Augusto Cury deixou de ser apenas uma curiosidade da eleição presidencial. Por trás do escritor que cresceu rapidamente nas pesquisas existe uma chapa que combina um estreante com um veterano do Congresso, uma campanha até agora majoritariamente financiada pelo próprio candidato e um programa de 200 páginas que pretende conciliar responsabilidade fiscal, proteção social, empreendedorismo, saúde emocional e desenvolvimento. A questão agora é outra: esse conjunto forma um projeto capaz de governar o Brasil?
Há poucos dias, a principal pergunta sobre Augusto Cury era eleitoral.
Depois de aparecer durante meses entre os candidatos com poucos pontos percentuais, o que já era notável, eis que, no final de agosto, o escritor e psiquiatra saltou para 7,8% na AtlasIntel e 11% na BTG/Nexus. Na terça-feira, 1º de setembro, a Real Time Big Data encontrou novamente 11%.
O fenômeno justificou uma primeira análise: afinal, Cury realmente havia crescido ou estávamos diante de uma combinação passageira de efeito debate, redes sociais e diferenças metodológicas entre pesquisas?
Essa pergunta continua válida. Mas, talvez, já não seja suficiente.
A partir do momento em que um candidato começa a aparecer próximo dos dois dígitos, torna-se necessário fazer com ele aquilo que deveria ser feito com qualquer postulante à Presidência: olhar além da campanha, das redes sociais e das pesquisas.
Quem é a pessoa que pretende governar o país? Quem está ao seu lado? Qual é sua sustentação partidária? Quem financia sua campanha? E, principalmente, o que pretende fazer se chegar ao Palácio do Planalto?
No caso de Augusto Cury, essas perguntas revelam uma candidatura bem mais complexa do que sua imagem inicial de escritor transformado repentinamente em presidenciável.
Um outsider na cabeça da chapa
Augusto Jorge Cury tem 67 anos, é médico psiquiatra, escritor e professor e nunca exerceu cargo eletivo. Esta é sua primeira disputa eleitoral.
Sua candidatura é apresentada pelo Avante, dentro da coligação Brasil dos Nossos Sonhos, composta por Avante e Agir, conforme consta no registro eleitoral. A própria plataforma DivulgaCand da Justiça Eleitoral registra a coligação.
Essa condição ajuda a compreender parte de sua narrativa.
Cury procura apresentar-se como alguém exterior à polarização e às estruturas tradicionais da política. O lema que atravessa seu programa — “mente capitalista e coração social” — procura justamente construir uma identidade que não se deixe enquadrar integralmente nem na esquerda nem na direita.
Mas há uma peculiaridade.
Se o candidato a presidente é um outsider, seu vice está muito longe de sê-lo.
Júlio Delgado: a experiência política que Cury não possui
Júlio César Delgado é praticamente o inverso político de Augusto Cury.
Mineiro de Juiz de Fora, advogado, filho do ex-prefeito e ex-deputado federal Tarcísio Delgado, ele começou sua trajetória eleitoral ainda em 1994. Naquele ano, enquanto o pai disputava uma vaga no Senado pelo PMDB, Júlio concorreu pela primeira vez à Câmara dos Deputados. A própria imprensa da época registrou a candidatura simultânea de pai e filho.
Não se elegeu naquele primeiro momento.
Chegaria à Câmara como suplente em setembro de 1999. Depois, eleito em 2002, iniciaria uma longa sequência de mandatos. A biografia oficial da Câmara registra passagens em 1999-2000 e, sucessivamente, nas legislaturas iniciadas em 2003, 2007, 2011, 2015 e 2019.
Sua trajetória partidária também é significativa.
Começou no PMDB, passou pelo PPS — do qual chegou a ser líder em 2004 — e ingressou no PSB em 2005. Permaneceu durante vários mandatos no partido e ocupou posições de liderança. Em 2005, ganhou projeção nacional ao relatar no Conselho de Ética o processo contra José Dirceu.
Portanto, temos uma composição curiosa.
