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terça-feira, 10 de março de 2026

Evangélicos, política e eleições de 2026: entre identidade religiosa e disputa eleitoral



Nas últimas décadas, a presença evangélica na política brasileira deixou de ser um fenômeno marginal para se tornar um dos elementos centrais da dinâmica eleitoral do país. Esse processo, porém, não surgiu de forma repentina. Ele é resultado de uma transformação histórica que envolve crescimento demográfico, mudanças culturais dentro do próprio campo religioso e a progressiva politização de temas morais.

Durante os anos 1980 e parte da década de 1990, a participação evangélica na política tinha um caráter sobretudo defensivo e corporativo. O Brasil ainda era amplamente dominado pelo catolicismo, e lideranças evangélicas buscavam garantir espaço institucional e proteção para suas atividades. A criação da chamada bancada evangélica na Assembleia Constituinte refletiu esse contexto. Naquele momento, as preocupações estavam muito ligadas à liberdade religiosa, à proteção das igrejas e à consolidação de meios de comunicação próprios, como concessões de rádio e televisão.

Esse quadro começou a se modificar gradualmente ao longo dos anos 2000 e se consolidou na década de 2010. O crescimento numérico dos evangélicos ampliou seu peso político, enquanto a agenda pública passou a ser marcada por debates morais cada vez mais polarizados. Temas como aborto, sexualidade, educação moral, drogas e modelos de família passaram a ocupar o centro do debate político em setores do evangelicalismo.

Assim, a atuação parlamentar evangélica deixou de ser predominantemente defensiva e passou a assumir uma postura mais propositiva — ou, segundo críticos, intervencionista — na definição de normas morais para toda a sociedade. Essa mudança também acompanhou um processo mais amplo de mobilização religiosa conservadora que ocorreu em diversos países.

Hoje, a presença evangélica na política brasileira não pode mais ser compreendida apenas como defesa de interesses institucionais das igrejas. Ela envolve uma tentativa de influência mais ampla sobre a agenda pública, a legislação e os valores culturais do país.

Ao mesmo tempo, o campo evangélico está longe de ser homogêneo. Existem correntes diversas dentro desse universo religioso. Igrejas pentecostais e neopentecostais representam o setor mais numeroso e socialmente capilarizado, mas há também protestantes históricos, movimentos evangélicos críticos e intelectuais cristãos que questionam a politização religiosa ou defendem abordagens teológicas e sociais diferentes.

Esses grupos, contudo, tendem a ser minoritários e têm menor capacidade de mobilização popular. Uma das razões é que o pentecostalismo oferece respostas emocionais e comunitárias mais imediatas a necessidades concretas da vida cotidiana, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Igrejas pentecostais frequentemente funcionam como redes de apoio, espaços de pertencimento e estruturas de organização comunitária nas periferias urbanas. Já correntes teológicas mais reflexivas ou críticas costumam oferecer respostas mais mediadas e intelectuais, que nem sempre têm o mesmo alcance popular.

Esse fator ajuda a explicar por que, na arena política, o discurso religioso que mais circula tende a ser também o mais simples e polarizado.

Dentro desse ambiente, consolidou-se uma percepção bastante difundida em parte do eleitorado evangélico de que setores da esquerda seriam hostis à religião ou contrários à família. Essa percepção não é uniforme, mas tornou-se politicamente poderosa porque é reforçada por redes de liderança pastoral, mídias religiosas e circulação intensa de conteúdos nas redes sociais.

Nesse contexto, as tentativas recentes de aproximação de governos de centro-esquerda com eleitores evangélicos tiveram resultados limitados. Houve pequenos avanços pontuais na percepção pública em alguns momentos, mas não ocorreu uma reversão estrutural do distanciamento político entre esses governos e boa parte desse segmento religioso.

Em termos eleitorais, isso significa que o eleitorado evangélico permanece como um dos grupos mais disputados e potencialmente decisivos nas eleições nacionais.

Entretanto, seria um equívoco interpretar o voto evangélico apenas como expressão de identidade religiosa ou alinhamento moral. Experiências recentes mostram que pautas econômicas também exercem influência significativa nesse segmento. Programas de transferência de renda, políticas de valorização do salário mínimo e iniciativas voltadas para populações de baixa renda continuam sendo fatores importantes na formação de preferências eleitorais, especialmente nas periferias urbanas.

Em muitos casos, portanto, o eleitor evangélico pode compartilhar valores morais com determinado campo político, mas avaliar sua escolha eleitoral a partir de condições econômicas concretas. Essa combinação de identidade religiosa e pragmatismo socioeconômico ajuda a explicar por que o comportamento eleitoral desse grupo nem sempre segue uma lógica ideológica rígida.

O cenário político que se desenha para as eleições de 2026 reflete essa complexidade. Diversos atores políticos buscam consolidar ou ampliar seu diálogo com o eleitorado evangélico. Governadores e lideranças nacionais que despontam como possíveis candidatos presidenciais têm intensificado aproximações com pastores, igrejas e redes religiosas, sinalizando que a disputa por esse segmento continuará sendo um elemento central da campanha.

Ao mesmo tempo, surgem fissuras internas dentro do próprio campo evangélico. Lideranças religiosas com grande visibilidade pública nem sempre concordam sobre estratégias políticas ou sobre o grau de alinhamento entre igreja e poder estatal. Há pastores que defendem maior engajamento político direto, enquanto outros alertam para riscos de instrumentalização da fé.

Essas divergências mostram que o campo evangélico, embora numericamente expressivo, não constitui um bloco político monolítico.

Outro aspecto relevante é que a influência evangélica na política brasileira não se manifesta apenas nas eleições nacionais. Em muitos casos, seus efeitos aparecem de forma ainda mais clara na política local e regional.

No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, alianças entre lideranças religiosas e políticos locais têm desempenhado papel importante em disputas municipais. Em cidades da região metropolitana e da Baixada Fluminense, a presença de igrejas em bairros populares frequentemente se traduz em capacidade de mobilização eleitoral.

Nesse nível, a política tende a assumir um caráter mais pragmático. Questões como segurança pública, saneamento, transporte e acesso a serviços urbanos muitas vezes têm mais peso do que debates ideológicos nacionais. A religião, nesse contexto, funciona como elemento de organização comunitária e de mediação entre lideranças locais e eleitores.

Regiões como a Costa Verde fluminense, incluindo municípios próximos à região metropolitana, também refletem essas dinâmicas. Igrejas evangélicas participam ativamente da vida social de bairros e comunidades, o que pode influenciar percepções políticas e alianças eleitorais em disputas municipais e regionais.

Diante desse panorama, as eleições gerais de 2026 podem evoluir segundo diferentes cenários.

Num cenário mais equilibrado, a identidade religiosa continuará relevante, mas dividirá espaço com fatores econômicos e sociais. Questões como emprego, renda, inflação, segurança e avaliação de governo poderão exercer peso semelhante ou superior ao das pautas morais.

Um cenário intermediário envolveria a continuidade da polarização religiosa observada nos últimos anos, combinada com disputas econômicas e sociais. Nesse caso, o eleitorado evangélico permaneceria majoritariamente inclinado a candidatos conservadores, mas sem uma adesão completamente homogênea.

Já um cenário mais tenso poderia surgir caso debates morais e religiosos se tornem novamente o eixo central da campanha. Situações de forte polarização cultural tendem a intensificar discursos identitários e podem ampliar a influência política de lideranças religiosas organizadas.

Independentemente de qual cenário prevalecer, uma tendência parece clara: o fator religioso continuará desempenhando papel relevante na política brasileira.

Isso não significa que todos os evangélicos votem da mesma forma nem que religião determine automaticamente escolhas políticas. O campo evangélico é plural e contém múltiplas correntes teológicas, sociais e políticas.

