Em apenas 48 horas, Nova York reuniu acontecimentos suficientes para oferecer um retrato bastante claro das tensões que atravessam o mundo neste final de 2026.
Luiz Inácio Lula da Silva deixou temporariamente a campanha presidencial brasileira, faltando apenas 11 dias para o primeiro turno de 4 de outubro, encontrou-se com diferentes lideranças políticas e, na manhã de terça-feira, abriu o Debate Geral da Assembleia Geral das Nações Unidas.
Poucas horas depois, Donald Trump ocupou a mesma tribuna.
Não foi necessário que um citasse nominalmente o outro para que surgisse um contraste bastante nítido.
De um lado, Lula falou em soberania, rejeição a interferências externas, multilateralismo, respeito à autodeterminação dos povos e cooperação entre os países.
Do outro, Trump falou em reafirmação do poder americano no Hemisfério Ocidental, apresentou a operação militar realizada na Venezuela como demonstração da capacidade dos Estados Unidos e afirmou que seu país poderá recorrer novamente ao poder militar para assegurar aquilo que considerar seus interesses nacionais vitais.
Mais do que uma divergência entre dois presidentes, talvez estejamos diante de duas respostas diferentes para uma pergunta que vai se tornando inevitável: qual será a regra predominante do mundo que está surgindo?
Quarenta e oito horas fora da campanha
A viagem de Lula foi curta. Na prática, representou uma interrupção de aproximadamente 48 horas na campanha eleitoral brasileira.
Ainda assim, foi politicamente intensa.
Na segunda-feira, 21 de setembro, o presidente encontrou-se, entre outros, com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, com o senador americano Bernie Sanders e com o presidente uruguaio Yamandú Orsi. A agenda também incluiu o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.
Com Mamdani, um dos temas foi o custo de vida. O prefeito nova-iorquino mencionou programas sociais brasileiros como referência para políticas destinadas às famílias que enfrentam dificuldades com alimentação e moradia.
O encontro com Bernie Sanders teve outro significado. No dia seguinte, o senador publicou uma mensagem bastante elogiosa ao presidente brasileiro, afirmando que Lula havia retirado milhões da pobreza, fortalecido proteções aos trabalhadores e protegido a democracia brasileira. Também registrou que conversaram sobre os desafios enfrentados pelo Brasil, pelos Estados Unidos e pela comunidade internacional.
Não se trata formalmente de um pedido de voto no processo eleitoral brasileiro. É, porém, uma manifestação política claramente favorável feita por uma das figuras mais conhecidas da esquerda americana.
Há também uma continuidade nessa aproximação. Sanders já havia se reunido com Lula em Washington, em 2023, quando discutiram democracia, direitos trabalhistas, sindicatos, meio ambiente e cooperação entre Brasil e Estados Unidos.
Horas antes da abertura da Assembleia Geral deste ano, Sanders também discursou em Nova York sobre aquilo que considera o avanço internacional da oligarquia e o recuo da democracia.
Portanto, não foi apenas uma fotografia. A passagem de Lula por Nova York colocou o presidente brasileiro em contato com setores da política americana que apresentam uma visão bastante diferente daquela atualmente expressa pelo governo Trump sobre democracia, relações internacionais e América Latina.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”
Na terça-feira, Lula levou essa discussão para a tribuna das Nações Unidas.
O presidente advertiu contra interferências estrangeiras em eleições, falou no recrudescimento de “tentações hegemônicas” na América Latina e afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Defendeu parceiros capazes de contribuir para o desenvolvimento do país e sustentou que o futuro da Venezuela deve ser decidido pelos próprios venezuelanos.
A frase sobre o “quintal” tem evidentemente uma carga histórica. Desde o século XIX, as relações entre os Estados Unidos e a América Latina convivem com a ideia de esfera de influência, intervenções políticas e militares, apoio ou oposição a governos e disputas econômicas que atravessaram diferentes administrações americanas.
O que torna 2026 diferente é que essa discussão deixou novamente de ser apenas histórica.
O precedente de 3 de janeiro
Em 3 de janeiro, forças americanas realizaram uma operação militar em território venezuelano e capturaram Nicolás Maduro.
A legalidade internacional da ação foi imediatamente questionada.
