Na noite em que perderam o rastro dos outros, o céu começou a arder antes que a escuridão estivesse completa.
Iri foi a primeira a notar.
A menina caminhava alguns passos atrás de Nara, carregando junto ao peito uma bolsa de pele quase tão grande quanto seu tronco. Parou sem avisar e levantou o rosto.
— Já veio.
Nara também olhou.
Do norte desciam faixas compridas de luz, primeiro pálidas, depois verdes, depois vermelhas nas bordas, como se alguma coisa muito distante estivesse soprando sobre brasas. Moviam-se devagar, dobravam-se umas sobre as outras e desapareciam para surgir em outro lugar.
Daro não ergueu os olhos.
Estava sentado contra uma pedra, as duas mãos apertando a perna esquerda.
— Não temos tempo para o céu.
Nara sabia.
Mas também sabia que Daro dizia aquilo porque a perna doía.
Desde pequena aprendera que havia dores que faziam um homem falar demais e dores que o faziam calar. A de Daro era das primeiras.
Ela se ajoelhou.
O tornozelo estava maior. A pele adquirira uma cor escura junto ao osso.
— Não está quebrado — disse Daro.
Nara passou os dedos ao redor da articulação.
Ele gemeu.
— Não está quebrado — repetiu.
— Então levante.
Daro não respondeu.
Iri continuava olhando para cima.
— Minha mãe diz que são os mortos mudando de lugar.
— Sua mãe diz muitas coisas — respondeu Nara.
— Sua mãe também dizia.
Nara amarrou novamente a tira de couro em torno da perna de Daro.
— Minha mãe morreu quando você ainda mamava.
— Então talvez saiba melhor.
Daro soltou uma risada curta, apesar da dor.
Foi a última risada daquela noite.
Tinham saído do acampamento ao amanhecer.
Eram sete.
Encontraram as renas perto do rio quando o sol estava alto. O rebanho era grande, maior do que esperavam, e os animais atravessavam a planície em direção às terras onde a pedra negra aparecia no chão.
Os caçadores se separaram.
Nara não deveria acompanhar Daro. Sua função era contornar as renas pelo lado oeste e fazê-las correr na direção dos homens escondidos junto às pedras.
No entanto, uma fêmea virou antes do esperado. Depois outra. Daro correu para impedir que o rebanho se abrisse.
O chão cedeu sob ele.
Talvez fosse uma toca antiga. Talvez uma pedra escondida pela relva seca.
Quando Nara chegou, Daro estava no chão.
Os outros já tinham desaparecido atrás dos animais.
Esperaram.
Gritaram.
Responderam apenas os corvos.
Iri surgiu algum tempo depois, chorando silenciosamente, sem saber dizer como se separara dos demais.
Ainda encontraram marcas do grupo junto ao rio. Depois vieram o vento e uma chuva curta, carregada de gelo, e a terra apagou os pés.
Nara conhecia o destino.
Todos conheciam.
Antes das primeiras neves pesadas, o grupo atravessaria o desfiladeiro das duas pedras e seguiria o rio para o sul. Havia um abrigo ali que usavam havia muitas estações frias.
Se Nara, Daro e Iri alcançassem o desfiladeiro em três dias, talvez encontrassem os outros.
Se levassem cinco, talvez ainda encontrassem cinzas.
Depois disso, ninguém saberia.
Não havia lugar para onde voltar.
Um povo que seguia os animais não deixava endereço.
Na manhã seguinte Daro tentou caminhar.
Deu doze passos.
No décimo terceiro caiu.
Iri observou sem dizer nada.
Nara fez uma tala com dois galhos e tiras de couro. Daro a deixou trabalhar até que ela terminasse.
Então falou:
— Você sabe o que deve fazer.
Nara continuou apertando o nó.
— Sei.
— Leve Iri.
— Quando puder levantar.
— Nara.
Ela olhou para ele.
Daro era mais velho que seu pai fora. Tinha cabelos grisalhos junto às orelhas e uma cicatriz que atravessava a bochecha até o queixo. Quando Nara era criança, acreditava que ele já havia nascido com aquela cicatriz.
— Se esperarmos por mim, perderemos os outros.
— Então ande.
