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domingo, 23 de junho de 2024

Cuidado com as más interpretações!


 

"Tenham em mente que a paciência de nosso Senhor significa salvação, como também o nosso amado irmão Paulo lhes escreveu, com a sabedoria que Deus lhe deu. Ele escreve da mesma forma em todas as suas cartas, falando nelas destes assuntos. Suas cartas contêm algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e instáveis torcem, como também o fazem com as demais Escrituras, para a própria destruição deles. Portanto, amados, sabendo disso, guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a sua firmeza e caiam." (2 Pedro 3:15-17; NVI) 


Neste primeiro domingo do inverno, estava a refletir sobre o quanto a Bíblia é frequentemente distorcida e usada até para o mal. Resolvi justamente ler o primeiro capítulo da primeira das epístolas do apóstolo Paulo do Novo Testamento, isto é, a carta aos romanos, quando então a lembrança sobre a advertência acima de Pedro me veio à mente.


Para quem não sabe, Romanos 1 é costumeiramente utilizado pelos fundamentalistas cristãos para incutir homofobia juntamente com a intolerância religiosa, bem como a apresentação de um deus irascível. Senão vejamos o que dizem os versos 18 a 32, segundo a Nova Versão Internacional:


"Portanto, a ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. Por isso Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos dos seus corações, para a degradação dos seus corpos entre si. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém. Por causa disso Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão. Além do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam. Tornaram-se cheios de toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação. Estão cheios de inveja, homicídio, rivalidades, engano e malícia. São bisbilhoteiros, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos; inventam maneiras de praticar o mal; desobedecem a seus pais; são insensatos, desleais, sem amor pela família, implacáveis. Embora conheçam o justo decreto de Deus, de que as pessoas que praticam tais coisas merecem a morte, não somente continuam a praticá-las, mas também aprovam aqueles que as praticam."


De acordo com o que certos "pastores" pregam sobre esse texto, o fato dos povos pagãos terem passado a adorar imagens de homens e de animais no lugar do Criador fez com que tais pessoas se tornassem homossexuais, como uma espécie de castigo, numa substituição do sexo destinado à procuração por relações "contrárias à natureza", passando também a cometer diversos tipos de pecados também. Ou seja, as religiões não cristãs (ou não monoteístas) são associadas à homossexualidade por certos "intérpretes" das Escrituras Sagradas. 


Certamente a homofobia sempre esteve presente nas culturas de todos os povos em maior ou menor grau, inclusive naquelas em que os atos homossexuais não eram criminalizados como na democrática Atenas em que o filósofo Sócrates (c. 470 a.C. – 399 a.C.) foi acusado de pederastia e de não acreditar nos deuses, além de conspirar contra o Estado. Na ocasião, o júri popular o condenou a se exilar para sempre, ou a lhe ser cortada a língua, impossibilitando-o assim de ensinar aos demais. Caso se negasse, o sábio professor seria morto, o que acabou sendo a sua opção.


Inegavelmente, o nível de homofobia na antiga Grécia deveria ser bem menor do que numa sociedade monoteísta antiga ou moderna, a exemplo do que se ouve falar hoje do Irã, da Arábia Saudita, do Iêmen, do Sudão ou do terrível Afeganistão do regime dos Talebãs. Sei que esses são países muçulmanos, mas não podemos ignorar que, em tempos passados, o mundo cristão não foi muito diferente da realidade atual do complicado Oriente Médio.


Outrossim, jamais podemos esquecer de que a homofobia e a intolerância religiosa costumam andar de braços dados ainda que o sentimento pessoal de repulsa às relações sexuais que não nos agradam possa surgir espontaneamente sem qualquer inspiração ideológica, devendo ser respeitado como a liberdade pessoal de cada um. Com isso, nada mais eficaz para promover o mal do que um fazedor de prosélitos associar as religiões adversárias com os atos homossexuais, os quais a ampla maioria das pessoas não se interessa em praticar.