A administração Trump apresentou diferentes justificativas, entre elas o combate ao narcotráfico e a existência de acusações criminais contra Maduro nos Estados Unidos. Juristas ouvidos pela Reuters observaram, no entanto, que uma acusação criminal americana não constitui, por si só, autorização para emprego de força militar no território de outro Estado. A Carta das Nações Unidas admite hipóteses específicas de uso da força, particularmente legítima defesa e operações autorizadas pelo Conselho de Segurança, além da situação de consentimento do Estado territorial.
Dois dias depois, António Guterres afirmou perante o Conselho de Segurança estar profundamente preocupado porque as normas do direito internacional não haviam sido respeitadas na intervenção de 3 de janeiro. Lembrou ainda que a Carta proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial e a independência política dos Estados.
O artigo 2º da Carta é bastante claro ao estabelecer a igualdade soberana entre seus membros, a solução pacífica das controvérsias e a proibição da ameaça ou uso da força contra outro Estado.
Nada disso significa que Donald Trump tenha anunciado formalmente que os Estados Unidos deixarão de observar o direito internacional.
Não anunciou.
O problema está em outra parte.
Da exceção ao precedente
Durante seu discurso na própria Assembleia Geral, Trump apresentou as ações americanas na Venezuela como uma vitória e como advertência para outros países.
Segundo ele, o episódio demonstraria que os Estados Unidos não mais permitirão que ameaças aos seus interesses se estabeleçam em qualquer parte do Hemisfério Ocidental. Acrescentou que, se considerar necessário, empregará o poder militar americano para assegurar os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos.
Há uma diferença importante entre tentar justificar juridicamente uma ação excepcional e apresentar essa ação como modelo de comportamento futuro.
É essa passagem que merece atenção.
Trump não afirmou que a Carta das Nações Unidas deixou de existir. Tampouco construiu, em seu discurso, uma nova doutrina jurídica sofisticada tentando demonstrar como intervenções desse tipo seriam compatíveis com as exceções previstas na Carta.
Sua argumentação foi principalmente política e estratégica: existem ameaças aos Estados Unidos, existem interesses nacionais americanos e existe poder militar suficiente para protegê-los.
Isso desloca o centro da discussão.
A pergunta deixa de ser somente “qual norma internacional autoriza esta operação” e passa a ser" “até onde uma grande potência entende que seus próprios interesses lhe conferem liberdade para agir?”
Venezuela, petróleo e ouro
A discussão torna-se ainda mais sensível quando observamos o que aconteceu depois de janeiro.
Nos meses seguintes à captura de Maduro, Washington incentivou investimentos americanos nos setores energético e mineral venezuelanos.
Em setembro, autoridades venezuelanas concederam a uma empresa sediada em Nova York direitos de operação e exportação numa mina de ouro, enquanto a Continental Resources avançou em negociações para desenvolver uma grande área petrolífera na Faixa do Orinoco.
A Reuters informou que energia e mineração estão entre os setores priorizados para novos investimentos e que há ênfase no aumento das exportações de commodities para os Estados Unidos.
Fato é que não se pode ignorar a sequência dos acontecimentos.
Primeiro ocorreu a intervenção militar. Depois veio a reorganização política venezuelana. E, em seguida, aceleraram-se os acordos envolvendo petróleo, ouro e investimentos estrangeiros.
Agora, perante a Assembleia Geral, o presidente americano apresenta a Venezuela como demonstração bem-sucedida da disposição de Washington de impor seus interesses no hemisfério.
Recursos naturais voltam ao centro da geopolítica
Existe ainda um cenário internacional mais amplo.
A competição entre Estados Unidos e China passa cada vez mais por cadeias produtivas consideradas estratégicas: energia, semicondutores, baterias, inteligência artificial e minerais críticos.
No caso das terras raras, por exemplo, a presença chinesa na cadeia mundial de processamento continua sendo uma importante vulnerabilidade para os Estados Unidos e tornou-se tema central das negociações entre Washington e Pequim.
A questão americana, portanto, é compreensível sob a lógica da segurança econômica: como reduzir dependências externas que podem transformar-se em instrumentos de pressão chinesa?
A resposta pode seguir caminhos bastante diferentes.
Um deles é econômico.
Os Estados Unidos podem oferecer investimento, financiamento, tecnologia, infraestrutura, acesso ao mercado e preços capazes de tornar suas propostas mais interessantes para países que hoje negociam intensamente com a China. E podem também reconstruir cadeias industriais domésticas, desenvolver novas tecnologias, incentivar reciclagem e diversificar fornecedores.
