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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Rio de Janeiro sem agrotóxicos: uma transição possível, necessária e estratégica



O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil costuma oscilar entre dois extremos igualmente improdutivos: de um lado, a defesa acrítica do modelo químico-dependente; de outro, propostas imediatistas de proibição total, frequentemente acusadas de inviáveis do ponto de vista econômico. Entre esses polos existe um caminho racional, planejado e juridicamente viável: a transição agroecológica gradual, orientada por políticas públicas capazes de garantir renda no campo, abastecimento urbano e estabilidade de preços.

O Estado do Rio de Janeiro reúne condições singulares para liderar esse processo. Trata-se de um território com pequena área agrícola relativa, forte presença da agricultura familiar, cadeias curtas de comercialização e uma das maiores regiões metropolitanas do país. Essas características, longe de serem obstáculos, fazem do RJ um laboratório privilegiado para um projeto de superação progressiva do uso de agrotóxicos, iniciado ainda nesta década.

Defender um Rio de Janeiro livre de agrotóxicos não é defender uma ruptura abrupta, mas sim uma política de Estado, juridicamente ancorada, economicamente planejada e socialmente pactuada.


1. O modelo atual: dependência química, baixa renda rural e vulnerabilidade urbana

A agropecuária fluminense não se caracteriza por grandes monoculturas exportadoras. Sua vocação histórica é o abastecimento regional, especialmente de hortaliças, frutas, raízes, leite e ovos. Ainda assim, mesmo nessa escala, o modelo produtivo dominante permanece fortemente dependente de agrotóxicos e fertilizantes químicos, reproduzindo problemas já conhecidos:


  • degradação de solos e recursos hídricos;
  • contaminação ambiental e riscos à saúde pública;
  • custos crescentes de produção;
  • renda agrícola comprimida;
  • fragilidade diante de crises climáticas e logísticas.


Do lado urbano, a população enfrenta alimentos cada vez mais caros, sem que isso se traduza em melhor remuneração ao produtor. O paradoxo é evidente: o modelo químico não garante nem eficiência econômica, nem justiça social, nem segurança alimentar.


2. O que o mundo e o Brasil já demonstraram

Experiências concretas demonstram que a redução drástica — e até a eliminação — do uso de agrotóxicos em territórios é possível quando há planejamento e políticas públicas consistentes:


  • Sikkim (Índia): primeiro estado do mundo a converter praticamente toda sua agricultura para o modelo orgânico, após mais de uma década de políticas coordenadas.
  • Florianópolis (SC): município brasileiro que aprovou legislação tornando cerca de 97% de seu território zona livre de agrotóxicos.
  • Porto Alegre (RS): legislação municipal que estabelece a conversão integral da zona rural para sistemas agroecológicos até 2032.


Esses casos demonstram um ponto central: não basta proibir; é preciso criar alternativas técnicas, econômicas e institucionais para agricultores e consumidores.


3. O Rio de Janeiro já tem base legal — mas ainda fragmentada

Diferentemente de muitos estados, o RJ não parte do zero. Já existem instrumentos legais importantes:


📜 Legislação estadual vigente:


  • Lei Estadual nº 8.625/2019 — institui a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica (PEAPO-RJ), alinhada à Política Nacional.
  • Normas estaduais de incentivo à agricultura familiar, extensão rural e segurança alimentar.


📜 Projetos de lei estaduais recentes:


  • Projeto de Lei nº 4.678/2025, de autoria da Deputada Marina do MST, que institui a Política Estadual de Bioinsumos, fundamental para reduzir a dependência de insumos químicos externos e viabilizar a transição produtiva.


📜 Legislação federal estruturante:


  • Lei Federal nº 10.831/2003 — define o sistema orgânico de produção agropecuária no Brasil.
  • Decreto nº 7.794/2012 — institui a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO).
  • Lei nº 11.947/2009 — garante que pelo menos 30% da alimentação escolar seja adquirida da agricultura familiar, base essencial para políticas de compras públicas orgânicas.


📜 Legislação municipal (capital):


  • Lei Municipal nº 7.194/2021 (Rio de Janeiro) — Dispõe sobre o Circuito Carioca de Feiras Orgânicas e consolida conceitos sobre o Sistema Orgânico de Produção Agropecuária. (Declarada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, conforme ADI nº 0061443-78.2022.8.19.0000)


Esses instrumentos e iniciativas demonstram que o arcabouço jurídico existe, mas ainda de forma fragmentada e sem metas temporais vinculantes.


4. Orgânico não precisa significar comida mais cara

O argumento de que alimentos orgânicos encarecem inevitavelmente o custo de vida ignora um fator central: preço não é determinado apenas pelo modo de produção, mas pela política pública que o cerca.

Sem políticas públicas:


  • baixa escala;
  • custos elevados de certificação;
  • excesso de intermediários;
  • logística ineficiente.


Com políticas públicas adequadas:


  • compras institucionais estáveis (merenda, hospitais, quartéis);
  • certificação participativa;
  • bioinsumos públicos;
  • mercados locais;
  • subsídios transitórios durante a conversão.


O custo da inação — em saúde pública, contaminação ambiental e perda de produtividade futura — tende a ser substancialmente maior.


5. Um plano realista: RJ livre de agrotóxicos em 10 anos


🔹 Fase 1 — Preparação institucional (anos 1–2)

  • Regulamentação plena da PEAPO-RJ;
  • Aprovação e implementação da Política Estadual de Bioinsumos;
  • Criação do Plano Estadual de Transição Agroecológica;
  • Implantação de biofábricas regionais.


🔹 Fase 2 — Transição produtiva (anos 3–5)

  • Metas obrigatórias de redução do uso de agrotóxicos;
  • Zonas-piloto livres de agrotóxicos;
  • Crédito subsidiado e seguro agroecológico;
  • Ampliação das compras públicas estaduais.


🔹 Fase 3 — Consolidação territorial (anos 6–8)

  • Proibição progressiva de agrotóxicos sintéticos;
  • Abastecimento institucional 100% agroecológico;
  • Expansão de feiras e mercados públicos orgânicos;
  • Políticas de acesso alimentar urbano.


🔹 Fase 4 — Universalização (anos 9–10)

  • Território estadual livre de agrotóxicos;
  • Predominância da produção agroecológica;
  • Certificação ampla e fiscalização integrada.

Conclusão — uma política de Estado, não um gesto simbólico

Transformar o Rio de Janeiro em um território livre de agrotóxicos não exige ruptura, mas coragem institucional, coordenação legal e compromisso orçamentário. As leis já existentes demonstram que o caminho está aberto. O desafio agora é integrar, aprofundar e dar prazos.

