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sábado, 14 de março de 2026

A conta que chega depois: o conflito tarifário da água no Rio e as advertências ignoradas da privatização da Cedae



Nos últimos dias, uma decisão judicial reacendeu um debate que parecia ter sido encerrado quando o Estado do Rio de Janeiro leiloou a concessão do saneamento em 2021. A controvérsia envolve a concessionária Águas do Rio, a estatal Cedae e a interpretação do modelo econômico que sustenta a concessão.

A decisão da desembargadora Maria Cristina de Brito Lima, da 9ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, determinou a suspensão de um desconto de 24,13% que vinha sendo aplicado sobre o preço da água tratada vendida pela Cedae às concessionárias.

O tema, aparentemente técnico, pode ter consequências muito concretas: milhões de consumidores da Região Metropolitana podem sentir reflexos na conta de água.

O episódio revela algo que raramente aparece nas manchetes: o problema não é apenas tarifário. Trata-se de um conflito estrutural do próprio modelo de concessão do saneamento fluminense, o qual já havia sido alvo de diversas críticas.

E é justamente aqui que vale recordar algumas reflexões feitas anos atrás.


O alerta de 2020

Em dezembro de 2020, antes do leilão da Cedae, publiquei um artigo intitulado Privatizar a Cedae não vai resolver.

O argumento central era simples: o saneamento é um problema estrutural e institucional, e não apenas de gestão empresarial.

Naquele texto, destaquei três pontos principais:


  • privatizar a empresa não eliminaria automaticamente os problemas históricos da rede;
  • o modelo poderia gerar pressão tarifária ao longo do tempo;
  • conflitos regulatórios e pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro tenderiam a surgir.


Passados alguns anos, o debate recente mostra que essas questões não eram meras especulações teóricas.


O modelo híbrido que poucos explicam

Uma das peculiaridades da privatização da Cedae é que ela não foi completa.

O sistema adotado no Rio criou um arranjo híbrido:


  • a Cedae continua produzindo água tratada;
  • as concessionárias privadas compram essa água e fazem a distribuição.


Esse tipo de estrutura é conhecido como modelo de separação entre produção e distribuição.

Em tese, ele poderia aumentar a eficiência. Na prática, porém, cria uma relação permanente de dependência econômica entre empresas.

A decisão judicial que agora discute o desconto de 24,13% incide exatamente sobre esse ponto: o preço da água vendida pela Cedae às concessionárias.

Ou seja, estamos diante de uma disputa sobre o coração econômico da concessão.


O peso da outorga bilionária

Outro elemento raramente discutido no debate público é o valor pago no leilão.

A concessão arrecadou mais de R$ 22 bilhões em outorgas para o Estado e os municípios.

Contudo, esse dinheiro não foi investimento direto no sistema de saneamento. Foi, essencialmente, o pagamento pelo direito de explorar o serviço por décadas.

Em qualquer concessão de infraestrutura existe uma regra econômica básica: o concessionário precisa recuperar, ao longo do contrato, aquilo que pagou para obter a concessão.

Isso ocorre por meio de:


  • tarifas;
  • eficiência operacional;
  • financiamento de longo prazo.


Quanto maior o valor da outorga, maior tende a ser a pressão econômica sobre o sistema tarifário.


O Marco Legal do Saneamento

Toda essa transformação institucional ocorreu após a aprovação da Lei nº 14.026/2020, conhecida como Marco Legal do Saneamento.

O marco estabeleceu metas ambiciosas:


  • 99% da população com acesso à água potável;
  • 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.


Essas metas exigem investimentos massivos.

No caso do Rio de Janeiro, os contratos de concessão estimam mais de R$ 27 bilhões em investimentos ao longo de três décadas.

Isso significa que o sucesso ou fracasso do modelo só poderá ser avaliado plenamente no longo prazo.


Onde estamos hoje

Antes da concessão, havia um quadro preocupante:


  • cerca de 84% da população tinha acesso à água tratada;
  • apenas 55% tinha coleta de esgoto;
  • e menos de 50% do esgoto era tratado.


O desafio estrutural permanece enorme.

A privatização pode aumentar a capacidade de investimento, mas não resolve automaticamente déficits históricos de infraestrutura.


