
Um dos lugares por onde andei e que sinto muita vontade de voltar, com certeza é a Ilha Grande!
Desde criança, eu já tinha uma enorme fascinação pelas ilhas. Quando ia à praia, desejava nadar até elas e imaginava encontrar um tesouro escondido na areia conforme assistia nos desenhos animados. Porém, bastava eu me afastar alguns metros da costa que logo um adulto da família vinha chamar a minha atenção para que voltasse e não morresse afogado.
Talvez minhas ideias fossem até alimentadas pelo seriado “A Ilha da Fantasia”, de Aaron Spelling e Leonard Goldberg, que passou na TV brasileira entre o final dos anos 70 e início da década de 80. Ou, quem sabe, não foi pelos filmes do "Simbad, o Marujo", que, por diversas vezes, assisti na Sessão da Tarde?
Entretanto, nos meus tempos de infância, bem antes de inventarem a impressionante série de “Lost”, já não ouvia falar muito bem da Ilha Grande. Na época, ainda existia um presídio de segurança máxima lá e, quando passava dias na casa de minha avó paterna em Muriqui, ela me apavorava com a possibilidade quase improvável de que bandidos fugidos da penitenciária, após atravessarem a Baía de Sepetiba, fossem capazes se esconder nos povoados de veraneio ao longo da rodovia Rio-Santos para invadir o nosso quintal e, justamente, nos assaltar.
Depois da exibição de uma reportagem da Glória Maria no Fantástico sobre as belezas da Ilha Grande, comecei a ficar muito curioso por conhecer o lugar. Ansiava bastante por estar numa ilha onde pudesse encontrar praias paradisíacas, rios e cachoeiras com águas limpas, morros elevados, ruínas históricas e vilarejos com gente morando.
Finalmente, em janeiro de 1999, realizei este meu antigo desejo de passeio juntamente com tantos outros destinos. Aliás, aquela foi uma época da minha vida em que passei a maior parte do mês só viajando e cheguei a descobrir lugares surpreendentes nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, conseguindo colocar meus pés em vários lugares diferentes em tão pouco tempo. E fiz tudo aquilo sozinho, tendo visitado, além da Ilha Grande e Angra dos Reis, as seguintes localidades das quais me recordo: Visconde de Mauá, Maringá, Maromba, Airuoca, São Tomé das Letras, Três Corações, Mariana, Ouro Preto, Poços de Caldas, Miguel Pereira e Paty do Alferes.
Pelo que me lembro, fiquei umas três noites na Ilha Grande dormindo na barraca de um camping na Vila de Abraão (o principal povoado da ilha). Fiz longas caminhadas e um passeio de barco. Estive não só em locais próximos (não muito distante do Abraão tem um poço de água doce), mas houve um dia em que cometi a loucura de retornar da Praia de Dois Rios utilizando uma trilha proibida até Lopez Mendes onde poderia muito bem ter me perdido ou até sofrido algum acidente.
Naquele janeiro de 1999, eu tinha ainda 22 anos e queria viver com muita intensidade aqueles momentos. Pouco me importava com certos riscos e bebia de maneira alucinada quase toda noite. Estava afastado da Igreja e desviado dos caminhos de Deus. Por sorte, tinha conseguido aprovação no primeiro ano da faculdade de Direito que cursei em Juiz de Fora, no Instituto Vianna Júnior, e estava então transferindo minha matrícula para o campus da Universidade Estácio de Sá, em Nova Friburgo. Com meu filme queimado em Minas, por causa de um crime praticado no mês de junho de 1997, na época em que fora aluno de Administração da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e ainda investigado pela Polícia, pretendia encontrar um novo ambiente nas serras fluminenses, tentando uma outra vida onde passaria a morar sem nenhum parente por perto. Namoradas e amigos eu não tinha. Transava com prostitutas ou com qualquer garota que me desse chance. E, com exceção do consumo exagerado de álcool, saúde era o que não faltava para aquele corpo que, depois de anos de uma infância e adolescência com elevado grau de obesidade, experimentava então o alívio de ter me livrado de 24 quilos no decorrer de 1998 com um simples controle de alimento.