Começar nesta década é essencial para que a transição seja gradual, socialmente justa e economicamente equilibrada. O futuro do campo fluminense, da saúde urbana e da segurança alimentar passa, inevitavelmente, por esse debate.


🧾 Nota Final — Dados Locais e Nacionais (2024/2025) com Fontes Oficiais

Segue uma nota final atualizada com dados de 2024/2025, usando fontes oficiais e reconhecidas.


📌 1. Comercialização de agrotóxicos no Brasil em 2024

Segundo o Boletim de Comercialização de Agrotóxicos do Ibama relativo ao ano de 2024, divulgado em dezembro de 2025, o conjunto de dados de produção e vendas mostra um aumento nas vendas de agrotóxicos químicos em relação a anos anteriores, com destaque para ingredientes ativos amplamente utilizados, como o glifosato (que apareceu em primeiro lugar com 231,9 mil toneladas em 2024). Apesar de parte dos produtos registrados não terem sido comercializados, o quadro geral indica crescimento da comercialização desses insumos no país.

Estudos de organizações da sociedade civil apontam que, considerando estimativas amplas e autodeclarações, houve um aumento de cerca de 20% no volume total de ingredientes ativos comercializados em 2024, em relação a 2023, segundo comparações de relatórios públicos com estimativas da campanha contra pesticidas.


📌 2. Registro e aprovação de novos produtos

No âmbito federal, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) reportou que 663 agrotóxicos, defensivos e afins foram autorizados para uso em 2024, um número recorde desde 2000 e cerca de 19% superior ao registrado em 2023.

Essa aceleração de aprovações ocorre num contexto em que a legislação federal de agrotóxicos foi atualizada em 2023, alterando procedimentos de avaliação e registro.


📌 3. Indicadores de uso de agrotóxicos no Brasil

Pesquisas setoriais independentes utilizando metodologia “Área Potencialmente Tratada” (PAT) mostraram que, em 2024, a área tratada com pesticidas no Brasil cresceu cerca de 9,2%, refletindo uma expansão no uso desse tipo de produto em áreas agrícolas.


📌 4. Agricultura familiar — papel no Brasil e inferências para o RJ

Embora dados estaduais específicos completos relativos a 2024 ainda não tenham sido divulgados publicamente por IBGE para o Rio de Janeiro, podemos contextualizar com dados nacionais:

📊 No Brasil, a agricultura familiar é responsável por grande parte da produção agrícola nacional, com propriedades que representam aproximadamente 77% de todos os estabelecimentos rurais no país e respondem por cerca de 23% do valor bruto da produção agropecuária, gerando 67% das ocupações no campo.

No contexto do Rio de Janeiro, dados prévias do Censo Agropecuário indicavam que a maior parte dos estabelecimentos rurais no estado era de base familiar — algo em torno de mais de dois terços das unidades produtivas rurais — o que permite inferir que a agricultura familiar detém um papel central no perfil agrícola estadual.


📌 5. Produção agrícola em 2024 no Brasil

Segundo o IBGE, o valor da produção agrícola nacional em 2024 foi estimado em cerca de R$ 783,2 bilhões, embora tenha havido uma queda de 3,9% no valor total da produção em comparação a 2023, devido a fatores climáticos e de mercado.

Os resultados dessa produção são reportados em pesquisas como a PAM – Produção Agrícola Municipal que incluem dados de quantidade produzida, área colhida, rendimento e valor da produção, embora detalhes estaduais específicos demandem filtragem adicional no portal SIDRA.


🧠 Resumo dos principais números recentes

📌 Aprovações federais: 663 agrotóxicos e defensivos aprovados em 2024 — recorde histórico.
📌 Comercialização: vendas e importações de agrotóxicos mostram tendência de aumento em 2024, com crescimento estimado de cerca de 20% em volume total.
📌 Área tratada: uso de pesticidas cresceu aproximadamente 9,2% em 2024 no Brasil.
📌 Agricultura familiar nacional: representa cerca de 77% dos estabelecimentos rurais e 23% do valor de produção agropecuária, com papel essencial no abastecimento do mercado interno.
📌 Produção agropecuária total (Brasil): cerca de R$ 783,2 bi em 2024, segundo IBGE.


OBS: Imagem acima extraída de uma notícia oficial da Prefeitura de Nova Iguaçu encontrada em https://novaiguacu.rj.gov.br/2019/02/14/nova-iguacu-quer-ser-polo-de-agricultura-organica-3/

domingo, 30 de novembro de 2025

Mangaratiba e os municípios litorâneos da Costa Verde poderiam apostar num paisagismo nativo



Quando a expedição de Gaspar de Lemos chegou à Costa Verde, em janeiro de 1502, os portugueses certamente encontraram uma região rica em biodiversidade: restingas arenosas litorâneas, manguezais, Mata Atlântica em transição para encostas, árvores frutíferas e uma fauna abundante. Esse ecossistema estruturava o clima local, regulava rios e protegida as comunidades naturais. 

Recuperar a identidade ambiental da região hoje, mesmo nas áreas urbanas, como quintais, jardins, praças, escolas e demais logradouros seria uma oportunidade de unir história, saúde pública e urbanismo sustentável.


Paisagismo urbano: direito e obrigação legal


A Constituição Federal, no artigo 225, garante a todos o direito a um meio ambiente equilibrado, impondo ao poder público e à sociedade o dever de preservação e recuperação ambiental. Municípios litorâneos, portanto, têm a obrigação de criar políticas urbanas que conciliem segurança, mobilidade, saúde e biodiversidade.

O paisagismo nativo é uma ferramenta concreta para isso: restaura o patrimônio vegetal, protege os moradores e fortalece a resiliência da cidade frente a ventos fortes e mudanças climáticas.


Espécies nativas: segurança, beleza e saúde


Para Mangaratiba, é essencial priorizar árvores e arbustos de porte pequeno a médio, com raízes não invasivas, copas compactas e resistentes a ventos e maresia. Algumas espécies-chave incluem:


Restinga litorânea


  • Pitanga (Eugenia uniflora, 3–7m) – atrativa à fauna e repelente natural do mosquito da dengue.
  • Aroeira-vermelha (Schinus terebinthifolius, 10m) – resistente à maresia.
  • Goiabeira-serrana (Psidium myrtoides, 4–6m) – adequada para áreas próximas à fiação.
  • Sapucaia-anã (Lecythis pisonis) – porte compacto, florescimento ornamental.


