Devido à provável saída de Cláudio Castro que pretende candidatar-se a uma das vagas em disputa no Senado e o fato do vice-governador Thiago Pampolha Gonçalves ter sido nomeado conselheiro do TCE, o Estado do Rio de Janeiro poderá ser governado, até 31 de dezembro de 2026, por um governador eleito indiretamente pelo Parlamento estadual. Isso significa que o cidadão não escolherá diretamente o Chefe do Executivo nesse período excepcional. Ainda assim, será ele — o cidadão — o destinatário de todas as decisões tomadas.
É justamente por isso que o debate não pode ficar restrito aos bastidores políticos.
O cidadão não vota, mas paga a conta
Independentemente de preferências partidárias, a grande maioria da população fluminense quer continuar vivendo com segurança e dignidade. Isso envolve questões muito concretas:
- funcionamento do ensino médio estadual;
- atendimento nas unidades de saúde sob responsabilidade do Estado;
- segurança pública;
- conservação de rodovias estaduais;
- regulação do metrô, trens, barcas e ônibus intermunicipais;
- abastecimento de água;
- políticas culturais e ambientais;
- atendimento nos órgãos públicos;
- estabilidade tributária.
Nenhum desses temas pode esperar o calendário eleitoral.
Quando um governador é escolhido de forma indireta, surge um déficit democrático inevitável: o povo não escolheu diretamente quem irá governá-lo. A Constituição permite esse modelo em situações excepcionais, mas isso impõe um dever maior de responsabilidade ao Parlamento.
O papel da Assembleia
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro deixa de ser apenas um colégio eleitoral circunstancial. Ela se torna a fiadora política e moral da escolha.
Ao eleger um governador tampão, a Alerj assume corresponsabilidade por tudo o que ocorrer até o fim do mandato.
Por isso, a decisão não pode ser orientada apenas por cálculos eleitorais visando o pleito geral de outubro, alianças de ocasião ou conveniências partidárias. A explicação ao cidadão precisa ser clara:
- O escolhido terá compromisso com a estabilidade?
- Não utilizará o cargo como trampolim eleitoral?
- Garantirá continuidade administrativa?
- Respeitará servidores e contratos?
- Manterá diálogo institucional com Judiciário, Ministério Público e demais Poderes?
Se a resposta for positiva, a escolha pode ser compreendida como medida de proteção ao interesse público.
O servidor público no centro da estabilidade
Há também outro personagem essencial nesse processo: o servidor estadual.
Professores, policiais, profissionais da saúde, técnicos administrativos e tantos outros sustentam o funcionamento cotidiano do Estado. Eles precisam de:
- pagamento rigorosamente em dia;
- férias e 13º garantidos;
- respeito às carreiras;
- equilíbrio da Rioprevidência;
- previsibilidade nas regras.
Um governo tampão não pode experimentar. Ele precisa assegurar continuidade.
Qualquer sinal de improviso ou conflito institucional gera insegurança não apenas para o servidor, mas para toda a população.
Um ano eleitoral não pode ser um ano perdido
2026 será ano de eleição geral. A tentação de usar a máquina pública como instrumento de posicionamento político é real. Justamente por isso, o governador tampão deve ter perfil de transição, não de protagonismo eleitoral.
O cidadão comum não deseja um governo em disputa permanente. Ele deseja:
- menos ruído e mais solução;
- menos conflito e mais previsibilidade;
- menos campanha e mais gestão.
A eleição indireta só será legitimada se o período for administrado com responsabilidade, transparência e limites claros.
Como explicar essa escolha ao eleitor?
A narrativa honesta é simples. O Parlamento, eleito pelo povo, escolheu um governador de transição para garantir estabilidade administrativa até que o próprio povo volte a decidir pelo voto direto em outubro de 2026 quem irá administrar o estado no período 2027-2030.
Se essa lógica for respeitada — e se o governador agir com moderação e responsabilidade — o cidadão poderá compreender a excepcionalidade. Caso contrário, a leitura será dura: decisões tomadas entre políticos, com impactos suportados pela população.
A responsabilidade é coletiva
Independentemente do nome escolhido, a responsabilidade será compartilhada por todos os deputados que votarem.
O cidadão fluminense não está interessado nas disputas internas do poder. Ele quer que:
- a escola funcione,
- o hospital atenda,
- a polícia esteja nas ruas,
- o transporte circule,
- o salário seja pago,
- o Estado não pare.
Se a eleição indireta servir para preservar essa normalidade, ela cumprirá sua função constitucional.
Porém, se servir apenas como etapa estratégica para outubro, terá falhado diante da sociedade.
No fim das contas, a política pode até ser indireta. Mas as consequências são sempre diretas — e recaem sobre cada fluminense.
📷: Thiago Lontra/ALERJ

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