![]() |
| Pintura de Théodore Gudin, Prise de Rio de Janeiro en 1711 (1841) |
Há exatos 315 anos, em 12 de setembro de 1711, o Rio de Janeiro acordava diante de uma ameaça que vinha do mar. Uma poderosa esquadra francesa, comandada pelo corsário René Duguay-Trouin, conseguiu atravessar as defesas da Baía de Guanabara e iniciar uma operação que terminaria com a ocupação, o saque e a imposição de um pesado resgate à cidade.
O episódio pertence a um Brasil colonial muito distante do nosso. Porém, passados mais de três séculos, talvez ainda tenha algo a nos dizer.
O motivo não porque o Rio de Janeiro de 2026 esteja novamente sob uma invasão estrangeira, nem porque seja possível equiparar corsários franceses do século XVIII às organizações criminosas atuais.
São fenômenos historicamente muito diferentes.
A questão que os aproxima é outra, mais profunda e incômoda: o que acontece quando o poder constituído perde, ainda que parcialmente, a capacidade de exercer sua autoridade sobre o território que deveria governar?
A cidade que os franceses descobriram vulnerável
A invasão de 1711 não surgiu do nada. No ano anterior, outra expedição francesa, comandada por Jean-François Duclerc, havia tentado tomar o Rio e fracassado. Duclerc foi aprisionado e acabou morto em circunstâncias obscuras. Duguay-Trouin, porém, apresentaria sua nova expedição também como uma espécie de vingança.
Entretanto, havia muito mais em jogo.
O Rio crescia em importância estratégica e econômica porque se tornara a principal ligação marítima com as regiões produtoras de ouro das Minas Gerais. Atacar a cidade significava atingir um ponto sensível do Império Português e, ao mesmo tempo, procurar uma extraordinária recompensa econômica.
Embora muitas vezes sejam chamados genericamente de piratas, Duguay-Trouin e seus homens eram, mais precisamente, corsários, os quais operavam com autorização e apoio da monarquia francesa, então envolvida na Guerra da Sucessão Espanhola. A expedição tinha, portanto, uma dimensão simultaneamente militar, política e econômica.
Protegida pelo nevoeiro e favorecida pelos ventos, a esquadra conseguiu atravessar a entrada da Guanabara, considerada fortemente defensável. A resistência portuguesa não foi suficiente. Tropas francesas desembarcaram, ocuparam posições estratégicas e a defesa da cidade entrou em colapso. A população fugiu para regiões do interior.
A Biblioteca Nacional registra o dia 12 de setembro como o marco da invasão, enquanto a MultiRio observa que a transposição da boca da Guanabara começou na noite anterior. O essencial é que, naquele setembro de 1711, o poder português deixou temporariamente de controlar sua própria cidade.
Duguay-Trouin não pretendia necessariamente transformar o Rio numa colônia francesa permanente. Seu objetivo imediato era obter riquezas e impor condições. Depois de ocupar e saquear a cidade, exigiu um enorme resgate.
As capitulações preservadas pelo Arquivo Nacional registram a entrega de 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 cabeças de gado. A cidade, em outras palavras, precisou pagar para que a força que a dominava se retirasse.
É difícil imaginar símbolo mais evidente da perda momentânea da autoridade sobre um território.
O governador que sabia que o perigo existia
A história também reservou um papel pouco honroso ao então governador do Rio, Francisco de Castro Morais.
Ele não ignorava completamente o risco. Havia recebido informações sobre a aproximação de uma grande expedição francesa e chegou a adotar medidas preparatórias. O próprio Arquivo Nacional conserva documentos demonstrando providências tomadas contra franceses residentes e preparativos defensivos.
No entanto, diante da ausência momentânea de sinais da esquadra inimiga, as medidas preventivas acabaram relaxadas. Quando os navios de Duguay-Trouin finalmente surgiram, a cidade não conseguiu organizar uma resistência eficaz.
