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sábado, 25 de julho de 2026

Ensina-nos a Contar os Nossos Dias: uma leitura do Salmo 90 para o século XXI



O Salmo 90 costuma ser lembrado em momentos de despedida. Frequentemente é lido em funerais por causa de sua profunda reflexão sobre a brevidade da vida. No entanto, limitar esse texto a uma mensagem sobre a morte talvez seja reduzir seu verdadeiro alcance. O Salmo 90 é, acima de tudo, uma oração dirigida aos vivos. Não procura ensinar como morrer, mas como viver.

Tradicionalmente atribuído a Moisés, o salmo adquire um significado ainda mais profundo quando lido à luz da travessia do deserto. O homem que conduzira Israel para fora da escravidão egípcia contempla uma geração inteira desaparecer antes de alcançar a Terra Prometida. Não se trata apenas de uma constatação sobre a mortalidade humana. Trata-se da experiência dolorosa de ver uma comunidade perder de vista o propósito de sua caminhada.

É nesse contexto que encontramos um dos versículos mais conhecidos de toda a Bíblia: "Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio" (versículo 12).

Durante muito tempo compreendi esse verso apenas como um convite para lembrar que a vida é curta. Mas, ao aprofundar sua leitura, percebi que o autor parece pedir algo muito maior.

O texto hebraico utiliza o verbo manah, que, literalmente, significa "contar", "enumerar". Porém, nas Escrituras, contar raramente significa apenas calcular números. Trata-se de reconhecer o valor daquilo que se conta. 

Segundo as Escrituras, Deus conta as estrelas porque cada uma lhe é conhecida. Assim, "contar os nossos dias" pode significar o reconhecimento de que cada dia recebido possui valor e finalidade.

Outro detalhe chama atenção: o salmista fala em dias, não em anos.

A vida não é apresentada como um grande bloco de tempo, mas como uma sucessão de dias confiados ao homem. A sabedoria, portanto, não nasce da quantidade de aniversários, mas da maneira como cada dia é vivido.

Talvez possamos traduzir o espírito do versículo da seguinte forma: "Senhor, ensina-nos a dar verdadeiro valor aos dias que nos confiaste, para que adquiramos um coração sábio".

Essa compreensão torna-se ainda mais rica quando voltamos ao contexto da Torá, correspondente aos cinco primeiros livros da Bíblia hebraica, conhecidos pelos cristãos como o Pentateuco.

A geração de israelitas que saiu do Egito recebeu uma missão extraordinária: tornar-se um povo livre, construir uma sociedade fundada na justiça da aliança e alcançar a terra prometida. Contudo, por repetidas vezes, aquelas pessoas desejaram retornar ao Egito, murmuraram e perderam a confiança na própria caminhada.

Nesse sentido, o erro daquela geração simbólica não foi apenas desobedecer. Foi perder o alvo.

É interessante lembrar que uma das principais palavras hebraicas para pecado deriva da raiz chata', cujo significado original é "errar o alvo". Antes de ser um conceito religioso, a palavra descrevia alguém que falhava em atingir o objetivo.

Talvez seja justamente essa a grande tragédia da geração do deserto: desperdiçar os dias que lhe foram concedidos porque deixou de compreender a finalidade da própria existência.

Essa reflexão ultrapassa a história do Israel bíblico pois cada geração corre o mesmo risco.

Também podemos atravessar a vida ocupados, produtivos, informados e, ainda assim, perder o verdadeiro sentido da caminhada.

O Salmo 90 parece responder que a sabedoria consiste justamente em evitar esse desperdício.

Ela não nasce do medo da morte, mas surge da consciência de que cada dia possui um propósito.

As próprias Escrituras oferecem exemplos dessa sabedoria.

Abraão não é lembrado porque teria vivido muitos anos, mas porque respondeu com fé ao chamado de partir para uma nova terra.

José transformou anos de sofrimento em instrumento de salvação para sua família.

Bezalel glorificou Deus não através do sacerdócio, mas do trabalho artesanal na construção do Tabernáculo.

Rute encontrou grandeza na fidelidade cotidiana.

Os profetas ensinaram que dias bem vividos são aqueles dedicados à justiça, à misericórdia e ao cuidado com o próximo.

Em todos esses casos, o tempo encontra sentido porque está orientado para uma vocação.

É curioso perceber como essa antiga oração dialoga com pensadores muito posteriores.

Sêneca escreveu que a vida não é curta; nós é que desperdiçamos boa parte dela.

Marco Aurélio aconselhava viver cada dia como se fosse completo em si mesmo.

Pascal observou que raramente vivemos o presente, pois estamos sempre esperando viver.

Heidegger afirmou que somente a consciência da finitude pode conduzir a uma existência autêntica.

Viktor Frankl ensinou que o ser humano suporta quase qualquer sofrimento quando encontra um propósito para viver.

Cada um deles, à sua maneira, aproxima-se da pergunta feita pelo Salmo 90: o que faz um dia valer a pena?

A diferença é que o autor responde essa pergunta a partir da relação entre Deus, a pessoa e a comunidade.

Isso também aparece num detalhe frequentemente esquecido.

O salmista não diz: "Ensina-me". Ele fala: "Ensina-nos".

Observem que a oração é coletiva.

Por sua vez, a sabedoria pedida não é apenas individual. Aliás, ela busca a transformação de uma comunidade inteira.

Se o pedido é coletivo, suas consequências também o são. Uma sociedade que aprende a "contar os seus dias" preserva sua memória, educa as novas gerações para a cidadania, planeja políticas públicas que ultrapassam o imediatismo e compreende que governar não é apenas administrar o presente, mas preparar um futuro mais justo para aqueles que ainda virão.

Essa perspectiva também amplia nossa responsabilidade. Contar bem os nossos dias significa reconhecer que o tempo que recebemos não nos pertence exclusivamente. Somos depositários e administradores de um patrimônio natural, cultural e institucional que deverá ser transmitido às gerações futuras em condições melhores — ou, ao menos, não piores — do que aquelas que encontramos.

Uma geração que aprende a contar seus dias também aprende a contar sua história, a cuidar de suas instituições e a preservar as condições para que as próximas gerações possam escrever novos capítulos dessa mesma história.

Talvez esse seja um dos maiores desafios da humanidade na primeira metade do século XXI.

Vivemos mais tempo do que as gerações anteriores. Produzimos conhecimento em quantidade jamais imaginada. E desenvolvemos tecnologias capazes de conectar praticamente todo o planeta.

Entretanto, apesar de todos esses avanços, ainda permanecem perguntas fundamentais:


- Estamos realmente utilizando bem os dias que recebemos?

- Confundimos velocidade com direção?

- Confundimos informação com sabedoria?

- Confundimos produtividade com propósito?


O Salmo 90 continua atual porque não mede a vida pela quantidade de anos nem pelo volume de realizações.

Ele pergunta se aprendemos a viver cada dia de modo que nossa existência contribua para algo maior do que nós mesmos.

Seu último pedido resume admiravelmente essa esperança: "Confirma sobre nós a obra das nossas mãos".

Essa talvez seja a resposta definitiva do salmo.

Dias bem contados não são simplesmente dias ocupados.

São dias que constroem uma obra digna de permanecer.

Uma obra que beneficia a comunidade e deixa um legado honroso para as gerações futuras.

