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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Os construtores de tendas


"Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto. Lá, encontrou certo judeu chamado Áqüila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma. Paulo aproximou-se deles. E, posto que eram do mesmo ofício, passou a morar com eles e ali trabalhava, pois a profissão deles era fazer tendas. E todos os sábados discorria na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos." (Atos dos Apóstolos 18.1-4; ARA) - destacou-se


Segundo os textos bíblicos, o apóstolo Paulo (também Saulo de Tarso) é apresentado como sendo um homem alfabetizado e altamente instruído, um habilidoso conhecedor de idiomas, das leis do seu tempo, da literatura, da filosofia, das Escrituras bíblicas e das tradições culturais gregas e judaicas em geral. Nasceu na província romana da Cilícia, região situada atualmente em partes dos territórios da Turquia e da Síria, tendo herdado o título de "cidadão romano", o que lhe dava uma posição privilegiada nas regiões dominadas por Roma, indicando também uma provável origem de boa condição econômica. A ele é atribuída a autoria da maior parte das obras que compõem o cânon do Novo Testamento.

Entretanto, após ter se convertido e tornado um pregador do Evangelho, passando a viajar por inúmeras regiões da parte oriental do Império Romano, Paulo adotou um curioso estilo de vida bem modesto. Tanto as envolventes narrativas de Atos dos Apóstolos como as epístolas por ele escritas mostram a opção do apóstolo por trabalhar igual a qualquer homem do povo, dispensando inúmeras vezes o recebimento de contribuições das comunidades evangelizadas para o sustento próprio. E, na passagem bíblica acima citada, ele é mencionado como um simples artesão, um fazedor de tendas.

Nos últimos dias, tenho refletido sobre o que deveria significar tal atividade naqueles tempos, visto que não era um ofício próprio de pessoas livres e cultas. Pois, numa época quando poucos habitantes sabiam ler e escrever, parece-me evidente que Paulo possuía talento de sobra para conseguir ocupar melhores posições onde quer que fosse. Só que, na esfera econômica, ele parecia se preocupar tão somente em suprir as suas necessidades básicas, contentando-se com o suficiente e tendo disponibilidade de tempo para dedicar-se à causa do Evangelho do Reino de Deus.

Atualmente, não é isto que vejo no nosso país. Pois, além de existirem pastores e falsos apóstolos vivendo luxuosamente através da exploração das contribuições financeiras das pessoas em suas igrejas, temos na nossa nação um repugnante elitismo que apenas valoriza determinadas profissões, dando a elas um destaque social sobre as demais.

No Brasil de hoje, estima-se muito as pessoas pela posição que ela ocupa através dos cargos e dos bens materiais que compõem o seu patrimônio. Ser um médico, um juiz, um promotor de justiça, um ator famoso, um jogador de futebol da primeira divisão do campeonato ou um rico especulador da BOVESPA são exemplos de profissões idolatradas. Porém, pouco se valoriza o pedreiro, o agricultor, o cabeleireiro, a manicure, a cozinheira ou a faxineira. E aqueles que exercem estes ofícios, ainda que estejam ganhando relativamente bem, não se sentem dignos com o que fazem.

Diga-se de passagem que a vergonha por determinados tipos de trabalho sempre foi um sentimento das elites brasileiras que, principalmente nos quatro primeiros séculos, considerava humilhante alguém suar a camisa porque os serviços pesados tratavam-se de tarefas impostas aos negros escravos. Deste modo, as oligarquias rurais canavieiras e cafeeiras passaram a educar seus filhos em universidades do exterior para que os mesmos, ao retornarem da Europa, viessem a exercer cargos públicos de grande relevância com um diploma universitário. E, assim, médicos, engenheiros e advogados, por exemplo, começaram a ser chamados de "doutor" mesmo sem terem cursado o doutorado.

A meu ver, já é tempo de mudarmos esta mentalidade atrasada que, conforme demonstrado no parágrafo anterior, é fruto de séculos de colonialismo ibérico e de exploração do trabalho escravo. Precisamos estimular as profissões de base e mostrar às pessoas as oportunidades de negócios que têm surgido em diversas áreas devido ao recente crescimento econômico da nação, afim de que elas se sintam dignificadas e felizes por obter o suficiente para viver através daquilo que fazem.

De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.” (1Tm 6.6-8; ARA)

Que possamos aprender com o exemplo de Paulo, afim de vivermos contentes, bastando que as nossas necessidades diárias estejam suficientemente satisfeitas.


OBS: A ilustração acima foi extraída de http://www.arquifln.org.br/v01/catequese/encarte_02Novembro.htm