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sábado, 4 de julho de 2026

Quando a chuva revela outra Mangaratiba



Há quem associe Mangaratiba apenas aos dias de céu azul, ao brilho intenso do sol refletido no mar e ao movimento das praias durante o verão. De fato, essa é uma imagem legítima e conhecida de nosso município, considerado a entrada da Costa Verde fluminense. Mas existe uma outra Mangaratiba, igualmente bela, que costuma passar despercebida por quem só a visita nos dias ensolarados.

É a Mangaratiba das tardes chuvosas...

Quando as nuvens descem sobre a Serra do Mar e a neblina envolve os morros, a paisagem parece ganhar uma nova dimensão. O verde da Mata Atlântica torna-se ainda mais intenso, o mar assume tonalidades acinzentadas e os barcos, ancorados na baía, balançam suavemente ao ritmo das ondas e da chuva.

Nesses momentos, o tempo parece desacelerar.

O píer, normalmente marcado pelo movimento de embarcações e visitantes rumo à Ilha Grande, transforma-se em um espaço de contemplação. A chuva desenha pequenos círculos sobre a superfície da água, enquanto o horizonte desaparece entre a névoa, criando a sensação de que o mar e o céu se encontram em um único cenário.

É curioso como a natureza consegue modificar nossa percepção do lugar sem alterar sua essência.

Os mesmos morros continuam ali. As mesmas amendoeiras e demais árvores permanecem firmes. As mesmas águas banham o litoral. O que muda é o olhar de quem observa. 

A chuva nos convida a enxergar detalhes que normalmente passam despercebidos na correria dos dias claros: o contraste das montanhas cobertas pela vegetação, o silêncio interrompido apenas pelo som das gotas d'água, o perfume da terra molhada e a tranquilidade que parece envolver toda a baía.

Vivemos numa época em que somos constantemente estimulados a buscar movimento, velocidade e produtividade. Talvez por isso muitas pessoas vejam a chuva apenas como um inconveniente, algo que atrapalha planos e deslocamentos.

Mas a natureza nos oferece outra lição.

Assim como ela precisa da chuva para renovar a vida, nós também precisamos de momentos de pausa. Há períodos em que crescer significa desacelerar, refletir e recuperar as energias antes de seguir em frente.

Mangaratiba ensina isso de maneira silenciosa.

Mesmo sob um céu fechado, ela continua encantadora. A beleza não desaparece; apenas muda de forma. O verão exibe sua exuberância sob o sol. O inverno revela sua delicadeza sob as nuvens.

Quem mora aqui aprende a apreciar ambas.

Enquanto observava a chuva cair sobre a baía nesta tarde, pensei que talvez seja justamente essa capacidade de transformar cada estação em uma experiência diferente que faz da Costa Verde um lugar tão especial. Não existe apenas uma Mangaratiba. Existe a Mangaratiba ensolarada das praias movimentadas, a Mangaratiba dourada dos fins de tarde, a Mangaratiba verde da Mata Atlântica e também esta, serena e contemplativa, em que a chuva cobre as montanhas e convida cada um de nós a simplesmente parar por alguns instantes e admirar a paisagem.

Em um mundo onde tudo parece exigir pressa, talvez uma tarde chuvosa à beira-mar seja um dos melhores lembretes de que a beleza também mora na calma.

Porque, no fim das contas, não é apenas o sol que ilumina uma paisagem. Às vezes, é a própria chuva que nos permite enxergá-la de uma maneira completamente nova.







Boa tarde!

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Costa Verde se mobilizando sobre a cobrança da TTS em Angra dos Rei



Recebi pelo WhatsApp este material sobre a Taxa de Turismo Sustentável (TTS) atualmente cobrada no município de Angra dos Reis, inclusive para fins de acesso à Ilha Grande.

Vejo com bons olhos a mobilização da sociedade civil em torno do tema, especialmente quando voltada à defesa da transparência, da prestação de contas, da correta aplicação dos recursos arrecadados e do fortalecimento dos mecanismos de participação social.

Independentemente da posição de cada cidadão sobre a taxa em si, essas são reivindicações legítimas e desejáveis em qualquer política pública de grande impacto, sobretudo quando envolve patrimônio ambiental, atividade turística e o cotidiano de comunidades locais.

O debate público ganha qualidade quando diferentes setores da sociedade participam da discussão de forma respeitosa, contribuindo para o aperfeiçoamento das políticas públicas e para o fortalecimento da confiança entre população e poder público.

domingo, 3 de maio de 2026

Cruzeiros, vírus e soberania: o limite silencioso do direito internacional sanitário



O recente surto respiratório registrado em um cruzeiro no Atlântico, atualmente sob monitoramento da Organização Mundial da Saúde, expõe um ponto crítico frequentemente negligenciado: o direito internacional sanitário dispõe de instrumentos normativos sofisticados, mas carece de mecanismos efetivos de coerção, operando, em última análise, sob a lógica da cooperação voluntária entre Estados.


1. Um caso concreto que revela uma engrenagem invisível

O surto respiratório registrado a bordo do navio MV Hondius, operado pela companhia holandesa Oceanwide Expeditions, trouxe à tona um episódio sanitário de repercussão internacional que ultrapassa o caráter meramente episódico. 

A embarcação, de bandeira dos Países Baixos, realizava uma travessia transatlântica com partida da Argentina — em rota associada a itinerários polares e científicos — e tinha como destino final o arquipélago de Cabo Verde, na costa ocidental africana. Durante o percurso, passageiros passaram a apresentar sintomas respiratórios graves, com evolução rápida e desfechos fatais.

Até o momento, há registro de três mortes e de outros casos graves, incluindo pacientes transferidos para unidades hospitalares na África do Sul. Entre as vítimas, a imprensa internacional aponta a presença de passageiros europeus, notadamente um casal de nacionalidade holandesa, o que reforça o caráter transnacional do episódio.

A suspeita inicial recai sobre infecção por hantavírus — agente raro, associado a alta letalidade em determinadas variantes —, embora a origem exata da contaminação ainda permaneça sob investigação, com acompanhamento direto da Organização Mundial da Saúde.