Talvez seja essa a verdadeira sabedoria pedida pelo salmista.

Não sabemos quantos dias ainda teremos. Porém , devemos viver os dias que nos foram confiados com consciência, propósito e responsabilidade.

Porque, ao final, a Vida talvez não nos perguntará quantos dias vivemos, mas o que fizemos com os dias que Dela recebemos.

Enfim, creio que, independente de qualquer crença, o Salmo 90 permanece atual porque continua nos fazendo a mesma pergunta feita há milênios: estamos apenas deixando os dias passarem ou estamos, de fato, aprendendo a contá-los?


📝 Nota do autor:

A interpretação apresentada neste artigo resulta de uma leitura pessoal do Salmo 90 em diálogo com a tradição judaica, a filosofia e a literatura sapiencial.

Entre os comentaristas judeus medievais, Rashi entende que "contar os nossos dias" significa reconhecer a brevidade da vida para alcançar a sabedoria, chegando inclusive a relacionar, por meio da guematria, a palavra hebraica ken ("assim") ao número setenta, em referência ao versículo seguinte. Ibn Ezra, por sua vez, enfatiza que a consciência da limitação dos dias conduz o ser humano a viver com prudência e discernimento. O Midrash Tehillim, ao comentar o Salmo 90, ressalta a fragilidade humana diante da eternidade de Deus e a necessidade permanente de retorno (teshuvá) e de uma vida orientada pela sabedoria.

Na filosofia clássica, Sêneca, em Da Brevidade da Vida, observa que a vida não é necessariamente curta; frequentemente somos nós que desperdiçamos grande parte dela. Séculos depois, Santo Agostinho, nas Confissões, refletiria sobre o mistério do tempo e a importância do presente como espaço onde a existência humana efetivamente se realiza. Já no século XX, Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, demonstrou que o ser humano suporta até mesmo o sofrimento quando encontra um sentido para sua existência.

Embora pertençam a contextos históricos e culturais distintos, essas leituras convergem em um ponto essencial: a verdadeira sabedoria não consiste em conhecer quantos dias ainda teremos, mas em compreender o valor dos dias que nos são confiados. A reflexão desenvolvida neste artigo procura dialogar com essa tradição, propondo que o Salmo 90 seja lido não apenas como uma meditação sobre a brevidade da vida, mas como um convite permanente a viver cada dia com propósito, responsabilidade e consciência do papel que cada pessoa desempenha na construção da comunidade e da história.

Por fim, quanto à atribuição do Salmo 90 a Moisés, não se desconhece o debate crítico-histórico, no qual parte da pesquisa bíblica sustenta uma composição posterior ou um uso litúrgico da tradição mosaica. Este artigo, contudo, não depende da solução dessa questão, pois sua proposta é refletir sobre o significado do texto tal como foi transmitido pela tradição bíblica e recebido pelas comunidades de fé ao longo dos séculos.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Abraão, a tolerância e o limite constitucional da fé no espaço público

 


A figura de Abraão ocupa um lugar singular na história das religiões. Reverenciado por judaísmo, cristianismo e islamismo, ele é, ao mesmo tempo, ponto de convergência espiritual e fonte de disputas interpretativas. Essa ambivalência, longe de ser apenas teológica, projeta efeitos concretos no debate contemporâneo sobre tolerância religiosa — especialmente quando deslocada para o campo institucional e constitucional.

A questão central não é saber quem é o “verdadeiro herdeiro de Abraão”, mas compreender como essa disputa simbólica repercute em sociedades pluralistas, organizadas sob a égide do Estado de Direito.


O paradoxo abraâmico: entre convivência e exclusividade

A tradição narrativa apresenta Abraão como alguém inserido em um ambiente cultural plural, marcado pela coexistência de diferentes crenças e práticas religiosas. Sua trajetória, descrita como deslocamento — geográfico, cultural e espiritual — permite uma leitura que o aproxima da ideia de abertura ao outro.

Ao mesmo tempo, porém, Abraão é apropriado por tradições que afirmam a existência de uma verdade revelada única e definitiva. Esse duplo movimento — abertura existencial e fechamento dogmático — constitui o que se pode chamar de paradoxo abraâmico.

Não se trata de uma contradição do personagem histórico-religioso, mas da pluralidade de interpretações que dele derivam. E é precisamente nesse ponto que o debate contemporâneo se desloca da teologia para o direito.


Religião, identidade e poder: a gênese da intolerância

A intolerância religiosa, no mundo atual, raramente decorre da experiência individual da fé. Ela emerge, com maior frequência, quando a religião passa a operar como instrumento de identidade coletiva rígida e, sobretudo, de poder.

Quando a figura de Abraão é mobilizada como fundamento de exclusividade — “nós somos os verdadeiros herdeiros” — ela deixa de ser um elemento de convergência e passa a funcionar como linha de demarcação. O outro não é apenas diferente; torna-se ilegítimo.

Esse fenômeno não é novo, mas assume contornos mais sensíveis em sociedades que, como a brasileira, são marcadas por intensa diversidade religiosa. A tensão, portanto, não reside na fé em si, mas na tentativa de sua projeção normativa sobre o espaço público.

Ainda que a figura de Abraão seja central para as tradições monoteístas, o fenômeno da tensão entre religião e tolerância não lhes é exclusivo. Em contextos diversos, como no Hinduísmo contemporâneo, também se observam processos de afirmação identitária com reflexos políticos, ao passo que, no Brasil, experiências como a do Espiritismo ilustram formas mais integrativas de convivência religiosa. A questão, portanto, não reside em uma tradição específica, mas na forma como sistemas de crença se relacionam com estruturas de poder e identidade coletiva.


O ponto de inflexão constitucional

É nesse contexto que a Constituição assume papel decisivo. A ordem constitucional brasileira, estruturada a partir da liberdade religiosa e da laicidade estatal, estabelece um limite claro: a fé é livre, mas não pode ser imposta.

A liberdade de crença, de culto e de organização religiosa convive com outro princípio igualmente essencial: a igualdade. Nenhuma convicção religiosa pode justificar a exclusão de direitos, a discriminação ou a restrição de liberdades alheias.

Sob essa perspectiva, o problema da intolerância religiosa deixa de ser uma questão interna às tradições de fé e passa a ser um tema de controle jurídico do poder.

O uso de fundamentos religiosos — sejam eles inspirados em Abraão ou em qualquer outra figura — não é, por si só, ilegítimo no debate público. O que a Constituição veda é a sua transformação em critério de imposição normativa unilateral.

Nesse cenário, a laicidade assume contornos distintos conforme o modelo constitucional adotado. No Brasil, consolidou-se uma forma de laicidade aberta ou cooperativa, que não exclui a religião do espaço público, mas impede sua imposição. Diferentemente, o modelo francês, historicamente associado à Lei de 1905, estrutura-se a partir de uma separação mais rígida entre Estado e manifestações religiosas. A distinção é relevante: enquanto a laicidade brasileira admite a presença da religião no debate público, ela condiciona essa presença ao respeito incondicional à igualdade e à liberdade de todos.

