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quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Costa Verde se mobilizando sobre a cobrança da TTS em Angra dos Rei



Recebi pelo WhatsApp este material sobre a Taxa de Turismo Sustentável (TTS) atualmente cobrada no município de Angra dos Reis, inclusive para fins de acesso à Ilha Grande.

Vejo com bons olhos a mobilização da sociedade civil em torno do tema, especialmente quando voltada à defesa da transparência, da prestação de contas, da correta aplicação dos recursos arrecadados e do fortalecimento dos mecanismos de participação social.

Independentemente da posição de cada cidadão sobre a taxa em si, essas são reivindicações legítimas e desejáveis em qualquer política pública de grande impacto, sobretudo quando envolve patrimônio ambiental, atividade turística e o cotidiano de comunidades locais.

O debate público ganha qualidade quando diferentes setores da sociedade participam da discussão de forma respeitosa, contribuindo para o aperfeiçoamento das políticas públicas e para o fortalecimento da confiança entre população e poder público.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Ilha Grande, Turismo Sustentável e o desafio da governança regional



A implantação da Taxa de Turismo Sustentável (TTS) em Angra dos Reis vem provocando debates intensos nos últimos meses. De um lado, estão aqueles que enxergam a medida como instrumento necessário para financiar a preservação ambiental e a infraestrutura de uma das regiões mais visitadas do estado. De outro, encontram-se moradores, trabalhadores e empresários que manifestam preocupações quanto aos impactos da cobrança sobre a atividade turística e a economia local.

Talvez o primeiro desafio seja compreender que a discussão não deve ser reduzida a uma simples escolha entre ser favorável ou contrário à taxa.

Independentemente dos números que venham a ser apresentados ou debatidos, existe uma questão que dificilmente pode ser ignorada: a manutenção da infraestrutura, dos serviços públicos e das ações de preservação ambiental em uma região com a relevância turística e ecológica da Ilha Grande exige recursos permanentes e capacidade de planejamento.

Trata-se de um desafio que não é exclusivo de Angra dos Reis. Diversos destinos turísticos ao redor do mundo enfrentam a mesma questão: como financiar a conservação de áreas ambientalmente sensíveis sem comprometer sua atratividade turística, sua dinâmica econômica e a qualidade de vida das comunidades que nelas vivem?

A análise da legislação municipal ajuda a compreender melhor a dimensão da mudança promovida em Angra dos Reis. A Lei Municipal nº 4.507/2025 instituiu a Taxa de Turismo Sustentável (TTS) e criou o Sistema Digital do Turismo (SDT), concebido como instrumento de controle, monitoramento e ordenamento das atividades turísticas no município. Poucos meses depois, a Lei nº 4.522/2025 promoveu ajustes relevantes no modelo original, ampliando prazos de permanência vinculados à cobrança, criando regras de transição e aperfeiçoando dispositivos relacionados à gestão do fluxo turístico.

A leitura conjunta das duas normas legais revela que o objetivo do Município não foi apenas instituir uma nova receita. O que se buscou foi a construção de um sistema integrado de governança turística, capaz de associar arrecadação, monitoramento, preservação ambiental e gestão da capacidade de suporte da Ilha Grande.

Um aspecto particularmente interessante da Lei nº 4.522/2025 foi a inclusão de regra transitória autorizando a utilização dos meios já existentes de arrecadação até a plena implantação do Sistema Digital do Turismo. A medida demonstra que o próprio legislador reconheceu a necessidade de um período de adaptação para a implementação do novo modelo. Mais do que uma simples alteração operacional, essa previsão evidencia a complexidade administrativa envolvida na criação de um sistema capaz de integrar arrecadação, monitoramento e gestão da atividade turística.

Nesse contexto, a TTS deve ser compreendida não apenas como uma cobrança incidente sobre visitantes, mas como parte de um modelo mais amplo de gestão turística concebido para enfrentar os desafios financeiros, ambientais e operacionais associados à crescente pressão sobre a Ilha Grande.

Contudo, a experiência inicial demonstra que a discussão vai além da questão financeira.

As discussões recentes também alcançaram a esfera institucional. Questionamentos sobre a forma de operacionalização do sistema e sobre a contratação da plataforma responsável pela arrecadação passaram a ser objeto de atenção dos órgãos de controle, demonstrando que o debate envolve não apenas os objetivos da política pública, mas também sua implementação administrativa.

Um aspecto que merece reflexão é a singularidade da Ilha Grande dentro da dinâmica regional da Costa Verde.