Após a invasão, a atuação do governador foi submetida a uma devassa. Castro Morais terminou responsabilizado pela derrota, perdeu privilégios e foi condenado à prisão perpétua em uma fortaleza na Índia. As capitulações que firmou com os franceses seriam lembradas como símbolo da humilhação sofrida pelo Rio.
Naturalmente, seria anacrônico julgar um governador colonial de 1711 pelos conceitos políticos e administrativos do século XXI. Todavia, há naquela história uma questão que atravessa o tempo: qual é a responsabilidade de quem governa quando o Estado perde o controle efetivo de seu território?
Uma ocupação muito diferente
É nesse ponto, e somente nesse ponto, que 1711 começa a conversar com o que a cidade vive em 2026.
Hoje não existem fragatas francesas atravessando a Guanabara. Não há soldados estrangeiros ocupando o Centro do Rio nem uma potência inimiga exigindo formalmente a capitulação do governador.
Existe, porém, outro fenômeno territorial.
Facções criminosas e milícias consolidaram, durante décadas, áreas nas quais exercem poderes que ultrapassam em muito a simples prática clandestina de crimes. Em determinados lugares, grupos armados controlam atividades econômicas, estabelecem regras de comportamento, restringem a circulação das pessoas, decidem quais serviços podem funcionar e fazem cumprir suas determinações mediante ameaça ou emprego da violência.
Essa descrição não depende apenas de linguagem política.
Na atualização de 2025 do Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzida pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado, considera-se que existe efetivo controle territorial quando três elementos estão simultaneamente presentes: o grupo extrai recursos econômicos de mercados legais ou ilegais, impõe normas à população e sustenta essa ordem pelo uso efetivo ou potencial da força.
Os dados referentes a 2024 são impressionantes. Cerca de 4 milhões de habitantes da Região Metropolitana do Rio viviam em áreas sob controle ou influência de grupos armados, aproximadamente 34,9% de sua população. Cerca de 3,4 milhões estavam em áreas classificadas como efetivamente controladas. Somente na capital, 42,4% dos moradores estavam sob controle ou influência e 36,3% sob controle propriamente dito.
É preciso compreender o significado desses números.
Não se está afirmando que 36% dos cariocas vivam fora juridicamente da República ou que o Estado tenha deixado completamente de existir nesses lugares. Escolas públicas podem funcionar, unidades de saúde podem atender, eleições podem ocorrer, policiais podem realizar operações e serviços municipais podem continuar presentes.
O problema é precisamente mais complexo.
O Estado formal pode permanecer enquanto o monopólio efetivo da força e da imposição de regras é disputado. E, quando isso acontece, surge uma forma de soberania prática incompleta: a lei continua pertencendo ao Estado, mas outra organização dispõe de armas suficientes para determinar, no cotidiano, quais regras serão efetivamente obedecidas.
Do resgate de 1711 às cobranças contemporâneas
Há uma dimensão econômica dessa comparação que talvez seja ainda mais desconfortável.
Em 1711, Duguay-Trouin dominou a cidade e exigiu dinheiro, açúcar e gado para deixá-la. Foi um resgate extraordinário, cobrado depois de uma ocupação militar.
Já no Rio contemporâneo, organizações criminosas desenvolveram mecanismos permanentes de extração de recursos das populações que vivem ou trabalham nos territórios que controlam.
No caso das milícias, isso pode ocorrer por meio da exploração ou imposição de serviços e mercados relacionados a transporte, imóveis, comércio local e outras atividades. O próprio levantamento do GENI identifica a exploração econômica como uma das características essenciais que permitem reconhecer a existência de controle territorial.
Guardadas todas as diferenças históricas, a comparação provoca uma pergunta inevitável. Pois, se em 1711, o Rio precisou pagar aos corsários para recuperar a cidade, quantos moradores do Rio atual são obrigados cotidianamente a pagar a grupos armados pelo simples direito de morar, circular, trabalhar ou consumir determinados serviços nos lugares onde vivem?
