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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O rei que preferiu montar num animal de carga...


Muitos entendem a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém como algo que teria se cumprido mística e involuntariamente para dar validade à citação de uma profecia de Zacarias pelos evangelistas com a finalidade de confirmar o seu messiado.

No entanto, considero superficial não investigar os motivos do acontecimento registrado nos quatro Evangelhos (Mt 21.1-11; Mc 11.1-11; Lc 19.28-38; Jo 12.12-16) pois o fato de Jesus entrar na Cidade Santa transportado por um jumentinho certamente ultrapassa a mera prescrição das Escrituras a respeito do Cristo prometido.

Segundo o Talmude palestino, era comum os peregrinos entrarem em Jerusalém montados num burro antes da Páscoa, o que alimentava negócio dos condutores de jumentos (yBer 13d). Por sua vez, a profecia de Zacarias, datada de uns 400 anos antes de Jesus, faz menção ao uso de uma aparato modesto pelo Messias que significa renúncia aos ornamentos dos reis históricos (comentários da Bíblia de Jerusalém – BJ).

Na sucessão de Davi, enquanto o usurpador Adonias apresentou-se com carros e cavalos afim de tentar se impor como rei perante o povo de Israel (1 Reis 1.5), seu irmão Salomão, o herdeiro escolhido por Deus, montou na mula do pai (verso 38) afim de ser ungido pelo sacerdote Zadoque e pelo profeta Natã ao toque do Shofar. E, com isto, todo o povo seguiu o novo rei (v. 40).


Ora, Adonias, cuja mãe se chamava Hagite, tomou a dianteira e disse: 'Eu serei o rei'. Providenciou uma carruagem e cavalos, além de cinqüenta homens para correrem á sua frente”. (1 Rs 1.5; Viva Versão Internacional – NVI)

Então o sacerdote Zadoque, o profeta Natã, Benaia, filho de Joiada, os queretitas e os peletitas fizeram Salomão montar a mula do rei Davi e o escoltaram até Giom.” (1 Rs 1.38; NVI)


De modo semelhante, a decisão de Jesus em apresentar-se montado sobre um jumentinho foi uma escolha planejada e que tinha por objetivo transmitir sua mensagem para aquela geração, usando uma imagem que já estava no pensamento coletivo do seu povo. Com aquele gesto, Jesus estava colocando-se numa posição de inegável humildade tal como fizera Salomão quanto às pretensões ambiciosas de Adonias.

Ora, da mesma maneira que Adonias precisava demonstrar força para esconder sua ilegitimidade quanto ao trono de Davi, Satanás também busca seduzir os homens através de um falso poder ao passo que o Messias preferiu esconder-se na simplicidade. O uso de um animal de carga contrapõe-se ao transporte por cavalos e carruagens tal como faziam os antigos egípcios, sendo que o 611º preceito da Torah diz que o rei não deve ter muitos cavalos (Deuteronômio 17.16), justamente para que sua confiança estivesse baseada em Deus, conforme muito bem detalha este Salmo:

Nenhum rei se salva pelo tamanho de seu exército; nenhum guerreiro escapa por sua grande força. O cavalo é vã esperança de vitória; apesar de sua grande força, é incapaz de se salvar.” (Salmo 33.16-17; NVI)

Assim, Jesus chegou em jerusalém sem nenhum exército para expulsar o invasor romano, mas sim para ser morto e derramar o seu sangue numa cruz. Ou seja, ele veio lavar suas vestes “no sangue das uvas”, conforme fora previsto muitos séculos antes pelo patriarca Jacó ao profetizar sobre o filho Judá, do qual descendem Davi e o Messias salvador de Israel:

Ele amarrará seu jumento a uma videira e o seu jumentinho ao ramo mais seleto; lavará no vinho as suas roupas, no sangue das uvas, as suas vestimentas.” (Gênesis 49.11; NVI)

Pensando na aplicação prática deste estudo, creio que podemos tirar como lição a importância de anunciar o Evangelho de Cristo com simplicidade, como se estivéssemos também montados sobre um jumentinho.

Vivemos hoje um tempo em que várias denominações cristãs buscam novos adeptos através de recursos que causam falsas impressões de poder nas mentes das pessoas. Enquanto o papa apresenta-se ao público em finos trajes, líderes de igrejas evangélicas também agem da mesma forma e parecem confiantes nos seus mega-templos, no marketing religioso e nas técnicas de comunicação em mídia. Parece até que foi esquecida a recomendação dada por Jesus aos seus discípulos quando os enviou a pregar nas cidades de Israel:

Não levem nem ouro, nem prata, nem cobre em seus contos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu sustento.” (Mateus 10.9; NVI)

Que também possamos montar sobre o nosso jumentinho e voltarmos a pregar a Evangelho com toda a humildade que a Bíblia determina, lembrando-nos do exemplo simples deixado por Jesus.

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