O conflito atual e o equilíbrio econômico-financeiro

A disputa sobre o desconto de 24,13% é um exemplo típico de conflito sobre equilíbrio econômico-financeiro do contrato.

Esse princípio é central nas concessões públicas.

Quando os custos reais se afastam das premissas utilizadas no edital, as empresas podem pedir recomposição.

Isso pode ocorrer por meio de:


  • revisão tarifária;
  • renegociação contratual;
  • arbitragem;
  • judicialização.


O problema é que, quando essas disputas chegam ao Judiciário, o debate técnico tende a se tornar mais lento e imprevisível.


O papel da agência reguladora

Nesse contexto, ganha relevância a atuação da Agenersa.

A função da agência é justamente evitar que conflitos regulatórios se transformem automaticamente em disputas judiciais.

Entre suas atribuições estão:


  • definir metodologias tarifárias;
  • fiscalizar contratos;
  • avaliar pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro;
  • proteger o interesse dos consumidores.


Uma regulação forte é essencial para que concessões de longo prazo funcionem.

Sem isso, o sistema tende a se deslocar para o Judiciário — o que raramente é o ambiente ideal para resolver disputas altamente técnicas.


Arbitragem: uma alternativa pouco debatida

Outra ferramenta prevista em muitos contratos de concessão é a arbitragem.

A arbitragem permite que conflitos técnicos sejam resolvidos por especialistas em direito regulatório e infraestrutura, com maior rapidez e previsibilidade.

No Brasil, esse mecanismo tem sido cada vez mais utilizado em setores como energia, rodovias e portos.

No saneamento, contudo, seu uso ainda é relativamente limitado.

Quando disputas complexas acabam diretamente no Judiciário, o resultado costuma ser maior insegurança regulatória.


O impacto social

Esse debate não é abstrato.

Ele afeta regiões onde vivem milhões de pessoas — muitas delas em áreas socialmente vulneráveis da Região Metropolitana e da Baixada Fluminense.

Quando surgem disputas tarifárias ou reequilíbrios contratuais, o impacto final tende a recair justamente sobre o consumidor.

Por isso, o debate sobre saneamento não pode ser reduzido a um confronto ideológico entre “estatização” e “privatização”.

Trata-se, acima de tudo, de uma questão de política pública, regulação e justiça social.


O que ainda está em aberto

Seria precipitado afirmar que a concessão fracassou.

Os contratos preveem metas ambiciosas de universalização do saneamento até 2033 e investimentos bilionários.

Esses resultados ainda dependerão do tempo, da execução das obras e da qualidade da regulação.

Por outro lado, já é possível afirmar que a promessa de uma solução simples não se confirmou.

O saneamento continua sendo um campo de disputas institucionais complexas.


A lição

O episódio recente deixa uma lição importante.

Privatizações ou concessões não são varinhas mágicas, como frequentemente se promete.

São arranjos institucionais complexos, que exigem planejamento rigoroso, transparência e regulação forte.

Quando esses elementos falham, os conflitos deixam de ser resolvidos no âmbito da política pública e acabam migrando para os tribunais — e, no final das contas, para a conta do consumidor.

Talvez a pergunta mais honesta a ser feita hoje seja esta: o modelo adotado pelo governo Cláudio Castro na privatização da Cedae foi realmente o mais adequado para garantir água acessível, serviço eficiente e segurança institucional para as próximas décadas?

Essa é uma discussão que o Rio de Janeiro ainda precisará enfrentar com maturidade.

A dimensão do conflito não é pequena. A concessionária Águas do Rio atende cerca de 10 milhões de consumidores em 124 bairros da capital e municípios da Baixada Fluminense.

Ou seja, não se trata apenas de um debate técnico ou jurídico.

Trata-se de uma política pública que impacta diretamente a vida cotidiana de milhões de pessoas.

Porque, no fim das contas, quando falamos de saneamento, não estamos falando apenas de contratos.

Estamos falando de água — e da dignidade de milhões de pessoas.

O saneamento é uma política pública essencial e suas escolhas institucionais precisam ser debatidas com transparência.

Se este tema também lhe parece importante, compartilhe esta reflexão para que mais pessoas compreendam o que está em jogo.

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