A ocorrência de mortes e casos graves de síndrome respiratória a bordo de um cruzeiro internacional não constitui apenas um episódio sanitário isolado. Trata-se, antes, de uma situação paradigmática em que se entrelaçam diferentes regimes jurídicos: o direito internacional da saúde, o direito do mar e a regulação global do turismo.

Navios de cruzeiro são, por definição, espaços de circulação transnacional contínua. Ao mesmo tempo em que materializam a globalização econômica, tornam-se vetores potenciais de propagação de riscos sanitários. 

É nesse contexto que o arcabouço jurídico internacional é colocado à prova.


2. O Regulamento Sanitário Internacional e seus limites estruturais

O principal instrumento jurídico aplicável é o Regulamento Sanitário Internacional (2005), que vincula a quase totalidade dos Estados e estabelece obrigações claras:


  • notificação imediata de eventos sanitários relevantes;
  • compartilhamento de informações epidemiológicas;
  • adoção de medidas proporcionais e não discriminatórias.


Esse modelo normativo reflete uma opção deliberada: preservar o fluxo internacional de pessoas e mercadorias, evitando respostas unilaterais excessivas.

Contudo, o próprio desenho do RSI revela sua principal fragilidade. Trata-se de um sistema que não dispõe de mecanismos robustos de sanção. A OMS pode coordenar, recomendar e alertar — mas não impor.

O resultado é um regime que funciona bem em cenários de cooperação, mas que se mostra vulnerável diante de interesses nacionais conflitantes ou respostas descoordenadas.

A fragilidade estrutural do Regulamento Sanitário Internacional (2005) não é apenas teórica. Durante a crise do Ebola, diversos Estados adotaram restrições de viagem e comércio em desacordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde, evidenciando a baixa capacidade de enforcement do regime. 

Situação semelhante foi observada na pandemia de COVID-19, quando medidas unilaterais — fechamento de fronteiras, bloqueios logísticos e restrições sanitárias assimétricas — proliferaram à margem da coordenação multilateral. 

Esses episódios revelam que, em momentos de maior pressão política interna, a racionalidade cooperativa do RSI tende a ceder espaço a decisões soberanas, ainda que juridicamente questionáveis.


3. Jurisdição em camadas: o desafio dos cruzeiros

A complexidade se aprofunda quando se observa a estrutura jurídica aplicável aos navios, regida, em grande medida, pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

Nessa arquitetura, coexistem três esferas de autoridade:


  • o Estado de bandeira, responsável primário pelo navio;
  • o Estado do porto, que pode impor medidas sanitárias e restrições de acesso;
  • os Estados de origem dos passageiros, que exercem proteção consular e pressão política.


Essa fragmentação jurisdicional cria um ambiente de potencial conflito normativo. Medidas sanitárias podem ser vistas, simultaneamente, como necessárias à saúde pública e como restrições indevidas à circulação internacional.


4. Responsabilidade difusa e accountability limitada

Outro ponto crítico reside na dificuldade de atribuição de responsabilidade.

Em tese, três polos podem ser responsabilizados:


  • o Estado de bandeira, por falhas de fiscalização;
  • a operadora do cruzeiro, por violação do dever de segurança;
  • o Estado portuário, por omissão ou resposta inadequada.


Na prática, contudo, essa responsabilização é difusa, fragmentada e, muitas vezes, ineficaz. A ausência de um foro internacional específico e a sobreposição de regimes jurídicos tornam a accountability um objetivo difícil de alcançar.


5. O dilema estrutural: soberania versus saúde global

No fundo, o episódio evidencia um dilema clássico do direito internacional contemporâneo.

De um lado, a soberania estatal continua sendo o princípio organizador central. De outro, riscos sanitários globais exigem respostas coordenadas, rápidas e, por vezes, intrusivas.

O Regulamento Sanitário Internacional (2005) busca equilibrar essas forças, mas o faz privilegiando a cooperação sobre a coerção. Essa escolha, embora politicamente compreensível, limita a eficácia do sistema em situações de maior complexidade.


6. A perspectiva brasileira: saúde como direito fundamental e dever estatal

No caso brasileiro, a tensão entre soberania e cooperação internacional adquire contornos constitucionais próprios.

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em seu art. 196, estabelece que a saúde é direito de todos e dever do Estado, a ser garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças.

Esse comando normativo amplia o alcance interno das obrigações assumidas no plano internacional, como aquelas decorrentes do Regulamento Sanitário Internacional (2005), convertendo compromissos externos em deveres jurídicos internos.

Em situações como a de um surto em cruzeiro internacional com potencial impacto no território nacional, a atuação estatal deixa de ser mera opção política e passa a integrar o núcleo essencial de proteção de direitos fundamentais, reforçando a necessidade de respostas coordenadas, transparentes e tecnicamente fundamentadas.


7. Conclusão: um sistema que organiza, mas não garante

O caso do cruzeiro no Atlântico não indica, por ora, um risco sistêmico global. No entanto, ele funciona como um alerta jurídico relevante.

O direito internacional sanitário é suficientemente estruturado para organizar respostas, mas não é suficientemente robusto para garanti-las.

Essa assimetria revela um ponto sensível da governança global contemporânea: a crescente interdependência dos riscos não foi acompanhada por um fortalecimento proporcional dos mecanismos de enforcement.

Em síntese, o sistema existe, opera e coordena — mas depende, em última instância, da vontade dos próprios Estados que deveria regular.

E, em ordens constitucionais como a brasileira, essa vontade encontra limites jurídicos expressos na proteção do direito fundamental à saúde — o que transforma a omissão não apenas em falha política, mas em potencial violação constitucional.


📷: STR/AFP

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Carnaval de Mangaratiba: menos público pode significar mais futuro?


Prefeitura/divulgação


Sou morador de Mangaratiba desde agosto de 2012 e veranista desde a infância. Vi a cidade em fases muito diferentes: o auge do turismo nas ilhas da Baía de Sepetiba nos anos 90, o crescimento desordenado dos carnavais mais massivos, os períodos de tensão na segurança e na infraestrutura, e agora um momento que parece ser de transição.

Nos últimos anos, especialmente neste último período festivo (dias 13 a 18 de fevereiro de 2026), tive uma percepção clara: menos carros nas ruas de Muriqui, menos filas em estabelecimentos, menor pressão sobre o abastecimento de água — algo que historicamente sempre foi um termômetro dos anos mais cheios. A sensação foi de um Carnaval menos inflado.

Mas isso significa um pior Carnaval? Não necessariamente.


O dilema: volume ou qualidade?

Por mais de duas décadas, o Carnaval em Mangaratiba foi alvo de críticas de moradores. Não pela festa em si, mas pelos efeitos colaterais:


  • Conflitos de ordem pública;
  • Pressão excessiva sobre infraestrutura;
  • Falta d’água nos dias de pico;
  • Comércio formal pouco beneficiado;
  • Visitantes que trazem bebida e comida no carro, consomem pouco e deixam alto impacto urbano, principalmente quanto ao lixo.


Em cidades pequenas, existe um limite físico e social para o volume de visitantes. Quando esse limite é ultrapassado, o custo para o morador passa a ser maior do que o benefício econômico.

Talvez estejamos vivendo agora um momento em que a redução do público não represente decadência, mas sim um necessário ajuste.


Segurança como ativo estratégico

É perceptível que a segurança pública melhorou na última década. Mangaratiba passou a ser vista por muitos como uma “ilha segura” em comparação com cidades vizinhas como Angra dos Reis e Itaguaí.

Essa percepção é um ativo valioso!

Carnavais massivos costumam tensionar a segurança. Já um modelo mais organizado e controlado pode fortalecer a imagem de destino tranquilo e familiar — algo extremamente estratégico para uma cidade que deseja consolidar turismo de qualidade.


O Carnamar e o diferencial náutico

O grande diferencial de Mangaratiba não está apenas nos blocos de rua. Está no mar.

O Carnamar, realizado na Baía de Sepetiba, é um evento singular na Costa Verde. Festa embarcada, identidade náutica, integração com o cais de Itacuruçá e com as ilhas tropicais que já foram protagonistas do turismo regional.

Esse é um patrimônio simbólico e estratégico.

Talvez o futuro do Carnaval de Mangaratiba não esteja em competir por volume com cidades maiores, mas em consolidar um modelo náutico organizado, seguro e diferenciado.


O impacto do pedágio Free Flow

A implantação do pedágio eletrônico (Free Flow) na BR-101 (Rodovia Rio–Santos), no final de março de 2023, trouxe mudanças estruturais na dinâmica de acesso à Costa Verde. Embora existam questionamentos legítimos quanto à cobrança para moradores e ao sistema de autuação automática, é inegável que o modelo alterou o comportamento de parte dos visitantes.

O turista de última hora — especialmente o excursionista de um único dia — pode ter sido reduzido. O custo adicional, ainda que não seja elevado individualmente, funciona como um fator de decisão para deslocamentos impulsivos.

Se isso de fato ocorreu, pode ter funcionado como um filtro natural.

Menos público espontâneo e mais público planejado tende a gerar maior permanência, mais consumo local e menor pressão sobre serviços públicos.


Cidade de passagem ou destino consolidado?

Mangaratiba hoje vive um desafio estrutural: não se tornar apenas município de passagem rumo à Ilha Grande ou Paraty.

Para isso, precisa fortalecer sua própria identidade turística.

Nos anos 80 e 90, as ilhas acessadas a partir de Itacuruçá tinham forte protagonismo. Recuperar esse posicionamento — com organização, planejamento e controle ambiental — pode recolocar o município no circuito principal da Costa Verde.


Três caminhos possíveis

O município, sob a nova gestão do prefeito Luís Cláudio Ribeiro, tem diante de si três caminhos:


  1. Retomar o modelo massivo, com grandes shows e alto volume, assumindo os custos urbanos.
  2. Consolidar um Carnaval seletivo, organizado e sustentável.
  3. Transformar o Carnamar no eixo de um Carnaval náutico premium, diferenciado na região.


O primeiro gera volume.
Os dois últimos, porém, podem gerar valor.


A pergunta que precisa ser feita

O que Mangaratiba quer ser?

Um destino de explosão pontual e pressão máxima?
Ou uma cidade que oferece experiência, segurança e qualidade de vida também para quem mora aqui?

Como morador, percebo que parte significativa da população prefere menos tumulto e mais organização. E talvez o futuro do Carnaval esteja justamente nesse equilíbrio.

Menos pode ser mais!

Mais qualidade, mais planejamento, mais identidade...

Se Mangaratiba souber transformar essa fase em estratégia — integrando o cais de Itacuruçá, fortalecendo o Carnamar, preservando a segurança e valorizando o comércio local — poderá não apenas ter um bom Carnaval, mas um projeto turístico consistente para as próximas décadas.


Nota – Números oficiais do Carnaval de Mangaratiba 2026



Conforme dados divulgados pela Prefeitura de Mangaratiba, em balanço oficial do Carnaval 2026, o evento registrou:


Entretenimento e Público:

  • 50 mil visitantes por dia
  • 120 horas de programação
  • 45 shows realizados
  • 33 blocos carnavalescos
  • 8 palcos montados
  • 90% de ocupação na rede hoteleira


Operação e Logística:

  • Mais de 1.000 colaboradores envolvidos
  • 144 horas de Operação Verão
  • Mais de 200 mil panfletos distribuídos


Saúde, Fiscalização e Ordem Pública:

  • Mais de 3.300 atendimentos médicos
  • 1.790 infrações de trânsito registradas
  • Mais de 240 apreensões (churrasqueiras, tendas e itens proibidos)
  • 160 estabelecimentos fiscalizados
  • 6 acampamentos irregulares desmontados


Limpeza Urbana:

  • Divulgação oficial aponta “mais de 432 mil toneladas de lixo recolhidas”.
    O número aparenta possível inconsistência técnica, podendo tratar-se de 432 toneladas ou 432 mil quilos — volume que, ainda assim, representa impacto significativo para o município.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Mangaratiba rumo a 2031: o bicentenário como teste de futuro

 


Introdução – O bicentenário como espelho

Mangaratiba caminha para completar 200 anos de emancipação política em 11 de novembro de 2031, data em que foi elevada à categoria de vila autônoma, então denominada Nossa Senhora da Guia de Mangaratiba. O bicentenário não deve ser apenas comemorativo. Datas simbólicas funcionam como espelhos coletivos: convidam a revisitar o passado sem idealizações, compreender o presente com honestidade e projetar o futuro com responsabilidade.

