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quarta-feira, 16 de maio de 2012

O machismo cruel contra as vítimas

Ultimamente, o Brasil não tem parado de falar nas fotos proibidas da atriz global Carolina Dieckmann, as quais teriam sido indevidamente divulgadas na internet sem a sua autorização por uma terceira pessoa agindo de má-fé, tendo depois caído nas mãos de hackers.

Um absurdo! Não restam dúvidas.

Entretanto, algo está me preocupando. Tenho visto pessoas criticando a Carolina pela exposição não autorizada de suas fotos secretas como se ela fosse a causa do seu problema e até mesmo uma "vadia". Acompanhando as manifestações de internautas na rede social do Facebook, encontrei algumas frases de impacto que rapidamente espalham-se pelo meio virtual. Umas até usaram o exemplo de como a Polícia atuou rapidamente no caso da atriz carioca para criticar a corrupção e a inoperância dos órgãos oficiais:

"Se você mora num país onde os ladrões de foto da Carolina Dieckmann é mais importante que encontrar quem desvia verba pública, COMPARTILHE ESSA FOTO"

"Polícia encontra hackers que roubaram e postaram as fotos de Carolina Dieckmann pelada... VERGONHA! Todos os anos, aproximadamente 40 mil crianças e adolescentes desaparecem no Brasil. Isto é é equivalente à população de uma cidade vítimas de pedofilia pela internet, etc... Brasil País de todos?"

Vamos colocar pesos justos nas nossas balanças para evitarmos julgamentos errados. Embora tenhamos inúmeros outros casos mais sérios para serem resolvidos no nosso país como a corrupção, os crimes hediondos, a pedofilia e os assassinatos que permanecem até hoje com uma investigação policial inconclusa a ponto de inviabilizar a denúncia dos culpados pelo Ministério Público, jamais podemos nos esquecer que a atriz está agindo dentro do seu direito. Aliás, a intimidade e a privacidade das pessoas são valores tutelados pelo constituinte de 1988 e se encontram lá no artigo 5º da nossa Lei Maior para serem cumpridos. Logo, que mal praticou a Carolina Dieckmann em tirar fotos íntimas numa esfera reservada?

Independente da posição social da Carolina, é preciso lembrarmos dela também como uma pessoa. E, pelo que pude analisar dentre os comentários dos internautas, não vi a mínima coerência quando alguns disseram que ela, na qualidade de mulher, jamais deveria ter feito tais fotos ousadas e as armazenado no seu computador como se a sua conduta tivesse determinado o ocorrido.

Acrescente-se que, se uma mulher tem vários parceiros sexuais, tem seu jeito de se vestir, recusa-se a ser submetida a uma relação sexual contra sua vontade, quer preservar a sua liberdade quando entra num relacionamento com alguém ou não concorda em fazer o serviço doméstico sozinha, bem como resolve procurar a imprensa e os órgãos institucionais quando seus direitos forem violados, são coisas que, concordando ou não, todos precisamos respeitar (praticamente a única bandeira do movimento feminista que eu me oponho diz respeito ao aborto).

Lamentável, mas esta ainda é a mentalidade de grande parte do povo brasileiro e até mesmo de vários ilustres operadores do Direito como advogados, delegados de polícia e até mesmo magistrados. Não faz muito tempo, um policial do Rio de Janeiro, ao ser convidado para orientar a comunidade sobre segurança, disse que as mulheres poderiam evitar o estupro se "não se vestissem como vadias".

Tal declaração causou muita indignação entre as lideranças feministas e pessoas esclarecidas da sociedade. E, por este motivo, uma manifestação popular está sendo convocada aqui no Rio, prevista para ocorrer no dia 26/05/2012, às 13 horas, no Posto 4 da Praia de Copacabana. Trata-se da Marcha das Vadias.

Nos estudos de vitimologia, busca-se, por exemplo, diagnosticar até que ponto o comportamento da vítima teria contribuído para a ocorrência de um delito. Mas data venia, não existe o mínimo respaldo para alguém afirmar que uma mulher vestindo trajes de "piriguete" facilitou o estupro! A atitude da vítima, neste caso, é bem diferente das situações em que, por exemplo, acontece um assassinato decorrente de briga em que um ofendeu a mãe do outro (mesmo assim não justificaria a morte). Logo, as mulheres não podem passar a viver sem liberdade de se vestir por causa da existência de estupradores e nem justifica haver um abrandamento da pena do autor do fato com base na falta de indumentária da vítima.

Repito que é preciso desconstruir a mentalidade absurda de que a mulher vítima de estupro teria dado causa ao fato criminoso. Isto é um atraso! Uma visão repressora e pilantra das nossas autoridades. E, por isso, mesmo que não venha a estar presente no protesto das feministas do dia 26 (pode ser que eu esteja ainda regressando de uma viagem), o meu coração já está apoiando a causa.