O resgate de Duguay-Trouin terminou quando seus navios partiram ao passo que a cobrança contemporânea pode repetir-se todos os meses.
De Castro Morais a Cláudio Castro
Também existe uma coincidência histórica curiosiosa, embora não se deva extrair dela mais do que comporta.
O governador da invasão de 1711 chamava-se Francisco de Castro Morais. O último governador eleito do Rio antes da atual interinidade foi Cláudio Castro, que deixou o cargo em 23 de março de 2026.
Não há razão para sugerir qualquer relação entre os dois além da coincidência do sobrenome e da possibilidade de utilizá-la como recurso para reflexão histórica. Muito menos seria correto afirmar que Cláudio Castro tenha produzido o problema territorial contemporâneo.
Como se sabe, o domínio de facções e milícias no Rio é um fenômeno acumulado durante décadas e atravessou inúmeros governos estaduais, partidos, secretários de Segurança e diferentes estratégias policiais.
Também não existiu no governo Castro algo comparável à capitulação de 1711. Seu governo realizou operações policiais, adquiriu equipamentos, promoveu ações de inteligência e declarou publicamente o enfrentamento ao crime organizado.
Ainda assim, governos devem ser avaliados não apenas por suas intenções, mas também pelos resultados alcançados.
E os dados relativos a 2024, portanto durante sua administração, mostram a dimensão do problema que permaneceu: milhões de pessoas vivendo sob diferentes graus de controle ou influência de organizações armadas.
É aí que a lembrança de Francisco de Castro Morais pode oferecer uma provocação, sem necessidade de estabelecer uma equivalência pessoal entre os dois governadores. O governador de 1711 foi responsabilizado porque defender o território estava entre as mais elementares obrigações de seu governo.
Assim sendo, indaga-se: qual deve ser, então, a medida da responsabilidade política dos governantes contemporâneos diante de um fenômeno territorial que não dura semanas, mas atravessa décadas?
A resposta certamente não pode recair exclusivamente sobre Cláudio Castro. Também precisa alcançar quem o antecedeu e também servirá para avaliarmos aqueles que vierem depois. Pois, talvez, a pergunta correta não seja quem perdeu esses territórios, mas por que sucessivas administrações não conseguiram recuperá-los de maneira duradoura.
Desta vez, ninguém pode alegar surpresa
Existe, entretanto, uma diferença importante que torna o presente talvez ainda mais inquietante.
Francisco de Castro Morais poderia ter subestimado uma ameaça cuja chegada pelo mar não era inteiramente previsível. A esquadra apareceu sob condições climáticas favoráveis aos invasores e realizou uma operação militar surpreendente.
Já o Estado contemporâneo não pode alegar desconhecimento.
Existem mapas. Existem estatísticas. Existem investigações policiais. Existem estudos acadêmicos. Existem informações de inteligência. Existem décadas de experiência acumulada.
Sabemos onde se concentram muitos desses grupos. Conhecemos seus modelos de negócios. Sabemos que o controle territorial não depende apenas do varejo de drogas e que envolve armas, lavagem de dinheiro, transportes, imóveis, comércio, serviços e diferentes formas de corrupção e cooptação.
Desse modo, o desafio já não é descobrir que existe um problema. Passa a ser explicar por que, depois de tantas décadas conhecendo-o, ainda não conseguimos solucioná-lo.
“Retomar territórios”
Talvez nenhuma expressão revele melhor a atualidade dessa discussão do que uma utilizada pelo próprio Poder Público.
Em 3 de setembro de 2026, quase exatamente 315 anos depois da invasão francesa, o governo do Estado do Rio e o governo federal assinaram acordos de cooperação destinados, entre outras finalidades, a “retomar territórios” sob influência de organizações criminosas.
