Até pouco tempo atrás, muitos ainda questionavam se o Brasil seria realmente afetado pelas alterações climáticas. Hoje, diante do reconhecimento científico de que uma área antes considerada semiárida já atende aos critérios de aridez — resultado de décadas de aquecimento, queda de chuvas e desequilíbrio dos ciclos hidrológicos — a pergunta que deve guiar nossas ações em 2026 é outra: seremos capazes de responder com urgência e com a seriedade que a situação exige?
A urgência de transformar conhecimento em políticas públicas
O Brasil é um dos países mais ricos em biodiversidade e recursos hídricos do mundo — possui a maior floresta tropical do planeta, onde se originam grandes sistemas de água doce que alimentam o clima da América do Sul. No entanto, também é um dos países onde os impactos das mudanças climáticas já se manifestam com intensidade: secas prolongadas, ondas de calor extremas, aumento de queimadas e eventos climáticos extremos têm se intensificado nos últimos anos.
O reconhecimento de uma zona árida dentro do próprio território não é apenas um dado técnico — é um chamado à ação imediata. Significa que a mudança climática não está no futuro distante; ela já está aqui, afetando a vida de comunidades, agricultores familiares, povos tradicionais, territórios quilombolas e milhões de brasileiros que dependem de recursos naturais.
Da COP30 à implementação de ações concretas
A realização da COP30 em Belém, no coração da Amazônia, foi uma oportunidade histórica para colocar o Brasil no epicentro do debate climático global. Lá, temas como adaptação urbana, saúde frente às mudanças climáticas e financiamento climático foram tratados com maior profundidade, como mostram as iniciativas de planos de ação que visam fortalecer a resiliência do setor de saúde e das cidades brasileiras.
No entanto, a COP30 também expôs lacunas, desafios políticos e contradições entre discursos e ações concretas. Enquanto o país apresentou planos ambiciosos de adaptação e financiamento climático, ainda enfrenta pressões internas contrárias à proteção efetiva dos biomas e políticas de conservação ambiental. Esse paradoxo — sediar uma conferência sobre clima enquanto vive impactos reais e pressões políticas divergentes — evidencia que o Brasil precisa de mais do que discursos: precisa de políticas públicas ousadas e integradas.
Por que 2026 deve ser o ano da virada?
2026 precisa ser o ano em que o Brasil deixe para trás a negação e as meias-medidas, e adote de forma sistemática políticas públicas que enfrentem três desafios centrais:
1. Mitigação e redução de emissões
O país precisa acelerar a redução das emissões de gases de efeito estufa, integrando setor energético, transporte, agricultura e indústria num plano de transição energética com metas claras e prazos definidos.
2. Adaptação climática integrada
É essencial transformar conhecimento científico em políticas locais e regionais — fortalecendo sistemas de alerta, proteção hídrica, saneamento, agricultura sustentável, manejo de florestas e proteção dos povos tradicionais afetados pela crise.
3. Justiça climática e inclusão social
Os impactos climáticos não são neutros: atingem com mais força populações vulneráveis, comunidades rurais, povos indígenas e quilombolas. As políticas precisam ser justas, equitativas e participativas para que ninguém fique para trás.
O Brasil já possui expertise científica e institucional — como mostrado pela Fiocruz, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Cemaden, Embrapa e outras entidades que produzem conhecimento de ponta que pode orientar políticas públicas eficazes.
A chamada para um pacto nacional
Encarar a crise climática com seriedade significa mobilizar governos, sociedade civil, setor privado e academia em um pacto nacional pelo clima, com metas claras, mecanismos de financiamento sustentável, participação cidadã e transparência. A mudança climática é um desafio que não respeita fronteiras geográficas ou políticos partidários — seus efeitos repercutem no campo, nas cidades, nos sistemas de saúde e na economia.
O reconhecimento da primeira zona árida no Brasil é um marco: não apenas geográfico, mas político e civilizatório. É um sinal de que não há mais tempo a perder. Transformar esse conhecimento em políticas públicas eficazes e integradas em 2026 não é apenas uma escolha — é uma necessidade urgente para garantir um futuro seguro, resiliente e próspero para todas as brasileiras e todos os brasileiros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário