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domingo, 27 de julho de 2025

São essas as nossas armas!



Quase vinte anos depois, a camisa que usamos num retiro eclesiástico em Nova Friburgo, na primeira década do século XXI, chegou aos seus últimos dias de uso já desbotada e rasgada. 


Imitando um uniforme de treinamento militar na selva, havia as seguintes palavras estampadas juntamente com a figura de um soldado: "GUERREIROS DE CRISTO ARMADOS PARA AMAR". Certamente é algo que geraria divisão nos dias de hoje com as igrejas contaminadas pelo bolsonarismo mas, na época, ninguém naquele evento pensava literalmente nas armas humanas, exceto como metáforas dos recursos espirituais dos quais o apóstolo Paulo teria escrito em sua epístola aos cristãos da cidade de Éfeso:


"Finalmente, sejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Vistam‑se de toda a armadura de Deus para poderem ficar firmes contra as ciladas do Diabo, pois a nossa luta não é contra sangue e carne, mas contra os poderes e as autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas e contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais. Por isso, vistam‑se de toda a armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis depois de terem feito tudo. Assim, permaneçam firmes, cingindo‑se com o cinto da verdade, vestindo‑se com a couraça da justiça e tendo os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz. Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno. Usem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Orem no Espírito em todas as ocasiões, com toda oração e súplica. Tendo isso em mente, estejam atentos e perseverem na oração por todos os santos." (Ef 6:10-18; NVI)


Curioso como valores como a verdade, a justiça, as boas novas da paz, a fé, a salvação, a mensagem divinamente inspirada e as orações se tornam armamentos num campo de batalha que não é como uma guerra entre tropas, milícias ou facções, porém numa disputa que ultrapassa até os limites da ideologia. Ou seja, é a luta por um ambiente regido pelos princípios superiores da vida, metaforicamente os valores do Reino dos Céus, ou de Deus.


Apesar de muitos verem a Igreja como instituição conservadora, não creio ter sido este o desejo de Jesus que em momento algum tentou manter o sistema de injustiças de sua época que se perpetua até hoje com novas faces. E o Mestre propôs transformar o ser humano de dentro para fora, trabalhando a ética e não a moral social, de maneira que a justiça seria alcançada não pela observância literal da Lei e sim pelo exercício do amor ao próximo.


Hoje em dia, como já dito, temeria pelo uso de uma estampa dessas num evento religioso para que alguns irmãos na fé não deturpassem a mensagem como se Jesus fosse apoiador do armamento defendido pelos bolsonaristas. Contudo, o texto bíblico é excelente para curar a Igreja nesses dias de cegueira espiritual e nos conduzir de volta à essência do Evangelho.


Ótima semana a tod@s!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Celebremos a eternidade da Vida!

"Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem". (1 Tessalonicenses 4.13-14; ARA)


Não há como agente apagar da memória a imagem de alguém que partiu. Emocionar-se e lamentar num enterro é algo muito natural. Segundo a Bíblia, assim que Jacó morreu, seu amado filho José "lançou-se sobre o rosto de seu pai, e chorou sobre ele, e o beijou" (Gn 50.1; ARA).

Entretanto, não devemos passar a vida inteira nos entristecendo sem termos esperança. Paulo, em sua carta à igreja em Tessalônica, na Grécia, referiu-se eufemicamente às pessoas mortas como alguém que "dorme". E, com isto, o autor da epístola exorta seus leitores a não se preocuparem com o destino daqueles que já tinham morrido.

Cada cultura e cada indivíduo respondem à morte de uma maneira. Entre diversos povos da África, por exemplo, o morto é considerado alguém que continua a fazer parte da família. Sendo as tribos africanas animistas, é muito comum as pessoas desses países acreditarem que o espírito desencarnado do falecido prosseguirá zelando pelo bem de seus descendentes e cônjuges. E, se não re-encarnarem, receberão uma espécie de "promoção" para um plano superior, passando a viver junto ao Ser supremo, identificado em certas tradições pelos nomes de Olodumaré ou Olorun na língua dos iorubás (um dos maiores grupos étno-linguístico na África Ocidental, composto por 30 milhões de pessoas em toda a região).

Contudo, o importante é que as pessoas consigam se recobrar do trauma da perda, aprendendo a lidar com a ausência e vivendo com uma esperança motivadora. Assim, neste sentido, as palavras de Paulo tornam-se bem confortadoras. Pois, além de compreender a morte como um descanso transitório, deve o seguidor de Jesus ansiar pelo momento em que todos estarão reunidos para sempre com Deus. E a este respeito o apóstolo expõe muito bem o mistério da existência conforme a imagística e o conhecimento de sua época:

"Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com ele, entre as nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras." (1Ts 4.15-18; ARA)

Em cima destes escritos, a Igreja criou inúmeras doutrinas posteriores e muitas delas tornaram-se até alienantes quanto à vida em comunidade. Os padres começaram a abusar desta consolação, projetando a felicidade do homem no céu, ao invés de incentivarem o encontro com a Vida no aqui e agora. Explorado pelos seus patrões e pelos governantes, com amplo apoio dos líderes eclesiásticos, nada mais restou ao trabalhador exceto sonhar com um paraíso após a morte. E para limitar qualquer ação revolucionária dos pobres, ainda criaram as terríveis ameaças acerca da condenação no inferno.

Numa época mais moderna, em que desastres de grandes proporções têm ocorrido juntamente com o desenvolvimento de armas de destruição em massa e mais as profundas mudanças sociais, não há nada mais alienante do que as paranoias apocalípticas. Os discursos sobre a segunda vinda de Jesus têm se tornado verdadeiras sessões de terror como se a qualquer momento o fim do mundo pudesse acontecer. Aí, segundo esta visão teológica, quem estiver vivendo fora dos padrões da Igreja, será destruído.

Lendo os versos de 1 a 11 do capítulo 5 da epístola, entendo que a ideia de uma repentina chegada do "Dia do Senhor" é nada mais do que uma exortação para que a humanidade se prepare para um novo tempo. Trata-se, portanto, de percebermos a nova estação na qual o mundo está entrando para que não sejamos surpreendidos com as mudanças de valores:

"Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão" (1Ts 5.3; ARA).

Ao analisarmos a História, percebemos que alguns eventos ocorrem com grandes surpresas, sem que as pessoas tenham tempo hábil para prevê-los. No final da década de 80 e início dos anos 90, quem poderia imaginar que as cortinas de ferro da ex-URSS e da Europa do Leste iriam cair? Repentinamente, foram caindo os regimes totalitários e stalinistas um por um semelhantes às peças de um jogo de dominó. Porém, se retrocedêssemos a 1986, por exemplo, ninguém poderia imaginar que o vergonhoso muro de Berlim iria ser derrubado em tão pouco tempo e que a Alemanha, dividida em dois países, voltaria a se reunificar.

Lendo a mensagem de Paulo, é justamente o aspecto libertador daquelas palavras que precisam ser retidas para não nos enganarmos com essas teologias amedrontadoras que, na prática, só prestam para promover as mais nocivas alienações. Realmente temos que estar atentos, procurando perceber o tempo kairótico, aquilo que Deus está hoje fazendo no mundo. E, firmados na esperança, promovermos a vida em comunidade.

"Nós, porém, os que somos do dia, sejamos sóbrios, revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação; porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos em união com ele." (1 Ts 5.8-10; ARA)

Quando vivemos com esta percepção no tempo kairótico, nossa existência torna-se uma eterna aventura. Quer estejamos aqui, ou "dormindo", podemos experimentar a salvação, isto é, uma vida plena e satisfeita pela nossa integração total com o Criador e tudo o que Ele fez de bom. Preocupar-nos com o futuro pessoal ou com a partida dos entes queridos já não deve mais nos afligir porque passamos a celebrar a continuidade da Vida que tem na ressurreição de Cristo Jesus um belíssimo símbolo.