— Não consigo.
— Amanhã consegue.
Daro fechou os olhos.
— Sempre foi assim.
Nara sabia o que significava.
O grupo não abandonava crianças.
Não abandonava mulheres perto do parto.
Não abandonava alguém que pudesse caminhar.
Mas quando uma pessoa não podia mais acompanhar os outros e sua permanência colocava todos em risco, alguém permanecia com ela até o fim ou lhe deixava fogo, alimento e uma lança.
Isso acontecera com a avó de Nara.
A velha adoecera durante uma travessia. Tossia sangue e mal conseguia ficar sentada. Ficaram dois dias além do que deveriam. No terceiro, ela própria ordenou que partissem.
A mãe de Nara permaneceu até o último momento.
Quando retornou, trazia apenas o colar da velha.
Ninguém discutira.
Era assim.
Daro apontou para Iri.
— Ela precisa encontrar a mãe.
A menina fingiu não estar ouvindo.
— E você? — perguntou Nara.
— Eu preciso que vocês encontrem os outros.
— Não foi o que perguntei.
Daro olhou para o céu claro da manhã.
Restavam apenas manchas avermelhadas quase invisíveis onde, durante a noite, as luzes haviam atravessado o horizonte.
— Faça uma fogueira pequena. Deixe carne para dois dias. Talvez eu consiga seguir depois.
Nara percebeu que ele estava mentindo.
Daro percebeu que ela percebera.
Nenhum dos dois disse nada.
Partiram juntos.
Nara cortou uma vara comprida e Daro a usou como apoio.
Caminhavam devagar.
Quando a dor se tornava forte demais, ele parava. Quando parava por muito tempo, Nara mandava que continuasse.
Iri encontrou água numa depressão cercada por juncos.
Daro não acreditou nela.
— Está seca.
A menina apontou algumas folhas.
— Não está.
Cavaram.
Depois de algum tempo surgiu água escura no fundo do buraco.
Daro bebeu por último.
— Quem lhe ensinou?
— Ena.
Ena era uma mulher velha que quase nunca participava das caçadas e que Daro costumava chamar de preguiçosa quando estava irritado.
A menina sorriu.
— Ela também me ensinou onde ficam as raízes que parecem dedos.
Naquela noite comeram raízes que pareciam dedos.
Daro não voltou a chamar Ena de preguiçosa.
No terceiro dia encontraram pegadas.
Nara ajoelhou-se imediatamente.
Cinco pessoas.
Talvez seis.
Uma criança.
Daro olhou para o formato dos pés impressos na lama.
— Não são nossos.
Nara já sabia.
As pegadas eram largas. Algumas pareciam pertencer a homens muito pesados.
Havia também marcas de uma lança apoiada no chão.
— Podemos contornar — disse Daro.
Isso custaria quase um dia.
— Podemos seguir — respondeu Nara.
— Podemos morrer.
— Também podemos morrer contornando.
Iri olhou de um para outro.
— Talvez tenham comida.
Daro quase sorriu.
— Talvez queiram a nossa.
Nara observou novamente as pegadas.
O povo de sua mãe contava histórias sobre outros homens.
Alguns trocavam pedra por peles. Outros roubavam carne. Havia grupos que faziam sons estranhos ao falar e grupos cujas palavras podiam ser parcialmente compreendidas.
E havia os homens das montanhas.
Baixos, fortes, de grandes braços e rostos largos.
Nara já vira um deles uma vez, de longe.
Tinha talvez doze anos.
O homem observava o acampamento do alto de uma elevação. Permaneceu imóvel por algum tempo e depois desapareceu.
Durante muitas noites, as crianças haviam contado histórias sobre ele.
Cada noite acrescentava algo.
Na primeira, ele apenas observava.
Na quarta, comia carne crua.
Na sétima, carregava o braço de um homem.
A velha Ena ouvira tudo até ficar irritada.
— Vocês transformam qualquer homem que não conhecem em monstro.
Nara lembrava dessas palavras.
Também lembrava da resposta de Daro:
— Até sabermos se é monstro, é melhor manter distância.
Agora Daro repetiu:
— É melhor manter distância.
Nara olhou para sua perna.
— Você não consegue mais um dia.