A experiência brasileira recente demonstra que a tensão entre fé e espaço público não é meramente teórica. No julgamento da ADI 4439, o Supremo Tribunal Federal admitiu o ensino religioso confessional nas escolas públicas, desde que de matrícula facultativa, evidenciando a delicada tarefa de compatibilizar liberdade religiosa e neutralidade estatal. Em paralelo, episódios recorrentes de intolerância contra religiões de matriz africana revelam que o desafio não está apenas na arquitetura normativa, mas na efetividade dos direitos fundamentais, sobretudo quando minorias religiosas se veem expostas a práticas discriminatórias no cotidiano.


A releitura necessária: de exclusividade a coexistência

A chave para uma convivência plural não está na neutralização das identidades religiosas, mas na sua reinterpretação à luz do espaço público compartilhado.

Nesse sentido, a figura de Abraão permite uma leitura compatível com o constitucionalismo contemporâneo: não como proprietário de uma verdade exclusiva, mas como símbolo de uma experiência de deslocamento — alguém que constrói sua fé em meio à diversidade, e não apesar dela.

Essa releitura não exige renúncia à crença, mas impõe um deslocamento de perspectiva: da afirmação de superioridade para a aceitação da coexistência.


Tolerância como exigência jurídica, não concessão moral

A doutrina constitucional tem enfatizado essa dimensão estrutural da liberdade religiosa. Para J. J. Gomes Canotilho, os direitos fundamentais operam como limites ao exercício do poder, inclusive quando este se apresenta sob fundamentos culturais ou religiosos. No mesmo sentido, Ingo Wolfgang Sarlet destaca que a dignidade da pessoa humana impõe a vedação de práticas discriminatórias, ainda que legitimadas por convicções de natureza moral ou espiritual.

A tolerância religiosa, em sociedades democráticas, não é uma virtude opcional. É uma exigência jurídica.

O Estado não pode arbitrar verdades religiosas, mas deve impedir que qualquer delas se converta em instrumento de opressão. Isso significa, em termos concretos, assegurar que o espaço público permaneça aberto a todos — inclusive àqueles que não compartilham da mesma fé.

A invocação de Abraão, portanto, só é compatível com a ordem constitucional quando não se traduz em pretensão de hegemonia.


Conclusão

A figura de Abraão permanece atual não por oferecer respostas prontas, mas por evidenciar uma tensão permanente: a convivência entre identidade e pluralismo.

No plano teológico, essa tensão pode ser resolvida de múltiplas formas. No plano constitucional, contudo, há um limite intransponível: nenhuma fé, por mais legítima que seja, pode se sobrepor à liberdade do outro.

Se há uma contribuição possível de Abraão para o mundo contemporâneo, ela talvez resida menos na afirmação de uma verdade e mais na lembrança de que toda fé autêntica começa com um deslocamento — inclusive o deslocamento em direção ao outro.


📷: Os Livros da Bíblia, edição alemã, 1908 / Efraim Moisés Lilien (1874–1925)

domingo, 10 de agosto de 2025

A glória dos filhos



A citação abaixo, presente nas Estruturas Sagradas, destaca a importância da família, tanto para os mais jovens quanto em relação aos mais velhos:


"Os filhos dos filhos são uma coroa para os idosos, e os pais são o orgulho dos seus filhos" (Provérbios 17:6; NVI)


Os netos são uma honra e alegria para os avós, enquanto os pais são motivo de orgulho para os filhos.


Certamente para os mais velhos é confortador ver a continuidade da família enquanto que os filhos podem encontrar nos seus pais uma fonte de sabedoria e exemplo de dignidade.


Talvez seja isso um ideal, mas que nem sempre reflete a realidade, principalmente quando, por algum motivo, pais se sentem desgostosos com os seus descendentes e os filhos decepcionados com os pais. As mágoas, a perda do diálogo, o abandono, e tantas outras situações transtornam as relações familiares.


Todavia, não existe nenhum relacionamento humano perfeito e, através do perdão, podemos escrever uma nova história.


O significado do quarto mandamento, sobre honrar pai e mãe, o qual considero via de mão dupla, abrange atitudes de respeito, de gratidão e de assistência. É reconhecer a dignidade e a importância do nosso pai, o que todo ser humano sempre tem, mesmo com suas falhas.


Aos pais sempre deveremos a vida e a atitude de reverência ultrapassa a figura dos que foram apenas os nossos genitores. Demais ancestrais, tutores, professores, os líderes da comunidade religiosa e tantas outras pessoas na nossa caminhada se tornam também destinatários dessa atenção fundamental.


Curiosamente, o quarto mandamento nos comunica uma espécie de benção ou recompensa por honrarmos os nossos pais e aí encontro uma resposta interessante para podermos superar qualquer obstáculo afetivo que cause embaraço nas relações familiares. Pois termos a atitude certa para com eles simplesmente nos fará bem sendo a longevidade prometida, assim como ser bem sucedido na vida, neste caso conforme a versão de Deuteronômio, expressões de um benefício a nós mesmos.


Portanto, devemos encarar o dia de hoje, mesmo se tratando de uma data explorada pelo comércio, como uma oportunidade de praticar o amor quanto aos nossos pais. Aceitemos como eles são, buscando reconhecer o que têm de positivo, perdoando, cuidando, sempre tentando dialogar e quem sabe até surpreender com atitudes inesperadas.


Um feliz dia dos pais a todos e tenhamos um domingão abençoado.

domingo, 27 de julho de 2025

São essas as nossas armas!



Quase vinte anos depois, a camisa que usamos num retiro eclesiástico em Nova Friburgo, na primeira década do século XXI, chegou aos seus últimos dias de uso já desbotada e rasgada. 


Imitando um uniforme de treinamento militar na selva, havia as seguintes palavras estampadas juntamente com a figura de um soldado: "GUERREIROS DE CRISTO ARMADOS PARA AMAR". Certamente é algo que geraria divisão nos dias de hoje com as igrejas contaminadas pelo bolsonarismo mas, na época, ninguém naquele evento pensava literalmente nas armas humanas, exceto como metáforas dos recursos espirituais dos quais o apóstolo Paulo teria escrito em sua epístola aos cristãos da cidade de Éfeso:


"Finalmente, sejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Vistam‑se de toda a armadura de Deus para poderem ficar firmes contra as ciladas do Diabo, pois a nossa luta não é contra sangue e carne, mas contra os poderes e as autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas e contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais. Por isso, vistam‑se de toda a armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis depois de terem feito tudo. Assim, permaneçam firmes, cingindo‑se com o cinto da verdade, vestindo‑se com a couraça da justiça e tendo os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz. Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno. Usem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Orem no Espírito em todas as ocasiões, com toda oração e súplica. Tendo isso em mente, estejam atentos e perseverem na oração por todos os santos." (Ef 6:10-18; NVI)


Curioso como valores como a verdade, a justiça, as boas novas da paz, a fé, a salvação, a mensagem divinamente inspirada e as orações se tornam armamentos num campo de batalha que não é como uma guerra entre tropas, milícias ou facções, porém numa disputa que ultrapassa até os limites da ideologia. Ou seja, é a luta por um ambiente regido pelos princípios superiores da vida, metaforicamente os valores do Reino dos Céus, ou de Deus.


Apesar de muitos verem a Igreja como instituição conservadora, não creio ter sido este o desejo de Jesus que em momento algum tentou manter o sistema de injustiças de sua época que se perpetua até hoje com novas faces. E o Mestre propôs transformar o ser humano de dentro para fora, trabalhando a ética e não a moral social, de maneira que a justiça seria alcançada não pela observância literal da Lei e sim pelo exercício do amor ao próximo.