Contrariando o papo sem aterrorizante desses pregadores sem graça que têm por aí, Paulo escreve os versos finais de sua epístola aos tessalonicenses motivando-os para a experimentação da vida comunitária. O seguidor de Jesus é chamado para atuar na edificação de uns dos outros, assumindo sua responsabilidade com os irmãos locais. E. com estas palavras, ele explica o que vem a ser esta celebração da vida:

"Evitai que alguém retribua a outrem mal por mal; pelo contrário, segui sempre o bem entre vós e para com todos. Regozijai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda a forma do mal." (1Ts 5.15-22; ARA)

Por acaso esta última citação não é um excelente exemplo do que significa viver no tão desejado tempo kairótico em que aprendemos a ser gratos e nos alegrarmos sempre?

Complementando o seu estudo sobre a epístola paulina no CBA, Rosalie Koudougueret, bacharel e mestre em Teologia da República Central da África, trás-nos estes oportunos comentários:

"As palavras de Paulo nos lembram os extraordinários privilégios que desfrutamos como crentes, os quais são a fonte de nossa alegria, mas também de nossos deveres e responsabilidade em evitar o mal e pôr em prática a palavra de Deus. Essas palavras são particularmente aplicáveis à igreja hoje, a qual tem sido tão influenciada pelo mundo que agora abriga todos os tipos de males: corrupção, imoralidade, tribalismo [conflitos entre as tribos africanas], divisão, egoísmo e roubo. Além disso, existe uma escassez de profunda e dinâmica oração. Já é hora de a igreja retornar ao seu primeiro chamado para ser 'o sal da terra' e a 'luz do mundo'" (Comentário bíblico africano; São Paulo: Mundo Cristão, 2010, pág 1500)

Que neste feriado do dia 2 de novembro, mundialmente dedicado aos que "dormem", venhamos nos encher de esperança e nos fortalecermos com a luz do nosso Deus! E, confortados, possamos prosseguir confiantes em nossa caminhada, celebrando alegremente a eternidade de todos os seres porque o nosso Criador é a fonte da vida que pulsa no Universo. Bendito seja Ele!


OBS: A ilustração usada neste texto diz respeito ao quadro Ressurreição de Cristo, pintado pelo artista francês Noël Coypel, em 1700.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Percebendo o valor da Vida

Às vezes é duro ter que admitir que, em várias ocasiões, estamos desperdiçando energia com coisas tão pequenas afim de satisfazermos as nossas próprias vaidades pessoais, idolatrando o dinheiro, a fama, o poder, a aparência física, o prestígio social, as falsas impressões geradas nas mentes das pessoas, a reputação moral, o orgulho, o sucesso ou até mesmo o bem estar próprio quando realizado de uma maneira egocêntrica sem incluir a felicidade do próximo.

No Evangelho de Mateus, são contados três ensinamentos em sequência, atribuídos a Jesus, os quais nos falam acerca da percepção do valor do "Reino de Deus". Tratam-se das parábolas do "Tesouro Escondido", da "Pérola" e da "Rede". A primeira delas, que tem um paralelo interessante com o Evangelho de Tomé nos diz que:

"O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo". (Mt 13.44; ARA)

"Jesus disse: O Reino é como o homem que tinha um tesouro [escondido] em seu campo sem saber. Após sua morte, deixou o campo para seu [filho]. O filho não sabia [a respeito do tesouro]. Ele herdou o campo e o vendeu. O comprador ao arar o campo encontrou o tesouro. Começou então a emprestar dinheiro a juros a quem queria." (To 109)

Analisando esta história, notamos que o antigo proprietário do campo era alguém que jamais conheceu a enorme riqueza que havia no subsolo de suas terras e deixou de maneira cega que ela escapasse de suas mãos. Então, ele a entregou para outro vendendo o tesouro desapercebidamente.

Ora, como que alguém pôde ser tão negligente a ponto de ter utilizado o seu campo com extrema superficialidade sem jamais tomar a iniciativa de arar o solo com mais cuidado? Talvez o vendedor do terreno tivesse ocupado demais para se preocupar com coisas que julgasse improváveis de ocorrer ou então era um tremendo de um preguiçoso que preferiu arrendar aquilo que possuía para que outro plantasse e colhesse. Porém, o certo é que seus horizontes eram bem restritos e ele foi incapaz de ao menos indagar criticamente por que razão o comprador desfizera-se de tudo o que tinha para se tornar dono daquele sítio.

Acontece que este vendedor desatento muitas das vezes somos nós mesmos em relação às preciosidades da vida. Deixamos de experimentar as melhores atrações da existência humana para nos distrairmos com coisas bem pequenas tipo comprar o novo modelo dos televisores expostos na vitrine de uma loja de eletrodoméstico, exibir um carro novo pelas ruas da cidade ou vestir a roupinha da moda, ainda que nos endividando com prestações a perder de vista, colaborando com um sistema financeiro que escraviza tanto os consumidores quanto os trabalhadores, empresários e a economia global.

Uma questão deve ser levantada: até quando vamos ficar sonhando com o estilo de vida perdulário e vazio dos norte-americanos?

Afim de satisfazermos o nosso ego insaciável, destruímos tudo em volta e a própria vida que temos. Abrimos mão da paz interior e de compartilharmos um mundo melhor com o próximo. E estudos demonstram que, se todos os habitantes do globo terrestre tivessem o mesmo padrão de consumo dos ianques, nem dois planetas seriam suficientes para suprir a demanda por recursos naturais. Pois, se prosseguirmos nesta ambição, em que condições a humanidade viverá num futuro próximo?

Contudo, o homem que se desfez alegremente de tudo o que tinha afim de de adquirir o campo, demonstrou profunda sensibilidade em relação à vida. Pois, para encontrar o tesouro, ele precisou transcender a superficialidade quando se dispôs a arar a terra e a prestar atenção em alguma coisa estranha no subsolo. Talvez a sua enxada tenha batido em algo duro que ele poderia até ter pensado que se tratasse de um pedregulho e não se importado. Só que a sua curiosidade e interesse foram maiores, levando-o a cavar com persistência e fé até descobrir algo de grande valor.

No Comentário Bíblico Africano, Joe M. Kapolyo, teólogo batista de Zâmbia, conta-nos uma história ocorrida em seu país, na primeira metade do século passado, e que de certa maneira tem a ver com a parábola do tesouro:


"A extração de cobre em grande escala em Copperbelt, na Zâmbia, começou em 1922. Dizem que uma das maiores minas, a Luanshya, começou quando um explorador [William Collier] atirou em um antílope e descobriu sinais escritos com cobre numa rocha próxima ao corpo do animal. Grandes esforços foram empreendidos para remover os proprietários originais do local e abrir caminho para a instalação da nova mina. O explorador percebeu o valor dos depósitos de cobre e vislumbrou a possibilidade de grandes riquezas, por isso ele e seus associados fizeram de tudo para adquirir a terra e os direitos de exploração sobre ela. A parábola do tesouro enterrado num campo é a versão palestina do século I para a história dos depósitos de cobre na Zâmbia. O tesouro oculto claramente não pertence ao dono da terra, pois, se pertencesse, ele jamais a venderia. Ao encontrar o tesouro, o homem vendeu tudo o que possuía para comprar a terra, sabendo que havia algo muito mais valioso enterrado ali (13:44)" - com adaptações, sendo meu o destaque em negrito


Por mais chocante que seja esta história para os valores de hoje, ainda mais porque o autor fala em caça de animais, sendo implícito que, na época (década de 20), havia uma repugnante relação exploratória de colonialismo e de usurpação dos recursos naturais dos povos nativos africanos, devemos nos prender no sentido da parábola, abrindo as portas da nossa compreensão para o ensinamento proferido. E, assim como no caso do tesouro escondido, o comerciante de pérolas (Mt 13.45-46) soube canalizar o seu desejo para alcançar as melhores coisas. Ao achar a joia de grande valor, nada mais lhe importou a não ser conseguir aquela preciosidade, a qual, certamente, deve ter sido vendida por quem não soube avaliar a fineza do material:

"O reino dos céus é também semelhante a um que negocia a procura de boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra." (Mt 13. 45-46; ARA)

Na vida, quando procuramos por algo que realmente será bom para nós, devemos empreender uma busca intensa. Nenhuma outra coisa pode nos distrair do objetivo almejado. Temos que aprender a focar e sermos verdadeiros naquilo que decidimos fazer.