OBS: As ilustrações acima foram extraídas do álbum de fotos da usuária do Facebook Luciana Monsores, professora da rede pública estadual e ativista dos direitos femininos, em http://www.facebook.com/media/set/?set=a.3969778526131.170181.1330508183&type=3

domingo, 3 de abril de 2011

A diabólica "teologia" do deputado Marco Feliciano


Recentemente, o deputado e pastor Marco Antônio Feliciano (PSC-SP) envolveu-se numa polêmica que mostrou de vez ao público esclarecido quem ele realmente é. Depois que o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) ofendeu a Preta Gil numa entrevista, na qual mostrou inequivocamente os seus sentimentos de racismo e de homofobia, Marco Feliciano disse no Twitter que os africanos seriam "descendentes amaldiçoados de Noé".

Quando tomei conhecimento do que o parlamentar falou, fiquei perplexo em verificar que, em pleno século XXI ainda existem pessoas que propagam algo tão absurdo, preconceituoso e desconexo com as Escrituras. Ainda mais tratando-se de um pastor, eleito deputado federal com cerca de 211 mil votos e que comanda um instituto teológico.

O que disse o deputado Marco Feliciano não significou nada novo debaixo do sol, pois trata-se de uma visão teológica bem ultrapassada e que parecia ter caído em desuso há muito tempo. No entanto, foram mesmo os cristãos quem inventaram tal perversão. Sabe-se que a Igreja dos séculos XV a XIX, subserviente aos interesses colonialistas das nações europeias, foi capaz de abrigar umas das mais satânicas "teologias" - a de que os negros seriam descendentes de Cam e que, por causa da maldição de Noé (Gn 9.25-27), eles deveriam ser escravos nas colônias europeias.

De acordo com o texto bíblico, eis que Noé, após o Dilúvio, teria cultivado uvas e, após embriagar-se com o vinho, ficou despido em sua tenda. Então, seu filho Cam, ao saber da nudez do pai, resolveu noticiar o fato a seus dois outros irmãos, Sem e Jafé. Estes, cobrindo seus rostos com uma capa afim de não verem a nudez do pai, vestiram-no andando de costas. Ao despertar-se do estado de embriaguez, Noé amaldiçoou a Canaã, filho de Cam, abençoando a Sem e a Jafé. Canaã seria escravo de Sem:

"Maldito seja Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos E ajuntou: Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem; e Canaã lhe seja servo. Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem; e Canaã lhe seja servo."

Tal profecia, dita pelo ancestral comum de todos os povos que sobreviveram ao Dilúvio, foi o primeiro anúncio de que a posse da terra dos cananeus viria a pertencer aos hebreus, os quais eram descendentes de Sem. E, como se pode observar pela narrativa da Torah, foram os israelitas quem conquistaram a terra prometida a Abraão, o que confirmou a predição de Noé.

Entretanto, conforme Marco Feliciano respondeu à Revista Veja em sua infeliz entrevista, a maldição parece ser aplicada aos negros e ao continente africano, ignorando o sentido profético das palavras bíblicas sobre a herança dos israelitas:


"De Cão, veio (sic) Canaan e outros filhos que povoaram a Etiópia, ou o continente africano. Por isso sobre a África sempre repousam fome, tristeza e guerra de etnias. Alguns facínoras foram levantados lá, como Idi Amim, Jonas Savimbi, além do vírus Ebola, da Aids. O peso da maldição permanece (...) Mas nós também recebemos o gene africano. Por isso, alguns lugares do Brasil são muito pesados. Todas as cidades, especialmente as de beira-mar, que tiveram entrada de escravos." (extraído de http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/deputado-maldicao-africana-tambem-chegou-ao-brasil) - o destaque é meu


Ora, verdade seja dita que não existe maldição nenhuma sobre a África, exceto o repugnante preconceito racial que o mundo europeu e cristão articulou contra aquele continente afim de justificar a exploração de seus povos. Logo, toda esta teologia de botequim trata-se de um preconceito que até nos dias de hoje é alimentado pelos ignorantes e pilantras. Algo que deve receber total repúdio da nação brasileira e de suas instituições, inclusive das igrejas.

Sinceramente, acho que a nação brasileira não pode passar a mão na cabeça desses dois deputados que, lamentavelmente, foram eleitos. As palavras de Marco Feliciano e de Jair Bonsonaro foram altamente preconceituosas e incompatíveis com o Estado Democrático de Direito em que vivemos. Ao dizer que, "nós também recebemos o gene africano", Marco Feliciano fez uma explícia referência ao negros como sendo portadores de uma maldição, o que teve clara conotação depreciativa de racismo e, portanto, enseja a perda do seu mandato bem como a instauração de processo criminal.

Meu desejo é que os crentes evangélicos acordem o quanto é tempo e vejam quem são os lobos que andam se aproveitando da ingenuidade alheia. E isto vale não só para os evangélicos como para todo o povo brasileiro.


OBS: A imagem acima foi extraída do site do próprio Deputado Marco Feliciano em http://www.marcofeliciano.com.br/site/?page=materia&MA_ID_MOD=1168