Embora a ilha pertença administrativamente ao Município de Angra dos Reis, sua utilização e sua história ultrapassam os limites municipais. Durante décadas e até hoje, milhares de pessoas tiveram em Mangaratiba seu principal ponto de acesso à Ilha Grande. O cais do Centro de Mangaratiba e, mais recentemente, Conceição de Jacareí, tornaram-se portas de entrada naturais para visitantes vindos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense, do Vale do Paraíba e de outras regiões do país.

Mas a relação entre Mangaratiba e Ilha Grande não se limita ao turismo.

Há trabalhadores que realizam diariamente o deslocamento entre o continente e a ilha. Há famílias distribuídas entre os dois lados da baía. Há moradores da Costa Verde que utilizam a Ilha Grande como espaço de lazer há gerações. Durante boa parte do século XX, inclusive, Mangaratiba foi o principal ponto de partida para familiares que visitavam parentes no antigo Instituto Penal Cândido Mendes.

Essa realidade demonstra que a Ilha Grande não pode ser compreendida apenas como um destino turístico. Ela também integra uma rede regional de relações sociais, econômicas e culturais construída ao longo de décadas.

Por essa razão, talvez o principal aprendizado desse debate seja a importância da governança.

Mais importante do que revisitar divergências sobre o processo de implantação da TTS é refletir sobre como aperfeiçoar sua aplicação daqui para frente.

Uma política pública dessa natureza tende a ganhar legitimidade quando é acompanhada de mecanismos permanentes de transparência, prestação de contas e diálogo social. A divulgação periódica da arrecadação, a demonstração clara dos investimentos realizados, o monitoramento dos impactos econômicos e a manutenção de canais de escuta junto às comunidades locais e aos setores envolvidos podem contribuir para fortalecer a confiança da população.

Da mesma forma, a dimensão regional do tema sugere a conveniência de ampliar o diálogo com os demais municípios da Costa Verde. A Ilha Grande pertence a Angra dos Reis, mas sua dinâmica cotidiana envolve trabalhadores, usuários e atividades econômicas que ultrapassam as fronteiras municipais.

O debate sobre a Taxa de Turismo Sustentável talvez esteja apenas começando. As Leis nº 4.507/2025 e nº 4.522/2025 de Angra dos Reis representam uma das mais ambiciosas tentativas de estruturar um sistema municipal de gestão turística na Costa Verde. O desafio daqui para frente não parece ser apenas arrecadar recursos, mas demonstrar à sociedade que esse modelo será capaz de combinar preservação ambiental, desenvolvimento econômico, transparência administrativa e diálogo permanente com as comunidades e setores diretamente afetados.

Talvez o verdadeiro teste da TTS não esteja apenas em sua capacidade de arrecadar recursos, mas em sua capacidade de construir consensos, gerar confiança e demonstrar resultados concretos para a preservação da Ilha Grande e para o desenvolvimento sustentável de toda a Costa Verde.


📷: Prefeitura de Angra dos Reis 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Verão da Garrafa



A garrafa apareceu depois da ressaca.

Não foi como nos filmes, brilhando na areia sob um raio de sol, nem trazida mansamente por uma onda azul. Estava presa entre algas escuras, pedaços de bambu, uma sandália sem par e um pedaço de isopor mordido pelo mar. Parecia lixo antigo. Só chamou a atenção de Gabriel porque era pesada demais para uma garrafa comum.

Ele passava as férias na Ilha Grande com a mãe e o padrasto, mas, naquele verão, tudo lhe parecia um pouco fora de lugar. A beleza da ilha não combinava com o cansaço que ele sentia. As praias eram claras, a mata era viva, o mar tinha aquela cor impossível entre o verde e o azul, mas Gabriel carregava no peito uma espécie de ruído permanente.

Tinha dezenove anos, estudava comunicação no Rio, passava horas no celular e, ao mesmo tempo, sentia cada vez menos vontade de falar com as pessoas. Tudo parecia urgente, inflamado, falso. As notícias, os comentários, as acusações, as ironias, as guerras de opinião. Cada dia trazia uma nova tempestade, e cada tempestade desaparecia antes que alguém entendesse o que realmente havia acontecido.

Naquela manhã, ele saiu sozinho para caminhar perto de Dois Rios, localidade onde se situava o antigo presídio de segurança máxima que funcionou de 1903 até 1994. A chuva da madrugada havia revolvido a praia. O mar devolvera coisas que ninguém mais queria.

Foi então que viu a garrafa.

Era de vidro escuro, grosso, quase negro. Tinha crostas brancas grudadas no gargalo e uma rolha ressecada, coberta por uma cera endurecida. Dentro dela havia um papel amarelado, dobrado muitas vezes.

Gabriel sentiu primeiro curiosidade. Depois, uma estranha cautela.

Levou a garrafa até uma pedra, sentou-se e tentou abrir a rolha. Não conseguiu. Usou uma pequena faca que carregava na mochila para cortar frutas. A cera se partiu em lascas. A rolha se desfez quase como terra seca.

Quando finalmente retirou o papel, teve medo de rasgá-lo.

A primeira coisa que viu foi a data: 14 juillet 1883.

Gabriel ficou imóvel.

A carta estava escrita em francês, numa caligrafia inclinada, elegante, mas já falhada pelo tempo. Ele não falava francês bem. Tinha aprendido algumas frases em aplicativo, mais por vaidade do que por estudo. Fotografou o papel, ampliou a imagem, tentou traduzir palavra por palavra.

No alto da página, lia-se:

À celui qui trouvera cette bouteille.

A quem encontrar esta garrafa.

A carta começava sem nome completo, apenas com uma assinatura abreviada: É. Moreau.

Gabriel traduziu devagar:


Escrevo do Atlântico, entre a Europa que deixei e a América que talvez nunca veja. Se estas palavras chegarem a alguém, peço que não as trate como lamento, mas como advertência.


A palavra advertência fez Gabriel franzir a testa.

Continuou:


Vivemos uma época que se orgulha de seus fios telegráficos, de seus vapores, de suas máquinas e de sua velocidade. Cada nova invenção promete aproximar os homens. No entanto, temo que a distância entre as almas esteja apenas começando.


Gabriel sentiu um desconforto leve.

O mar batia manso nas pedras, como se lesse junto.

 

O homem acredita que, falando mais depressa, compreenderá melhor. Mas talvez apenas aprenda a espalhar mais rapidamente seus erros, seus ódios e suas vaidades.


Ele abaixou o papel.

A frase parecia escrita naquela semana.

Olhou em volta. A praia estava quase vazia. Dois rapazes tiravam fotos perto da água. Uma mulher recolhia conchas. Mais adiante, uma criança corria atrás de um cachorro. Tudo era comum demais para aquela carta.

Gabriel prosseguiu:


Há uma doença que não vem do corpo, mas da pressa. Ela faz com que os homens confundam notícia com verdade, aplauso com justiça, barulho com pensamento. Um dia talvez exista uma máquina capaz de colocar todos em conversa com todos. Nesse dia, receio que muitos já não saibam escutar.


Ele sentiu um arrepio.

Não era uma profecia. Era pior. Era uma análise.

A carta prosseguia falando do progresso como uma força ambígua. Moreau não condenava as máquinas. Dizia amar a ciência, a medicina, os navios, os mapas, os instrumentos que permitiam ao ser humano desafiar o medo. Mas advertia que a técnica, sozinha, não educava o coração.


O progresso técnico sem progresso moral apenas tornará o homem mais eficiente em sua própria destruição.


Gabriel leu essa frase três vezes.

Depois guardou a carta na mochila como quem esconde alguma coisa perigosa. 

Na pousada, passou a tarde pesquisando. Descobriu que 1883 fora o ano da explosão do Krakatoa, de impérios coloniais, de navios a vapor cruzando oceanos, dos últimos anos do Brasil imperial, de uma brutal escravidão ainda existente no país onde ele agora lia aquela carta.

Procurou por É. Moreau. Encontrou muitos Moreau, nenhum certo.

Naquela noite, enquanto a mãe e o padrasto jantavam peixe frito, Gabriel permaneceu calado. A mãe perguntou se ele estava bem. Ele disse que sim, mas não estava.

No quarto, releu a carta inteira.

Havia um trecho final que, na praia, ele não havia conseguido decifrar. A tinta estava quase apagada. Usou a luz do celular de lado, inclinando o papel.

A frase apareceu aos poucos:


Se esta mensagem chegou até vocês, não perguntem apenas de onde ela veio. Perguntem em que se transformaram desde que foi escrita.


Gabriel não dormiu.

No dia seguinte, publicou uma foto da garrafa e alguns trechos traduzidos.

Em poucas horas, a história se espalhou.

Primeiro vieram os curiosos. Depois, os jornalistas. Em seguida, os especialistas. Um professor disse que a caligrafia parecia compatível com o século XIX. Uma historiadora levantou a hipótese de que Moreau fosse um médico francês que viajara para o Brasil e cujo navio desaparecera no Atlântico Sul. Um oceanógrafo explicou que a garrafa poderia ter ficado soterrada durante décadas antes de ser devolvida por uma ressaca.

Mas então vieram os outros.

Um influenciador disse que a carta provava que o mundo moderno estava condenado. Outro afirmou que era falsificação. Um político citou Moreau fora de contexto. Um canal sensacionalista transformou a garrafa em “mistério sobrenatural da Ilha Grande”. Alguém inventou que havia coordenadas secretas no papel. Outro disse que aquilo era campanha publicitária.

Em dois dias, a carta deixou de ser carta.

Virou disputa.

Gabriel assistia a tudo pelo celular, com a sensação de que o morto — se é que Moreau estava morto — havia previsto exatamente aquilo.

Todos falavam da mensagem. Quase ninguém a escutava.

Na terceira noite, ele saiu escondido da pousada com a garrafa vazia e a carta protegida dentro de um envelope plástico. Caminhou até a praia. O céu estava limpo. A mata parecia respirar no escuro. As ondas chegavam pequenas, quebrando como vidro mole.

Sentou-se na areia.

Pela primeira vez em muito tempo, desligou o celular.

Retirou a carta e leu o último parágrafo em voz baixa:


Não escrevo para ser lembrado. Escrevo porque talvez, um dia, alguém precise saber que não fomos cegos. Vimos o perigo. O que não sei é se tivemos coragem de mudar.


Gabriel ficou muito tempo olhando para o mar.

Pensou no século XIX, no século XXI, nos fios telegráficos, nos cabos submarinos, nos satélites, nas telas luminosas, nas palavras lançadas todos os dias ao mundo como garrafas sem destino.

Então entendeu que a mensagem de Moreau não era contra o futuro.

Era contra a vaidade de acreditar que o futuro, sozinho, salvaria alguém.

Na manhã seguinte, procurou a universidade, entregou a carta para preservação e recusou as entrevistas que pôde. Não queria virar personagem daquilo.

Antes de deixar a ilha, voltou sozinho à praia onde encontrara a garrafa. Levava consigo apenas uma folha pequena, escrita à mão.

Dobrou o papel, colocou-o dentro da garrafa antiga e a fechou com uma rolha nova.

Na folha, escreveu:


Encontramos sua mensagem. Ainda não aprendemos. Mas alguns de nós começamos a escutar.


Gabriel lançou a garrafa ao mar.

Ela flutuou por alguns instantes diante dele, hesitante, como se não soubesse se devia partir.

Depois uma onda a levou.

E, pela primeira vez naquele verão, Gabriel sentiu que o silêncio também podia ser uma forma de resposta.


Deixando a ilha...



O último domingo de janeiro amanheceu abafado.

O céu tinha aquela cor indefinida entre o cinza e o branco luminoso que antecede os temporais de verão. A Vila do Abraão estava cheia. Mochilas, caixas térmicas, crianças queimadas de sol, turistas sonolentos arrastando malas pela areia úmida.

Gabriel caminhava atrás da mãe e do padrasto em direção à barca de Mangaratiba sem dizer quase nada.

Levava a mochila nas costas e o celular desligado no bolso.

Desde a descoberta da garrafa, sua vida parecia ter adquirido uma espécie de ruído subterrâneo. Não era exatamente medo. Nem entusiasmo. Era uma sensação estranha de deslocamento, como se tivesse visto alguma coisa que não deveria existir e agora não conseguisse voltar completamente ao mundo anterior.

A repercussão da carta continuava crescendo.

Mesmo depois de entregar o documento à universidade para preservação, os vídeos não paravam: análises, teorias, cortes editados, thumbnails exageradas e influenciadores discutindo “a profecia da Ilha Grande”.

Um canal chegou a inserir música sombria sobre imagens do mar e afirmar que Gabriel “talvez tivesse encontrado uma advertência para o fim da civilização moderna”.

Ele tentou rir disso no começo.

Depois ficou cansado.

Na fila da barca, percebeu que já não conseguia olhar as pessoas da mesma forma. Todos pareciam exaustos. Não fisicamente apenas. Exaustos por dentro.

Um casal discutia sem se olhar. Uma menina de talvez dez anos chorava porque a mãe tomara seu celular. 

Dois rapazes gravavam stories repetindo a mesma frase até acertarem a entonação perfeita. Um homem de meia-idade assistia a vídeos políticos num volume tão alto que todos ao redor ouviam.

Gabriel observava aquilo em silêncio.

Nos últimos dois anos, sentira sua própria vida se estreitar.

A faculdade de comunicação, que deveria aproximá-lo das pessoas, parecia transformá-las em produtos. Tudo precisava virar engajamento, posicionamento, narrativa e performance.

Até as tragédias eram editadas para parecerem consumíveis.

No segundo período, uma colega sofrera uma crise de ansiedade grave depois que um vídeo seu chorando durante um seminário viralizou em páginas de humor universitário.

No semestre seguinte, um professor fora transformado em meme nacional após uma fala retirada do contexto.

E havia também Clara.

Gabriel pensou nela enquanto a barca começava a receber passageiros.

Clara estudava jornalismo. Tinham namorado durante quase um ano. Ela dizia que ele “pensava demais e vivia pouco”. Gabriel dizia que Clara “vivia demais e sentia pouco”.

