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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

As plaquinhas envelheceram, a mensagem não

 


Coloquei este enfeite natalino na entrada de casa no ano passado. Já deve estar ali há uns dez meses.

Entrou o Ano-Novo, passou o Dia de Reis e desmontamos a árvore de Natal. As plaquinhas, porém, permaneceram.

Depois vieram o Carnaval, a Semana Santa, o feriado de Tiradentes, o Dia das Mães, Corpus Christi, a Copa do Mundo, o Dia dos Pais, a campanha eleitoral — que ainda nem terminou — e o Dia da Independência. E resolvi continuar deixando ali aqueles dizeres: “Um feliz Natal”, “Alegria” e “Amor”.

Afinal, o Aniversariante, Jesus, merece ser lembrado durante todo o ano, e não apenas na data em que convencionamos celebrar o seu nascimento.

Com o passar dos meses, aconteceu algo curioso. Os enfeites começaram a mostrar as marcas do tempo. Mesmo protegidos pela cobertura, enfrentaram umidade, chuva, sol e vento. As cores perderam um pouco do brilho e as palavras ficaram gastas.

Talvez exista aí uma metáfora.

Os ensinamentos de Jesus, a alegria e o amor também precisam resistir ao tempo e às intempéries da vida. Decidir conservar o espírito do Natal durante o ano inteiro é mais desafiador do que parece. Há dias em que as preocupações, o trabalho, os conflitos e os problemas acabam encobrindo aquilo que um dia nos entusiasmou. E nós mesmos, com o passar dos anos, também carregamos nossas marcas.

Foi então que me lembrei de Calebe.

Depois de atravessar décadas, ver uma geração inteira ficar para trás e chegar à Terra Prometida já com 85 anos, ele não pediu descanso. Pediu uma montanha. Recordou a promessa recebida muitos anos antes e afirmou que ainda tinha forças para enfrentar o desafio que permanecera diante dele.

Gosto muito dessa imagem.

Quando envelhecemos, existe o risco de olhar para os sonhos, ideais e missões abraçados na juventude como coisas pertencentes apenas ao passado. Mas há momentos em que o coração nos chama justamente para o contrário: reviver, recomeçar e tentar conquistar aquilo que, por alguma razão, não conseguimos realizar lá atrás.

Nestes dias, entre as tarefas do trabalho, a campanha eleitoral e tantos problemas cotidianos a resolver, quero recuperar um pouco daquele Natal que deixei pendurado na porta de casa. Recuperar sua alegria, sua esperança e, principalmente, a mensagem daquele Aniversariante que continua apontando para aquilo que o apóstolo Paulo chamou de “um caminho ainda mais excelente”: o amor.

As plaquinhas estão gastas. Talvez nós também estejamos um pouco.

Mas as palavras continuam ali.

Alegria. Amor.

Que também permaneçam em nós. Que não percamos a capacidade de nos alegrar, de cultivar aquilo que nos faz bem e de recomeçar, seja qual for a estação da vida.

Um ótimo final de semana a todas e todos.

domingo, 24 de março de 2024

Jesus chorou por Jerusalém



De acordo com o Terceiro Evangelho, quando Jesus de Nazaré teria se aproximado de Jerusalém, ele olhou para a cidade e chorou por ela (Lucas 19:41), prenunciando o sofrimento que aguardava os seus compatriotas décadas mais tarde. 


O evento narrado tem como cenário o Monte das Oliveiras, com o Segundo Templo judaico ao fundo, conforme muito bem retratado em 1892 pelo pintor espanhol Enrique Simonet Lombardo (1866–1927). 


Esse episódio relacionado ao Domingo de Ramos nos ensina a ter compaixão pela coletividade humana, mesmo assistindo as pessoas fazendo escolhas erradas. 


Atualmente, quando ainda vejo o mundo optando por guerras, poluindo o planeta e elegendo políticos fascistas da extrema direita, esse gesto de Jesus de certo modo vem nos ensinar algo. 


A Jerusalém antiga foi massacrada pelos romanos cerca de 40 anos depois da morte de Jesus, porém a sua mensagem de busca pelo caminho da paz foi pregada e ultrapassou muitas gerações, embora nem sempre compreendida. 


Nosso Mestre não teria em momento algum amaldiçoado a cidade ou proferido alguma palavra do tipo "que se danem". No entanto, ele chorou, compadecendo-se daquele cenário não muito diferente do tempo atual.


Ótimo final de Domingo, pessoal, e que tenhamos uma excelente Semana! 

domingo, 23 de outubro de 2011

Em busca da consciência messiânica

Em 1578, durante a batalha de Alcácer-Quibir, morreu o monarca português D. Sebastião, o Desejado, aos 24 anos de idade, sem deixar nenhum descendente para reinar em seu lugar. Para os portugueses, ele era o único sucessor legítimo da Dinastia de Avis e, com sua morte prematura, o trono passou para Felipe II da Espanha, pertencente à Casa de Habsburgo.

Mesmo com a remoção de seu corpo para a Belém portuguesa, muitos não se conformaram com a morte do rei e daí criou-se o mito de que D. Sebastião ainda estava vivo e que retornaria um dia para livrar o país do domínio estrangeiro, dando início a um messianismo lusitano - o sebastianismo. Alimentando a crendice popular de que o monarca ainda iria retornar da mansão dos mortos para governar Portugal, o sapateiro Trancoso Bandarra chegou a compor suas trovas "prevendo" tal acontecimento. Assim, o movimento foi se revestindo de um caráter místico e patriótico, durando séculos e alcançando até o discurso de Antônio Conselheiro, o líder da Revolta de Canudos, no final do século XIX, no sertão nordestino.

Esperar pela chegada de messias ou de salvadores da pátria tem sido o repetitivo comportamento da humanidade há milênios. Quando leio os três primeiros evangelhos da Bíblia cristã, percebo nas entrelinhas uma certa indignação de Jesus quanto às expectativas messiânicas em sua época.

De acordo com a tríplice tradição dos sinóticos, houve uma ocasião em que Jesus perguntou aos discípulos sobre o que o povo e eles pensavam a seu respeito. Durante o diálogo, alguns levantaram a possibilidade de que o Mestre fosse João Batista, outros responderam ser ele "algum dos profetas" e houve até mesmo quem afirmou que talvez se tratasse de Elias (segundo as Escrituras hebraicas, o profeta Elias não morreu e foi arrebatado por Deus semelhante a Enoque). Então, intrepidamente, Pedro declarou que Jesus era "o Cristo" (ver Marcos 8.27-30; conferir com Mt 16.13-16 e Lc 9.18-20).

Para a surpresa dos discípulos que, assim como a maioria dos judeus da época, aguardavam a vinda de um messias capaz de livrar a nação do domínio romano, Jesus lhes proibiu severamente que anunciassem ser ele o Cristo. E tal vedação encontra-se não somente em Marcos 8.30 como também se repete em Mateus 16.20 e Lucas 9.21.

Por que razão Jesus teria advertido os seus discípulos para que não falassem a ninguém que ele era o Messias esperado por Israel? Será que de fato ele não era o Cristo? Seu tempo de morrer passando pelo sacrifício da cruz ainda não tinha chegado? Ou aquilo foi por razões de modéstia?

Aprendi através da doutrina eclesiástica que esta proibição teria sido transitória até ocorrerem a morte e ressurreição do Senhor, ou ainda até o acontecimento do Pentecostes, porque depois, quando os discípulos receberam a comissão de anunciar as boas novas em todo o mundo, deveriam pregar abertamente ser Jesus o Cristo, o Filho do Deus bendito. Porém, a Bíblia jamais menciona expressamente qual foi o real propósito de Jesus nesta passagem da tríplice tradição evangélica. E aí surgem intérpretes afirmando que Jesus negou ser o Messias prometido pelos santos profetas quando proibiu seus seguidores de pregarem tal coisa ao povo.