No entanto, o crescimento demográfico do segmento, aliado à sua capacidade de mobilização comunitária e simbólica, faz com que a religião se torne um elemento cada vez mais presente nas disputas eleitorais.

O desafio para a democracia brasileira, nesse contexto, não é eliminar a presença da religião na política — algo impossível em qualquer sociedade plural —, mas garantir que essa participação ocorra dentro de um debate público que preserve a diversidade, a racionalidade institucional e o respeito às diferenças.

As eleições de 2026 serão mais um teste importante dessa equação.


Nota final

Diversos estudos acadêmicos e levantamentos de opinião indicam que o crescimento demográfico do evangelicalismo é um dos fenômenos religiosos mais significativos da história recente do Brasil. Pesquisas censitárias mostram que a proporção de evangélicos na população brasileira cresceu de forma consistente ao longo das últimas décadas, passando de um segmento relativamente pequeno no início dos anos 1990 para uma parcela muito mais expressiva da população nas primeiras décadas do século XXI.

O sociólogo da religião Ricardo Mariano, um dos principais estudiosos do tema no país, observa que “o pentecostalismo tornou-se o principal motor de expansão do protestantismo brasileiro”, contribuindo para transformar profundamente o panorama religioso nacional.

Pesquisas de opinião pública também indicam que o comportamento eleitoral desse segmento tem adquirido peso crescente. Levantamentos realizados durante a eleição presidencial de 2022 mostraram que uma parcela significativa do eleitorado evangélico manifestou preferência por candidatos identificados com posições conservadoras, refletindo a importância das pautas morais e culturais no debate político recente.

Esses dados ajudam a compreender por que o voto evangélico passou a ocupar lugar central nas estratégias eleitorais e no debate público brasileiro. Ao mesmo tempo, eles reforçam a necessidade de analisar esse fenômeno com cuidado, reconhecendo tanto sua diversidade interna quanto suas implicações para o funcionamento da democracia.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

136 anos da Separação entre Igreja e Estado no Brasil: memória histórica, laicidade e os desafios contemporâneos



No dia 7 de janeiro de 1890, há 136 anos, um dos marcos mais importantes da história institucional brasileira era oficializado: a separação entre a Igreja e o Estado. O Decreto nº 119-A, assinado pelo então Chefe do Governo Provisório da República, Marechal Deodoro da Fonseca, rompeu com séculos de vinculação oficial entre a Igreja Católica e o poder político, determinando a neutralidade estatal diante das religiões e abrindo caminho para a plena liberdade religiosa no país.

Esse episódio não foi apenas uma mudança administrativa. Foi uma transformação profunda na forma de organização da sociedade brasileira, redefinindo direitos civis, a relação do cidadão com o Estado e o próprio conceito de cidadania.


Como era a liberdade religiosa no Império

Para compreender a dimensão desse decreto, é preciso olhar para trás.

Durante o Brasil Império (1822–1889), a Igreja Católica era religião oficial, conforme a Constituição de 1824, que instituiu o chamado regime do padroado — modelo herdado de Portugal, no qual a Igreja recebia privilégios institucionais, mas, em contrapartida, era subordinada ao poder civil.


Religiões permitidas, mas limitadas

A Constituição permitia o culto de outras religiões, porém:


  • apenas em ambiente privado,
  • sem templos com aparência exterior de igrejas,
  • sem símbolos públicos,
  • sem expressão religiosa em espaços coletivos.


Ou seja, existia tolerância, mas não igualdade.


Monopólio católico em funções civis

Até 1890, a Igreja Católica concentrava:


  • registros de nascimento e óbito,
  • casamentos reconhecidos legalmente,
  • controle sobre cemitérios,
  • influência direta sobre a vida civil e moral da população.


Comunidades protestantes, judaicas e espíritas tinham práticas toleradas, mas sem reconhecimento pleno. Já as religiões afro-brasileiras eram frequentemente reprimidas e criminalizadas como “feitiçaria” ou “superstição”.


O Decreto nº 119-A e as reações

Quando o Decreto nº 119-A foi promulgado, ele estabeleceu:


  • a separação formal entre Igreja e Estado,
  • a liberdade plena de culto,
  • o casamento civil,
  • o registro civil independente de religião,
  • e a não interferência estatal nas práticas religiosas.


A Igreja Católica inicialmente reagiu com preocupação e resistência, temendo perda de poder e influência. Com o tempo, entretanto, reconheceu que a autonomia também lhe era vantajosa: deixava de ser instituição subordinada ao governo e passava a atuar com independência pastoral e organização própria.


Consolidação na Constituição de 1891 e importância histórica

A separação foi definitivamente incorporada à estrutura constitucional com a Constituição Republicana de 1891, que consagrou o Estado laico brasileiro. Isso significou:


  • igualdade jurídica entre todas as religiões;
  • fim do privilégio oficial do catolicismo;
  • garantia de liberdade religiosa real, não apenas tolerada.


Esse marco foi decisivo para a construção de uma cidadania moderna, na qual o Estado não determina crenças, não impõe dogmas e não interfere na consciência individual.


A influência católica no período republicano

Embora tenha perdido o status oficial, a Igreja Católica não desapareceu politicamente. Ao contrário:


  • continuou fortíssima culturalmente,
  • manteve enorme presença social,
  • estruturou redes de educação, saúde e assistência,
  • influenciou debates morais.


Na Era Vargas, houve inclusive reaproximação institucional, com retorno do ensino religioso facultativo e reconhecimento de efeitos civis do casamento religioso registrado.

A criação da CNBB em 1952 marcou a articulação política moderna do catolicismo brasileiro. Durante a Ditadura Militar, setores da Igreja tiveram papel central na defesa dos direitos humanos, atuando como voz crítica ao regime.


A perda relativa de hegemonia

Nas últimas décadas, houve clara mudança no cenário religioso:


  • crescimento expressivo do pentecostalismo e neopentecostalismo,
  • maior pluralização de crenças,
  • crescimento dos “sem religião”.

Isso gerou duas consequências: (i) o catolicismo deixou de ser hegemonia absoluta; (ii) a influência religiosa continuou presente — mas redistribuída.


O protestantismo e a defesa histórica da laicidade

É importante lembrar que, no século XIX e início do século XX, os protestantes históricos (presbiterianos, batistas, metodistas, luteranos) foram defensores firmes da separação Igreja–Estado. Isso porque:

  • eram minorias e sofriam restrições no Império;
  • vinham de tradições que valorizavam liberdade de consciência;
  • entendiam que laicidade não era ameaça à fé, mas proteção.

Seu discurso clássico era simples:

“Estado laico garante liberdade religiosa verdadeira.”


Laicidade na Constituição Brasileira

A Constituição de 1988 reafirma:


  • Estado sem religião oficial,
  • igualdade entre crenças,
  • liberdade religiosa plena,
  • proteção também aos não crentes.


O Supremo Tribunal Federal tem reiterado que a expressão “sob a proteção de Deus” no preâmbulo tem valor simbólico, não normativo.


A bancada evangélica enfraquece a laicidade?

Nas últimas décadas, parte relevante do movimento evangélico brasileiro — especialmente o pentecostal e neopentecostal — passou a atuar politicamente de forma muito intensa, consolidando a chamada bancada evangélica.

Ela não propõe criar religião oficial, mas em muitos momentos:


  • tenta converter doutrina religiosa em norma estatal,
  • influencia políticas de educação, direitos civis e cultura,
  • vincula representação parlamentar à identidade religiosa,
  • pressiona por benefícios institucionais.