Cury oferece aquilo que Delgado não possui: enorme notoriedade nacional fora da política e uma imagem de novidade. Delgado, por sua vez, oferece aquilo que falta a Cury: experiência eleitoral, conhecimento do Congresso, trânsito partidário e décadas de convivência com a política institucional.
Isso não resolve o problema da governabilidade de uma eventual Presidência de Cury. Mas torna inadequado caracterizar toda a chapa simplesmente como uma aventura de outsiders.
O cabeça da chapa pode ser estreante.
A chapa não é.
Um candidato que também financia a própria campanha
Há outro elemento pouco discutido até agora.
Augusto Cury não chega à eleição apenas com independência em relação às carreiras políticas tradicionais. Possui também considerável autonomia financeira.
Na prestação disponível no DivulgaCand até 31 de agosto, sua campanha havia recebido R$ 217.062,00. Desse montante, R$ 150 mil vieram do próprio Augusto Cury, correspondendo a 69,10% das receitas registradas. O Avante havia contribuído com R$ 50 mil.
Cury era, portanto, naquele momento, o maior financiador individual da própria candidatura.
Isso se torna mais relevante quando observamos seu patrimônio declarado.
O candidato informou ao TSE possuir bens avaliados em aproximadamente R$ 242,3 milhões.
Há imóveis rurais e urbanos, participações societárias, aplicações financeiras e outros ativos. Entre os itens aparecem R$ 31,5 milhões relacionados à Fictor Invest, aproximadamente R$ 25,8 milhões em BDRs e um crédito superior a R$ 121 milhões relacionado à Filadélfia Nature Participações.
Isso não significa que esse patrimônio será colocado à disposição da campanha. O financiamento eleitoral possui regras e limites próprios. No entanto, significa que Cury possui capacidade financeira pessoal incomum entre candidatos vinculados a partidos de menor porte.
Uma campanha pequena — e profundamente digital
Existe, porém, um aparente paradoxo.
Apesar da fortuna declarada e do limite legal de gastos de quase R$ 89 milhões no primeiro turno, a campanha havia contratado até 31 de agosto somente R$ 54.662,10 em despesas.
E o destino desse dinheiro é revelador.
Nada menos que R$ 50 mil — 91,47% de todas as despesas registradas — foram destinados ao impulsionamento de conteúdos.
Esse dado deve ser interpretado cuidadosamente.
Não significa que a extraordinária circulação de vídeos de Cury seja explicada por R$ 50 mil de publicidade. Grande parte de sua exposição parece decorrer da reprodução orgânica de conteúdos e da atuação de apoiadores e influenciadores. O vice Júlio Delgado, inclusive, negou que a ascensão fosse artificialmente produzida e atribuiu o fenômeno ao desgaste da polarização e à notoriedade prévia do escritor.
Mas a prestação de contas revela uma prioridade inequívoca: até aquele momento, praticamente todo o dinheiro efetivamente gasto pela campanha havia sido direcionado à comunicação digital.
Não deixa de ser coerente com a maneira pela qual Cury entrou repentinamente no centro da disputa.
Mas existe um programa por trás da candidatura?
Aqui talvez esteja a maior surpresa.
Quem observasse apenas a campanha nas redes poderia imaginar que Cury fosse um candidato construído essencialmente em torno de frases sobre inteligência emocional, pacificação política e superação da polarização.
Seu programa é bem mais abrangente.
O Brasil dos Nossos Sonhos possui aproximadamente 200 páginas e organiza-se em grandes teses e 18 projetos, tratando de educação, neuroinclusão, mulheres, empreendedorismo, comunidades, Semiárido, turismo, agroindústria, cooperativismo, exportações, diplomacia econômica, fome, telessaúde, câncer, energias renováveis, minerais estratégicos, florestas e segurança.
Portanto, não estamos diante de um documento exclusivamente dedicado à saúde mental.
Há nele uma tentativa bastante ambiciosa de formular uma concepção de Estado.
“Mente capitalista e coração social”
A chave ideológica do documento aparece logo no início.
Cury rejeita a ideia de organizar o governo como expressão rígida da esquerda, do centro ou da direita. Sua fórmula é combinar valores sociais normalmente associados à esquerda com liberdade econômica, produtividade, meritocracia, responsabilidade fiscal e estabilidade institucional.