Separaram-se pouco antes do verão.

Não houve traição nem escândalo. Apenas desgaste.

Tudo acabara numa discussão absurda porque Gabriel não quis aparecer num vídeo dela comentando “relacionamentos tóxicos na geração Z”.

Ela ficou irritada: 

— Você tem vergonha de mim?

Ele respondeu: 

— Tenho vergonha de tudo virar conteúdo.

A frase encerrou o namoro.

Agora, sentado na barca que deixava lentamente o cais do Abraão, Gabriel sentia o vento quente bater no rosto enquanto observava a ilha ficando para trás.

A mata atlântica parecia respirar sob a neblina úmida.

Por um instante, pensou na garrafa ainda flutuando em algum lugar do Atlântico.

Depois pensou em Moreau.

Quem era ele?

A universidade ainda não conseguira identificá-lo com precisão. Apenas hipóteses: médico francês, ou naturalista, ou simples viajante, ou talvez tripulante de algum navio mercante desaparecido na rota para a América do Sul.

Gabriel imaginava o homem escrevendo sozinho numa cabine iluminada por lamparina.

Talvez tossindo. Talvez febril. Talvez assustado.

E se Moreau não fosse apenas um intelectual? E se estivesse fugindo de alguma coisa?

A barca balançava suavemente.

O motor produzia um ruído grave e contínuo.

Gabriel fechou os olhos.

Sem perceber, adormeceu.



Primeiro veio o som.

Madeira estalando.

Metal vibrando.

Água batendo contra o casco.

Quando abriu os olhos, já não estava na barca.

O mar era diferente.

Escuro. Mais pesado. Sem o brilho tropical da baía da Ilha Grande.

O convés inclinava levemente sob seus pés.

Homens passavam apressados carregando caixas e cordas. As roupas eram antigas. O ar cheirava a carvão úmido, sal e remédio.

Gabriel viu então a inscrição parcialmente apagada no casco:

Étoile du Matin

Um vapor francês.

Ninguém parecia notá-lo.

Caminhou pelo convés como se fosse invisível.

Ao fundo, ouviu tosses fortes vindas de uma cabine.

Entrou.

Um homem magro escrevia febrilmente sobre uma pequena mesa enquanto a embarcação estremecia.

Tinha barba curta, olhos fundos e mãos cansadas.

Moreau.

Gabriel sentiu imediatamente, embora nunca tivesse visto seu rosto.

O médico parava às vezes para pressionar o lenço contra a boca.

Havia sangue.

Na mesa havia frascos, anotações, jornais europeus e mapas marítimos.

Moreau escrevia rápido, como alguém perseguido pelo tempo.

Então Gabriel percebeu outra coisa.

Não era apenas doença.

Havia medo no navio.

Do lado de fora da cabine, marinheiros discutiam em voz baixa. Palavras em francês escapavam fragmentadas:


fièvre…

quarantaine…

Brésil…

personne ne doit savoir…


Gabriel aproximou-se da mesa.

A carta ainda estava incompleta.

Moreau ergueu os olhos lentamente.

Por um segundo impossível, pareceu enxergá-lo.

Não como fantasma. Não como sonho.

Como reconhecimento.

Então disse algo quase inaudível:


Ils feront du monde un théâtre.


Transformarão o mundo em um teatro.

A cabine começou a escurecer.

O som do mar ficou distante.

O convés rangeu violentamente.

E Gabriel despertou.

A barca aproximava-se de Mangaratiba.

O coração dele batia rápido.

O céu permanecia carregado.

Por alguns segundos, não conseguiu distinguir sonho de memória.


A volta ao campus...



Na semana seguinte, as aulas recomeçaram.

O campus estava exatamente como antes: calor, corredores cheios, alunos filmando tudo e gente falando sem parar.

Mas Gabriel agora percebia algo diferente.

Ou talvez apenas enxergasse melhor.

Na quarta-feira, durante uma aula sobre comunicação digital, um professor comentou casualmente o caso da garrafa.

A turma imediatamente reagiu.

Alguns riram. Outros começaram a gravar. Uma aluna perguntou se a carta “já tinha virado NFT”. Outro queria saber se Gabriel monetizara os vídeos.

Então alguém exibiu no telão um perfil recém-criado numa rede social: @Profeta1883

A página usava a imagem da garrafa para vender cursos, camisetas e “mentorias de despertar civilizacional”.

A bio dizia:


Moreau previu o colapso da humanidade. Aprenda a sobreviver ao caos.


A turma riu.

O professor também.

Mas Gabriel não.

Sentiu um vazio físico.

Como se alguma coisa dentro dele finalmente tivesse cedido.