Cidade marcada por belezas naturais singulares, posição estratégica na Costa Verde e forte diversidade cultural, Mangaratiba nunca sofreu por falta de potencial. Seus maiores dilemas sempre estiveram ligados à forma como esse potencial foi administrado ao longo do tempo. 

Este ensaio propõe uma leitura crítico-histórica, acessível e jornalística, articulando identidade, planejamento público, orçamento e infraestrutura, sem personalizar culpas, mas destacando escolhas e continuidades.


1. Identidade e território: da aldeia à cidade turística

A história oficial registra que a ocupação do território remonta ao século XVII, com aldeamentos indígenas organizados por missionários e a primeira construção, em 1688, da capela de Nossa Senhora da Guia — marco fundacional do núcleo urbano. Elevada à freguesia em 1764 e, posteriormente, à vila em 1831, Mangaratiba nasce institucionalmente vinculada ao litoral, ao porto e às rotas econômicas regionais.

Essa trajetória ajuda a entender uma tensão que atravessa os séculos. De um lado, a cidade exaltada em hinos e discursos oficiais, como na letra de Alberto Rodrigues da Silva, apresentada como paisagem exuberante e destino turístico. De outro, a cidade vivida: pescadores, quilombolas, trabalhadores do comércio e do turismo, servidores públicos, moradores da Mata Atlântica e dos bairros periféricos.

A música Habitat Natural da Planta, de Daniel Soares, expressa essa segunda dimensão — cotidiana, afetiva e territorial. O conflito surge quando as políticas públicas passam a enxergar Mangaratiba apenas como cenário, deixando em segundo plano as necessidades estruturais de quem vive nela o ano inteiro.


2. Turismo: vocação histórica e risco permanente

No século XIX, Mangaratiba foi porto estratégico para o escoamento do café do Vale do Paraíba. Com o declínio dessa atividade e o avanço das ferrovias, a cidade entrou em novo ciclo econômico no século XX, impulsionado pela Rodovia Rio–Santos e pela consolidação do turismo.

O turismo tornou-se vocação, mas também armadilha. A ocupação desordenada, a sazonalidade econômica e a pressão sobre serviços públicos revelam os limites de um modelo baseado na exploração intensiva da paisagem. Iniciativas como a ideia da Costa Verde como “um só destino” ampliam oportunidades, mas expõem riscos claros: sem saneamento, planejamento urbano e controle ambiental, o turismo ameaça destruir o próprio ativo que o sustenta.


3. Saneamento: o divisor de águas do futuro

Poucos temas revelam tão claramente os impasses históricos de Mangaratiba quanto o saneamento básico. Apesar de sua centralidade para a saúde pública, o meio ambiente e o turismo, o tema permaneceu por décadas fora das prioridades políticas.

A ausência de coleta e tratamento adequados de esgoto compromete praias, rios e a imagem do município. Não se trata apenas de infraestrutura, mas de estratégia de sobrevivência econômica. Sem saneamento, não há turismo sustentável, nem qualidade de vida, nem futuro.

As medidas adotadas pelo Ministério Público nas últimas décadas expõem aquilo que o planejamento tardio insiste em adiar. No horizonte do bicentenário, o saneamento surge como fronteira decisiva entre estagnação e desenvolvimento real.


4. Planejamento em saúde: avanço técnico, memória curta

O Plano Municipal de Saúde 2026–2029 sinaliza amadurecimento institucional. Reconhece gargalos históricos — como a dificuldade de fixação de profissionais, a pressão sobre a regulação e a demanda reprimida em saúde mental — e adota metodologia mais alinhada ao SUS.

Ainda assim, o plano revela um problema recorrente: a falta de avaliação clara do ciclo anterior. Planeja-se mais do que se aprende. Sem balanços transparentes do que foi cumprido ou não, o planejamento corre o risco de se transformar em formalidade administrativa, pouco conectada à realidade dos serviços.


5. Orçamento público: equilíbrio no papel, risco na prática

A Lei Orçamentária Anual de 2026 apresenta equilíbrio contábil e volume expressivo de recursos. No entanto, a dependência elevada de royalties do petróleo — receitas voláteis — para financiar despesas permanentes cria fragilidade estrutural.

O predomínio do custeio sobre o investimento, especialmente na saúde, perpetua a terceirização e limita a construção de capacidade pública própria. Soma-se a isso o alto volume destinado ao pagamento de sentenças judiciais, sinal de passivos acumulados por decisões mal resolvidas no passado.

O orçamento revela, assim, uma cidade que administra o presente pagando dívidas históricas, com pouco espaço para transformação estrutural.


6. Mobilidade urbana: planejamento sob pressão

O transporte público ilustra um padrão recorrente em Mangaratiba. A precariedade prolongada do serviço levou à judicialização do tema, e a resposta orçamentária recente parece mais reativa do que planejada.

Quando o Judiciário antecipa o planejamento, evidencia-se um modelo de gestão que avança não pela estratégia, mas pela pressão externa. O custo dessa lógica é alto — financeiro, institucional e social.


Conclusão – O que Mangaratiba quer celebrar em 2031?

Ao completar 200 anos de emancipação política, Mangaratiba será chamada a decidir o sentido de sua celebração. Apenas a exaltação da paisagem e do passado? Ou a coragem de enfrentar dilemas estruturais com transparência e escolhas responsáveis?

O bicentenário pode marcar a virada da cidade-cenário para a cidade vivida; do improviso para o planejamento; da dependência de receitas fáceis para a sustentabilidade de longo prazo.

Celebrar Mangaratiba é assumir compromisso com seu futuro. E isso exige mais do que festas: exige decisões informadas, memória histórica e vontade política de transformar potencial em realidade.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Mangaratiba: Descubra o Potencial do Parque Arqueológico e Ambiental do Sahy e do Povoado do Saco



Você sabia que Mangaratiba guarda vestígios de um mercado de escravos que podem se tornar um dos maiores atrativos culturais do Estado do Rio de Janeiro? Recentemente, o morador Fabio Rodrigues publicou no Facebook uma reflexão valiosa sobre o potencial histórico e turístico da cidade, destacando as antigas ruínas do Sahy e do Povoado do Saco. Rodrigues cita Curitiba como exemplo, mostrando como a restauração de ruínas históricas pode transformar espaços em pontos culturais e turísticos, atraindo visitantes e movimentando o comércio local.