Transição encosta – Serra do Mar


  • Tapirira guianensis (10–15m) – resistente a ventos fortes.
  • Posoqueria latifolia (8–12m) – atrativa a aves e insetos benéficos.
  • Garcinia brasiliensis (10–15m) – tolerante a solos costeiros.
  • Guarea macrophylla (10–12m) – ideal para segurança e biodiversidade.


Uso sanitário e preventivo


  • Pitanga, Aroeira-vermelha, Mulungu (Erythrina verna) e Pata-de-vaca (Bauhinia spp.) ajudam a repelir o mosquito da dengue, funcionando como barreiras naturais em quintais, ruas e praças.


Segurança e mobilidade urbana


O paisagismo deve considerar:


  • Proteção da fiação elétrica: copas e galhos que não atinjam redes;
  • Mobilidade nas calçadas: árvores com raízes não invasivas;
  • Redução de riscos de quedas: espécies resistentes e podas preventivas;
  • Resiliência urbana: árvores tolerantes a ventos fortes e solos arenosos que evitem danos as construções existentes.


Engajamento social e educação ambiental


Um paisagismo eficiente envolve toda a comunidade:


  • Praças e áreas públicas como laboratórios vivos de demonstração;
  • Escolas integradas em projetos educativos;
  • Associações da sociedade civil e moradores envolvidos no plantio e manutenção;
  • Parcerias com hortos privados para fornecimento de mudas certificadas e apoio técnico;
  • Quintais residenciais beneficiados com distribuição de mudas e workshops de cuidados com a flora nativa.


Benefícios para a cidade


  • Mais verde, sombra e frescor;
  • Redução de ilhas de calor urbano;
  • Combate natural ao Aedes aegypti;
  • Engajamento comunitário e educação ambiental;
  • Preservação da biodiversidade e da memória histórica da região;
  • Cidades mais seguras, belas e resilientes.


Conclusão


Recuperar, ainda que em parte, a paisagem da Costa Verde de 1502 não é apenas um gesto simbólico: é planejamento urbano inteligente. Mangaratiba e outros municípios litorâneos podem se tornar referência em arborização nativa, integrando legislação ambiental, saúde pública, segurança urbana e educação. Cada árvore nativa plantada é um passo em direção a cidades mais sustentáveis, seguras e conectadas com sua história.

sábado, 29 de novembro de 2025

🇧🇷🐆 Brasil: pátria da Onça‑pintada, guardiã das florestas, símbolo da nossa força e soberania




A Onça‑pintada é mais do que um felino magnífico — é um símbolo vivo do Brasil. Ela carrega nas pintas da pele um retrato da grandeza da nossa terra: florestas ancestrais, rios caudalosos, biodiversidade exuberante. Terra que é nossa, para cuidar, respeitar e proteger 🌿✨.

Onde há onça, há floresta viva — e isso significa água limpa, clima equilibrado e um Brasil forte. A presença desse grande felino nos biomas Amazônia, Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica é prova de que somos detentores de riquezas naturais incomparáveis, que posicionam nosso país como berço de biodiversidade e protagonista nas discussões ambientais globais.

Hoje, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, esse protagonismo ganha reforço real: desde 2024/2025, foram anunciados investimentos históricos em proteção ambiental — com recursos robustos ao Ibama e novas tecnologias de fiscalização, no intuito de preservar o que é nosso por direito: a Amazônia, o Pantanal, a Mata Atlântica.

🌎 Também no palco internacional, o Brasil retoma sua voz — não como mero ator, mas como guarda da floresta global. A repercussão de iniciativas de conservação, como as que protegem a onça‑pintada e promovem a restauração de ecossistemas, reforça o nosso papel de liderança na crise climática, no desenvolvimento sustentável e na diplomacia verde.

✨ Que a onça — tão brasileira quanto a alma do país — nos lembre de que desenvolver-se não significa destruir. Significa cuidar, preservar, inovar. Que cada mata protegida, cada rio respeitado e cada felino salvo signifique a afirmação de um Brasil soberano, consciente e orgulhoso de sua natureza — para hoje e para as próximas gerações.

🇧🇷🌿 Que viva a Onça-pintada! Que viva o Brasil!

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Sob a sombra do Jequitibá: memórias do Macacu



O jequitibá já se erguia com majestade, suas raízes enredadas na terra fértil e seu tronco grosso carregando séculos de chuva e sol. Embora jovem para os padrões do mundo que viria, a árvore já dominava o vale, sua copa enorme lançando sombras frescas sobre o solo onde pequenos animais se escondiam. Ali, sob sua proteção, os povos da região vinham honrar os espíritos da floresta, colher frutos e aprender com os sinais da natureza.

Foi sob essa sombra que Araúna, guerreiro da tribo Guapixana, descansava após a caçada, observando o voo das araras sobre os rios. Seus passos eram firmes, mas respeitosos com a terra, pois desde criança aprendera que a vida se sustentava na harmonia com o mundo vegetal e animal.

Nesse mesmo dia, Itaní, da tribo Tamoio, aproximava-se do jequitibá, recolhendo frutos e ervas medicinais. Seus olhos negros refletiam a luz dourada do sol filtrada pelas folhas, e em seu coração batia uma inquietação. Ao tocar a casca da árvore, sentiu um pressentimento profundo — um futuro desconhecido, onde outros passos além dos humanos, de pele diferente da sua, viriam modificar o mundo que conhecia. Mas naquele instante, o vento apenas sussurrava segredos do presente.

Os olhos de Araúna encontraram os de Itaní. Um silêncio se fez, carregado de curiosidade e respeito. A menina da tribo Tamoio e o jovem Guapixana partilhavam, sem palavras, a linguagem que só a natureza compreende: o murmúrio do vento, o canto do sabiá, o farfalhar das folhas do jequitibá. Com o tempo, ali sob a árvore, começaram a se encontrar, trocando histórias de caçadas, rituais, danças e cantos. Aprenderam sobre os mitos de cada povo: a Guapixana reverenciava o jequitibá como um “guardião da memória dos ancestrais”, enquanto os Tamoio acreditavam que sob sua sombra os sonhos se transformavam em ensinamentos para as gerações futuras.

O namoro cresceu com a estação das chuvas e a seca, com a mesma constância das marés do rio. Cada encontro reforçava o respeito pela terra, o cuidado com as plantas e o equilíbrio com os animais. Itaní ensinava Araúna a reconhecer plantas medicinais e ervas de proteção; Araúna mostrava a força e a paciência da caça, sempre com reverência à vida que ceifava.