A carta atravessara oceanos, tempestades e mais de um século para terminar transformada em marketing algorítmico.

Na saída da aula, uma colega o parou no corredor: 

— Você viu? Tá bombando.

Gabriel olhou em volta.

Centenas de rostos iluminados pelas telas. Gente filmando a própria rotina para desconhecidos. Pessoas falando ao mesmo tempo. Ninguém realmente ouvindo.

Então lembrou da frase de Moreau.


Talvez exista uma máquina capaz de colocar todos em conversa com todos. Nesse dia, receio que muitos já não saibam escutar.


Gabriel percebeu, com uma tristeza difícil de explicar, que o velho francês talvez não tivesse lançado uma mensagem para o futuro.

Talvez tivesse lançado um pedido de socorro.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Costa Verde – Um só destino: uma nova visão de turismo integrado para Mangaratiba, Ilha Grande, Angra e Paraty



A Costa Verde, reconhecida internacionalmente por suas praias, trilhas, ilhas e áreas de preservação ambiental, pode estar diante de uma oportunidade estratégica que redefiniria a forma como turistas — nacionais e estrangeiros — vivenciam a região. 

A proposta do conceito “Costa Verde – Um só destino” vai além da simples promoção conjunta: trata-se de articular um corredor turístico e aquaviário que conecte Mangaratiba, Ilha Grande, Angra dos Reis e Paraty como parte de uma experiência contínua, e não mais como destinos isolados.

Hoje, milhares de visitantes chegam à Costa Verde por Mangaratiba ou Angra, passam pela Ilha Grande, seguem para Paraty e retornam às suas origens sem perceber que poderiam ter desfrutado de uma travessia integrada, com embarque ou desembarque planejado, pernoites programadas e experiências complementares em cada cidade. O que existe é um fluxo espontâneo, e não estruturado. 

A proposta que defendo, entretanto, é transformar o deslocamento em produto turístico.

A ideia não seria inédita no mundo. Regiões mediterrâneas e caribenhas se tornaram referências justamente por transformar o mar em avenida cultural e ambiental. Se Capri, Positano e Amalfi compartilham turistas; se Mykonos e Santorini se revezam em perfumes, panoramas e gastronomias; se Tulum e Cozumel se conectam pela memória do mar — por que a Costa Verde não poderia se consolidar como rota única de natureza, história e gastronomia brasileira, atravessando três séculos de paisagens e culturas?


Mangaratiba sairia do papel de corredor e assumiria o protagonismo 

Integrar um roteiro é mais do que somar pontos no mapa: é convocar o visitante a permanecer na Costa Verde. E é nesse ponto que Mangaratiba tem um papel essencial.

Hoje, a cidade recebe o fluxo, mas não necessariamente retém o turista. Com uma estratégia de turismo de rota, Mangaratiba deixa de ser apenas o primeiro passo rumo à Ilha Grande e passa a ser parte da jornada: cachoeiras próximas, praias de mar calmo, comunidades tradicionais, gastronomia litorânea e passeios ecológicos podem ocupar a primeira ou a última no site de quem visita a região — aumentando a permanência média, o gasto e o vínculo afetivo com o território.


Instituições de turismo: oportunidade de política pública e de marca regional

Para as instituições, a proposta representa:


- fortalecimento do destino por marketing conjunto;

- criação de um produto com identidade própria, reconhecível e exportável;

- distribuição geográfica e temporal do turismo, reduzindo sazonalidade;

- estímulo à formalização e qualificação da cadeia turística;

- viabilização de rotas aquaviárias regulares ou sazonais como opção sustentável;

- criação de oportunidades para pequenos empreendedores e turismo comunitário.


A marca “Costa Verde – Um só destino” pode ser adotada por consórcios de turismo, cooperativas, trade hoteleiro, setor náutico, agências receptivas e feiras internacionais — reforçando que o valor agregado está justamente na viagem integrada.


Itacuruçá e Ilha de Jaguanum — um futuro capítulo possível

Num segundo momento, a proposta poderá ampliar o corredor turístico com a inclusão de Itacuruçá e Ilha de Jaguanum — regiões que combinam tranquilidade, baías protegidas, praias pouco exploradas e uma vocação natural para turismo sustentável, cicloturismo, pesca esportiva e roteiros de observação de fauna e flora marinha.

Essa expansão se adaptaria ao conceito de turismo de baixo impacto e alto valor, alinhado às diretrizes de destinos que preservam seu patrimônio ambiental e evitam modelos predatórios de ocupação.


Um destino, muitos caminhos

Transformar a Costa Verde em um destino único não é apenas um slogan, mas uma nova forma de olhar para a economia do mar, para a história compartilhada e para o futuro sustentável da região.