"Uma única ruína histórica, em Curitiba, foi restaurada e valorizada histórica e culturalmente e eventos teatrais, esportivos e musicais acontecem gratuitamente em suas proximidades. E um comércio variado se instalou ao seu redor, assim como uma grande feira de arte e artesanato ao ar livre, atraindo diariamente milhares de turistas, ávidos por consumir a cultura com a identidade local.  Imaginem se conseguirmos estruturar o Parque Arqueológico e Ambiental nas ruínas histórico-culturais do Sahy e do antigo Povoado do Saco? Quantos frentes de trabalho, renda e dignidade seriam abertas para a nossa população e quão nossa Mangaratiba ganharia em status turístico no Estado? Se já fomos o segundo destino mais desejado do Rio de Janeiro devido à beleza das ilhas tropicais de Itacuruçá e, com a mudança no perfil dos turistas, que hoje procuram também vivências e enriquecimento cultual, podemos voltar ao topo do ranking dos destinos mais procurados. Melhorando a infraestrutura básica, como fornecimento de água, energia elétrica e transporte público de qualidade e estruturando os parques, temos potencial para isso e muito mais! Ousadia, senhores!"


Inspirando-se nesse modelo, vamos explorar o panorama das ruínas de Mangaratiba, seu valor histórico, legislação, ações governamentais, desafios e oportunidades.


Curitiba mostra como ruínas podem virar cultura e turismo

O autor da postagem bem lembrou que, em Curitiba, a restauração de uma única ruína histórica transformou completamente o entorno. Eventos culturais, teatrais, musicais e esportivos gratuitos passam a acontecer regularmente, estimulando o comércio local e atraindo turistas interessados em experiências culturais autênticas.

Certamente Fábio deve ter se referido às Ruínas de São Francisco, remanescentes de um templo religioso iniciado no final do século XVIII, incluem a capela-mor e a sacristia concluídas por volta de 1811, no bairro São Francisco, tombado como patrimônio histórico estadual desde 1966. Pedras da construção foram parcialmente remanejadas em 1860, mas o local se consolidou como símbolo da história urbana de Curitiba. Hoje, abriga anfiteatro ao ar livre, espaços comerciais, galerias e feiras de artesanato, integrando cultura, arte e economia.



Essa experiência comprova que investir no patrimônio histórico fortalece a identidade da cidade e promove desenvolvimento econômico, servindo de inspiração para Mangaratiba.


O Sahy e o Povoado do Saco: Patrimônios históricos de Mangaratiba

Sahy abriga ruínas de um mercado de escravos entre a praia e a ferrovia, evidenciando a presença da diáspora africana e a importância da região no tráfico de escravizados e no ciclo cafeeiro. O acesso é limitado pela ferrovia e pela ocupação parcial por condomínios, mas o potencial turístico e cultural é elevado.

Povoado do Saco, localizado no início da RJ-149, tem acesso mais facilitado, convivendo com construções residenciais, incluindo moradias irregulares. A RJ-149, antiga estrada de São João Marcos construída por escravos no século XIX, possibilita a integração a roteiros históricos, rurais e econômicos, valorizando tanto o patrimônio material quanto imaterial da região.


Pesquisas e mobilizações históricas

A historiadora Miriam Bondim destacou a relevância arqueológica do Sahy, evidenciando ocupação humana anterior à colonização portuguesa e reforçando o valor cultural do local.

blog Parque Sahy documenta, desde 2008, mobilizações, pesquisas e eventos que pressionaram autoridades municipais, estaduais e federais para a criação do parque, registrando ameaças urbanísticas e a necessidade de preservação.

Postagens do blog Melhorar Mangaratiba reforçam propostas de valorização turística, sugerindo centros culturais, museus, trilhas interpretativas e uso sustentável do Sahy e do Povoado do Saco, sempre conectados à história da diáspora africana e à memória da cidade.


Reconhecimento jurídico e administrativo

O Sahy e o Povoado do Saco foram reconhecidos como patrimônios de interesse histórico-cultural na Lei Orgânica de Mangaratiba. O Projeto de Lei Municipal nº 90/2023, de autoria do vereador Emilson dos Santos Coelho, o Emilson da Farmácia, propôs formalmente a criação do Parque Arqueológico e Ambiental do Sahy. Apesar do veto, a Lei Municipal nº 1.565/2024, sancionada pelo então prefeito Alan Campos da Costa, estabeleceu diretrizes para o parque, incluindo:


  • Levantamento histórico e arqueológico das ruínas;
  • Sinalização interpretativa e QR Codes com informações históricas;
  • Infraestrutura mínima: banheiros, guarita e sala administrativa;
  • Limpeza e organização de caminhos de acesso;
  • Parcerias públicas e privadas para viabilização de recursos.


INEPAC e o IPHAN também reconhecem o valor arqueológico do Sahy, enquanto a ALERJ, por meio do então deputado Luiz Cláudio Ribeiro, apoia iniciativas de valorização turística, reforçando o potencial de Mangaratiba como polo de turismo de natureza.


Como Mangaratiba pode se tornar referência em turismo histórico e cultural



A criação do Parque Arqueológico do Sahy e a valorização do Povoado do Saco podem gerar:


  • Novos empregos e renda, com comércio local, guias turísticos e eventos culturais;
  • Maior visibilidade da cidade, resgatando o título histórico de destino desejado no Estado do Rio de Janeiro, especialmente próximo à rodovia Rio-Santos;
  • Integração cultural e educativa, oferecendo experiências que conectam visitantes à história da escravidão e à herança africana;
  • Roteiros turísticos diversificados, incluindo ecoturismo, turismo histórico e cultural.


Desafios a serem superados

Apesar do potencial, é necessário enfrentar:


  • Acesso físico limitado ao Sahy devido à ferrovia e construções adjacentes;
  • Regularização fundiária e adequação das construções existentes, especialmente no Povoado do Saco;
  • Necessidade de infraestrutura básica: água, energia elétrica e transporte público de qualidade;
  • Coordenação entre órgãos municipais, estaduais e federais para efetivar o parque e garantir sustentabilidade.