O próprio programa resume essa pretensão numa expressão que provavelmente será repetida muitas vezes durante a campanha: “mente capitalista e coração social”.
A fórmula pode parecer apenas eleitoral, mas o documento procura desenvolvê-la.
Ao discutir a direita, reconhece a importância da iniciativa privada, da responsabilidade fiscal e do mercado, mas critica a ideia de que todos partem das mesmas condições e, portanto, uma compreensão simplista da meritocracia.
Ao analisar a esquerda, reconhece a importância histórica da educação pública, das políticas sociais e da proteção aos vulneráveis, mas critica o excesso de burocracia, a hipertrofia estatal e aquilo que considera formas de patrulhamento ideológico.
É possível discordar dessa caracterização dos dois campos.
Todavia, existe uma conclusão importante: a tentativa de apresentar Cury como candidato exterior à polarização não surgiu depois de seu crescimento nas pesquisas. Ela está incorporada à própria arquitetura de seu programa.
Quando as ideias do escritor viram políticas públicas
Existe, entretanto, algo que diferencia profundamente esse programa dos documentos tradicionais apresentados por políticos profissionais.
Augusto Cury está por toda parte dentro dele.
Conceitos desenvolvidos durante sua carreira intelectual — gestão da emoção, prevenção psicológica, formação socioemocional, autorresponsabilidade e cultura da paz — deixam de ser apenas ideias presentes em livros e passam a aparecer como elementos de políticas públicas.
Isso confere ao programa uma característica autoral incomum.
Há uma vantagem nisso: o documento não transmite a impressão de ter sido simplesmente encomendado a consultores para preencher uma exigência eleitoral.
Mas existe também uma pergunta inevitável.
Até que ponto metodologias associadas à obra e à trajetória profissional do próprio candidato possuem evidências independentes suficientes para serem transformadas em políticas públicas nacionais?
Uma ideia pode ser interessante num livro, numa palestra ou numa experiência educacional específica.
Transformá-la em política para dezenas de milhões de brasileiros exige avaliação de resultados, protocolos, formação de profissionais, custos, fiscalização e mecanismos permanentes de acompanhamento.
Esse é um dos pontos que merecem maior escrutínio no programa.
Educação e saúde emocional no centro do projeto
Como seria previsível, educação e saúde mental ocupam espaço importante.
Cury parte de um diagnóstico de adoecimento emocional, especialmente entre crianças e jovens, e pretende ampliar prevenção, atendimento psicológico e formação socioemocional.
Essa talvez seja a parte em que a identidade profissional do candidato aparece com maior clareza.
O mérito do diagnóstico pode ser discutido a partir de evidências epidemiológicas e educacionais. Mas existe uma segunda pergunta, mais administrativa: como transformar essa prioridade em política federativa?
Grande parte da educação básica está sob responsabilidade de estados e municípios. O SUS também é descentralizado.
Portanto, não basta um presidente desejar inserir novas práticas nas escolas ou ampliar atendimento psicológico.
Seriam necessários financiamento, pactuação federativa, formação profissional, integração com políticas já existentes e definição clara das atribuições de União, estados e municípios.
Esse tipo de problema aparecerá repetidamente ao longo das 200 páginas.
O outro Cury: empreendedorismo e desenvolvimento
Talvez a maior surpresa do programa esteja fora da saúde emocional.
Existe nele um Augusto Cury desenvolvimentista.
O documento dedica grande espaço a empreendedorismo, crédito, cooperativismo, agroindústria, agregação de valor, exportações e desenvolvimento regional.
No projeto voltado ao empreendedorismo, aparecem a criação de milhares de clubes, uma Escola do Empreendedor e mecanismos de crédito de até R$ 20 mil com juros subsidiados.
Há ainda uma proposta interessante envolvendo beneficiários de programas de transferência de renda: evitar que a pessoa perca imediatamente a proteção social ao conseguir emprego ou iniciar uma atividade empresarial.
A lógica é impedir que a passagem da assistência para a autonomia econômica produza uma espécie de penalidade financeira imediata.