Hoje em dia, como já dito, temeria pelo uso de uma estampa dessas num evento religioso para que alguns irmãos na fé não deturpassem a mensagem como se Jesus fosse apoiador do armamento defendido pelos bolsonaristas. Contudo, o texto bíblico é excelente para curar a Igreja nesses dias de cegueira espiritual e nos conduzir de volta à essência do Evangelho.


Ótima semana a tod@s!

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Qual a importância da oração?



Podemos afirmar que oração seja uma forma de cultivar a nossa espiritualidade e a relação com o Divino.


Vale ressaltar que a Bíblia menciona várias orações consideradas agradáveis a Deus e uma das mais conhecidas é encontrada em Salmos 51:17, atribuído a rei Davi quando se arrependeu de seus erros:


"O sacrifício que Deus aceita é um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, tu não o desprezarás."


Essa oração destaca a importância de um coração humilde e arrependido. 


Além disso, outros versos sobre orações:


- Orações de gratidão e louvor (Salmos 100:4-5)


- Orações de arrependimento e confissão (1 João 1:9)


- Orações de intercessão e amor ao próximo (1 Timóteo 2:1-4)


- Orações de adoração e reverência (Hebreus 13:15-16)


Tem também o tão festejado"Pai Nosso" em que Jesus mostrou num só poema incluso no célebre Sermão da Montanha sobre como se deve orar, o que vai além da tradicional reza dos cultos religiosos. Nada contra que as palavras sejam repetidas, mas acho a meditação sobre essa oração de maior valor.


Em todo caso, as Escrituras Sagradas do cristianismo ensinam que a oração deve ser feita com sinceridade, humildade e fé.


Por fim, ainda no Sermão do Monte, Jesus ensinou que Deus ouve e responde às orações de seus filhos (Mateus 7:7-11). Isso para mim não significa que a resposta será exatamente como queremos e, por certo, as maiores dádiva serão o aprendizado e crescimento pessoal, de modo que o texto a seguir compartilhado, a qual recebi hoje num grupo de WhatsApp, vem ao encontro de que o objetivo de orar não deve ser o ganho material:


"Certa vez perguntaram a um sábio:

- O que você ganha orando à DEUS regularmente?

Ele respondeu: 

- Geralmente não ganho nada, mas sim, perco coisas. 

E ele citou o que perdeu orando à DEUS regularmente:

- Perdi o orgulho, perdi a arrogância, perdi a ganância, perdi a inveja, perdi a minha raiva, perdi a luxúria, perdi o prazer de mentir, perdi o gosto pelo pecado, perdi a impaciência, o desespero."



Ótimo sábado a tod@s!

domingo, 23 de junho de 2024

Uma breve oração do salmista diante de uma situação que lhe causava perturbação e angústia


 

"1 Apressa-te, ó Deus, em me livrar; SENHOR, apressa-te em ajudar-me. 2 Fiquem envergonhados e confundidos os que procuram a minha alma; voltem para trás e confundam-se os que me desejam mal. 3 Virem as costas como recompensa da sua vergonha os que dizem: Ah! Ah! 4 Folguem e alegrem-se em ti todos os que te buscam; e aqueles que amam a tua salvação digam continuamente: Engrandecido seja Deus. 5 Eu, porém, estou aflito e necessitado; apressa-te por mim, ó Deus. Tu és o meu auxílio e o meu libertador; Senhor, não te detenhas." (Salmo 70)


Quem é que não se sente ansioso diante das multidões de problemas que todos enfrentamos em nosso cotidiano?!


Não raramente, muitos de nós perde até o sono ao lidar com as suas preocupações (e insatisfações) com a vida, a ponto de passar uma noite inteira em claro. E admitir isso é algo que considero totalmente humano, o que não diminui em nada seja quem for.


Outro dia eu estava me sentindo ansioso e, com a indicação do "pastor" Google, fui ler o Salmo 70 citado acima que, com toda a sinceridade, me acalmou bem.


Se pesquisarmos acerca do contexto de Davi e de outros salmistas da Bíblia, veremos que os caras eram guerreiros, possuíam adversários que tentavam lhes tomar o reino, os bens, a liberdade e até a vida. Nos seus valores religiosos e culturais, cerca de mil anos antes de Jesus anunciar ao mundo o Evangelho da Paz, era aceitável o homem orar para que os seus inimigos fossem destruídos pelo auxílio de Deus, inclusive praguejando contra eles.


Não sabemos se o salmista estava sendo ameaçado por alguém, fugindo dos adversários ou se preparando para mais uma batalha contra os inimigos do seu povo. Certo é que ele se lança em Deus e faz isso com intensidade.


Certamente que uma vida com fé pode ajudar o ser humano a enfrentar melhor os desafios no sentido de organizar a mente e todo o seu interior para as batalhas que atingem o psicológico de cada um.


Nos dias de hoje, nossas guerras não ocorrem num campo aberto de batalha, ainda mais com uso de espadas, lanças ou flechas que são armas já ultrapassadas. Num contexto social de relações bem instáveis, enfrentamos situações que nos induzem ao medo, quer seja do desemprego, da falta de amparo social, das doenças graves, dos males que podem atingir as pessoas mais próximas pelas quais nos sentimos responsáveis, ou de outras perdas.


Contudo, independentemente da crença num Deus interventor das relações humanas, questão acerca da qual muitas das vezes me debato indagando sobre as crenças que são construídas, acho válido quando qualquer pessoa pede o auxílio divino em seu favor. Pois, mesmo que nada ocorra fora de nós, a oração tem o seu benéfico efeito para nos fortalecer interiormente diante das aflições.


Que a nossa semana seja de muitas vitórias nas batalhas enfrentadas!

Cuidado com as más interpretações!


 

"Tenham em mente que a paciência de nosso Senhor significa salvação, como também o nosso amado irmão Paulo lhes escreveu, com a sabedoria que Deus lhe deu. Ele escreve da mesma forma em todas as suas cartas, falando nelas destes assuntos. Suas cartas contêm algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e instáveis torcem, como também o fazem com as demais Escrituras, para a própria destruição deles. Portanto, amados, sabendo disso, guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a sua firmeza e caiam." (2 Pedro 3:15-17; NVI) 


Neste primeiro domingo do inverno, estava a refletir sobre o quanto a Bíblia é frequentemente distorcida e usada até para o mal. Resolvi justamente ler o primeiro capítulo da primeira das epístolas do apóstolo Paulo do Novo Testamento, isto é, a carta aos romanos, quando então a lembrança sobre a advertência acima de Pedro me veio à mente.


Para quem não sabe, Romanos 1 é costumeiramente utilizado pelos fundamentalistas cristãos para incutir homofobia juntamente com a intolerância religiosa, bem como a apresentação de um deus irascível. Senão vejamos o que dizem os versos 18 a 32, segundo a Nova Versão Internacional:


"Portanto, a ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. Por isso Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos dos seus corações, para a degradação dos seus corpos entre si. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém. Por causa disso Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão. Além do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam. Tornaram-se cheios de toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação. Estão cheios de inveja, homicídio, rivalidades, engano e malícia. São bisbilhoteiros, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos; inventam maneiras de praticar o mal; desobedecem a seus pais; são insensatos, desleais, sem amor pela família, implacáveis. Embora conheçam o justo decreto de Deus, de que as pessoas que praticam tais coisas merecem a morte, não somente continuam a praticá-las, mas também aprovam aqueles que as praticam."