Bem, o que melhor consigo extrair dessa citação em estudo é que Jesus, provavelmente, pretendia desconstruir o conceito de messianismo que paralisava os movimentos sociais em Israel e, ao mesmo tempo, provocava sangrentos radicalismos políticos através de revoltas populares de galileus como as do zelotes. Tanto é que, no discurso escatológico, os discípulos foram alertados sobre os falsos cristos que poderiam aparecer:

"Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos. Vede que vo-lo tenho predito. Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto!, não saiais. Ou: Ei-lo no interior da casa!, não acrediteis." (Mt 24.23-26; ARA)

De acordo com a história judaica, algumas décadas após o fim do segundo Templo, houve uma grande revolta liderada por Simão bar Kokhba, proclamado messias, dando ensejo a uma destruidora guerra dos israelitas contra os romanos na primeira metade da década de 30 do século II. Por conta daquele acontecimento catastrófico, os judeus vieram a ser expulsos de sua terra por praticamente dois mil anos. Após o massacre, o imperador Adriano proibiu que os judeus entrassem em Jerusalém e esta, ao ser reconstruída, tornou-se a Aelia Capitolina, tendo os romanos erguido sobre as ruínas do antigo Templo um lugar de adoração a Júpiter. E até ser criado o Estado de Israel, no século XX, a Terra Santa ainda seria ocupada pelos bizantinos, árabes, cruzados, turcos e britânicos.

Perigoso esse messianismo, não? Será que até hoje ainda não soubemos compreender a essência da mensagem messiânica dos velhos profetas da Bíblia? Mas, afinal, o que significam as palavras "Cristo" ou "Messias"?

Inicialmente, acho importante esclarecer que Khristós é o correspondente grego que os escritores do novo Testamento encontraram para o termo hebraico Mashiach, o que, por sua vez, significa "ungido". Isto porque, segundo a tradição bíblica, os antigos reis precisavam ser ungidos com óleo pelo sumo sacerdote israelita antes de governarem. E assim foi com Saul, Davi, Salomão e todos os outros monarcas da nação de Israel. Ou seja, cada um deles foi um messias até que chegou a invasão de Nabucodonosor e a deportação dos judeus para a Babilônia (século VI a.E.C.). A partir de então, nunca mais os judeus tiveram um outro rei ou messias porque passaram a viver debaixo dos seguintes impérios estrangeiros até os tempos de Jesus: caldeus. persas, gregos e romanos.

Sem dúvida que, após a bimilenar diáspora, o Estado de Israel continua ainda sem um monarca, tendo adotado a forma republicana de governo. E, atualmente, com uma expressiva população de ateus e judeus liberais, muitos israelitas chegam a rejeitar a ideia tradicional de messianismo de modo que há quem afirme ser o povo de Israel, ou o Estado de Israel, o próprio Messias.

Refletindo sobre a identificação do povo com a ideia messiânica, não desprezo o pensamento daqueles que desacreditam na vinda ou volta de qualquer Messias. Pois, se retornarmos aos tempos do profeta Samuel, veremos que este notável líder do povo judeu não se agradou da tola ideia de constituir um monarca sobre a nação. E, neste sentido, o texto bíblico fala claramente que o pedido de um rei significou a rejeição do povo ao próprio Deus (ver 1Sm 8.7; 10.17).

Diante dessas descobertas, cabe aqui a indagação por que os apóstolos de Jesus teriam começado a pregar ser ele o Messias? Pois, se por hipótese, considerarmos que o Mestre tivesse proibido os discípulos de anunciarem em qualquer momento ser ele o Cristo, houve então uma desobediência por parte daqueles primeiros seguidores?

Sem nenhum receio que me chamem de herege, compartilho o sentimento de que, admitindo-se tal hipótese (de ser Jesus um total demolidor da crença no messianismo), talvez os primeiros discípulos afirmaram que ele era o Cristo porque queriam justamente contestar a dependência de seus conterrâneos quanto à espera de um salvador da pátria. Possivelmente fosse o desejo de Jesus e dos apóstolos que a nação judaica despertasse para a realidade e começasse a liderar a si mesma, independentemente do bestial domínio de Roma ou de expectativas ilusórias. Assim, dizer que o carpinteiro de Nazaré era o Messias, sendo ele tão descendente do rei Davi como inúmeros outros em sua época, era o discurso ideal para que quaisquer pessoas comuns da sociedade, sobretudo os excluídos, pudessem se sentir confiantes para lutarem em prol daquilo que tanto marcou o discurso de Jesus - "a vinda do Reino de Deus". Logo, o objetivo inicial daqueles pregadores poderia ter sido o de despertar a consciência messiânica em cada um dos ouvintes.