A retórica do programa em relação à dependência de programas sociais pode ser discutida criticamente. Mas a política de transição proposta toca num problema real: como fazer com que o aumento da renda seja sempre vantajoso para o beneficiário?
Regularizar cinco milhões de moradias
O programa para comunidades urbanas também combina diferentes políticas.
Cury propõe regularização fundiária, urbanização, empreendedorismo e crédito.
Uma das metas é particularmente ambiciosa: regularizar cinco milhões de moradias em dez anos, aproximadamente 500 mil por ano.
A proposta mostra outra característica recorrente do documento.
Embora seja apresentado como programa presidencial para um mandato de quatro anos, vários objetivos trabalham com horizontes de oito ou dez anos.
Isso pode ser entendido como visão de Estado de longo prazo. No entanto produz outra pergunta: o que exatamente seria entregue até 2030 e o que ficaria para governos posteriores?
Uma meta de dez anos não pode ser avaliada como compromisso de um único mandato sem que existam metas intermediárias.
Cooperativismo em escala nacional
Outra aposta pouco convencional é o cooperativismo.
O programa pretende aproximadamente dobrar o número de cooperados no país, chegando a 54 milhões, além de ampliar o número de cooperativas.
E não pensa apenas em cooperativas agrícolas.
O modelo aparece associado a tecnologia, habitação, saúde, educação, energia e outras atividades.
Há aqui uma concepção econômica interessante: Cury não contrapõe simplesmente Estado e grande empresa privada. Procura criar um terceiro espaço de organização econômica, baseado em pequenos empreendedores e estruturas cooperativas.
Novamente, a meta é enorme. E metas enormes precisam vir acompanhadas de instrumentos igualmente claros.
Semiárido, agroindústria e produção
O mesmo acontece na política para o Semiárido.
O documento propõe crédito de longo prazo, seguro rural, irrigação e expansão da agroindústria, chegando a mencionar 10 mil agroindústrias em oito anos.
Entre as metas mais ousadas estão dobrar a produção brasileira de alimentos em oito a dez anos e multiplicar por dez as exportações de frutas.
Esses objetivos demonstram ambição. Porém, também revelam um problema recorrente.
Dobrar produção não depende apenas de crédito. Precisa de infraestrutura, água, logística, armazenamento, energia, pesquisa agropecuária, mercados compradores, condições climáticas, licenciamento e produtividade.
Um programa de governo necessita mostrar como essas peças se conectam.
Embaixadas como instrumentos econômicos
Na política externa, aparece outra proposta pouco convencional.
Cury quer transformar as representações diplomáticas brasileiras também em instrumentos mais agressivos de promoção econômica, aproximando empresas brasileiras de compradores, investidores e mercados estrangeiros.
Durante entrevista ao Jornal Nacional, o candidato chegou a mencionar a utilização de influenciadores na promoção de produtos brasileiros e defendeu que o país deixe de funcionar apenas como exportador de commodities.
A ideia central é compreensível: utilizar a diplomacia também como instrumento de expansão comercial.
Mas novamente será necessário separar o slogan da política.
O Brasil já possui diplomacia comercial, ApexBrasil, adidos e mecanismos de promoção das exportações.
A pergunta é o que efetivamente mudaria na estrutura existente.
Terras raras e soberania econômica
Esse raciocínio fica particularmente claro quando o programa chega aos minerais estratégicos.
Cury defende que o Brasil deixe de simplesmente exportar determinados recursos minerais em estado bruto e procure atrair processamento, tecnologia e industrialização para dentro do país.
Aqui encontramos uma concepção de soberania econômica que se aproxima muito mais do desenvolvimentismo do que do liberalismo econômico clássico.
A lógica é simples: possuir a matéria-prima não basta; é necessário participar das etapas da cadeia que concentram tecnologia e maior valor agregado.
É uma discussão especialmente relevante no caso das terras raras e dos minerais utilizados em tecnologias avançadas, energia e defesa.
Nesse ponto, “mente capitalista e coração social” ganha uma terceira dimensão: Estado indutor de desenvolvimento estratégico.
O programa também quer mudar as instituições
As propostas, porém, não se limitam às políticas públicas.