Neste sentido, a terceira história contada por Jesus (Mt 13.47-50) tem muito a nos ensinar. A Parábola da Rede, a meu ver, transmite a ideia de pescadores sábios que descartam as coisas ruins que apanham durante o trabalho no mar, selecionando e armazenando somente os peixes bons. Aliás, neste dito atribuído a Jesus, se forem desconsiderados os dois versículos seguintes, pode guardar mais semelhanças com as duas histórias anteriores do que com a do joio e do trigo (Mt 13.24-30). Pois para mim, os redatores do 1º Evangelho talvez tenham se equivocado ao posicionarem os versos 49 e 50 ali e não depois do 30. Tanto é que a sentença 8 do Evangelho de Tomé passa uma visão que não tem muito a ver com a ideia escatológica que, possivelmente, foi a Igreja quem tentou transmitir e não Jesus. Senão vejamos comparando apenas os versos 47 e 48 do capítulo 13 de Mateus com o texto não aceito pelo cânon católico do Novo Testamento:

"O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. E, quando já está cheia, os pescadores arrastam-na para a praia e, assentados, escolhem os bons para os cestos e os ruins deitam fora." (Mt 13.47-48; ARA)

"E ele disse: O homem é como pescador sábio que lança sua rede ao mar e a retira cheia de peixinhos. O pescador sábio encontra entre eles um peixe grande e excelente. Joga todos os peixinhos de volta ao mar e escolhe o peixe grande sem dificuldade. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." (To 8)

Atentando para este ensino do evangelho lamentavelmente tido como "apócrifo" por católicos e protestantes, percebe-se que a sabedoria do pescador reside em sua concentração no peixe grande e proveitoso. Tanto é que os pequenos são devolvidos ao mar e ele não perde seu tempo tentando colecionar coisas inúteis.

Igualmente, nós também devemos aprender a pescar o "peixe grande" afim de não nos ocuparmos com coisas irrelevantes que nada acrescentarão à nossa evolução pessoal e experimentação da vida. Pois, todas as vezes em que dispersamos energia em busca dos "peixinhos", estamos é atendendo aos caprichos
do ego e perdendo oportunidades incríveis de crescimento espiritual através das circunstâncias que nos são oferecidas a cada dia.

Confirmando o valor do Reino de Deus, a Epístola aos Filipenses mostra-nos o quanto o apóstolo Paulo parece ter compreendido esta verdade:

"Mas o que para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo". (Fp 3.7-8; ARA)

Como se vê, Paulo considerou como "refugo" (lixo ou esterco) qualquer coisa que interferisse em sua busca pelo que chamou de "sublimidade do conhecimento de Cristo", o que, em outras palavras, significa não uma compreensão intelectual de algum assunto, mas sim a experimentação do Reino de Deus em sua vida, o que podemos compreender como a verdadeira salvação e libertação do ser.

Desejo que nós possamos assimilar este aprendizado de Paulo e as esclarecedoras palavras de Jesus, fazendo os nossos ouvidos atentos e procurando aquilo que é incomparavelmente melhor a qualquer outra coisa desta vida.

Tenha um ótimo descanso neste final de semana!


OBS: A primeira ilustração acima trata-se do quadro Parábola do Tesouro Escondido, pintado por Rembrandt por volta de 1630. Já a terceira imagem refere-se à obra do italiano Domenico Fetti (1589 - 1623), a Pérola de Grande Valor. E a quarta ilustração é uma gravura do holandês Jan Luyken (1649 - 1712) representando a Parábola da Rede. Todas elas extraídas da Wikipédia. Somente a segunda, que mostra William Collier abatendo o antílope é que foi retirada de um site oriundo da Zâmbia: http://lindasmith.co.za/pages/gallery/copperbelt-219.php
Quanto às citações do Evangelho de Tomé, as tais foram extraídas da seguinte página na internet http://www.igrejavaroesdeguerra.com.br/LIVROS/Apocrifo_Evangelho_Tome.pdf

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Os construtores de tendas


"Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto. Lá, encontrou certo judeu chamado Áqüila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma. Paulo aproximou-se deles. E, posto que eram do mesmo ofício, passou a morar com eles e ali trabalhava, pois a profissão deles era fazer tendas. E todos os sábados discorria na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos." (Atos dos Apóstolos 18.1-4; ARA) - destacou-se


Segundo os textos bíblicos, o apóstolo Paulo (também Saulo de Tarso) é apresentado como sendo um homem alfabetizado e altamente instruído, um habilidoso conhecedor de idiomas, das leis do seu tempo, da literatura, da filosofia, das Escrituras bíblicas e das tradições culturais gregas e judaicas em geral. Nasceu na província romana da Cilícia, região situada atualmente em partes dos territórios da Turquia e da Síria, tendo herdado o título de "cidadão romano", o que lhe dava uma posição privilegiada nas regiões dominadas por Roma, indicando também uma provável origem de boa condição econômica. A ele é atribuída a autoria da maior parte das obras que compõem o cânon do Novo Testamento.

Entretanto, após ter se convertido e tornado um pregador do Evangelho, passando a viajar por inúmeras regiões da parte oriental do Império Romano, Paulo adotou um curioso estilo de vida bem modesto. Tanto as envolventes narrativas de Atos dos Apóstolos como as epístolas por ele escritas mostram a opção do apóstolo por trabalhar igual a qualquer homem do povo, dispensando inúmeras vezes o recebimento de contribuições das comunidades evangelizadas para o sustento próprio. E, na passagem bíblica acima citada, ele é mencionado como um simples artesão, um fazedor de tendas.

Nos últimos dias, tenho refletido sobre o que deveria significar tal atividade naqueles tempos, visto que não era um ofício próprio de pessoas livres e cultas. Pois, numa época quando poucos habitantes sabiam ler e escrever, parece-me evidente que Paulo possuía talento de sobra para conseguir ocupar melhores posições onde quer que fosse. Só que, na esfera econômica, ele parecia se preocupar tão somente em suprir as suas necessidades básicas, contentando-se com o suficiente e tendo disponibilidade de tempo para dedicar-se à causa do Evangelho do Reino de Deus.

Atualmente, não é isto que vejo no nosso país. Pois, além de existirem pastores e falsos apóstolos vivendo luxuosamente através da exploração das contribuições financeiras das pessoas em suas igrejas, temos na nossa nação um repugnante elitismo que apenas valoriza determinadas profissões, dando a elas um destaque social sobre as demais.

No Brasil de hoje, estima-se muito as pessoas pela posição que ela ocupa através dos cargos e dos bens materiais que compõem o seu patrimônio. Ser um médico, um juiz, um promotor de justiça, um ator famoso, um jogador de futebol da primeira divisão do campeonato ou um rico especulador da BOVESPA são exemplos de profissões idolatradas. Porém, pouco se valoriza o pedreiro, o agricultor, o cabeleireiro, a manicure, a cozinheira ou a faxineira. E aqueles que exercem estes ofícios, ainda que estejam ganhando relativamente bem, não se sentem dignos com o que fazem.

Diga-se de passagem que a vergonha por determinados tipos de trabalho sempre foi um sentimento das elites brasileiras que, principalmente nos quatro primeiros séculos, considerava humilhante alguém suar a camisa porque os serviços pesados tratavam-se de tarefas impostas aos negros escravos. Deste modo, as oligarquias rurais canavieiras e cafeeiras passaram a educar seus filhos em universidades do exterior para que os mesmos, ao retornarem da Europa, viessem a exercer cargos públicos de grande relevância com um diploma universitário. E, assim, médicos, engenheiros e advogados, por exemplo, começaram a ser chamados de "doutor" mesmo sem terem cursado o doutorado.

A meu ver, já é tempo de mudarmos esta mentalidade atrasada que, conforme demonstrado no parágrafo anterior, é fruto de séculos de colonialismo ibérico e de exploração do trabalho escravo. Precisamos estimular as profissões de base e mostrar às pessoas as oportunidades de negócios que têm surgido em diversas áreas devido ao recente crescimento econômico da nação, afim de que elas se sintam dignificadas e felizes por obter o suficiente para viver através daquilo que fazem.

De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.” (1Tm 6.6-8; ARA)

Que possamos aprender com o exemplo de Paulo, afim de vivermos contentes, bastando que as nossas necessidades diárias estejam suficientemente satisfeitas.


