A divulgação, no final de março de 2026, de novos dados de aprovação do presidente Donald Trump, indicando o patamar de 36% segundo levantamento Reuters/Ipsos, não representa apenas um indicador conjuntural de popularidade. Trata-se, antes, de um sinal mais profundo de erosão política em curso — cuja leitura exige ser feita à luz da história comparada da presidência norte-americana e do contexto geopolítico contemporâneo.
A esse cenário soma-se um elemento adicional de instabilidade: a recente declaração de que “Cuba é a próxima”, proferida em discurso público, em meio à continuidade das operações militares envolvendo os Estados Unidos e o Irã. A conjugação desses fatores — desgaste interno e retórica de expansão do conflito — coloca em evidência um dilema clássico de governos sob pressão: a tentação de deslocar o eixo do debate político para o plano externo.
1. Um padrão atípico de baixa aprovação presidencial
A literatura política e os dados históricos indicam que presidentes norte-americanos, sobretudo no início ou na primeira metade de seus mandatos, tendem a operar com níveis de aprovação significativamente superiores.
Levantamentos de instituições como o Gallup demonstram que, desde a década de 1950, a média de aprovação presidencial nos primeiros meses de governo situa-se em torno de 55% a 60%, com casos emblemáticos como John F. Kennedy e Dwight D. Eisenhower superando amplamente esses patamares.
Mesmo em cenários mais polarizados, como os vivenciados por George W. Bush e Barack Obama, os níveis iniciais de apoio foram consideravelmente superiores aos atuais.
Nesse contexto, o dado de 36% não apenas representa uma queda — mas evidencia um padrão estruturalmente inferior de legitimidade política, já presente desde o início do mandato e agravado ao longo do tempo.
2. A quebra do paradigma do “rally around the flag”
Historicamente, conflitos internacionais têm funcionado, em determinadas circunstâncias, como catalisadores de coesão interna. O fenômeno conhecido como rally around the flag descreve o aumento temporário da popularidade presidencial diante de ameaças externas.
Esse padrão foi observado, por exemplo, após os atentados de 11 de setembro de 2001, quando a aprovação de George W. Bush atingiu níveis excepcionalmente elevados.
No cenário atual, contudo, verifica-se movimento inverso.
A atuação militar no contexto do conflito com o Irã não produziu incremento de apoio doméstico. Ao contrário, está associada ao aumento do custo de combustíveis, à deterioração da percepção econômica, à ampliação da sensação de insegurança à rejeição majoritária às ações militares.
A guerra, portanto, deixa de ser fator de coesão e passa a atuar como vetor de desgaste político interno — fenômeno relativamente raro na experiência presidencial norte-americana.
3. Economia, energia e legitimidade: o núcleo do problema
A interseção entre política externa e economia revela-se central para compreender a atual erosão de apoio.
O encadeamento é claro:
- escalada militar no Oriente Médio;
- impacto nos preços internacionais de energia;
- aumento do custo de vida;
- deterioração da avaliação presidencial.
Nesse sentido, o eleitorado não responde diretamente à estratégia geopolítica, mas aos seus efeitos concretos no cotidiano. A perda de apoio na economia — tradicionalmente o principal pilar de sustentação presidencial — tende a produzir efeitos mais duradouros e difíceis de reverter.
4. A retórica sobre Cuba: entre sinalização estratégica e deslocamento político
É nesse contexto que se insere a declaração de que “Cuba é a próxima”.
Do ponto de vista estritamente factual, não há, até o momento, indicação de planejamento operacional concreto que sustente a leitura de uma ação militar iminente contra a ilha. A fala deve ser compreendida, ao menos por ora, como retórica política de alta intensidade.
Contudo, isso não a torna irrelevante.
Ao contrário, a escolha de Cuba como novo foco discursivo revela uma possível tentativa de reorientar o debate público para um eixo geopolítico mais familiar ao eleitorado doméstico, mobilizar bases políticas específicas, especialmente no contexto da política interna da Flórida e diluir o impacto político negativo associado ao conflito com o Irã.
Trata-se, portanto, de uma estratégia de reposicionamento narrativo, ainda que não necessariamente acompanhada, neste momento, de decisões operacionais.
5. Limites institucionais e riscos de escalada
A retórica presidencial, por si só, não produz efeitos jurídicos imediatos no sistema constitucional norte-americano. No entanto, pode desencadear reações institucionais relevantes.
O Congresso dos Estados Unidos, à luz da chamada War Powers Resolution, mantém prerrogativas de controle sobre o uso da força militar. Ainda que, recentemente, tenha rejeitado tentativas de restrição às ações no Irã, o aumento de tensões pode reativar mecanismos de contenção política e jurídica.
Além disso, a abertura simultânea — ainda que apenas retórica — de um novo front geopolítico no hemisfério ocidental tende a ampliar o custo diplomático internacional, tensionar relações regionais e reforçar a percepção de imprevisibilidade estratégica dos Estados Unidos.
6. Conclusão: um cenário de erosão sistêmica
A combinação entre baixa aprovação estrutural, guerra impopular e ampliação do discurso de confrontação internacional configura um cenário de erosão sistêmica da legitimidade presidencial.
Diferentemente de crises pontuais, esse tipo de desgaste não decorre de um único fator, mas da convergência de múltiplas dimensões — econômica, política e geopolítica.
A eventual utilização da política externa como instrumento de recomposição interna, embora recorrente na história, revela-se, neste caso, de eficácia incerta e potencialmente contraproducente.
Se a experiência histórica ensina algo, é que governos com baixo capital político enfrentam maiores riscos ao expandir conflitos externos — especialmente quando tais conflitos produzem efeitos econômicos adversos e não encontram respaldo majoritário na opinião pública.
Nesse contexto, o desafio não é apenas estratégico, mas estrutural: trata-se de saber se é possível reverter um processo de desgaste que, ao que tudo indica, já ultrapassou o plano conjuntural e passou a definir o próprio horizonte de governabilidade.
📷: Jonathan Ernst/REUTERS

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