— Consigo.
— Não consegue.
Ele ficou em silêncio.
Seguiram as pegadas.
Encontraram os outros perto do anoitecer.
Eram quatro adultos e duas crianças.
Nara os viu antes que eles a vissem.
Estavam junto a uma parede de pedra onde o vento quase não chegava. Uma mulher raspava a pele de um animal. Um homem quebrava um osso comprido com uma pedra. Outro alimentava o fogo.
Eram como as histórias.
Corpos largos.
Testas baixas.
Braços pesados.
Mas a primeira coisa que Nara percebeu foi algo que nenhuma história mencionava.
Uma das crianças estava rindo.
O menino corria ao redor do fogo segurando um galho, perseguido por uma menina menor. Quando a menina o alcançou, os dois caíram no chão.
A mulher disse alguma coisa.
As crianças obedeceram apenas depois que ela repetiu.
Nara conhecia aquele tom.
Toda mãe conhecia aquele tom.
Daro apoiou-se nela.
O galho estalou.
Os homens junto ao fogo levantaram-se ao mesmo tempo.
Um deles pegou uma lança.
Nara ergueu as mãos.
Daro disse:
— Agora descobriremos.
Não falavam a mesma língua.
Mas também não era verdade que não conseguiam falar.
A mulher apontou para Daro.
Nara apontou para a perna.
Um homem aproximou-se.
Daro segurou sua lança.
O homem parou.
Apontou para si mesmo. Depois para a perna de Daro. Depois fez um gesto que Nara entendeu como sentar.
Daro permaneceu imóvel.
— Sente — disse Nara.
— Você não sabe o que ele quer.
— Quer que sente.
— Pode querer minha lança.
— Então dê a lança.
Daro olhou para ela como se estivesse diante de alguém que enlouquecera.
Nara arrancou a lança de sua mão.
O homem aproximou-se.
Tocou o tornozelo.
Daro gemeu.
O estranho disse alguma coisa para a mulher.
Ela trouxe uma bolsa.
Dentro havia folhas secas, gordura e alguma coisa que cheirava fortemente.
Nara não sabia o que fizeram.
Sabia apenas que, depois, o tornozelo de Daro estava preso entre duas peças de madeira muito mais firmes que as suas e envolvido por couro.
O homem lhe entregou a lança novamente.
Daro ficou olhando para ela.
O estranho pareceu achar graça.
Naquela noite os dois grupos permaneceram próximos, mas separados.
Nara ofereceu carne seca.
A mulher recusou primeiro.
Depois aceitou.
Em troca deu a Iri um pedaço de tutano.
As crianças se observaram durante muito tempo.
Nenhuma sabia falar com a outra.
Foi Iri quem começou.
Colocou uma pedra sobre outra.
Depois uma terceira.
O menino do outro grupo acrescentou uma quarta.
Iri colocou outra.
A torre caiu.
Os dois riram.
Recomeçaram.
Daro observava.
— Crianças são tolas — disse.
— Por quê?
— Não sabem de quem devem ter medo.
Nara olhou para ele.
— Talvez nós saibamos demais.
Daro não respondeu.
Quando a escuridão chegou, o céu voltou a acender.
Naquela noite era vermelho.
Não apenas ao norte.
As grandes faixas atravessavam quase todo o céu. Algumas pareciam nascer atrás das montanhas; outras corriam acima deles como rios.
Um dos homens estrangeiros interrompeu o trabalho e apontou.
Disse uma palavra.
Nara não entendeu.
Ele repetiu.
Apontou para o céu, depois para os mortos enterrados sob pedras junto ao acampamento.
Nara percebeu.
— Eles também acham que são os mortos — disse Iri.
— Não sabemos o que ele acha — respondeu Daro.
Mas o estrangeiro bateu duas vezes no peito e novamente apontou para cima.
Nara contou a história de sua mãe, embora soubesse que ele não compreenderia suas palavras.
Falou dos mortos que caminhavam por cima do céu à procura dos lugares onde haviam vivido.
O homem escutou.
Depois contou alguma coisa na língua dele.
Ninguém compreendeu.
Quando terminou, todos ficaram alguns instantes olhando as luzes.