De acordo com o que certos "pastores" pregam sobre esse texto, o fato dos povos pagãos terem passado a adorar imagens de homens e de animais no lugar do Criador fez com que tais pessoas se tornassem homossexuais, como uma espécie de castigo, numa substituição do sexo destinado à procuração por relações "contrárias à natureza", passando também a cometer diversos tipos de pecados também. Ou seja, as religiões não cristãs (ou não monoteístas) são associadas à homossexualidade por certos "intérpretes" das Escrituras Sagradas. 


Certamente a homofobia sempre esteve presente nas culturas de todos os povos em maior ou menor grau, inclusive naquelas em que os atos homossexuais não eram criminalizados como na democrática Atenas em que o filósofo Sócrates (c. 470 a.C. – 399 a.C.) foi acusado de pederastia e de não acreditar nos deuses, além de conspirar contra o Estado. Na ocasião, o júri popular o condenou a se exilar para sempre, ou a lhe ser cortada a língua, impossibilitando-o assim de ensinar aos demais. Caso se negasse, o sábio professor seria morto, o que acabou sendo a sua opção.


Inegavelmente, o nível de homofobia na antiga Grécia deveria ser bem menor do que numa sociedade monoteísta antiga ou moderna, a exemplo do que se ouve falar hoje do Irã, da Arábia Saudita, do Iêmen, do Sudão ou do terrível Afeganistão do regime dos Talebãs. Sei que esses são países muçulmanos, mas não podemos ignorar que, em tempos passados, o mundo cristão não foi muito diferente da realidade atual do complicado Oriente Médio.


Outrossim, jamais podemos esquecer de que a homofobia e a intolerância religiosa costumam andar de braços dados ainda que o sentimento pessoal de repulsa às relações sexuais que não nos agradam possa surgir espontaneamente sem qualquer inspiração ideológica, devendo ser respeitado como a liberdade pessoal de cada um. Com isso, nada mais eficaz para promover o mal do que um fazedor de prosélitos associar as religiões adversárias com os atos homossexuais, os quais a ampla maioria das pessoas não se interessa em praticar.


No meu ponto de vista, até a leitura de Romanos 1, como de outras partes da Bíblia, requer a assistência de um teólogo para evitar que, através de uma interpretação literal, o próprio leitor acabe chegando a conclusões equivocadas e muitas das vezes até preconceituosas.


Ora, será que numa sociedade puramente monoteísta também não existem homossexuais que nunca dobraram os seus joelhos diante de qualquer escultura de deuses ou de santos?!


Sinceramente, se os credos não cristãos fossem a causa da homossexualidade, as igrejas evangélicas brasileiras não estariam cheias de crentes vivendo "atrás do armário" e que jamais foram a um culto politeísta ou sincrético e nem tão pouco rezaram a "Ave Maria" durante a infância como oram os católicos considerados pelos tais como "idólatras". Logo, só o fato de existirem gays (e lésbicas) nos meios religiosos cristãos, judeus e islâmicos já faz cair por terra a alegada relação entre a adoração pagã e as minoritárias preferências pelas relações homossexuais numa sociedade.


Logicamente que os escritos sagrados nunca devem ser vistos como obras perfeitas uma vez que os seus autores foram humanos e falhos. Mesmo que os consideremos divinamente inspirados, esses escritores tinham suas limitações, estavam sob certo aspecto submetidos aos valores de uma determinada cultura bem como à moral dos homens da época.


Quanto à carta de Paulo aos romanos, eu a tenho como uns dos mais belos ensinos sobre a graça de Deus em toda a Bíblia! Em momento algum o objetivo do autor foi instigar o preconceito contra homossexuais ou no tocante aos povos pagãos, mas, sim, demonstrar que todos os seres humanos, independentemente da condição na qual se encontram, são carecedores dessa infinita graça do bendito Criador.


Dentro do contexto da epístola, podemos muito bem indagar sobre que vantagem possui o hétero em relação ao gay? E onde estaria a superioridade da pessoa nascida num lar eclesiástico para os homens ou mulheres oriundos de uma família não cristã?!


Por certo, meus amigos, o desvio das boas condutas sempre nos tornará inúteis à humanidade e aos propósitos mais elevados de vida. Porém, pouco importa qual a nossa condição étnica, cultural, jurídica, moral, de gênero ou de orientação sexual uma vez que recebemos uma total compreensão da graça universal expressa pelo amor de Cristo Jesus a ponto de sermos amplamente aceitos ou compreendidos, sem nada termos a oferecer.


Desse modo, para uma melhor compreensão de Romanos, considero melhor ler a epístola de Paulo em seu contexto, sem nada concluir sem antes terminar de estudar os capítulos seguintes. E, quanto às interpretações bíblicas em geral, estas precisam ser cristocêntricas, tendo o princípio do amor como base já que a proposta de Jesus foi anunciar aos homens a adoção de uma vida conforme os valores de um identificado governo divino, identificado pela forma monárquica da época - o "Reino de Deus". 


Assim sendo, se os homens que viveram antes e depois de Jesus falharam por viver debaixo dos valores culturais de uma determinada época, a essência de um ensinamento sagrado deve ultrapassar o momento histórico. Daí a importância de não somente lermos a Bíblia como também refletirmos acerca da leitura realizada.


Que Deus tenha misericórdia de nós e não nos deixe ser enganados pelos falsos "pastores" que semeiam o preconceito, a ignorância, o obscurantismo, a homofobia e a intolerância às demais religiões, ao invés de anunciarem as boas novas de Cristo.


Ótima semana a tod@s!

domingo, 2 de junho de 2024

Um dia todos os impérios caem...



Há exatos 1679 anos, mais precisamente em 2 de Junho de 455 da era cristã, os vândalos, liderados pelo seu rei Genserico, entraram em Roma e saquearam a cidade por duas semanas. 


Esse foi o segundo dos três saques bárbaros de Roma, tendo sido mais destruidor que a invasão do ano 410 feita pelos visigodos. Genserico tomou grandes tesouros da cidade e também levou consigo a viúva do imperador Valentiniano III, Licínia Eudóxia, e suas filhas como reféns, sendo uma delas foi Eudócia, que mais tarde casou-se com Hunerico, filho do rei vândalo.


É certo que um dia todos os impérios caem. Porém, pior situação não há é quando esses poderosos Estados são derrubados por quem não possui uma ciência e um nível cultural com capacidade de elevar aquela civilização conquistada. 


Como na estátua gigante do sonho do rei babilônico Nabucodonosor, enigma decifrado pelo profeta Daniel, cada metal da escultura representava um reino que, por sua vez, era sucedido por outro mineral considerado menos nobre até chegar no ferro e na argila...