Exemplos concretos

Entre ações frequentemente citadas por juristas e pesquisadores:


  • projetos contra ensino de gênero e sexualidade com base em argumento religioso;
  • tentativas de interferir em políticas de comunicação e internet sob a justificativa de “proteger fé”;
  • iniciativas legislativas e pressões políticas relacionadas à moral sexual e direitos reprodutivos;
  • uso de eventos públicos com forte identidade religiosa institucionalizada.


Nada disso revoga formalmente a laicidade, mas tensiona sua aplicação prática.


Comparação com outros países latino-americanos


México

Tem uma das laicidades mais rígidas do continente, fruto de conflitos históricos com a Igreja Católica, incluindo a Guerra Cristera. O Estado mantém posição institucional firmemente secular.


Argentina, Colômbia e Uruguai

Vivem fenômeno semelhante ao brasileiro:

  • crescimento evangélico,
  • influência política crescente,
  • porém com constituições laicas mantidas.

O Uruguai é o mais secularizado, embora mesmo ali parlamentares religiosos tenham surgido recentemente.


Conclusão: laicidade permanece, mas é testada

O Brasil continua, constitucionalmente, um Estado laico. Entretanto, na prática, a relação entre política e religião segue sendo campo de disputa.

De um lado, temos:


  • pluralismo religioso é legítimo,
  • participação política é direito de qualquer cidadão,
  • religiões podem opinar no debate público.


De outro:


  • o Estado não pode servir a um credo específico,
  • normas civis devem se basear em princípios republicanos,
  • a liberdade religiosa depende, paradoxalmente, da neutralidade estatal.


Há 136 anos, o Decreto nº 119-A inaugurou esse caminho. A pergunta contemporânea não é se devemos voltar ao passado, mas sim como preservar a laicidade como garantia de liberdade, pluralidade e democracia, em um país cada vez mais diverso religiosamente.


📷: Charge da “Revista Ilustrada” comemorando a separação da Igreja e o Estado no Governo de Deodoro da Fonseca em 1890.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Blindar o púlpito não blinda o racismo



A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou recentemente parecer que altera a Lei nº 7.716/1989, a chamada "Lei do Racismo", introduzindo uma exceção para manifestações realizadas em contextos religiosos. Pelo texto aprovado, sermões, pregações, orientações religiosas e manifestações de crença proferidas em cultos ou cerimônias — inclusive quando transmitidas por meios de comunicação — deixariam de ser alcançadas pela tipificação penal do racismo.

O parecer, de autoria do deputado Pastor Marco Feliciano, foi apresentado no bojo de um projeto que originalmente tratava do aumento de pena para o crime de ultraje a culto. A ampliação temática promovida pelo substitutivo, contudo, deslocou o centro do debate para um ponto muito mais sensível: a tentativa de criar uma zona de exclusão penal justamente em uma das áreas mais protegidas pela Constituição brasileira — o combate ao racismo.

Não se trata aqui de negar a centralidade da liberdade religiosa em um Estado Democrático de Direito. Trata-se de afirmar que essa liberdade, como todas as demais, encontra limites constitucionais claros quando colide com a dignidade da pessoa humana, com a igualdade e com a vedação absoluta à discriminação.

A Constituição de 1988 não foi neutra em relação ao racismo. Ao contrário, conferiu-lhe um estatuto jurídico singular: crime imprescritível e inafiançável, sujeito à pena de reclusão (art. 5º, XLII). Essa qualificação não é retórica. Ela traduz a compreensão de que o racismo não é apenas uma ofensa individual, mas uma violência estrutural que corrói os fundamentos da República.

É precisamente por isso que a iniciativa aprovada na CCJ suscita grave inconstitucionalidade. Ao excluir previamente do alcance da lei penal determinadas manifestações em razão do local, do contexto ou da identidade do emissor, o legislador não está apenas regulamentando a liberdade religiosa — está esvaziando o núcleo de proteção constitucional contra o racismo.

O Supremo Tribunal Federal já enfrentou, em diversas ocasiões, a tensão entre liberdade de expressão, liberdade religiosa e proteção contra discursos de ódio. Nos julgamentos da ADO 26 e do MI 4733, a Corte foi categórica ao afirmar que a liberdade religiosa não se confunde com licença para discriminar, desumanizar ou incitar o preconceito. O que se protege é a crença, não a violência simbólica travestida de doutrina.

Caso o projeto venha a ser convertido em lei, é altamente improvável que o STF aceite sua aplicação literal. A experiência constitucional brasileira mostra que imunidades amplas e abstratas tendem a ser submetidas a um severo controle de constitucionalidade. O caminho mais provável será o da interpretação conforme a Constituição, restringindo a exceção apenas a manifestações estritamente doutrinárias, sem qualquer conteúdo discriminatório ou desumanizante.

Outra possibilidade concreta é a declaração de inconstitucionalidade parcial do dispositivo, por violação direta aos arts. 1º, III; 3º, IV; 5º, caput; 5º, XLI e, sobretudo, ao art. 5º, XLII, da Constituição. Ao retirar do Judiciário a possibilidade de avaliar, caso a caso, quando uma fala religiosa ultrapassa o campo da fé e ingressa no discurso de ódio, o legislador invade uma esfera que a Constituição reservou à jurisdição constitucional.

Não é juridicamente sustentável a ideia de que o púlpito possa funcionar como um espaço normativo imune à Constituição. Racismo não se transmuta em algo juridicamente aceitável por ser proclamado em nome de Deus. A dignidade humana não se relativiza diante do altar, nem a igualdade se curva ao microfone do templo.

Em última análise, a tentativa de blindar manifestações religiosas contra a Lei do Racismo não fortalece a liberdade de crença. Ao contrário, fragiliza-a, ao associá-la institucionalmente à discriminação e ao preconceito. O Supremo Tribunal Federal, se chamado a se pronunciar, terá diante de si uma escolha que a própria Constituição já fez em 1988: não há fé, ideologia ou discurso que possa se sobrepor ao compromisso inegociável da República com a dignidade humana.

Blindar o púlpito não blinda o racismo. E, no constitucionalismo brasileiro, não há exceção legítima para a negação da humanidade do outro.


📷: Bruno Spada/Câmara dos Deputados.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O Jardim de Dois Caminhos



Rodrigo Tanaka, bisneto de japoneses nascido em São Paulo, desembarcou no aeroporto de Narita com o coração apertado e a Bíblia debaixo do braço. Neo-pentecostal convicto, tinha uma missão clara: levar a “verdadeira fé” aos descendentes de seus ancestrais. Tóquio, com suas luzes de néon e multidão apressada, parecia-lhe ao mesmo tempo estranha e familiar.

Nos primeiros dias, Rodrigo percorria bairros comerciais e templos, tentando iniciar conversas sobre Jesus. Cada tentativa encontrava sorrisos gentis, mas recusas educadas. Ele via indiferença, mas aos poucos percebeu algo diferente: os japoneses valorizavam a convivência pacífica entre crenças diferentes, e sua fé era respeitada, mas não imposta.

Foi em um pequeno café em Shinjuku que conheceu Aiko, jovem de Hiroshima de olhos claros e sorriso tranquilo. Conversaram sobre trabalho, música e, inevitavelmente, religião. Rodrigo, ansioso para explicar sua fé, ficou surpreso quando Aiko contou que sua família praticava xintoísmo e budismo.


  • “Então vocês acreditam em tudo ao mesmo tempo?” — perguntou ele.
  • “Não é questão de acreditar em tudo,” respondeu Aiko, “é questão de viver cada momento respeitando o que é sagrado para cada um.”


Rodrigo ficou intrigado. Para ele, fé era dogma e exclusividade. Mas o que via nos relatos de Aiko era diferente: o xintoísmo no Japão lida com a vida, a natureza e festividades, enquanto o budismo se ocupa da morte e da reflexão espiritual. Cada prática cumpria sua função, coexistindo de maneira harmoniosa.