Conclusão: O futuro está em nossas mãos

A reflexão de Fábio Rodrigues mostra que Mangaratiba possui patrimônio histórico e cultural único, capaz de se tornar motor de desenvolvimento econômico e turístico. Com base nos estudos da historiadora Miriam Bondim, nas mobilizações do blog Parque Sahy, nas propostas de blogs locais e na legislação municipal (Lei nº 1.565/2024) e estadual, existe um caminho claro para consolidar o Parque Arqueológico do Sahy e integrar o Povoado do Saco a roteiros turísticos históricos.

Essa iniciativa exige ousadia, cooperação entre poderes públicos, apoio da comunidade e visão estratégica. Visite, conheça, apoie a preservação e seja parte desta história viva de Mangaratiba, contribuindo para que a cidade se torne referência em turismo histórico e de natureza.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Costa Verde – Um só destino: uma nova visão de turismo integrado para Mangaratiba, Ilha Grande, Angra e Paraty



A Costa Verde, reconhecida internacionalmente por suas praias, trilhas, ilhas e áreas de preservação ambiental, pode estar diante de uma oportunidade estratégica que redefiniria a forma como turistas — nacionais e estrangeiros — vivenciam a região. 

A proposta do conceito “Costa Verde – Um só destino” vai além da simples promoção conjunta: trata-se de articular um corredor turístico e aquaviário que conecte Mangaratiba, Ilha Grande, Angra dos Reis e Paraty como parte de uma experiência contínua, e não mais como destinos isolados.

Hoje, milhares de visitantes chegam à Costa Verde por Mangaratiba ou Angra, passam pela Ilha Grande, seguem para Paraty e retornam às suas origens sem perceber que poderiam ter desfrutado de uma travessia integrada, com embarque ou desembarque planejado, pernoites programadas e experiências complementares em cada cidade. O que existe é um fluxo espontâneo, e não estruturado. 

A proposta que defendo, entretanto, é transformar o deslocamento em produto turístico.

A ideia não seria inédita no mundo. Regiões mediterrâneas e caribenhas se tornaram referências justamente por transformar o mar em avenida cultural e ambiental. Se Capri, Positano e Amalfi compartilham turistas; se Mykonos e Santorini se revezam em perfumes, panoramas e gastronomias; se Tulum e Cozumel se conectam pela memória do mar — por que a Costa Verde não poderia se consolidar como rota única de natureza, história e gastronomia brasileira, atravessando três séculos de paisagens e culturas?


Mangaratiba sairia do papel de corredor e assumiria o protagonismo 

Integrar um roteiro é mais do que somar pontos no mapa: é convocar o visitante a permanecer na Costa Verde. E é nesse ponto que Mangaratiba tem um papel essencial.

Hoje, a cidade recebe o fluxo, mas não necessariamente retém o turista. Com uma estratégia de turismo de rota, Mangaratiba deixa de ser apenas o primeiro passo rumo à Ilha Grande e passa a ser parte da jornada: cachoeiras próximas, praias de mar calmo, comunidades tradicionais, gastronomia litorânea e passeios ecológicos podem ocupar a primeira ou a última no site de quem visita a região — aumentando a permanência média, o gasto e o vínculo afetivo com o território.


Instituições de turismo: oportunidade de política pública e de marca regional

Para as instituições, a proposta representa:


- fortalecimento do destino por marketing conjunto;

- criação de um produto com identidade própria, reconhecível e exportável;

- distribuição geográfica e temporal do turismo, reduzindo sazonalidade;

- estímulo à formalização e qualificação da cadeia turística;

- viabilização de rotas aquaviárias regulares ou sazonais como opção sustentável;

- criação de oportunidades para pequenos empreendedores e turismo comunitário.


A marca “Costa Verde – Um só destino” pode ser adotada por consórcios de turismo, cooperativas, trade hoteleiro, setor náutico, agências receptivas e feiras internacionais — reforçando que o valor agregado está justamente na viagem integrada.


Itacuruçá e Ilha de Jaguanum — um futuro capítulo possível

Num segundo momento, a proposta poderá ampliar o corredor turístico com a inclusão de Itacuruçá e Ilha de Jaguanum — regiões que combinam tranquilidade, baías protegidas, praias pouco exploradas e uma vocação natural para turismo sustentável, cicloturismo, pesca esportiva e roteiros de observação de fauna e flora marinha.

Essa expansão se adaptaria ao conceito de turismo de baixo impacto e alto valor, alinhado às diretrizes de destinos que preservam seu patrimônio ambiental e evitam modelos predatórios de ocupação.


Um destino, muitos caminhos

Transformar a Costa Verde em um destino único não é apenas um slogan, mas uma nova forma de olhar para a economia do mar, para a história compartilhada e para o futuro sustentável da região.

O turista de hoje não viaja para ver lugares — viaja para viver percursos. E é nesse percurso que a Costa Verde encontra sua melhor história para contar.


📌 Nota — A reflexão sobre o transporte aquaviário apresentada neste artigo dialoga diretamente com o resgate histórico feito pelo professor Adinalzir Pereira, em sua postagem no Facebook (link: https://www.facebook.com/share/p/1EpV81fxHP/), na qual relembra o período em que as águas eram as “estradas naturais” que conectavam Santa Cruz, Sepetiba e todo o litoral da Costa Verde. Sua pesquisa mostra que, muito antes da abertura das rodovias, barcos de diferentes portes realizavam viagens regulares, transportando trabalhadores, mercadorias, pescadores e famílias, promovendo intercâmbio social e econômico entre comunidades. Essa memória histórica ajudou a inspirar a ideia de repensar, agora sob a perspectiva da mobilidade moderna, as possibilidades de revitalização do transporte marítimo regional.

sábado, 10 de maio de 2025

Mangaratiba deveria criar a sua taxa de preservação ambiental



Durante a semana, encaminhei ao prefeito Luiz Cláudio de Souza Ribeiro mais uma sugestão que seria o Município de Mangaratiba criar a sua Taxa de Preservação Ambiental (TPA) para veículos de turistas tal como já vem fazendo, com muito sucesso, a cidade de Ubatuba, no litoral paulista, desde o final da década passada. 