""Quando estavas deitado, ó rei, tua mente se voltou para as coisas futuras, e aquele que revela os mistérios te mostrou o que vai acontecer. Quanto a mim, esse mistério não me foi revelado porque eu tenha mais sabedoria do que os outros homens, mas para que tu ó rei, saibas a interpretação e entendas o que passou pela tua mente. "Tu olhaste, ó rei, e diante de ti estava uma grande estátua: uma estátua enorme, impressionante, e sua aparência era terrível. A cabeça da estátua era feita de ouro puro, o peito e o braço eram de prata, o ventre e os quadris eram de bronze, as pernas eram de ferro, e os pés eram em parte de ferro e em parte de barro. Enquanto estavas observando, uma pedra soltou-se, sem auxílio de mãos, atingiu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmigalhou. Então o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro foram despedaçados, viraram pó, como o pó da debulha do trigo na eira durante o verão. O vento os levou sem deixar vestígio. Mas a pedra que atingiu a estátua tornou-se uma montanha e encheu a terra toda. "Foi esse o sonho, e nós o interpretaremos para o rei. Tu, ó rei, és rei de reis. O Deus dos céus te tem dado domínio, poder, força e glória; nas tuas mãos ele colocou a humanidade, os animais selvagens e as aves do céu. Onde quer que vivam, ele fez de ti o governante deles todos. Tu és a cabeça de ouro. "Depois de ti surgirá um outro reino, inferior ao teu. Em seguida surgirá um terceiro reino, reino de bronze, que governará sobre toda a terra. Finalmente, haverá um quarto reino, forte como o ferro, pois o ferro quebra e destrói tudo; e assim como o ferro a tudo despedaça, também ele destruirá e quebrará todos os outros. Como viste, os pés e os dedos eram em parte de barro e em parte de ferro. Isso quer dizer que esse será um reino dividido, mas ainda assim terá um pouco da força do ferro, embora tenhas visto ferro misturado com barro. Assim como os dedos eram em parte de ferro e em parte de barro, também esse reino será em parte forte e em parte frágil. E, como viste, o ferro estava misturado com o barro. Isso quer dizer que se procurará fazer alianças políticas por meio de casamentos, mas essa união não se firmará, assim como o ferro não se mistura com o barro. "Na época desses reis, o Deus dos céus estabelecerá um reino que jamais será destruído e que nunca será dominado por nenhum outro povo. Destruirá todos esses reinos e os exterminará, mas esse reino durará para sempre. Esse é o significado da visão da pedra que se soltou de uma montanha, sem auxílio de mãos, pedra que esmigalhou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro. "O Deus poderoso mostrou ao rei o que acontecerá no futuro. O sonho é verdadeiro, e a interpretação é fiel"." - Daniel 2:29-45; NVI


Ora, considerando que o Ocidente também está em queda, como imaginar o mundo do próximo século? 


Fica aqui a indagação se o futuro pertence ao vandalismo, tal como costumeiramente usamos esse vocábulo. Isto porque muitas das vezes desconhecemos que os vândalos eram uma das tribos germânicas que penetrou nos limites do Império Romano do Ocidente durante o século V.


Ótima tarde de domingo a tod@s!


OBS: Imagem do quadro do artista russo Karl Bryullov (1799–1852), pintado entre os anos de 1833 e 1836, e que retratou o terrível saque de Roma de 455.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Mergulhando nas nossas "aguas profundas"



"Os propósitos do coração do homem são águas profundas, mas quem tem discernimento os traz à tona." (Pv 20:5; NVI)


Estava na manhã de ontem lendo o capítulo 20 do livro de Provérbios e me deparei com o intrigante verso 5 citado acima da Nova Versão Internacional. Confesso que achei esse pensamento do escritor bíblico um tanto psicanalítico, tornando-se um excelente convite para uma reflexão mais aprofundada para além dos limites da Teologia.


No texto em análise, o autor sagrado compara metaforicamente os propósitos do "coração" humano às "águas profundas", os quais precisam ser descobertos com muita atenção já que à medida que nos distanciamos da superfície vai faltando luminosidade. E aí, nesse mar de comparações, me veio logo a ideia do quanto é extenso e ao mesmo tempo obscuro o nosso inconsciente.


Não tenho dúvidas que o velho rei Salomão estaria chamando o seu leitor a um autoconhecimento, aplicável, no caso, ao que realmente queremos para as nossas vidas incertas. Em outras palavras, a indagação a ser feita seria qual o nosso propósito pessoal a ser buscado considerando o momento e o planejamento que não podemos deixar de fazer para os anos futuros.


Por mais que esteja limitado às condições do seu ambiente físico, social, político, financeiro, familiar e cultural, o homem (e a mulher também) é dotado de vontades próprias, algo que lhe permite tomar decisões quanto às inúmeras possibilidades de escolha que a vida nos oferece. E, nesses momentos, surge aquela velha pergunta sobre o que realmente queremos ou qual a autêntica realização existencial para cada um de nós.


A psicanálise ensina que vivemos mais no plano do inconsciente do que conscientemente. Muitas das nossas emoções, sentimentos e reações involuntárias brotam daquela parte de nós que desconhecemos, mas que, ainda assim, interage com cada momento do cotidiano. Lá poderão estar escondidos os verdadeiros desejos até hoje desapercebidos, inclusive relacionados aos campos afetivo, profissional e artístico.


Lembro que, há três décadas atrás, quando tinha meus 17 anos e com o avô paterno Sylvio na cidade mineira de Juiz de Fora, fiz um teste vocacional juntamente com os colegas de turma do Instituto Granbery da Igreja Metodista que cursavam comigo o ensino médio, na época ainda chamado de segundo grau. Porém, o resultado do meu exame foi bem incerto de modo que a equipe de psicólogos responsável pelo serviço prestado à escola recomendou que eu fizesse uma terapia, coisa que não fui capaz de aproveitar porque, na época, ainda não estava disposto a mergulhar nas minhas águas profundas.


Lamentavelmente, muitos de nós preferimos mesmo é permanecer na superfície da vida o que facilmente se explica porque, num primeiro momento, nos parece ser mais cômodo, confortável ou conveniente. Contudo, ao agirmos assim, estamos desperdiçando a oportunidade de crescer pessoalmente, de nos conhecermos melhor, fazermos escolhas mais acertadas e, consequentemente, nos tornarmos mais felizes juntamente com os outros ao nosso lado.


Por fim, o escritor de Provérbios fala sobre o uso da inteligência ou do discernimento para descobrirmos os propósitos do coração, qual sabemos ser enganoso como já diagnosticava o sensível profeta Jeremias, podendo o ser humano se equivocar acerca de si mesmo. Daí o tempo que dedicamos temporariamente a uma reflexão sobre o nosso querer (algo hoje roubado pelas distrações das redes sociais) torna-se uma ferramenta poderosa e indispensável nessa busca interminável que todos de alguma maneira fazem, em que podemos avançar, estagnar ou retroceder.


Que na nossa contínua caminhada sejamos capazes de extrair as verdades ocultas no nosso interior e trazê-las para a superfície dos pensamentos cotidianos, transformando tais propósitos em ações eficazes.


Ótima segunda-feira, pessoal!

domingo, 24 de março de 2024

Jesus chorou por Jerusalém



De acordo com o Terceiro Evangelho, quando Jesus de Nazaré teria se aproximado de Jerusalém, ele olhou para a cidade e chorou por ela (Lucas 19:41), prenunciando o sofrimento que aguardava os seus compatriotas décadas mais tarde. 


O evento narrado tem como cenário o Monte das Oliveiras, com o Segundo Templo judaico ao fundo, conforme muito bem retratado em 1892 pelo pintor espanhol Enrique Simonet Lombardo (1866–1927). 