Cada vez mais tem ficado claro pra mim que o comportamento simples de Jesus não se restringia à simples modéstia, mas tinha por objetivo ensinar ao seu público uma nova maneira de lidar com a realidade em todos os seus aspectos. Para tanto, os seus seguidores precisavam se libertar da passividade que paralisa os liderados e se tornarem militantes ativos do Reino, de modo que os discípulos foram incentivados a fazerem obras ainda maiores do que aquelas realizadas pelo Mestre (Jo 14.12). Assim, para que um novo mundo pudesse começar a ser desenhado, seria necessário estabelecer um princípio basilar de igualitarismo incompatível com as religiões e os regimes políticos autoritários em que as instituições manipulam as massas através da exaltação de algumas personalidades tidas como "privilegiadas".

É curioso que até os dias atuais ainda seja cultivado um messianismo dominador nos meios políticos e eclesiásticos. Nas eleições costuma-se dizer que o candidato fulano de tal "é o cara", atribuindo títulos indevidos a esses sujeitos enganadores a exemplo do slogan "caçador de marajás" usado por Collor de Mello em 1989. Ou ainda em várias igrejas em que os seus frequentadores são ensinados a obedecer cegamente o líder pastoral porque se trata do "ungido do Senhor". E isto sem falar nos papas católicos tidos como "representantes de Cristo na Terra" e "sucessores do trono de Pedro".

Chegou a hora de acabarmos com essas infantilizações e crescermos. Precisamos somente aceitar que Deus reina e cada um assumir o seu papel messiânico na coletividade quanto à construção de uma nova realidade planetária. E para que este governo divino e sem aparência humana seja concretamente estabelecido, primeiro devemos nos transformar interiormente. Aí, praticando uma reciclagem existencial e permitindo que o ego seja substituído pela consciência crística ou superior, tal como fez Jesus no seu aperfeiçoamento, partiremos então unidos para uma missão capaz de abalar os fundamentos desse sistema "babilônico" corrupto.

Que venha o Reino do Eterno! E que sejamos nós os construtores dessa era de justiça e de paz, precavidos de que, se alguém tentar se passar por falso profeta ou pseudo messias, mesmo vindo em nome de Jesus, não devemos lhe dar crédito. Afinal, como diz um interessante ditado zen, "se encontrar o Buda, mata-o" porque não é o Buda.


OBS: A primeira ilustração acima trata-se da obra Recommandation aux apôtres (Recomendação aos apóstolos) do pintor francês Joseph Jacques Tissot (1836–1902). O quadro foi feito entre 1886 e 1894, encontrando-se hoje no Museu do Brooklyn. Já a segunda ilustração trata-se de um retrato de D. Sebastião de Portugal pintado por Cristóvão de Morais em 1571. Quanto à terceira imagem, cuida-se de um dos frescos que se encontra numa velha sinagoga em Dura Europos, Síria, e que mostra o profeta Samuel ungindo Davi como rei sobre Israel.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Como era o Jesus que nunca conhecemos?

"Pelo mar foi teu caminho, e tuas veredas pelas grandes águas; e as tuas pegadas não se conheceram" (Salmo 77.19; ARC)

Um dos livros que eu mais gosto é o "The Jesus I Never Knew" ("O Jesus que eu nunca conheci"), do autor estadunidense Philip Yancey, publicado no Brasil pela Editora Vida.

Usando o espírito investigativo de um escritor jornalista, Yancey percorre os passos de Jesus descritos nos Evangelhos, desde o seu nascimento até a cruz, e comenta sobre a imagem passada a respeito deste intrigante personagem bíblico a partir dos quadros e filmes.

“O Jesus que cheguei a conhecer ao escrever este livro é muito diferente do Jesus sobre o qual aprendi na escola dominical. Em alguns aspectos, é mais confortante; em outros, mais aterrador”, afirma o autor. Assim, Yancey vem nos apresentar uma perspectiva nova e diferenciada da vida e da obra de Cristo, enfrentando esta forte indagação: Quem ele era e a que veio?

