caráter de costume.

O essencial é que não existe uma norma da Carta da ONU determinando que o Brasil fale primeiro. Trata-se de uma tradição diplomática consolidada.

E ela permanece viva. Em 2023, por exemplo, quando Luiz Inácio Lula da Silva retornou à Assembleia Geral em seu terceiro mandato presidencial, o registro oficial da ONU mostra que o Brasil continuou sendo o primeiro Estado-membro a discursar no Debate Geral.

De uma forma ou de outra, a presença de Oswaldo Aranha na formação dessa tradição tornou-se parte da memória diplomática brasileira.


O único brasileiro

Talvez o dado mais significativo ao recordar a data seja este: 79 anos depois, Oswaldo Aranha continua sendo o único brasileiro que ocupou a Presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas.

A relação oficial dos presidentes anteriores mantida pela ONU registra, para o Brasil, somente seu nome — duas vezes em 1947, em razão da Primeira Sessão Especial e da Segunda Sessão ordinária. Evatt, seu adversário em setembro, aparece logo depois, como presidente da Terceira Sessão, em 1948.

Isso dá ao 16 de setembro um significado que ultrapassa a simples curiosidade histórica.

Naquele momento, o Brasil ainda era um país predominantemente rural, com população muito menor que a atual, vivendo os primeiros anos da experiência democrática inaugurada depois do Estado Novo. 

Mesmo assim, sua diplomacia alcançava posição central numa instituição que acabava de nascer e que se tornaria uma das principais arenas da política mundial. E fazia isso numa Assembleia em que circulavam nomes como Evatt, Masaryk, Andrei Gromyko, Lester Pearson e tantos outros personagens que participariam da construção da ordem internacional do pós-guerra.

Nesse sentido, a vitória de Aranha ganha outra dimensão: ele chegou à Presidência num plenário povoado por alguns dos grandes nomes da diplomacia daquela geração.


Setenta e nove anos depois

Efemérides não servem apenas para celebrar personagens. Servem também para recuperar acontecimentos que ajudam a compreender o presente.

O mundo de 2026 é profundamente diferente daquele de 1947. A ONU cresceu, incorporou dezenas de novos Estados e atravessou a Guerra Fria, a descolonização, conflitos regionais, transformações econômicas e sucessivas crises internacionais.

Também acumulou críticas, limitações e contradições.

Mas permanece, em grande medida, a mesma pergunta formulada por Oswaldo Aranha naquela manhã de 16 de setembro de 1947: se instituições internacionais serão capazes de oferecer um espaço em que conflitos possam ser administrados por regras, negociação e diálogo ou se, diante do fracasso dessas instituições, a força voltará a prevalecer.

Talvez por isso aquelas palavras pronunciadas há 79 anos não pertençam apenas aos arquivos diplomáticos.

Naquele 16 de setembro, o brasileiro que pela manhã advertira sobre a responsabilidade histórica das Nações Unidas seria, algumas horas mais tarde, escolhido pelos representantes dos países reunidos em Nova York para conduzir os trabalhos da Assembleia.

Oswaldo Aranha tinha 53 anos. A Organização das Nações Unidas, apenas dois.

E, pela primeira — e até hoje única — vez na história, um brasileiro foi eleito para presidir uma sessão ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas.


Nota de fontes

Nações Unidas: registros oficiais da 81ª reunião plenária, de 16 de setembro de 1947; registros das 127ª e 128ª reuniões, de 28 e 29 de novembro; Resolução 181 (II); relação oficial dos antigos presidentes da Assembleia Geral. 

Fundação Alexandre de Gusmão — FUNAG: Oswaldo Aranha: um estadista brasileiro, especialmente o discurso de abertura da Segunda Assembleia Geral; O Brasil nas Nações Unidas (1946–2011); biografia de Oswaldo Aranha mantida pelo Centro de História e Documentação Diplomática. 

National Archives of Australia: biografia e atuação internacional de Herbert Vere Evatt. 

Ministério das Relações Exteriores da República Tcheca: biografia e trajetória diplomática de Jan Masaryk.

Ministério das Relações Exteriores de Israel: histórico das relações Brasil–Israel e memória da atuação de Aranha em 1947.

Universidade Federal de Uberlândia: pesquisa acadêmica Oswaldo Aranha e a Questão da Palestina, baseada em fontes primárias da ONU, Itamaraty e CPDOC.