Chegou o dia em que, com o consentimento das duas tribos, Araúna passou a pertencer ao povo de Itaní. A união não era apenas de corpos, mas de culturas, línguas, crenças e histórias. Realizaram a cerimônia sob o jequitibá, oferendo frutos e flores ao espírito da árvore, pedindo que guardasse suas vidas e as vidas que viriam. A copa alta parecia abraçá-los, testemunhando aquele momento sagrado.

Ao longo dos anos, mais de cem ciclos solares, o casal assistiu ao nascimento de muitas gerações, cada uma aprendendo a respeitar o mundo natural como eles haviam aprendido. O jequitibá permaneceu firme, testemunha silenciosa das alegrias, tristezas e festas. Sob sua sombra, crianças brincavam, aprendiam as canções dos pássaros e os segredos das ervas. Itaní às vezes sentia o pressentimento do futuro: viajantes de pele clara que chegariam e mudariam o curso da floresta e das aldeias. Mas também percebia que a árvore guardaria a memória de seu povo, mesmo diante da mudança.

O casal ensinou aos descendentes que o jequitibá não era apenas árvore, mas ancestral vivo, guardião da memória da terra, das águas e do ar. E enquanto a terra respirava, enquanto os rios corriam, e enquanto os ventos carregavam sementes e canções, Araúna e Itaní souberam que sua história se entrelaçava para sempre com a do Patriarca que os abrigava.


Os Descendentes: História Continua


Araúna e Itaní já haviam partido há muito tempo, mas sob a copa do jequitibá, seus descendentes continuavam a trilhar os caminhos da floresta, aprendendo com os rios, os ventos e os espíritos das árvores. Os tamoios, agora espalhados por vales e serras, guardavam a memória dos ancestrais e a reverência pela natureza que seus antepassados haviam ensinado.

No século XVI, a chegada dos portugueses à Baía de Guanabara trouxe conflitos, que os cronistas chamariam depois de “Guerra dos Tamoios”. Os descendentes de Araúna e Itaní sentiram o peso da guerra e da doença, mas muitos escaparam para os sertões do Macacu, mantendo viva a cultura indígena. Ali, o jequitibá continuava a crescer, já uma árvore impressionante, testemunha de vidas, encontros e despedidas, guardando sob sua sombra histórias que o colonizador jamais compreenderia.

Com o tempo, a região ao redor do jequitibá começou a se transformar. As trilhas indígenas foram sendo vigiadas pela Coroa portuguesa, que mantinha o controle rigoroso de ingresso de pessoas, para combater contrabandistas que vinham das minas de ouro e de outros pontos do litoral. Boatos sobre um "bandido" apelidado de Mão de Luva corriam pelas serras, assustando viajantes e moradores, mas o vale do Macacu ainda oferecia refúgio a quem conhecia suas curvas e riachos.

No século XVIII, um jovem mestiço de nome Manoel, filho de pai negro e mãe indígena, escravizado em uma fazenda jesuítica de Santo Antônio de Sá, conseguiu escapar. Com passos cautelosos, ele se embrenhou pelos sertões do Macacu, carregando consigo as palavras e cantos que sua mãe lhe ensinara em língua indígena. Entre vales e riachos, chegou ao jequitibá, onde encontrou Potira, uma jovem indígena oriunda de uma tribo situada na atual Nova Friburgo. O encontro foi silencioso, carregado de curiosidade e reconhecimento mútuo entre as almas, como se a própria árvore os chamasse para se aproximar.

Ali, sob a sombra do Patriarca, o jovem mestiço e a indígena iniciaram um vínculo que cresceria com o tempo. Ele aprendeu os caminhos da mata, a língua do povo dela e os segredos das ervas medicinais. Ela, por sua vez, compartilhava o conhecimento dos ciclos da floresta, das estrelas e dos rios. Eventualmente, com o consentimento do povo de Potira, Manoel passou a integrar sua tribo, e a união foi celebrada com ofertas ao jequitibá, que guardava, como sempre, a memória dos ancestrais.

Ao longo de décadas, o casal assistiu à transformação do entorno. As florestas, no começo, ainda eram densas, mas as clareiras começaram a surgir no século XIX com a lavoura do café, que se expandia gradualmente para os vales férteis.

Pequenos sítios e fazendas como a Morro Queimado surgiram, mas, apesar disso, o casal conseguia viver em relativa paz, caçando, cultivando e celebrando os ciclos da natureza.

Quando já eram idosos, viram naturalistas estrangeiros, curiosos com a riqueza da Mata Atlântica, passando pelas serras, os quais admiravam a biodiversidade que florescia sob a guarda do Patriarca, sem imaginar que o jequitibá já tinha testemunhado séculos de histórias humanas.

Todavia, mudanças avançavam inexoráveis: a chegada dos colonos suíços e alemães trouxe novos assentamentos, estradas e plantações, fragmentando a floresta e alterando o curso de rios e trilhas. O café tornou-se cada vez mais dominante, e a pressão sobre as terras indígenas aumentou. Os descendentes do casal presenciaram a destruição gradual de grandes trechos de Mata Atlântica, a diminuição dos animais, e a morte de muitos membros de suas comunidades pelo contato forçado com os brancos, doenças e violência.

Manoel e Potira envelheceram sob o jequitibá, vendo as gerações se sucedendo e sobrevivendo, apesar da alta taxa de mortalidade, testemunhando também a devastação da terra que sempre fora sagrada. Ainda assim, eles permaneciam fiéis aos ensinamentos dos antepassados, cultivando respeito pelos espíritos da floresta, contando histórias às crianças e mantendo vivas as canções que ensinavam a ler os sinais da natureza.

Mesmo diante da chegada de novos povos, da transformação das florestas e da expansão das plantações, o jequitibá resistia, continuando a ser a testemunha silenciosa de séculos, carregando na casca e nas raízes a memória de indígenas, mestiços, negros e todos aqueles que sob sua sombra aprenderam a respeitar a terra e a vida.


Séculos de Memória




Com o passar dos anos, os descendentes de Potira e do jovem mestiço foram diminuindo em número e já não viviam em tribos. Muitos foram assassinados por fazendeiros ou colonos, enquanto outros tornaram-se escravizados de forma ilegal ou fugiam indo cada vez mais para o interior, e pouco a pouco a presença indígena tornou-se quase imperceptível nos vales e nas serras do Macacu. Ainda assim, a memória da terra, a reverência pelo jequitibá e os cantos antigos sobreviviam em alguns poucos, transmitidos de avós a netos.