O texto do livro nem sempre é fácil de ser compreendido por qualquer leitor. Yancey não me parece um autor tão conclusivo, mas suas questões, às vezes paradoxais e que refletem as dúvidas de muita gente, desafia-nos a pensar e também repensar a moldura religiosa ainda congelada em nossas mentes a respeito de quem foi esse Jesus que não pudemos conhecer fisicamente aqui neste planeta.

Sem dúvida que a vida de Jesus é bem desconhecida. Há pessoas que chegam a duvidar de sua existência histórica, argumentando que as únicas fontes que falam a seu respeito seriam de origem cristã. Contudo, mesmo ateus, judeus, budistas, islâmicos e gente de outras religiões fora do cristianismo interessam-se por este polêmico personagem dos Evangelhos. Autores escrevem as mais surpreendentes teses relacionadas a Jesus, inclusive de que ele tivesse andado pela Índia antes de iniciar o seu ministério como pregador itinerante por volta dos 30 anos de idade.

Neste ano, comecei a ler um outro livro, "Onde a Religião Termina?", do ex-frei católico Marcelo da Luz. Um dos motivos que me levou a adquirir a obra foi pelo meu interesse de pesquisa pessoal sobre o Jesus histórico. E acabei lendo-o desde o começo e, quando cheguei no capítulo 5, que fala especificamente sobre o que eu esperava encontrar, decepcionei-me com as afirmações do autor e acusações feitas por ele à obra de Jesus. Então resolvi entrar em contato por e-mail reclamando das coisas que constava num "'Tolicionário' cristológico", escrevendo-lhe estas palavras:


"Prezado Marcelo (...) penso que primeiramente não podemos tomar como autênticas rodas as citações atribuídas a Jesus nos evangelhos, principalmente no de João. Eu entendo que os evangelhos são verdadeiros quebra-cabeças onde realidade mistura-se com ficção e onde doutrinas da Igreja sobrepõem-se à história real de Yeshua, o judeu que viveu nas três primeiras décadas do século I. Pra mim não foram os apóstolos ou discípulos da primeira [geração] quem escreveram os evangelhos, os quais, provavelmente, surgiram no século II, sendo que até as informações acerca dos "pais da Igreja" podem ter sido inventadas por Eusébio no século VI. Sendo assim, eu considero precipitadas as conclusões tiradas sobre Jesus em seu livro, não sendo possível afirmar que ele aceitasse receber adoração das pessoas, coisa que seria blasfematório na cultura judaica. Além do mais, o sentido e as características das palavras atribuídas a Jesus nos sinóticos não levam necessariamente às conclusões que colocou como "imaturidade". De qualquer modo, penso que, por não conhecermos suficientemente a vida e o ensino de Yeshua, prefiro restringir minhas críticas apenas à idealização de Cristo feita pela Igreja que até hoje encobre o lado humano deste personagem (...)"


Doze dias depois, o autor me respondeu admitindo a "diferença entre o Jesus histórico e o Cristo da fé" e que este aspecto encontra-se exposto no próprio capítulo 5 do seu livro e me escreveu o seguinte:


"Caro, Rodrigo (...) O "tolicionário" não supõe que as frases citadas sejam do Jesus histórico, o que seria ingenuidade. Tolicionário cristológico refere-se aos ensinamentos falaciosos atribuídos a Cristo, entendido aqui como o mito construído por gerações de seguidores e documentados nos evangelhos (e diferente, portanto do Jesus histórico). O mais provável é que Jesus não tenha atribuído a si mesmo a condição divina (isto também está claro no capítulo 5). Entretanto, tamanha idealização da sua imagem, feita pelas gerações posteriores devem ter encontrado alguma base na pregação original do Nazareno (demagogia, fanatismo apocalíptico, taumaturgia...). O fato é: o que temos documentado (Novo testamento) é a produção do mito. O homem por trás do mito (Jesus histórico) é desconhecido e 250 anos de pesquisas cristológicas não trouxeram informação histórica suficiente. Você pode depositar toda sua fé e esperança num desconhecido. Sou obrigado a respeitar isso. Meu único escopo no capítulo 5 foi dizer, respeitosamente, que tal escolha é irracional e injustificada (...)"