Talvez as histórias fossem diferentes.
O céu não parecia se importar.
Continuou ardendo.
Pouco depois, as crianças voltaram à torre de pedras.
Na manhã seguinte o estrangeiro que tratara Daro indicou um caminho diferente.
Desenhou no chão.
Uma linha para o rio.
Duas pedras.
Depois outra linha.
O desfiladeiro.
Nara compreendeu imediatamente.
Era um caminho mais curto.
Daro desconfiou.
— Pode estar nos levando para longe.
O homem percebeu sua hesitação.
Chamou a menina mais velha do grupo.
Colocou a mão sobre sua cabeça.
Apontou para o caminho.
Depois para Nara.
Depois para a criança.
Nara não sabia exatamente o que significava.
Mas sabia o suficiente.
Iri abraçou a mulher antes de partir.
A mulher ficou imóvel, surpresa.
Então passou a mão pelos cabelos da menina.
Nara viu Daro observar.
— O que foi? — perguntou.
Ele virou o rosto.
— Nada.
Encontraram o desfiladeiro antes do anoitecer.
No chão havia cinzas.
Nara tocou-as.
Frias.
Depois encontrou um osso quebrado.
Reconheceu a maneira como tinham aberto a extremidade para retirar o tutano.
Eram os seus.
Mais adiante havia marcas de pés.
Muitas.
Seguiam para o sul.
Daro sentou-se.
— Foram ontem.
Nara respirou fundo.
Um dia.
Talvez menos.
Iri correu na frente.
— Devagar! — gritou Nara.
A menina não obedeceu.
Subiu uma pequena elevação.
Parou no alto.
Depois começou a gritar.
Nara correu.
Por alguns instantes não ouviu nada além do próprio coração.
Então ouviu.
Muito distante.
Uma voz.
Depois outra.
Alguém gritava o nome de Iri.
A menina desceu correndo.
Nara não tentou detê-la.
Quando alcançaram o grupo, a mãe de Iri bateu nela antes de abraçá-la.
Depois bateu novamente.
Depois chorou.
Iri chorou também.
Todos falavam ao mesmo tempo.
Alguém ajudou Daro a sentar.
Perguntaram sobre sua perna.
Perguntaram onde tinham estado.
Perguntaram quem fizera aquela tala.
Daro respondeu:
— Outros homens.
Houve silêncio.
— Os das montanhas? — perguntou alguém.
— Talvez.
— Deixaram vocês partir?
Daro olhou para Nara.
Depois respondeu:
— Nós deixamos uns aos outros partir.
Ninguém entendeu bem.
Naquela noite ele contou a história.
Contou sobre as pegadas.
Sobre o acampamento.
Sobre a mulher.
Sobre as crianças.
Sobre o homem que tratara sua perna.
Quando terminou, alguém disse:
— Tivemos sorte.
Daro respondeu:
— Tivemos.
Um velho que quase não falara durante toda a história olhou para Nara.
— E por que você não o deixou?
Ela sabia o que ele perguntava.
Todos sabiam.
Nara olhou para Daro.
— Porque ainda estava vivo.
O velho franziu o rosto.
— Às vezes alguém vivo precisa ser deixado.
— Eu sei.
— Sempre foi assim.
Nara ficou algum tempo em silêncio.
Acima deles o céu estava novamente iluminado, dessa vez com largas faixas verdes.
As crianças corriam entre as fogueiras.
Iri tentava construir uma torre de pedras e ensinava às outras uma brincadeira que aprendera com quem deveria ser estrangeiro.
Nara olhou novamente para o velho.
— Talvez alguma coisa só seja assim até o dia em que alguém faz diferente.
O velho não respondeu.
Nem concordou.
Nem discordou.
Jogou mais madeira no fogo.
E a vida continuou.
Daro voltou a caminhar.
Nunca como antes.
A perna permaneceu torta e, nos dias frios, doía.
Mas viveu muitas estações.
Passou a fazer talas diferentes das que o grupo fazia antes.
No começo, ninguém gostava.
Depois alguém caiu.
Daro tratou.
Funcionou.
Depois outro.
Alguns anos mais tarde ninguém lembrava que aquilo viera de homens cuja língua não entendiam.
