Páginas

sábado, 15 de abril de 2017

A Lava Jato e a Páscoa brasileira




Incrível como que as notícias sobre a "Lista de Fachin", referente às delações dos executivos da empreiteira Odebrecht na Operação Lava Jato, têm tomado conta dos nossos telejornais. Se antigamente as reportagens desta época mostravam mais as procissões sacras pelas cidades e demais eventos da Semana Santa, eis que, em 2017, os acontecimentos da vida cultural e religiosa do povo brasileiro estão sendo tratados como algo secundário depois que toda a podridão de alguns depoimentos guardados em sigilo passou a ser exposta nos horários mais nobres da TV. 

Ao que parece, a Globo e outras emissoras estariam focalizando mais no assunto da corrupção do que os usuários das redes sociais onde vejo as postagens diversificando-se em que, por exemplo, muitos internautas preferem lembrar do martírio de Jesus, exibir fotos de suas viagens, comentar sobre piadas, etc. Daí fico a indagar se, nesses três anos de investigações (a Lava Jato iniciou-se em 17/03/2014), a população já não se sentiria agora saturada com tantas notícias ruins sendo continuamente vomitadas a ponto de muitos até trocarem de canal quando o apresentador William Bonner passa a falar das revelações dos depoimentos e das novas prisões.

Entretanto, por mais que a televisão possa estar potencializando um tipo de informação em detrimento das demais, tento ver algo de útil nisso tudo e estabelecer uma conexão da Lava Jato com a Páscoa, a qual muitos comemoram sem saber do que se trata. Pois, afinal, o significado cultural dessa época não tem a ver com a ingestão dos deliciosos chocolates ou menos ainda com a figura de um coelhinho que trás os ovos para a criançada na madrugada de sábado para domingo. Antes de mais nada, estamos falando de uma tradição de origem judaica e que foi re-significada pelo cristianismo em relação à morte de Jesus de Nazaré.

Como se sabe, o Pessach, que é a "Páscoa judaica", celebra a libertação dos hebreus da escravidão egípcia sob o comando de Moisés. De acordo com a tradição, cujo relato encontra-se muito bem narrado no segundo livro da Bíblia (Êxodo), a primeira festa dos israelitas teria ocorrido há mais de três mil anos, quando Deus enviou ao Egito dez "pragas" contra os opressores. Antes do décimo castigo, cada família hebreia foi instruída para que sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais das portas de suas casas com o sangue do animal, a fim de que, quando o anjo passasse, os seus filhos mais velhos não fossem acometidos pela morte. Assim, depois que Deus feriu todos os primogênitos egípcios (desde as primeiras crias dos animais até os da família do Faraó), o rei, por temer a ira divina, concordou em liberar o povo de Israel para a adoração no deserto, o que levou a uma saída definitiva do país. Logo, como uma recordação desse evento mítico, ficou instituído para todas as gerações seguintes o sacrifício pascal.

Por sua vez, o Novo Testamento ensina que a ressurreição de Jesus, também celebrada pela Páscoa, seria o fundamento da fé cristã. Diz a primeira epístola de Pedro que Deus regenerou a humanidade para uma viva esperança pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (1ª Pe 1:3). Com isso, os cristão são espiritualmente ressuscitados com Cristo a fim de que possam ter uma nova vida. Aliás, a este respeito, o apóstolo Paulo também escreveu dando as seguintes advertências à Igreja em Corinto:

"Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da perversidade, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade." (1ª Co 5:7-8)

O que podemos entender acerca da Páscoa é que ela nos traz a ideia de renovação e aí, se pensarmos em política, isso diz muita coisa. Ou seja, vejo todos esses acontecimentos reveladores da Lava Jato como um convite para passarmos do velho para o novo, superando de vez esse nosso passado vergonhoso de uma escravizante corrupção para um relacionamento libertador entre o cidadão e o Poder Público.