Este trecho do e-mail que recebi, levou-me ao enfrentamento desta indagação:

Você pode depositar toda sua fé e esperança num desconhecido?

Certamente que, se a fé estivesse fundamentada em provas históricas a respeito de Jesus, não haveria espaço para ela. Ou melhor, ela nem existiria porque "a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem" (Hebreus 11.1; ARC).

Ora, se os evangelistas tivessem se limitado a compor um relato histórico sobre Jesus, ao invés de romancearem a sua obra com a finalidade de propagandear uma mensagem, que fé eles teriam despertado nos leitores? Como posso transmitir fé a alguém se o meu relato não estiver carregado de subjetividade e de sentimentos pessoais?

É neste sentido que hoje eu encaro numa boa a tão comentada "mitologização" de Jesus feita nos Evangelhos da Bíblia e o ponto de vista de quem escreveu esses livros antigos e anônimos, mesmo décadas depois dos fatos neles narrados.

Meus olhos podem não ter visto Jesus e nem as minhas mãos apalpado-o, mas o meu coração sentiu o Verbo da vida, a qual para mim se manifesta e dela testifico, de modo que posso anunciar a vida eterna que estava com o Pai.

Certamente que, mesmo aqueles que viram e tocaram em Jesus jamais teriam conhecido a revelação da vida eterna se os seus corações não tivessem sido abertos para a maravilhosa essência do seu ser.

Assim também ocorre nos dias de hoje em que Jesus continua sendo pregado nas igrejas, nas células, nas ruas, na TV, na internet e nos demais meios de comunicação. Só iremos conhecer o Messias, salvador do mundo, quando sinceramente nos envolvermos com ele, estivermos dispostos a praticar o amor e procurar Cristo na pessoa do nosso próximo necessitado. Pois, como nos ensina a parábola de Mateus 25.31-46, quando concedemos algo de bom a um pequenino nesta terra é a Jesus que estamos fazendo.

Posso dizer que a cada dia tenho uma nova oportunidade de conhecer melhor a Jesus. E estas oportunidades ocorrem com a prática devocional e do amor, quando de espírito aberto meditamos sobre ele e experimentamos o relacionamento com o próximo, sendo que é isto que realmente importa porque as investigações sobre o Jesus histórico e as doutrinas eclesiásticas mentalmente construídas apenas nos afastam deste propósito.

Que Jesus seja real na sua vida!

Tenha um excelente final de semana!


OBS: Imagem extraída do site http://lifeondoverbeach.wordpress.com/2011/06/10/philip-yancey-on-what-american-churches-have-become/

quarta-feira, 2 de março de 2011

Qual a fantasia que criamos sobre Jesus?


Acabei de assistir a interessante entrevista do ex-padre Marcelo da Luz (não se ele tem algum parentesco distante comigo) e que foi concedida ao Programa "Ciência e Consciência" da TV Compléxis, tendo como tema a "Desconstrução do Mito de Jesus Cristo".

Muita coisa que ele falou realmente não é novidade para quem estuda assuntos teológicos ou já cursou algum seminário, sendo que algumas de suas colocações eu concordo enquanto outras não (principalmente no final onde pareceu que ele foi contraditório com o que falou no início).

Porém, ao invés de proferir de imediato uma crítica fundamentalista a respeito do entrevistado e correr o risco de ser injusto, prefiro antes olhar com humildade para a pessoa de Jesus, cuja biografia conhecemos muito pouco, bem como em relação aos ensinos expostos nos Evangelhos, visto que estes foram livros escritos décadas depois da morte e da ressurreição do Senhor.

Sendo assim, antes de comentar sobre esta polêmica entrevista, prefiro primeiramente compartilhá-la aqui no meu blogue para então fazer meus comentários junto com o de outras pessoas. Porém, gostaria de deixar como proposta para debatermos a pergunta que corresponde ao título da postagem:

Qual a fantasia que criamos sobre Jesus?