Esse é o terreno normal da competição internacional.
Existe, contudo, outro caminho: transformar poder militar e pressão política em instrumentos para obter mudanças que não seriam alcançadas numa negociação puramente econômica.
É aí que a discussão deixa de ser apenas comercial.
O problema da diplomacia coercitiva
Nas relações internacionais existe um conceito conhecido como diplomacia coercitiva.
Em termos gerais, trata-se do emprego de ameaças, pressões e, em determinados casos, força limitada para alterar o comportamento de outro Estado sem chegar necessariamente a uma guerra em larga escala.
A literatura especializada destaca, porém, que a coerção não funciona apenas por meio da ameaça. Uma estratégia desse tipo costuma depender também de incentivos, garantias e de uma possibilidade de acordo que permita ao outro lado aceitar determinada solução sem assumir um custo político insustentável.
Esse detalhe é importante.
Um governante pressionado publicamente por uma potência militar enfrenta um problema que não existiria numa negociação comercial normal.
Mesmo que a proposta colocada posteriormente sobre a mesa seja economicamente aceitável, seus adversários internos poderão dizer que ele cedeu por medo.
Aquilo que antes poderia ser apresentado como investimento estrangeiro passa a poder ser apresentado como capitulação.
Quanto mais explícita e humilhante for a pressão, maior tende a ser a dificuldade de preservar politicamente a negociação.
E aqui surge um paradoxo para os próprios Estados Unidos.
Como os EUA vão afastar a América Latina da China?
Se Washington deseja reduzir a presença econômica chinesa na América Latina, precisa convencer os governos e as sociedades latino-americanas de que uma parceria maior com os Estados Unidos é vantajosa.
Isso pressupõe confiança.
Pressupõe também a percepção de que cada país continuará tendo liberdade para escolher com quem negociar.
Uma retórica na qual a América Latina aparece como área em que Washington pretende reafirmar sua predominância pode produzir exatamente o efeito contrário.
Governos podem concluir que precisam de mais parceiros, e não de menos, justamente para evitar dependência excessiva de qualquer potência.
China, União Europeia, Índia e outras economias passam então a funcionar também como instrumentos de diversificação estratégica.
O Brasil conhece bem essa lógica.
É um grande fornecedor de commodities, dispõe de importantes recursos minerais, mantém relações históricas com os Estados Unidos e tem na China seu principal parceiro comercial.
Para o Brasil, portanto, a melhor posição internacional pode depender precisamente da existência de vários interessados competindo por comércio, investimento e acesso a seus recursos.
Quanto maior o número de alternativas, maior tende a ser a capacidade de negociação brasileira.
A força também pode dificultar o acordo
Há outro problema na utilização pública da ameaça.
Ela pode tornar uma concessão mais difícil justamente para quem está sendo pressionado.
Se um governo latino-americano assina determinado acordo de mineração depois de uma negociação normal, pode apresentá-lo como decisão econômica.
Se assina o mesmo acordo depois de ouvir ameaças militares, o significado político muda.
O conteúdo do contrato pode ser idêntico.
A percepção pública dificilmente será.
O governante pode passar a precisar de condições econômicas ainda melhores para demonstrar à sua própria sociedade que não simplesmente cedeu. Ou pode concluir que é politicamente preferível resistir, mesmo pagando algum preço econômico.
A coerção, portanto, contém uma contradição. Ela aumenta o custo de dizer “não”, mas também pode aumentar o custo político de dizer “sim”.
O direito internacional entra nessa equação
O que torna a situação especialmente delicada é que não estamos discutindo apenas boas ou más técnicas de negociação.
Existe uma ordem jurídica construída após a Segunda Guerra Mundial justamente para limitar o direito dos Estados mais poderosos de utilizar a força contra os mais fracos.
Essa ordem nunca funcionou perfeitamente.
Estados Unidos, Rússia e outras potências já foram acusados em diferentes momentos de violar regras internacionais.
A existência de violações anteriores, contudo, não transforma a norma em inexistente.
Na verdade, por décadas, mesmo grandes potências procuraram apresentar suas ações militares dentro de alguma justificativa jurídica: legítima defesa, autorização do Conselho de Segurança, consentimento do governo local ou alguma interpretação extensiva dessas categorias.