Nas semanas seguintes, Rodrigo viajou com Aiko a Hiroshima. Conheceu os pais dela, que mantinham um kamidana (pequeno altar xintoísta em casa) para oferecer orações aos kami — espíritos da natureza ou ancestrais — e um butsudan (altar budista) para honrar falecidos. Ele participou de festivais locais, ou matsuri, que celebravam os deuses locais com dança, música e oferendas. Também assistiu a funerais em templos budistas, marcados por silêncio, reverência e meditação.

Um dia, Aiko o levou a conhecer seu tio-avô, Kenji, sobrevivente da bomba atômica de 1945. Sentados sob cerejeiras em flor, Kenji contou:


  • “Após a guerra, os americanos ocuparam o país. O xintoísmo estatal, aquele que dizia que o imperador era divino, foi abolido. Mas o povo podia continuar praticando xintoísmo e budismo livremente. Aprendemos que a fé é uma escolha, não uma imposição.”


Rodrigo sentiu o peso da história e da resiliência de um povo. Começou a refletir: sua fé não precisava ser uma espada contra o outro; podia ser uma bússola interior, coexistindo com respeito e tolerância.

Ele aprendeu sobre o hatsumode, a visita aos santuários no Ano Novo, e sobre os rituais de casamento e bênçãos familiares; sobre a importância de não conflitar crenças e de participar de celebrações comunitárias sem perder sua própria fé. A ideia de “converter” alguém aos poucos perdeu sentido.

Meses depois, Rodrigo e Aiko caminharam pelo templo xintoísta local, rodeados por lanternas de pedra, sons suaves de sinos e folhas de cerejeira caindo. Ele não via mais um “pagão” ou “desconhecido”, mas alguém cuja espiritualidade complementava a dele. Casaram-se ali, com monges budistas recitando orações discretas, e Rodrigo sentiu que fé verdadeira também é tolerância, amor e convivência pacífica.

De volta a Tóquio, Rodrigo ainda frequentava sua igreja, mas agora com o coração mais leve. Compreendia que a religião no Japão não era sobre dominação ou conversão, mas sobre respeito, tradição e harmonia. Aprendeu que podia ser um homem de fé sem querer moldar o mundo inteiro à sua visão, e que a diversidade espiritual era um presente que enriquecia a vida cotidiana.

E assim, entre santuários xintoístas, templos budistas e a vida moderna de Tóquio, Rodrigo encontrou não apenas trabalho e família, mas uma nova forma de enxergar Deus e o mundo, aprendendo que cada caminho sagrado pode coexistir em paz quando guiado pela compreensão e pelo amor.


📝 Notas culturais e religiosas explicadas no conto

  • Kami: espíritos da natureza, ancestrais ou divindades do xintoísmo.
  • Kamidana: pequeno altar doméstico xintoísta, usado para orações e oferendas.
  • Butsudan: altar budista doméstico para honrar antepassados falecidos.
  • Matsuri: festivais locais celebrando deuses ou espíritos, com rituais, danças e comida.
  • Hatsumode: visita anual a santuários xintoístas no Ano Novo, para bênçãos e desejos.

📷: Santuário Kanda-Myojin em Tóquio, 07/08/2013, extraída do Flicker, em https://www.flickr.com/photos/pelican/9507449790/

domingo, 13 de julho de 2025

Não se deixe engaiolar!



Sem querer generalizar, mas essa imagem acima retrata o que muitas das vezes acontece com as pessoas. 


Não permita que a sua igreja vire uma gaiola! 


Congregar com irmãos jamais significa abrir mão da sua liberdade de opinião, de VOTAR no candidato que acredita lhe representar e de fazer as suas escolhas existenciais.


Um ótimo domingo a tod@s!❤️

domingo, 29 de setembro de 2024

A racionalidade como ferramenta necessária para a libertação social e política de um povo



Embora a experiência humana jamais se limitará à racionalidade, uma vez que existem outras maneiras de interagirmos com a infinita realidade, as quais jamais devem ser ignoradas, eis que nenhuma decisão deveria ser tomada sem passar pelo crivo da razão.


Numa sociedade desigual, em que prevalece a exploração do homem pelo homem, nas quais as escolhas são induzidas e manipuladas pelo engano, o uso não limitado da razão pode significar uma ameaça ao estado das coisas. Tal fato se verifica em muitos aspectos da vida, inclusive sobre questões eleitorais, quando temos a oportunidade de escolher representantes comprometidos com as causas da coletividade.


Escolhas não racionais e desajustadas com o real desejo que temos são capazes de produzir resultados frustrantes nas nossas vidas, o que nos afeta quanto à profissão exercida, ao curso de graduação universitária, aos relacionamentos afetivos, à compra de bens, à contratação de empréstimos, às crenças religiosas, à opção política, à assistência que decidimos prestar à alguém, à propositura de demandas judiciais, às práticas delituosas, dentre tantas outras situações da vida. Porém, inegável é que existem pessoas (ou grupos/classes sociais) que precisam da tomada de decisões erradas pela grande maioria para continuarem lucrando.


Infelizmente, a religião acaba sendo umas das principais maneiras de obstruir o uso exercício da razão. Ainda mais quando seus líderes estão alinhados com os interesses de dominação cultural e política de um grupo da sociedade, tal como ocorre aqui no Brasil com inúmeras instituições evangélicas elegendo seus representantes nas casas legislativas e até em governos.


Embora a espiritualidade levada a sério propicie o aprimoramento ético do ser humano, tal objetivo torna-se até prejudicado quando nos congregamos em ambientes onde o pensamento se torna dogmatizado, com afirmações tidas como certas e indiscutíveis. Em tais condições, ao invés das pessoas experimentarem um crescimento existencial, elas ficam paralisadas em suas caminhadas evolutivas e se sujeitam facilmente à terceirização das importantes escolhas da vida que precisam tomar.


Quantas mulheres se submetem cotidianamente à violência doméstica, mesmo sem sofrer agressão física, apenas porque o pastor incutiu em suas mentes que elas devem manter o casamento e a família, bem como serem submissas ao marido?! Em igrejas fundamentalistas onde é considerado adultério alguém, mesmo divorciado(a), contrair novas núpcias, estando o ex-cônjuge ainda vivo, faz com que inúmeros casais passem anos de suas vidas infelizes tendo em vista que, até à viuvez, será proibido obter o prazer afetivo-sexual com outra pessoa.


Fico imaginando como que homossexuais devem viver mal em comunidades religiosas fundamentalistas nas quais foram criados desde a infância, geralmente por se tratar da religião dos pais, ou pelo simples fato de terem encontrado um acolhimento anterior com um forte envolvimento emocional numa situação de crise. Até porque não podemos negar o alcance da assistência de muitas igrejas quando alguém está vivendo situações de abandono psicológico, dependência química, enfermidade e diversos tipos de problemas, ainda que tenhamos os nossos questionamentos quanto ao apoio ministrado ao novo adepto do grupo eclesiástico.


Ora, se as pessoas tomam decisões importantes para si que, por orientação religiosa ou moral, contrariam os seus anseios reais e a identidade, elas passarão a engessar diariamente o uso da razão, além da colheita nem sempre consciente de resultados infelizes. O encontro com uma comunidade eclesiástica que, num primeiro momento foi proveitoso, torna-se, com o passar do tempo, nocivo para a mente e para o corpo, de modo que elas acabam criando novas enfermidades, vícios de comportamento, tornam-se intolerantes e até más.