O turista de hoje não viaja para ver lugares — viaja para viver percursos. E é nesse percurso que a Costa Verde encontra sua melhor história para contar.


📌 Nota — A reflexão sobre o transporte aquaviário apresentada neste artigo dialoga diretamente com o resgate histórico feito pelo professor Adinalzir Pereira, em sua postagem no Facebook (link: https://www.facebook.com/share/p/1EpV81fxHP/), na qual relembra o período em que as águas eram as “estradas naturais” que conectavam Santa Cruz, Sepetiba e todo o litoral da Costa Verde. Sua pesquisa mostra que, muito antes da abertura das rodovias, barcos de diferentes portes realizavam viagens regulares, transportando trabalhadores, mercadorias, pescadores e famílias, promovendo intercâmbio social e econômico entre comunidades. Essa memória histórica ajudou a inspirar a ideia de repensar, agora sob a perspectiva da mobilidade moderna, as possibilidades de revitalização do transporte marítimo regional.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Saudades da Ilha Grande




Um dos lugares por onde andei e que sinto muita vontade de voltar, com certeza é a Ilha Grande!

Desde criança, eu já tinha uma enorme fascinação pelas ilhas. Quando ia à praia, desejava nadar até elas e imaginava encontrar um tesouro escondido na areia conforme assistia nos desenhos animados. Porém, bastava eu me afastar alguns metros da costa que logo um adulto da família vinha chamar a minha atenção para que voltasse e não morresse afogado.

Talvez minhas ideias fossem até alimentadas pelo seriado “A Ilha da Fantasia”, de Aaron Spelling e Leonard Goldberg, que passou na TV brasileira entre o final dos anos 70 e início da década de 80. Ou, quem sabe, não foi pelos filmes do "Simbad, o Marujo", que, por diversas vezes, assisti na Sessão da Tarde?

Entretanto, nos meus tempos de infância, bem antes de inventarem a impressionante série de “Lost”, já não ouvia falar muito bem da Ilha Grande. Na época, ainda existia um presídio de segurança máxima lá e, quando passava dias na casa de minha avó paterna em Muriqui, ela me apavorava com a possibilidade quase improvável de que bandidos fugidos da penitenciária, após atravessarem a Baía de Sepetiba, fossem capazes se esconder nos povoados de veraneio ao longo da rodovia Rio-Santos para invadir o nosso quintal e, justamente, nos assaltar.

Depois da exibição de uma reportagem da Glória Maria no Fantástico sobre as belezas da Ilha Grande, comecei a ficar muito curioso por conhecer o lugar. Ansiava bastante por estar numa ilha onde pudesse encontrar praias paradisíacas, rios e cachoeiras com águas limpas, morros elevados, ruínas históricas e vilarejos com gente morando.

Finalmente, em janeiro de 1999, realizei este meu antigo desejo de passeio juntamente com tantos outros destinos. Aliás, aquela foi uma época da minha vida em que passei a maior parte do mês só viajando e cheguei a descobrir lugares surpreendentes nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, conseguindo colocar meus pés em vários lugares diferentes em tão pouco tempo. E fiz tudo aquilo sozinho, tendo visitado, além da Ilha Grande e Angra dos Reis, as seguintes localidades das quais me recordo: Visconde de Mauá, Maringá, Maromba, Airuoca, São Tomé das Letras, Três Corações, Mariana, Ouro Preto, Poços de Caldas, Miguel Pereira e Paty do Alferes.

Pelo que me lembro, fiquei umas três noites na Ilha Grande dormindo na barraca de um camping na Vila de Abraão (o principal povoado da ilha). Fiz longas caminhadas e um passeio de barco. Estive não só em locais próximos (não muito distante do Abraão tem um poço de água doce), mas houve um dia em que cometi a loucura de retornar da Praia de Dois Rios utilizando uma trilha proibida até Lopez Mendes onde poderia muito bem ter me perdido ou até sofrido algum acidente.

Naquele janeiro de 1999, eu tinha ainda 22 anos e queria viver com muita intensidade aqueles momentos. Pouco me importava com certos riscos e bebia de maneira alucinada quase toda noite. Estava afastado da Igreja e desviado dos caminhos de Deus. Por sorte, tinha conseguido aprovação no primeiro ano da faculdade de Direito que cursei em Juiz de Fora, no Instituto Vianna Júnior, e estava então transferindo minha matrícula para o campus da Universidade Estácio de Sá, em Nova Friburgo. Com meu filme queimado em Minas, por causa de um crime praticado no mês de junho de 1997, na época em que fora aluno de Administração da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e ainda investigado pela Polícia, pretendia encontrar um novo ambiente nas serras fluminenses, tentando uma outra vida onde passaria a morar sem nenhum parente por perto. Namoradas e amigos eu não tinha. Transava com prostitutas ou com qualquer garota que me desse chance. E, com exceção do consumo exagerado de álcool, saúde era o que não faltava para aquele corpo que, depois de anos de uma infância e adolescência com elevado grau de obesidade, experimentava então o alívio de ter me livrado de 24 quilos no decorrer de 1998 com um simples controle de alimento.