No meu ponto de vista, até a leitura de Romanos 1, como de outras partes da Bíblia, requer a assistência de um teólogo para evitar que, através de uma interpretação literal, o próprio leitor acabe chegando a conclusões equivocadas e muitas das vezes até preconceituosas.


Ora, será que numa sociedade puramente monoteísta também não existem homossexuais que nunca dobraram os seus joelhos diante de qualquer escultura de deuses ou de santos?!


Sinceramente, se os credos não cristãos fossem a causa da homossexualidade, as igrejas evangélicas brasileiras não estariam cheias de crentes vivendo "atrás do armário" e que jamais foram a um culto politeísta ou sincrético e nem tão pouco rezaram a "Ave Maria" durante a infância como oram os católicos considerados pelos tais como "idólatras". Logo, só o fato de existirem gays (e lésbicas) nos meios religiosos cristãos, judeus e islâmicos já faz cair por terra a alegada relação entre a adoração pagã e as minoritárias preferências pelas relações homossexuais numa sociedade.


Logicamente que os escritos sagrados nunca devem ser vistos como obras perfeitas uma vez que os seus autores foram humanos e falhos. Mesmo que os consideremos divinamente inspirados, esses escritores tinham suas limitações, estavam sob certo aspecto submetidos aos valores de uma determinada cultura bem como à moral dos homens da época.


Quanto à carta de Paulo aos romanos, eu a tenho como uns dos mais belos ensinos sobre a graça de Deus em toda a Bíblia! Em momento algum o objetivo do autor foi instigar o preconceito contra homossexuais ou no tocante aos povos pagãos, mas, sim, demonstrar que todos os seres humanos, independentemente da condição na qual se encontram, são carecedores dessa infinita graça do bendito Criador.


Dentro do contexto da epístola, podemos muito bem indagar sobre que vantagem possui o hétero em relação ao gay? E onde estaria a superioridade da pessoa nascida num lar eclesiástico para os homens ou mulheres oriundos de uma família não cristã?!


Por certo, meus amigos, o desvio das boas condutas sempre nos tornará inúteis à humanidade e aos propósitos mais elevados de vida. Porém, pouco importa qual a nossa condição étnica, cultural, jurídica, moral, de gênero ou de orientação sexual uma vez que recebemos uma total compreensão da graça universal expressa pelo amor de Cristo Jesus a ponto de sermos amplamente aceitos ou compreendidos, sem nada termos a oferecer.


Desse modo, para uma melhor compreensão de Romanos, considero melhor ler a epístola de Paulo em seu contexto, sem nada concluir sem antes terminar de estudar os capítulos seguintes. E, quanto às interpretações bíblicas em geral, estas precisam ser cristocêntricas, tendo o princípio do amor como base já que a proposta de Jesus foi anunciar aos homens a adoção de uma vida conforme os valores de um identificado governo divino, identificado pela forma monárquica da época - o "Reino de Deus". 


Assim sendo, se os homens que viveram antes e depois de Jesus falharam por viver debaixo dos valores culturais de uma determinada época, a essência de um ensinamento sagrado deve ultrapassar o momento histórico. Daí a importância de não somente lermos a Bíblia como também refletirmos acerca da leitura realizada.


Que Deus tenha misericórdia de nós e não nos deixe ser enganados pelos falsos "pastores" que semeiam o preconceito, a ignorância, o obscurantismo, a homofobia e a intolerância às demais religiões, ao invés de anunciarem as boas novas de Cristo.


Ótima semana a tod@s!

sábado, 2 de outubro de 2010

O verdadeiro sentido da revelação bíblica

Será que a Bíblia não passa de simples narrativas e de uma coletânea de preceitos que regram o cotidiano? Ou existe uma orientação mais profunda que vai além de suas belas histórias?