No século XIX, com a influência do Barão de Nova Friburgo, a ferrovia chegou a Cantagalo, passando por Nova Friburgo e passando não muito distante do jequitibá. Menos de duas décadas depois, a Abolição da Escravatura mudaria novamente a paisagem social da região. Nova Friburgo cresceu, tornando-se uma cidade industrial e também turística, enquanto Cachoeiras de Macacu, após o fim do ciclo do café na década de 1930, mudava suas culturas agrícolas, com áreas de pasto, bananas e hortaliças.

A mata, aos poucos, começou a se regenerar espontaneamente, beneficiada pelas chuvas abundantes, mas os habitantes indígenas originais não mais estavam presentes. As onças grandes tornaram-se raras e algumas espécies desapareceram. A ferrovia precisou de cortes de árvores para fornecer combustível às locomotivas, mas com a construção da estrada de ferro moderna, a antiga linha foi desativada. 

Expansões urbanas deram origem a bairros e pequenas propriedades de veraneio. Apenas trechos da mata foram preservados nas áreas mais altas e por sorte as margens da rodovia mantiveram-se com poucas ocupações, em especial por causa de uma captação da CEDAE , garantindo água limpa e sombra para o trecho do vale.

No início do século XXI, mais precisamente em meados de 2002, durante a curta gestão de uma mulher negra que governou o Rio de Janeiro, foi criado o Parque Estadual dos Três Picos. A unidade de conservação passou a proteger fragmentos importantes da Mata Atlântica e, consequentemente o jequitibá.

Dez anos depois, em 2012, durante os dias da conferência Rio+10, um jovem chamado Roberto, morador de Nova Friburgo, descendente de uma das últimas indígenas da região — bisneto, portanto, de uma das últimas descendentes do casal ancestral — decidiu descer a serra com amigos para uma expedição na floresta.

O passeio era uma celebração da vida. Roberto havia sobrevivido à terrível enchente de janeiro de 2011, sendo resgatado pelos bombeiros apenas três dias depois. Agora recuperado, podia caminhar novamente, sentindo o cheiro da terra molhada e ouvindo o canto dos pássaros nas trilhas que seguiam o leito da antiga ferrovia.

Chegando em Boca do Mato, seus amigos decidiram pegar um ônibus de volta pela RJ-116, pois a noite se aproximava e o frio aumentava. Roberto, porém, continuou sozinho pelo caminho do antigo trem, determinado a encontrar o jequitibá que tantas histórias guardava.

Quando se aproximou da árvore, sentiu algo inesperado: uma presença antiga e familiar, mesmo que estranha. Sob a sombra imensa, encontrou uma jovem indígena do Acre, participante de alguns dos eventos da Rio+10. 

Seu nome era Yaraê, da tribo Kaxinawá, conhecida por sua ligação profunda com a floresta e os rios. Havia algo nos olhos dela, na maneira como tocava a casca da árvore, que o fez sentir que já se conheciam há séculos.

O encontro foi inevitável. Sem palavras, mas com uma compreensão profunda que transcendia o tempo, eles se aproximaram e se beijaram, sentindo correr o sangue indígena que ambos carregavam, mesmo que Roberto pouco soubesse sobre seus ancestrais já que conviveu tão pouco tempo com sua bisavó que, por sua vez, não nasceram numa tribo. 

Com promessas silenciosas, os dois combinaram de se reencontrar no Rio de Janeiro, durante a conferência, e mais tarde, em janeiro de 2013, numa viagem que Roberto faria até o Acre, onde começaria uma nova vida ao lado de Yaraê com quem se casou. 

O casal passou a trabalhar no projeto ambiental de uma ONG em Cruzeiro do Sul. Somente depois do fim da pandemia por COVID-19 é que voltaram a Nova Friburgo trazendo consigo os filhos para que eles conhecessem os avós paternos. No trajeto, fizeram questão de parar o carro no caminho a fim de mostrar às três crianças a grande árvore onde os pais se viram e se beijaram pela primeira vez.

O jequitibá, patriarca da serra e guardião das memórias do Macacu, permanece lá até os dias de hoje. Sempre imponente, como uma testemunha silenciosa de séculos de encontros, despedidas, amor, perdas e renascimentos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Muros ou verde? Uma alteração na Lei Orgânica que Mangaratiba precisa fazer

 


Mangaratiba é um dos municípios mais bonitos e ecologicamente importantes do Estado do Rio de Janeiro. Somos guardiões de uma fatia preciosa da Mata Atlântica, das encostas, das restingas, das praias e dos ecossistemas costeiros que fazem parte de nossa identidade territorial.


No entanto, paradoxalmente, a nossa própria legislação municipal ainda carrega dispositivos que caminham na contramão da sustentabilidade que tanto defendemos. E um desses dispositivos é o artigo 202 da Lei Orgânica, que obriga que todos os lotes urbanos sejam cercados exclusivamente por muros de alvenaria.


É exatamente isso! Um município com alto potencial de turismo ecológico, com a pesca artesanal, belezas naturais e que se orgulha de sua vocação ambiental proíbe a alternativa mais ecológica, mais bonita e mais saudável de vedação urbana que é a cerca viva, obrigando os proprietários a construírem muros de alvenaria.


Ora, essa é uma imposição que já não faz sentido algum — nem ambiental, nem jurídico, nem urbanístico.


⛔ Por que o artigo 202 é um problema?


  1. Porque impede soluções verdes:
    Ao proibir cercas vivas, o município impede que os cidadãos contribuam com a arborização urbana, com a biodiversidade local e com a melhoria climática do bairro onde vivem.

  2. Porque cria muros que agravam o calor:
    Cada muro de concreto absorve calor e aumenta a temperatura das ruas. Em dias de 40 graus, esse impacto não é pequeno.

  3. Porque fere a autonomia privada:
    O Código Civil permite que o proprietário escolha o tipo de vedação — inclusive cerca viva — desde que não prejudique o vizinho.
    A Lei Orgânica faz o oposto: impõe um único modelo, rígido e antiquado.

  4. Porque contraria o Estatuto da Cidade:
    A política urbana brasileira deve promover sustentabilidade, participação social, paisagem urbana equilibrada e uso racional do solo.
    Nada nisso combina com a obrigatoriedade exclusiva de muros.

  5. Porque é ultrapassado:
    Cidades modernas — São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Brasília — incentivam cercas vivas e fachadas verdes.
    Mangaratiba, que deveria estar na vanguarda, retrocede.


🌱 Mangaratiba poderia liderar uma transformação verde


Imaginem uma cidade onde:


  • as ruas tenham mais sombra natural;
  • as casas dialoguem com a vegetação local;
  • a biodiversidade urbana aumente;
  • a temperatura baixa alguns graus;
  • os bairros tenham um visual mais agradável e integrado com a Mata Atlântica.