Simplesmente era assim que se tratava uma perna machucada.
Iri cresceu.
Continuou fazendo torres de pedras com as crianças.
Quando teve filhos, ensinou-lhes a brincadeira.
Nenhum deles sabia de onde ela viera.
Nara viveu o bastante para ver crianças nascerem que nunca tinham conhecido sua mãe, nem o velho do desfiladeiro, nem alguns dos homens com quem caçara quando jovem.
Viu o grupo mudar de caminhos.
Viu renas desaparecerem de alguns vales e retornarem a outros.
Viu invernos em que o gelo chegava cedo e outros em que demorava.
Viu pessoas partirem e não voltarem.
Viu estrangeiros tornarem-se parentes.
Viu parentes tornarem-se estrangeiros.
E viu o céu mudar.
Muito lentamente.
Tão lentamente que quase ninguém percebia.
As grandes luzes ainda apareciam, mas algumas crianças começaram a crescer sem vê-las tantas vezes quanto seus pais.
Numa noite de inverno, muitos anos depois da viagem, uma menina sentou-se ao lado de Nara.
Era filha de uma filha de Iri.
No céu havia apenas uma faixa pálida, muito distante ao norte.
— Quando você era pequena, o céu também fazia isso?
Nara sorriu.
— Fazia mais.
— Quanto mais?
Nara tentou explicar.
Falou de noites em que o vermelho atravessava o céu inteiro.
Falou de luzes que pareciam tocar as montanhas.
Falou de sombras estranhas sobre a neve.
A menina arregalou os olhos.
— Você tinha medo?
Nara pensou.
Não se lembrava.
Talvez tivesse.
Talvez não.
Lembrava da dor na perna de Daro.
Da sede.
Das pegadas na lama.
Da mulher estrangeira colocando tutano nas mãos de Iri.
Do menino rindo quando a torre de pedras caiu.
Lembrava-se do homem estranho desenhando um rio no chão.
Lembrava-se da voz distante chamando por Iri no vale.
Do céu, curiosamente, lembrava menos.
— Não — respondeu.
— Por quê?
Nara olhou para a fraca luz que ainda se movia sobre o horizonte.
— Porque aquele era o céu.
A menina pareceu decepcionada.
Esperava uma história maior.
Nara colocou a mão sobre sua cabeça.
— Quer ouvir uma história de verdade?
A menina aproximou-se.
Então Nara contou sobre três pessoas que se perderam durante uma caçada.
Contou sobre um homem que não podia caminhar.
Contou que havia uma regra antiga.
Contou sobre outros homens que falavam de outra maneira.
Contou sobre crianças que descobriram que não precisavam de palavras para brincar.
Quando chegou ao momento em que deveria abandonar Daro, a menina interrompeu:
— Mas você não podia deixá-lo.
Nara perguntou:
— Por quê?
A criança pareceu surpresa.
— Porque não se deixa alguém assim.
Nara demorou alguns instantes para responder.
Depois sorriu.
— É verdade.
A menina encostou-se nela.
Ao redor, os adultos continuavam suas tarefas.
Alguém raspava uma pele.
Alguém discutia sobre carne.
Uma criança chorava.
Outra ria.
Homens preparavam as lanças para a manhã.
A pequena faixa de luz desapareceu lentamente do céu.
Ninguém percebeu.
Nara olhou para as pessoas reunidas em torno das fogueiras e pensou em quantas coisas tinham mudado desde sua juventude.
Os caminhos.
As ferramentas.
As histórias.
Os mortos.
Até o céu.
E pensou também em quantas coisas agora pareciam ter existido desde sempre.
Algumas talvez tivessem começado numa noite qualquer, quando alguém simplesmente recusara aquilo que todos chamavam de natural.
A menina já adormecia junto ao seu braço.
Nara cobriu-a com uma pele.
Depois ergueu os olhos.
O céu estava escuro.
E era, como sempre fora, o céu de sempre.
📝 Nota do autor:
Este conto imagina um tempo em que o céu se acendia de modo diferente do que conhecemos, e em que humanos que ainda não tinham nome encontravam outros humanos que também não tinham nome.
O resto é invenção — mas talvez menos do que parece.

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