"Então Jesus declarou: "Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede." (João 6:35; NVI)
Na estreita rua dos padeiros, em Jerusalém, vivia a família de Eleazar ben Chananias, um homem trabalhador cujo coração carregava mais rachaduras do que a velha mesa de amassar pão. Sua esposa, Hannah, tentava manter a casa unida, mas os filhos — Miriam e Joel — estavam divididos por mágoas antigas, palavras ditas em ira e silêncios que pesavam mais do que pedras da Cidade Santa.
Naquela semana, Jerusalém tremia de vida. Peregrinos subiam ao Templo para a festa da Páscoa; cantos, perfumes, poeira, orações — tudo se entrelaçava num só movimento. E foi nesse turbilhão que um homem bateu à porta da pequena padaria.
Era André, discípulo de Jesus, o Rabi da Galileia.
— Shalom. Procuramos pães para a ceia desta noite. Nosso Mestre enviou-nos.
Eleazar ergueu os olhos. O nome “Jesus” já corria pelas ruas como água de nascente: profeta, curador, pescador de almas. Mas para o padeiro, tudo se resumia ao trabalho de cada dia. Assentiu e aceitou a encomenda: pães sem fermento, como ordena a Torá.
Mas, assim que André saiu, o ar dentro da casa mudou.
A Massa Quebrava, o Coração Amolecia
Hannah trouxe a água. Eleazar espalhou a farinha. Miriam e Joel se aproximaram com suas sombras habituais de ressentimento.
Mas, ao tocar a massa, algo suave — inexplicável — atravessou o ambiente.
Um silêncio bom, quase sagrado, se derramou sobre os quatro. Miriam ofereceu a tigela ao irmão sem ironia. Joel recebeu sem frieza. Hannah suspirou, surpresa, como se tivesse escutado um sussurro vindo do céu.
A massa, à medida que era trabalhada, parecia mais leve, quase luminosa. O perfume que se espalhava não era apenas de pão — havia paz, havia ternura, havia uma bondade antiga, dessas que lembram o próprio sopro de Deus no deserto.
Eleazar, homem simples, sentiu o coração apertar.
— Não sei o que está acontecendo… — murmurou. — Mas há doçura demais nesta casa para ser apenas pão.
Hannah tocou-lhe a mão.
— Talvez seja o Rabi da Galileia… Dizem que onde Ele passa, vidas mudam.
Um Extra que Brotou da Gratidão
Ao final da tarde, os pães estavam prontos, perfeitos na simplicidade que a Lei pedia. Porém Hannah, movida por algo mais profundo que razão, buscou:
- um jarro de azeite aromatizado,
- um punhado de tâmaras doces,
- um pequeno frasco de mel escuro,
- e até um pouco de sal puro, como se fosse oferenda.
Eleazar arregalou os olhos.
— Meu amor… isso não foi pedido.
— Eu sei — respondeu ela, com uma serenidade que iluminava o rosto. — Mas sinto no espírito que devemos dar. Algo santo atravessou esta casa. Quero agradecer.
Joel e Miriam, pela primeira vez em muito tempo, concordaram sem discutir.
A Visita dos Discípulos
Quando as primeiras estrelas surgiram sobre Jerusalém, dois homens chegaram: Pedro e João. O ar ao redor deles trazia uma pureza difícil de explicar. Eles não precisaram perguntar nada. Bastou pôr os pés na casa para sentir a transformação.
Pedro sorriu, como quem reconhece um milagre silencioso.
— A paz do Altíssimo permaneça aqui, disse com voz grave.
Eleazar entregou os pães. Hannah, com mãos trêmulas, ofereceu o azeite, as tâmaras e o mel.
Nenhum deles disse que aqueles pães seriam partilhados pelo próprio Messias naquela noite. Não era preciso. O momento já carregava uma reverência que falava mais alto do que palavras.
O Milagre em Silêncio
Eleazar e Hannah se olharam como dois que viram uma primavera nascer em pleno inverno.
o milagre da reconciliação, do amor e do perdão.


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