Os acordos preveem integração de inteligência, ações contra estruturas financeiras e patrimoniais do crime organizado e proteção de corredores logísticos importantes, como Avenida Brasil, Linha Vermelha, Linha Amarela e acessos ao porto e aos aeroportos.
A expressão merece atenção.
Só é possível retomar aquilo sobre o qual, de alguma maneira, se perdeu ou enfraqueceu o controle.
Isso não significa que esses lugares tenham deixado juridicamente de pertencer ao Estado. Significa que o próprio poder público reconhece a necessidade de reconstruir sua capacidade concreta de exercer autoridade onde organizações criminosas conquistaram influência significativa.
No entanto, recuperar território não pode significar simplesmente entrar nele com grande contingente policial durante algumas horas ou dias.
Se o poder armado ilegal retorna assim que a operação termina, o território não foi verdadeiramente recuperado.
Nesse sentido, podemos afirmar seguramente que retomada exige permanência.
Exige investigação financeira para atingir o patrimônio das organizações. Exige impedir que seus integrantes controlem serviços e mercados. Exige combater corrupção e infiltração institucional. Exige presença policial compatível com a legalidade, mas também escola, saúde, urbanização, transporte, saneamento, oportunidades econômicas e instituições públicas capazes de permanecer depois que as viaturas forem embora.
Em outras palavras, retomar território significa recuperar o Estado, e não apenas ocupar o espaço.
A pergunta que permanece
Duguay-Trouin acabou partindo.
Seus navios deixaram a Guanabara levando riquezas e deixando para trás uma cidade humilhada e uma administração obrigada a discutir por que suas defesas haviam fracassado.
A história de 1711 teve começo, ocupação e fim.
O problema contemporâneo é mais difícil porque não chegou de uma só vez, não veio de outro país e não será derrotado simplesmente expulsando uma esquadra.
Ele nasceu e se desenvolveu dentro da própria sociedade brasileira, alimentou mercados ilegais e legais, estabeleceu relações econômicas, infiltrou-se em estruturas institucionais e transformou o domínio territorial em fonte permanente de poder e renda.
Por isso, dizer simplesmente que o Rio de hoje está novamente “ocupado por piratas” seria uma simplificação histórica.
Entretanto, esquecer 1711 talvez seja desperdiçar uma oportunidade de reflexão.
Naquela época, o Rio aprendeu de maneira dolorosa que possuir formalmente um território não basta quando outro poder consegue impor nele sua vontade.
Passados 315 anos, a questão permanece, ainda que sob formas inteiramente diferentes.
Em 1711, uma força estrangeira entrou pela Baía de Guanabara e tomou a cidade. Já em 2026, o próprio Estado brasileiro fala na necessidade de retomar territórios dominados ou influenciados por organizações criminosas.
A história não se repete, mas às vezes formula novamente a mesma pergunta.
Quem, afinal, exerce efetivamente o poder sobre o território do Rio de Janeiro?
E enquanto essa pergunta não puder ser respondida inequivocamente em favor do Estado democrático e de suas instituições, a batalha pelo controle do território continuará sendo uma das questões fundamentais do Rio.
📝 Nota sobre os dados:
Os percentuais utilizados neste artigo foram extraídos do relatório Atualização do Mapa Histórico dos Grupos Armados, elaborado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado, publicado em dezembro de 2025, com dados referentes a 2024.
Segundo o relatório, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro cerca de 4 milhões de pessoas — 34,9% da população — viviam em áreas sob controle ou influência de grupos armados, correspondentes a 18,1% da superfície urbanizada habitada. Para o município do Rio de Janeiro, a página 31 registra que 42,4% da população (2.573.932 habitantes) vivia sob controle ou influência e 36,3% (2.200.325 habitantes) sob controle armado. Em termos territoriais, os respectivos percentuais eram de 31,6% e 22,5% da superfície urbanizada da capital.
Fonte: GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado, Atualização do Mapa Histórico dos Grupos Armados, dez. 2025, p. 31.

Nenhum comentário:
Postar um comentário