Ora, quando falo em renovação, meus amigos, não me refiro apenas em mudarmos os nomes dos políticos, tipo colocar no Legislativo e no Executivo pessoas sem envolvimento com a Lava Jato apenas. Defendo é a eleição de homens e mulheres verdadeiramente íntegros, sem nenhuma vinculação com o "fermento antigo", ressaltando também a necessidade de não darmos mais um apoio aos candidatos que esteja condicionado a benefícios pessoais nos quais os políticos possam nos favorecer em troca. Pois é justamente isso que tanto enfraquece o mandato de um parlamentar vitorioso que, uma vez empossado, fica impossibilitado de lutar por propostas mais nobres porque se encontra comprometido a, por exemplo, empregar os seus principais colaboradores de campanha na ocupação dos cargos comissionados num governo.

Não podemos negar, queridos, que, assim como os políticos, a sociedade também se acha corrompida desde a sua base. Ontem mesmo a Globo mostrou o delator Henrique Valadares declarando que deu dinheiro a índios, policiais e sindicalistas por causa de obras feitas por sua empresa em Rondônia. Isto teria sido feito para evitar problemas na construção das hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau. Segundo ele, os sindicalistas "cobravam pedágios mensais" à Odebrecht para "não apoiarem greves, atos de violência, esse tipo de coisa".

Sendo assim, há que se dar um novo significado à nossa Páscoa! Pois, se bem pensarmos, do que adianta assistirmos todos os anos aquelas procissões e encenações típicas que rememoram a morte de Cristo se nada de bom que as Escrituras ensinam é posto em prática pela nação?! Logo, considero até apropriado que possamos ver diante dos nossos olhos toda essa podridão agora para que amanhã sejamos capazes de estabelecer uma renovação do nosso pacto republicano de uma maneira consciente, madura e verdadeiramente arrependida dos pecados que são coletivamente cometidos até hoje.

Certamente que a Páscoa não é e nem será algo instantâneo na vida de uma pessoa ou de um povo. Ela inaugura um processo histórico dialético com seus avanços e recuos, tratando-se de uma marcha que termina por seguir em frente no passar das eras, acompanhando uma espiral evolutiva. Por isso, precisamos dessa passagem libertadora que nos conduza a uma nova política na qual os valores éticos possam prevalecer e haja uma maior transparência juntamente com a participação social dos cidadãos.

Para concluir, quero amanhã poder degustar, mesmo simbolicamente, o produto da foto ilustrativa lançado pela Casa de Chocolates Schimmelpfeng, o qual seria um ovo de chocolate no sabor "moroango", em referência ao sobrenome do magistrado que julga casos da Operação Lava Jato - o juiz Sérgio Moro. E embora a chocolateria não pretenda tomar partido de nenhuma questão ideológica nesse momento político do Brasil, mas tão somente prestar uma homenagem a um profissional que se tornou nacionalmente célebre pelo cumprimento de seu papel, é com muito gosto que dou significado a esse novo doce. Adoto-o, pois como um símbolo para a Passagem que necessitamos empreender em nossa caminhada histórica rumo a um desejado futuro que "mana leite e mel", quando o brasileiro finalmente poderá desfrutar de bons serviços prestados pelo Estado bem como orgulhar-se de seu país, além dos vitoriosos jogos da seleção de futebol.

Portanto, desejo uma feliz Páscoa a todos e viva Sérgio Moro.


8 comentários:

  1. Talvez a Lava-Jato tem alguma coisa a ver com a Páscoa, Rodrigo. Quem vem confessando os seus pecados está alcançando misericórdia. A Delação Premiada diminui a pena do pecador pela metade. (rsrs)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezado Levi.

      Inicialmente, obrigado por sua visita e comentários.

      Com certeza terá, se soubermos superar esse momento difícil combatendo a corrupção com renovação.

      A respeito da confissão de pecados, transcrevo aqui trechos do artigo Para evitar um eminente novo golpe de Estado do teólogo e cientista político Leonardo Boff que ele publicou hoje em, seu blogue:

      "Uma terceira via, mais radical, seria inspirada pela Comissão da Verdad e da Reconciliação da África do Sul, coordenada pelo bispo Desmond Tutu que aqui apresento como viável. Ai se tratava de conhecer a verdade sobre os crimes cometidos contra a população negra por dezenas de anos não excluídos também crimes perpetrador por negros.