Tudo isso pode começar simplesmente permitindo a cerca viva como alternativa ao muro.


Certamente que o legislador não deve obrigar obrigar ninguém a plantar, mas, sim, restaurar o direito de escolha do cidadão e promover políticas públicas ambientalmente responsáveis.


📜 O que deve ser feito?


A mudança é simples! Basta o artigo 202 ser revisto pela Câmara Municipal para permitir que o proprietário escolha entre muro, gradil, cerca viva ou outro tipo de vedação ambientalmente adequada. E essa revisão pode ser proposta por dois caminhos:


1. Iniciativa do Prefeito


É perfeitamente possível — e desejável — que o Prefeito envie à Câmara Municipal uma Mensagem propondo a Emenda à Lei Orgânica.
Seria um gesto firme de compromisso ambiental e urbanístico.


2. Iniciativa dos Vereadores


Qualquer vereador ou grupo de vereadores pode propor a Emenda.
Aliás, essa é uma pauta que deveria unir todos os parlamentares:

  • melhora a cidade,
  • moderniza a legislação,
  • atende aos moradores,
  • e fortalece a imagem de um município que respeita seu patrimônio natural.


📣 O papel do cidadão: reivindicar


Nada mudará se nós, moradores, ficarmos calados.
É hora de reivindicar:


  • mais verde nas ruas,
  • mais liberdade urbana,
  • mais sustentabilidade na legislação.


Fale com seu vereador!


Envie e-mails, protocole ofícios, manifeste-se nas redes sociais.


Se possível, leve essa pauta para associações de moradores, grupos ambientais e conselhos municipais.


Mangaratiba precisa — e merece — uma lei orgânica que reflita seus valores ambientais.


🌿 Conclusão: é preciso coragem para mudar


Revisar o artigo 202 é mais que uma mudança técnica! 

É uma mudança de paradigma.


É reconhecer que:


  • o verde não é inimigo da cidade,
  • o muro não pode ser tratado como única solução,
  • e que sustentabilidade urbana começa pelos detalhes do cotidiano.


Espero sinceramente que essa demanda seja acolhida e que Mangaratiba se torne exemplo de cidade que respeita seu ambiente natural também na sua legislação. Pois não basta falar de meio ambiente. É preciso legislar de forma ambiental

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O Rio de Iara e as vozes de um mundo colapsado



O sol nascia por detrás do que restava do Pão de Açúcar. O mar, mais alto e espesso, lambia os topos dos prédios submersos, enquanto as gaivotas, híbridas de carne e circuito, riscavam o céu como pincéis elétricos. O vento trazia cheiro de sal e de memória.


Iara vivia numa das ilhas flutuantes do pós-colapso. Nasceu em 2178, mas sentia saudades de um tempo muito anterior — um tempo que só conhecia pelos relatos preservados nos Arquivos da Terra, onde vozes antigas falavam de praias, risadas, batuques e multidões em estádios.


As lendas diziam que, antes do dilúvio urbano, o território do Rio fora habitado por Tupinambás, que chamavam o mar de “a respiração da deusa”. Dentre eles, um guerreiro — Araribóia, o homem que viera do mar — havia enfrentado a violência dos conquistadores e fundado um novo lar, em Niterói. Nas histórias orais contadas nas aldeias flutuantes, Araribóia não era herói, mas guardião: aquele que entendeu que terra, corpo e alma são a mesma matéria.


Certa manhã, mergulhando perto das ruínas de uma ponte antiga, Iara encontrou um medalhão coberto de limo. Gravadas nele, estavam as palavras: “Cidade de São Sebastião”. Ao tocá-lo, uma vibração percorreu sua pele — e ela ouviu, nítida, uma voz feminina no fundo das águas: “Desce à cidade da memória.”


E assim começou sua travessia.


A Cidade da Memória


A antiga cidade dormia sob metros de silêncio. O Museu do Amanhã era agora um esqueleto branco — asas fossilizadas de uma esperança que não aprendeu a voar. 


Já  a Biblioteca Nacional resistia, meio soterrada, guardando cápsulas de dados que pulsavam como corações esquecidos. Iara ativou um dos arquivos, e o passado se abriu diante dela:


— O século XIX, os navios negreiros, os corpos acorrentados que ergueram o império;
— D. Pedro II, ordenando a restauração da Floresta da Tijuca, sonhando que o verde salvaria a cidade da sede e da poeira;
— As reformas de Pereira Passos, que demoliram cortiços e apagaram os pobres em nome da “civilização”;
— O século XX, com as favelas nascendo nas encostas e o povo reinventando o mundo em samba e futebol.


E entre todas as vozes, duas se destacavam — Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.

Os arquivos mostravam escolas coloridas, crianças de uniformes azuis e professores sorrindo em pátios ensolarados: os CIEPs. Era a tentativa de educar o Brasil para o futuro. No entanto, as imagens seguintes mostravam o abandono dos governos que foram sucedendo em cada quatro e quatro anos: paredes rachadas, promessas esquecidas, a indiferença política.


Iara tocou o visor e murmurou:

— Eles tentaram.

E uma voz respondeu, do arquivo antigo de Darcy Ribeiro:

“O fracasso da educação é o sucesso da ignorância organizada.”


A frase ecoou na água como um aviso. Naquela ruína submersa, Iara percebeu que o colapso do planeta começara muito antes das tempestades — começara quando se deixou de educar, de imaginar, de sentir. 


Refletindo acerca disso,  ela encontrou um fragmento de gravação de 1992: a Eco-92, a cúpula da Terra. Ali, líderes do mundo inteiro prometiam um “amanhã sustentável”. Atrás deles, viu uma mulher sorria, segurando uma muda de árvore.


“Um dia”, dizia a voz, “o amanhã não será apenas um museu.”


Iara sorriu — e chorou ao mesmo tempo.


O Coração do Rio


O sol nascia vermelho sobre as florestas verticais que cobriam o que um dia fora o Morro do Alemão. Iara subia entre as raízes, tocando os troncos como se cumprimentasse antigos deuses. Os galhos guardavam marcas humanas — nomes, corações, letras apagadas de orações e protestos.

“Marielle vive”, dizia uma, ainda legível sob o musgo.


No alto, um grupo de músicos tocava samba, maracatu, tambores híbridos feitos de fibra e concha. O Dia da Voz da Terra reunia todos os sobreviventes — descendentes de indígenas, negros, mestiços, exilados do mundo que fora. Homens e mulheres dançavam com os pés descalços, corpos livres, suados, vibrantes.