Cury propõe alterações profundas no desenho institucional brasileiro.
O plano inclui mudanças no Supremo Tribunal Federal e também a adoção do semipresidencialismo. A proposta relativa ao STF envolve mandato temporário para ministros e alteração do modelo de escolha.
Aqui surge uma distinção fundamental.
Um presidente pode alterar prioridades administrativas.
Pode encaminhar projetos de lei. Mas não pode sozinho redesenhar o sistema de governo nem mudar estruturalmente o Supremo.
Essas propostas dependeriam de emendas constitucionais e, portanto, de maiorias qualificadas no Congresso.
E voltamos a Júlio Delgado.
O paradoxo da governabilidade
Talvez este seja o maior problema político de uma eventual Presidência de Cury.
Seu discurso contra a polarização pode conquistar eleitores.
Seu patrimônio pode proporcionar autonomia financeira à campanha.
Seu vice conhece profundamente o Congresso.
Seu programa pode apresentar propostas interessantes.
Mas presidentes governam com maiorias parlamentares.
Avante e Agir não possuem, sozinhos, força parlamentar remotamente suficiente para aprovar as grandes reformas previstas no programa.
Um eventual presidente Cury teria necessariamente de construir uma coalizão muito maior depois da eleição.
E isso produziria um paradoxo.
Para implementar um programa apresentado como alternativa às estruturas políticas tradicionais, Cury teria de negociar justamente com as estruturas partidárias tradicionais do Congresso Nacional.
A presença de Júlio Delgado talvez faça mais sentido quando observada sob essa perspectiva.
O vice pode funcionar como ponte entre um presidente outsider e um sistema político que conhece há décadas. Mas uma ponte não equivale a uma maioria.
E quanto custa o Brasil dos sonhos?
Chegamos então à pergunta talvez mais difícil.
O programa defende responsabilidade fiscal e equilíbrio das contas públicas. Ao mesmo tempo, propõe crédito subsidiado, ampliação de políticas sociais e educacionais, investimentos em ciência, tecnologia, saúde, desenvolvimento regional, industrialização e infraestrutura.
Essas coisas não são necessariamente incompatíveis. No entanto, precisam fechar contabilmente.
Alguns projetos apresentam possíveis fontes de recursos. Outros possuem metas quantitativas.
O que ainda falta em boa parte do documento é aquilo que transforma um conjunto de boas intenções em planejamento orçamentário: quanto custa, de onde vem o dinheiro, quanto será gasto em cada ano e qual política terá prioridade quando duas boas propostas disputarem o mesmo recurso?
Essa talvez seja a principal fragilidade do documento.
Não a ausência de ideias.
Ao contrário.
Há ideias demais.
Dezoito projetos — mas o que começa em 1º de janeiro?
Esse problema já apareceu em outros programas de governo analisados neste blog sobre os candidatos ao governo do Rio de Janeiro.
Um político pode apresentar centenas de propostas, mas um presidente precisa escolher prioridades.
Se Augusto Cury tomasse posse em 1º de janeiro de 2027, quais seriam suas primeiras cinco decisões?
Qual projeto entraria no Orçamento imediatamente?
Qual PEC seria enviada primeiro ao Congresso?
Qual programa começaria nos primeiros cem dias?
Qual promessa ficaria para 2028?
Qual dependeria de estados e municípios?
Qual seria abandonada se a situação fiscal fosse pior que a prevista?
É nesse ponto que existe uma diferença fundamental entre visão de país e plano operacional de governo.
O Brasil dos Nossos Sonhos apresenta com razoável clareza a primeira.
Ainda precisa demonstrar melhor a segunda.
Nem “nulidade”, nem estadista por antecipação
Nos últimos dias, a ascensão de Cury produziu reações igualmente rápidas.
Alguns passaram a tratá-lo quase como grande novidade capaz de romper definitivamente a polarização.
Outros procuraram desqualificá-lo como fenômeno artificial das redes sociais.
O sociólogo Marcos Coimbra chegou a defini-lo como uma “nulidade” politicamente perigosa.
Depois de ler seu programa, considero difícil sustentar uma análise tão simples.