Esse episódio relacionado ao Domingo de Ramos nos ensina a ter compaixão pela coletividade humana, mesmo assistindo as pessoas fazendo escolhas erradas. 


Atualmente, quando ainda vejo o mundo optando por guerras, poluindo o planeta e elegendo políticos fascistas da extrema direita, esse gesto de Jesus de certo modo vem nos ensinar algo. 


A Jerusalém antiga foi massacrada pelos romanos cerca de 40 anos depois da morte de Jesus, porém a sua mensagem de busca pelo caminho da paz foi pregada e ultrapassou muitas gerações, embora nem sempre compreendida. 


Nosso Mestre não teria em momento algum amaldiçoado a cidade ou proferido alguma palavra do tipo "que se danem". No entanto, ele chorou, compadecendo-se daquele cenário não muito diferente do tempo atual.


Ótimo final de Domingo, pessoal, e que tenhamos uma excelente Semana! 

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Uma representação da nossa impetuosidade



A imagem acima que ilustra esse texto refere-se ao quadro do artista russo Viktor Mikhailovich Vasnetsóv (1848 – 1926) denominado Os quatro Cavaleiros do Apocalipse (1887), os quais são os personagens descritos na terceira visão profética do livro bíblico de Revelação ou Apocalipse.


Arrebatado aos céus, após contemplar toda a estrutura da organização celestial de Deus, João vê em sua mão direita um rolo (manuscrito enrolado em formato cilíndrico) com sete selos (Apocalipse 5:1-2.). Em seguida Jesus Cristo (descrito como o "Leão da tribo de Judá", a "Raiz de Davi", e "um cordeiro em pé, como se tivesse sido morto") tira o rolo da mão direita daquele que está assentado sobre o trono (Apocalipse 5:5-9). Então, esses cavaleiros começam sua cavalgada por ocasião da abertura do primeiro desses "sete selos" e, a cada selo aberto, um cavaleiro aparece no total de quatro (Apocalipse 6:1-Apocalipse 7:17). 


"E, havendo o Cordeiro aberto um dos selos, olhei, e ouvi um dos quatro animais, que dizia como em voz de trovão: Vem, e vê.

E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer.

E, havendo aberto o segundo selo, ouvi o segundo animal, dizendo: Vem, e vê.

E saiu outro cavalo, vermelho; e ao que estava assentado sobre ele foi dado que tirasse a paz da terra, e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.

E, havendo aberto o terceiro selo, ouvi dizer o terceiro animal: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo preto e o que sobre ele estava assentado tinha uma balança em sua mão.

E ouvi uma voz no meio dos quatro animais, que dizia: Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro; e não danifiques o azeite e o vinho.

E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê.

E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra."

(Apocalipse 6:1-8)


Como se sabe, o número quatro na simbologia numérica bíblica representa quadrangulação em simetria, universalidade ou totalidade simétrica, como em quatro cantos da Terra, quatro ventos. Vemos isso também em outros textos (Apocalipse 4:6; Apocalipse 7:1-2; Apocalipse 9:14; Apocalipse 20:8; Apocalipse 21:16), provavelmente tornando esses quatro Cavaleiros parte de um único evento relacionado.


Além disso, em muitas culturas, o cavalo é símbolo da impetuosidade e da impulsividade relacionadas com os desejos humanos, além de ser associado com água e fogo por serem muitas vezes incontroláveis. Também é tido como a relação com o divino servindo de guia de almas, sendo muitas vezes enterrados juntamente com seus donos. Exprime ainda vigor e virilidade, por vezes simbolizando a juventude. E, no contexto histórico, principalmente nos campos de batalha, o cavalo era treinado muitas vezes para matar soldados com suas patas ou sua boca de maneira que, nessa narrativa, esses cavalos e seus cavaleiros podem representar (e muitas interpretações os descrevem assim) uma cavalgada (campanha) com toques de guerra trazendo suas consequências por onde passam.


Quanto às cores dos cavalos, elas dizem muito dos respectivos cavaleiros como:


- Branco: Pureza, santidade, régio;

- Vermelho: Sangue, assassinato, guerra;

- Preto: Obscuridade, peste, maldição;

- Amarelo: Corpo em decomposição, morte.


Já os seus apetrechos mostram característica a respeito do papel que desempenham ou a consequência de sua cavalgada:


- Arco e coroa: Símbolo da guerra e do poder;

- Espada: Principal arma dos exércitos antigos, usada como símbolo de assassinato;

- Balança: No contexto denota desigualdade ou injustiça (no caso de alimento);

- Jarra: Traz a peste dentro.


Outro detalhe é a ordem em que são chamados, significando para muitos uma sucessão progressiva. Isto porque eles não são chamados ao mesmo tempo.


Pois bem. Muitos que alimentam uma escatologia do medo já andam dizendo por aí que, com a guerra na Ucrânia, o segundo selo teria sido aberto, com o argumento de que o primeiro teria sido a pandemia da Covid-19...


Sinceramente, não concordo em nada com essa visão baseada em fatos do momento e revelando um oportunismo de ocasião. Pois, além de não seguir a tal ordem (critério fundamental para os que se apegam a uma tosca literalidade), tais "intérpretes" se esquecem de que a visão do autor do Apocalipse representa uma constante na história da nossa espécie.


Indiscutível que a humanidade sempre conviveu com seus impetuosos conflitos que, por sua vez, causam guerras, trazem fome e morte. Porém, isso é algo que pode e deve ser entendido como transitório diante de um prometido futuro glorioso que o Apocalipse identifica como a vida dos justos ressurretos na "Nova Jerusalém".


Como para mim é o simbolismo da visão que deve nortear o intérprete do Texto Sagrado, vejo justamente que a proposta do livro recai sobre o nosso esforço de superação desses nossos trágicos momentos até que alcancemos os "novo céu" e "nova terra".


Não acredito num deus que vai destruir a sua própria criação. Porém, a vocação da humanidade é progredir para alcançar um estágio superior de relacionamentos, quando saberemos lidar melhor com os nossos desejos, evitando que, ao tentar satisfazê-los, sejamos conduzidos por essa impetuosidade destrutiva que tanto nos assola.


Ótimo domingo a todos e todas!

segunda-feira, 21 de junho de 2021

O homem que não se tratou



Há na Bíblia um personagem a respeito do qual poucos prestam a atenção. Trata-se de Caim que teria sido o primeiro filho do casal Adão e Eva, conhecido também como o primeiro homicida da humanidade e tido por invejoso, cuja história aparece por inteiro no quarto capítulo do Livro de Gênesis que citarei em parte a seguir:


"E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar. E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou" (Gênesis 4:3-8)


Refletindo acerca desse relato, reparo que os sentimentos que habitavam as emoções de Caim não são muito diferentes daqueles que muitas das vezes afloram em nós, muito embora cada um dê um curso diferente à ira e à frustração. Aliás, alguns reagem de uma maneira até pior cometendo crimes ainda mais qualificados com requintes de crueldade.


Ora, o Texto Sagrado diz que Deus não se agradou da oferta de Caim e explica adiante o motivo. Porém, o Senhor percebe em Caim a fúria estampada em sua aparência de decepção por não ter sido aceito e tenta, sem sucesso, dialogar com ele.