Iara dançava entre eles, com o sol queimando seus ombros nus e a pele refletindo o brilho dourado das águas. Sua sensualidade não era provocação: era celebração. O corpo, ali, era parte da paisagem — tão natural quanto o vento. E por um instante, o mundo pareceu lembrar que o prazer também é uma forma de sabedoria.


Um velho músico se aproximou, os olhos brilhando como o mar noturno:


— Tu sabes por que o mundo caiu, menina?

— Porque esquecemos de ouvir — respondeu ela.


Ele sorriu e lhe entregou um tambor feito de madeira da antiga Tijuca.

— Então bate. O som é o que nos resta.


Iara bateu. O som ecoou pelos vales, atravessando o Atlântico, as plantas se abriram em flores luminosas e os drones que sobrevoavam o céu pararam no ar. Do fundo da baía, ergueu-se uma figura imensa — Gaia, ou talvez o próprio espírito do Rio de Janeiro.


Seu rosto mudava — ora indígena, ora africano, ora mestiço. E quando falou, a voz soava como samba e trovão:


“Toda dor guardada é uma semente.
Toda lembrança é um rio que busca o mar.
Vocês são o que sobrou e o que virá.
Ouçam — o coração da Terra bate em português.”


O tambor de Iara se confundiu com o batuque coletivo. As águas recuaram e o vento trouxe o cheiro da floresta replantada. E, pela primeira vez em séculos, o Rio respirou de novo — com a alegria, a luta e o corpo inteiro do Brasil.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O Canto de Gaia

 


O ano era 2071. O planeta ardia em silêncio, os mares subiam, os ventos rugiam, e o ar de muitas cidades já não era respirável sem filtros pessoais.

Rafael Moreira, físico quântico brasileiro de quarenta e dois anos, dormia pouco e sonhava demais. Trabalhava num laboratório subterrâneo, em Genebra, financiado por um consórcio que dizia buscar “soluções climáticas” — mas que, no fundo, testava saltos temporais como forma de fuga.

Naquela semana, ocorria a COP-77, uma conferência global sobre o clima que, como as anteriores, oscilava entre discursos e promessas adiadas. Rafael foi convidado para apresentar um estudo sobre “viabilidade energética de confinamento quântico” — uma pesquisa que poderia, em teoria, permitir observar futuros possíveis do planeta.

No auditório de vidro, enquanto políticos e executivos trocavam apertos de mão mecânicos, ele olhou para o público e, por um instante, decidiu abandonar o roteiro. Falou não sobre fórmulas, mas sobre a memória da Terra.

— Se conseguíssemos ouvir o planeta, talvez não precisássemos salvá-lo — disse, em tom sereno. — Ele tenta nos ensinar há séculos. O problema é que só ouvimos quando já é tarde.

Alguns aplaudiram por cortesia. Outros riram discretamente. Rafael desceu do palco sentindo-se estrangeiro no próprio tempo.

Naquela mesma noite, voltou ao laboratório e ativou a câmara de salto. Queria provar — a si mesmo, talvez — que ainda havia um futuro para acreditar.

Repentinamente, um campo de luz azul se abriu, engolindo Rafael. Foi como se o mundo todo desaparecesse.


O Ano 2300




Quando o clarão cessou, Rafael caiu sobre um solo úmido e perfumado. As árvores tremulavam com cores que não existiam em seu século. O ar era limpo, vivo — como se tivesse textura. No horizonte, erguiam-se estruturas translúcidas que pareciam crescer da terra como cristais orgânicos.

Uma mulher o observava de longe. Pele cor de cobre, olhos calmos, túnica feita de fibras que se moviam com o vento. Chamava-se Aruanã.

— Você está bem? — perguntou, aproximando-se.
— Onde… onde eu estou? — gaguejou Rafael.
— Na Terra — respondeu ela. — Ano dois mil e trezentos.

O som das palavras dela parecia música.

Aruanã o levou à Casa-Comunidade, onde as construções respiravam e o ar era temperado por jardins suspensos. Ali, Rafael conheceu o mundo que os antigos chamariam de impossível: cidades que não feriam o solo, economias baseadas em trocas e ciclos naturais, política transformada em coro, e decisões tomadas por meio de cânticos coletivos guiados pela Rede Gaia, um sistema de inteligência ecológica e espiritual interligado a todas as formas de vida.

Não havia miséria e nem pressa. As crianças aprendiam matemática observando o voo dos insetos, e a história era contada em forma de mito — não para esquecer o passado, mas para curá-lo.

— Foi assim que sobrevivemos — disse Aruanã. — Aprendendo a não dominar, mas escutar.
— E as máquinas? — perguntou Rafael. — Onde estão?
— Dentro de nós. — ela sorriu. — E nós dentro delas. A fronteira desapareceu.

O Canto


No alto da Torre-Viva, Aruanã mostrou-lhe o horizonte ao entardecer. O céu era uma sinfonia de cores em que drones biológicos cruzavam o ar, espalhando sementes e ajustando o equilíbrio térmico global. No mar, embarcações translúcidas coletavam luz solar e devolviam energia às cidades costeiras.

Então começou o Canto de Gaia. De cada canto do planeta, vozes humanas e sons naturais se uniam em uma única harmonia — o batimento do mundo. Rafael chorou.

— Isso… é o que sonhamos nas conferências — disse, lembrando-se da COP. — Falamos tanto e escutamos tão pouco.
— O som estava lá — respondeu Aruanã, colocando a mão sobre o peito dele. — Vocês apenas esqueceram de ouvir.

Durante sete dias, Rafael viveu entre eles, sentindo-se pela primeira vez completo. No entanto, o campo quântico não o deixaria permanecer. 

A fenda azul se abriu novamente. Ele segurou as mãos de Aruanã.

— Se eu voltar e contar o que vi, ninguém vai acreditar.
— Não precisa contar — disse ela. — Basta lembrar. Cada ato de cuidado é uma ponte entre séculos.

E ele foi engolido pela luz.


O Retorno




O barulho das máquinas o golpeou como um soco. Alarmes, luzes vermelhas, gritos de técnicos — o laboratório estava em colapso. No entanto, Rafael não ouviu nada. Apenas o eco suave do canto no coração.

Nos dias seguintes, o mundo lhe pareceu um delírio febril. As ruas cobertas de fumaça, os drones entregando comida industrial, os telões vendendo felicidade instantânea. Tudo tão velho, tão gasto, tão surdo.

Ele deixou o trabalho. Em silêncio, começou a escrever o que lembrava: não uma tese, mas um testamento poético. Chamou-o de Gaia: a lembrança do amanhã. No texto descrevia um planeta que havia aprendido a se ouvir, uma humanidade reconciliada com sua própria casa.

