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| Trabalhadores assentando dormentes e trilhos |
(Em homenagem aos 114 anos da inauguração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré)
O apito ecoou longo sobre o rio Madeira.
Não era o primeiro que Joaquim ouvia na vida.
Mas aquele som parecia diferente.
Ele fechou os olhos.
Por um instante, a multidão desapareceu.
As crianças deixaram de cantar.
As bandeiras tremulando diante do presidente Getúlio Vargas tornaram-se apenas um borrão.
Quando tornou a abri-los, já não estava em 1940.
Estava novamente em 1908.
Naquele tempo, Porto Velho ainda não era uma cidade.
Era uma clareira aberta na floresta.
Casas de madeira surgiam aqui e ali.
Barracões.
Trilhos interrompidos.
Montanhas de dormentes.
Guindastes.
Locomotivas desmontadas esperando montagem.
E, logo atrás de tudo aquilo, uma muralha verde parecia observar os homens.
A floresta.
Imensa.
Silenciosa.
Paciente.
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| Porto Velho em 1910 |
Joaquim tinha vinte e dois anos.
Era foguista.
Filho de um barqueiro do rio Madeira.
Conhecia as corredeiras desde menino.
Mas jamais imaginara ver uma máquina de ferro rasgando aquela mata.
Foi no cais que conheceu Samuel.
O rapaz era negro, alto, falava um inglês rápido e um português inexistente.
Viera de Barbados.
Na pequena mala havia apenas duas mudas de roupa, uma Bíblia muito gasta e uma fotografia da mãe.
Os dois se olharam sem entender uma palavra.
Depois riram.
A amizade começou antes mesmo da conversa.
Nos meses seguintes aprenderam a linguagem um do outro.
Samuel descobriu que "água" era água.
Joaquim aprendeu que "friend" significava amigo.
À noite sentavam-se sobre os trilhos recém-assentados.
Samuel falava do mar azul do Caribe.
Joaquim descrevia as cheias do Madeira.
Enquanto isso, homens de dezenas de países cruzavam o acampamento.
Italianos.
Gregos.
Portugueses.
Bolivianos.
Nordestinos.
Americanos.
Sírios.
Barbadianos.
Cada qual trazendo um sotaque.
Todos unidos pelo mesmo desafio.
A floresta, porém, não se rendia.
A chuva transformava caminhos em lama.
Mosquitos cobriam o corpo inteiro.
Toda semana alguém desaparecia.
Uns voltavam curados.
Outros jamais voltavam.
Certa manhã, faltou Patrick, um jovem irlandês que sonhava economizar dinheiro para rever a mãe em Dublin. Joaquim e Samuel o visitaram no Hospital da Candelária. Naquele mesmo entardecer, o sino anunciou mais um sepultamento. No dia seguinte, sua pá permanecia encostada exatamente onde ele a deixara.
Ninguém tinha tempo para longos lutos.
Os trilhos continuavam avançando.
Samuel certa vez perguntou:
— Vale a pena?
Joaquim demorou a responder.
Olhou para a mata.
Depois para a locomotiva.
— Talvez ninguém saiba agora.
Talvez nossos netos saibam.
Porto Velho crescia.
Onde antes havia apenas árvores, surgiam oficinas.
Hospital.
Escola.
Armazéns.
Casas.
A estação começou a tomar forma.
Pela primeira vez, Joaquim percebeu crianças brincando ao lado dos trilhos.
Aquilo lhe pareceu um milagre.
Chegou então o dia primeiro de agosto de 1912.
O último trecho estava pronto.
A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré era inaugurada.
Autoridades discursavam.
Fotógrafos registravam o momento.
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| Inauguração de trecho da ferrovia |
Mas Joaquim pouco prestava atenção aos discursos.
Pensava nos homens que haviam partido cedo demais.
Lembrou-se do irlandês que sonhava voltar para Dublin.
Do cearense que queria comprar um sítio.
Do médico americano que insistia em combater a malária.
Do cozinheiro boliviano que cantava todas as noites.
Samuel aproximou-se.
Os dois permaneceram em silêncio enquanto a locomotiva apitava.
Depois disse apenas:
— Conseguimos.
Joaquim sorriu.
— Nós... e muitos que já não estão aqui.
O trem começou lentamente a mover-se.
Pela primeira vez, percorreu toda a linha.