Voltando para a política, eis que, independentemente da religião, o não exercício da razão faz surgir a figura do "pobre de direita" que é o cidadão defensor de ideias contrárias ao seu próprio interesse de classe/grupo social. Porém, sem generalizar, podemos dizer que o meio pentecostal está cheio de eleitores capazes de votar no candidato do pastor sem qualquer questionamento, mesmo se for o representante do patrão que tanto o explora.


Aqui em Mangaratiba, cidade do litoral fluminense onde moro, tramita perante a 54ª Zona Eleitoral uma representação do Ministério Público por propaganda antecipada ocorrida num culto religioso, em 28/04, quando um pastor da Igreja Assembleia de Deus Ministério Madureira teria feito menção do número de seu pré-candidato a vereador, com as seguintes palavras, conforme consta na petição inicial da ação:


"Pré-candidato a vereador que essa igreja apoia, o que passar disso é procedência maligna. É o único, é o único. (...) você vota em quem você quiser. Mas Pastor qual é a sua orientação? Minha orientação é Pastor [NOME DO POLÍTICO] e deixo uma meditação do Senhor Salmo 10. Que o senhor possa ler lá na sua casa e que até em outubro o Espírito Santo possa lhe visitar pelo menos 604 vezes; salmo 10 visita 604 esse é o número da benção levante toda a igreja neste momento" (reprodução escrita das palavras do áudio gravado que fora enviado à Promotoria Eleitoral pelo adversário do denunciado constante na exordial do processo n.º 0600392-46.2024.6.19.0054)


Sem entrar no caso concreto, o qual ainda será analisado pelo juiz depois que o ministro eclesiástico, também réu na ação, for citado para apresentar defesa, eis que nos deparamos a todo instante com inúmeros casos semelhante de manipulação eleitoral através da religião, hipóteses em que um determinado candidato é indicado como alguém "escolhido por Deus". Com isso, o eleitor crente se sente constrangido psicologicamente a votar em quem o seu pastor indica, abstendo-se de refletir racionalmente sobre quais nomes no pleito eleitoral poderão defender de verdade os seus interesses coletivos no Legislativo Municipal.


Inegável é que, se a razão não pode ser exercida sem limitações nessas "igrejas", as escolhas tomadas serão catastróficas. Por isso, sem nenhum proselitismo religioso ou ateu, penso que os membros de tais denominações deveriam pensar seriamente em substituir os ambientes que frequentam por outros onde poderão ser mais livres. 


Creio que nada pode nos embaraçar o uso pleno da razão, seja para fins de conhecimento ou quanto à tomada de decisões em qualquer aspecto da vida. Se desejamos seguir ou renunciar a uma determinada crença, casar ou manter-nos casados com alguém, escolher uma profissão, celebrar um contrato, apoiar um candidato nas eleições, dentre outras coisas mais, o correto é submeter tudo isso a um processo de reflexão racional, através de um planejamento que leve em conta fatores lógicos.


Assim sendo, quando definimos o problema, identificamos os critérios para avaliar as soluções, definimos também a importância de cada critério, listamos as possíveis alternativas e as avaliamos, estamos mais próximos de escolher a melhor solução para nós e para a coletividade. 


No caso de se optar por um candidato, o primeiro passo pode ser a consideração de todos os nomes envolvidos na disputa, ao invés de nos limitarmos a este "sim" ou "não", sem qualquer critério lógico. Aí precisamos identificar quais as reais necessidades coletivas que temos em relação à política quanto a cada um dos dois Poderes para que, a partir daí, seja possível analisar cada uma das opções para vereador e prefeito.


Todavia, além da conciliação entre as expectativas e o que cada candidatura possa representar em termos de proposta de trabalho, há que se estabelecer critérios para peneirar os nomes que se ajustarão ao desejo de escolha, sendo a memória histórica fundamental já que todos nós temos um passado. Logo, sabermos como agiu ou se posicionou um determinado político fará muita diferença para não votarmos errado.


Um outro ponto importante é verificar quais as forças que apoiam uma candidatura bem como o grupo político do qual ele faz parte. Em outras palavras, trata-se de investigar sobre quem são os aliados apoiadores do indivíduo que propõe nos representar num Parlamento.


Por certo o assunto sobre o uso da racionalidade não se esgota com esses parágrafos aqui escritos, sendo a informação (e mais ainda a formação de cada um) indispensável para uma melhor análise dos fatos. Daí a importância de desenvolvermos bem o nosso senso crítico através do exercício da dúvida, inclusive nos autoquestionando.


Ótimo domingo a tod@s!

segunda-feira, 29 de julho de 2024

A polêmica cena das drags na abertura das Olimpíadas


 

Até hoje as pessoas ainda não pararam de comentar sobre a representação do célebre quadro A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, ocorrida na sexta-feira passada (26/07). Durante o evento, a cena que recorda o último momento de comunhão entre Jesus e seus discípulos foi protagonizada por drag queens, num interessante desfile de moda.


Para muitos, inclusive os franceses mais conservadores e o episcopado católico, tal encenação teria sido uma ofensa à religião e aos valores cristãos, tendo outras apresentações também despertado críticas da extrema direita. Segundo reagiu a eurodeputada francesa Marion Marechal nas redes sociais, sobrinha de Marine Le Pen, que é a atual presidente do Reagrupamento Nacional:


"Difícil apreciar as estranhas cenas entre Maria Antonietas decapitadas, um trouple [trio amoroso] que se beija, drag queens, a humilhação da Guarda Republicana obrigada a dançar com Aya Nakamura, a feiura dos trajes e das coreografias"


A meu ver, considerando o basilar direito à liberdade de expressão, do qual decorre o dever de respeitar o livre exercício da criação, produção e divulgação de obras de arte, sem submeter-se a censura, jamais veria qualquer ilegalidade na referida encenação ainda que fosse executada aqui no Brasil. Aliás, já tivemos eventos de Carnaval polêmicos envolvendo a figura de Jesus, como foi nos desfiles da Mangueira e da Gaviões da Fiel, os quais despertaram a ira de muitos fundamentalistas cristãos.


No caso da abertura dos jogos olímpicos deste ano, confesso que não me senti nem um pouco ofendido com a encenação das drag queens. Muito pelo contrário, vi ali uma importante mensagem de inclusão.


Ora, a Santa Ceia, antes de se tornar uma tradição religiosa, foi um ato de comunhão entre Jesus e os seus discípulos na noite anterior à sua crucificação. Ao distribuir o pão e depois o vinho, respectivamente simbolizando o seu corpo e o seu sangue, o Mestre referenciou-se ao sacrifício que faria em favor da humanidade:


"Tomando o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim". Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês." (Evangelho de Lucas 22:19-20; NVI)


Pois bem. A Ceia representou uma inclusão daqueles homens simples e humildes no Reino de Deus. Pessoas que não ocupavam altas posições no meio político, religioso ou econômico da sociedade da época, dentre as quais havia rudes pescadores e até um ex-cobrador de impostos, foram as primeiras a se tornar participantes de uma sagrada comunhão.


Assim, foi por toda uma humanidade perdida que Jesus morreu e nos propôs uma nova aliança, conforme bem ensina o Novo Testamento da Bíblia. Tal sacrifício incluiu não só os discípulos presentes no cenáculo como também todos os demais seres humanos do planeta, independentemente de gênero, raça, origem, nacionalidade, condição social, profissão e opção sexual.


Caros leitores, por acaso seria ofensivo se alguém indagasse que Jesus também verteu o seu sangue na cruz também pelas drag queens?!


Entretanto, apesar de ter essa visão e, como já dito, não me sentir em nada ofendido pelas cenas da abertura dos jogos olímpicos de Paris, faço aqui o meu juízo de ponderação acerca do que seria mais adequado praticar num evento do tipo.