Apesar de todas as loucuras que explodiam dentro de mim, eu estava tentando me relacionar com a vida e aí a Ilha Grande compôs o meu cenário interior durante aqueles dias. Talvez o local representasse a paz que tanto almejasse e a beleza que minha alma precisasse ter. Mas, ao mesmo tempo, acho que também existisse em mim uma necessidade de superação e de auto-afirmação através da conquista de novos lugares que são destinos turísticos, ainda que sem nenhum interesse de registrar o momento através da fotografia (contentava-me em comprar camisetas estampadas ou um barato souvenir).

Penso que, no fim, de toda busca, seja ela fútil ou não, sempre encontramos algo com um maior significado, nem que aquilo nos sirva para um mero aprendizado. Porém, as mensagens que as aulas da vida ao ar livre me comunicaram vieram a fazer parte de um processo pessoal de crescimento para que eu aprendesse a respeitar melhor a existência. Pois, sempre que visitamos um paraíso ecológico, quer sejamos apaixonados pela natureza ou não, ficamos envolvidos de tal maneira pelo ambiente que até um troglodita urbano e materialista, como eu me transformara antes, consegue voltar para casa um pouquinho melhor do que como chegou.

Depois daquela maravilhosa oportunidade que Deus me concedeu, retornei à Ilha Grande por mais uma vez, salvo engano em 2001. Só que, nesta segunda ocasião, eu já tinha um relacionamento com Núbia, atualmente minha esposa. E, antes de me conhecer, ela também já tinha visitado a ilha e passado uma noite de Ano Novo no Abraão na companhia de seus amigos.

Mesmo acompanhado por minha mulher, fiz alguns passeios sozinho. Em outros, estive com ela e tive que conter a ansiedade dos meus pés para não me embrenhar na mata deixando-a para trás. Houve também um dia em que caminhei só do Abraão até o Farol dos Castelhanos e voltei, enquanto Núbia permaneceu no acampamento. Porém, para agradá-la, fomos juntos de barco até a outra ponta da ilha, na Enseada de Araçatiba, perto da famosa Gruta do Acaiá. Numa outra oportunidade, fomos à praia de Dois Rios e posso dizer que tivemos bastante sorte por não ter chovido naqueles deliciosos dias de verão pois as chuvas caíam só no continente, de modo que o tempo estava excepcionalmente bem seco em Ilha Grande.

De todos os pontos da Ilha Grande que conheci, Dois Rios foi sem dúvida o que mais me agradou até agora. Talvez o grande atrativo dali esteja na existência de dois cursos d'água que desembocam na praia cortando uma pequena área de manguezal, além de povoado ser bem pequeno e pacato. Inclusive, era em Dois Rios onde funcionava o antigo presídio até ser destruído pelo então governador Leonel Brizola, o que, na minha opinião, poderia ter sido muito bem aproveitado para ser um curso de Biologia junto com um centro de pesquisas.

Em nenhuma das duas ocasiões que estive na Ilha Grande consegui percorrê-la por inteiro (faltaram muitas praias do lado voltado para o oceano aberto) e talvez os meus desejos por novidades e pela totalidade ainda me motivem a retornar. Então, se Deus permitir, ainda quero conhecer o Provetá (segundo maior povoado da ilha) e a praia do Aventureiro, iniciando uma longa caminhada a partir do Abraão.

Pelas minhas condições de hoje, não sei quando vou conseguir realizar tal projeto visto que minha esposa ainda está recuperando-se dos seus problemas de saúde, a grana está pouca e os compromissos de trabalho com a advocacia costumam me aprisionar o ano inteiro até a época do recesso forense que vai de 20 de dezembro até 6 de janeiro, quando estão os prazos processuais e as audiências focam suspensos, de modo que, desde 2005, já nem sei mais o que é tirar umas férias.

De qualquer modo, sou grato pelas chances que o Criador proporcionou-me de conhecer não só a Ilha Grande como um montão de outros lugares interessantes, tanto longe quanto perto de casa (meus melhores passeios foram feitos aqui na região de Nova Friburgo andando a pé durante a época de estudante). E, mesmo sentindo falta das caminhadas de outrora, continuo agora andando pelas trilhas da espiritualidade, em busca dos corações das pessoas e de Deus. Uma viagem que considero mais íntima e voltada para dentro de mim.