OBS: A ilustração acima foi extraída de http://www.arquifln.org.br/v01/catequese/encarte_02Novembro.htm

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O amor que se manifesta pela unidade do povo de Deus!

A célebre "Oração Sacerdotal" de Jesus, encontrada no capítulo 17 do Evangelho de João, fala várias vezes sobre um ponto importante e que a Igreja tanto necessita nos dias atuais - recuperar a unidade.

O texto é bem mais longo do que o conhecido "Pai Nosso", o que dificulta a sua memorização, mas é tão profundo quanto. Além do mais, trata-se de uma oração feita por Jesus em favor de todos nós, incluindo os que, depois de seus discípulos daquela época, viriam a crer:

"Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste." (Evangelho segundo João 17.20-21; versão de Almeida Revista Atualizada - ARA)

O que significa "sermos um"? Penso que esta unidade não pode ser outra senão vivermos todos como uma grande família. Uma família que se ama, onde os seus entes são capazes de sair da esfera do egoísmo e do individualismo para se sacrificarem em favor dos demais.

O mundo espera é que nós, discípulos de Jesus, sejamos capazes de revelar o Messias pela prática do amor. Jesus fez conhecer o Pai pelo amor com que amou os seus discípulos e a humanidade. Foi o que o Senhor pediu:

"Pai justo, o mundo não te conheceu; eu, porém, te conheci, e também estes compreenderam que tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja." (João 17.25-26; ARA)

Quando amamos os irmãos, estamos em comunhão uns com os outros e também em comunhão com Jesus. E, mesmo tendo o Senhor ascendido aos céus e assentado à direita da Majestade, o Espírito do Messias permanece em nós apesar de não o vermos com os olhos naturais e nem o apalparmos como puderam fazer os primeiros discípulos.

Infelizmente, olho para a Igreja de hoje e sinto o quanto estamos vivendo distantes desse maravilhoso projeto sonhado por Jesus e que foi experimentado pelos seus seguidores no século I. Com muitas palavras cansativas pregamos doutrinas capazes de atingir as mentes dos ouvintes, mas nos falta mostrar o Evangelho de uma maneira visível para que o mundo conheça o Messias, sabendo que a obra de Jesus não é apenas uma história que as pessoas da nossa cultura escutam em ocasiões como o Natal ou a Páscoa.

A mensagem que o pastor de congregação onde atualmente me reúno preparou para pregar neste domingo (não estive pessoalmente na minha congregação, mas recebi via e-mail), teve como título "Alcançando os Guetos" e trás uma parte que me chamou bastante atenção:

"O REINO NÃO É UM GUETO (...) E ele não está circunscrito a denominação A, B ou C, mas a todos quantos estão ligados na Verdadeira Videira que é Cristo e a partir de Sua Palavra examinada, compreendida, devidamente experimentada e vivida sinalizarmos o Reino neste mundo." - Pr. Robson Rodrigues

Ora, não me agrada olhar para a Igreja de Cristo e vê-la dividida em diversas denominações de modo que isto impeça a realização de projetos comuns e de praticarmos o amor!

Não dá para aceitar que aqui na cidade onde moro existam irmãos e outras igrejas passando necessidades!

Não me conformo quando ouço alguém dizer que um missionário enviado para uma terra distante teve que retornar porque deixou de receber ajuda financeira das pessoas e congregações que um dia se comprometeram a ajudar no seu sustento!

Sinceramente, acho que dá para combinarmos pluralidades de pensamentos e de concepção doutrinária com uma unidade de propósito, sem deixarmos de ser a grande família de Deus, tendo o Evangelho de Cristo como nosso alvo. Contudo, não são as diferenças de pensamento que tanto nos dividem e sim as nefastas disputas pelo poder dentro da Igreja e o fato das pessoas estarem se afastando da essência da mensagem evangélica.

Voltemos ao Evangelho!

Algumas semanas atrás, assisti um jovem seminarista pregando que, apesar de Paulo e Barnabé terem discutido e se separado, antes de começarem a primeira viagem missionária, eles não perderam o foco. Ambos continuaram pregando a Cristo e fazendo a obra de Deus. Barnabé foi para o Chipre com o seu sobrinho Marcos enquanto que Paulo partiu com Silas para outras regiões:

Tiveram um desentendimento tão sério que se separaram. Barnabé, levando consigo Marcos, navegou para Chipre, mas Paulo escolheu Silas e partiu, encomendado pelos irmãos à graça do Senhor. Passou, então, pela Sìria e pela Cilícia, fortalecendo as igrejas. (Atos dos Apóstolos 15.39-41; Nova Versão Internacional - NVI)

Penso que se estamos indignados com o estado de divisão em que se encontra hoje a Igreja de Cristo, não basta expressarmos esta crítica. Penso que precisamos praticar de fato o amor entre as pessoas das nossas congregações, o que é capaz de expandir esse mover tal como foi com os primeiros discípulos quando congregavam em Jerusalém no primeiro século. E, segundo o texto de Atos, a quantidade de discípulos só aumentava:

Assim a palavra de Deus se espalhava. Crescia rapidamente o número de discípulos em Jerusalém; também um grande número de sacerdotes obedecia à fé. (At 6.7; NVI)

Que intrigante! O texto acima fala de sacerdotes. Mas, afinal, quem eram eles?

Sem dúvida que o autor refere-se aos sacerdotes do judaísmo, os quais eram da tribo de Levi e da descendência de Arão. Provavelmente fossem do partido dos saduceus e, tempos atrás, alguns deles tivessem concordado com o assassinato de Jesus.

Além do mais, é bom esclarecer que, no século I, ainda mais nos primeiros anos após a paixão de ressurreição de Cristo, não poderíamos falar na existência de uma religião cristã separada do judaísmo. Os discípulos de Jesus em Jerusalém eram judeus e permaneceram fazendo parte daquela cultura, indo ao Templo, comemorando as festas tradicionais, seguindo preceitos da Torá, circuncidando seus filhos e cumprindo votos. Inclusive, o livro de Atos deixa bem claro em diversas passagens que eles eram considerados uma facção dentro do judaísmo como os seguidores do Caminho ou, numa visão mais pejorativa, a seita dos nazarenos.

Curioso, mas não foram eles quem se separaram de seus irmãos judeus que se recusavam a aceitar Jesus como o Messias e, pelo comportamento amoroso que tinham, despertaram a fé nos corações até mesmo de alguns saduceus e fariseus.

Igualmente acredito que podemos despertar o amor e uma fé autêntica nos demais irmãos cristãos, sejam eles católicos ou evangélicos, bem como nas pessoas que não têm vida religiosa ou seguem uma concepção diferente. Não vejo outro jeito. Precisamos primeiro aprender a viver em família para que então outros compreendam a mensagem do Evangelho e queiram se juntar a nós.

sábado, 29 de maio de 2010

Um judeu em Atenas



Na adolescência, época em que entreguei minha vida para Cristo, eu vibrava todas as vezes em que lia sobre as missões evangélicas do primeiro século no livro de Atos dos Apóstolos e sonhava em sair viajando pelo mundo ganhando almas para Jesus. Contudo, acho que nem conseguia evangelizar meus colegas de escola, ainda mais quando vivi uma terrível fase de fanatismo religioso que tanto afastava as pessoas de mim.

Anunciar Jesus às nações é algo bem mais difícil do que simplesmente convidar um vizinho ou um parente para ir conosco a algum culto, coisa que qualquer crente e até pessoa não convertida pode fazer e para evangelizarmos é indispensável estarmos em sintonia com os planos de Deus porque o resgate de uma alma trata-se de uma verdadeira batalha espiritual.

O livro de Atos fala de um judeu chamado Saulo de Tarso, fariseu da tribo de Benjamim, conhecido também como Paulo, o qual, após perseguir a Igreja de Cristo, converteu-se ao Evangelho, passando a pregar tanto a judeus quanto aos povos estrangeiros que viviam na parte oriental do Império Romano. Foi inicialmente temido pelos discípulos do Senhor Jesus, visto que muitos duvidavam de sua conversão, mas não demorou muito e se tornou mais um apóstolo, palavra esta que significa “enviado”. Empreendeu então três viagens missionárias, indo para lugares da Ásia Menor e da Península Balcânica, regiões consideradas ainda pagãs.