Pode-se questionar a viabilidade de muitas propostas.
Pode-se apontar insuficiência de detalhamento financeiro.
Pode-se perguntar se determinadas metodologias associadas à obra do próprio Cury deveriam ser convertidas em políticas públicas.
Pode-se considerar excessivamente ambiciosas metas de produção, cooperativismo, regularização fundiária ou desenvolvimento regional.
Pode-se questionar seriamente como um presidente sustentado por partidos pequenos conseguiria aprovar reformas constitucionais dessa magnitude.
Entretanto, parece-me incorreto alguém afirmar que não exista conteúdo político a ser analisado.
Existe e bastante!
A questão é outra: qual é a qualidade, a coerência e a viabilidade desse conteúdo?
Da mesma forma, seria igualmente precipitado percorrer 200 páginas de propostas e concluir que Cury está totalmente preparado para governar o Brasil achando que ajustes não precisarão ser feitos depois.
Um programa extenso não produz automaticamente capacidade administrativa. Precisará de um choque de realidade.
Uma candidatura construída sobre quatro pilares
Depois de observar candidato, vice, partido, financiamento e programa, começa a aparecer uma arquitetura relativamente clara.
Augusto Cury oferece notoriedade, discurso, capacidade financeira e uma narrativa de ruptura com a polarização.
Júlio Delgado acrescenta experiência política, conhecimento parlamentar e trânsito institucional.
Avante e Agir oferecem a estrutura partidária suficiente para disputar a eleição, mas ainda muito distante da base parlamentar necessária para executar grande parte do programa.
E O Brasil dos Nossos Sonhos fornece uma visão programática extensa e bastante autoral, embora ainda existam dúvidas importantes sobre custos, prioridades, desenho de implementação e governabilidade.
Esses elementos tornam a candidatura mais interessante do que parecia quando Cury marcava 1% ou 2%. Mas também tornam as perguntas mais difíceis.
E agora a Quaest fará uma pergunta que estava faltando
Há uma curiosidade especialmente oportuna para encerrar esta análise.
No artigo anterior, publicado depois das pesquisas AtlasIntel e BTG/Nexus, observamos que havia uma informação surpreendentemente ausente.
Os institutos testavam Lula contra Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos no segundo turno.
Mas ninguém havia colocado Augusto Cury frente a frente com Lula.
A Real Time Big Data divulgada nesta terça-feira repetiu a omissão: encontrou Cury com 11% no primeiro turno, mas novamente não o incluiu nas simulações de segundo.
Isso está prestes a mudar.
A Quaest registrou uma nova pesquisa nacional que, pela primeira vez, inclui uma simulação direta de segundo turno entre Lula e Augusto Cury. O levantamento será divulgado nesta quarta-feira, 2 de setembro.
Não sabemos ainda o resultado.
E justamente por isso a pesquisa é interessante.
Se Cury tiver desempenho muito inferior ao de Flávio, Caiado ou outros adversários de Lula, teremos uma indicação de que seu crescimento de primeiro turno ainda não se converteu em percepção de viabilidade presidencial.
Se aparecer competitivo, a eleição ganhará uma variável inteiramente nova.
Mas há algo ainda mais significativo na simples existência dessa pergunta.
Há poucos dias, Augusto Cury era um candidato de 1% ou 2% que quase ninguém considerava necessário testar num segundo turno.
Agora, um dos principais institutos do país decidiu perguntar aos brasileiros o que fariam se a escolha final para presidente fosse entre ele e Lula.
Independentemente do resultado que conhecermos nas próximas horas, isso mostra quanto a candidatura mudou de patamar em poucos dias.
E, talvez, seja justamente por isso que chegou a hora de analisá-la para além das pesquisas.
Porque, se Augusto Cury pretende ser tratado como alguém que pode governar o Brasil, a pergunta daqui para frente não deve ser apenas quantos votos ele tem. Deve ser também: que Brasil ele pretende construir, com quem pretende governá-lo, quanto esse projeto custaria — e se as ideias apresentadas em 200 páginas conseguiriam sobreviver ao encontro muito mais difícil com o Orçamento, o Congresso e a realidade.

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