Em 17 de fevereiro de 1600, em Roma, foi executado o filósofo italiano Giordano Bruno. Passados 426 anos, sua morte permanece como um dos episódios mais emblemáticos da tensão histórica entre autoridade institucional e liberdade de pensamento.
Bruno viveu em um período de intensas transformações intelectuais. O Renascimento havia reaberto as portas do mundo clássico, a Reforma protestante fragmentava a unidade religiosa da Europa e a nova astronomia começava a deslocar a Terra do centro do cosmos. Nesse cenário de mudanças, ele foi além.
Inspirado por Nicolau Copérnico, Bruno não apenas aceitou o heliocentrismo — radicalizou-o. Sustentou que o universo era infinito, que não possuía centro absoluto e que as estrelas seriam outros sóis cercados por mundos. Sua cosmologia rompia com a estrutura hierárquica tradicional que colocava a Terra — e o ser humano — em posição privilegiada.
Contudo, reduzir Bruno a um “precursor da ciência moderna” seria simplificação. Seu pensamento combinava metafísica, hermetismo, neoplatonismo e especulação cosmológica. Ele defendia uma concepção de divindade imanente à natureza, visão que muitos intérpretes aproximam do panteísmo — classificação que permanece objeto de debate acadêmico.
O processo que levou à sua condenação não se limitou à questão astronômica. Envolveu divergências teológicas, críticas a dogmas e formulações consideradas heterodoxas. Suas teses heréticas incluíam negações dogmáticas como a transubstanciação e a divindade de Cristo. Após anos de julgamento, foi declarado herege e executado no Campo de’ Fiori.
A posteridade transformou Bruno em símbolo. Para alguns, mártir da liberdade intelectual; para outros, figura complexa cuja obra não cabe em rótulos simplificadores. Seja como for, sua trajetória revela algo permanente: ideias podem ser combatidas, silenciadas ou condenadas — mas raramente desaparecem.
Quatro séculos depois, sua memória convida à reflexão. A liberdade de pensamento não é um dado natural da história; é uma conquista continuamente tensionada. Recordar Giordano Bruno é recordar o custo que, em diferentes épocas, se pagou por ousar pensar além dos limites impostos.
OBS: Imagem do retrato moderno de Giordano Bruno, baseado em uma xilogravura do "Livre du recteur", de 1578, conforme divulgado na Wikipédia.

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