Nos tempos de Paulo, os gregos que, há três séculos foram os principais adversários dos judeus, povoavam boa parte da Ásia Menor, Macedônia e, obviamente a Grécia, sendo que muito ódio existia entre os dois povos.

Por sua vez, os judeus encontravam-se espalhados pela vastidão territorial do Império Romano, nas suas diversas províncias. Estima-se que, no século I, existissem cerca de 10 milhões de judeus, os quais chegaram a prosperar em cidades romanas situadas centenas de quilômetros da Palestina. Longe da terra de origem, essas comunidades judaicas mantiveram o hábito de se reunirem através das suas respectivas sinagogas, preservando suas tradições e costumes.

Quando Paulo chegava a uma nova cidade, primeiramente ele visitava a sinagoga onde seus irmãos judeus se reuniam. Com seu profundo conhecimento sobre a Torá e as Escrituras hebraicas, Paulo buscava persuadir os ouvintes a respeito do messiado de Jesus. Uns criam e outros não. Porém, quando sua pregação era definitivamente rejeitada pela comunidade judaica local, aquele corajoso rabino voltava o seu discurso para a conversão dos gentios, o que não raras vezes despertava a inveja e os ciúmes de seus compatriotas.

Em sua segunda viagem missionária, Paulo estava percorrendo as cidades da Macedônia e já sofria as perseguições promovidas pelos seus irmãos judeus que se recusavam a aceitar Cristo. A ousadia por ele demonstrada ao pregar o Evangelho era marcante, cheia do poder e da sabedoria de Deus, e incomodava a muitos que, certamente, não se conformavam em “perder” influência sobre seus seguidores, o que não é muito diferente do que ocorre hoje em dia no meio cristão disputado pelas instituições religiosas.

De acordo com os versos 13 e 14 do capítulo 17 do Livro de Atos, devido à situação exposta acima, Paulo não pôde permanecer mais tempo na cidade de Bereia para consolidar a obra evangelística que Deus havia iniciado por intermédio de sua pregação. Precisando sair às pressas do local, Paulo deixou ali seus colaboradores, Timóteo e Silas, e navegou pelo mar em direção ao sul, indo então da Macedônia para a Grécia.


Desembarcando em Atenas, Paulo ficou sozinho por uns tempos nesta importante cidade grega, enquanto aguardava em breve encontrar novamente os seus companheiros missionários para dar continuidade à obra de Deus.

Ora, Atenas foi a mais importante cidade grega da Antiguidade, berço da filosofia clássica, do conhecimento científico e da cultura ocidental. Uns quinhentos anos antes de Cristo, surgiram ali grandes filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, os quais tornaram-se influentes pensadores da humanidade, cujas ideias até hoje são estudadas nas nossas faculdades modernas e se acham presentes nos diversos ramos das ciências. E, mesmo na época da dominação romana, no século I da era cristã, os gregos impuseram-se perante os demais povos através de sua influente cultura. Tanto é que os livros do cânon do Novo Testamento bíblico foram escritos num dos idiomas gregos utilizados naquela época – o koine.

Todavia, embora fossem homens cultos, os atenienses não conheciam o Deus verdadeiro, pois se prostravam diante de imagens de escultura fabricadas pelas mãos humanas, acreditando cegamente na existência de falsos deuses inventados pela fértil imaginação de seus ancestrais.

Pode-se dizer que Paulo estava bem no centro da civilização clássica da Antiguidade. Aparentemente sozinho pela ausência de seus companheiros, mas com Deus, ele se encontrava na milenar Atenas, cidade cujo nome era uma homenagem dos gregos à deusa Atena, considerada por eles como a deusa da sabedoria.

O livro de Atos conta que Paulo, ao deparar-se com a idolatria reinante naquela cidade, indignou-se em seu espírito e começou a pregar na sinagoga judaica aos sábados e também anunciava o Evangelho todos os dias na praça de Atenas.

No entanto, as pregações de Paulo não foram aceitas por todos naquela cidade. Filósofos que seguiam duas correntes de pensamento, os epicuristas e os estoicistas, contendiam com o apóstolo ao invés de abrirem seu corações para a Verdade.

Não quero aqui me aprofundar muito sobre as correntes de pensamento filosófico da Grécia antiga. Porém, como o livro de Atos faz menção aos epicureus e aos estoicos, considero relevante para melhor entendermos a situação contextual ao menos definir quem eram tais grupos de pensadores e no que eles acreditavam.

Segundo a História, Epicuro teria vivido entre os anos de 341 a 270 a.C. e desenvolveu ideias pregadas por Aristipo, o qual, por sua vez, fora discípulo de Sócrates e dizia que o prazer seria o bem supremo da vida. Assim, para os epicureus a razão de viver do homem seria a busca do prazer que era alcançado através da ponderação e do autocontrole sobre os desejos humanos a fim de se alcançar o “prazer supremo”.

Dentro da perspectiva terrena que tinha quanto à vida, Epicuro considerava que, após morrer, o homem simplesmente deixaria de existir, de modo que para os epicureus só interessava saber viver o momento.

Quanto, porém, ao estoicismo, tratava-se de uma outra escola filosófica ateniense que também surgiu por volta do ano 300 a.C., fundada por Zenão de Cítio. Seus seguidores negavam a oposição entre o espírito e o corpo (para eles só haveria matéria) e acreditavam que a morte seria um acontecimento da natureza em que, devido a isto, caberia ao homem aceitar o destino que lhe estava reservado.

Deste modo, os estoicistas entendiam que viver conforme as determinações da natureza seria “agir dentro da razão”. E, na época de Paulo, estes pensadores eram acentuadamente religiosos, tendo se tornado praticantes de um moralismo hipócrita e adorando falsos deuses, sendo que, curiosamente, a maioria dos seus líderes, como Zenão e Sêneca, cometeram suicídio.

Mas, afinal, o que é que esses filósofos atenienses deveriam pensar a respeito das pregações que Paulo fazia todos os dias na praça da cidade?

Em Atos 17:18, o autor relata fielmente as impressões que certas pessoas em Atenas pensavam sobre Paulo, para as quais Jesus parecia ser mais um deus estranho enquanto que a ideia da ressurreição não passaria de uma loucura. Isto porque, como já foi dito, para os epicureus aceitarem a ressurreição seria negar a inexistência do homem após a morte enquanto que para os estoicos uma fé dessas só poderia significar a recusa do homem em aceitar o seu destino natural, negando sua condição de matéria.


Foi neste ambiente, onde ao mesmo tempo havia muito conhecimento quanto às coisas terrenas e uma enorme ignorância em relação aos assuntos espirituais, que o rabino Saul de Tarso fez o seu discurso no Areópago ateniense.

O Areópago era um templo a céu aberto situado na parte alta da cidade, cujo significado é “Colina dos Ares” Era um local dedicado ao deus da guerra grego, onde a sociedade ateniense costumava se reunir para fins políticos, judiciais, culturais, religiosos ou filosóficos. Sua localização ficava numa colina próxima à acrópolis (a parte alta da cidade de Atenas) e, historicamente, foi o palco de grandes julgamentos e de decisões políticas que marcaram o mundo dos gregos na Antiguidade clássica.

Segundo o texto bíblico, as pregações de Paulo pareciam ter se tornado uma novidade naquela cidade de homens cultos e cheios de conhecimento. As pessoas queriam tirar suas conclusões a respeito daquele forasteiro considerado como um “tagarela” e que anunciava “estranhas” novidades.

Com grande sensibilidade, Paulo procurou direcionar sua pregação para o público que havia se reunido a fim de julgar o seu discurso, sabendo o apóstolo que se tratavam de ouvintes sem a concepção de um único e verdadeiro Deus, embora fossem extremamente religiosos.

Sabiamente, Paulo fez uma referência a um altar dedicado ao “Deus Desconhecido” encontrado no meio de tantos outros altares erigidos para os deuses daquela cultura politeísta. Em seguida, revelou que esse Deus, o qual os moradores de Antenas verdadeiramente desconheciam, jamais precisaria de um santuário construído pelo homem e tão pouco de qualquer coisa que lhe pudesse ser oferecida. Prosseguiu explicando que esse Deus desconhecido é espiritual e não matéria, de modo que ninguém poderia encontrá-lo pelo tato, embora sua presença não esteja tão distante do homem.