Como se sabe, Ubatuba é um município praiano com população e dimensão territorial um pouco maior do que a nossa, além da semelhança geográfica, com praias, ilhas, cachoeiras e serras, mas que tem sido reconhecido como referência para fins turísticos. Lá o comércio é pulsante e a cidade oferece uma boa estrutura para o visitante desfrutar com qualidade dos atrativos locais que sejam naturais, históricos ou culturais.


Inegável é que para manter toda essa infraestrutura turística há um custo, o que abrange a tão reclamada limpeza urbana que tanto lá quanto aqui se torna precária nas épocas de maior movimento, a exemplo do Ano Novo e do Carnaval. Aliás, a tendência da região da Costa Verde é que, com a duplicação da rodovia Rio-Santos pela concessionária CCR Rio-SP, o número de visitantes só aumente nos anos posteriores.


Ora, inteligentemente, a Prefeitura de Ubatuba já cobra a Taxa de Preservação Ambiental que tem como fato gerador o exercício regular do poder de polícia municipal em matéria de proteção, preservação e conservação do meio ambiente no território municipal, incidindo sobre o trânsito de veículos utilizando infraestrutura física na jurisdição, acesso e fruição do patrimônio natural, cultural e histórico, com o objetivo de mitigação e compensação de seus impactos socioambientais. E a base de cálculo do referido tributo são os custos estimados da atividade administrativa em razão da capacidade de degradação de acordo com os veículos em circulação, conforme valores diários que são reajustados nos termos da própria legislação local:


"Motocicleta e motoneta - R$ 3,69

Veículos de pequeno porte - R$ 13,73

Veículos utilitários - R$ 20,59

Veículos de excursão - R$ 41,18

Micro-ônibus e caminhões - R$ 62,30

Ônibus - R$ 97,14"


Na prática, o que Ubatuba fez foi implantar um sistema eletrônico de leitura de placas que faz os registros dos carros logo nas entradas da cidade, sem a necessidade de barreiras físicas como as praças pedágio. O motorista, caso não esteja isento pelas hipóteses previstas na legislação municipal, realiza o pagamento e pode então circular pelas ruas normalmente, contribuindo para mitigar os impactos ambientais.


Pode-se dizer que a adoção da TPA se tornou uma ferramenta de crescimento local sustentável com foco na preservação de um dos bens mais preciosos que é a a natureza. É algo que vai justamente na contramão do indesejado turismo predatório, uma vez que contribui para mitigar os seus impactos negativos, ajudando a manter a qualidade de vida dos moradores e também da população flutuante, além de diminuir o volume de visitantes nas altas temporadas, conforme constatado numa recente publicação oficial da Prefeitura de Ubatuba de janeiro de 2024 com o título TPA começa a traçar o perfil do turista de Ubatuba e o impacto na cidade:


"As Taxas de Preservação Ambiental existem para garantir que algumas cidades não sofram com o grande volume de turistas, minimizando os impactos causados ao meio ambiente durante as altas temporadas.

Ubatuba, coberta pela exuberante Mata Atlântica e com mais de 100 praias em sua extensão, é uma dessas cidades que recebe um número imenso de visitantes e, por isso, adotou a taxa ambiental – em vigor desde 8 de fevereiro de 2023.

“Já nesse primeiro ano de da TPA temos um melhor mapa da cidade. Estamos traçando um perfil mais detalhado do turista e também do impacto ambiental e socioambiental na cidade”, comenta o secretário de Meio Ambiente, Guilherme Adolpho.

O primeiro levantamento da TPA, durante as festas de final de ano, já revelou que Ubatuba recebeu visitantes de diferentes partes do Brasil, como dos estados do Acre e Rondônia, por exemplo.

(...)

Os principais fatores que prejudicam o meio ambiente causados pela essa explosão turística são: aumento na produção de resíduos (lixo), maior emissão de poluentes (carros automotores), poluição sonora, uso exagerado do habitat (praia, parques, trilhas, cachoeiras).

Assim, a verba arrecadada com a TPA serve para recuperar áreas degradadas, conservar patrimônios ambientais, culturais e históricos, investir em infraestruturas turísticas, em saneamento, e projetos socioambientais."


Além do mais, com uma maior arrecadação de recursos, a Prefeitura poderá, em tese, promover uma melhor gestão de resíduos sólidos, os serviços de saneamento básico, a limpeza urbana, as atividades de fiscalização, a manutenção de trilhas, dentre outras ações mais.


Desse modo, acredito que, se Mangaratiba resolver adotar também a sua TPA, estaremos dando um significativo passo para termos daqui alguns anos um turismo sustentável que não somente ajude a preservar a natureza como também promover mais qualidade de vida para toda a nossa população.


Lutemos pela causa!

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Sextando na Serra!



Neste segundo dia de agosto de 2024, passei o final da manhã e quase toda a tarde na admirável região da Serra do Piloto, 5º Distrito de Mangaratiba, juntamente com os companheiros Oduvaldo Silvino, Emil Crokidakis Castro e Gustavo Oliveira, além de sua namorada Karla.


Subir a serra pela RJ-149 é sempre um mergulho na história de Mangaratiba a começar pelas ruínas do antigo povoado do Saco e bastam alguns quilômetros para logo nos depararmos como o majestoso Mirante Imperial de onde é possível ter uma vista panorâmica da cidade e ainda observar ao longe a bela Ilha Grande. Para quem não sabe, essa rodovia também conhecida como Estrada Imperial de São João Marcos chegou a ser durante algumas décadas da segunda metade do século XIX a principal via pela qual era transportado o café produzido no Vale do Paraíba até o litoral.



Dali seguimos rumo ao Empório da Barreira, um agradável estabelecimento aberto no início de 2018 onde podem ser encontrados alguns produtos de qualidade da região, além do ambiente cercado do verde da Mata Atlântica e decorado com várias peças de antiguidade. No local, fomos muito bem recebidos por sua proprietária Sra. Lucimary Kaiser e tivemos uma boa conversa tratando de assuntos sobre o nosso Município.