      Três eixos estruturavam o processo: a verdade, a responsabilização e a justiça restaurativa e curativa. Tudo era feito sob o arco de um valor cultural comum que nos falta: o Ubuntu que significa: eu só posso ser eu através de você. Esse valor conferia e confere coesão à sociedade da Africa do Sul, pois de saída supera o individualism, típico de nossa cultura ocidental.

      A verdade tinha a dimensão factual:conhecer os fatos como se passaram. Outra dimensão era a pessoal: como a pessoa subjetivamente sentia o crime cometido. A terceira era a social: como a sociedade interpretava e discutia a gravidade dos crimes. Por fim, a verdade restaurativa e criativa: reprovação moral do passado e disposiçãode construir uma nova memória.

      A anistia era concedida àqueles que reconheciam publicamente a responsabilidade pelos crimes cometidos. A confissão pública de seus atos era a grande punição moral. É a anistia pela verdade que possui uma função restaurativa e curativa: refazer o tecido social e dispor-se a não mais cometer os mesmos crimes sob o lema: “para que não se esqueça e para que nunca mais aconteça”. Para crimes contra a humanidade havia a punição legal conveniente e não vigorava a anistia.

      (...)

      Tais procedimentos poder-se-iam aplicar ao caso brasileiro. Marcelo Odebrecht e seu pai Emílio Odebrecht reafirmaram que praticamente todos os políticos (com exceções conhecidas por sua inteireza ética) se elegeram pela via do caixa 2. O caixas 2 é tipificado como crime pelo artigo 350 do Código Eleitoral e pelo artigo 317 do Código Penal. Foi o que tem repetido muitas vezes a Presidente do STF.

      Pelo fato, porém, de a corrupção ter-se generalizado e afetado a grande maioria dos partidos, poder-se-ia aplicar uma anistia nos moldes da Comissão da Verdade e da Reconciliação da África do Sul. Todos os que se valeram do caixa 2 viriam a público, confessariam tal crime e manifestariam o propósito de não mais recorrer a este expediente para eleger-se. A revelação de seus nomes e sua confissão pública seria uma verdadeira punição moral.

      Outra coisa, entretanto, é a a propina recebida de empresas com promessa de dar-lhes vantagens legais e a corrupção como desvio de dinheiro público, aos milhões e milhões, a ponto de levar à falência um estado como o Rio de Janeiro. Aqui se trata diretamente de crimes que devem ser adequadamente julgados e punidos e mais que tudo recuperar para os cofres públicos o dinheiro roubado. Neste âmbito ocorreram crimes de lesa-humanidade como os 300 milhões desviados da Saúde do Rio de Janeiro que, obviamente, tem prejuficado milhares de pessoas, levando muitas à morte. Para esses cabem as penas mais severas.

      Este caminho seria altamente humanitário, reforçaria nossa democracia que sempre foi de baixa intensidade e traria uma atmosfera moral e ética para o campo da política, como busca comum do bem comum.

      A atual crise da política brasileira, obnubilando qualquer futuro esperançador, nos obriga a pensar e a busar saídas possíveis que evitem uma convulsão social de consequências imprevisíveis. É o sentido destas minhas reflexões."

      Pensando bem, não seria uma má ideia. Problema é que os radicalismos andam muito descontrolados ultimamenepor aqui.

      Um abraço e feliz Páscoa.

      Excluir
    2. Em tempo!

      Se bem que, quanto a esse papo de golpe de Estado, acho muito difícil as Forças Armadas protagonizarem uma ruptura constitucional como em 1964 ou na queda da monarquia pois como os generais mais expressivos andam dizendo há tempos, o caso brasileiro hoje não tem muito a ver com o contexto de ameaça à soberania nacional. Ou seja, os militares acreditam nas nossas instituições e o máximo que talvez possa ocorrer seria uma legitimação das decisões que o Judiciário venha a tomar contrariando os interesses dos atuais ocupantes do Legislativo e do Executivo.

