Há exatos 254 anos, em 18 de fevereiro de 1772, era fundada no então vice-reino do Brasil a Academia Científica do Rio de Janeiro — uma iniciativa que, embora de vida breve, ocupa lugar simbólico na história intelectual brasileira. Em pleno período colonial, quando o Rio de Janeiro consolidava sua posição como centro administrativo do Estado do Brasil, surgia ali uma experiência institucional voltada à produção e circulação do saber científico.
A criação da Academia insere-se no contexto do chamado reformismo ilustrado português, associado à ação política do Marquês de Pombal durante o reinado de Dom José I. O ano de 1772, aliás, foi também o da grande reforma da Universidade de Coimbra, que introduziu ensino experimental de física, química, história natural e medicina sob bases modernas. A ciência deixava de ser apenas especulativa para tornar-se instrumento de fortalecimento do Estado, da economia e da administração imperial.
É nesse cenário que ganha relevo a figura de Luís de Almeida Portugal, o 2.º Marquês do Lavradio. Vice-rei do Brasil entre 1769 e 1779, ele foi o segundo a governar a partir do Rio de Janeiro após a transferência da capital colonial de Salvador para a cidade, ocorrida em 1763. Sua gestão marcou a consolidação do Rio como centro político, militar e estratégico do Império português na América.
Lavradio não foi apenas administrador; foi também homem alinhado às ideias ilustradas de seu tempo. Sob sua liderança, o vice-reinado buscou modernizar estruturas, fortalecer defesas e incentivar iniciativas que ampliassem o conhecimento sobre o território e seus recursos. A fundação da Academia Científica do Rio de Janeiro deve ser compreendida nesse horizonte: não como simples reunião de eruditos, mas como expressão de um projeto de racionalização do espaço colonial.
A Academia reunia médicos, cirurgiões, boticários e letrados interessados em história natural, medicina, química, agricultura e observação do meio físico. O objetivo era eminentemente prático: estudar plantas medicinais locais, aprimorar técnicas agrícolas, compreender doenças tropicais, investigar recursos naturais. Tratava-se de ciência voltada à utilidade pública e ao fortalecimento econômico do império.
Embora tenha sido extinta em 1779, poucos anos após sua criação, a experiência não foi irrelevante. Ela revela que o Brasil colonial não estava completamente à margem dos movimentos intelectuais do século XVIII. Ao contrário, havia esforços — ainda que limitados — de institucionalizar a produção científica na América portuguesa.
Recordar, portanto, os 254 anos da fundação da Academia Científica do Rio de Janeiro é também reconhecer o papel decisivo do Marquês do Lavradio na afirmação do Rio como centro político e intelectual do vice-reinado. Sob sua administração, a cidade não foi apenas sede do governo colonial, mas palco de uma das primeiras tentativas de organização formal da ciência em território brasileiro.
Em meio às tensões e limites do Antigo Regime, aquela iniciativa de 18 de fevereiro de 1772 permanece como marco da presença do Iluminismo no Brasil e como sinal de que, já no período colonial, havia projetos de conhecimento, modernização e reflexão científica em solo carioca.
Nota explicativa sobre a ilustração
A imagem que acompanha este artigo corresponde a uma aquarela atribuída ao artista britânico Richard Bate, produzida nas primeiras décadas do século XIX (c. 1808–1822). A cena retrata o antigo Largo do Paço — atual Praça XV de Novembro — visto a partir da Baía de Guanabara, quando o local constituía o principal núcleo político e administrativo do Rio de Janeiro.
À esquerda, destaca-se o edifício hoje conhecido como Paço Imperial. Construído no século XVIII como Casa dos Governadores, tornou-se residência oficial dos vice-reis após a transferência da capital do Estado do Brasil para o Rio de Janeiro, em 1763. Durante o governo de Luís de Almeida Portugal (1769–1779), o prédio consolidou-se como centro decisório do vice-reinado. Com a chegada da Corte portuguesa em 1808, passou a sediar o Paço Real e, posteriormente, o Paço Imperial, mantendo sua centralidade nos principais acontecimentos políticos do país ao longo do século XIX.
À direita do Paço observam-se o Convento do Carmo do Rio de Janeiro e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, complexos religiosos que integravam o conjunto arquitetônico do Largo e que, no período joanino, também assumiram funções ligadas à residência da família real. Em primeiro plano, a muralha de pedra, as escadas do cais e o intenso movimento de embarcações evidenciam o caráter portuário do espaço, anterior aos sucessivos aterros que modificaram a orla carioca nos séculos seguintes.
Embora a aquarela seja posterior à fundação da Academia Científica do Rio de Janeiro (1772–1779), o cenário representado corresponde ao ambiente institucional em que floresceu essa iniciativa. Foi nesse núcleo administrativo que, sob o impulso ilustrado do vice-reinado, se organizaram esforços voltados à sistematização do conhecimento científico no Brasil colonial, particularmente nas áreas de história natural, medicina e economia agrícola.
Assim, a ilustração não constitui registro direto das atividades acadêmicas setecentistas, mas oferece representação visual do espaço simbólico e político onde se articulavam poder, administração e saber na capital do vice-reino, contribuindo para contextualizar historicamente a experiência científica iniciada em 18 de fevereiro de 1772.

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