O apito espalhou-se pela floresta.
Os pássaros levantaram voo.
Por um breve instante, parecia que a própria Amazônia escutava aquele novo som.
Vieram os anos.
A borracha perdeu valor.
Muitos foram embora.
Outros permaneceram.
Samuel casou-se com uma professora brasileira.
Aprendeu português sem sotaque.
Teve filhos.
Netos.
Joaquim tornou-se maquinista.
Conhecia cada curva da ferrovia como quem conhece as linhas da própria mão.
Agora era 1940.
O presidente Getúlio Vargas caminhava entre estudantes reunidos para recebê-lo.
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| Registro da visita de Vargas a Porto Velho |
As meninas sorriam.
As freiras observavam.
As bandeiras balançavam ao vento.
Joaquim, já velho, permanecia um pouco afastado.
Samuel aproximou-se devagar.
Os cabelos embranquecidos escondiam o rapaz que desembarcara de Barbados trinta e dois anos antes.
— Lembra do cais?
Perguntou Samuel.
Joaquim sorriu.
— Lembro.
— E daquela clareira?
— Lembro.
Os dois olharam ao redor.
Já não havia apenas uma clareira.
Havia uma cidade.
Escolas.
Famílias.
Praças.
Comércio.
Crianças que não imaginavam que, onde brincavam, existira um acampamento cercado de mata.
Nesse instante, uma locomotiva apitou ao longe para homenagear a visita presidencial.
Samuel fechou os olhos.
Joaquim fez o mesmo.
Era exatamente o mesmo som.
O mesmo que ouvira em 1908.
O mesmo da inauguração em 1912.
O tempo havia mudado.
Os homens também.
Mas o apito permanecia.
Como se lembrasse aos vivos que os trilhos não haviam sido construídos apenas com aço e madeira.
Foram construídos com sonhos.
Com coragem.
Com amizade.
E com a memória daqueles que ficaram para sempre ao longo da ferrovia.
Enquanto o eco se perdia sobre o rio Madeira, Joaquim pensou que as locomotivas não transportavam apenas passageiros e cargas.
Transportavam o tempo.
E Joaquim compreendeu que o último trilho da Madeira-Mamoré nunca fora assentado sobre a terra.
Fora assentado na memória.
Fim.
Nota do autor
Este conto é uma obra de ficção inspirada em acontecimentos históricos relacionados à construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, inaugurada em 1º de agosto de 1912, e ao surgimento de Porto Velho, em Rondônia. Embora os personagens Joaquim e Samuel sejam fictícios, o contexto histórico, a diversidade de trabalhadores, as condições enfrentadas durante a construção da ferrovia e a visita do presidente Getúlio Vargas a Porto Velho, em 1940, baseiam-se em fatos documentados.
As imagens que acompanham este texto foram selecionadas por seu valor histórico e documental:
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Trabalhadores executando o assentamento de dormentes e trilhos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (c. 1909–1910), fotografia de Dana B. Merrill, fotógrafo oficial da construção da ferrovia. Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP). A Coleção Dana B. Merrill reúne parte dos cerca de dois mil negativos produzidos pelo fotógrafo norte-americano durante as obras da Madeira-Mamoré.
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Vista panorâmica de Porto Velho em 1910, fotografia integrante da Coleção Dana B. Merrill, preservada no Museu Paulista da USP. O registro documenta Porto Velho ainda em seus primeiros anos, revelando a cidade nascente em meio à floresta durante a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
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Trem da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, fotografia de Dana B. Merrill, pertencente ao acervo do Museu Paulista da USP, registrando a operação da ferrovia em seus primeiros anos.
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Visita do presidente Getúlio Vargas a Porto Velho, em 1940, fotografia preservada em acervo histórico e reproduzida na Wikipédia, registrando um dos momentos mais simbólicos da presença do governo federal na Amazônia durante o Estado Novo.
A pesquisa para este conto teve como base documentos históricos, fotografias de época, o acervo de Dana B. Merrill, estudos sobre a Madeira-Mamoré, o Museu Paulista, a Biblioteca Nacional, a Brasiliana Fotográfica e outras fontes de referência sobre a história de Rondônia e da Amazônia.
A memória também percorre trilhos. E, às vezes, basta o eco de um apito para atravessar mais de um século de história.