Engana-se quem não atenta para a profundidade das passagens bíblicas, ignorando as verdades e os segredos contidos em cada uma das palavras, as quais sustentam o mundo e trazem consigo um outro sentido profético que nem sempre somos capazes de compreender. Pois, até nos acontecimentos que nos parecem banais, há grandes tipologias e alusões à obra feia por Cristo.

Por outro lado, não vejo lá tanto proveito nas interpretações místicas que surgem por aí (quase sempre tiradas de versículos isolados de seu contexto), o que acaba sendo um desvirtuamento e até uma fuga da orientação divina. Pessoas ficam tentando elaborar teologias para identificarem a pessoa do "anticristo", ou o ano em que Jesus voltará, apegando-se a uma suposta cronologia de seis mil anos a contar de Adão enquanto que o próprio Senhor esclareceu que ninguém nada sabe quanto ao dia e a hora de sua segunda vinda.

Confesso que, por muitos anos, lia as profecias bíblias procurando pistas que me ajudassem a prever os acontecimentos do futuro relacionados aos últimos dias. Escatologia foi algo que sempre me atraiu, desde o final da infância quando já estudava com assiduidade alguns dos textos bíblicos. E, durante algum tempo, num período mais recente de minha caminhada espiritual, eu ainda ficava a indagar sobre o que falaram os sete trovões em Apocalipse 10.4 já que voz vinda dos céus tinha impedido João de registrar.

Contudo, um dia resolvi contentar-me em não saber tudo o que Deus planejou para o seu devido momento, quando li a seguinte passagem no livro de Deuteronômio, deixando de lado minhas preocupações tolas:

“As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos as palavras desta lei. (Deuteronômio 29.29; Nova Versão Internacional – NVI)

Acredito que as revelações bíblicas não foram dadas para que fiquemos indagando acerca de detalhes escatológicos que são desnecessários para a caminhada do homem nesta vida. Coisas do tipo quantos céus existem, ou sobre quais os caminhos que percorre a alma depois da morte, parecem-me inúteis para o nosso aprendizado cotidiano afim de que cresçamos no exercício do amor, praticando o perdão, a tolerância, a caridade, a humildade, a pureza, a pacificação de conflitos e o domínio próprio, dentre outras virtudes espirituais.

Durante o seu ministério, conforme registrado nos Evangelhos, Jesus nos deixou exemplos de interpretação das Escrituras afim de que possamos compreender qual a vontade de Deus para os nossos dias e tomarmos posse em vida do reino celestial. Sendo ele a própria Palavra de Deus encanada, o Senhor explicou com autoridade o sentido profundo da união entre o homem e a mulher quando indagado pelos fariseus a respeito do divórcio:


E, aproximando-se alguns fariseus, o experimentaram, perguntando-lhe: É lícito ao marido repudiar sua mulher? Ele lhes respondeu: Que vos ordenou Moisés? Tornaram eles: Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar. Mas Jesus lhes disse: Por causa da dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito esse mandamento; porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, deixará o homem a seu pai e mão [e unir-se-á a sua mulher], e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não serão dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem. Em casa, voltaram os discípulos a interrogá-lo sobre este assunto. Ele lhes disse: Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra aquela. E, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério. (Evangelho segundo Marcos 10.2-12. versão de Almeida Revista e Atualizada - ARA)


Que avanço para aquela época, não?! Ao dar sua interpretação da Torá, Jesus buscou nas origens da criação qual o verdadeiro sentido da união ente o homem e a mulher, igualando a condição de ambos os sexos quanto à observância dos mandamentos. Ainda mais numa época em que a poligamia masculina ainda era socialmente tolerada e foi largamente praticada até alguns séculos antes de Cristo (quase um milênio atrás, o rei Salomão tivera um numeroso harém de setecentas esposas e trezentas concubinas).