Confirmando o papel de Deus como Criador não só do mundo, mas também do homem, Paulo fez menção ao verso de um poeta helenista muito conhecido pelos atenienses, a fim de enfatizar que os homens foram gerados por este Deus desconhecido.

Deste modo, pode-se dizer que, nos versos 22 a 29 do capítulo 17 de Atos, Paulo procurou estabelecer os princípios de sua pregação a partir da concepção de seu público para lhes transmitir a ideia do verdadeiro Deus a fim de que, quando apresentasse Jesus, os ouvintes não pensassem que se trataria de mais um deus para eles adorarem.

Assim, tendo então mostrado quem é o único e verdadeiro Deus, Paulo tentou direcionar a sua mensagem para a pessoa de Jesus, enfocando qual seria o propósito para o atual momento da manifestação da graça Daquele que criou todas as coisas, falando, finalmente, a respeito da ressurreição de Cristo (At 17:30-31).

Observa-se que Paulo utilizou a abordagem correta destinada ao público para o qual pregou. Ali ele não citou nada a respeito da História dos judeus, conforme costumava fazer nas sinagogas, visto que nenhuma relevância haveria para evangelização dos gregos se Paulo houvesse falado quem foi Abraão, Moisés ou Davi. E também não faria sentido informar detalhes sobre a vida de Jesus e o seu ministério na Palestina, pois se tratavam de acontecimentos desconhecidos para aquelas pessoas que pouco devem ter ouvido falar de fatos que aconteceram há aproximadamente duas décadas num lugar distante em torno de 1000 quilômetros da Grécia com o qual jamais tiveram alguma identidade.

Para que aqueles homens fossem salvos, bastaria que cressem na existência desse único e verdadeiro Deus, arrependessem dos pecados, aceitassem a salvação através de um homem chamado Jesus que veio ao mundo morrer pela humanidade e que ressuscitou. Para isto, seria suficiente que aqueles ouvintes entendessem que Jesus é o homem destinado por Deus para julgar o mundo com justiça e que para a confirmação de tal propósito este Deus o ressuscitou dentre os mortos.

Lamentavelmente, a maioria dos homens e mulheres que estavam presentes no Areópago ateniense jogaram fora a chance de aceitarem a salvação oferecida por Deus naquele dia. Tal como muitos intelectuais das universidades nos dias atuais, os sábios de Atenas deixaram obscurecer seus entendimentos pelas suas próprias convicções filosóficas, passando a ridicularizar Paulo por causa da ressurreição. O excesso de crítica fez com que eles se tornassem soberbos e deixassem de refletir. E, apesar de suas filosofias e do conhecimento científico que armazenavam, eles anularam a si mesmos quando resolveram interromper a pregação de Paulo, deixando de conhecer o Deus verdadeiro, o qual só pode ser encontrado pelo homem através da fé em Jesus Cristo porque com os nossos cinco sentidos jamais o encontramos.

Percebendo que a motivação daqueles homens era zombar da mensagem de Deus ao invés de ouvi-la, Paulo retirou-se dali. Porém, o livro de Atos que alguns homens agregaram-se ao apóstolo, dentre os quais estava um juiz chamado Dionísio e uma mulher com o nome de Damaris, sobre a qual muito pouco se sabe.

Apesar de poucas pessoas terem se reunido a Paulo, acredita-se que houve salvação nesta primeira visita do nosso irmão a Atenas, o qual prosseguiu dali para outra cidade grega chamada Corinto, onde então foi fundada uma grandiosa igreja, destinatária de algumas epístolas de autoria do apóstolos, das quais foram preservadas somente duas.

Ora, sempre que leio sobre o discurso de Paulo em Atenas, várias indagações surgem em minha mente. Inicialmente questiono por que o autor de Atos registrou um evangelismo aparentemente mal sucedido? E também passa pela minha cabeça se Paulo teria em algum momento falhado na sua pregação?

Sobre a primeira pergunta, entendo que assim como a Bíblia não esconde as falhas humanas de caráter e nem as provações, também não oculta o fracasso. No ministério de Jesus em Nazaré, os Evangelhos informam que poucos milagres o Senhor realizou na cidade onde fora criado por causa da incredulidade das pessoas de lá. E, como bem sabemos, Jesus não errou, tendo sido perfeito em todas as suas realizações.

Atualmente consigo extrair ensinamentos do evangelismo de Paulo em Atenas, hoje considerado por mim como um empreendimento espiritual muito bem sucedido apesar do pequeno número de pessoas convertidas.

Jesus mandou que seus discípulos fossem ao mundo e pregassem o Evangelho a toda criatura. Quem cresse e fosse batizado seria salvo, mas quem rejeitasse as boas novas seria condenado.

Pois bem. No próprio livro de Atos, quando Paulo já se encontrava preso e sua pregação fora rejeitada pelos judeus de Jerusalém, o próprio Senhor Jesus havia aparecido para Paulo encorajando-o com estas palavras “Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma” (Atos 23:11)

Mesmo sem os saduceus e fariseus do sinédrio judaico terem recusado a se converter (e ainda tramavam matar Paulo), Jesus demonstrou contentamento com o ministério de seu apóstolo.

Igualmente percebo que, na cidade de Atenas, Paulo cumpriu a sua missão, pregando o Evangelho para aqueles ouvintes de coração endurecido, embora fossem homens de grande cultura. Pois, mesmo que a maioria dos atenienses tivesse rejeitado Jesus por causa da loucura da ressurreição, a salvação já estava anunciada.

Da mesma maneira, penso que este deve ser o nosso papel. Devemos anunciar o Evangelho com todos os recursos que Deus nos dá, sejam armas espirituais, talentos pessoais, conhecimento científico, discurso eloquente e criando pontos e identificação com o ouvinte. Por sua vez, uma vez ganhando almas para Cristo, devemos nos preocupar com o discipulado dos novos convertidos, ensinando-lhes a doutrina cristã com sinceridade. Porém, devemos nos tranquilizar quando entregamos a Palavra de Deus aos corações, sabendo que não somos responsáveis pelas decisões tomadas pelas pessoas de modo que podemos descansar confortavelmente nos braços do Senhor, nas mãos de quem encontra-se o futuro de todos os homens.


OBS: As fotos que estou utilizando para ilustrar o artigo referem-se à viagem que minha mãe, Sra. Myrian Phanardzis, fez nos meados da primeira década do século (salvo engano em agosto de 2004) ao visitar nossos parentes na Grécia, em especial minha tia avó que vive em Atenas e sabe falar o idioma português. Esta atualização meramente ilustrativa estou complementando nesta data de 23/02/2011.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Aspectos interessantes sobre o julgamento de Paulo


O livro de Atos dos Apóstolos, o quinto do Novo Testamento da Bíblia e considerado também uma continuação do Evangelho segundo Lucas, contém preciosas informações não apenas de interesse teológico, despertando a atenção de historiadores e até mesmo de estudiosos do Direito. A empolgante narrativa de 28 capítulos começa na região de Jerusalém, com uma breve conversa entre Jesus e os apóstolos, alguns instantes antes de sua ascensão aos céus, e termina na cidade de Roma, com o apóstolo Paulo cumprindo a sua prisão domiciliar numa casa por ele alugada enquanto aguardava em custódia o julgamento de seu caso pelo imperador romano.

O apóstolo Paulo, sem dúvida, deu uma grande contribuição à expansão da fé cristã no século I da era comum. Depois de ter sido um implacável perseguidor da Igreja, Paulo converteu-se ao cristianismo e começou a pregar o Evangelho por diversas regiões da parte oriental do Mar Mediterrâneo, empreendendo três viagens missionárias que incluíram territórios atuais de Síria, Chipre, Turquia e Grécia.

Contudo, o ex-perseguidor da Igreja tornou-se perseguido. Em muitas das cidades nas quais Paulo exerceu o seu ministério apostólico, ele veio a sofrer uma forte oposição tanto de judeus quanto de pagãos, vindo a ser injustamente preso e violentado sem que houvesse qualquer condenação criminal contra ele. Na cidade macedônica de Filipos, Paulo chegou a demonstrar um razoável conhecimento a respeito dos direitos que tinha como cidadão romano quando as autoridades locais mandaram libertá-lo de sua prisão ilegal.

