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sábado, 29 de novembro de 2025

29 de novembro de 1807 — há 218 anos, o ponto de virada que transformou o Brasil



Em 29 de novembro de 1807 iniciou-se a comitiva que levaria a corte do Casa de Bragança de Lisboa ao Brasil — uma mudança de endereço que, nas décadas seguintes, faria do então vilarejo do Rio de Janeiro a capital de um império e semeou as bases do Brasil moderno.


🛳️ Embarque, quem veio e por quê?

Entre os dias 25 e 27 de novembro de 1807, mais de 10 mil pessoas — talvez até 15 mil segundo algumas estimativas — reuniram-se para partir. Eram membros da família real, da nobreza, do alto funcionalismo civil e militar, clero, e funcionários da Corte.

Na comitiva estava a rainha D. Maria I, mãe do regente; o príncipe regente D. João VI; a princesa esposa dele; suas filhas infantas; e entre as crianças — o futuro imperador do Brasil, D. Pedro I. Ou seja: toda a linhagem e aparato essencial da coroa lusitana.

O embarque começou por volta de 27 de novembro. No entanto, ventos desfavoráveis impediram a partida imediata no dia 28. Foi apenas na manhã do dia 29 que a ordem de zarpar foi dada — a esquadra, escoltada pela marinha britânica, largou do porto de Lisboa.

Esse movimento não pode ser lido como uma simples “fuga” — e sim como a transferência da sede do Estado português para o Brasil. Políticos, instituições, arquivos, tesouraria, riqueza, mobilia, enfim, o aparato do poder.


🏙️ O Rio de Janeiro se converte em metrópole interiorizada


Com a chegada da corte, o Rio — então uma cidade modesta, periférica e colonial — passou por uma verdadeira “inversão metropolitana”: uma colônia tornando-se capital de um império pluricontinental.

Essa transferência implicou transformações profundas:


  • Abertura dos portos: com a presença da Corte, foi decretada a abertura dos portos brasileiros às “nações amigas” — rompendo o antigo monopólio comercial entre Brasil e Portugal. Isso abriu o Brasil ao comércio internacional.
  • Instituições de Estado criadas ou instaladas: tribunais de justiça, repartições públicas, secretarias, arquivamento de documentos oficiais, mecanismos administrativos — tudo trouxe o Brasil de sua condição colonial para uma estrutura institucional própria.
  • Cultura, ciência e infraestrutura: com a corte vieram a imprensa régia, bibliotecas, centros de ensino, instituições de cultura — sementes do que depois seriam instituições nacionais permanentes.


Em suma: o Brasil, pela primeira vez, deixou de ser periferia de um império distante. O Estado português enraizou-se em solo brasileiro e o Rio de Janeiro passou a ostentar o papel de capital — tornando real a ideia de uma “metrópole interiorizada”.


👑 A importância da presença de D. Maria e D. Pedro — e a primazia de D. João


É importante destacar que não foi apenas D. João que veio ao Brasil: a corte incluía D. Maria I, sua mãe, e D. Pedro, entre outros membros da família. A presença da rainha reforçava a legitimidade da mudança; já D. Pedro — ainda criança — estaria entre as bases da futura Independência.

Entretanto, era D. João quem de fato decidia e ordenou a transferência. Isto porque, por efeito de doença mental, D. Maria I já não exercia o governo: era D. João, como príncipe regente, que titulava o comando do reino e conduziu a decisão.

Essa distinção é relevante: embora D. Maria estivesse fisicamente presente no novo solo, o protagonismo das mudanças e das decisões estava com D. João — e a presença da família real completa contribuiu para dar à mudança um caráter de continuidade dinástica e institucional, e não de exílio temporário.


🇧🇷 Da transferência à Independência: como o ato de 1807/1808 pavimentou o Brasil


A instalação da corte no Brasil não foi um evento isolado — foi o catalisador de um novo ciclo histórico. Com instituições, engrenagens administrativas e culturais funcionando localmente, o Brasil passou a experimentar uma autonomia prática, ainda que formalmente dependente de Lisboa. Historiadores qualificam essa transição como decisiva para o processo de emancipação nacional.

O deslocamento da metrópole para o Rio trouxe uma estrutura capaz de sustentar um Estado próprio, com leis, tribunais, economia aberta, aparato administrativo — o que tornava possível a ideia de um Brasil independente, sem a necessidade de depender de Portugal.

Em 1822, com a figura de D. Pedro — já acostumado a viver e governar a partir do Brasil, vivendo a dinâmica local — veio o desfecho lógico: a Proclamação da Independência. A mudança de 1807/1808 não foi causa única — mas sem dúvida foi o terreno fértil sem o qual dificilmente o Brasil teria as condições concretas para se emancipar quando o momento chegou.




✍️ Reflexão final

Quando pensamos no Brasil de hoje — um país com instituições próprias, diversidade cultural, centros urbanos vibrantes, abertura econômica — parte desse legado remonta ao dia 29 de novembro de 1807.

Pode-se afirmar que a transferência da Corte não foi apenas um gesto de sobrevivência diante da ameaça napoleônica; foi um salto histórico que mudou a geopolítica do Atlântico — e redesenhou de vez o destino da colônia, já não periferia, mas capital de um império interiorizado e, afinal, berço da nação que se tornaria independente.

Sem a vinda da Corte portuguesa para o Brasil e a posterior permanência de D. Pedro, a independência das velhas capitanias de algum modo ocorreria em algum momento. Porém,  possivelmente, o Brasil, com esse território gigante, não existiria tal como conhecemos.


📅 Cronologia básica da transferência da corte e do caminho à Independência

1807 – 29 de novembro: Início do embarque da corte portuguesa rumo ao Brasil, incluindo D. Maria I, D. João (Príncipe Regente), a princesa esposa e D. Pedro. A esquadra parte de Lisboa escoltada por navios britânicos.

1808 – 7 de março: Chegada da corte ao Rio de Janeiro; a cidade começa a se transformar em capital do Império.

1808 – 28 de janeiro: Abertura dos portos às nações amigas; fim do monopólio comercial português sobre o Brasil.

1808/1821 – Período Joanino: criação de instituições administrativas, culturais e científicas; fundação de escolas, bibliotecas, museus e imprensa régia; surgimento de primeiras instituições financeiras.

1815 – Elevação do Brasil à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, formalizando a centralidade do território brasileiro dentro do império.

1821 – Retorno de D. João VI a Portugal; D. Pedro permanece no Brasil, assumindo papel político de liderança local.

1822 – 7 de setembro: Proclamação da Independência do Brasil por D. Pedro I, consolidando o processo iniciado pela transferência da corte quinze anos antes.


Quadro 1: O embarque da família real portuguesa para o Brasil em 1807 , pintura do século XIX atribuída a Nicolas-Louis-Albert Delerive. Museu Nacional dos Coches, Lisboa, Portugal .

Quadro 2: Chegada ao Rio de Janeiro do príncipe-regente D. João VI. A Esquadra portuguesa na Baía da Guanabara, em 1808, com a Nau Príncipe Real, que trouxe D. João VI, no primeiro plano.


📝 Nota de família: 

De acordo com registros biográficos públicos, o jovem Firmino Herculano de Morais Âncora (nascido em Lisboa, 1790 – falecido no Rio de Janeiro, 1862), ancestral distante do autor (creio que há seis gerações), teria vindo para o Brasil na época da imigração da Família Real Portuguesa, no início do período Joanino. Ele se tornou engenheiro militar, participou da implantação de obras públicas e desempenhou papéis importantes na carreira militar e administrativa do país.

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