Apesar de todas as loucuras que explodiam dentro de mim, eu estava tentando me relacionar com a vida e aí a Ilha Grande compôs o meu cenário interior durante aqueles dias. Talvez o local representasse a paz que tanto almejasse e a beleza que minha alma precisasse ter. Mas, ao mesmo tempo, acho que também existisse em mim uma necessidade de superação e de auto-afirmação através da conquista de novos lugares que são destinos turísticos, ainda que sem nenhum interesse de registrar o momento através da fotografia (contentava-me em comprar camisetas estampadas ou um barato souvenir).
Penso que, no fim, de toda busca, seja ela fútil ou não, sempre encontramos algo com um maior significado, nem que aquilo nos sirva para um mero aprendizado. Porém, as mensagens que as aulas da vida ao ar livre me comunicaram vieram a fazer parte de um processo pessoal de crescimento para que eu aprendesse a respeitar melhor a existência. Pois, sempre que visitamos um paraíso ecológico, quer sejamos apaixonados pela natureza ou não, ficamos envolvidos de tal maneira pelo ambiente que até um troglodita urbano e materialista, como eu me transformara antes, consegue voltar para casa um pouquinho melhor do que como chegou.
Depois daquela maravilhosa oportunidade que Deus me concedeu, retornei à Ilha Grande por mais uma vez, salvo engano em 2001. Só que, nesta segunda ocasião, eu já tinha um relacionamento com Núbia, atualmente minha esposa. E, antes de me conhecer, ela também já tinha visitado a ilha e passado uma noite de Ano Novo no Abraão na companhia de seus amigos.
Mesmo acompanhado por minha mulher, fiz alguns passeios sozinho. Em outros, estive com ela e tive que conter a ansiedade dos meus pés para não me embrenhar na mata deixando-a para trás. Houve também um dia em que caminhei só do Abraão até o Farol dos Castelhanos e voltei, enquanto Núbia permaneceu no acampamento. Porém, para agradá-la, fomos juntos de barco até a outra ponta da ilha, na Enseada de Araçatiba, perto da famosa Gruta do Acaiá. Numa outra oportunidade, fomos à praia de Dois Rios e posso dizer que tivemos bastante sorte por não ter chovido naqueles deliciosos dias de verão pois as chuvas caíam só no continente, de modo que o tempo estava excepcionalmente bem seco em Ilha Grande.
De todos os pontos da Ilha Grande que conheci, Dois Rios foi sem dúvida o que mais me agradou até agora. Talvez o grande atrativo dali esteja na existência de dois cursos d'água que desembocam na praia cortando uma pequena área de manguezal, além de povoado ser bem pequeno e pacato. Inclusive, era em Dois Rios onde funcionava o antigo presídio até ser destruído pelo então governador Leonel Brizola, o que, na minha opinião, poderia ter sido muito bem aproveitado para ser um curso de Biologia junto com um centro de pesquisas.
Em nenhuma das duas ocasiões que estive na Ilha Grande consegui percorrê-la por inteiro (faltaram muitas praias do lado voltado para o oceano aberto) e talvez os meus desejos por novidades e pela totalidade ainda me motivem a retornar. Então, se Deus permitir, ainda quero conhecer o Provetá (segundo maior povoado da ilha) e a praia do Aventureiro, iniciando uma longa caminhada a partir do Abraão.
Pelas minhas condições de hoje, não sei quando vou conseguir realizar tal projeto visto que minha esposa ainda está recuperando-se dos seus problemas de saúde, a grana está pouca e os compromissos de trabalho com a advocacia costumam me aprisionar o ano inteiro até a época do recesso forense que vai de 20 de dezembro até 6 de janeiro, quando estão os prazos processuais e as audiências focam suspensos, de modo que, desde 2005, já nem sei mais o que é tirar umas férias.
De qualquer modo, sou grato pelas chances que o Criador proporcionou-me de conhecer não só a Ilha Grande como um montão de outros lugares interessantes, tanto longe quanto perto de casa (meus melhores passeios foram feitos aqui na região de Nova Friburgo andando a pé durante a época de estudante). E, mesmo sentindo falta das caminhadas de outrora, continuo agora andando pelas trilhas da espiritualidade, em busca dos corações das pessoas e de Deus. Uma viagem que considero mais íntima e voltada para dentro de mim.