É importante lembrar que, nos tempos de Paulo, nem todos eram iguais perante as leis de Roma. Uns eram escravos e eram tratados como mercadorias. Outros eram meros estrangeiros para os romanos, embora vivessem dentro da circunscrição do império pagando os seus pesados impostos. E existiam ainda aqueles que, por motivo de nascimento, ou de aquisição mediante algum pagamento ao governo, tornavam-se cidadãos romanos e que, portanto, passavam a ter alguns direitos naquela sociedade. Pois Roma era a cidade que governava o mundo no século I e, deste modo, quem tivesse a cidadania romana teria direitos protegidos pelas leis, entre os quais o de receber um julgamento justo, caso fosse feita alguma acusação.

Sendo assim, mesmo naquela época, uma autoridade não poderia jamais prender uma pessoa que fosse cidadão romano sem que houvesse um justo motivo. E muito menos castigar com açoites, dando um tratamento desumano, conforme tinha ocorrido com Paulo e Silas na cidade de Filipos. Logo, Paulo teve que ser libertado e ainda recebeu desculpas das autoridades locais pelo ocorrido.

Contudo, após concluir a sua terceira viagem missionária e retornar mais uma vez para Jerusalém, Paulo veio a enfrentar um processo criminal, o que desperta até hoje o interesse de muitos pesquisadores.

Nesta ocasião, o ministério apostólico de Paulo já tinha muitos colaboradores. Lucas diz que, desta vez, quando o apóstolo retornou a Jerusalém, acompanharam-no vários discípulos oriundos de lugares anteriormente evangelizados na primeira e na segunda missão evangelística.

Ao chegar na cidade, Paulo é orientado por Tiago a submeter-se aos costumes dos judeus para evitar conflitos, pois alguns de seus compatriotas tinham espalhado boatos de que o apóstolo estaria negando a Moisés e ensinando os judeus a não circuncidarem mais os seus filhos.

Entretanto, a atitude praticada por Paulo, no sentido de externar aos judeus a observância das tradições de seu povo, não foi capaz de evitar a sua prisão. E, justamente quando ele se encontrava no templo judaico, o apóstolo veio a ser repentinamente acusado por alguns de seus compatriotas por ter “profanado” aquele local introduzindo gentios ali, pelo que passaram a espancá-lo e toda cidade ficou tumultuada, de modo que o comandante as forças romanas em Jerusalém precisou intervir para fazer cessar a confusão. Paulo, então, escapou do linchamento, mas ficou detido.

Pouco depois de sua prisão, Cláudio Lísias, o comandante da fortaleza de Jerusalém, tomou a providência de enviar Paulo para o governador da província da Judeia, na cidade de Cesareia, a fim de zelar pela segurança do apóstolo por ser ele um cidadão romano, sendo que Lucas, em sua narrativa, chega a transcrever o teor da correspondência que comunicava a sua transferência:

“Cláudio Lísias ao excelentíssimo governador Félix, saúde. Este homem foi preso pelos judeus e estava prestes a ser morto por eles, quando eu, sobrevindo com a guarda, o livrei, por saber que ele era romano. Querendo certificar-me do motivo por que o acusavam, fi-lo descer ao Sinédrio deles; verifiquei ser ele acusado de coisas referentes à lei que os rege, nada, porém, que justificasse morte ou mesmo prisão. Sendo eu informado de que ia haver uma cilada contra o homem, tratei de enviá-lo a ti, sem demora, intimando também os acusadores a irem dizer, na tua presença, o que há contra ele.” (ver Atos 23:26-30)

Nos primeiros momentos, a sua prisão havia ocorrido por causa de um tumulto na cidade de Jerusalém. Porém, ao chegar em Cesareia, Paulo passou a ser efetivamente processado pelo sumo sacerdote judeu que pretendia matá-lo como havia sido feito anteriormente com Jesus e com Estevão.

Nesta época, a sede do governo romano na região da Judeia não estava mais situado em Jerusalém e sim em Cesareia. Contudo, o Sinédrio ainda se reunia em Jerusalém onde também havia um comando das forças romanas e, ao que parece, seria uma unidade subordinada ao governador daquela província romana.

Para o comandante das forças romanas em Jerusalém seria mais tranquilo livrar-se de Paulo, mandando-o para junto do governador numa outra cidade, do que suportar toda aquela pressão dos judeus querendo assassinar um prisioneiro que portava a cobiçada cidadania romana.

Mais uma vez, tal como no incidente de Filipos, Paulo havia prevalecido de sua cidadania romana, a qual iria lhe assegurar o direito a um julgamento justo, conforme as leis da época. Pois se Paulo fosse apenas um judeu, provavelmente teria sofrido injustos açoites e teria sido entregue nas mãos dos seus compatriotas para ser julgado e condenado pelo Sinédrio por se tratar de uma questão meramente religiosa. E, caso viesse a ser linchado publicamente como foi Estevão, as autoridades romanas nem teriam com o que se preocupar, se não fosse ele um cidadão romano.

Ao ser conduzido preventivamente preso para a cidade de Cesareia, Paulo ficou distante do foco de tensão, de modo que o seu julgamento ali receberia menos pressões por parte dos judeus do que se fosse realizada uma audiência em Jerusalém.

Interessante perceber que todos esses acontecimentos no final colaboraram que Paulo fosse mais tarde dar prosseguimento ao seu apostolado na cidade de Roma, conforme se verá. Porém, Paulo precisou permanecer por pelo menos dois anos preso em custódia na cidade de Cesareia sob os cuidados do governador da Judeia devido à queixa apresentada pelos judeus, cinco dias depois de ter sido transferido de Jerusalém. Isto porque uma vez sendo formalizada a acusação, foi instaurado um verdadeiro processo criminal dentro dos moldes a época, segundo as leis romanas.

Embora na época não existisse ainda a separação entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, como existe nos dias de hoje, já era proibido uma autoridade condenar um cidadão romano a cumprir qualquer tipo de pena arbitrariamente. Pois, para que alguém fosse morto ou condenado a trabalhos forçados, seria preciso passar por um processo criminal com direito à defesa e à produção de provas, co que se encontra registrado por Lucas em Atos:

“A eles respondi que não é costume dos romanos condenar quem quer que seja, sem que o acusado tenha presentes os seus acusadores e possa defender-se da acusação” (Atos 25:16).

Tal como ocorre nos dias de hoje numa CPI do Congresso Nacional, o então governador da Judeia, Marco Antônio Félix, procurou tirar vantagens políticas e pessoais a respeito do caso Paulo.

Lucas conta que Félix ficou protelando o andamento do processo de Paulo e, com frequência, mandava chamá-lo alimentando a vã expectativa de arrumar alguma propina (Atos 24:26).

Agindo com ousadia, Paulo certa vez chegou a pregar sobre Jesus para Félix e sua jovem esposa Drusila, filha do rei Herodes Agripa. Porém, o governador apenas sentiu-se amedrontado e se recusou a abraçar a fé, tendo mantido contatos com Paulo pelo período de dois anos, deixando-o encarcerado em custódia a fim de agradar os judeus e, talvez, aumentar sua influência política sobre a região.

Segundo a História, Félix tinha um casamento considerado adúltero com Drusila, sob o ponto de vista judaico-cristão, pois ela havia sido casada com Azis de Emesa e, portanto, jamais poderia contrair novas núpcias enquanto vivesse o seu marido. Porém, como ela era filha de Herodes Agripa, a afinidade com aquela influente família da Palestina poderia dar mais poderes a Félix na região.

Ao fim de dois anos depois, Félix foi substituído por Pórcio Festo em seu cargo. O novo governador, na certa desejando conquistar o apoio político dos judeus na região, planejou então realizar logo o julgamento de Paulo em Jerusalém e para isto convocou uma audiência em Cesareia para decidir sobre a questão.

Sabiamente, Paulo utilizou-se de um recurso previsto nas leis romanas – o apelo para César. Isto porque, naquela época, as leis garantiam a um cidadão romano o direito de requerer uma audiência com o imperador, caso entendesse estar sofrendo injustiças no seu processo.