Vale recordar que, desde a Antiguidade na Grécia, os jogos pan-helênicos estiveram associados com o antigo conceito grego de "trégua olímpica" (ἐκεχειρία, ekecheiria). Desse modo, para que as competições pudessem ocorrer, as guerras eram suspensas, permitindo que os atletas viajassem até à cidade de Olímpia, disputassem os jogos, e retornassem para suas terras de origem em segurança.


No final do século XIX, quando os jogos olímpicos renasceram, tal proposta não foi esquecida. Pierre de Coubertin, o segundo presidente do COI (1896-1925), acreditava na possibilidade de promover paz por meio do esporte: 


"Exportemos remadores, corredores e esgrimistas: eis o livre comércio do futuro, e no dia em que for introduzido nos costumes da velha Europa, a causa da paz terá recebido um novo e poderoso apoio"


Dentro desse contexto, não ignoraria que o tema da inclusão social se torne pertinente a uma ideia ampla de paz, considerando que esta não se restringiria apenas a um mero armistício entre as nações. Contudo, precisamos refletir acerca da maneira como um assunto vem a ser pautado para que não gere conflitos num momento em que se propicia um entendimento comum.


Tratando-se as Olimpíadas de algo muito mais amplo do que os desfiles do Carnaval brasileiro, em que uma cidade se torna temporariamente a anfitriã de várias competições esportivas internacionais, penso que o evento deveria ser uma espécie de "território neutro", muito embora não exista uma total neutralidade nas ações humanas. Logo, diferentemente das ruas, onde as pessoas se manifestam politicamente, creio que o bom senso deve conduzir a recepção do público numa competição esportiva, criando uma atmosfera em que possamos pausar até mesmo as nossas questões ideológicas.


Em todo caso, não podemos deixar de reconhecer o quanto foi bonita a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris 2024. Apesar da chuva, vimos um inesquecível passeio pela capital francesa, tendo se tornado uma inovação com barcos navegando pelo rio Sena, levando delegações, autoridades e celebridades a céu aberto, fora do confinamento dos estádios.


Viva as Olimpíadas! Que a paixão pelo esporte consiga transcender fronteiras, culturas e ideologias políticas, unindo o mundo em um só coração!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Esse "pastor" que defende a escravidão não pode ingressar no Brasil!



Conforme noticiado pelo site de jornalismo investigativo Intercept Brasil, o campo evangélico brasileiro Consciência Cristã, mais precisamente a Visão Nacional para a Consciência Cristã, convidou para o seu congresso na Paraíba o "pastor" estadunidense Douglas Wilson que, sistematicamente, defende o direito de cristãos escravizarem pessoas negras, com o falso argumento de que essa é uma autorização presente na Bíblia. Além disso,


"(...) Douglas Wilson é da geração de teólogos conservadores imediatamente posterior a esse movimento e um dos mais aguerridos defensores públicos da justificação bíblica para escravidão. 

Ele trabalhou pelo revisionismo histórico sobre o legado “positivo” da escravidão e sustenta a visão de que, se o sistema escravista do Sul tivesse sido fiel aos princípios bíblicos, teria funcionado harmoniosamente, ou desaparecido “pacificamente” com o tempo. 

Wilson chega a dizer que a vitória dos abolicionistas impediu, por exemplo, que africanos escravizados pudessem ir para lugares como o estado da Virgínia, onde ele acreditava que havia maiores condições de encontrarem “mestres piedosos”. Com isso, em suas palavras, “eles foram levados para lugares como o Haiti e Brasil, onde o tratamento dos escravos era simplesmente horrendo” (...)"


Tal evento está previsto para ocorrer durante o Carnaval, em Campina Grande, cidade do interior da Paraíba, mais precisamente entre os dias 08 a 13 de fevereiro do corrente ano. O local do congresso curiosamente será num lugar denominado "Parque do Povo", situado na Rua Sebastião Donato, S/N - Centro. 


Ocorre, como é de conhecimento geral, a nossa Constituição proíbe o trabalho escravo no Brasil, sendo que o artigo 149 do Código Penal prevê os elementos que caracterizam a redução de um ser humano à condição análoga à de escravo. São eles: a submissão a trabalhos forçados ou a jornadas exaustivas, a sujeição a condições degradantes de trabalho e a restrição de locomoção do trabalhado. 


Além do mais, ao aderir à Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU), o Brasil assumiu os compromissos humanitários de que “ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas”. Isso tudo sem contar a histórica Lei n.º 3.353, de 13 de maio de 1888


Outrossim, a Lei Federal n.º 13.445/2017 prevê em seu art. 3º, inciso II, que a política migratória brasileira tem por basilar princípio o "repúdio e prevenção à xenofobia, ao racismo e a quaisquer formas de discriminação". E, nos incisos IV, VII e IX, do art. 45 da mesma Lei, determinou o legislador que poderá ser impedida de ingressar no País, após entrevista individual e mediante ato fundamentado, a pessoa: 


"IV - que tenha o nome incluído em lista de restrições por ordem judicial ou por compromisso assumido pelo Brasil perante organismo internacional; 

(...) 

VII - cuja razão da viagem não seja condizente com o visto ou com o motivo alegado para a isenção de visto; 

(...) 

IX - que tenha praticado ato contrário aos princípios e objetivos dispostos na Constituição Federal." 


Assim, analisando os fatos, tendo em vista que a volta da exigência de visto para americanos no Brasil só ocorrerá a partir de abril, considerando que o Decreto n.º 9.731/2019 teve a vigência prorrogada pelo art. 3º do Decreto n.º 11.515/2023, com redação dada pelo Decreto 11.875, de 4 de janeiro de 2024, há que se adotar as medidas necessária para proibir a entrada do senhor Douglas Wilson no país, sendo indicado, s.m.j., a propositura de uma ação judicial por algum legitimado a fim de que o seu nome seja incluído em lista de restrições por ordem da Justiça Federal. 


Acerca das outras possibilidades de que o ingresso do mencionado cidadão norte-americano seja impedido de entrar no país, torna-se inseguro contar com a aplicação das mesmas já que, dificilmente, o motivo da viagem poderá ser identificado quanto às restritas hipóteses da absurda isenção unilateral de visto previstas no Decreto 9.731/2019 que seriam para fins de "turismo, negócios, trânsito, realização de atividades artísticas ou desportivas ou em situações excepcionais por interesse nacional", uma vez que as atividades religiosas não estariam expressamente contempladas no questionável ato do ex-presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. Também a verificação de que o visitante tenha praticado ato contrário aos princípios e objetivos dispostos na Constituição Federal teme-se que poderá passar desapercebida na ocasião do seu ingresso. 


Assim sendo, considero que a inclusão do nome do pastor americano Douglas Wilson em uma lista de restrições por ordem judicial torna-se a medida mais adequada para evitarmos que um palestrante estrangeiro venha aqui defender a volta escravidão, o racismo ou até mesmo os hediondos ataques à democracia já que a notícia do Intercept diz que: 


"Wilson é um dos teólogos fundamentalistas mais reconhecidos da atualidade e exerce grande influência entre os conservadores reformados brasileiros. É, também, um dos principais nomes do nacionalismo cristão, fenômeno considerado por muitos especialistas como a maior ameaça à democracia dos Estados Unidos hoje – principalmente após a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2022.


Infelizmente, o Brasil pagou um preço muito alto com os ataques aos prédios dos Três Poderes em 08/01/2023 e não podemos permitir que alguém que, segundo a matéria, teve atuação num evento golpista análogo nos EUA, ingresse no país para não haver risco de incentivo a condutas contrárias à democracia e nem apologia ao racismo ou à escravidão.


A fim de que medidas possam ser tomadas pelas nossas autoridades, já protocolizei uma denúncia na plataforma de ouvidorias Fala.Br, direcionada ao Ministério da Justiça, e também representei perante o Ministério Público Federal.


