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domingo, 29 de março de 2026

Antes das Fronteiras se Fecharem


Líbano antes da guerra civil


Era uma tarde tranquila e ensolarada de domingo num bairro de classe média do Rio de Janeiro em 2026. O ventilador girava preguiçoso na sala, enquanto o cheiro de café recém-passado preenchia a casa. No sofá, de mãos dadas como ainda faziam depois de meio século, estavam Helena e Roberto — já com os cabelos brancos, mas com os olhos ainda vivos de quem guardava um mundo inteiro dentro de si.

Os netos, espalhados pelo chão com celulares e tablets, mal levantaram a cabeça quando Roberto começou:

— Vocês sabiam que a gente já atravessou metade do mundo de ônibus e carona?

Uma das netas riu, sem acreditar: — De ônibus? Tipo… internacional?

Helena sorriu, aquele sorriso que vinha sempre antes de uma história boa.

— Internacional, intercontinental… e às vezes até meio improvisado demais.

Roberto ajeitou os óculos. — Era 1974. A gente tinha acabado de casar. Não tinha dinheiro, mas tinha coragem… e uma vontade enorme de ver o mundo.

— E não tinha Google Maps — completou Helena. — Nem celular. Nem nada.

Agora, sim, todos os netos estavam olhando.


🌍 A partida: um mundo aberto


Registro de um casal na "Rota Hippie" nos anos 70


— A gente começou pela Europa — disse Roberto —, mas o que mudou mesmo foi quando atravessamos pro norte da África.

— Marrocos… — Helena fechou os olhos por um instante. — Aquilo parecia outro planeta. As cores, os mercados, o cheiro das especiarias…

— E era seguro — completou ele. — A gente andava de noite, pegava hospedagem simples… ninguém mexia com a gente.

— Hoje vocês não imaginam — disse ela —, mas dava pra cruzar países inteiros por terra sem esse medo constante que existe hoje.


🕌 Entre mercados, desertos e cidades vivas


Egito


Eles contaram de cidades cheias de vida.

— No Egito, o Cairo já era caótico — disse Roberto —, mas fascinante. As pirâmides não eram cercadas como hoje. A gente chegava perto mesmo.

— E no Líbano… — Helena fez uma pausa, olhando para os netos com mais cuidado. — Antes da guerra, Beirute era linda. Moderna, cheia de vida. Parecia um pedaço da Europa no meio do Oriente Médio.

— A gente dançou lá — disse Roberto, rindo. — Imagina isso hoje…


🧭 Um mundo que ainda não tinha se quebrado


Síria 


— A Síria era tranquila — continuou Helena. — Damasco parecia parada no tempo. E Aleppo… aquele mercado… parecia infinito.

— Não tinha essa imagem de guerra que vocês têm hoje — completou ele. — Era um lugar vivo, organizado, seguro.

— Israel foi diferente — disse ela. — Já tinha tensão no ar. Soldados, checkpoints… mas também uma energia muito forte. Jerusalém mexe com a gente.


🌆 O choque do Irã e a surpresa do Afeganistão


Afeganistão nos anos 70


— Agora vocês não vão acreditar nisso — disse Roberto —, mas o Irã era moderno.

Os netos franziram a testa.

— Moderno como? — perguntou um deles.

— Mulheres sem véu, festas, universidades cheias — respondeu Helena. — Parecia outro mundo comparado ao que vocês veem hoje.

— E o Afeganistão… — ele balançou a cabeça — era simples, mas tranquilo. Cabul tinha cafés, estudantes… gente vivendo normalmente.

Silêncio.


🧠 O que eles só entenderam depois


Hafez al-Assad, presidente sírio, recebendo Nixon, em 1974


— Na época — disse Helena — a gente achava que aquele mundo sempre foi assim e sempre seria.

— Mas não era — completou Roberto. — Era uma estabilidade… meio frágil.

— Muitos desses países eram controlados por governos fortes. Mantinham a ordem, mas não deixavam muita liberdade.

— E quando isso quebrou… — ela suspirou — tudo mudou muito rápido.


⚖️ O contraste com 2026


Síria atual/AFP


Os netos agora ouviam em silêncio absoluto.

— Hoje — disse Roberto — vocês veem muitos desses lugares nas notícias por causa de guerra, crise, conflito.

— E não é mentira — disse Helena —, mas também não é a história inteira.

— A gente viu um outro momento — continuou ele — em que tudo parecia possível.

— A gente atravessou fronteiras que hoje seriam impensáveis — disse ela.

— Sem medo.


💬 A lição final



Uma das netas perguntou, baixinho:

— Vocês fariam tudo de novo?

Eles se olharam.

— Sem pensar duas vezes — respondeu Roberto.

Helena apertou a mão dele.

— Porque viajar não é só ver lugares… é ver momentos do mundo que não voltam mais.

E então ela completou, com a voz suave:

— O mundo que a gente conheceu naquela viagem… já não existe. Mas a lembrança dele… ninguém tira.

O ventilador continuava girando.

Mas agora, naquela sala, parecia que o tempo também tinha dado uma volta completa.

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