Publicou o artigo anonimamente, em fóruns e redes subterrâneas. O manifesto se espalhou como vento em faísca seca. Jovens começaram a citá-lo em protestos ambientais, enquanto poetas o recitavam nas praças. Já os cientistas o estudavam como teoria simbiótica de futuro.

Assim, o nome Gaia reapareceu — não como mito, mas como possibilidade.


A Última COP


Alguns anos depois, Rafael foi convidado a falar na COP-82, realizada em Nairobi. Aceitou a proposta mas, dessa vez, não levou slides nem projeções. Levantou-se diante de chefes de Estado, empresários e ativistas e, em vez de discurso, entoou uma canção.

Era o mesmo ritmo que ouvira em 2300 — o Canto de Gaia. A melodia parecia simples, mas algo nela desarmava o público. Alguns começaram a chorar; outros fecharam os olhos.

— Este é o som do planeta respirando — disse Rafael, com a voz baixa. — Não há política capaz de substituí-lo.

Houve um silêncio. Pela primeira vez, em décadas, uma conferência do clima terminou não em promessas, mas em escuta.


A Flor do Tempo


No ano seguinte, Rafael desapareceu. Uns disseram que ele se mudou para o interior, para uma casa à beira de um rio. Outros contaram que o campo quântico o levou novamente.

Entretanto, o que se sabe é que, meses depois, os vizinhos encontraram no quintal uma planta nunca vista antes: folhas translúcidas, pulsando luz como respiração. Chamaram-na de Flor do Tempo. E ao entardecer, quando o vento passava por entre suas pétalas, um som suave podia ser ouvido — uma melodia distante, lembrando uma voz feminina.

Aruanã.

E assim, entre passado e futuro,
o planeta continuou a cantar:

 

“O futuro já existia em nós —
só esperava que lembrássemos dele.”

domingo, 21 de setembro de 2025

Não tive filho e ainda não escrevi um livro, mas já plantei algumas árvores...



Ao convocar todas e todos para as manifestações políticas deste domingo, não pude deixar de lembrar da maior árvore que tenho aqui em casa, que é essa mangueira plantada por mim há mais de 20 anos, logo no começo deste século, quando minha avó paterna Darcilia ainda estava viva passando seus dias em Muriqui. 

Hoje, 21 de setembro, para quem não sabe, é comemorado o Dia da Árvore, a qual é fundamental para o clima e para o meio ambiente termos árvores tanto nas áreas rurais quanto nas cidades e povoados. 

Justamente lembrando disso, gravei um vídeo que já está compartilhado nas redes sociais. Segue o link: https://youtu.be/8pfe_5ZXhNo?si=1XLCapLbu9EpAV2B 



Um excelente domingão a tod@s!

sábado, 18 de janeiro de 2025

Vinte e cinco anos de uma tragédia ambiental

 

Mancha afetou colônia de pescadores em Jurujuba, Niterói
📷: Márcia Foletto


Há exatos 25 anos, mais precisamente na madrugada de 18 de janeiro de 2000, ocorria o vazamento de cerca de 1,3 milhões de litros de óleo combustível na Baía de Guanabara.

O acidente aconteceu num oleoduto de responsabilidade da Petrobras, espalhou o produto poluente por cerca de 40 Km² e atingiu a área de proteção ambiental (APA) de Guapi-Mirim. 

Apenas 3 horas após o ocorrido é que o órgão responsável por emergências ambientais no Estado do Rio de Janeiro, o Serviço de Controle de Poluição Acidental (SCPA) da FEEMA, teve ciência dos fatos no dia do ocorrido. 

Devido à gravidade do acontecimento, o Plano de Resposta a Emergência da Baía de Guanabara (PEBG) foi acionado, enquanto uma embarcação da Petrobras recolhia o óleo derramado e barreiras de contenção de outras empresas do ramo de petróleo foram utilizadas para evitar ao máximo que o óleo se dispersasse. 

Técnicos da SCPA sobrevoaram a Baía de Guanabara e acompanharam a dispersão do vazamento, identificando que, em menos de 24 horas, o óleo já atingia as praias de Mauá, Anil, Limão e São Francisco no fundo da Baía. Percebeu-se que as barreiras de contenção e embarcações utilizadas na contingência eram insuficientes, de modo que o óleo atingiu também a ilhas de Paquetá, Brocoió e outras regiões da Baía. 

Estima-se que cerca de 12 mil pescadores tiveram suas atividades prejudicadas por conta do vazamento, de forma que a Federação dos Pescadores do Estado do Rio de Janeiro (FEPERJ) entrou com ação na Justiça cobrando reparações financeiras relacionadas aos danos morais.

Além dos prejuízos econômicos ligados a pesca, a atividade turística também sofreu redução drástica em suas atividades, especialmente na visitação à Ilha de Paquetá.

Na época, eu tinha apenas 23 anos e já participava de causas ambientais na cidade de Nova Friburgo onde morava cursando Direito. Foi trágico ter lido nos jornais e nas notícias na internet acerca do acontecimento que repercutiu por muitos anos sem que houvesse um amparo imediatamente suficiente aos pescadores. 

Lembrar de fatos como esse é importante para que as pessoas não percam a consciência da preservação da natureza e haja um frequente monitoramento das atividades econômicas que são potencialmente impactantes para o ambiente.


Registro do senhor Edésio Ribeiro rodeado de peixe morto
📷: Domingos Peixoto - 21/01/2000 / O Globo

Imagem icônica de mergulhão coberto por óleo em Magé

Um ótimo sábado a tod@s!

sábado, 14 de setembro de 2024

O primeiro cientista a nos alertar sobre as mudanças climáticas



Há exatos 255 anos, mais precisamente em 14 de setembro de 1769, nascia o geógrafo, polímata, naturalista, explorador e proponente da filosofia romântica prussiano Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander von Humboldt, o barão de Humboldt, mais conhecido como Alexander von Humboldt. 


Entre 1799 e 1804, ele viajou extensivamente pelas Américas, explorando e descrevendo-as pela primeira vez de um ponto de vista científico ocidental moderno, o que veio a ser publicado em vários volumes ao longo de 21 anos. 


Humboldt também foi a primeira pessoa a descrever o fenômeno e a causa da mudança climática induzida pela humanidade em 1800 e novamente em 1831, baseando-se em observações colhidas em suas viagens. 


Por muitos, ele é considerado "o pai da ecologia" e "o pai do ambientalismo".


OBS: Retrato feito por Joseph Karl Stieler (1843)