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domingo, 23 de junho de 2024

Uma breve oração do salmista diante de uma situação que lhe causava perturbação e angústia


 

"1 Apressa-te, ó Deus, em me livrar; SENHOR, apressa-te em ajudar-me. 2 Fiquem envergonhados e confundidos os que procuram a minha alma; voltem para trás e confundam-se os que me desejam mal. 3 Virem as costas como recompensa da sua vergonha os que dizem: Ah! Ah! 4 Folguem e alegrem-se em ti todos os que te buscam; e aqueles que amam a tua salvação digam continuamente: Engrandecido seja Deus. 5 Eu, porém, estou aflito e necessitado; apressa-te por mim, ó Deus. Tu és o meu auxílio e o meu libertador; Senhor, não te detenhas." (Salmo 70)


Quem é que não se sente ansioso diante das multidões de problemas que todos enfrentamos em nosso cotidiano?!


Não raramente, muitos de nós perde até o sono ao lidar com as suas preocupações (e insatisfações) com a vida, a ponto de passar uma noite inteira em claro. E admitir isso é algo que considero totalmente humano, o que não diminui em nada seja quem for.


Outro dia eu estava me sentindo ansioso e, com a indicação do "pastor" Google, fui ler o Salmo 70 citado acima que, com toda a sinceridade, me acalmou bem.


Se pesquisarmos acerca do contexto de Davi e de outros salmistas da Bíblia, veremos que os caras eram guerreiros, possuíam adversários que tentavam lhes tomar o reino, os bens, a liberdade e até a vida. Nos seus valores religiosos e culturais, cerca de mil anos antes de Jesus anunciar ao mundo o Evangelho da Paz, era aceitável o homem orar para que os seus inimigos fossem destruídos pelo auxílio de Deus, inclusive praguejando contra eles.


Não sabemos se o salmista estava sendo ameaçado por alguém, fugindo dos adversários ou se preparando para mais uma batalha contra os inimigos do seu povo. Certo é que ele se lança em Deus e faz isso com intensidade.


Certamente que uma vida com fé pode ajudar o ser humano a enfrentar melhor os desafios no sentido de organizar a mente e todo o seu interior para as batalhas que atingem o psicológico de cada um.


Nos dias de hoje, nossas guerras não ocorrem num campo aberto de batalha, ainda mais com uso de espadas, lanças ou flechas que são armas já ultrapassadas. Num contexto social de relações bem instáveis, enfrentamos situações que nos induzem ao medo, quer seja do desemprego, da falta de amparo social, das doenças graves, dos males que podem atingir as pessoas mais próximas pelas quais nos sentimos responsáveis, ou de outras perdas.


Contudo, independentemente da crença num Deus interventor das relações humanas, questão acerca da qual muitas das vezes me debato indagando sobre as crenças que são construídas, acho válido quando qualquer pessoa pede o auxílio divino em seu favor. Pois, mesmo que nada ocorra fora de nós, a oração tem o seu benéfico efeito para nos fortalecer interiormente diante das aflições.


Que a nossa semana seja de muitas vitórias nas batalhas enfrentadas!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Esculpindo vidas

“Em todo bloco de mármore vejo uma estátua como se ela estivesse de pé diante de mim, já formada e perfeita em atitude e ação. Só tenho de desbastar as paredes rudes que aprisionam a bela figura e revelá-la aos outros olhos que não podem vê-la”. (Michelângelo)


Michelângelo Buonarroti (1475-1564) foi certamente um dos maiores artistas da humanidade, sendo praticamente impossível falarmos na Renascença sem nos lembrarmos de algumas de suas famosas como Davi, Moisés, a Pietà ou O escravo moribundo. E o mais interessante era que, aos olhar para um pedaço de pedra, ele conseguia vem além daquela matéria informe figuras com formas que brotavam em sua mente criativa.