Mesmo que alguém tenha uma fé firme em Jesus Cristo, baseada numa experiência pessoal de relacionamento com o Messias e conhecimento verdadeiro do seu Nome, não podemos negar que a mente humana é capaz de fantasiar quaquer realidade.

Como o vídeo foi disponibilizado na internet por iniciativa da própria TV Compléxis e o Youtube permite a sua incorporação em outros sites (obviamente com a ciência do titular dos direitos autorais), entendo que existe autorização prévia para que haja uma divulgação por terceiros desde que sem fins lucrativos.

Por questão de ética, informo que o vídeo a seguir postado encontra-se também em http://irreligiosos.ning.com/video/desconstrucao-do-mito-de-jesus

Assistam e fiquem à vontade para comentar, sendo que eu, oportunamente, também pretendo expor minhas ideias a respeito da entrevista:




OBS: A imagem que ilustra o texto refere-se à capa do livro "Onde a Religião Termina?" do conscienciólogo e autor Marcelo da Luz, tendo sido extraída de http://www.ondeareligiaotermina.com.br/

domingo, 12 de dezembro de 2010

Um Papai Noel pouco conhecido

Não posso dizer que sou fã desta época do ano, pois, se vivesse em outro país com pessoas que tenham uma visão de mundo diferente da nossa, pouco me importaria com as hipócritas comemorações natalícias e ficaria mais em paz longe desse consumismo exagerado. Porém, como não sou um sujeito radical e vivo num país de cultura cristã, procuro fazer deste momento uma oportunidade para lembrar da mensagem autêntica do Evangelho, centralizando o Natal em Jesus.

Para surpresa de muitos religiosos de mente fechada (principalmente alguns do meio evangélico), no meu Natal pode também rolar árvore, presépio, vinho e até Papai Noel. E quanto aos que dizem por aí que o velhinho não passa de um mito, respondo que Papai Noel existe sim e foi um cara muito maneiro que viveu entre os séculos III e IV da nossa era.

Obviamente que não estou me referindo à figura daquele homem rechonchudo, de barba branca e trajando roupas que, nas noites de 24 de dezembro, deixa a Lapônia e viaja pelo mundo montado num trenó puxado por suas renas voadoras afim de distribuir presentes para as crianças bem comportadas.

Nada disso! O meu Papai Noel não tinha poderes mágicos e muito menos ajudava apenas as crianças que fossem bem comportadas como se os pequeninos tivessem que merecer os presentes que recebiam.

Nicolau de Mira, que também é conhecido como Nicolau de Bari, foi um valoroso irmão que muito contribuiu para a obra de Cristo na terra. Sofreu perseguições de Roma, durante o reinado de Diocleciano, chegando a ser preso. Depois, foi vítima da própria Igreja Católica que hoje o considera santo. Pois, logo depois que o imperador Constantino converteu-se ao cristianismo, Nicolau passou a se opor com firmeza à corrupção eclesiástica a ponto de ter sido excluído pela cúpula religiosa daqueles tempos.

Seguindo os passos de Jesus, Nicolau continuou a fazer a obra de Deus com simplicidade e foi aí que ele se tornou o Papai Noel quando dedicou seus esforços pelo bem das crianças necessitadas e dos pobres em geral.

Muitos relatos surgiram acerca de Nicolau de Mira, inclusive sobre milagres incríveis que teriam acontecido no exercício de seu ministério. Porém, tenha ele ressuscitado crianças ou não, importa-me é que sua vida foi voltada para glorificar Cristo, pois o seu alvo foi fazer a vontade do Senhor Jesus.

Infelizmente as nossas crianças pouco conhecem a respeito do verdadeiro Papai Noel. Mesmo entre aquelas que são criadas dentro de uma família católica. Já entre os evangélicos, pouco se prega a respeito de santos posteriores ao primeiro século por causa de uma repugnante disputa religiosa entre o catolicismo e o protestantismo em que o alvo de muitos pastores, no final das contas, acaba sendo o discipulado de pessoas para o meio evangélico e não para Cristo. Contudo, desejo que possamos olhar para os bons exemplos de Nicolau de Mira, o qual não negociou sua fé. Antes mostrou-a pela sua perseverança e pelo amor que teve para com os pobres.