O que merece atenção agora é o risco de mudança dessa linguagem.
Se a argumentação deixar de ser “posso agir porque determinada norma autoriza” e passar a ser simplesmente “posso agir porque meus interesses nacionais exigem”, o sistema muda profundamente.
A primeira formulação, ainda que possa ser contestada, reconhece que existe uma regra comum. Já a segunda aproxima as relações internacionais de uma lógica baseada principalmente na correlação de forças.
Duas falas na mesma tribuna
Por isso foi tão simbólico assistir aos discursos de Lula e Trump com poucas horas de diferença.
Lula falou contra interferências externas e contra tentações hegemônicas.
Trump falou em reafirmar o poder americano no Hemisfério Ocidental e apresentou a Venezuela como prova da disposição dos Estados Unidos de agir.
Não significa que cada posição esteja isenta de contradições.
O Brasil também mantém relações com governos acusados de violações de direitos humanos e precisa conciliar princípios diplomáticos com seus próprios interesses econômicos e políticos.
Da mesma forma, os Estados Unidos possuem preocupações reais com narcotráfico, segurança, presença chinesa e cadeias estratégicas que não podem ser simplesmente descartadas.
A diferença relevante está nos instrumentos escolhidos para enfrentar esses problemas.
É aí que as duas falas começam a representar visões diferentes sobre o funcionamento das relações internacionais.
E a eleição de outubro?
Tudo isso aconteceu faltando 11 dias para os brasileiros irem às urnas.
Seria precipitado afirmar que os acontecimentos de Nova York beneficiarão ou prejudicarão eleitoralmente Lula.
As pesquisas divulgadas até agora foram realizadas antes ou durante esses acontecimentos e, portanto, não conseguem medir sua eventual repercussão.
Esse cuidado é necessário principalmente numa eleição apertada.
No entanto, também seria equivocado imaginar que a política externa esteja desconectada da eleição.
O eleitor brasileiro não escolherá apenas quem administrará programas sociais, inflação, segurança pública, saúde ou infraestrutura.
O próximo presidente também terá de definir como o Brasil se posicionará num mundo em que a competição entre Estados Unidos e China tende a aumentar, recursos naturais ganham importância estratégica e antigas discussões sobre zonas de influência voltam a aparecer.
Terá de lidar com Washington.
Terá de negociar com Pequim.
Terá de proteger os interesses econômicos brasileiros sem transformar o país em satélite de nenhuma potência.
Terá ainda de decidir até que ponto o Brasil continuará apostando no multilateralismo e no direito internacional como instrumentos de proteção de sua própria autonomia.
Para uma potência média como o Brasil, essa última questão não é abstrata.
Num sistema baseado predominantemente na força, quem possui menos força perde poder.
Num sistema em que determinadas regras continuam sendo reconhecidas por todos, países intermediários ganham instrumentos adicionais para defender seus interesses.
Nova York talvez tenha mostrado mais do que uma campanha
É possível que, daqui a algumas semanas, esses dois dias sejam lembrados principalmente pelo contexto eleitoral brasileiro.
Pode ser também que seu significado seja maior.
Em 48 horas, Nova York reuniu uma eleição brasileira disputada, a tentativa americana de reafirmar sua influência hemisférica, o precedente venezuelano, a competição mundial por recursos estratégicos, o avanço da disputa entre Estados Unidos e China e uma Organização das Nações Unidas que volta a discutir sua própria capacidade de fazer com que as regras internacionais sejam respeitadas.
António Guterres já havia advertido, depois da intervenção na Venezuela, que permitir que as normas internacionais sejam relativizadas estabelece precedentes perigosos. Em janeiro, afirmou perante a Assembleia que a Carta das Nações Unidas não é um cardápio no qual cada governo escolhe apenas as regras que pretende cumprir.
Essa talvez seja uma das questões centrais deste momento histórico.
O mundo não está discutindo apenas quem terá mais petróleo, mais terras raras, mais tecnologia ou mais poder militar. Está discutindo também quais limites continuarão existindo para quem tiver tudo isso.
E foi justamente nesse cenário que, a 11 dias da eleição brasileira, dois presidentes subiram à mesma tribuna em Nova York e apresentaram respostas muito diferentes.
As urnas brasileiras não decidirão o futuro da ordem internacional, mas decidirão qual governo representará o Brasil enquanto essa ordem estiver sendo disputada.

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