O pastor norte-americano Greg Cootsona, autor do excelente livro Aprenda a dizer não, publicado no Brasil pela editora Mundo Cristão, fez um interessante estudo da vida do artista. Segundo ele, Michelângelo

“discerniu, presa dentro do bloco rígido, uma beleza que tinha de ser libertada. Assim, trabalhou com toda a genialidade e persistência que podia reunir. Desde então, o que surgiu da pedra tem admirado e fascinado os espectadores. Há quem considere a estátua de Davi a maior escultura já criada. Michelângelo desvendou a beleza através daquilo que removeu (...) descobriu que poderia criar sua escultura somente removendo aquilo de que a figura não necessitava até alcançar a beleza de sua forma inerente (...) Olhando com mais intensidade o rosto de Davi de Michelângelo, você pode ver uma projeção idealizada do artista – não sua figura real, mas a criatividade que o impulsionava (..) A precisão da visão combinada com uma incrível determinação levou Michelângelo a olhar objetivamente através do bloco informe e enxergar ali dentro a figura na qual o mármore poderia transformar-se. (extraído das páginas 25 a 29 do livro)

Igualmente, nós também podemos ser considerados uma obra-prima viva do grande Artista do Universo. Bendito seja Ele! Todavia, não somos esculturas prontas e acabadas pois estamos todos em permanente construção (e desconstrução), precisando evoluir a cada dia.

Segundo o livro de Gênesis, quando Deus criou a Terra, ela estava “sem forma e vazia” (ARA), o que pode expressar um estado anterior de desordem e caos, como se observa pela compreensão dos termos hebraicos tohu e bohu. Ou seja, no princípio, tudo ainda era uma criação que aguardava ser formada até que o movimento determinado da Vida, o ruah, o “grande vento”, foi inteligentemente moldando todo o Universo. Uma criação que, teologicamente falando, podemos dizer que é ex nihilo, isto é, “do nada”, em que apenas o Eterno transcende.

Neste sentido, vale a pena meditarmos nesta valiosa passagem bíblica:

“Pela fé entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem” (Hebreus 11.3; ARA)

Uma outra tradução deste verso acima citado diz que “o mundo visível não tem sua origem em coisas manifestas” (Bíblia de Jerusalém). Isto significa que a realidade é algo muito mais abrangente do que as coisas perceptíveis pelos nossos cinco sentidos, sendo assim o visível uma mera sombra ou parte de um todo. E eu acredito que o mesmo pode ser aplicado ao ser humano quando analisado de um ponto de vista transcendente. Como o Criador de fato nos vê.

De que maneira temos olhado para nós mesmos ou para o nosso próximo?

Será que nos percebemos como blocos duros de mármore impossíveis de sermos trabalhados?

Ou será que dentro de cada um não existe uma bela pessoa desejada por Deus e que só está aguardando ser esculpida e libertada?

Precisamos permitir que o grande sopro do Criador, o Espírito Santo, trabalhe em nós sem oferecermos resistência ao projeto divino. Creio que Deus não abandona a sua criação e continua criando, expandindo o Universo, permitindo a evolução de novas formas de vida e esculpindo os corações dos homens. E isto Ele faz removendo tudo aquilo que impede a manifestação de nossa forma espiritual. A saber, retirando os rancores, a imoralidade, a inveja, a intolerância, a ignorância, o egoísmo, os maus hábitos, as máscaras e a falta de fé.

A obra divina em nossas vidas coincide com o que a Epístola aos Gálatas diz nos versos 16 ao 26 do seu capítulo 5 em que Paulo contrasta as “obras da carne” com o “fruto do Espírito”. Não que o texto estivesse se referindo ao corpo humano quando o apóstolo fala em “carne”, mas sim à nossa maldade, à “árvore do conhecimento do bem e do mal” situada dentro do nosso Éden interior, da qual muitas vezes preferimos nos alimentar ao invés de buscarmos a “árvore da vida”.

Inegavelmente esta é a grande diferença entre as obras de Michelângelo e nós que somos obra-prima de Deus. O brilhante escultor dos séculos XV e XVI não perguntava ao mármore se o material bruto queria transformar-se em Davi. Contudo, o Eterno respeita o nosso livre arbítrio e nos propõe escolher entre a vida e a morte, a benção e a maldição, o caminho estreito e o caminho largo. O seu reino está com as portas sempre abertas nos aguardando com abundante graça, cabendo à humanidade decidir se quer entrar nele ou permanecer na sua obscuridade espiritual.

Desejo que, nesta semana, você receba de Deus toda a sabedoria e a criatividade necessárias para que a divina obra se realize em seu viver, com muita paz e graça.


OBS: A imagem acima trata-se de uma foto da escultura Davi, tirada por Rico Heil, e se encontra na Galeria da Academia de Belas Artes de Florença, Itália. Foi extraída da Wikipédia na presente data.