Ao fazer uso desse instrumento jurídico (o apelo para César), Paulo estaria ganhando a sua passagem de ida para Roma, o que, em breve, iria lhe acontecer. Porém, antes disto, Paulo ainda iria prestou um depoimento perante o rei Agripa e à sua irmã Berenice, os quais vieram visitar Festo em Cesareia naqueles dias.

Assim, aproveitando a presença do rei Agripa na cidade, Festo resolve lhe expor o caso de Paulo pedindo-lhe uma orientação, pelo que o governador convocou uma nova audiência a fim de ser colhido mais um depoimento pessoal do apóstolo.

Embora a jurisdição de Festo tivesse sido esvaziada com o apelo de Paulo, o governador ainda pretendia obter o posicionamento do rei Agripa a fim de poder justificar qual seria o motivo das acusações que pesavam contra o apóstolo e que teriam dado ensejo à sua injusta prisão e à manutenção daquela absurda custódia.

Festo acreditava que Agripa, por ser judeu, poderia ajudá-lo na compreensão daquele difícil caso para o qual ele não conseguia encontrar uma justificativa já que Paulo não cometera nenhum crime que contrariasse as leis romanas e tão pouco teria profanado a religião judaica.

Pela lógica do sistema romano, Paulo jamais deveria ter ficado preso! Desde o momento em que foi agredido, em Jerusalém, cabia às autoridades romanas tê-lo protegido dos judeus que tentavam matá-lo, sem restringir-lhe a liberdade. Contudo, essas autoridades desejavam satisfazer às multidões conquistando o apoio político dos líderes judeus e, como não encontraram permissão das próprias leis para permitirem o linchamento de um cidadão romano em praça pública, ficaram todos embaraçados para decidir.

Ora, se dois anos antes Félix recebeu Paulo em Cesareia mantendo-o em custódia por todo este período, longe de Jerusalém, logo precisaria haver um justo motivo que justificasse esta providência excepcional. E, uma vez que outra autoridade assumiu o caso, cabia ao novo governador da Judeia (Festo) julgar Paulo, uma vez que ele havia resolvido levar o caso para Jerusalém a fim de dar andamento ao processo e lá proferir a sentença. Só que, com o apelo de Paulo ao imperador, Festo precisava escrever algo a respeito de seu prisioneiro e, como não tinha o que dizer para justificar aquela prisão, aproveitou a presença de Agripa em Cesareia para lhe apresentar o caso confiando na possibilidade do rei identificar alguma conduta desabonadora capaz de justificar a restrição de liberdade praticada.

Ousadamente Paulo aproveita aquela nova audiência perante Festo para pregar o Evangelho perante o próprio governador, Agripa, sua irmã Berenice e várias outras pessoas presentes, demonstrando pouca preocupação com o que poderia ser decidido a seu respeito.

Interessante que Paulo poderia muito bem ter reclamado das injustiças cometidas em seu processo, mas preferiu pregar sobre Jesus para esse público de autoridades corruptas e injustas, fazendo com que toda aquela situação se tornasse mais uma oportunidade para falar a respeito do Evangelho.

Em Atos 26:1-23, Lucas reproduz o discurso de Paulo até ser interrompido pelo governador no versículo 24, sendo que a defesa de Paulo perante o rei Agripa representa um emocionante testemunho sobre a sua vida. Paulo não escondeu o seu passado perverso como perseguidor da Igreja e de, ex-seguidor da seita dos fariseus. Mencionou sua conversão quando ia prender cristãos na cidade de Damasco. Falou sobre a missão evangelística que recebeu e quanto ao trabalho eclesiástico que desempenhou durante seus últimos anos.

Além de Paulo ter informado ao rei sobre o seu passado e sua vocação apostólica, Paulo também contextualizou o seu julgamento dentro de uma visão religiosa, “por causa da esperança da promessa que por Deus foi feita” (At 26:6-7), explicando que o motivo pelo qual chegou a ser preso foi tendo sido o fato de ele anunciar o arrependimento e a conversão (Atos 26:20-21).

Curioso que mesmo sendo interrompido pelo governador (Atos 26:24), Paulo conseguiu completar a sua mensagem abordando os principais aspectos da evangelização cristã: o sacrifício de Jesus, a necessidade de arrependimento e de conversão a Deus, bem como a ressurreição dos mortos. Ao prestar um depoimento sobre a sua vida, Paulo foi capaz de reunir na sua mensagem todos os pontos essenciais de uma pregação, agindo com ousadia e liberdade diante de reis e das autoridades da época, ainda que estivesse aparentemente algemado.

Segundo a narrativa de Lucas em Atos, verifica-se que o governador Festo resolveu interromper a pregação de Paulo chamando-o de louco. E, quanto ao rei Agripa, mesmo conhecendo as Escrituras e o que diziam os profetas a respeito de Cristo, preferiu afirmar que “por pouco” teria se tornado um cristão.

De acordo com a História, havia rumores na época de que Agripa vivia uma relação incestuosa com sua irmã Berenice, a qual foi mais tarde amante do imperador Tito. O seu apego ao poder político e a um estilo de vida fora dos padrões judaico-cristãos podem ter se tornado um impedimento para que se convertesse ao cristianismo. Contudo, ao se retirarem do local da audiência e se reunindo separadamente, Festo e Agripa concordaram entre si que Paulo nada havia praticado que merecesse a morte ou a prisão (Atos 26:31).

Dando uma solução para o caso de Paulo, Agripa resolve proferir o seu parecer pela absolvição do apóstolo, justificando a permanência da sua custódia apenas pelo fato do recurso interposto à César (Atos 26:32), como se o uso deste instrumento processual de defesa tivesse sido desnecessário.

Assim, reconhecendo a inocência de Paulo, as autoridades romanas da região da Judeia estavam se justificando formalmente diante do imperador, no sentido de que Paulo era realmente inocente e só estava sendo enviado para Roma porque recorreu para César ao invés de ter aceitado o julgamento ali na Palestina.

Deste modo, Paulo seguiu para Roma com um parecer em favor de sua inocência, o que só contribuiu para a sua absolvição, o que de fato, veio a ocorrer, segundo sabemos pela História da Igreja, visto que a decisão do imperador não consta registrada na Bíblia.

Importante esclarecer que a decapitação de Paulo, ocorrida anos depois, em nada tinha a ver com os acontecimentos relacionados à sua prisão descrita em Atos dos Apóstolos.

Ao deixar Cesareia em um navio, Paulo ainda permaneceu em custódia e continuou neste estado ainda por mais dois anos em Roma (Atos 28:30).

Outra observação relevante é que que até então não tinha se levantado nenhuma perseguição declarada do Império Romano contra a Igreja, pois os fatos descritos no Livro de Atos dos Apóstolos diziam respeito à intolerância de integrantes do judaísmo e a incidentes ocorridos em algumas cidades com os gentios como em Filipos (Atos 16:16-24) e também em Éfeso (Atos 19:23-41).

Para a época em que foi escrito, Atos dos Apóstolos, ao mesmo tempo, alcançou o objetivo de manter registrada a história inicial da Igreja e, principalmente, encorajar os demais cristãos que tão logo seriam massacrados por Nero, o qual, dentro de um contexto diferente das passagens narradas por Lucas, mataria Paulo e também a outros discípulos contemporâneos a Jesus.

Não demorou muito, Jerusalém veio a ser destruída pelas tropas de Tito durante o governo de seu pai, o general Verpasiano, sucessor de Nero. O templo judaico, tal como fora profetizado por Jesus no Evangelho de Mateus, foi verdadeiramente devastado pelas tropas romanas, restando apenas pedras e ruínas.

Por tais motivos, pode-se dizer que a maioria dos livros do Novo Testamento, entre os quais Atos e os três primeiros Evangelhos, foram escritos justamente antes da grande perseguição que se levantou por Nero e da destruição de Jerusalém. Não só para que houvesse memória histórica dos acontecimentos sobre a formação da Igreja como também para encorajamento dos cristãos diante das perseguições futuras. E, sem dúvida, Lucas encontrou a melhor maneira para encerrar o seu segundo livro, mostrando Paulo cumprindo dando continuidade ao seu ministério apostólico na cidade de Roma (Atos 28:30-31).


OBS: A ilustração acima refere-se à pintura de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1600) sobre a conversão de Saulo de Tarso no caminho de Damasco.