Vamos acompanhar!


OBS: Imagem extraída do Intercept Brasil, segundo o qual se trata de uma reprodução do YouTube.

sábado, 16 de abril de 2022

Parem de crucificar Jesus novamente!

 


"Coloquemo-nos perante o Crucificado, fonte da nossa paz, e peçamos-lhe paz do coração e paz no mundo" (Papa Francisco)


Ontem o jornalista, professor universitário e político Jean Wyllys foi duramente criticado por conservadores apenas porque, num trabalho artístico pessoal, por ele divulgado nas redes sociais de internet, representou a Paixão de Cristo através da crucificação de uma mulher índia (clique AQUI para acessar a mensagem no Facebook). Na visão deturpada dessa gente, o ex-deputado federal estaria "brincando com a fé" das pessoas.


Com muito orgulho e admiração, compartilhei em meu perfil essa postagem do Jean, a qual, certeiramente, (re)significou a Mensagem da Cruz nos nossos dias e no contexto vivido pelos brasileiros nos últimos anos, em que os primitivos habitantes desse país passaram a ser massacrados por um governo genocida pretendendo tomar as terras dos índios a fim de derrubar a Amazônia para as mineradoras acabarem com tudo. E, durante a pandemia, não poucos indígenas morreram de COVID-19 por falta de uma assistência digna do Estado brasileiro.


Compartilhar essa acertada expressão de arte, que mostra hoje a índia na cruz, representa viver de fato o Evangelho revolucionário de Jesus, quando nos posicionamos ao lado do oprimido e não do opressor! 


Por outro lado, "brincar com a fé cristã" seria alguém se omitir e não denunciar os absurdos do Bolsonaro, o qual considero um verdadeiro anticristo que, de messias, só tem o seu segundo nome. Aliás, hoje muitos dos que se dizem cristãos (e se consideram "cidadãos de bem") estão crucificando novamente Jesus quando consentem com as maldades de um desgoverno que massacra índios, mulheres, quilombolas, miseráveis e destrói a Amazônia com sua rica biodiversidade.


Seja Jean Wyllys ateu ou não, pouco me importa. Porém, a sua expressão artística significou para mim a mensagem que nós brasileiros precisamos ouvir nesse momento tão crítico. Se incomodou a alguns religiosos o fato da representação de uma mulher indígena seminua estar pregada no madeiro como se fosse Jesus, graças a Deus não tenho preconceito de gênero. E menos ainda sou contra a nudez, inclusive porque foi até com menos roupa que Jesus teria passado as suas últimas horas agonizando nesse instrumento de tortura que era a cruz, sofrendo em lugar de toda a humanidade. 


Por isso, ver ali uma mulher com seios expostos não ofende a minha fé. Trata tão somente de um desenho artístico que, como já dito, ressignifica a Mensagem da Cruz para os dias atuais, ainda que haja alguns cristãos que idolatrem crucifixos, quadros ou esculturas, a ponto de considerarem com violação do sagrado meras representações artísticas, cujo fim deve ser tão somente educativo.


Sinceramente, apenas lamento pelo obscurantismo de quem tem olhos e não vê, ouvidos e não escuta... Porém, afirmo que cada qual tem seu direito de livremente interpretar as Escrituras e a versão do outro deve ser respeitada de modo que quem ataca o Jean padece da mesma insanidade daqueles que protestaram contra a visita do Papa Francisco ao Brasil em 2013, quando foram destruir esculturas religiosas em praças públicas e alguns deles introduziram o crucifixo em seus orifícios anais.


Cristo morreu por toda a humanidade. Foi pro preso, torturado e morto pelos erros de todos. Dentro desta visão, o Calvário seria o lugar das dezenas de bilhões de seres humanos de todas as eras. Ao mesmo tempo, a cruz seria a representação do que a humanidade faz com os oprimidos, com os trabalhadores, as mulheres, os negros, os índios, as pessoas que são LGBTQIA+, os imigrantes, os de religião diferente, os líderes revolucionários. Estes foram e continuam sendo martirizados! Passam atualmente por um progroom virtual onde suas colocações são deturpadas e sofrem as mais covardes difamações.


Sendo hoje considerado por muitos cristãos, o chamado "Sábado de Aleluia", tão somente peço a todos que cultivem no íntimo a paz para que possamos promovê-la. Quer sejamos ou não religiosos, devemos agir com maior tolerância buscando desenvolver a compreensão sobre aquilo que o outro quer nos dizer.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Que possamos discernir o corpo partido e o sangue derramado!


 

"E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai." (Mateus 26:26-29)


Não dá para passar da noite de quinta para sexta-feira da Semana Santa sem nos lembrarmos desse conhecido trecho dos evangelhos onde Jesus celebra uma simbólica ceia com os seus discípulos, relacionando a partição dos alimentos (pão) com o seu corpo e agindo de modo semelhante com a bebida (vinho) quanto ao seu sangue. Em seguida, complementa estar realizando uma nova aliança (na citação "testamento"), por meio da sua morte, perdoando os pecados dos homens.


Certamente que essa passagem não deve fazer sentido para a humanidade inteira e nem todos os cristãos entendem do mesmo modo. Porém, quem estuda a célebre citação da Bíblia sempre busca compreender qual o significado profundo da representação desse momento tão reverenciado.


Tem-se evidenciado no texto em tela não só o fato de Jesus haver transformado a sua morte em um sacrifício de substituição em favor dos homens como também tornado os seus discípulos co-participantes do que estava prestes a ocorrer com ele. Mesmo que o entendimento daquele episódio só viesse mais tarde e, na hora da prisão do Mestre todos fugissem e um o negasse expressamente.


Sob certo aspecto, quando Jesus estava inspirando seus discípulos a pactuar com ele, tal decisão abrangeria o seguimento dos seus passos num projeto de amor e de vida para a humanidade que é o alcance do Reino de Deus. Romperiam com os valores do mundo na conformação com a morte do Senhor a fim de que, numa reunião futura e eterna com Cristo, haja então uma nova celebração com o consumo outra vez do "fruto da vide", significando um momento de grande júbilo coletivo.


Evidente que esse ato de Jesus estava impregnado de fé, em que o Mestre apostava tudo contra as circunstâncias, não sendo a morte que aguardava experimentar em questão de horas um impedimento para a futura e eterna reunião com os discípulos no Reino do Pai. Aliás, ele encarava aquele momento como a passagem (Páscoa) que a humanidade precisaria trilhar para uma transformação coletiva, de modo que o seu corpo e o seu sangue estavam também representando os corpos e os sangues dos seguidores de Cristo.


Ora, enfrentamos hoje uma pandemia que já matou mais de 322 mil brasileiros, conforme os números divulgados recentemente. Porém, as atitudes de grande parte dos cristãos são de envergonhar. 


Triste saber que muitos crentes nestes dias estejam se aglomerando em templos e ignorando as orientações sanitárias. Estarão participando de uma ceia simbólica, sem o verdadeiro discernimento, comendo e bebendo para a própria destruição, como o apóstolo Paulo já havia advertido há quase 2.000 anos aos coríntios em sua primeira epístola a eles:


"Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem." (1 Coríntios 11:17-30)


Pior ainda é quando vejo pastores demonizando a vacina! Pois usam a poderosa influência que têm a fim de conduzir pessoas para a morte, contrariando o ensino extraído do sacrifício de Jesus, o qual é representado como fonte de vida eterna.