É verdade que, de acordo com as próprias histórias bíblicas, nenhum dos homens compreendeu completamente o sentido revelado das Escrituras e ainda assim Deus interagiu com a dureza de coração da humanidade. Nos momentos de maior ignorância do povo israelita que se encontram registrados no Livro de Juízes, sacrifícios foram oferecidos sem nenhuma observância das normas da Torá. Sem estarem investidos do sacerdócio levítico exclusivo dos descendentes de Arão, Gideão e os pais de Sansão tiveram seus holocaustos aceitos pelo Anjo do SENHOR. E, quanto ao sacrifício insano de Jefté, que prometeu oferecer quem primeiro viesse lhe saudar ao retornar para a casar depois da vitória da batalha, eis que, por patente ironia, Deus permitiu que a escolhida fosse justamente sua única filha. Contudo, Sansão, Jefté e Gideão têm seus nomes exemplificados no rol de heróis da fé do capítulo 11 da Epístola aos Hebreus (verso 32) enquanto que o rei Uzias, certamente um conhecedor da Lei, foi castigado com lepra por ter tentado usurpar as funções sacerdotais (ver 2 Crônicas 26.16-21).

Acredito que Deus não leva em conta a nossa ignorância quanto à sua vontade. Porém, a partir de Jesus, o Evangelho é pregado e o Reino dos Céus anunciado de modo que somos chamados para andarmos na sua luz. Ao estabelecer o verdadeiro intuito da Torá e revelar o propósito de seu ensino, o Senhor nos mostra que o cumprimento dos mandamentos se dá através de uma vida sinceramente destinada à obediência.

Curiosamente, na tentação de Jesus, o diabo chegou a usar até um trecho do Salmo 91 para que o Senhor se jogasse de um lugar alto e fosse acolhido pelos anjos de Deus (Mt 4.6). Durante as perseguições sofridas em seu ministério, Jesus foi acusado por várias vezes de violar o sábado (o quarto mandamento do decálogo) em razão de ter curado pessoas neste dia separado. Certa ocasião, quando os fariseus reclamaram dos discípulos de Jesus por estarem colhendo espigas nos campos para comer, o Senhor lhes deu esta sábia resposta:


Mas ele lhes respondeu: Nunca lestes o que fez Davi, quando se viu em necessidade e teve fome, ele e os seus companheiros? Como entrou na Casa de Deus, no tempo do sumo sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, os quais não é lícito comer, senão aos sacerdotes, e deu também aos que estavam com ele? E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado; de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado. (Evangelho segundo Marcos 2.25-28; ARA)


Com estas palavras, Jesus restabeleceu o sentido do sábado que é o mandamento estimulador da vida instituído na criação, contrastando-o com as sufocantes tradições dos homens cujas regras chegavam a limitar até o número máximo de passos. Como senhor do sábado (e também Senhor da criação), mais uma vez Jesus estava ensinando sobre o real sentido das Escrituras, resgatando a compreensão original.

É certo que nem Moisés, nem os profetas israelitas e nem Jesus deixaram prescrições explícitas que solucionassem cada detalhe dos problemas cotidianos que enfrentamos. Há momentos em que, mesmo abrindo a Bíblia, não encontramos escrita qual a revelação divina para as nossas vidas. Por isso, é que o próprio salmista diz que devemos meditar (refletir) na lei do SENHOR “de dia e de noite”, o que ocorre quando praticamos uma aceitação obediente dos mandamentos.

Como iremos compreender as Escrituras? Existem métodos que nos possibilitem aprender esses conhecimentos?

Contrariando a lógica, o próprio texto bíblico nos esclarece que o temor do SENHOR é a chave do saber (confere com Provérbios 9.10). Ou seja, é a través da reverência que alcançamos a sabedoria e o conhecimento do Santo. Então, quando buscamos a Deus de todo o coração, certamente Ele não ocultará aquilo que lhe é agradável, dando-nos direção pela sua graça. Neste sentido, permanece mais do que atual esta oração do salmista:

“Abre meus olhos para eu contemplar
as maravilhas que vêm da tua lei.
Eu sou peregrino na terra,
não escondas de mim teus mandamentos”

(Salmo 119.18-19; versão da Bíblia de Jerusalém)