Observem que Caim, nesse trecho, não diz nenhuma palavra a Deus, sendo que as duas primeiras perguntas paralelamente tentam fazer com que ele mesmo refletisse procurando dentro de si a resposta. E podemos afirmar que ali, na verdade, foi uma conversa pedagógica, embora sem efeitos para uma mente e um coração endurecidos.


Podemos indagar se Caim estaria motivado pela inveja e/ou sentimentos de rejeição, bem como se ele teria consciência do que se passava dentro de si. E, nesse sentido, eu diria que Caim não estava disposto a se escutar de maneira que a ira e as frustrações o controlavam.


Entretanto, sendo Deus o Psicólogo Supremo, Ele faz uma terceira pergunta que considero autoexplicativa, na qual tentou direcionar Caim para uma avaliação da própria conduta. Pois seria preciso que ele mesmo reconhecesse a sua maneira errada de agir e entendesse o porquê de não estar sendo aceito.


É certo que Deus jamais precisaria receber ofertas de qualquer natureza. Porém, a apresentação dos produtos da agricultura e da pecuária seria a maneira que os homens da época encontraram para expressar uma devoção à Divindade. Só que as atitudes interiores são muito mais importantes do que os atos externos de ritual religioso, de modo que faltava a Caim arrependimento, compreensão, sinceridade e amor.


Não creio que Caim fosse uma pessoa rejeitada por Deus e nem amado menos pelo Senhor do que Abel. Pois o fato de sua oferta não ter sido aceita jamais significou que o Criador tivesse desistido dele. Porém foi Caim quem a si próprio abandonou e resolveu, de uma maneira traiçoeira, matar o próprio irmão, quando o chamou para sair ao campo em sua companhia, local onde poderia cometer o crime fora das vistas das demais pessoas.


Todavia, as Escrituras mostram que Caim poderia ter feito outra escolha que seria combater o seu ruim desejo, sendo que o texto nos leva a compreender pelo menos duas coisas: (i) o mal procedimento atrai outros delitos; e (ii) a vontade do homem em não querer praticar maldades pode desviá-lo da consumação do crime.


Certamente não podemos evitar que determinados apareçam em nossos corações e nas nossas emoções. Por exemplo, nada impede que, de uma hora para outra, uma pessoa sinta inveja do seu irmão, cunhado, vizinho ou colega de trabalho. Contudo, ao perceber que isso está acontecendo, ela mesma tem a oportunidade de dialogar consigo mesma procurando entender os motivos, embora muitos invejosos dificilmente alcançam essa percepção e daí eu concordar quando o pensador Leandro Karnal diz ser a inveja "um tipo de cegueira".


Infelizmente, muitos de nós não dialogamos. Há quem fique ressentido e frustrado porque o outro leva uma vida mais feliz do que a dele, mas tal pessoa se obscurece deixando que os sentimentos negativos passem a conduzi-la até que cometem alguma atitude ruim que não necessariamente precisa ser um homicídio. Por exemplo, elas podem levantar calúnias, proferir ofensas, hostilizar o próximo, prejudicar a vida profissional do outro e outras maneiras mais de agredir. Porém, ao contrário disso, podemos admitir o quanto somos pecadores invejosos e praticarmos aquilo que a grande maioria parecer fugir: o autoconhecimento.


O restante da narrativa sobre Caim e a maneira como o Senhor lida com ele após o assassinato de Abel encontra-se relatada no livro de Gênesis, sendo que me chama a atenção ele decidir afastar-se da presença de Deus, mantendo-se obscurecido já que continuava incapaz de arrepender-se. Isto é, de procurar tratamento e responder a ele em busca de sua cura interior.


OBS: Ilustração acima extraída de https://www.luteranos.com.br/textos/caim-ou-abel

terça-feira, 15 de junho de 2021

Os males da pandemia mudarão a humanidade?!



Lembrando do livro bíblico do Apocalipse, o último do Novo Testamento, observei algo de curioso quanto ao comportamento da humanidade diante dos flagelos que, segundo a profecia, atormentarão (ou já atormentam?) as pessoas em seus últimos dias. 


Diz o autor que, após o toque da sexta "trombeta", cujo resultado é a morte de um terço da população global, os sobreviventes "não se arrependeram das obras das suas mãos" (Ap 9:20), mantendo o mesmo comportamento delituoso que tinham antes. E tal conduta vem a se repetir na narrativa da referida obra quando ocorrem os julgamentos finais alegorizados pelas "taças da cólera" divina, mais precisamente pelos quarto, quinto e sétimo flagelos que se desenrolam no capítulo 16. Porém, a ausência do arrependimento é acompanhada da reação das palavras de blasfêmia contra Deus.


Apesar de recusar as interpretações literais da Bíblia e nem sair por aí identificando fatos do presente como se os mesmos fossem o exato cumprimento de uma determinada profecia, tento extrair lições para a vida de tudo o quanto leio atentamente nesse grande universo de informações, quer seja um texto considerado sagrado ou não. E aí busco uma maneira de significar o momento vivido visto que precisamos estar abertos para aprender e crescer com as experiências ao invés de nos endurecermos num entendimento equivocado, tal como fizera um perverso faraó na época de Moisés, tendo sempre "aquela velha opinião formada sobre tudo", conforme cantava o saudoso Raul.


Pois bem. Já são quase 490 mil mortos no Brasil por causa dessa pandemia, porém ainda há uma turminha que prefere negar os fatos, ignorando os riscos de uma doença e se aglomeram por aí em torno de um falso messias que anda de moto nas estradas espalhando esse vírus.


Todavia, muitos dos seguidores do "mito", como costumam chamar um certo ocupante do Palácio do Planalto, são pessoas que se acham "cidadãos de bem", frequentam alguma igreja e dizem ser "evangélicos". Acredito até que vários deles possam se intitular "pastores" e já teriam até lido as passagens bíblicas referidas na presente postagem, embora seja possível indagar se, por acaso, tiveram ouvidos para ouvir...


Complementando o meu pensamento, bem disse um ministro do STF acerca da existência de um "cristianismo do mal" no país. Durante um debate na Câmara dos Deputados, ocorrido em 09/06 do corrente, quando discursou contrariamente à ideia retrógrada do voto impresso, Barroso lamentou a atuação de milícias digitais que "disseminam ódio, mentiras e teorias conspiratórias":


"Escrevem coisas horríveis. Tem uma espécie de cristianismo do mal no Brasil, uma inovação horrorosa, em que o sujeito fala: ‘Em nome de Deus, eu quero que você morra, em nome de Jesus, eu quero que sua família seja destruída’. Quer dizer, é tão absurdo isso, pessoas totalmente do mal que invocam a religiosidade das pessoas"


Com toda a sinceridade, meus amados leitores, não acredito que os acontecimentos vividos por ocasião dessa pandemia serão capazes de mudar o ser humano e menos ainda o brasileiro. Pois não é nenhum fato externo que promove alterações no nosso modo de pensar ou agir, mas sim a nossa disposição interna em admitir erros e, a partir daí, esforçar-se para corrigir rotas.


Assim, espero que a pandemia um dia passe a fim de dar mais liberdade aos educadores de ministrar ensinamentos de vida capazes de despertar a consciência das pessoas e, inclusive, de uma minoria barulhenta que insiste nos erros apesar de todos os flagelos do nosso tempo.


Só a educação muda quando nos deixamos educar!