Nessa Páscoa que celebramos num dos piores dias da pandemia no Brasil, não só podemos como devemos permanecer em nossas casas. Até porque não há necessidade de irmãos na fé estarem sempre todos juntos já que o próprio Jesus falou que onde estivessem dois ou três reunidos em seu nome, estaria no meio deles (Mt 18:20). E essa presença também não depende de um mesmo ambiente físico! Ainda mais quando se tem hoje em dia as tecnologias da comunicação, a exemplo das videoconferências, de modo que estar atento às interações é o que realmente deve importar.


Para finalizar, concluo que, nessa Páscoa, as pessoas pelas quais mais devemos orar e interceder seriam os fanáticos religiosos, pois não sabem o que fazem, visto que se tornaram grandes propagadores do coronavírus, precisando conhecer urgentemente qual a essência do Evangelho Cristo.


OBS: Foto  dos azulejos na igreja de São Mamede de Este, em Braga, Portugal, conforme extraído de https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%9Altima_Ceia#/media/Ficheiro:Azulejos_Sao_Mamede.JPG

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A importância de nos congregarmos em igreja



"Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros" (Hebreus 10:25a)

As narrativas bíblicas e a história do cristianismo são testemunhos de que a vida com Deus é um projeto para ser experimentado coletivamente. Não existe e jamais haverá a "igreja do eu sozinho". O próprio nome igreja vem de ekklesia, termo que foi originalmente empregado nas reuniões políticas das cidades gregas, sendo, pois, um sinônimo cabível para a assembleia do povo de Israel mencionada nas Escrituras hebraicas (o Antigo Testamento).

Quando Abraão foi chamado à fé, o objetivo do Altíssimo foi formar uma nação através dele. Não somente uma só nação, mas várias como diz o próprio nome do patriarca. E, se Deus a princípio lhe falou individualmente, foi com a finalidade de incluir outras pessoas no seu plano sagrado de modo que o Eterno esteve tratando também com Hagar, Sara e Isaque em outras passagens, no desejo de ser o Deus de todos aqueles personagens bíblicos (e de todos nós).

No Novo Testamento, também não foi diferente. Jesus buscou fazer discípulos. Não para ter numerosos seguidores atrás dele, mas para iniciar um ministério lidando com gente. E escolheu pessoas comuns do povo, impuros pescadores e coletores de impostos ao invés de contar com escribas, sacerdotes e toda aquela nata moral da Jerusalém de seu tempo. Aí, quando chegou o momento de experimentá-los e ensiná-los a pregar o Evangelho do Reino nas cidades de Israel, o Mestre ordenou que os doze apóstolos (e depois os setenta seguidores) andassem de dois em dois. Jamais saíssem sozinhos por aí.

Também com Paulo, depois que o Senhor revelou-se ao "apóstolo dos gentios", o Espírito Santo não o enviou sozinho pelo mundo. A princípio, Paulo andou junto com Barnabé em sua primeira missão. Na vez seguinte, seu companheiro de ministério foi Silas. E, a partir de então, o livro de Atos passa a fazer menção de diversos nomes novos como Timóteo, Tito, o casal Áquila e Priscila, dentre outros colaboradores.

No comecinho de 2010, li com entusiasmo o "subversivo" livro Por que Você Não Quer mais Ir à Igreja?, de Wayne Jacobsen e Dave Coleman. Fiquei empolgado demais com a desconstrução proposta pelos autores que transmitem uma mensagem através de uma narrativa ficcional no estilo A Cabana. Na obra, o personagem pastor Jake Colsen, sentindo-se interiormente vazio, depara-se com João, um homem que fala de Jesus como se o tivesse conhecido e que percebe a realidade de uma forma que desafia a visão tradicional de religião.

Sem dúvida que as críticas do livro não deixam de ser uma interessante contribuição ao mundo eclesiástico quando levamos em conta a importância da pluralidade de ideias e aceitamos a possibilidade de que a Igreja, por ser formada por homens, é passível de cometer erros. Só que, analisando por outro aspecto, os autores parecem não dar a mínima chance de êxito ao bimilenar trabalho desenvolvido até hoje pelos herdeiros do discipulado de Jesus. É como se tudo aquilo que se vê no presente não prestasse mais para nada e precisasse ser consumido no fogo.

Mas será que nada mais presta na Igreja?! Pois eu penso justamente o contrário e percebo coisas muito positivas que não devem ser descartadas, mas sim aprimoradas, melhoradas, reformadas e apoiadas pelas brilhantes mentes dos críticos da religião.

"E ele disse-lhes: Por isso, todo o escriba instruído acerca do reino dos céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas." (Mateus 13:52)

Penso que, se temos críticas em relação à Igreja e desejamos mudar seus rumos, não temos que nos afastar dela e muito menos abandonarmos a vivência coletiva da fé que é a comunhão com os irmãos. E também, quando temos em nosso coração a proposta de um ministério inovador, devemos aprender a aguardar em Deus o momento certo de agir tal como fez Paulo quando se congregava em Antioquia e que, provavelmente, já deveria sentir a vontade de levar a Palavra aos gentios da Ásia Menor e de outras regiões, bem como aos judeus da diáspora distantes de Jerusalém.

No começo do ano, tão logo ter deixado de Nova Friburgo, cometi o erro de querer iniciar um ministério sozinho nos curtos meses em que morei no Rio de Janeiro. Minha cabeça estava cheia de conceitos, ideias e propostas, as quais não descarto por serem coisas positivas. Entretanto, em minha vaidade intelectual e tendo grande dificuldade desde os tempos de criança quanto aos trabalhos de grupo, acabei não me congregando em lugar nenhum. Nem mesmo fui capaz de encontrar e me integrar com algum grupo informal de irmãos. Apenas visitei por três ocasiões uma igreja Presbiteriana no bairro onde morava sem que fosse estabelecida uma relação de compromisso. Aí, logo que vieram as lutas, os problemas e as necessidades, acabei ficando só tentando orientar-me para superar as situações. Lancei sementes, mas não pude cultivá-las como deveria. Precisei cuidar da família e, mais recentemente, de minha esposa Núbia.

Já neste semestre, resolvi fazer diferente. Tão logo fui iniciando a minha mudança do Rio para o Município de Mangaratiba, decidi que não continuaria a caminhar só. Deixei meus sonhos ministeriais nas mãos de Deus e fui logo buscando o apoio de meus irmãos em Cristo, pelo que me dispus a procurar a igreja evangélica mais perto de minha casa que está situada na mesma rua Primeiro de Maio aqui no distrito de Muriqui. Deixei de lado o orgulho, os conceitos teológicos adquiridos e fui reunir-me com os novos irmãos pouco importando o fato de se denominarem "batistas pentecostais".

Assim, tenho crescido com meus irmãos nestes últimos dias quando, definitivamente, vim morar aqui em 21/08. Pela manhã, nossa congregação reúne-se para orar diariamente às 07:30 e, por várias vezes, já tomei o meu café da manhã na igreja com a pastora Delvânia e o mano Johnny. Ontem (09/09), fizemos nossa Ceia e temos tido a oportunidade de nos encontrarmos com satisfatória frequência. E, no domingo retrasado (02/09), conheci uma missionária que esteve nos visitando e compartilhou a experiência no seu ministério com os chineses, aqui no Brasil, e de sua marcante viagem à China feita neste ano de 2012.

Não é maravilhoso poder viver num país como o nosso onde ninguém é perseguido pelas autoridades só porque lê a Bíblia ou vai numa igreja?!

Glória a Deus por isto! Mas ainda assim, os crentes daqui no Ocidentes têm caminhado com muito menos assiduidade do que os irmãos da China, sendo que a maioria deles por lá parece se reunir mesmo em congregações clandestinas. No outro lado do mundo, cada oportunidade de se congregar e adorar a Deus é algo de enorme valor.


OBS: Ilustração extraída do acervo da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:AugsburgConfessionArticle7OftheChurch.jpg