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sábado, 28 de fevereiro de 2026

40 anos do Plano Cruzado: o choque heterodoxo que marcou uma geração — e o caminho até o Plano Real



Em 28 de fevereiro de 1986, o Brasil acordava sob uma nova moeda e sob a promessa de que a inflação finalmente seria vencida. Naquela data, uma sexta-feira, através do Decreto-Lei nº 2.283, de 27 de fevereiro de 1986, o governo do presidente José Sarney  lançava o Plano Cruzado — uma das mais ousadas e simbólicas tentativas de estabilização econômica da história brasileira. 

Quarenta anos depois, o episódio continua a suscitar reflexão: foi um erro? Foi inevitável? Foi um laboratório necessário para que o Brasil aprendesse como enfrentar a hiperinflação? Talvez tenha sido tudo isso ao mesmo tempo.


📉 O contexto: inflação crônica e a “década perdida”

A década de 1980 ficou conhecida como a “década perdida” na América Latina. No Brasil, a inflação havia se tornado estrutural. Preços eram remarcados diariamente. Salários perdiam valor em semanas. A indexação automática — mecanismo criado para proteger contratos da corrosão inflacionária — havia se transformado no próprio combustível da inflação.

O país vivia a transição democrática. A chamada Nova República ainda buscava estabilidade institucional. A crise econômica, portanto, tinha também dimensão política e social.


💰 As principais medidas do Plano Cruzado

O Plano Cruzado foi um “choque heterodoxo”, isto é, uma tentativa de romper abruptamente a dinâmica inflacionária por meio de medidas administrativas e institucionais. 

Entre suas principais medidas:


1️⃣ Nova moeda:

O cruzeiro foi substituído pelo cruzado (1 cruzado = 1.000 cruzeiros). A mudança pretendia simbolizar uma ruptura com o passado inflacionário.


2️⃣ Congelamento geral de preços:

Todos os preços foram congelados nos níveis de 27 de fevereiro de 1986. A lógica era simples: interromper a espiral de reajustes automáticos.


3️⃣ Congelamento de salários e “gatilho salarial”:

Salários também foram congelados, com previsão de reajuste automático caso a inflação acumulasse 20%.


4️⃣ Tentativa de desindexação:

Buscou-se eliminar mecanismos formais de correção monetária que alimentavam a inflação inercial.


📈 O sucesso inicial — e a euforia popular

Nos primeiros meses, a inflação despencou. A população sentiu alívio imediato. Surgiram os chamados “fiscais do Sarney”: consumidores que denunciavam estabelecimentos que descumprissem o congelamento.

A popularidade do governo cresceu significativamente. Nas eleições de 1986, o PMDB surfou na euforia: elegeu 22 de 23 governadores, maioria absoluta na Câmara (487/559 deputados) e Senado — a última vez que um partido governou sem coalizões.

Parecia até que o Brasil havia vencido a inflação.


⚠️ O desgaste: escassez, ágio e distorções



Entretanto, a estabilização não se sustentou.

O congelamento gerou distorções nos chamados “preços relativos”. Alguns produtos ficaram artificialmente baratos; outros, inviáveis para produção. Como os custos continuavam a se mover — especialmente diante do desequilíbrio fiscal persistente — muitas empresas reduziram a oferta.

Começaram a surgir:


  • Desabastecimento;
  • Vendas com ágio (“por fora”);
  • Queda na confiança do mercado.


Sem ajuste estrutural das contas públicas, o congelamento tornou-se insustentável.

Em novembro de 1986 veio o Cruzado II, com reajustes e aumentos tributários. A inflação retornou. Em seguida, vieram o Plano Bresser (1987) e o Plano Verão (1989), ambos igualmente incapazes de produzir estabilidade duradoura.

O fim da década culminaria em hiperinflação aberta.


🧠 O aprendizado institucional

O Plano Cruzado fracassou em seus objetivos permanentes, mas deixou lições fundamentais:


  • O congelamento de preços, isoladamente, não substitui ajuste fiscal;
  • A credibilidade institucional é determinante;
  • Expectativas econômicas não podem ser controladas apenas por decreto;
  • A indexação precisava ser desarmada de forma tecnicamente sofisticada.


Esses aprendizados não foram perdidos.


💵 O desfecho histórico: o Plano Real

O verdadeiro ponto de inflexão viria apenas em 1994, com o Plano Real, durante o governo Itamar Franco, quando Fernando Henrique Cardoso esteve à frente da economia.

Diferentemente dos planos anteriores, o Real:


  • Atacou simultaneamente o déficit fiscal;
  • Criou uma unidade de conta estável (a URV) antes da nova moeda;
  • Desindexou contratos de maneira gradual;
  • Construiu credibilidade política e técnica;
  • Aproveitou ambiente internacional mais favorável.


O resultado foi histórico: a hiperinflação foi eliminada de forma duradoura.


📜 Quatro décadas depois

Quarenta anos após o Plano Cruzado, o episódio permanece como símbolo de uma geração que viveu o drama da inflação diária — mas também como etapa necessária de aprendizado institucional.

O Cruzado não foi apenas um fracasso. Foi um laboratório histórico. Mostrou os limites das soluções administrativas e abriu caminho para uma estabilização mais madura.

O Plano Real não surgiu do nada. Ele nasceu das tentativas anteriores, dos erros acumulados, da experiência institucional adquirida.

Recordar o Plano Cruzado é, portanto, recordar um momento de esperança coletiva — e também compreender como a estabilidade monetária, hoje muitas vezes naturalizada, foi duramente conquistada.


📊 Nota histórica: os números que marcaram uma geração

Alguns números ajudam a dimensionar a magnitude do que estava em jogo.

Em janeiro de 1986, pouco antes do lançamento do Plano Cruzado, a inflação mensal girava em torno de 16% ao mês. Após o congelamento de preços e a introdução do cruzado, o índice despencou para aproximadamente 0,6% ao mês em abril de 1986 — uma queda abrupta que alimentou a sensação de vitória definitiva sobre a inflação.

Mas a euforia foi passageira.

Sem o ajuste estrutural necessário, a inflação retornou com força crescente. Em 1989, o país enfrentaria taxas mensais que chegaram próximas de 80% ao mês em determinados momentos — o que, na prática, significava preços dobrando em poucas semanas.

A comparação revela a dimensão do desafio: o Brasil experimentou, em poucos anos, tanto o alívio quase instantâneo de uma estabilização quanto o trauma da hiperinflação aberta.

Esses números não são apenas estatísticas econômicas. São o retrato de uma época em que o salário precisava ser gasto no dia do pagamento, em que etiquetas eram remarcadas diariamente e em que a estabilidade monetária parecia um objetivo quase inalcançável — até que, em 1994, o Plano Real finalmente a tornasse duradoura.

A estabilidade não foi um acidente da história — foi fruto de aprendizado acumulado.

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