      A anulação dos votos da chapa Dilma-Temer num momento mais adiante, em que os atuais presidentes da Câmara e do Senado passem a ser réus garantiria um processo eleitoral justo, caso isso ocorra no segundo semestre de 2018. Isto porque ninguém poderia fazer uso da máquina federal. Se ocorrer ainda este ano, teríamos eleições indiretas que, mesmo com a Carmen Lúcia ocupando as funções de presidente da República, seria justamente esse Congresso sem legitimidade moral que iria escolher o novo governante para um mandato tampão.

      Obviamente que a proposta sugerida pelo Boff, com todos os políticos envolvidos confessando seus crimes, porém, com uma renúncia coletiva dos membros do Legislativo e do Executivo,inclusive dos suplentes, permitiria que houvesse no Brasil novas eleições antecipadas e diretas. Só que isso seria a meu ver impossível porque a tendência dos principais envolvidos é de negar até a morte que se beneficiaram com o dinheiro público. Sem esquecermos de que, inexistindo condenação em segunda instância, tais pessoas poderão disputar novo pleito porque ainda anão se tornariam "fichas sujas".

      Entendo que, por outro lado, a sociedade brasileira também é parte dessa corrupção toda uma vez que votamos ou muitas das vezes queremos nos beneficiar com os políticos através de alguma vantagem pessoal. Nem que seja a nomeação para um cargo comissionado na Administração Pública em que, a princípio, por si só, não caracterizaria uma ilicitude. Só que o toma-lá-dá-cá entre eleitores e eleitos prejudica o exercício do mandato de um legislador impedindo-o de exercer a sua função de fiscalizar os atos do Executivo.

      Pode ser que o pomo ainda não esteja maduro para qualquer ruptura, mesmo que favoreça os grupos sociais mais humildes dessa nação. Ainda carecemos de mais fatos a serem conhecidos pela investigação ao mesmo tempo em que preocupa o avanço de reformas políticas polêmicas por um Congresso carente de legitimidade moral para votá-las. Mais políticos precisam se tornar fichas sujas e acho que, no momento oportuno, bastará ao Judiciário em comum acordo derrubar a chapa, acelerar os processos da Lava Jato e possibilitar que tenhamos eleições menos influenciadas pelos abusos de poder, seja político ou econômico.

      Numa legislatura posterior, creio que umas das primeiras coisas a serem feitas seria sim uma reforma política e um sistema parlamentarista a ser depois aprovado em referendo. Pois só assim a insatisfação popular poderá derrubar governos que se tornam insatisfatórios e anteciparmos as eleições, o que traria ao Brasil mais equilíbrio em meio às inevitáveis instabilidades. Ou seja, conseguiremos lidar com as novas crises que certamente virão.

      Vamos acompanhar e esperar o pomo amadurecer mais.

      Excluir
  2. Independentemente da publicação que é linda, como sempre, desejo à administração deste blogue, em nome do meu, e sua administração, uma Páscoa muito feliz, extensiva aos seus visitantes e famílias. Façam amor e não a guerra.
    Sejam sempre muito felizes.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela visita e comentários, Nuno. Feliz Páscoa pra vc também

      Excluir
  3. Enquanto lia seus longos e abalizados comentários, Rodrigo, me veio a mente a declaração de um Chefe para seu subordinado: "Você nunca vai subir na vida!". Sofre muuito quem opina por uma Vida Transparente.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Infelizmente, Levi, até que aquilo que Jesus chamava de Reino de Deus seja plenificado, as pessoas que lutam por transparência e justiça social continuam sofrendo, embora mantendo dentro de si a esperança. Mas fico a indagar se a omissão não tornaria o homem infeliz por estar vivendo de modo vazio na Terra. Sei muito bem que até esse momento de combate à corrupção já traz consigo o fermento da hipocrisia pois nem todos querem mesmo uma renovação do país e usam os idealistas para alcançarem seus objetivos. Um deles foi o impeachment que conduziu ao poder Michel Temer e seu PMDB para ajustar o Brasil ao sabor do mercado sendo que não houve avanços quanto à transparência, mas vários ministros envolvidos com a Lava-Jato estiver e ainda estão lá.

      Excluir