O almoço acabou sendo na histórica Fazenda da Lapa, do anfitrião e amigo, Emil Crokidakis Castro. A construção do imóvel é do século XIX e nos faz lembrar dos tempos do Brasil imperial. Aproveitei para desfrutar do agradável ambiente externo do imóvel com muitas plantas e uns cachorrinhos dentre os quais uns filhotes disponíveis para adoção. 





Para quem acha que Mangaratiba só possui praias e ilhas, vale a pena conhecer também a Serra do Piloto. Um lugar incrível com um enorme potencial turístico a ser desenvolvido com sustentabilidade!

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Que tal um projeto tecnológico para preservar a memória de Mangaratiba

 


Registrei logo na manhã desta segunda na Ouvidoria da Prefeitura de Mangaratiba a solicitação de n.º 332/2024 pedindo a colocação de "placas informativas com código QR nas ruas, praças, monumentos, estátuas, pontos históricos, naturais e culturais da cidade que direcionem o internauta a uma página da Prefeitura ou da Fundação Mário Peixoto com informações sobre o lugar e/ou a pessoa homenageada", a qual poderia conter "textos em português e inglês bem como ferramentas de acessibilidade".


Embora ideia já estivesse há mais tempo na minha cabeça, fiquei mais empolgado em apresentar essa manifestação assim que li umas notícias recentes sobre o projeto carioca "Aqui tem memória" que iniciou os trabalhos com apenas com 12 placas, sendo dez na região da Praça XV, uma nos Arcos de Lapa e a outra na estátua de São Sebastião, na Glória:


"O projeto “Aqui tem memória” tem como objetivo resgatar e valorizar a história da cidade, instalando placas informativas com códigos QR em importantes pontos históricos e culturais do Rio. Começamos com 12 placas, 10 na região da Praça XV, uma nos Arcos de Lapa e outra na estátua de São Sebastião, na Glória.

Ao passar em frente aos monumentos, os cariocas e turistas poderão escanear os códigos QR e serão direcionados para páginas interativas aqui no museu virtual “Rio Memórias”. Essas páginas contêm informações detalhadas sobre o local em questão, disponíveis em português e inglês e algumas ainda contam com um recurso adicional: áudios narrativos envolventes que proporcionam uma experiência imersiva única!

O “Aqui tem memória” quer espalhar a nossa história por todas ruas e bairros, chamando a atenção para a importância de preservar o patrimônio material e imaterial da cidade. Acreditamos que, ao conhecer o nosso passado, podemos construir  um futuro melhor para os cariocas e proporcionar uma experiência mais interessante para aqueles que nos visitam." https://riomemorias.com.br/galeria/aqui-tem-memoria/ 


Assim como o Rio de Janeiro tomou essa iniciativa, a meu ver tardia (outras cidades no país já estavam fazendo), uma vez que se trata de algo aparentemente simples e de baixo custo, torna-se indispensável a elaboração de um projeto nesse sentido juntamente com todas as secretarias competentes, o que certamente ajudará no desenvolvimento turístico de Mangaratiba, além da preservação das lembranças sobre o passado do nosso Município.



Apesar de todo o descrédito da atual gestão municipal que findará no dia 31/12 do corrente ano com poucas possibilidades de inovar em qualquer área, entendo que as sugestões e críticas precisam ser encaminhadas já que a Prefeitura é uma instituição pública e a sua Ouvidoria é o canal para registro dessas manifestações feitas pelos cidadãos.


OBS: Postagem de minha autoria originalmente compartilhada no blogue "Propostas para uma Mangaratiba melhor" com o título Mangaratiba também tem memória!

domingo, 4 de fevereiro de 2024

A Prefeitura de Mangaratiba deveria isentar os feirantes do Município!

 


Durante o último sábado (03/02), estive caminhando pela feira de Itacuruçá e verifiquei que a Prefeitura de Mangaratiba está cobrando atualmente uma taxa de R$ 30,00 (trinta reais) para o interessado poder vender seus produtos no local. 


Ocorre que essa feirinha é fundamental para o desenvolvimento do turismo na localidade, assim como ocorre em outros distritos, e pode gerar trabalho e renda para o morador do lugar, o qual nem sempre exerce outra atividade econômica diversa.


Como se sabe, nem todos os finais de semana do ano são atrativos para quem possui comércio como nos dias ensolarados de verão entre o Natal e o Carnaval, havendo ocasiões, durante a baixa temporada, em que o nosso Município fica bem esvaziado e os vendedores mal conseguem pagar a referida taxa. Ou seja, eles acabam "trocando cebolas" ou tendo prejuízo, depois de permanecerem horas atendendo o público...


Sendo assim, por serem essas feirinhas estratégicas para o desenvolvimento turísticos dos distritos de Mangaratiba, é preciso que a Prefeitura gere estímulos para as vendas de produtos, como os artesanatos de moradores ou os alimentos da agricultura local, ao invés de criar dificuldades. Pois, do contrário, muitos feirantes nem terão mais interesse de vender nessa e em outras praças.


Desse modo, é fundamental que as autoridades municipais discutam meios de isentar de taxas o feirante, a exemplo de quem não exerce outra atividade, seja artesão, produtor rural, ou seja pessoa com deficiência, estabelecendo normas para determinados casos, podendo ser exigida a seguinte documentação conforme a hipótese, aceitando pedidos pelas vias presencial ou eletrônica:


• Formulário de Requerimento preenchido e assinado, se presencial;

• Documento de identificação; 

• CPF; 

• Comprovante de residência do feirante com validade de 90 dias ou;

• Declaração de residência, caso o feirante não tenha o comprovante de residência em seu nome, sob a sua responsabilidade perante suas declarações; 

• Declaração de não exercício de atividade econômica diversa; 

• Laudo Médico contendo o código CID da patologia em caso de necessidades especiais; 

• Boletim de produção, em caso de feirante produtor rural/urbano; 

• Cartão e carteira da matrícula de feirante; 

• Procuração particular ou procuração pública, se o caso; 

• CPF do Procurador, se o caso; 

• Procuração particular ou procuração pública do Despachante, se o caso; 

• Cartão do Despachante, se o caso; 

• Outros documentos (se entender necessários). 


Vamos lutar para que quem é residente no próprio distrito (e luta o ano inteiro) fique isento desse tributo absurdo! 


Ótima semana a tod@s!